quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Daquele texto de carmina burana

Eu sei que todo mundo que lê meu blog também no mínimo faz uns passeios pelo Peçanha, mas mesmo assim achei que era uma boa idéia publicar aqui mesmo a seqüência de ilustrações que ele fez inspirando-se num texto meu; sabe, boa educação. Ele está publicando essa série há um bom tempo, e inclusive no começo ele insistiu bastante para que eu fosse publicando os desenhos no meu blog, não sei precisar exatamente por quê, mas eu fui não fazendo isso em parte por preguiça, em parte por distração, em parte porque sendo ou não autora do texto-inspiração no fundo eu tenho tanto a dizer sobre os desenho quanto qualquer pessoa com poucas opiniões sobre objetos de arte. Não é que eu não tenha comentado, eu gostei dessa parte, achei essa outra meio estranha, mas como o Márcio disse a ilustração é um diálogo e o discurso dele, perto ou longe das minhas metáforas, ainda é uma coisa que não me sabe naturalmente. Eu percebo que as imagens dele não estão extamente tentando representar o que minhas palavras dizem, e sim fazendo um comentário, ou explorando uma sensação ou um pensamento que surgiram nele quando ele leu essas palavras; é difícil ler algo que faz referência a uma imagem que você conhece bem, mas através de lentes que não são simples nem tão conhecidas assim. Também tem o fato de que é muito difćil compreender elementos isolados do conjunto. Com o passar dos quadros fui começando a criar uma vaga compreensão de como é uma linha, uma mancha.



Mas eu ainda não entendo, por exemplo, o que é essa capa?! Quer dizer, é claro que as cores estão certas, mas o que significa essa tipografia, que não tem nada a ver com nada? Essa coisa microondulante, desestruturada, que me faz pensar em amebas dançando? Não consigo entender o que levou o Peçanha a fazer essa entrada, depois de todas as suas mulheres meio deusas, etc.

Do som que sai dos teus lábios
(Carmina Burana, Carl Orff)


Então eu abro os olhos e meus olhos se enchem de música. Aí está você: nesse som, nesse verde que enche meus olhos quando eu vejo a paz que me invade quando eu ouço esta melodia, estas vozes. Neste momento, eu te amo. Neste momento eu sou o que eu quero, um cavaleiro voando sobre os campos, nada me pára, nada me contém, há coisas que eu salto e há coisas sob as quais me abaixo, mas nada se interpõe à minha vista do céu, porque neste momento eu sou livre, e neste momento eu alcanço o que você quis me dar. Eu alço vôo e o mundo é realmente tão grande!, como você disse... Uma guerra uma poesia se desenrola debaixo de mim. E de repente há silêncio. Acabou uma música.
Você concordou que dizer eu-te-amo era muito complicado e eu tive que me explicar: o que estou dizendo é: (eu te amo é:)


Quando eu vi esse desenho, a princípio eu fiquei bestificada com a compreensão súbita de que todas as minhas imagens extremamente orgânicas e naturais, extraídas de lembranças de praias, montanhas, histórias de cavaleiros e noites íntimas em lugares selvagens iam ser comentadas por texturas geométricas que não remetem ao toque, formas planas sem efeitos de luz, sem o claro-escuro das emoções sublimes de leveza e liberdade, e corpos de porcelana, sem a brutalidade pitoresca das lembranças que criaram tudo aquilo. E no entanto eu vejo como essas coisas estão apenas na minha mente, e como a ilustração de fato se relaciona com o texto.
Esse parágrafo na verdade era pra falar de liberdade, aquela ânsia de correr pelo mundo que nos torna incansáveis. A liberdade é o melhor presente que alguém pode dar, seja na forma de uma viagem, de um pensamento ou de uma música. Eu estava falando sobre a fúria de chegar a todos os lugares e viver todas as emoções, sobre não ter limites e ver todas as coisas do mundo (por isso é pitoresco, e complexo). Por isso também, eu tive dificuldade em entender o desenhom que me parecia tão leve, talvez até pacífico, e estático. No entento, ainda estamos falando da mesma coisa: a mulher flutua sobre o mundo e o pega nas mãos, completa e livre. São só visões tão completamente diferentes.
É que você chegou a mim
E num instante você viveu em mim
E sem perceber você entendeu uma parte de mim
Você estendeu a mim a sua chama
Você alegrou meu coração e mudou minha vida
E agora...
E agora eu te dou um passe
Para que entre e saia livremente dessa terra
Um passe-livre por meu coração.


E esta por outro lado, quando eu vi fiquei completamente encantada. Ela tem tudo o que faltava na outra (fora cores) - é detalhista, complexa, orgânica, intimista. Essa é a única que me dá a sensação de estar confessando o poema, de estar falando conosco. Ainda me estranha a delicadeza dos traços, das formas, porque eu leio meu texto sentindo todas as vísceras e é tão esquisito não ver nada disso, mas eu vejo muitas coisas que estão lá só pra mim, e eu sinto que este desenho é Amor, incontestavelmente. Ele grita amor. É curioso porque essa parte do texto não falava exatamente de amor a princípio, ele falava de como é desnecessário entender o amor como amor, mas lendo agora é difícil evitar sentir isso que o desenho transborda, essa majestade meio fantástica de mulher livre e amorosa. Acho que parte da minha surpresa é que eu escrevi o texto de uma perspectiva intimamente infantil.
E agora é esta a paisagem dentro de mim: há tapetes vermelhos dentro de um castelo, uma fortaleza, que assoma no topo de uma encosta, eu eu sou o pássaro que circunda a torre mais alta, e eu sou o homem que entra com passos pesados na sala do trono. Tudo é um sonho e tudo se desfaz. A música muda e as faces dos homens mudam. Tudo é energia, um tambor que bate regendo o coração dos homens. E eu estou aqui, eu sou as paredes e os cascos dos navios, eu sou o couro dos tambores, eu estou aqui tentando sentir e entender, procurando a resposta, procurando através dessa música, procurando a lembrança do som que saiu dos teus lábios. Eu procuro (e eu sei que é em vão) o som da tua voz através das trombetas, o som da tua voz cantando pra mim, a lembrança de você olhando nos meus olhos. Tudo é tão suave, e tão pesado, e entretanto de repente eu sou uma pomba, eu vôo sem destino, meus olhos são lágrimas, minha boca é um gosto passado, eu sou um anjo perdido procurando a resposta, procurando o sentido do som que saiu dos teus lábios.

Eu preciso fazer um comentário antes do desenho (não que faça diferença, porque todos vocês já viram). Para mim, as imagens são importantes. As imagens dão contexto às idéias, cercam-nas de implicações, motivos e sabores. Esta era a parte que falava da majestade, dos sentimentos estruturados, de olhar nos olhos, de ficar frente a frente, de lugar, de presença, e principalmente de busca, de aflição em meio ao caos e à incompreensão.


Eu adoro essas ondas que remetem à xilogravura japonesa, e as colunas. Me parece que o Márcio povoou um cenário que poderia ser o mesmo que o meu com sentimentos praticamente opostos aos meus. Eu acho que esse desenho combina com o começo do próximo parágrafo,
Quem eu sou? Você me pergunta e eu sou a sua pergunta. Mas agora não importa. Quando sair de mim, deixe aberta a porta -- há muito lá fora que eu quero convidar a entrar; há muito no mundo que eu quero habitar, mas que também quero que me habite.

que é mais confiante e tem mais pés no chão. Muito me intriga que nos parágrafos de desespero as mulheres ainda estejam de pé, dominando (sempre tenho a sensação de que a onda é vassala dessa mulher), seduzindo, convidando. Ela parece tão segura de si, não parece estar desesperada por respostas. E há tantas formas de interpretar isso (a começar pela possibilidade dela não estar fazendo o papel do eu-lírico), mas a que mais me interessa é que - bom, talvez as pessoas em geral sejam assim magnas por fora.
Eu devo ser a terra e o viajante (eu devo ser a estrada e o violeiro) e eu devo ser a fonte e o sedento, e eu quero ser bem boi como berrante. Me guia e eu te guio! Eu sou o céu e a estrela. Eu não ouço as palavras desta música, mas pra mim é como o céu cantando, eu ouço a voz dos astros e eu flutuo entre eles. E eu ouço a voz da vala das estrelas. E eu lembro da sua história, e eu tento imaginar a beleza -- como será acenderem-se as estrelas?



Ah, eu gosto desse desenho porque me parece que elas estão criando o mundo, um pouco como aquela velha dos ossos da lenda que canta o lobo. Aliás quando eu disse vala das estrelar eu estava falando de Varda, mas não tive a manha de fazer uma citação mais direta (o que que eu ganho mesmo por citar o Valaquenta?). A propósito os valar também criam o mundo com suas vozes. Mas não sei por que a galinha alada e o polvo, eles têm algum significado especial? Eu só acho muito bonito. É uma coisa de criar a si mesmo também.
Então as estrelas disparam e o mundo vira uma torrente uma avalanche, eu páro no meio da música, olho ao redor, suspiro, respiro fundo e me pergunto: onde estou? Esta é a minha casa, hoje é dia das mães. Mas não significa nada. Minha alma não entende nada de casas e calendários. E eu não entendo nada de música. Eu sou um joguete nas mãos dessa melodia. Finalmente eu lembro da tua voz, a tua voz cantando, a tua voz dizendo declamando com tom grave a thousand kisses deep. Mas eu devo te ouvir, cada canção, cada palavra, e enxergar cada emoção que teu olhar transparece. Eu rio. Porque te leio tão fácil e mesmo assim desconheço. Quem você é? Eu pergunto e eu sou a minha pergunta. Mas só por muito pouco tempo. Num instante eu pisco como uma estrela e eu sou outra coisa, eu sou uma outra vida. Minha alma é uma coisa dispersa, um vento, uma torrente que se divide e volta a se unir. Eu rio, porque eu sou leve agora. Agora eu não posso te ouvir, mas sei o que você fala. Porque através dessa música é você que fala, e é você no meio do mundo de vozes que é o universo. Eu ouço tudo, mas muito pouco eu entendo. E como quero entender! Por isso continuo buscando, eu estou buscando a pergunta, e eu busco todas as coisas através das vozes de todas as bocas.



Ok, eu adoro esse desenho. Eu adoro tudo nele. Eu adoro a expressão pensativa da mulher, eu adoro a cidade, e o fato de que ela não está nem quer estar nela, e sim numa espécie de mundo próprio, num barco, que sempre me remete a flutuar, sonhar, explorar outros mundos e se libertar; eu adoro esse sol que existe nos dois mundos, esse sol de véu que acaba ficando meio personagem, meio mágico também. Aliás eu acho esse sol particularmente simpático. De verdade, eu preciso enquadrar esse desenho e pôr na parede. Eu também acho que ele transmite uma serenidade muito parecida com a do texto. O que me intriga um pouco porque os anteriores foram tão contrastantes.
E como a tua boca me morde, eu enxergo no clarão da dor o grito de todas as coisas. A tua voz nem existe agora, só existe esse terror, esse rosnado. Meu coração dispara e meu sangue urra, no fogo do teu veneno e na explosão dum sors salutis -- e de repente minha alma é fogo, meu mundo é fera, meu sangue é fúria e eu devoro o mundo e nada mais é anjo nada mais é água nada mais é calmaria porque tudo é pura loucura! Eu me levanto contra o frio da noite eu sou o Sol, invicto e irremovível, iluminando e queimando as retinas de todas as coisas eu sou a Luz cuspida de teus lábios eu sou o teu sangue e meu peito cresce num rosnado-desejo que fagocita o mundo e num instante eu sou completamente um tudo demoníaco -- e então minha alma voa.



Eu tenho que dizer: para mim essa é a parte mais importante da Carmina Burana, é o clímax do texto, e é a parte que fala das coisas mais reais que esse texto discute. Acho legal comparar a O Fortuna com esse trecho com o desenho: fortuna, fera, deusa. Não sei se essa ordem é necessária ou se dá para passar direto da fortuna para a deusa. A fortuna na verdade diz que tudo é passageiro e que tudo o que se levanta um dia cai, e a liberdade que cria a fera se levanta além e ao redor disso, ignorando a possibilidade da morte, vivendo intensamente o ápice da vida e da glória e em seguida a liberdade de se desprender de tudo. Não existe melhor ou pior. Da mesma forma não exite melhor ou pior na imagem da deusa, só uma espécie de perenidade momentantânea do poder (porque essa imagem parece prestes a se desfazer, apesar da sua imponência). Acho que tudo é a mesma coisa aqui, o final glorioso da última música, a ascensão da fera, a divindade -- e tudo se desfaz imediatamente, no silêncio, no vôo, na volta ao corpo físico e à realidade mortal e humana.


Do alto do vôo da minha alma eu estou ouvindo palmas, e isso quer dizer que a música acabou. Mas eu me sinto leve, a música me liberta, eu fecho os olhos e a noite me carrega para onde eu quero estar, onde a música é nectar, onde a tua voz existe dentro de mim, no ímpeto de um raio e na candura de uma vela. Eu abro os olhos e você está me olhando, mas já não são olhos de fera. Então eu abro os olhos e estou aqui novamente, e eu estou sozinha.

Eu apoio o rosto nas mãos, e meus olhos são lágrimas, e meu coração ressona e tudo é silêncio através dos pequenos barulhos do dia. Eu caio em mim. Eu olho para o céu, e eu estou buscando a pergunta que eu sei que não existe, e eu queria ser o ar para poder me encher desses sons que saem de todos os lábios


Eu goste deste final. Para mim os finais muito emocionantes são todos assim: passa-se do êxtase à leveza ao vazio. Cai-se da tranqüilidade sonhadora à tranqüilidade vazia. Mas ainda é uma tranqüilidade, embora triste. Ainda é paz. E aqui é a paz de querer algo e saber que é impossível, de perguntar sabendo que não haverá resposta. Essa parte, de volta a si, é a parte mais incorpórea da experiência: quando as palmas já não fazem sentido, nada se sente, porque se desaprendeu a sentir com o corpo, agora tudo é espírito. Já a ilustração me parece ver principalmente a coisa corpórea. Acho que é um momento estranho pra começar a representar literalmente as imagens, agora que a ação e a emoção estão particularmente desconectadas.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Dom.

Acho que eu nunca amei ninguém como eu amo você.

Eu sei que eu sempre penso isso, toda vez que eu me apaixono, mas hoje eu estou me perguntando, será que isso não é verdade toda vez? E eu sei que o amor não deveria ser mais importante que tudo o mais somado, mas você vem e desemaranha todos os meus mêdos e me faz ver mais claramente o quanto eu estou me deixando enganar sem fazer perguntas, e nesse sentido você me faz mais livre, se não mais forte, toda vez. O capítulo da Coragem já acabou, e eu estou começando a compreender a Força. Agora eu preciso encontrar a Sabedoria para enxergar as coisas como elas são.

- Poxa, eu não queria fazer nenhuma referência a Zelda.

Eu quero conseguir sentir o verdadeiro prazer das coisas. Compreender tudo o que foi, tudo o que é, lembrar de cada amor com o brilho próprio que ele tinha. Eu entendo tudo. São só rosas que murcharam, camélias que se despedaçaram, o tempo que passou. Algum dia, isso tudo será um passado distante. Hoje em dia, eu ainda consigo sentir emoções muito fortes
ao ver um desenho
uma foto
uma carta
sua letra, num bilhete
Mas às vezes leio minhas próprias palavras como se fossem de outra pessoa.

Sabe, meu avô morreu esta semana, e eu compreendi, em meio a muito mais dor do que eu esperava, que agora eu finalmente podia lembrar dele como ele era quando ele ainda não estava tão perto da morte. Eu posso lembrar dele rindo, fazendo piadas sem graça, brigando e berrando que não brinca mais, fazendo papel de vô bobo. Eu posso lembrar dele como um velho chato que eu amava e não como um velho deprimente que eu esperava que morresse. Essas lembranças me engolfam e eu começo a me arrepender de não ter ido visitá-lo mais vezes, mas logo me lembro quão terrível era visitá-lo nos últimos meses. Lembro que a pessoa que eu gostaria de ver nem era mais aquela que estava lá.

Da mesma forma ultimamente eu tenho conseguido recuperar a parte dos últimos anos que não foi só dor e frustração e chorar no cantinho e entrar em desespêro. Eu consigo começar a ver as possibilidades, as coisas que aprendi, as portas abertas, o crescimento. Ainda tenho um pouco de mêdo de olhar pra isso, mas quem sabe daqui a pouco eu esteja rindo desse mêdo. Por que, sabe, ainda dói bastante. Mas alguma hora a raiva vai passar. Alguma hora a dor vai acabar. Alguma hora tudo vai se encaixar, e pronto.

Naquela noite eu fui dormir com mêdo.
Naquela noite eu acordei com mêdo.
Mesmo com seus braços me envolvendo
Eu estou apavorada
Mesmo com seu coração batendo perto do meu
Eu acordo no final da noite
em uma das nossas camas
com o seu despertador
e penso em todas as coisas que podiam ter sido diferentes
de forma a não me trazer a onde estou agora.
Você ainda está dormindo
E eu me sinto tão segura aqui
entre os seus livros, seus brinquedos antigos,
e essa janela sem grades que dá prà rua.
Eu acordo no meio da noite
e me pergunto como eu posso ver você dormindo com esse dragão dentro de mim
acordado.
Você se revira na cama e eu sei
que vou enfrentar o mêdo para escapar da dor.
Não há nada de bravo ou de forte nisso
- eu sou só a água que corre pelas depressões do solo -
mas eu tenho mêdo de perder esta cama, estes livros, a paz deste refúgio.
Eu deito do seu lado e tento fechar os olhos
Eu te abraço, meu gato pelado, e me pergunto
Por que é que não podemos permanecer crianças?

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Um pouco de feminismo para chacoalhar a gosma dos ombros

Acho que durante a maior parte da minha vida eu tive uma raiva frustrada de muitas das coisas que tentaram me ensinar. Não, eu não discordei de forma sensata, racional, estruturada, comparando prós e contras, evidências para tese e antítese; eu só detestei a idéia, sofri em silêncio ou me expressando com rosnados a frustração inconformada que aqueles ensinamentos me traziam. Quando a gente é criança, a gente não sabe se defender direito.

Pra mim o exemplo clássico é a tese de que humanos são fundamentalmente diferentes das árvores e dos animais. Sempre me rebelei contra essa idéia, mas toda vez que tentava discordar dela algum adulto me dava uma explicação - tão razoável, e quem discordaria de adultos? - e eu me calava, apenas para sentir a raiva crescendo depois, não sei se contra os adultos ou contra a realidade que era cruel. Passaram-se muitos anos, mas hoje eu consigo argumentar consistentemente e com base em evidências que essa diferença não é tão grande assim. Quem sabe daqui a alguns anos minha rebeldia infantil possa estar apaziguada, todos os seus argumentos ouvidos, sem raiva da realidade.

Sabe, eu tive minha primeira menstruação com nove anos, embora eu tenha tomado hormônios para retardar meu desenvolvimento que adiaram meu amocinhamento para uns onze anos mais ou menos. Com doze eu já tinha um bocado de pêlos e até uns seios pequenos e muito desiguais, e minha mãe arranjou uma mulher que vinha em casa fazer depilação a cera quente nela, em mim e na minha irmã que tinha dezesseis. A primeira vez em que minha mãe me mandou depilar, eu senti um misto de horror e curiosidade. A curiosidade passou bem rápido, até porque eu gostava bastante de ter pêlos nas pernas, mas eu não queria contrariar minha mãe que insistia que uma moça tinha que estar depilada, e o horror foi balanceado com um certo senso de dever filial. Eu era uma criança obendiente, que guardava as revoltas para chorar num canto escondido ou cantar lamentos debaixo do chuveiro. O resultado foi que depilação se tornou a coisa que eu mais odiava, e era especialmente frustrante que minha melhor amiga tivesse pernas adoravelmente felpudas e não fosse obrigada a se submeter àquele sofrimento.

Isso tudo, e eu nem era mulher direito: eu estava muito pouco interessada em namoro, a vida adulta era inimaginável, minhas fantasias todas envolviam selva, bichos e lutas, minhas brincadeiras favoritas eram todas de moleque e era só muito raramente que eu me dispunha a exercitar minha feminilidade, quando as mulheres mais velhas se juntavam pra me vestir e pintar para um bar mistvah ou festa de quinze anos. Passei anos usando quase que só calça comprida e camiseta larga - eu tinha algumas saias, mas achava todas elas horríveis. Durante o colegial eu era tão peluda que durante um alongamento em educação física (num dia em que eu fora obrigada a vestir bermuda) minha amiga chegou a me confundir com um homem. Na verdade, em um mês sem depilar eu ficava tão peluda quanto um garoto, e é claro que eu só agüentava aquela tortura em vésperas de feriados, festas e viagens pra praia.

Tudo isso meio que acabou quando eu descobri creme de barbear para mulheres e de repente minha pele ficava maravilhosa usando isso e uma gilete. O efeito foi tão dramático que eu passei a preferir pernas lisas a felpudas (isso eu devia ter uns 18 ou 19 anos). De lá pra cá, eu fiquei me perguntando por que eu tive que passar por todo aquele inferno, por que eu não podia ter pernas peludas com treze anos, por que eu não descobri antes que cera quente e maquininhas arrancadoras são só violências sem sentido. Sabe?

A minha questão com a pílula foi praticamente posterior a isso tudo, então eu já tinha um mínimo de autoridade pra tomar decisões a respeito do meu corpo. Da primeira vez que eu resolvi tomar pílula, foi sem pensar muito, porque o médico recomendou pra regular meu ciclo (não que eu soubesse porque ele tinha que ser regulado), e eu desisti depois de alguns meses porque eu não conseguia acertar três dias seguidos. O único efeito colateral de que me lembro foi que meus seios ficaram imensos (lembro vagamente de algum namorado achando isso legal). Fiquei algum tempo sem tomar e tentei de novo, e aí eu lembrei todos os dias, e foi horrível: durante exatamente os meses em que tomei, fiquei deprimida, sem ânimo para aventuras e meio incapaz de fazer sexo direito, além de ter mamas tão sensíveis que doía dar um abraço. Parei de tomar e me senti animada, forte e selvagem, como eu já tinha esquecido que eu podia ser. Algum tempo depois eu fui no médico de novo, e apresentei a ele todas as minhas objeções a pílula, mas ele acabou me convencendo a tomar "a mais fraca que tem no mercado" com três argumentos básicos.

Primeiro ele disse que um ciclo que se arrasta pode gerar problemas no ovário a longo prazo. Coisas que dificultariam uma gravidez. Francamente eu não estava tão interessada assim nos meus futuros filhos, mas era a idéia de que minha saúde podia estar se comprometendo sem que eu soubesse.

Além disso ele disse que a pílula ia regular meus hormônios e acabar com as espinhas.

E mais que isso, eu podia sempre ter certeza de que não estava grávida dentro de um mês, e controlar meu ciclo com precisão.

Aí eu voltei a tomar e de novo vieram dores nas mamas e uma depressão bem pior que a anterior. Eu estava já me perguntando o quanto da minha personalidade se perdia quando eu abdicava dos meus hormônios. Eu agüentei três meses disso, tive um mês de pausa, feliz e tranqüilo porém com todas as espinhas doloridas do mundo e acabei voltando, para mais humores desagradáveis. E agora mesmo tomando pílula estou cheia de espinhas, e que significa que meu médico vai me receitar algo mais forte, e, francamente, eu vou dizer não.

Cansei dessa palhaçada, cada vez um efeito diferente, humores horríveis, resultados incertos, fora a aporrinhação de ter que tomar esse troço todo dia.

Sobre o que eu estava falando mesmo?

sábado, 9 de outubro de 2010

Irmão de Caça

Lembro da primeira vez que te vi de pé à beira deste meu mar, de como foi bonito e emocionante. Nunca cheguei a te encontrar, nunca cheguei a falar contigo à beira deste mar. Mas vi que você via; te via às vezes passando ao longe, navegando, domando as velas negras do Sonho, cavalgando vento e ondas. Você cresceu sem mim. Eu estive longe.

Eu estive longe a correr pelas florestas, pelas dunas, pelos espinheiros, eu estive matando monstros e demônios e me cobrindo de sangue. Você esteve conquistando o mundo, longe e perto de mim. Eu passei um tempo longe naquela cidade-fantasma que construí com tamanho carinho e para a qual chamei todos os meus novos amigos, aquele lugar de sonho onde as coisas não se destruíam. Você veio uma vez, olhou para tudo aquilo com curiosidade, depois torceu o nariz, deu de ombro e me chamou para uma aventura no mar, qualquer coisa mais instintiva do que aquela farsa. Eu até fui... mas voltei, saudosa, teu mundo não é mais meu e eu voltei a construir minha cidade, fiquei aqui, sim, sem dúvidas, e feliz até, até o dia em que Ele veio e com um pousar no chão fez tudo virar brasa, fez a cidade arrasada virar pedra, vir ao chão. Aí eu chorei.

Eu chorei e me enterrei junto aos escombros, vazia e fraca, lembrando todas as ruínas que já deixei para trás. Mas o Castelo Abandonado agora é um paraíso de ramos e flores comendo as paredes e derrubando vidraças - tudo se renova - e a À Entrada da Caverna nem existe mais. Eu fiquei aqui, junto a estes escombros, olhando as pedras e as dores e as memórias destruídas, tudo tão caro e tão inútil, tanta dor, e nem sei se um dia você entenderá do que estou falando. Eu olhei para as minhas pedras, machucada, e sequer havia ali a beleza da destruição, a dor da morte, o Sangue. Ele olhou pra mim, imperioso, e eu ao me humilhar bati no fundo da minha ruína e voltei com um jorro de raiva; e pela primeira vez eu lutei contra ele e o expulsei. A cidade estava vazia, já nem parecia cidade, as pedras eventualmente seriam só pedras e eu poderia passar por aqui novamente. Veja, há até uma pequena flor nascendo desta fenda junto aos meus pés!

Então eu saí da cidade, mas você estava tão longe... Eu tinha um mundo de terras a atravessar, e você continuava a navegar, lugares onde eu nunca tinha estado. Tudo pareceu tão diferente agora que a ilusão tinha acabado. Por um tempo eu fechei os olhos e evitei voltar aqui, evitei pensar nestas terras, nesses mares, nas nossas aventuras... Você voltou e tentou me chamar, mas eu tinha tanto a reconstruir, tanto que eu deixara degenerar, e ao mesmo tempo tantas coisas novas que eu precisava criar, erguer, firmar e povoar que eu disse, tantas vezes, não. Suas aventuras eram alguns dos meus sonhos! Mas eu já não sou exatamente aquela pessoa que eu costumava ser, e existem coisas e pessoas às quais eu não posso dar as costas.

Eu queria que tudo se encaixasse, que a gente pudesse ir caçar juntos, mas me parece que por agora nossas caçadas serão em nichos diferentes. Mas não desista, irmão, que ainda voltaremos a correr juntos, que ainda lutaremos na mesma arena. Não me esqueça ainda.

Don't write me off just yet.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Dica do quotidiano - vidro embaçado

Aprendi ontem no cursinho uma técnica bastante simples para impedir o vidro de embaçar: basta passar detergente na superfície e limpar a seco, com pano ou de preferência papel absorvente. O vidro é um composto iônico de sílica, sódio e potássio, que atrai fortemente a água. O detergente se liga a ele por sua ponta polar e cria uma camada apolar, ou seja, hidrofóbica. Estou pensando em experimentar usar isso nos vidros dos carros aqui, embora seja um processo um pouco demorado limpar todo o detergente excedente sem usar água (a água dissolve o detergente o remove completamente do vidro).

Aparentemente, um dos alunos do psor de química usou esse recurso para escrever mensagens secretas no espelho do banheiro, que só apareciam quando o espelho embaçava. Ah, a criatividade =)!

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Aprendi hoje: alto forno

Hoje (ou ontem, sei lá) tive uma aula sobre obtenção de metais puros e o professor contou a história fantástica de como descobriram como funciona o alto-forno. Para quem não lembra, alto-forno é aquele forno gigantesco usado para transformar minério de ferro (óxido de ferro) em ferro metálico. O protótipo desse forno foi inventado na Idade do Ferro, mas hoje em dia eles são bastante complexos. Enfim, um dia um grupo de pesquisa decidiu descobrir o que acontecia de verdade dentro dele, e teve uma idéia brilhante: dissecação.
Eles desligaram o forno ao mesmo tempo em que derramavam sobre ele uma quantidade colossal de nitrogênio líqüido, congelando tudo o que estava dentro dele mais ou menos no lugar em que estava, e depois fatiaram o forno congelado para estudar cada uma das fases separadamente!

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Bots gostam de "Blog"?

Acho muito curioso o fato de um único post neste blog concentrar todo o spam em comentários. Já faz alguns meses que eu recebo, de vez em quando, um comentário anônimo no post Blog, fazendo propaganda de qualquer coisa. E é uma coisa diferente a cada vez. Curiosíssimo! Queria saber como funcionam esses spambots. Dêem uma olhada.

ps.: este é um post num blog que fala de um outro post no blog que se chama Blog e que fala do blog. Quanta meta-linguagem.

A Estória do Herói

O problema são sempre os ouvidos que recebem a história. O problema nunca está na história em si. Por exemplo, Faelyn, quando você ouve o nome dela, imagina uma bela garota, não é, uma garota do campo, comum, mas especial o suficiente para receber a atenção de um dragão. Você ouve a história já sabendo o meio, o final e o começo; você já sabe que a donzela está em perigo, que ela será resgatada, que o jovem e magnífico herói virá para matar o dragão. É sempre assim, você ouve como a criança que espera somente a repetição, você assume uma porção de coisas que não deveria. Esse era o erro de Roder: todas as vezes que ia procurar um dragão, ele queria que houvesse uma luta, uma donzela para resgatar, um tesouro e a volta triunfante para a cidade. E ele queria tanto que fosse assim que até hoje suas histórias são contadas desse jeito, mas Roder se decepcionou, sim, um monte de vezes. É claro que na primeira dessas vezes, com a donzela Faelyn, ele não estava preparado, não conseguia ainda enxergar além do véu da estória para ver a verdade do que estava acontecendo, como não conseguimos ver a corrente brava que corre no fundo de um rio de superfície calma. Então Roder avançou pelos corredores da caverna, vendo sinais do dragão em cada mancha escura no caminho, em cada trio de lanhos alinhados nas paredes, em cada túnel desmoronado, em cada pedaço que equipamento abandonado em túnel ou qualquer coisa que parecesse poder ser sinal de presença humana. O herói vasculhou até os túneis mais profundos, e ali seus olhos afinal viram o que queriam ver.

Oi!

Oi gente

Eu queria pedir desculpas por uma coisa:

Tenho sido pouco sincera com todo mundo. A vida é meio assim, todo mundo entende. Eu tenho muitos amigos nos quais eu confio, mas muito poucos com quem eu converso sobre as coisas que me incomodam. Na maior parte do tempo eu converso com você para manter a amizade viva, porque quero aprender com vocês, mas acho que nunca me exponho de verdade, acho que estou sempre tentando ser algo que na verdade não sou. Ou tenho sido. Tenho deixado toda a minha sinceridade para umas pessoas que me conhecem e entendem muito pouco, além de uns pouquíssimos amigos pra quem eu já me acostumei a contar mesmo o que eu não quero que eles saibam.

E sinto que tenho criado neste blog uma versão back-up de mim mesma, uma eu que é verdadeira, sincera, meio que o que eu quero poder voltar a ser no final do semestre. E quem é a eu que convive com vocês, que não se revela, que sucumbe às convenções sociais dos seus estranhos amigos? Acho que é a eu-lagarto, a eu-zelig que já não tem nada de seu. Eu quero muito ser uma pessoa! Mas vocês vão ler isto e lembrar que de novo eu não falaria isso individualmente pra vocês. Eu tenho mêdo. Tenho mêdo da intimidade. E quem não tem?

Se eu tentar conter minha intimidade no blog, posso conquistá-la na vida real?

Mas agora não consigo conquistar nada, não é?

Acho que o que eu deveria mesmo dizer é: as suas piadas não têm graça, os seus tabus não são nada sagrado. Eu rio porque você acha engraçado, eu fico envergonhada porque é o que você espera que eu faça. Dá pra perceber quando eu estou sendo autêntica: é quando eu fico completamente sem-noção.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Acho que seu maior talento é viver histórias. Poruqe tem estado sumida ultimamente?

Estou tentando provar meu valor, acho, fazendo fuvest e trabalhando. Estou finalmente fazendo algo que eu quero, e que faz sentido pra mim! Isso meio que consome minhas energias. E estou... ah, no campo pessoal, não sei explicar em poucas palavras. Admito que estou sem tempo e sem espaço para realmente te mostrar o que está acontecendo.

Ask me anything

sexta-feira, 10 de setembro de 2010


Adoro gênios malvados...

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Olho

Sempre tão calmo. Por que é sempre tão calmo?

Eu levantei e dei voltas pelo seu quarto, enlouquecida, querendo destruir tudo, querendo fazer você entender. Você não entendeu. Você nunca chegou a realmente entender. Você perguntou o que eu estava fazendo, e eu disse, nada, eu queria era saber o que você não estava fazendo, e por quê.

É sempre tão calmo.

Você se aninha em mim, eu me aninho em você, um ou dois ou três gatos se aninham em nós, entre nós, por cima e ao redor de nós, e nós somos um ninho.

Tomar café na grama.
Subir em árvore.
Tomar sol.
Cozinhar.
Amar.

Tem tanta coisa linda no nosso mundo, mas o que eu queria mesmo era botar fogo em tudo. Botar fogo em tudo! Deixar tudo queimar, fazer tudo arder, a começar por você!

Esses seus olhos sempre tão calmos, eu quero fazê-los sorrir de verdade, eu quero vê-los se arregalando de mêdo, se contraindo de fogo, enlouquecendo. E entretanto eu odeio ouvir dor na sua voz. Mas...

como me enerva ouvir na sua voz essa paz!

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Observação

Tudo mudou tanto em tão pouco tempo... Nossas vidas viraram completamente em uns poucos meses. Tudo é tão diferente, mas de repente eu entendo:

Isto é viver.

Um dia eu olhei ao redor, do fundo da minha miséria e me dei conta de que era isso que eu buscava desde o início, esse descampado, a destruição total de todas as forças que me prendiam. Agora sim. Agora sim eu posso levantar e andar. Agora sim eu posso admitir que tudo o que eu tenho é minha fé e minha capacidade de seguir em frente, de lutar e vencer. E eu faço questão de vencer.

Agora é minha oportunidade verdadeira de me levantar e merecer.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Ficou na cabeça...

Um dia você veio aqui, a gente conversou
Lá pelas tantas você me perguntou uma coisa assim:

— Você não acha que a certeza de que você sempre pode encontrar alguém pra namorar faz você valorizar menos essas pessoas? Se você pode conquistar qualquer pessoa, você não deixa de dar valor para o amor que você já tem?

Não sei se foi isso mesmo, mas fiquei com a sensação de que foi isso.

E é claro que a resposta é não. Se você vivesse numa ilha deserta com só mais uma pessoa, você amaria mais essa pessoa? Você daria mais valor a ela por isso? Talvez. Mas esse valor seria realmente válido? Se você estivesse quase sozinho, as pessoas que estivessem com você mereceriam mais o seu afeto?

Eu acho que não, eu não amaria mais uma pessoa só pela falta de opção. Eu me resignaria, possivelmente. Eu a trataria bem, talvez. Mas quer saber? Eu não ia achar ela melhor por isso. Talvez eu fosse má com ela também, afinal, a gente poderia brigar, passar meses separados, e ainda haveria um jeito de se reencontrar, por falta de opção.

Eu de fato confio menos na atenção de pessoas que acham que não têm, ou parecem não ter, outras opções. Eu me pergunto "será que ela está do meu lado só porque não encontrou quem realmente queria?". Não que eu não goste de ter a atenção de pessoas mesmo nessa situação, mas não acho que seja uma coisa necessariamente boa.

...

Só pra deixar as coisas claras, eu não disse exatamente que eu podia conquistar quem eu quisesse. O que eu disse foi que eu arranjo namorado muito fácil, mas isso é em parte porque eu me apaixono fácil por quem gosta de mim. Por um lado, sim, eu acho que isso contribui para eu não acreditar muito em namoro, porque eu sei que eu poderia estar feliz com outra pessoa, porque eu me conheço. Por outro lado, eu não preciso estar com você. Se você me largar, eu vou ficar triste mas eu vou sobreviver. Mas toda vez que eu te machuco por um motivo ou por outro, eu corro atrás de você pra pedir desculpas, pra te reconquistar (bom, quando eu noto -- eu sou meio tapada, ok). Eu não preciso fazer isso. Eu faço porque eu te amo.

Então, tipo, eu realmente acredito que ter outras possibilidades sempre torna mais valorosa a escolha que você fez, aquela que fecha todas as outras possibilidades. Só é difícil às vezes entender exatamente que escolha é essa.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Pela janela

"Mocinha esperou até o sol se pôr
Que final romântico, morrer de amor
Pensando na janela em tudo o que viveu
Fingindo não ver os erros que cometeu

E aí
Tanto faz
Se o herói não aparecer
E aí
Nada mais...
"

Incrível como o tempo todo eu penso em você. O tempo todo eu quero você, eu quero sentir você, eu quero ouvir você. Tudo o que eu faço eu penso em contar pra você. Tudo o que eu penso eu quero saber o que você acha. Eu preciso de você com um desespêro impotente que me dá nojo! Não é como antes quando eu queria deitar na sua porta como um cão fiel e esperar você sair dos seus deveres, mas é mais intenso, e me parece ainda mais perigoso. Eu não quero precisar disso desse jeito; há momentos em que eu devo ficar sozinha. Mas eu me distraio e me pego pensando de novo, por que eu tenho que estar sozinha, por que eu não posso estar aí com vocês?

Como é difícil! Em cada intervalo eu me pego rolando o celular na palma da mão, resistindo ao impulso de fazer uma ligação, falar qualquer merda, quer conversar, como vão suas aulas, o que você tem feito? Eu saio da aula nem tão triste por que das seis aulas duas foram legais mas bate uma melancolia, eu penso nos meus amigos almoçando juntos, bandejando, eu penso nos que estão trabalhando, nos que estão fazendo mestrado, nos que estão começando avançado, fazendo monografia, começando a trabalhar, tentando acabar a faculdade. Um dia. Eu avanço pelas ruas como pelas horas, tudo tanto faz, e no fundo da minha mente uma pergunta imbecil, eu preciso mesmo disso? é isso o que eu quero? isso vai dar certo? esse plano de vida que eu elaborei, vale a pena?

Acho que este semestre é o meu suicídio. Vou acabar destruindo tudo o que eu fiz até agora, e não sei se sei exatamente pra quê. A questão é se vou conseguir reerguer depois. Eu meio que estava gostando do que estava construindo. Gostando bastante.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Mais um não.

Pensando bem, eu não vou voltar.
Eu não quero voltar. Eu só vejo fogo lá atrás.

Eu quero queimar tudo.

Eu não quero tentar reacender velhas amizades, eu não quero me basear em nada do que já foi. Eu quero cortar minhas raízes, e esquecer o passado.

Pensando bem, eu nunca vou me encontrar. Eu sou um pássaro que já voou, um inverno que passou, uma estrela que morreu, uma peça que saiu de cartaz.

Eu não quero guardar nada do meu passado. Eu quero enterrar cada caderno, cada carta de amor. Eu não quero sequer me lembrar dos sonhos, das risadas. Eu quero cortar o pecíolo e me largar no vento.

Eu quero perder a idade, perder o mêdo de envelhecer, perder o arrependimento, perder o compromisso. Eu quero perder a dor, perder a traição. Eu quero perder a culpa de ter abandonado.

Parece que quando a gente resolve um problema, a gente praticamente esquece que ele existia. Então eu quero esquecer de tudo. Eventualmente, tudo desaparece.

Eu quero me libertar da vida que eu tive até aqui. Esquecer que estou presa a ela, esquecer o dever que tenho para com ela. Eu quero recomeçar.

Acho que quem em sou agora não bate com a visão de mundo que eu tinha antes. Não bate com quem eu era, no que eu acreditava. Eu quero fechar os olhos e parar de tentar entender.

Desenhos de Caieiras





Como o Márcio já disse neste post, nós saímos para passear no domingo em Caieiras e fizemos alguns desenhos. Durante esse passeio, tivemos também uma interessante conversa sobre a arte de desenhar. O Márcio explicou que seus desenhos tinham evoluído muito a partir da percepção de que haviam características da casa que não eram importantes para a imagem geral dela

— Como o número de janelas.
— Você quer dizer, é claro, que não faz diferença se há, por exemplo, sete ou oito janelas numa parede.
— Sim, mas também em números pequenos: a diferença entre duas ou três janelas é muito pequena. E isso mesmo se são de tipos diferentes.

Eu olhei para o morro cheio de casas que ele estava desenhando, e para o desenho dele. De fato, as casas são perfeitamente reconhecíveis mesmo tirando-se características muito notáveis como essa. Mas pra mim, o objetivo de desenhar não é que as coisas sejam reconhecidas. Embora muito me interesse essa característica da imagem que nos permite reconhecê-la mesmo quando a alteramos em muitos aspectos, quase sempre se eu faço um desenho de observação é para entender as características do objeto. O meu desenho não pretende representar o objeto, mas apenas onbservá-lo. Imagino que a brutalidade da diferença entre o meu estilo de desenho e o do Márcio talvez derive dessa diferença crucial entre nossos objetivos.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Principalmente Nãos

Àqueles que ainda me procuram
Eu não sei
Não estou mais aqui
Ou estou e sou um vago viajante que se perde na bruma das trivialidades
Estou me afogando em amor e amar e sentir e viver as coisas mais simples da vida

Comer quando se tem fome
Comer quando se tem fôme

Àquele que me procuram,
Eu não estou mais aqui
Eu sumi, e agora eu voltarei ou não independentemente da sua busca.

Um dia eu fui uma lôba
Eu caçei, eu fui caçada
Eu tive fôme e corri debaixo da lua
Eu vi o mar e sonhei conquistar o mundo
Eu quis caçar e odiei cada segundo de fôme entre quatro paredes
Depois eu passei mal, e aí veio a Grande Fome

Ultimamente eu tenho tido tanta, mas tanta fome.
Dormir quando se tem sono
Comer quando se tem fome

Àqueles que ainda me esperam
Esperem um pouco mais
Àqueles que muito me querem
Não queiram tanto me ter, eu não sou uma coisa de ter-se
Queiram me ver de garras bem afiadas
Queiram-me bem
Àqueles que ainda me amam...

Tenham um pouco de paciência, eu volto um dia.
Eu volto quando eu souber o que fazer do amor.

Dormir quando se tem dono
Comer quando se tem nome

Estou doente, de corpo, de coragem, de coração, de mente, de confiaça
Sinto a doença se espalhando por mim, envenenando todas as minhas atitudes
Um dia eu tive uma diarréia com vômitos e eu estava no banheiro me desmilingüindo e pensei "Então é isso que é morrer uma morte ridícula?"

"Eu me recuso a morrer uma morte ridícula!"

E eu me arrastei até a cama de minha mãe e pedi por uma salvação
Até hoje quando estou muito muito muito mal eu penso comigo mesma

Eu me recuso a morrer uma morte ridícula.
Eu vou dormir, porque eu tenho sono
Eu vou comer, porque eu tenho fome
Mas amanhã eu vou acordar e enfrentar o mundo, apesar da doença.

Correr, quando se tem mêdo
Correr, quando se tem chão

Eu fui uma lôba um dia
E cada dia era perfeito.
O mundo era feito de caças, de pedras, de gigantes

Um dia eu estava na praia e pensei, e se a verdade estiver aqui, nestas tartarugas?

Amor, me leva pra caçar?

Aí eu me enrolei nos lençóis, enfraquecida e derrotada.

Eu tenho fôme.
Eu tenho fôme!
Eu! Eu! Eu!
Ninguém ouviu:
Eu! Eu! Eu!
Ninguém tinha os ouvidos pra escutar.
(Eu!)

E eu adormeci chorando.
(Me abraça. Faz a dor passar.)

Àqueles que me procuram...
Não estou achando, também.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Sem saber

Pra falar a verdade acho que ninguém mais se importa com o que eu escrevo sobre os meus pensamentos íntimos sobre a vida. Mas eu continuo mesmo assim? Ou talvez eu só sinta que ninguém se importa porque eu me sinto mal por não ter mandado aquele sobre desenhos que o Márcio pediu e eu realmente queria escrever, na época. Ainda estou com ele no drafts. Mas, sobre isso, é estranho, eu nunca falo sobre o Márcio mas por muito tempo sempre que eu escrevia eu imaginava ele lendo. Acho que eu escrevia metade pra ele. Sei lá.

E agora a gente vai pra Paíba, há que se ir para Paúba, ver o mar e o vento, jogar conversa fora, mas hoje eu tão não queria viajar, eu não queria fazer porra nenhuma, ultimamente tudo tem parecido tão fora de lugar. Recebi um e-mail chamando pra sair, pensei que droga que hoje eu vou viajar, mas pensei depois, se eu não tivesse que viajar eu não estaria aqui disponível para sair, eu estaria em outro lugar, com outra pessoa, talvez a grande técnica que eu preciso aprender na vida seja essa de estar disponível, quando tudo o que as pessoas ao redor querem é me reservar com antecedência, e eu me sinto tão indisponível porque sempre tem algum compromisso, algum combinado, eu nunca posso realmente parar e pensar, nossa, o que eu quero fazer agora?

Que saco. E quase sempre tudo é um sacrifício mas eu tenho uma escala de prioridades, pena que ela deixa todo mundo que importa desconfortável! E eu vou organizando a vida em grupos, a turma do Santa, a turma do RPG, a turma do Márcio (quem cunhou esse nome? o márcio foi o penúltimo da turma que eu conheci!), a turma da física, a turma do Bairro... e cada vez mais as pessoas se perdem e se desencontram, e eu tenho a sensação forte de que quando o semestre começar e eu não voltar pra Usp eu vou ficar tão louca que eu vou fugir pra, sei lá, timbuktu.

Na verdade esse pensamento me deixa tão apavorada que eu tenho vontade de dar meia volta agora mesmo, fazer a matrícula, dizer foda-se pro vestibular, eu tento transferência ano que vem, tudo pra chegar agosto e eu poder voltar pra casa. Como estou odiando estas férias! E como me irrita a idéia de que eu poderia ter evitado isso tudo se eu fosse um pouco mais responsável!

Que desespêro!

E ao mesmo tempo eu quero ir pra Paúba, eu quero viajar, só me deixa tão insegura essa história de sair de São Paulo, de sair pra longe de quem eu quero mais perto, de quem eu não consigo de forma alguma evitar querer, e ficar mais uma vez sem muita forma de voltar, de controlar meu próprio destino, como me desespera não conseguir pegar a vida nas mãos, dizer não mesmo ao que eu quero só porque eu sei que vai me limitar, é a festa no btco tudo de novo, o mêdo de estar num lugar sem ter como sair, não importa que está divertido, agora eu estou morrendo de mêdo de chegar lá e querer sair. O que estou fazendo? Por que prometi ontem ir np RPG? Por que prometi ir pra Paúba? Eu devia dizer não a isso tudo. Só fazer o que estivesse dentro do meu poder. É claro, talvez isso me levasse a nunca fazer nada legal.

Mas eu faço isso porque eu precisava encontrar a turma do RPG, eu sentia falta deles, e porque eu curto parar pra conversar com essa turma de Paúba. E sexta eu fui pra Itu porque eu quero conhecer mais a turma do Bairro, e um mês atrás eu queria ir na festa da física porque eu quero manter os laços com a galera de lá, e provavelmente eu toparia qualquer programa com a turma do CM porque eles parecem estar sempre escorregando por entre os meus dedos.

Se pá todas as minhas inseguranças se resumem a eu não ter nenhuma renda e estar indo viajar imbecilmente, e eu estar me propondo a passar um semestre sem fazer o que eu mais gosto que é viver na usp. Eu não sei muito o que fazer de mim. Quem sabe um dia eu aprendo.

Por enquanto, eu vou cumprir a promessa e ir pra Paúba, porque é tudo o que eu posso fazer.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Hm

Descobri que minha vida perde completamente a estrutura quando eu fico doente, desanimada e carente. Minha vida faz sentido e tem lógica quando eu consigo ficar de pé, dançar, atravessar a cidade, dar uma festa. Minha vida faz sentido quando eu corro pelada pela noite, quando eu uivo pra lua enquanto viro lôba. Minha vida faz sentido lá fora, na rua, explorando, rindo, caçando. E de vez em quando minha vida faz sentido papeando até tarde na casa de uns amigos.

Hoje, quem eu sou? Quem você é? Eu não quero te ver nem eu quero ver ninguém. Eu queria estar na praça do relógio, eu queria estar fazendo alguma coisa, mas está chovendo e eu estou doente e eu não vou sair de casa porque está tão tarde e eu vou dormir cedo e eu vou dormir sozinha, e eu não vejo graça em nada, e eu não amo ninguém, e quase tudo o que eu penso me irrita.

E no final tudo volta a você. Eu lembro de uma conversa que a gente teve, mas no fundo eu nunca vou poder te ter, te conhecer. Quanto mais eu te tenho mais me parece que você escorrega dos meus dedos. Não, sou eu que escorrego. Sou eu que me perco nisso que eu já não sei o que é. Quem eu sou? Eu penso em pessoas que eu gostaria de ver mas não quero falar com elas. Me parece que estou sempre me expondo tanto! Então hoje eu vou ficar sozinha. Eu vou chorar sozinha. Espero que amanhã eu esteja melhor e possa conquistar o mundo outra vez.

Quem nós somos?

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Acordar

É tão estranho e sozinho acordar sozinha. Olho ao redor e vejo o frio, o vazio, qual é o sentido disto tudo? Minha garganta dói, meu coração dói, eu sinto o frio entrando e me preenchendo, o que é isto que entra e me preenche, que faz minha garganta arder, que me faz estremecer, o que é isso que eu vinha esquecendo como é ruim, isso que não existia quando eu tinha um corpo vivo enflamando o ar ao meu redor? O que é isso que é tão doloroso e que torna tão assustador sair de debaixo dos lençóis, e tão igualmente desagradável ficar aqui pra sempre?

É tão estranho e errado eu acordar aqui e assim, longe de casa, longe dos meus sonhos, longe de vocês, longe de tudo o que dá sentido à minha vida. Eu acordo e penso 'que porra é essa, o que estou fazendo aqui, quem sou eu, quem me deu o direito de acordar?' e ainda mais sozinha; eu acordo e penso o que estou fazendo, porque não estou trabalhando, ganhando a vida pra pagar os meus passeios, os meus amores, aquela viagem, a festa de sexta, uma casa onde eu possa morar de verdade onde eu não me sinta cada vez mais uma hóspede? Eu fecho os olhos e tento lembrar pra que serve tudo, por que eu posso viver, como eu consigo agüentar a culpa de viver à custa dos meus pais, eu fecho os olhos e tento me levantar, será que existe ordem suficiente na minha vida pra eu fazer alguma coisa hoje?

É tão estranho e desesperador sair da cama neste frio, ver o sol lá fora e não lembrar pra quê serve o dia estar tão lindo, tenho uma viagem pra fazer e não lembro por que quero ir, eu lembro dos meus amigos que estão aqui e como eu quero estar com eles pra sempre, mas algo em mim diz não, algo em mim diz, you don't get another chance to show them that you love them, e eu tento me programar pra deixar a minha vida e ir pra Angra, pra deixar os meus amores e ir pra praia, pra largar os meus programas e ir prà ilha, pra esquecer o mêdo de perder chances, e ir pro mar. Meu coração aperta e eu digo, 'acho que vou amanhã'. Uma parte tão grande de mim está tão nervosa, mas eu repito pra mim mesma, 'you won't get another chance. give them all you can'.

...é tão estranho acordar e não te ter ao meu lado e sequer saber se te terei hoje, ou amanhã ou depois, e eu sinto que eu daria tanta coisa por você às vezes, mas hoje eu acordo e saio relutantemente da cama e vou tomar banho (sozinha) e vou tomar sol (sozinha) e pego a Flor no cólo (sozinha) e volto pra almoçar (sozinha) com a família. E (é tão estranho) eu sei porque estou sozinha e eu sei que opções eu fiz mas não consigo entender por que, porque ontem tudo fazia sentido quando eu tinha a tua voz no telefone, quando eu disse boa noite e soube que eu ia dormir sozinha, ontem tudo fazia sentido mas hoje tudo parece tão fútil, porque nada do que eu faço agora faz, eu espero, espero, espero, eu espero um futuro que não chega, quem sabe em um, dois, cinco, dez anos ele chegue, eu sonho tanto e tanto almejo, mas cada dia é uma tortura quando eu não posso olhar nos teus olhos e confiar que eu estou fazendo o que eu posso, que eu não tenho outra opções, que tudo vai dar certo.

Hoje eu vi a minha média de E.D., 8.6, e pensei, até que é bom, mas será que isso serve pra alguma coisa, será que o que eu quero dessa média não é algo que eu só conseguiria a partir do 9.5?

quarta-feira, 23 de junho de 2010

De olhar em teus olhos

Eu gosto de olhar nos teus olhos. Porque quando eu olho assim e você me olha olho no olho eu vejo tudo, e tudo você me diz, e passam todas as emoções, prazer e dor (o limite é tão tênue), amor e fúria, fome e cuidado, libertação e mêdo, carinho e destruição. E tem momentos em que eu olho nos teus olhos e eu sinto que enxergo você, não você máscara e aparência, mas você alma e essência, não as expressões mas diretamente os sentimentos, e os anseios — e tem vezes em que nossos olhos se trocam só pra dizer, sem nenhum intermédio, que não existe nada melhor no mundo. E tem aqueles momentos em que a gente se perde nos nossos olhos, no olhar e olhar e nas melhores coisas do mundo, e os teus ou talvez os meus olhos perguntam, respondem, por debaixo do nosso silêncio, pra que serve o resto da vida?

sábado, 19 de junho de 2010

Eu e o Di

Até ontem à noite eu estava me sentindo extremamente insegura por não estar mais namorando com ele. Eu não estava me sentindo insegura pq eu achava que podia ter machucado ele, não de verdade. Acho que eu tava com mêdo de que ele deixasse de me amar. Ou que ele ficasse com raiva de mim, ou que ele sofresse. Acho que é a mesma coisa pra mim. Mas ontem ficou tudo muito bem de repente. Ok, talvez a nossa relação mude muito de repente. Mas...

Sabe, acho que talvez seja melhor pros dois. Independente de se o que cada um quer de estar solteiro vai dar certo ou não.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Pout Pourri do meu mês de Junho

Algumas das coisas aqui eu pensei faz algum tempo. Outras são bastante recentes.

Dança


Me disseram que o princípio do tango é que o homem está sempre tentando pisar nos pés da moça, e que a moça está sempre escapando por muito pouco. É assim entre eu e você. Quando você fala de mim, eu evito falar de você. Quando você se aproxima, eu me afasto. Você vem em minha direção e eu fujo. Mas se você pára, eu volto, e te dou minhas mãos e engato numa nova dança. Nós dançamos sem nos tocar, como numa capoeira. Eu dou um chute e encontro sempre o ar porque você se abaixa. Tudo para disfarçar que na verdade é uma luta. Tudo para que ninguém saiba o que realmente estamos fazendo. Se você dá um passo para um lugar, eu dou um passo para fora. Se você diz uma palavra eu não posso mais dizê-la. Se você canta uma música, eu não posso mais dizer o quanto ela é importante pra mim. Como num jogo de gô, dividindo o tabuleiro, alguns segredos são seus, outros são meus, e os que são nossos não são sequer mencionados. Porque se de repente nós formos vistos cantando a mesma música, sonhando o mesmo sonhos, olhando pra mesma ilha, então aí todos vão entender do que estamos falando, e vai ficar tão claro! E então, acho que nós dois seremos menos nossos, e mais do mundo. E como eu poderia dividir este nós com o mundo?

Eu-você


Hoje eu me dei conta de que eu sou cada vez mais você. Eu estava no sarau, conversando sussamente, e aí eu ri. Foi o seu riso. Eu balancei a cabeça e era um movimento seu. Eu andei com os seus passos e repeti os seus trejeitos e todos os meus movimentos eram movimentos seus. E todos os meus pensamentos eram palavras suas e todas as minhas lembranças eram com os seus olhos e quando eu olhar nos olhos de alguém será cada vez mais o nosso olhar, nos olhos, sempre, para sempre.

Menina-serpente


O assunto da poligamia pega fundo, ok, mas o assunto da mulher cruel pega mais forte. Se pá assim como a gente não discute anarquismo com a Lô a gente também não devia falar de relacionamentos comigo. A gente homens (mas eu nunca falo disso com mulheres, na real). A situação é a seguinte, está acontecendo agora mesmo milhares de vezes ao redor do mundo: o garoto gosta muito da menina, mas não tem coragem de falar com ela. Talvez ele ache que ela é confusa. Talvez ele ache que falar é muito agressivo e esteja tentando ser sutil. Talvez ele já saiba que ela sabe e ache que é a vez dela de agir. Em todo caso, ele não se revela, e ela sabe dos sentimentos dele mas não faz nada a respeito. Por que isso é cruel? A questão é que é muito confortável (será?) para a menina ter um cara que gosta dela, por isso ela não quer se livrar dele. Ao mesmo tempo, ela não quer, ou acha que não pode, dar o que ele quer, por isso não o aceita. Por um lado eu entendo que isso seja cruel. Por outro lado, eu sei que eu fiz isso algumas vezes, e faria de novo, porque se a menina é folgada o garoto também é covarde, e no fundo talvez a garota também seja só covarde, ou esteja muito confusa, ou ache que se o garoto realmente quiser se livrar dessa situação, hey, é só ele falar com ela, entender a situação, e se for o caso ir embora. Se pá a questão é que eu sempre me identifico com a história, mas eu sei que não é o mesmo caso. Porque no meu caso a garota não está confortável. Nunca é confortável fazer alguém que você ama sofrer.

Mordida


Eu te quero! Eu te amo! Eu penso em você o tempo todo, o dia todo, eu penso em você quando estou com ele, eu penso em você quando estou em casa*, eu passo o dia todo pensando em te chamar, depois eu desisto e volto pra minha vida de sempre. Mas você é parte da minha vida e eu me pergunto até quando eu vou conseguir te ver e não te abraçar, te ter e não te apertar, olhar nos teus olhos e não dizer que te ouvir é uma das melhores coisas do meu mundo. Como eu posso te querer tanto e entretanto... E entretanto... Entretanto... É que há tanta coisa pra tentar entender...

* eu juro que estava pensando na usp quando escrevi esta palavra... o que isso quer dizer?

Amar


Você entrou tão rápida e intensamente na minha vida, e ontem eu estava falando desses amigos que são tão próximos que eu não hesito e não preciso pensar pra dizer que amo, e sem pensar eu coloquei você no meio dos quatro óbvios de sempre. Logo depois do Bruno, acho que é simbólico.

Nessa hora, o assunto era esta história que eu vou contar:
Estávamos conversando sobre você. Eu sei que os dois estavam falando mais porque eles gostam de você e porque queriam, sei lá, te ajudar ou te proteger, ou quem sabe porque eles gostam de mim e, eu nunca entendo essas conversas que rolam entre os homens, e eu nunca entendo o que eles esperam de mim, enfim, eles estavam falando sobre você e eu senti uma coisa muito forte, que eu não consegui expressar porque parecia errado, como eu podia estar pensando aquilo mas, mas eu pensei parem de falar assim dele, eu quis dizer eu gosto demais desse cara pra vocês falarem assim levianamente dele, eu quis dizer isso mas não consegui, eu quis dizer não falem dele como se fosse só seu amigo, eu quis dizer mas não consegui entender, qual é o problema de um cara ser seu amigo, qual é o problema de falar dele, qual é o meu problema.

Lôba


E talvez pensando agora o que eu quisesse dizer fosse "parem de falar assim de mim". Porque eu não quero ninguém se pondo entre eu e as pessoas de quem eu gosto, não me importa se quem se interpõe é minha irmã, meu namorado, meu melhor amigo, meu amantes, não me importa se quem se interpõe é alguém que eu venero que eu amo em quem eu confio a minha alma, eu não quero ninguém pondo os dedos no meu território, na minha alcatéia, na minha caçada. Não quero ninguém me protegendo, me pondo limites, me fazendo exigências. Aceito avisos, alertas, até mesmo pedidos, especialmente pedidos de cuidado, de delicadeza, nunca porém pedidos de segredo ou de mentira. Eu quero ter relações diretas, íntimas e intensas com as pessoas. E intensamente verdadeiras. Tipo falar a verdade e levar tapa na cara, é isso que eu quero fazer. Seguir meu coração etc. Correr o risco de me machucar. Talvez até mesmo correr o risco de te machucar.

E:


Tudo o que eu vou te perguntar é: você quebra?
E você tem coragem suficiente para assumir a responsabilidade pelo que você sente?

sábado, 12 de junho de 2010

Beco

Tanta coisa que passou pra mim e entretanto eu não disse nada. Eu me contive tanto, eu me contenho tanto o tempo todo, porque tenho mêdo, medo de passar a mão nos seus cabelos, medo de ter coragem de perder os limites com você, porque eu gosto de você e acho que talvez seja só por que convivo tanto com gente que te ama, mas acho que gosto de verdade de você e você nem sabe, nem eu sei. Medo de te pedir pra me aceitar. Medo da dor sem sentido que eu sinto quando penso em te perder, eu que nunca te tive. Justamente porque eu nunca te tive eu tenho medo.

Mêdo do seu olhar quando eu te olhei fixamente, eu precisava te ver, era aquele o meu espetáculo, quando você olhou de volta eu não cheguei a saber o que foi a sua expressão, você entendeu, mas entendeu tudo, entendeu o que eu queria dizer e o que eu queria saber? Eu queria te conhecer menos mal para conseguir ler o seu olhar. Por que você me apavora tanto, e por que tanto me fascina? Por que eu quero saber você, e por que eu sempre te obedeço?

Será só por que eu te vejo através dos olhares dos nossos homens?

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Sobre aquilo que eu não queria explicar

É meio ridículo que eu não queira falar dessas coisas pessoalmente com você mas ainda insista em escrever sobre elas, aqui onde eu sei que você vai ler.

Eu queria conseguir pensar como você, Tássio, e não me lamentar pelos erros que eu cometi quando eu era uma jogadora novata. Mas no meu caso os erros estão aqui, muito próximos para que eu consiga me distanciar deles. Eu ainda sou novata. Então eu tenho que lidar com eles e aprender. Mas acho que a lógica da vida deve ser muito mais difícil de pegar que a do gô. Você talvez tenha visto, naquele dia em que eu tentei aprender a jogar, que em vários momentos em não via saída nenhuma e jogava apenas por intuição. Também na vida faço isso, quando me encontro em situações confusas, sigo lassa as ordens do meu coração, e às vezes é para bem, mas muitas vezes também é para mal. Você não sabe distingüir bem e mal, útil e inútil, certo e errado, mas eu consigo sentir os erros e acertos -- é claro que às vezes temos que provar o fel da vergonha para entender quem somos, o que fizemos, para onde nos dirigimos, qual o próximo passo. A amnésia do futuro é o pior tipo.

Agora algumas coisas estão tão claras, coisas que eu nunca teria imaginado pensar. Eu preciso me tornar mais forte, conseguir olhar as pessoas nos olhos e permitir que a minha própria voz fale, e não apenas a voz de sonho com que eu te conto minhas loucuras e a voz de mêdo com que eu te faço perguntas. Eu preciso falar com a voz de poder que é uma arma na minha lida. Agora eu entendo quantas dores na minha vida foram apenas falta de usar essa voz. Eu tenho que ser forte para poder controlar os demônios. Eu tenho que ter força para poder sobreviver aos seus passos dentro de mim. Eu entendo agora quantas coisas me causaram mais dor do que prazer porque eu não pude segurá-las com as duas mãos. Eu ainda preciso aprender muito. Eu ainda sou muito frágil.

Acho que aqui termina o capítulo que eu quis chamar da Coragem. O próximo trecho será chamado de Força.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Da natureza e do Nome

É interessantíssimo como as coisas mudam.

Eu sempre lembro de quando a Ana Bruner sugeriu que a gente descrevesse nossa Weltanschauung numa carta para nós mesmos dali a cinco anos. Não fiz e sempre me arrependi. De tempos em tempos penso nisso que penso que deveria escrever isso agora, mas nunca faço. Continuo escrevendo coisas menos relevantes neste espaço.

Das nossas aulas de filosofia do primeiro colegial guardo umas lembranças meio confusas, ora muito boas, ora muito ruins, e e percebo, com resignação, que muito daquilo eu aceitei sem grande reflexão e me cabia questionar, mesmo que não me fosse pedido — e muito daquilo que me pareceu profundo na época agora me parece meio insípido. Mas a lição verbal qe me pula à mente com mais freqüência, como um enigma não-respondido, ainda é a do côco podre:

— Imagine que um côco cai do coqueiro à beira do mar e mergulha na água. Se for um coco sadio, ele rapidamente volta à superfície sem sequer ter batido no fundo, por força de sua própria leveza que o expulsa da água. Entretanto, um côco apodrecido não tem o poder de flutuar, e uma vez que mergulha na água desce até o fundo e lá fica. O mergulho é a experiência negativa, e nós somos todos côcos. Por mais fundo que uma pessoa mergulhe, se ela não estiver podre, isto é, se não tiver renunciado à sua natureza, sempre poderá voltar para a superfície.

O que me pega é essa questão da natureza. Será que cada pessoa tem uma natureza, um propósito desconhecido de tornar-se si mesmo, como diz Demian? Será que cada pessoa tem um nome verdadeiro, que a descreve completamente e a partir do qual é possível compreender todas as suas atitudes?

Já levantei a questão do nome antes, e me surpreende com que leviandade meus amigos me mandam respostas para uma questão tão fundamental. Não me intriga a existência de um Deus, de fato, mas me intriga a nossa própria existência. Será que somos todos apenas partículas que se uniram por acaso, formando consciências sem significado que criaram arbitrariamente todo um universo de concepções que tenta explicar o que só existe a partir da nossa própria existência? Ou será que somos precedidos ou ao menos concomitantes a um mundo de idéias? O que é um conceito?

O que me aflige é que sem essa resposta não me parece possível distingüir se estamos indo para cima ou para baixo. Estaremos afundando como côcos podres ou voltando à superfície? Teremos asas para voar ou estas serão asas de cera fadadas a falharem a qualquer momento? Estamos voando ou caindo, mergulhando ou meramente afogando-nos? Isto que eu sinto é dor ou prazer? Estou morrendo ou isto é apenas começar a nascer? Sou um monstro, ou isto é ser uma pessoa? O que pode me fazer mal? O que pode me fazer bem? Será que alguma coisa na vida vale a pena?

O problema é que sem uma resposta não tenho um modelo segundo o qual conseguir enxergar o mundo. Eu vejo e sinto coisas, mas como saber se aquela núvem realmente anuncia tempestade, ou se ela será imediatamente varrida para longe? Não consigo dar significado ao que vejo, e assim é como se não visse nada. Tudo passa tão rápido, e na velocidade é ainda mais difícil enxergar, especialmente enxergar coisas sutis como a brisa, as folhas das árvores, as emoções contidas das pessoas.

A questão do sacrifício é fundamental. Tanto do que fazemos não nos traz prazer, entretando o fazemos, pensando num fruto futuro muitas vezes bastante distante. Mas diariamente vacilamos, sem saber se esse bem futuro é mesmo um bem, se ele vale a pena. E não temos como saber, porque não sabemos diferenciar bem de mal, porque não sabemos a que devemos dedicar nossas vidas, porque a cada instante nossas vontades mudam e nossos sonhos se tornam mais vagos e tantas vezes avessos ao que sonhávamos antes. Parece impossível realizar qualquer coisa sem se condenar a trabalhar naquilo em que já não se acredita ou sem, ao contrário, lançar-se sempre com toda a intensidade em trabalhos velozes, construídos vorazmente e que acabem logo, assim que acabar a paixão. Nesse caso, também, se não houver paixão não há viver, e corremos o risco de passarmos muito tempo mortos.

Enfim, comecei este escurso porque lembrei de uma revelação que me surpreendeu a respeito de mim mesma ultimamente. Uma dessas coisas que eu precisava ter gravado na minha carta para dali a cinco anos e que agora (bem, já passaram mais de cinco anos) meio que sumiu, e eu me sinto como se eu não fosse mais eu.

A vida toda tive a certeza de que teria filhos. Três, a menos que fosse rica, então mais. Ter filhos sempre me pareceu o certo, inqüestionavelmente certo, e não podia ser um filho único, e sempre me parecera que irmãos em dois brigam demais. Três eram o número perfeito, o número de ouro, e eu teria filhos lindos, e os ensinaria tudo o que fosse fundamental, e eles me surpreenderiam com sua individualidade, mas levariam adiante, com genialidade e graça, os valores do minha família. Até que, sem aviso, há algumas semanas, ouvi em mim mesma o pensamento: "é melhor então que eu não tenha filhos". Eu pensei que não seria bom ter filhos se eu não conseguisse ter uma família estruturada, algo como uma casa fixa, um marido, não demasiado distante das casas de meus irmãos, e se possível próximo aos meus primos, pais, tios. Mas naquele momento me pareceu possível que eu não conseguisse nenhuma dessas coisas em tempo hábil, e nesse caso eu preferiria não ter meus próprios filhos — embora ainda me restasse a opção de adotar, acabado o tempo hábil.

A verdade é que talvez mais importante que ter filhos seja ter amigos, alunos, pessoas cuja vida pode se transformar pelo meu toque, pessoas que eu posso influenciar, a quem eu posso revelar meus valores e torcer para que acreditem neles. O significado da família não se perdeu totalmente em mim, e eu ainda tenho a certeza de um dia ter sobrinhos, e não consigo conceber a vida afastada de minha família. Por outro lado, não sei mais se eu devo ter filhos, sangue do meu sangue, aquela coisa sagrada. Não sei o que estou disposta a sacrificar por isso. Existe muita coisa na minha vida que no momento me parece impensável sacrificar (e não estou falando dessas coisas típicas de gente que não tem grana e faz faculdade).

Se eu não conseguir encontrar a resposta para pelo menos uma das minhas perguntas, então não terá sentido ter filhos, para mais vidas de questionamento e passos no vazio na Perdição. Se eu me perder, não criarei um povo para vagar comigo. Mas é claro que nada posso dizer do futuro. Que sentido tem caminhar quando nada se enxerga? O sentido de talvez encontrar algo diferente, a que nunca chegaria se continuando parado. Entretanto... posso avançar tateando, não encontro a confiança para seguir com fé um caminho reto. Se não vejo nada, sinto apenas vagos cheiros... rastejo. A vida não tem nada para reafirmar nossa esperança, entretanto prosseguimos. O que devemos negar e o que devemos aceitar? Até que ponto eu devo me entregar?

terça-feira, 8 de junho de 2010

Hoje

Quanta falta de sentido na minha vida.

Hoje você me disse que a diferença entre eu e você era que você ia pro mundo e eu ia pra casa. Fiquei muito tempo pensando nisso e espero que você esteja errado. Mas no fundo eu nunca saberia como ir pro mundo. Não sei onde o mundo fica. Estou esperando que você me mostre como chega lá, mas você acha coisas erradas sobre mim, você acha que somos parecidos quando eu digo que tudo dá sempre tão errado, não me compare a você, eu não acredito, você pelo menos tem algumas histórias pra contar, histórias que aconteceram de verdade, enquanto eu tenho umas fábulas de amor e uns sonhos.

Eu perdi tanto da minha vida e do meu sol que hoje em dia eu não consigo chamar lugar nenhum de casa. O mundo não me pertence, nem nada. Não consigo encontrar a razão para todas as coisas que eu faço. Pra mim não há hierarquia, eu só faço o que eu amo mais que me parece urgente. Eu gosto do Adilson e quero merecer a confiança do Hashimoto, por isso não falto às aulas, mas o que eu queria mesmo era fugir de casa, sair um dia e só voltar quando eu me encontrar. É uma merda ter que esperar tudo o que é importante acabar pra poder realmente mudar sua vida, acho que as coisas que importam vêm assim na hora errada, sem planejar, e entretanto eu não consigo negar minha vida à rotina, por que eu tenho sonhos dentro de conformes também, embora eu nunca saiba se seguir esses caminhos algum dia vai me levar a realizar algum deles. A verdade é que eu tenho muito pouca fé na universidade, no trabalho, na realização pessoal; me parece que essas são portas que eu fechei muito tempo atrás. Agora, se insisto nisso, é por birra. O caminho que me parece que daria certo é outro, é o da liberdade total, insana e sem nenhum parâmetro. Me tacar na lama. Sair por aí, tentar ganhar a vida apenas com coragem. Mas eu não tenho coragem de fazer isso também.

Como ir pro mundo? Me parece tão inalcansável. E da minha impotência não consigo me conformar com assistir a estas aulas e pensar essas coisas que não me interessam. Eu tento me concentrar nos objetivos racionais que estabeleci para mim mesma, mas me recrimino, por que eu não fui um pouco mais zelosa e não fiz as coisas mais fáceis para mim mesma? Seis meses parece um tempo incrivelmente, insuportavelmente longo para eu ter que esperar pela minha redenção, sendo a minha redenção, veja só que pobreza, apenas a vaga esperança de poder tentar fazer uma iniciação científica. Que provavelmente só me interessa porque eu quis tanto fazer e não fiz. Meio como ir bem na faculdade. Etc.

Eu queria mesmo era um emprego, sempre quis, desde muito jovem, e nunca fiz nada, nem nunca soube muito como fazer, para conseguir. Não quis com aquela bravata garbosa dos meninos que querem algo e fazem de tudo para conseguir, quis daquele meu jeito meio cobra, quis com amargor e raiva, quis com veneno, com repulsa do meu querer e repulsa maior do meu não-conseguir, quis com vergonha do meu querer, como quis todas as coisas que me pareceram parte do mundo na minha vida. Quis com fel e sem confiança e não consegui nada. Mais tarde, anos mais tarde, quando ousei sussurrar que queria (qualquer coisa) senti que ninguém percebia por que me doía dizer. Mas doía e ainda dói, e queima, etc. Quando falei que queria, riram porque não acreditavam no meu querer, querer deveria ser com sorriso no rosto e determinação, essa coisa minha que nascia do asco não deveria ser querer, no máximo seria um tipo de invejar, e provavelmente falso. Eu não respondi. Virei a cara e andei em outra direção. Há coisas que eu sei fazer, só não são essas.

Eu peguei o ônibus pra casa, um erro é claro, mas como eu poderia evitar? Eu queria te ver e pedir por favor, me diz como enxergar uma direção qualquer pra onde ir ou pelo menos pra onde olhar. Eu sei que estou indo pra casa outra vez, eu chego em casa e percebo que não há nada pra mim aqui, este lugar sequer é minha casa. Quero pegar meu gato (que nem sei se ainda é meu, tenho-o visto tão pouco) e talvez um caderno e fugir daqui. Eu planejei fugir de casa mas eu tenho tanto mêdo e tão pouca gente que me ajudaria, ou melhor, tão pouca gente a quem eu pediria ajuda. Eu nunca consegui passar mais de dois dias sem voltar, porque está tudo sempre tão distante, e eu morreria de frio se não tivesse onde dormir, e é claro que eu não encontraria onde dormir a menos que você me oferecesse abrigo, e nesse caso não seria só uma fuga a mais, da minha casa para a de outra pessoa, outra pessoa que tem tão pouca chance de me ajudar?

Acho que na primeira oportunidade vou gastar todo o meu dinheiro numa viagem, só pegar o primeiro ônibus e ir embora, eu cansei de sonhar, eu quero ficar sozinha, eu quero olhar pras coisas e ter alguma idéia de como é estar lá. Não seria tão ruim acabar com meu dinheiro, até porque ele é tão pouco; acho que o pior mesmo é achar que ainda que a grana desse talvez eu mesmo assim não conseguisse, porque o mundo é tão hostil e desconhecido pra mim, e talvez um pouco porque eu tenha vergonha, e talvez um pouco porque eu queira que você venha comigo. Acho que o pior é temer que mesmo isso não resolvesse nada, porque o mundo não é lá fora, o mundo é aqui, todos os dias, aqui onde tudo me parece um grande lamaçal onde eu nunca avanço nada.

Às vezes eu me pergunto porque a parte importante da vida não pode ser essa que dá certo; eu me pergunto porque tem que ser tão fundamental essa parte enorme da vida que é tão difícil e funciona tão mal. Eu não sei se não seria melhor se eu fosse expulsa de casa e assim obrigada a aprender a me virar, porque no fundo o que mais me apavora é a possibilidade de eu nunca aprender e viver pra sempre na casa dos meus pais, incapaz de sair, sem conseguir me mexer. Não deixe que isso aconteça comigo. Se em três anos eu ainda estiver aqui, me expulse ou me dê um tiro. Me dê uma ordem, qualquer coisa. Um quarto com outras dez pessoas, um emprego sem futuro, eu não me importo. Qualquer coisa pra não ter que ver outra pessoa sofrer pra me dar tudo o que eu nem preciso por mais alguns anos. Qualquer coisa para não ter que aceitar viver desse dinheiro construído em cima de sonhos abandonados de outras pessoas. Qualquer coisa pra escapar desta casa.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Você

Eu apertei você, minha cabeça no seu peito, eu olhei pra você e disse: eu sou sua.

Por mais que eu ainda seja minha.

Por mais que haja tanto mais no mundo.

Tem dias em que eu te vejo e não tenho a menor dúvida de que eu só vivo tudo isso através do meu amor por você (ou através do seu amor por mim, que talvez seja a mesma coisa).

Eu ainda não terminei de te agradecer por ter salvado a minha vida.

Eu te amo.

Eu detesto como as pessoas acham que palavras de incentivo são suficientes. Não preciso de incentivo. Eu preciso de uma solução!

A Praça

Está tão quieto. Eu contemplo a praça do meu encosto de pedra, as costas frias encostam nela, as pernas que encostam na grama estão quentes, a mente está fria, o coração é quente, meu capuz ferve pra resfriar a cabeça; está tudo tão quieto. A praça vazia é tão tranqüila e eu me sinto tão inquieta; acho que parte da minha inquietude é de saber que aquietar-me não resove, não salva nada; minha calma não é espada, eu não tenho como me salvar. A pedra está fria, eu estou lendo Demian, como você pediu, e me pergunto se o garoto chamado Demian não é um pouco o garoto chamado Corvo do Murakami, do Kafka, eu me pergunto, por que está tudo tão silencioso.

Acho que é hora de trabalhar, etc. Não quero falar com ninguém. Está tudo tão parado, e nada me dá uma boa resposta para uma pergunta decente, do tipo, que porra eu estou fazendo aqui. Nada me responde. A praça é só a praça mesmo. Eu me sinto tão livre aqui. Eu tenho procurado muito a direção de mim mesma. Tudo o que eu vejo são coisas que me guiam na minha busca por um sentido, uma direção, todas as pessoas e as conversas, tudo me parece um meio.

Ontem conversei com minha mãe, como você tinha sugerido, e assim que cheguei na casa dela todos os mêdos pareceram tão infundados, e ela achou até meio bobo o maior deles, e todos os menores também, porque ela se esforça tanto para que a gente não tenha mêdo, e eu acabei contando coisas pra ela que eu não contei direito para ninguém, e apesar de ela não ter que concordar ou discordar com nada eu fiquei meio feliz porque ela pareceu se alegrar e porque ela não parece mesmo acreditar naquela bobagem de repetir as nóias dos antepassados. Eu acho que eu estou me libertando sim. Eu gostaria de ser livre. Todo o resto é menos importante.

domingo, 30 de maio de 2010

Tsc

Ontem escrevi mais algumas coisas que achei melhor não publicar.

Não estou tão preocupada agora, só... Não sei o que fazer. Mesmo.

Não sei o que fazer.

Tudo me parece tão confuso.

Eu não quero estar aqui, eu quero estar fazendo alguma coisa.

Mas eu não sei o quê.

Me parece que nada disso me dá prazer nem me faz uma pessoa melhor.

Eu preciso...

Eu preciso de alguém que me ajude a enxegar uma forma de crescer, eu cansei de ficar parada. Eu estou tão pequena, eu sou tão criança, e por outro lado eu não me considero mais criança, acho que isso é parte do conflito. Eu quero sempre dizer não, eu não sei, eu não sei nada, eu não faço a menor idéia, me ensina. Quase sempre eu não entendo nada. Eu sou tão pequena, eu me agarro às suas pernas, me conta do seu trabalho, dos seus alunos, dos seus planos de vida, me faz imaginar o que é ser adulta outra vez. Eu sento no tapete da sala, eu abraço meu gato, o que eu faço agora, eu nem sei o que estudar, nem que trabalho eu posso fazer, não tenho a menor idéia de como chegar mais perto do meu futuro. As pessoas ao meu redor estão sempre estudando, trabalhando, pesquisando, procurando, sempre falam dos seus projetos, das suas dificuldades, da falta de tempo, da exigência da vida, do próximo desafio, dos percalços, de um trabalho do ano passado, de uma iniciação científica, de uma entrevista de emprego, de....

Um, acabei de descobrir que na minha prova de estrutura de dados eu reinventei um algoritmo bastante respeitado para resolver uma questão... e depois apaguei tudo porque interpretei errado um conceito e dei uma resposta bem menos interessante (e menos válida talvez). Que saco, eu preferia fazer menos esse tipo de coisa.

Enfim, o problema é que eu não entendo nada disso. Eu não entendo nada de viver a vida. Eu me envergonho da forma como eu vivo a vida, como eu não trabalho, não estudo, não faço porra nenhuma. Eu não sei como mudar. Eu não sei o que fazer. Eu queria adotar alguém de mestre, implorar ensina-me a viver!

E aí eu recebo doses minúsculas de ajuda, de conhecimento, de sentido da vida, pra me levar por mais um dia, mais uma noite, mais alguns segundos pra quem sabe um dia conseguir alguma coisa.

Você é quem gostaria de ser? Pelo menos um pouco?

Às vezes eu me dou conta de que quase todos os meus amigos estão mais próximos do que eu do que eu gostaria de ser, nos âmbitos profissional e acadêmico. Tão pouca coisa precisava ter sido diferente para eu ter essas coisas também. Mas enfim.

Eu não vou fugir. Eu posso continuar tendo fé.

Um pouco mais de sentimento

Eu decidi publicar isto aqui. Sem censura.

Eu sonhei com você.

Eu poderia completar aquele poema...

Quando sonhei com você, foi como...

Mas como foi?

Lembro vagamente de
Mas não sei.
Lembro mais claramente de pensar em você e fechar os olhos, você deve saber porquê.

Quando sonhei com você, foi como um sonho.
Havia luz, algo como flores.
Eu acho.
Eu não lembro.
Eu apaguei.
Um sonho.

E também, eu parei para te dizer que eu não estava apaixonada por você mas quando olhei nos seus olhos eu... não é que eu esqueci, eu só perdi a coragem mesmo. Ou perdi a voz. Por que eu precisava dizer isso mesmo? Eu em geral não digo. Ou melhor, em geral eu só tento me fazer entender, pra não deixar as coisas complicadas. Mas dessa vez eu fiquei quieta e o sentimento que veio me deixou apavorada.

Eu pensei eu não quero isso.
Eu não quero me apaixonar por outra pessoa, não agora.
Eu não quero ter que pensar nisso, ter que tornar as coisas complicadas.
Eu pensei em fugir, em desaparecer e em me entregar.
Eu quero te tornar uma coisa do passado, uma pessoa qualquer.
Porque isso não muda nada!
Mesmo que eu me apaixone mil vezes isso não resolve nada!
Mesmo que eu viva cada amor que a vida me oferecer, eu ainda estarei sozinha.
Sabe aquela coisas de não consegue amar outro quem não ama a si mesmo?
Porque não é esse o meu problema agora.
O meu problema agora não é da minha área, não é de amor.
Eu quero continuar tendo a minha vida agora.
Eu quero o meu namorado, os meus amigos, as pessoas que eu amo e adoro.
Eu me desesperei, eu pensei que eu podia estar me destruindo.
Eu pensei que eu podia estar me jogando num abismo.
Eu pensei em fugir, em lutar e em me entregar.
E tudo pareceu tão idiota.
Tão até meio... irrelevante, depois de algum tempo.

Eu não vou fugir.
Eu não quero fugir nunca mais.

Eu estava genuinamente preocupada e então... me veio uma imagem, meio desconexa.
Andar com você na praça à beira-mar.
Tomar uma cerveja.
Papear.
Uma praia deserta e a revoada de pássaros e a parede vertical de terra com borboletas.

De repente eu entendi muita coisa.
Meio "como eu sou idiota"like.
De repente eu fiquei muito tranqüila.
Eu não devo ter mêdo.
Você pode ser como um vento na minha vida, mas não precisa me levar embora.
Eu posso ficar.
Eu posso escolher ficar.
Eu posso decidir não fugir.
Eu posso decidir fazer a coisa certa, e fazer o que eu quero.

Nós podemos ser amigos.
Eu posso aprender alguma coisa boa com você.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Opções

Ontem, hoje, alguma hora aí, não sei, eu me dei conta do quão desconfortável eu me sinto com a minha própria forma de viver a vida. Eu sei que eu me sinto desconfortável porque eu não consigo parar de falar e me perguntar sobre isso. É claro que alguns assuntos são muito íntimos, e eu só consigo falar sobre eles com poucos dos meus bons amigos, mas, bem, acho que esses amigos que sabem mais sobre os detalhes de mim já devem estar cansados dos meus questionamentos, das minhas histórias, dos meus olhares. Eu me sinto em guerra, em cima de uma agulha me equilibrando. Eu sei que o Bruno se irrita um pouco com o quanto eu falo sobre a minha vida, acho que é porque temos um problema comum e eu me distraio. Como com a questão das mulheres, como me incomoda a desproporção entre os números, ponderados ou não, de homens e mulheres na minha vida. E eu sei que às vezes eu faço umas merdas das quais eu me arrependo meio que pra sempre. E eu sempre me pergunto se a outra parte se incomoda, se sequer se lembra. Mas às vezes é preciso muita coragem para ter uma conversa na qual seja possível pedir desculpas. Desculpa por ter sido tão imbecil. Não sei como você não me despreza. Agora podemos continuar o assunto de antes?

A questão é que eu nunca parei e fiz uma opção porque eu achei que ia ser mó legal, não foi pensado e consciente; eu só fiz o que eu precisava fazer pra não ficar louca. Não foi como se um dia eu pensasse "nossa, esse jeito de levar a vida parece tão legal, e se eu fosse assim também?" Não, o que aconteceu foi que eu queria ficar com você e não deixar o amor me corromper, e eu só vi uma saída, uma saída que não ia acabar em frustração, e foi num ato de desespero que eu aceitei, "vamos torcer as palavras astim, vamos contar estas mentiras e criar este forma de se relacionar" e por muito tempo foi apenas torcer um pouco as palavras, depois as coisas se tornaram verdade, e quando umas palavras mudam de significado tudo o mais se torce ao redor, e sem perceber eu fui mudando minha forma de me comportar, eu fui virando outra coisa, tudo decorreu daí, e de repente eu tinha uma série de hábitos sobre os quais eu não tinha pensado, e que não tinham justificativas claras. Muito nem parece relacionado ao problema original.

Quem sabe um dia eu consigo entrar em paz comigo mesma.

Hoje em dia eu só tenho mêdo de ser isto intensamente demais e fazer alguma merda grave.

terça-feira, 25 de maio de 2010

A few days in my life

(comecei a escrever isto na sexta-feira, no ônibus pro cursinho)


Os dias vão se sucedendo, um dia de música, outro de programação, um dia de estatística, música e programação, uma hora de conversas nerds, dez minutos de tartarugas zumbi, história da arte, literatura, física quântica, matemática, ecologia, biologia celular, cerveja, homossexualidade, sentido da vida, num dia eu estou conversando com meu professor, num dia eu estou jogando rpg, um dia de euforia outro dia de desespêro, num dia eu canto Rita Lee outro eu me encolho nas sombras, outro dia eu estou apreciando os efeitos do álcool combinados com o Saulo cantando bem pra caralho no caraoquê, outro eu estou viajando dançando na beira da água ou eu estou me perdendo nos seus olhos, ou eu não vou numa palestra que me interessa, ou eu vou num concerto que eu nem sabia que ia ter, e eu estou dançando, e eu peço a gravação para o compositor, outro dia eu estou cantando pra você, e eu demonstro efusivamente o meu prazer, um dia de êxtase outro de fossa, às vezes eu sinto inveja e às vezes eu sinto orgulho, e às vezes não consigo me perdoar, e às vezes um amigo me demonstra que e não tenho culpa, e às vezes um amigo é genial, e às vezes um amigo é humano, e numa hora eu estou escrevendo no ônibus, outra estou twitando, outra estou fazendo as malas, outra eu presto atenção nas aulas, outra eu tento me impedir de fugir da sala, e às vezes parece que o mundo vai acabar, outras parece que ele é pra sempre, às vezes a grama parece estar crescendo, outras parece que ela vai morrer, e de repente eu acompanho o pessoal do cm e eu gosto da conversa, ou eu passo três dias programando quase sem parar, ou eu decido que vou aprender a cantar, ou eu me distraio por um instante com o toque da sua mão na minha, ou eu passo a tarde toda tentando fazer uma somatória que é só quase um binômio de newton, num dia nosso luar é um poste de luz na praça do relógio, outro dia é a lua mesmo, cheia e lobisômica, numa hora estou ouvindo histórias de terror, noutra estou me largando num sofá e adormecendo, de repente estou ligando cheia de saudades para um amigo que eu tenho visto pouco, de repente minha cidade tem mar, minha cidade tem marginais...

E então eu abro os olhos e essa é a minha vida.
Os dias estão sucedendo-se regularmente.
às vezes eu me distraio e noto que estou deixando quase nenhum espaço para os estudos.
às vezes eu noto que tenho visto pouco meus amigos.
às vezes, distraidamente, eu noto que estou bastante satisfeita com a forma das coisas agora.
e com mêdo também, porque tudo parece tão impreciso.
e cada vez que eu te vejo eu sequer me pergunto quando te verei de novo.
e isso vale pra tanta gente.
às vezes eu passo a tarde me perguntando uma coisa até que alguém que eu amo aparece e eu esqueço todos os meus problemas rapidamente ou esse alguém desaparece com todos os meus problemas instantâneamente.
às vezes eu...

às vezes eu me pergunto, cada vez mais enfaticamente, quem sou eu?

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Estranho,

De repente, me parece que a label que tem os textos mais bonitos é "mãe".

Estranho.
Acho que eu me emociono muito quando lido com essas questões de mãe,

de fugir de casa
de conquistar minha independência
de querer te impressionar, merecer teu orgulho
te querer te proteger porque você também é humana
de tentar te convencer de que eu te amo mesmo quando quero sair de debaixo da tua asa

acho que é porque mãe é muito close to heart.

Curioso.

Mas também é lindo.

Do som que sai dos teus lábios

Resumindo, eu escrevi, enviei para o Márcio e ele desenhou, ou melhor, está desenhando. Discutimos muitos esses desenhos na última viagem, e entendi melhor o que me atrai e o que me repele nele. Não sei se ele ouviu a primeira música da Carmina Burana para fazer este desenho, como deveria, mas mesmo assim ele conseguiu desenhar uma imagem quase igual à que estava na minha mente quando eu escrevi esse parágrafo — embora a parte de baixo do desenho, o rosto e o sopro-inspiração, sejam apenas dele. Acho estranho picotar o texto deste jeito, e pretendo publicar o conjunto inteiro no final; mas, ao mesmo tempo, acho interessante ir revelando aos poucos. Esta primeira parte é bem desinteressada e despretensiosa, e eu espero que tenhamos passado pelo menos o sentimento de prazer e liberdade que deveria haver. Eu espero que você alcance o que eu quis te dar. =)

Do som que sai dos teus lábios
(Carmina Burana, Carl Orff)


Então eu abro os olhos e meus olhos se enchem de música. Aí está você: nesse som, nesse verde que enche meus olhos quando eu vejo a paz que me invade quando eu ouço esta melodia, estas vozes. Neste momento, eu te amo. Neste momento eu sou o que eu quero, um cavaleiro voando sobre os campos, nada me pára, nada me contém, há coisas que eu salto e há coisas sob as quais me abaixo, mas nada se interpõe à minha vista do céu, porque neste momento eu sou livre, e neste momento eu alcanço o que você quis me dar. Eu alço vôo e o mundo é realmente tão grande!, como você disse... Uma guerra uma poesia se desenrola debaixo de mim. E de repente há silêncio. Acabou uma música.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Por que eu te toco

1.

Eu sei porque eu te toco
Porque te abraço
Porque beijo teu ombro
Porque te enlaço
Eu sei porque te beijo, porque encosto meu rosto no seu
Porque acarinho tua barba e arrumo teus cabelos
Porque eu seguro na minha a tua mão
E saber disso me deixa muito confortável
Mas há muitas outras perguntas
Cuja resposta eu não sei

Quando eu te abraço
Eu sei que é porque te amo
Porque te quero proteger de tudo
Porque quero te aninhar e te fazer feliz
Mas por que além disso eu te desejo?
E se não te desejo mesmo assim te mordo
Apenas para dizer que te quero
Apenas para te fazer feliz?

Quando eu te beijo
Eu sei que é porque te amo
Porque há tanto pra dizer que a voz não diz
Que os lábios silenciosos melhor expressam
Mas por que além disso eu te bebo?
Eu te sorvo e te como como um jantar
E por que eu combino de estarmos juntos
E por que eu reservo o teu lugar?

2.

Eu sei porque eu te mordo
Eu sei porque eu te como
Eu sei porque eu te desejo como uma carne sangrenta
E porque eu peço que me leves a tantos lugares
Mas quando estamos numa tarde destas
Com árvores e sombras e tudo é tão tranqüilo
Eu sei porque eu rio, eu sei porque conversamos
Eu talvez até goste de segurar tua mão
Mas por que além disso eu te abraço?
Por que arrumo teu cabelo?
Por que minhas mãos percorrem tuas costas
Passeando por teus pêlos
E por que eu me encosto em você
Sem sentir nenhum desejo?

Eu sei que quando eu te cheiro
É porque tanto eu te quero
E nessas horas eu quero tanto
Que eu te abraço, te enlaço, te beijo
Mas por que eu ando ao teu lado quando eu nem sinto o teu cheiro?
Por que além disso eu te protejo?
E por que eu arranjo de te encontrar
E por que eu espero por ti
E por que reservo o teu lugar?

3.

Eu te quero.
E por quê?
Se eu não te quero morder nem abocanhar
Se eu não te quero beijar nem abraçar
Se eu não quero segurar na tua mão
Se eu não te quero enlaçar, se não te quero acarinhar
O que quero?
E por quê?
Eu sei porque te olho
E porque converso contigo
Mas por que além disso eu sinto
Toda vez que chegas mais perto
Meu coração disparar?

4.

Eu não sei porque eu te quero
Dessa forma que me faz rosnar
Quando eu te vejo, quando eu te ouço
Eu não sei o que me faz chegar mais perto
Se me conquistastes sem esforço
Se desde o primeiro olhar eu já te adorava
Eu sei porque me mantenho perto de ti
Mas eu não sei por que, de repente
Eu não quero apenas me divertir
Eu não quero apenas estar contigo
Eu olho pra ti e sei
Que eu quero te roubar