Havia uma floresta densa, escura, onde inúmeras orquídeas e cipós e bromélias coloridas cresciam sobre grossos troncos de árvores velhas, e jovens palmeiras atravessavam as copas em busca do sol. O solo era úmido e cheio de vida em constante transformação, folhas secas se desfazendo e plântulas brotando e raízes se estendendo e cobrindo o início dos muros antigos de um pequeno forte de pedra, quadrado e sólido e coberto de musgo desde o portão baixo até desgastadas almeias. Ali perto, num galho retorcido, perto de um ninho vazio, pousou a diminuta rainha que chamo de Dragoa-Dourada. Vinda escapada de uma família controladora num reino deconectado, a fada-feiticeira, nessa forma minúscula de inseto-fada, viajara em busca de conhecimento, poder e uma base de operações. A floresta de Galilud e o pequeno forte abandonado serviriam aos seus propósitos, cheia que era a floresta de plantas e bichos e coisas diversas e interessantes. Em poucas horas arrumou sua casa -- a princípio quase um acampamento, enquanto as maravilhas da floresta chamavam sua atenção e impediam que se concentrasse em fazer do forte um castelo. Passava dias fora perseguindo ora um rebanho de capivaras, ora uma correição, ou então tentando estimar até onde iam as raízes de determinada árvore enorme, habitada por certa espécie de vagalumes que às vezes pareciam segui-la, atraídos por sua magia que se assemelhava à deles; quando voltava, lembrava-se de súbito de suas obrigações reais, e se dedicava a inspecionar a estrutura das paredes de pedra, ou a reconstruir o portão apodrecido, ou a mobiliar o interior do forte para que finalmente parecesse um castelo digno da dona daquelas terras. Quando o forte finalmente começava a parecer com um castelo (bandeiras hasteadas, tapeçarias penduradas, lustre aceso, portão instalado), a Rainha também já havia explorado em todas as direções vários quilômetros ao redor de sua nova casa, e alguns meses haviam se passado. A Rainha começou a sentir falta de companhia, não o tipo de companhia que os ratos e as minhocas lhe faziam, mas companhia falante, com quem conversar sobre todas as suas descobertas. Sendo uma mulher de ação, a rainha convocou uma montaria e partiu em uma direção qualquer, procurando por sinais de gente.
Mais alguns meses depois, a rainha Dragão-Dourado reapareceu em suas terras acompanhada de um homem, que acontecia de ser anão e medir apenas um metro e doze centímetros, e que vinha com seu cavalo ser o esposo da rainha e o cuidador do castelo. Para uma melhor relação com seu marido, a Rainha passou a usar uma forma de maior tamanho, ficando inclusive vários centímetros maior do que ele (na verdade, ela era uma rainha bastante alta). Juntos eles passeavam pela floresta, conversando sobre as árvores e os bichos, discutindo as antigas descobertas da Rainha e as novas descobertas que o marido e os outros novos habitantes que iam chegando observavam, coisas que haviam escapado ao primeiro olhar. Também faziam jantares, luais e bailes, quando não se reuniam apenas para trocar histórias, que a Rainha adorava ouvir, pois lhe ensinavam sobre todo o mundo que ela ainda não visitara. Nenhum deles, porém, estudava a Magia, e aos poucos a Rainha decidiu que o que ela queria era conhecer os grandes magos e aprender do mundo todos os feitiços. A dificuldade era que, já naquela época, os magos todos eram muito desconfiados uns dos outros, e ciumentos de seus conhecimentos, e se recusavam a compartilhar o que aprendiam a menos que fossem ganhar qualquer coisa com isso. A Rainha tinha apenas seu reino pequeno, e na verdade nada a oferecer a nenhum mago poderoso. Ficou sabendo, porém, que num reino vizinho havia uma rainha muito, muito influente, jovem e rica, com grande potencial, que tinha o amor e o respeito de todos, e de alguma forma conseguira convencer alguns dos maiores magos a lhe mostrarem seus talentos. A rainha Dragão ficou empolgada, mas se desesperou ao ouvir que esse reino vizinho também abominava feitiços e feiticeiras e toda forma de fada ou bruxa como ela mesma. Sabendo-se incapaz de se passar como maga, e muito pouco nobre para acompanhar a outra rainha, a Rainha Dragão elaborou um plano engenhoso: enviaria seu marido em seu cavalo ao o rico reino vizinho para oferecer de presente à jovem rainha um belíssimo e muito delicado colar dourado, de um ouro que reluzia em uma gama de cores, e cuja forma sugeria um dragão com chifres pontudos e uma longa cauda. O ponto chave do plano era que o colar de dragão na verdade era a própria Rainha Dragão transformada em dragão, e depois em colar - e enquanto a outra rainha a usasse em seu pescoço, a Rainha Dragão poderia ouvir todas as conversas que ela tivesse, e poderia aprender tudo sobre o reino vizinho, e outros reinos além, e todas as magias que todos os magos lhes mostrassem, sem temer ser queimada por feitiçaria.
Assim, seu marido partiu, com um pequeno séquito, e chegou sem incidentes ao reino vizinho, onde ocorreu uma pequena festa para apresentar hospitalidade aos viajantes. Porém, enquanto as belezas do castelo eram apresentadas aos hóspedes, surgiu um batalhão de monstros voadores, inimigos vindos de um país mais além, recomeçando uma guerra em um momento de despreparo. Começou uma batalha. Os monstros atacaram justamente o rei, a rainha e seus nobres mais próximos, e eles se defenderam como puderam, mas seus soldados mais treinados estavam espalhados pelas muralhas, e não conseguiam chegar para ajudar, pois os inimigos soltavam bafos de fogo que mantinham todos à distância. Pois então no meio da batalha um grande clarão cegou a todos por um instante, e depois, um grande dragão, com escamas douradas que brilhavam em muitas cores, surgiu. O dragão, ou devo dizer, dragoa, rugiu e cuspiu fogo e desorganizou a tropa inimiga, fazendo com que os monstros se desesperassem e batessem em retirada. A dragoa fez que ia perseguir os monstros, cuspiu mais um jato de fogo dourado, e então mais um clarão colorido, e de repente surgiu na destrambelhada multidão de costesões, hóspedes e soldados uma hóspede nova, estrangeira, alta, que de repente estava vestida com roupas muito comuns e sorria meio desconfortável, tentando desviar a atenção e parecer tão comum que ninguém jamais a confundiria com uma feiticeira! No meio da confusão, ela conseguiu se disfarçar por um tempo, conversar com algumas pessoas, e conforme as coisas iam se organizando, até trocar cumprimentos desajeitados com a outra rainha, que ainda estava tentando entender o que se passara. Porém aos poucos o grupo de pessoas foi se dando conta de que a estranha mulher não estivera ali um segundo antes, e uma suspeita foi se alastrando. A sorte foi que a essa altura a Rainha Dragão já conseguira recompôr suas magias e reencontrar seu marido, e assim, sutilmente, ela passou por trás de algumas pessoas e -- desapareceu. E de novo seu marido tinha um presente para oferecer à sua anfitriã, quando ela se recompusesse. Dada a confusão e a vergonha que era ter seus hóspedes atacados, a rainha aceitou o presente com exagerada gratidão, prometendo nunca tirá-lo do pescoço, em nome de uma prolongada amizade entre os reinos. Assim o marido da rainha Dragão voltou para casa trazendo alguns presentes e transformado temporariamente no novo rei do castelo de Galilud, e como novo Rei ele cuidou do castelo, das pessoas, dos bichos, das bromélias e das árvores por vários bons anos (ainda que um pouco solitários em alguns momentos) enquanto sua Rainha presenciava encontros e cerimônias, viagens diplomáticas e visitas de lazer, e, ainda mais importante, conferências com magos de todos os lugares, que lhes mostravam segredos e maravilhas que nenhum outro mago na terra haveria de ver.
palavra por palavra, procuro chegar, devagar, ao lugar de La Loba.
"O silêncio", disse o griot,"só é escuro no começo..."
Mostrando postagens com marcador la cantadora. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador la cantadora. Mostrar todas as postagens
sábado, 14 de fevereiro de 2015
sexta-feira, 24 de outubro de 2014
Quzstões sobre a caatinga
Quando fomos pro curso de probabilidade, num pequeno grupo de amigos, em outra cidade, nos organizamos mais ou menos numa república. Rapidamente, como acontece em repúblicas de amigos, desvolvemos uma unidade peculiar, hábitos próprios e piadas internas. Nos últimos dias decidimos que nossa apresentação final ia ficar melhor se incluíssemos uma seção piada sobre os membros do grupo, e nos vestíssemos com um uniforme. Encomendamos os uniformes, que eram essencialmente pijamas laranja-e-brancos com orelhinhas e coisas do gênero, feitos de tricô (aparentemente havia uma empresa na cidade que fazia tricô por encomenda, bastava mandar um desenho do padrão desejado que em menos de uma semana ficava pronto). Nossa apresentação ia incluir uma sessão de perguntas humorísticas sobre a especialidade de cada membro do grupo. No dia, montamos um projetos de slides na sala da república, e nossos professores, colegas, mães e amigas das mães sentaram em pufs e cadeiras de praias e talvez caideiras de balanço que havíamos pegado por aí. No fim da apresentação vieram as pergunas: uma pergunta sobre linhas de trem pro engenheiro, sobre resistência dos materias, sobre fissão nuclear pro físico, essas coisas. Decidiram que minha especialidade era biologia, e me fizeram a seguinte pergunta:
"Por que é que na caatinga o gato do mato, em vez de ser grande e fofo como a maior parte do felinos, tem aquela cara feia de bicho mau?"
(Não me lembro os termos exatos, mas acho que aproxima bem)
Me lembro que haviam me avisado que haveria ima pergunta sobre a caatinga, mas eu não aproveitara pra estudar o ecossistema. Eu nem sabia se na caatinga havia gatos do mato (aparentemente não só eles existem, como são absolutamente adoráveis e estão em extinção, como na verdade o eossistema inteiro: <a href:"http://www.pensamentoverde.com.br/meio-ambiente/fauna-brasileira-especies-em-extincao-na-caatinga/">olha só</a>). Então o que eu fiz? Enrolei pra caralho. Eu comecei a explicar que a caatinga sendo um ambiente desértico (??) não consegue sustentar predadores grandes como um leão fofo; aí decidi voltar pra base e explicar o conceito de produtividade primária, cadeia trófica, blablabla; aí me cortaram falando "mas a pergunta era sobre a cara feia do gato da caatinga!" Aí eu n sabia nada sobre esse gato, mas imaginei que ele devia parecer uma raposa, com umas sobrancelhas enormes, e comecei a delirar sobre as sobrancelhas enormes serem uma coisa que protege os olhos dele da poeira, e outras bobagens do gênero. Depois a Chris disse que tava gostando que eu tinha tentado explicar tudinho detalhadamente, a partir do começo; então eu voltei a falar de biomassa e fotossíntese e essas coisas todas.
Aí eu acordei.
sábado, 23 de agosto de 2014
Conseqüência
Ontem eu assisti Maleficent, que foi a surpresa cinematográfica mais agradável dos... Hm possivelmente de toda a minha vida. Talvez o relato a seguir seja conseqüente disso.
---
O Condado era habitado majoritariamente por hobbits e saiajins, que viviam em perfeita paz e harmonia; porém, nas baías e istmos ao sul (que pareciam suspeitamente com a Cajaíba) haviam muitas comunidades de fadas, unicórnios, cavalos mágicos voadores, animais falantes e outras criaturas maravilhosas. As pessoas das cidades humanóides do Condado nem sempre acreditavam na existência dessas criaturas, muito embora elas visitassem suas cidades, às vezes passando despercebidas e influenciando suas vidas em segredo, outras lançando encantos e maldições desses que dão origem a contos de fadas. Mas vocês sabem que hobbits não são muito chegados a ter aventuras acontendo com eles. E os saiajins por seu lado não conseguiam entender a natureza pacífica e fabulosa das criaturas-fadas.
Mas tudo mudou quando grandes furacões e tempestades surgiram no Mar do Sul, derrubando árvores e casas e destruindo os lares das criaturas-fadas. Ondas gigantes carregavam pequenos animais para o mar aberto, morros desmoronavam sobre comunidades indefesas, e só sobreviveram aquelas criaturas que conseguiram escapar para as regiões mais centrais do Condado. Eu ajudei como pude, investindo todas as minhas energias em trazer duas criaturas queridas, uma égua alada (ou talvez fosse Asa Dourada?) e um centauro jovem que podia ter asas em seu dorso se precisasse (talvez um Unicórnio de Ziget?). Eles usaram suas asas para nos levar à frente das ondas terríveis. Durante o percurso muitas vezes tivemos que nos segurar uns nos outros; uma vez eu tive que agarrar o Unicórnio pelas duas mãos e puxá-lo com toda a força para que ele não fosse engolido por um abismo de onde um vento terrível o puxava para trás. Quando finalmente escapamos das ondas, eu ordenei que ele se livrasse das asas, porque os ventos poderiam levantá-lo por elas assim como uma tempestade destrói as velas de um navio no mar. A pégaso recolheu as suas o melhor que pôde, e seguimos juntos enquanto eu chamava todos os animais falantes com quem cruzávamos, afinal sobreviveríamos juntos. Conseguimos nos abrigar em uma cidade onde algumas construções mais resistentes abrigavam os sobreviventes -- porque as tempestades havia fustigado todo o Condado, e os hobbit (e saiajins) também haviam sofrido. Os sobreviventes eram poucos, e as instituições haviam ruído; todos se abrigavam num grande prédio que talvez tivesse sido um colégio ou uma universidade, e alguns homens mais velhos tentavam estabelecer regras e um comando que desse estrutura à sociedade. Por outro lado, alguns saiajins jovens, avessos à ordem, decidiram que, na falta de uma polícia para impôr conseqüências ao seus atos, eles podiam fazer quais maldades eles quisessem, e formaram uma gangue que aterrorizava e abusava dos outros sobreviventes. Por nossa vitalidade e experiência eu e meus colegas rapidamente nos tornamos um substituro precário de uma força policial, enfrentando e afinal capturando esses delinqüentes quando eles tentaram nos atacar. Nós levamos eles às salas de aula onde as pessoas tentavam estabelecer conselhos improvisados, e discutimos como fazê-los parar de atormentar as pessoas mesmo depois que soltássemos suas algemas (afinal não poderíamos manter nossos únicos adolescentes saiajins sob custódia permanente).
Outro problema era que os cidadãos se recusavam a acreditar na existência das criaturas-fadas que chegavam à cidade. Mais de uma vez um hobbit incrédulo veio questionar minha sanidade por eu estar conversando com meus amigos. Logo nas primeiras horas depois de chegarmos eu localizei um pequeno conselho em um antigo auditório: cinco ou seis pessoas que haviam tido certa influência tentavam discutir quais atitudes tomariam. Eu me juntei à discussão e assim que eles aceitaram minha autoridade eu chamei à palavra um líder dos roedores, um senhorzinho roedor de bastante idade, sabedoria e experiência. A reação dos conselheiros foi de choque e incredulidade, pois o meu companheiro saiu de debaixo de uma mesa e escalou os móveis com suas patas ágeis para discutir face a face comigo o futuro dos nossos povos. Alguns hobbits se revoltaram, decidindo que eu era uma pessoa louca por falar com ratos, mas a atitude serena e indubitavelmente compreensiva do meu companheiro acabou convencendo-os de que ele era um líder tão inteligente e capacitado quanto cada um de nós, e que o povo dele era tão racional quanto o nosso (senão mais). Ao longo dos dias mais e mais vezes ouvi hobbits e saiajins incrédulos por eu estar falando com bichos, mas todos eles acabavam aceitando a presença dos animais falantes. Havia porém uma porção dos cidadãos que era contrária a presença dos animais falantes na cidade, e esses queriam caçar meus companheiros, talvez até organizar grupos de caça. Por causa disso, tive que me dedicar a proteger as vidas deles, e me tornei uma espécie de intermédio militar entre os dois povos, enquanto o líder roedor se estabelecia como uma influência política. Eu tenho certeza que a longo prazo conseguiremos reerguer esta cidade com um povo misto de humanóides e criaturas fadas. Ainda não tivemos notícias do resto do Condado, mas, quem sabe? Talvez haja outras cidades, com mais sobreviventes, e talvez essa tragédia dê início a uma nova era de convivência entre os povos.
segunda-feira, 2 de junho de 2014
Melketh
Um dia um esporo caiu numa poça dágua e começou a germinar.
Uma haste alta de ergueu acima da água e duas cépalas enormes se estenderam da ponta.
Nas cépalas estavam desenhadas duas histórias paralelas, parecidas em alguns aspectos, muito diferentes em outros. Numa delas havia um cavalo branco chamado Lucas, em outra havia um grifo negro chamado Matheus, e coisas assim. Uma dessas histórias era sobre um rapaz. Esse rapaz se transportou para outro mundo e se transformou em quinze pessoas diferentes. Mas cada vez que essas pessoas se separavam, elas começavam a se divdir em outras pessoas, cada vez mais diversas, até que o rapaz era metade da população de um mundo, um mundo muito grande, muito complexo. Nesse mundo as pessoas que eram o rapaz às vezes se recenheciam brevemente, como pessoas que se reconhecem num sonho, sem querer sabendo que aquela pessoa é importante, mas sem saber porquê, ou de repente sabendo o nome dela sem perguntar; essas pessoas se atraíam e se juntavam, mas elas não sabiam que elas eram a mesma pessoa, porqe elas eram tão diferentes. Às vezes uma delas estava pegando um ônibus numa cidade do interior, e quando olhava através do corredor encontrava uma mulher de meia idade que lhe chamava a atenção, alguma coisa no olhar dela, ou no cabelo, lhe dizia que ela pertencia à sua tribo. Essas pessoas viviam sem se conhecer exatamente, mas sabendo que elas pertenciam a alguma coisa, que elas eram iguais e que, se chegasse o dia, elas se ajudariam e lutariam juntas umas pelas outras. Às vezes elas se uniam, em pequenos grpos de amigos ou de amores. Elas se uniam e tinham filhos. Elas levavam a vida, se sentindo ao mesmo tempo desconectadas, como se houvesse algo faltando no mundo o tempo todo, e unidas, como se somente aquelas pessoas, as pessoas mais próximas e aquelas pessoas desconhecidas que também pareciam tão próximas, pudessem compartilhar o qe elas viviam e sentiam e eram. O resto do mundo inteiro parecia estranho e alienígena. Essas pessoas nunca se sentiam realmente confortáveis, porque no fundo elas sentiam a dor de estarem vivendo tão separadas e incompletas. Mas, por outro lado, apenas por estarem separadas é que elas podiam ser tudo aquilo, toda aqela diversidade de coisas tão diferentes e contraditórias, e saber todas aquelas coisas diferentes, e viver todas aquelas vidas diversas. Ser um milhão de pessoas ao mesmo tempo, era difícil, mas elas viviam coisas que uma única pessoa nunca poderia viver. A paz e a felicidade que seria ser uma coisa só e una era compensada pelas incontáveis aventuras e experiências, pela diversidade de sentimentos. Cada pequena sensação, como a beleza daquela luz de fim de tarde que dora ligeiramente o adorno de uma cadeira de um bar de uma esquina, tinha uma aura, uma importância; era sagrado, de certa forma, porque era visto através do sacrifício dessa paz. Essas pessoas sentiam que tinham uma missão na vida, muito embora nunca soubessem exatamente qual. Quase nunca dedicavam sas vidas completamente a um grande objetivo (como viam algumas pessoas externas fazerem), porque seus corações estavam demais envolvidos em apreciar toda a beleza do mundo, e construir o mundo, e às vezes se espalhar e se tornar ainda mais pessoas, com gostos e qualidades e características diferentes, novas, que só seriam possíveis naquele instante, naquele lugar. E essas pessoas mudavam, e adoravam mudar; mas sentiam também uma perda, uma dor de abandonar o que eram antes, como se isso fosse cortar fora uma parte de si mesmo. Mas o rapaz mudava, e se dividia, e se distraía, e se apaixonava, e todas essas coisas eram ele ao mesmo tempo. No final, ele voltou para casa, mas ao chegar lá ele percebeu que se sentia vazio, e sozinho, e que as pessoas pareciam estranhas, e distantes, e que ele não consegia realmente se conectar com elas... Aos poucos ele notou que ele não voltara realmente, e sim que ele se divdira mais e mais até se tornar, em parte, ele mesmo; e que apenas essa parte voltara, e que essa parte estava em casa, no seu mundo, e que nenhuma das outras pessoas era ele, e que todas as outras pessoas eram estranhas e externas e feitas de pedaços de outras pessoas diferentes dele. E ele começou a se esforçar para enxergar no seu mundo as mesmas pequenas beleza -- o sol e o vento e os pequenos detalhes das cascas de árvore e das frases que os padeiros usam nas padarias -- e algumas, às vezes, lhe lembravam um pouco de coisas que ele havia visto no outro mundo... mas algumas eram novas, e eram lindas mesmo assim, e ele tentava se dividir e se tornar muitas pessoas para melhor apreciar todas essas coisas, mas não conseguia. Ele tentou voltar para o outro mundo, mas também não conseguiu. Então, ele continuou vivendo, ainda desconectado e sozinho, tentando o melhor que podia apreciar toda a diversidade do mundo sendo apenas uma pessoa, um aspecto de si mesmo.
A outra história era a minha história.
Uma haste alta de ergueu acima da água e duas cépalas enormes se estenderam da ponta.
Nas cépalas estavam desenhadas duas histórias paralelas, parecidas em alguns aspectos, muito diferentes em outros. Numa delas havia um cavalo branco chamado Lucas, em outra havia um grifo negro chamado Matheus, e coisas assim. Uma dessas histórias era sobre um rapaz. Esse rapaz se transportou para outro mundo e se transformou em quinze pessoas diferentes. Mas cada vez que essas pessoas se separavam, elas começavam a se divdir em outras pessoas, cada vez mais diversas, até que o rapaz era metade da população de um mundo, um mundo muito grande, muito complexo. Nesse mundo as pessoas que eram o rapaz às vezes se recenheciam brevemente, como pessoas que se reconhecem num sonho, sem querer sabendo que aquela pessoa é importante, mas sem saber porquê, ou de repente sabendo o nome dela sem perguntar; essas pessoas se atraíam e se juntavam, mas elas não sabiam que elas eram a mesma pessoa, porqe elas eram tão diferentes. Às vezes uma delas estava pegando um ônibus numa cidade do interior, e quando olhava através do corredor encontrava uma mulher de meia idade que lhe chamava a atenção, alguma coisa no olhar dela, ou no cabelo, lhe dizia que ela pertencia à sua tribo. Essas pessoas viviam sem se conhecer exatamente, mas sabendo que elas pertenciam a alguma coisa, que elas eram iguais e que, se chegasse o dia, elas se ajudariam e lutariam juntas umas pelas outras. Às vezes elas se uniam, em pequenos grpos de amigos ou de amores. Elas se uniam e tinham filhos. Elas levavam a vida, se sentindo ao mesmo tempo desconectadas, como se houvesse algo faltando no mundo o tempo todo, e unidas, como se somente aquelas pessoas, as pessoas mais próximas e aquelas pessoas desconhecidas que também pareciam tão próximas, pudessem compartilhar o qe elas viviam e sentiam e eram. O resto do mundo inteiro parecia estranho e alienígena. Essas pessoas nunca se sentiam realmente confortáveis, porque no fundo elas sentiam a dor de estarem vivendo tão separadas e incompletas. Mas, por outro lado, apenas por estarem separadas é que elas podiam ser tudo aquilo, toda aqela diversidade de coisas tão diferentes e contraditórias, e saber todas aquelas coisas diferentes, e viver todas aquelas vidas diversas. Ser um milhão de pessoas ao mesmo tempo, era difícil, mas elas viviam coisas que uma única pessoa nunca poderia viver. A paz e a felicidade que seria ser uma coisa só e una era compensada pelas incontáveis aventuras e experiências, pela diversidade de sentimentos. Cada pequena sensação, como a beleza daquela luz de fim de tarde que dora ligeiramente o adorno de uma cadeira de um bar de uma esquina, tinha uma aura, uma importância; era sagrado, de certa forma, porque era visto através do sacrifício dessa paz. Essas pessoas sentiam que tinham uma missão na vida, muito embora nunca soubessem exatamente qual. Quase nunca dedicavam sas vidas completamente a um grande objetivo (como viam algumas pessoas externas fazerem), porque seus corações estavam demais envolvidos em apreciar toda a beleza do mundo, e construir o mundo, e às vezes se espalhar e se tornar ainda mais pessoas, com gostos e qualidades e características diferentes, novas, que só seriam possíveis naquele instante, naquele lugar. E essas pessoas mudavam, e adoravam mudar; mas sentiam também uma perda, uma dor de abandonar o que eram antes, como se isso fosse cortar fora uma parte de si mesmo. Mas o rapaz mudava, e se dividia, e se distraía, e se apaixonava, e todas essas coisas eram ele ao mesmo tempo. No final, ele voltou para casa, mas ao chegar lá ele percebeu que se sentia vazio, e sozinho, e que as pessoas pareciam estranhas, e distantes, e que ele não consegia realmente se conectar com elas... Aos poucos ele notou que ele não voltara realmente, e sim que ele se divdira mais e mais até se tornar, em parte, ele mesmo; e que apenas essa parte voltara, e que essa parte estava em casa, no seu mundo, e que nenhuma das outras pessoas era ele, e que todas as outras pessoas eram estranhas e externas e feitas de pedaços de outras pessoas diferentes dele. E ele começou a se esforçar para enxergar no seu mundo as mesmas pequenas beleza -- o sol e o vento e os pequenos detalhes das cascas de árvore e das frases que os padeiros usam nas padarias -- e algumas, às vezes, lhe lembravam um pouco de coisas que ele havia visto no outro mundo... mas algumas eram novas, e eram lindas mesmo assim, e ele tentava se dividir e se tornar muitas pessoas para melhor apreciar todas essas coisas, mas não conseguia. Ele tentou voltar para o outro mundo, mas também não conseguiu. Então, ele continuou vivendo, ainda desconectado e sozinho, tentando o melhor que podia apreciar toda a diversidade do mundo sendo apenas uma pessoa, um aspecto de si mesmo.
A outra história era a minha história.
sexta-feira, 20 de dezembro de 2013
Sonho dahora
Hoje eu tive um daqueles sonhos animais que só acontecem quando a pessoa escritora dentro de mim resolve acordar e escrever meus sonhos. Obrigado, Ho-w.
Na primeira cena de que me lembro, eu e alguns amigs estávamos invadindo uma mega-mansão, dessas com salas do tamanho de duas casas, muitos quartos, tapetes, sofás enormes, TVs enormes e móveis de madeira maciça e tal, além de uma área externa fantástica, com varandas, cadeiras de sol, e uma piscina do tamanho de mais uma casa ou duas. Nós entramos quebrando as fechaduras e sem nenhuma preocupação com os alarmes, e exploramos o primeiro e o segundo andar (onde ficavam as suítes luxuosas com camas king-size e banheiros do tamaho do quarto) antes de decidirmos só nos jogarmos na piscina. Claro que o alarme começou a tocar, mas continuamos nadando e nos divertindo porque a água estava ótima. A piscina ficava do lado de um jardim lateral e depois dele tinha um portão gigantesco de grade, de onde dava pra ver a rua tranqüila. Eu entrei na cozinha pra pegar uma água ou algo assim e o telefone começou a tocar -- era a dona da casa, e ela logo percebeu que eu não era da família e chamou a políca.
Eu voltei pra piscina pra chamar a galera pra ir embora, mas a galera tava se divertindo demais. Eu dei mais um mergulho na piscina (eu queria atravessar a piscina por baixo dágua como sempre faço, mas no meio do pulo lembrei que estava com minhas roupas secas na mão e isso atrapalhou tudo), e a polícia chegou, vestida de verde e boné como no exército, correndo e gritando pra pegar a gente. Todos saímos correndo e fugindo da piscina - eu saí pelo fundo, correndo em direção ao portão, e consegui pular no portão e estava atravessando entre as grades, mas o cara que estava me perseguindo me pegou nessa hora. Aí tudo ficou diferente. O cara que estava me perseguindo, um policial todo bonito e gostoso e que já tinha perdido o boné, era um velho conhecido meu e em vez de me prender, ele deu um sorriso pra mim (wtf?), eu beijei ele na boca e perguntei o que ia rolar agora, ele me mandou segurar bem minhas mochilas e me puxou pelo braço, correndo tão rápido que eu literalmente não conseguia encostar no chão (essa coisa do bad-guy ser meu velho amigo e amante me lembra muito as histórias que eu inventava aos treze anos. Ho-w, vc não mudou em nada, gats).
Nessa parte acho que tinha dois "policiais" me puxando, e as mochilas que eu carregava tinham cada uma uma espada animal com uma bainha muito loca que tinha o mesmo padrão do cabo. Aconteceram umas coisas confusas, nós nos perdemos, quase perdi as mochilas várias vezes, acho que um doa policiais se perdeu tb, e o sonho foi ficando bizarro.
Aí eu estava procurando por um dos caras (n tenho certeza se eram ainda os "policiais") que tinha se perdido da gente, o Bryan, que era um cara bonitinho com rosto redondo e cabelo preto meio no rosto assim. E ele tinha superpoderes, mas n lembro quais. Eu fui pedir ajuda pro outro bróder (que talvez fosse o policial bonitão?) que (usem sua imaginação de anime aqui) era color-coded cinza, e tinha cabelos compridos e cinzas, ou talvez fossem grandes orelhas cinzas pq eu fico pensando nele como um coelho apesar de supostamente ser humano. Ele tava num lugar que era uma loja de quadrinhos ou antro nerd ou restaurante japonês com aquelas salinhas com mesas baixas e almofadas, e ele tinha uma vibe de Japão de modo geral. Eu pedi ajuda pra ele e passamos na frente de uma mesinha cheia de miniaturas e uma parecia um super-saiajin nível 3 Vegeta com aquele cabelo compridão cinza e eu perguntei "Isso aqui era pra ser você?" e ele meio que riu e deu de ombros pq era sim, mas fazer o quê.
Então ele disse que eu precisava ir conversar com aqueles cachorros vadios que estavam dormindo ao longo da calçada do outro lado da rua, e que pra me ajudar ele ia me dar os poderes dele (ôbaaa adoro quando me dão mais poderes!). Ele fez alguma coisa, acho que soprou na minha boca ou algo assim, e eu ganhei os poderes dele; mas também ganhei outras características dele, por isso agora eu precisava fumar um charuto estorado cujo gosto não parecia em nada com o de charutos ou coisas de fumar em geral.
Eu fiquei de quatro e galopei até os cachorros, que agora eu enxergava como se fossem pessoas, provavelmente pq eu tinha virado um cachorro. Andar de quatro ela confortável. Os cachorros estavam todos batendo papo uns com os outros e quando eu perguntei do Bryan eles falaram pra eu ir falar com aquele grupinho ali do lado, mais pro canto do grupo de cachorros; eu olhei pra lá e vi que tinha uma rodinha de meus amigos, Erica, Pizza, Iara, Renex, Lulão estavam lá, assim como um guri que parecia o Bryan! Eu corri até eles e batemos um papo, eles me perguntaram sobre o charuto e eu expliquei, mas o cara que parecia o Bryan na verdade era o Oka, ou o Cid, ou uma mistura dos dois. De qualquer forma OkaCid não era o Bryan, mas agora eu sabia que Bryan parecia o OkaCid.
Nessa hora eu acho que acordei e voltei a dormir, por isso o sonho não tem continuidade e eu esqueci um bom pedaço no qual eu lutava com pessoas e usava meus poderes lupinos e tal.
De repente nós estávamos numa escola (minha escola de primário) e precisávamos aprender os poderes, que eram sete, ou nove, algum número mágico assim. Um dos caras que tinham poderes era o cara cinza, inclusive. Mas eu tinha uma vantagem porque eu já tinha os meus poderes inatos de lobo (que é só uma coisa que eu tenho, não pergunte).
Só que os poderes eram muito diferentes do normal, eram mais poderes de invocação do que de transformação, que é mais normal. Por exemplo, quando estávamos no nosso bote que andava pelas ruas da cidade e uns caras do mal tentaram pegar a gente, eu invoquei uns lobinhos que pularam em cima deles. Quando o normal obviamente seria eu virar um lobão e pular em cima deles.
O primeiro professor que ia ensinar poderes pra gente era o do poder de eletrônica. Eu não sei por que tinha um poder de eletrônica, acho que porque eu passei os últimos dias completamente imerso em eletrônica (no mundo real, não no sonho). Então esse cara tinha o poder se invocar uns circuitos elétricos e uns robozinhos, que às vezes ficavam invisíveis quando ele meio que parava de invocar eles completamente. Ele quis fazer um teste com a turma e eu me voluntariei, e seguiu-se uma luta entre eu e ele, na qual ele criava e adaptava seus robozinhos voadores (eles tinham umas hélices na cabeça) e eu me defenda e atacava os robozinhos com aquela minha espada dahora e com meus dedos transformados em garras e com lobinhos invocados.
Eu não me lembro muito do final do sonho, mas acho que acordei antes do final da luta.
Na primeira cena de que me lembro, eu e alguns amigs estávamos invadindo uma mega-mansão, dessas com salas do tamanho de duas casas, muitos quartos, tapetes, sofás enormes, TVs enormes e móveis de madeira maciça e tal, além de uma área externa fantástica, com varandas, cadeiras de sol, e uma piscina do tamanho de mais uma casa ou duas. Nós entramos quebrando as fechaduras e sem nenhuma preocupação com os alarmes, e exploramos o primeiro e o segundo andar (onde ficavam as suítes luxuosas com camas king-size e banheiros do tamaho do quarto) antes de decidirmos só nos jogarmos na piscina. Claro que o alarme começou a tocar, mas continuamos nadando e nos divertindo porque a água estava ótima. A piscina ficava do lado de um jardim lateral e depois dele tinha um portão gigantesco de grade, de onde dava pra ver a rua tranqüila. Eu entrei na cozinha pra pegar uma água ou algo assim e o telefone começou a tocar -- era a dona da casa, e ela logo percebeu que eu não era da família e chamou a políca.
Eu voltei pra piscina pra chamar a galera pra ir embora, mas a galera tava se divertindo demais. Eu dei mais um mergulho na piscina (eu queria atravessar a piscina por baixo dágua como sempre faço, mas no meio do pulo lembrei que estava com minhas roupas secas na mão e isso atrapalhou tudo), e a polícia chegou, vestida de verde e boné como no exército, correndo e gritando pra pegar a gente. Todos saímos correndo e fugindo da piscina - eu saí pelo fundo, correndo em direção ao portão, e consegui pular no portão e estava atravessando entre as grades, mas o cara que estava me perseguindo me pegou nessa hora. Aí tudo ficou diferente. O cara que estava me perseguindo, um policial todo bonito e gostoso e que já tinha perdido o boné, era um velho conhecido meu e em vez de me prender, ele deu um sorriso pra mim (wtf?), eu beijei ele na boca e perguntei o que ia rolar agora, ele me mandou segurar bem minhas mochilas e me puxou pelo braço, correndo tão rápido que eu literalmente não conseguia encostar no chão (essa coisa do bad-guy ser meu velho amigo e amante me lembra muito as histórias que eu inventava aos treze anos. Ho-w, vc não mudou em nada, gats).
Nessa parte acho que tinha dois "policiais" me puxando, e as mochilas que eu carregava tinham cada uma uma espada animal com uma bainha muito loca que tinha o mesmo padrão do cabo. Aconteceram umas coisas confusas, nós nos perdemos, quase perdi as mochilas várias vezes, acho que um doa policiais se perdeu tb, e o sonho foi ficando bizarro.
Aí eu estava procurando por um dos caras (n tenho certeza se eram ainda os "policiais") que tinha se perdido da gente, o Bryan, que era um cara bonitinho com rosto redondo e cabelo preto meio no rosto assim. E ele tinha superpoderes, mas n lembro quais. Eu fui pedir ajuda pro outro bróder (que talvez fosse o policial bonitão?) que (usem sua imaginação de anime aqui) era color-coded cinza, e tinha cabelos compridos e cinzas, ou talvez fossem grandes orelhas cinzas pq eu fico pensando nele como um coelho apesar de supostamente ser humano. Ele tava num lugar que era uma loja de quadrinhos ou antro nerd ou restaurante japonês com aquelas salinhas com mesas baixas e almofadas, e ele tinha uma vibe de Japão de modo geral. Eu pedi ajuda pra ele e passamos na frente de uma mesinha cheia de miniaturas e uma parecia um super-saiajin nível 3 Vegeta com aquele cabelo compridão cinza e eu perguntei "Isso aqui era pra ser você?" e ele meio que riu e deu de ombros pq era sim, mas fazer o quê.
Então ele disse que eu precisava ir conversar com aqueles cachorros vadios que estavam dormindo ao longo da calçada do outro lado da rua, e que pra me ajudar ele ia me dar os poderes dele (ôbaaa adoro quando me dão mais poderes!). Ele fez alguma coisa, acho que soprou na minha boca ou algo assim, e eu ganhei os poderes dele; mas também ganhei outras características dele, por isso agora eu precisava fumar um charuto estorado cujo gosto não parecia em nada com o de charutos ou coisas de fumar em geral.
Eu fiquei de quatro e galopei até os cachorros, que agora eu enxergava como se fossem pessoas, provavelmente pq eu tinha virado um cachorro. Andar de quatro ela confortável. Os cachorros estavam todos batendo papo uns com os outros e quando eu perguntei do Bryan eles falaram pra eu ir falar com aquele grupinho ali do lado, mais pro canto do grupo de cachorros; eu olhei pra lá e vi que tinha uma rodinha de meus amigos, Erica, Pizza, Iara, Renex, Lulão estavam lá, assim como um guri que parecia o Bryan! Eu corri até eles e batemos um papo, eles me perguntaram sobre o charuto e eu expliquei, mas o cara que parecia o Bryan na verdade era o Oka, ou o Cid, ou uma mistura dos dois. De qualquer forma OkaCid não era o Bryan, mas agora eu sabia que Bryan parecia o OkaCid.
Nessa hora eu acho que acordei e voltei a dormir, por isso o sonho não tem continuidade e eu esqueci um bom pedaço no qual eu lutava com pessoas e usava meus poderes lupinos e tal.
De repente nós estávamos numa escola (minha escola de primário) e precisávamos aprender os poderes, que eram sete, ou nove, algum número mágico assim. Um dos caras que tinham poderes era o cara cinza, inclusive. Mas eu tinha uma vantagem porque eu já tinha os meus poderes inatos de lobo (que é só uma coisa que eu tenho, não pergunte).
Só que os poderes eram muito diferentes do normal, eram mais poderes de invocação do que de transformação, que é mais normal. Por exemplo, quando estávamos no nosso bote que andava pelas ruas da cidade e uns caras do mal tentaram pegar a gente, eu invoquei uns lobinhos que pularam em cima deles. Quando o normal obviamente seria eu virar um lobão e pular em cima deles.
O primeiro professor que ia ensinar poderes pra gente era o do poder de eletrônica. Eu não sei por que tinha um poder de eletrônica, acho que porque eu passei os últimos dias completamente imerso em eletrônica (no mundo real, não no sonho). Então esse cara tinha o poder se invocar uns circuitos elétricos e uns robozinhos, que às vezes ficavam invisíveis quando ele meio que parava de invocar eles completamente. Ele quis fazer um teste com a turma e eu me voluntariei, e seguiu-se uma luta entre eu e ele, na qual ele criava e adaptava seus robozinhos voadores (eles tinham umas hélices na cabeça) e eu me defenda e atacava os robozinhos com aquela minha espada dahora e com meus dedos transformados em garras e com lobinhos invocados.
Eu não me lembro muito do final do sonho, mas acho que acordei antes do final da luta.
sexta-feira, 6 de dezembro de 2013
Das coisas que nos souberam bem
Aqui estamos, e somos onze. Onde dos quinze que partiram. Onze dentre todos os que se dispuseram.
A Letra.
A Faca.
O broche e a chave.
A pata.
O pingente.
A máscara.
O laço.
O cinto.
O Giz.
O focinho.
O pedal.
E o escudo.
Nós nos voltamos para o passado. Nós perguntamos sobre o passado. A Letra se imprime sobre a Pele do passado. Nossos olhos são espelhos que distorcem a luz do passado. Nós somos lentes. Nós escrevemos.
Um de nós se ergue sobre duas pernas. Um de nós renega nosso antigo nome. Um de nós desce de seu cavalo e corta suas tranças e as joga sobre o chão onde pisa. Um de nós ergue-se novamente.
O Focinho se ergue em direção a ele. Um de nós acaricia o focinho e o abandona. Um de nós abandona nosso antigo nome.
Uma de nós se levanta em oposição a ele. Um de nós oferece seu corpo para a faca, que ela marque seu corpo e o submeta. A Faca o corta. Uma de nós marca nele nosso indelével nome. Um de nós sangra e se reconstitue. A Faca e o Escudo são idênticos. Nossos olhos são espelhados e refletem imagens idênticas, um macho pequeno e coberto de sangue e uma fêmea grande e coberta de sangue. Um de nós ajoelha-se e uma de nós o abraça. Mas por fim se separam. Um de nós apaga nosso único nome.
Somos múltiples. A Máscara o veste e mostra nossa História. A Letra se escreve e conta nossa História. Um de nós aceita em reclusão. A caverna de nossa História é escura e longa e suas paredes contam de muitas coisas. Um de nós ouve em atenção. Nós o mandaremos como nosso mensageiro e como nosso cônsul, para os domínios que nossas vozes falham em alcançar. Nós o mandaremos ao passo em que ele se manda, fugido de nós.
O Focinho o morde.
A Pata o sagra. Uma de nós o olha nos olhos e o absolve e condena. Uma de nós lhe dá uma missão. Uma de nós o ama e o fertiliza, para que ele chegue prenhe ao seu universo. A Máscara o abençoa e o compreende. O Broche e a Chave o vestem e o ornam, mas ele os guarda numa caixa de madeira. Um de nós despe-se e se apresenta nu. O pingente transforma-se e o protege. Um de nós agradece.
O Cinto e o Giz transformam-se em objetos para que um de nós o use. Mas ele os guarda também, em silêncio. Ele os usará quando for a hora.
Finalmente, o Laço o abraça. A Letra abre seu livro e o Laço chama através dele todas as vozes que precisam se ouvir presentes. Um de nós toca cada um de nós em respeito, amor e premonição. Estamos no fim da caverna e há paisagens lá fora. Todas nós nos agrupamos na beirada da caverna. As paisagens nos perturbam e nos confundem. Nós nem sempre podemos transitar no mundo lá fora.
Uma de nós dá alguns passos para fora e invoca o Futuro. Nossos deuses sussuram como árvores balançadas pelo vento.
Um de nós começa sua jornada.
A Letra.
A Faca.
O broche e a chave.
A pata.
O pingente.
A máscara.
O laço.
O cinto.
O Giz.
O focinho.
O pedal.
E o escudo.
Nós nos voltamos para o passado. Nós perguntamos sobre o passado. A Letra se imprime sobre a Pele do passado. Nossos olhos são espelhos que distorcem a luz do passado. Nós somos lentes. Nós escrevemos.
Um de nós se ergue sobre duas pernas. Um de nós renega nosso antigo nome. Um de nós desce de seu cavalo e corta suas tranças e as joga sobre o chão onde pisa. Um de nós ergue-se novamente.
O Focinho se ergue em direção a ele. Um de nós acaricia o focinho e o abandona. Um de nós abandona nosso antigo nome.
Uma de nós se levanta em oposição a ele. Um de nós oferece seu corpo para a faca, que ela marque seu corpo e o submeta. A Faca o corta. Uma de nós marca nele nosso indelével nome. Um de nós sangra e se reconstitue. A Faca e o Escudo são idênticos. Nossos olhos são espelhados e refletem imagens idênticas, um macho pequeno e coberto de sangue e uma fêmea grande e coberta de sangue. Um de nós ajoelha-se e uma de nós o abraça. Mas por fim se separam. Um de nós apaga nosso único nome.
Somos múltiples. A Máscara o veste e mostra nossa História. A Letra se escreve e conta nossa História. Um de nós aceita em reclusão. A caverna de nossa História é escura e longa e suas paredes contam de muitas coisas. Um de nós ouve em atenção. Nós o mandaremos como nosso mensageiro e como nosso cônsul, para os domínios que nossas vozes falham em alcançar. Nós o mandaremos ao passo em que ele se manda, fugido de nós.
O Focinho o morde.
A Pata o sagra. Uma de nós o olha nos olhos e o absolve e condena. Uma de nós lhe dá uma missão. Uma de nós o ama e o fertiliza, para que ele chegue prenhe ao seu universo. A Máscara o abençoa e o compreende. O Broche e a Chave o vestem e o ornam, mas ele os guarda numa caixa de madeira. Um de nós despe-se e se apresenta nu. O pingente transforma-se e o protege. Um de nós agradece.
O Cinto e o Giz transformam-se em objetos para que um de nós o use. Mas ele os guarda também, em silêncio. Ele os usará quando for a hora.
Finalmente, o Laço o abraça. A Letra abre seu livro e o Laço chama através dele todas as vozes que precisam se ouvir presentes. Um de nós toca cada um de nós em respeito, amor e premonição. Estamos no fim da caverna e há paisagens lá fora. Todas nós nos agrupamos na beirada da caverna. As paisagens nos perturbam e nos confundem. Nós nem sempre podemos transitar no mundo lá fora.
Uma de nós dá alguns passos para fora e invoca o Futuro. Nossos deuses sussuram como árvores balançadas pelo vento.
Um de nós começa sua jornada.
quarta-feira, 4 de setembro de 2013
Feminilidade à serviço do Machismo (um exemplo claro)
Ontem fui no karaokê para o aniversário do Michel. Foi uma noite muito boa, muito divertida, apesar das muitas coisas muito desgradáveis que ocorreram ao longo da noite. Ocorreram muitas coisas muito desagradáveis, e sinto que todas elas de alguma forma foram culpa do machismo, seja por misoginia seja por hetero(ou mono)normatividade. Mesmo o CreeppyGuy louco que nos atazanou a noite inteira só foi tão incômodo porque ele era tão machista, porque usava termos objetificadores, porque fazia as mulheres se sentirem ameaçadas, porque repetia o comportamento de tantos outros homens machistas e agressores. As coisas que tanto me incomodaram foram na verdade coisas muito normais: apagamento de bissexualidade, coibição de danças homoeróticas (entre dois homens sem nenhum interesse um no outro, olha só), xaveco machista, invasão de espaço pessoal.
Normal. A coisa que me incomodou mais, dadas as circunstâncias, foi a mais normal de todas. As circunstâncias eram que eu tenho cabelo raspado à máquina 2 e estava, ontem, me vestindo e portanto de forma deliberadamente masculina, com calças compridas, coturno e camisa social. Durante as interações com o CreepyGuy (que ganhou esse apelido por nossa amiga americana, Akshata, que foi escolhida por ele como alvo principal por ser gringa), meu comportamento foi se tornando cada vez mais rígido e agressivo. Aproveitando que esse maluco parecia me reconhecer como homem, eu reuni toda minha masculinidade pra ir até ele e pedir pra ele ir embora. No final da noite eu estava sem mais nenhuma paciência.
Nessa hora, eu subo para cantar com Chalom e esse cara desconhecido que queria muito cantar com ele. O cara, que nem conhecia a música, aproveita o tempo para elogiar meu cabelo, passar a mão nele (antes que eu pudesse consentir com isso, é claro) e tentar ganhar minha simpatia. Eu admito que não sei lidar com esse tipo de abordagem "simpática". Eu sorrio, tento me afastar gentilmente, tiro a mão do cara de mim gentilmente, não, não está me ofendendo, só pára com isso, diz meu sorriso embaraçado.
Eu preciso aprender a não sorrir, porque obviamente isso não funciona. O cara finge que acha (porque eu sei que ele não é assim tão ingênuo) que eu estou dando mole. Ele finge que conseguiu minha intimidade. Ele se aproveita do meu sorriso e não-violência para continuar puxando papo, puxando papo com as mãos, tocando meu braço, minhas costas, ele finge que não nota que eu me afasto, que eu corto o assunto, que eu viro a cara e deliberadamente me afasto. Ele dá uns dois minutinhos e vem recomeçar, sempre com as mãos, tocando meu corpo com um sorriso, fingindo que ele está sendo amigável. Normal. Desagradàvelmente, enjoativamente normal. Eu ignoro. Fujo. Meu sorriso vai ficando mais amarelo e as recusas vão ficando mais explícitas, mas é irrelevante, ele (Ele, o Homem, esse personagem que insiste em reaparecer tão freqüentemente em minha vida), Ele sabe ler os meus sinais, ele só finge que não para poder continuar insistindo. Um pouco mais e o cara decide ir embora, isto é, decide se despedir de mim (é claro, ele finge que conquistou minha amizade). Despedir é uma desculpa para tocar mais, com mais liberdade, em especial para dar um beijo no rosto e quem sabe até tentar roubar um canto de lábio. Enojadoramente normal. Ele vem me dar um beijo e eu, eu que já O conheço de muitas outras situações desagradáveis, eu me apoio naquela masculinidade que eu desenvolvi ao longo da noite e estendo a mão, sem hesitar, sem balancear --- Mas ele, acostumado a fingir, finge que houve uma dúvida, finge que foi uma confusão, faz que foi um vai-não-vai, um não-sei-se-ofereço-abraço-ou-beijo, faz que eu dei a mão apenas para me livrar dessa dúvida. Eu não entro no faz-de-conta e mantenho a mão estendida, firme, entre nós. Ele se desaponta por um instante e aperta minha mão como se fosse a mão de uma dama. Eu mudo a posição das mãos e faço um aperto decididamente masculino e afasto o corpo. Ele faz um jogo de corpo, dá um sorriso amigável e diz:
"Você está muito masculinizada!",
como uma reprimenda amigável, um conselho de amigo, aproximando o corpo. Eu endireito o corpo e digo com voz firme: "Me deixa ser masculinizada se eu quiser!" ("me deixa", como se Ele precisasse me permitir qualquer coisa). Ele muda de estratégia rapidamente e diz: "É que eu cumprimento meus amigos assim, com um beijo" e, antes que eu consiga tomar uma atitude, me dá um abraço e um beijo na bochecha. Eu me afasto quase que o empurrando pra longe, não sei se sorrio mas acho que minha cara mostra claramente meus sentimento (não me lembro mesmo), e ele solta a frase da noite:
"Você não é assim!"
e, finalmente, vai embora.
Eu volto para minhas amigas e elas me olham com cara preocupada, o que me garante que tudo foi muito claro pra elas também. Elas me perguntam "quem foi esse cara?!" e "ele disse que você não é assim? Quem é ele pra dizer isso?!". Eu me sinto um pouco melhor, mais em segurança (valeu mil vezes, Keks e Carol!). Eu falo como eu não sei lidar com essas pessoas, que eu não soube quando responder, que ele falou que eu tava muito masculinizada e eu tava com muita raiva. Minha amiga diz que eu podia ter respondido "Eu sou um homem!". Eu fico feliz com a idéia, vou tentar na próxima vez. Porque certamente haverá uma próxima vez.
O pior é que, depois disso, durante o resto da noite eu fiquei notando cada pedacinho de mim que poderia ter atraído esse cara, fiquei pensando que talvez se eu tivesse escondendo os peitos ele nem me reconhecesse como mulher e não viesse atrás de mim, fiquei notando como a calça realça minha bunda de uma forma sexy e pensando em comprar calças masculinas que escondem a bunda, fazendo mil planos de esconder meu corpo para me proteger. Me sentindo ameaçada. E isso por um acontecimento estupidamente normal. Que só foi pior que o normal porque dessa vez eu reagi mais que o normal, talvez. Porque a norma é não reagir. A norma é se submeter, como uma boa menina, ou recorrer ao socorro de machos grandes e ameaçadores. Se mostrar como propriedade deles, para se proteger. Meu namorado me contou que estava batendo papo com esse cara depois e que ele ficou muito confuso e pediu desculpas quando descobriu que eu era namorada dele. Claro, pediu desculpas pra ele. Normal.
E afinal chegamos à moral da história. Eu não contei essa história para falar da agressão dos xavecos, que é uma coisa super comum e que todo mundo já deve saber como é. Eu contei porque ela mostra o quanto alguns preceitos de feminilidade estão a serviço do machismo. O homem em questão deliberadamente tentou evocar a feminilidade como forma de se apropriar de mim, de me controlar para ter acesso ao meu corpo. Ele me acusou de ser muito "masculinizada" quando eu resisti a ele, quando me defendi. A masculinidade aqui era uma muralha entre eu e ele, e ele usou os papéis de gênero para tentar me derrubar. Algumas vezes a "utilidade" dos papéis de gênero parecem coisa de gente que teoriza demais e que vê intencionalidade em coisa que não tem -- mas às vezes, e essa história é um exemplo claríssimo disso, as pessoas usam os papéis de gênero de forma maliciosa, deliberadamente, para controlar o comportamento dos outros em seu favor. A feminilidade obriga uma mulher a sorrir, a ser gentil, a dar beijo no rosto e a se submeter ao toque de homens, exceto quando acompanhada. A feminilidade serve para transformar a mulher desacompanhada numa presa fácil. A masculinidade pode ser usada como resistência, mas será prontamente desautorizada. O Homem tentará de todas as formas coagir sua presa a abandonar essa resistência e, em defesa de sua feminilidade, se expôr a ele. Assim a feminilidade serve ao homem machista.
Meu objetivo atual é ser capaz de abandonar todas as feminilidades que me tornam frágil e que me expõe, e nunca me sentir na obrigação de ser "feminina". Quero poder ser feminina apenas como e quando isso me fizer bem e quando EU quiser.
Normal. A coisa que me incomodou mais, dadas as circunstâncias, foi a mais normal de todas. As circunstâncias eram que eu tenho cabelo raspado à máquina 2 e estava, ontem, me vestindo e portanto de forma deliberadamente masculina, com calças compridas, coturno e camisa social. Durante as interações com o CreepyGuy (que ganhou esse apelido por nossa amiga americana, Akshata, que foi escolhida por ele como alvo principal por ser gringa), meu comportamento foi se tornando cada vez mais rígido e agressivo. Aproveitando que esse maluco parecia me reconhecer como homem, eu reuni toda minha masculinidade pra ir até ele e pedir pra ele ir embora. No final da noite eu estava sem mais nenhuma paciência.
Nessa hora, eu subo para cantar com Chalom e esse cara desconhecido que queria muito cantar com ele. O cara, que nem conhecia a música, aproveita o tempo para elogiar meu cabelo, passar a mão nele (antes que eu pudesse consentir com isso, é claro) e tentar ganhar minha simpatia. Eu admito que não sei lidar com esse tipo de abordagem "simpática". Eu sorrio, tento me afastar gentilmente, tiro a mão do cara de mim gentilmente, não, não está me ofendendo, só pára com isso, diz meu sorriso embaraçado.
Eu preciso aprender a não sorrir, porque obviamente isso não funciona. O cara finge que acha (porque eu sei que ele não é assim tão ingênuo) que eu estou dando mole. Ele finge que conseguiu minha intimidade. Ele se aproveita do meu sorriso e não-violência para continuar puxando papo, puxando papo com as mãos, tocando meu braço, minhas costas, ele finge que não nota que eu me afasto, que eu corto o assunto, que eu viro a cara e deliberadamente me afasto. Ele dá uns dois minutinhos e vem recomeçar, sempre com as mãos, tocando meu corpo com um sorriso, fingindo que ele está sendo amigável. Normal. Desagradàvelmente, enjoativamente normal. Eu ignoro. Fujo. Meu sorriso vai ficando mais amarelo e as recusas vão ficando mais explícitas, mas é irrelevante, ele (Ele, o Homem, esse personagem que insiste em reaparecer tão freqüentemente em minha vida), Ele sabe ler os meus sinais, ele só finge que não para poder continuar insistindo. Um pouco mais e o cara decide ir embora, isto é, decide se despedir de mim (é claro, ele finge que conquistou minha amizade). Despedir é uma desculpa para tocar mais, com mais liberdade, em especial para dar um beijo no rosto e quem sabe até tentar roubar um canto de lábio. Enojadoramente normal. Ele vem me dar um beijo e eu, eu que já O conheço de muitas outras situações desagradáveis, eu me apoio naquela masculinidade que eu desenvolvi ao longo da noite e estendo a mão, sem hesitar, sem balancear --- Mas ele, acostumado a fingir, finge que houve uma dúvida, finge que foi uma confusão, faz que foi um vai-não-vai, um não-sei-se-ofereço-abraço-ou-beijo, faz que eu dei a mão apenas para me livrar dessa dúvida. Eu não entro no faz-de-conta e mantenho a mão estendida, firme, entre nós. Ele se desaponta por um instante e aperta minha mão como se fosse a mão de uma dama. Eu mudo a posição das mãos e faço um aperto decididamente masculino e afasto o corpo. Ele faz um jogo de corpo, dá um sorriso amigável e diz:
"Você está muito masculinizada!",
como uma reprimenda amigável, um conselho de amigo, aproximando o corpo. Eu endireito o corpo e digo com voz firme: "Me deixa ser masculinizada se eu quiser!" ("me deixa", como se Ele precisasse me permitir qualquer coisa). Ele muda de estratégia rapidamente e diz: "É que eu cumprimento meus amigos assim, com um beijo" e, antes que eu consiga tomar uma atitude, me dá um abraço e um beijo na bochecha. Eu me afasto quase que o empurrando pra longe, não sei se sorrio mas acho que minha cara mostra claramente meus sentimento (não me lembro mesmo), e ele solta a frase da noite:
"Você não é assim!"
e, finalmente, vai embora.
Eu volto para minhas amigas e elas me olham com cara preocupada, o que me garante que tudo foi muito claro pra elas também. Elas me perguntam "quem foi esse cara?!" e "ele disse que você não é assim? Quem é ele pra dizer isso?!". Eu me sinto um pouco melhor, mais em segurança (valeu mil vezes, Keks e Carol!). Eu falo como eu não sei lidar com essas pessoas, que eu não soube quando responder, que ele falou que eu tava muito masculinizada e eu tava com muita raiva. Minha amiga diz que eu podia ter respondido "Eu sou um homem!". Eu fico feliz com a idéia, vou tentar na próxima vez. Porque certamente haverá uma próxima vez.
O pior é que, depois disso, durante o resto da noite eu fiquei notando cada pedacinho de mim que poderia ter atraído esse cara, fiquei pensando que talvez se eu tivesse escondendo os peitos ele nem me reconhecesse como mulher e não viesse atrás de mim, fiquei notando como a calça realça minha bunda de uma forma sexy e pensando em comprar calças masculinas que escondem a bunda, fazendo mil planos de esconder meu corpo para me proteger. Me sentindo ameaçada. E isso por um acontecimento estupidamente normal. Que só foi pior que o normal porque dessa vez eu reagi mais que o normal, talvez. Porque a norma é não reagir. A norma é se submeter, como uma boa menina, ou recorrer ao socorro de machos grandes e ameaçadores. Se mostrar como propriedade deles, para se proteger. Meu namorado me contou que estava batendo papo com esse cara depois e que ele ficou muito confuso e pediu desculpas quando descobriu que eu era namorada dele. Claro, pediu desculpas pra ele. Normal.
E afinal chegamos à moral da história. Eu não contei essa história para falar da agressão dos xavecos, que é uma coisa super comum e que todo mundo já deve saber como é. Eu contei porque ela mostra o quanto alguns preceitos de feminilidade estão a serviço do machismo. O homem em questão deliberadamente tentou evocar a feminilidade como forma de se apropriar de mim, de me controlar para ter acesso ao meu corpo. Ele me acusou de ser muito "masculinizada" quando eu resisti a ele, quando me defendi. A masculinidade aqui era uma muralha entre eu e ele, e ele usou os papéis de gênero para tentar me derrubar. Algumas vezes a "utilidade" dos papéis de gênero parecem coisa de gente que teoriza demais e que vê intencionalidade em coisa que não tem -- mas às vezes, e essa história é um exemplo claríssimo disso, as pessoas usam os papéis de gênero de forma maliciosa, deliberadamente, para controlar o comportamento dos outros em seu favor. A feminilidade obriga uma mulher a sorrir, a ser gentil, a dar beijo no rosto e a se submeter ao toque de homens, exceto quando acompanhada. A feminilidade serve para transformar a mulher desacompanhada numa presa fácil. A masculinidade pode ser usada como resistência, mas será prontamente desautorizada. O Homem tentará de todas as formas coagir sua presa a abandonar essa resistência e, em defesa de sua feminilidade, se expôr a ele. Assim a feminilidade serve ao homem machista.
Meu objetivo atual é ser capaz de abandonar todas as feminilidades que me tornam frágil e que me expõe, e nunca me sentir na obrigação de ser "feminina". Quero poder ser feminina apenas como e quando isso me fizer bem e quando EU quiser.
segunda-feira, 18 de março de 2013
Heart's Desire?
Isto foi quinta ou sexta passada... Depois de você me dar um bolo, e de eu procurá-la para me consolar e de ela me procurar por sua causa. Depois de conversar com ela. Eu tive dois ou três sonhos com ela, cada um mais interessante que o anterior. No primeiro sonho, duas semanas atrás, logo depois de conhecê-la, eu decidia que eu não me interessava mais por homens, por causa dela. Neste sonho...
Era uma casa de praia ou algo assim. Havia várias garotas, amigas de amigos, que haviam me sido apresentadas naquele dia. Lindas (como as garotas que você me apresenta costumam ser, não?). Eu queria seduzi-las, queria tocá-las, todas ou uma de cada vez, enquanto nós estávamos sentadas no chão dessa espécie de cabana num sítio. Elas... não sei, talvez elas refutassem meus sinais. Ou talvez elas aceitassem-nos, mas levemente, sem compromisso, sem -- sem darem-se, entende? Frustrada, eu me afastei, alguém -- um homem, talvez ele, talvez você -- me chamou. Esse homem me chamou debaixo do batente da porta, um lugar escuro, entre a sala e a varanda, e, das sombras, me ofereceu algo para tomar -- um beijo, talvez -- e me disse: "Com isto, você vai sair deste sonho e sonhar com aquilo que você mais deseja." Eu sorvi (um beijo?) cheia de dúvidas, curiosa, queria mesmo descobrir meu maior desejo, mas será que essas coisas mágicas funcionam? Saí da cabana, lá fora fazia sol, era bonito, minha mãe e meus irmãos -- ainda meio crianças -- conversavam alegres e despreocupados ao redor de uma daquelas mesas de madeiras pesadas que meu avô (foi mesmo meu avô?) fez a partir de caixotões tirados de navios (ou era outra a história?). Ao lado de minha mãe, que vestia aquele vestido de flores rosas que ela ainda tem, estava meu primo, o Urso. Meu coração se apertou um pouco com a visão, saudades, compreensão, mas que sonho mais óbvio.. É claro que ao lado deles, sentada em cadeira de praia, usando biquíni desconjuntado de tecidos engruvinhados (um sutiã com um motivo complexo, verde escuro, uma calcinha preta, por exemplo) e um chapéu de palha, estava minha tia, jovem, magra, meio vermelha de sol e coberta de pintas, com o cabelo castanho comprido e ondulado, falando alguma coisa naquela voz dela -- aquela Voz que ela tinha. Do lado dela a Puca com cara de senhora, aquele cabelo comprido de Branca de Neve, um vestido longo sério e primaveril, nada parecida com a imagem que eu tenho de verdade dela. Que grande mágica, esta, eu pensava meio amargurada, enquanto iam aparecendo os outros personagens desta cena idílica, Max, Sé, Rita... Mêdo e saudade -- que previsível! -- virei a cara e fui na outra direção. O sonho atrás de mim silenciou, eu sabia que estava acordando, quando vi a moto na minha frente meu primeiro pensamento foi "Agora não, estou acordada, não vou mais conseguir descobrir meu maior desejo de verdade!"
Montei na moto -- uma moto grande para mim, com tinta metalizada, design agressivo e... e uma cestinha de bicicleta, dessa que nossas bikes tinham quando a gente era pequeno e ia passear em Santo Amaro, ficar dando voltas no campinho de futebol. Montei na minha moto linda e disparei, saltando da varanda, descendo a escada, atravessando um jardim suspeitamente parecido com o da minha avó morta, subindo uma ladeira que era mais um muro para sair no caminhozinho (que de fato existia na casa da minha avó) que ia levar a (a casinha de telhado em V onde dormia a empregada) o Castelo.
Eu ri comigo mesma agora que eu sabia que eu estava num sonho, e mais que isso, que eu era A Lôba, que meus poderes super-heróicos me permitiriam vencer qualquer desafio, salvar todos os meus amigos, e ser admirada, reconhecida e às vezes respeitosamente temida. O Caminho era reto, estreito e longo, dentro de uma Mata Atlântica escura, como numa trilha que fazemos por lugares bonitos e conservados. Por essa estrada passavam umas pessoas tristes, do lado direito, em fila única, mas afastadas em intervalos irregulares, porque caminhavam sozinhas. A pessoa logo à minha frente, eu vi quando decidi ultrapassá-la, era ela. Ela usava um capuz, mas por baixo do capuz eu vi seu cabelo tão loiro que brilhava como num quadro do Rembrant. Mas não era ela, ela. Ela estava triste, mas eu não. Eu sou invencível. Eu chamei-a para subir na moto comigo, trocamos algumas palavras, na minha frente, pelo lado esquerdo, vinha um caminhão pela outra mão. Urgi; ela subiu, de túnica mesmo, e disparamos, desviando das pobres pessoas que tinham que aguentar o caminho e o aperto do caminhão. Disparamos, e no final daquela trilha reta estava O Castelo, alto, cheio de torres imponentes, um castelo Disney só que negro, numa perspectiva estranha como num quadrinho, para ressaltar o portão enorme na frente (aliás, falando em portões, me lembre de contar a história do jogo dos Pôneis). Na frente do portão, estavam os Guardas, um vestindo uma armadura de placas lisas de madeira, e o outro usando uma armadura estranha, que tinha bolas ocas como seios no peito, e no cinturão tinha uma tora de madeira que queria significar um pênis gigante. Tive a impressão de que esse guarda tinha peitos, mas não achei que fosse uma mulher.
Estávamos numa casa de campo de algum tipo, com quartos de visita e armários vazios. Fomos lutando com os guardas, usando paus contra os bastões e a armadura deles, casa adentro. Eu e ela nos separamos, havia um terceiro homem, e ela estava lutando com ele enquanto eu lutava com os dois guardas -- uma luta estranha, ritual, que foi misturando danças sexuais envolvendo a estranha armadura-arma que ele usava, aquele pênis gigante ora servia como um bastão ou um porrete, ora como um pau. Até que o outro guarda, o do peito plano, apareceu gritando e fazendo um escarcéu, que eu era uma vadia, que queria roubar o homem dele (acho que então eram um casal gay), e querendo me bater, me matar, briguei com ele (eu sou invencível) enquanto o convencia de que não, seu maluco, é só uma dança-luta-ritual, não estamos fazendo sexo, puxa vida. Subjuguei o casal de guardas e fui procurar por ela, que estava tentando assassinar um homem, batendo nele e jogando coisas de vidro na cabeça dele. Tentamos impedi-la, eu e -- outro homem -- tentamos convencê-la de que ela não precisava matar, nós nem estávamos entendendo o que estava acontecendo. Ela jogou um aquário gigante na cabeça do moço desacordado, e a cabeça dele rolou pelo chão. Eu me desesperei por um momento, mas ela começou a chorar de novo, disse que era de mentira, o moço de verdade estava escondido (desacordado) debaixo da cama, ela nem coragem de matá-lo tinha, que merda ter tanto ódio e sequer conseguir dar o troco que merece.
E como costuma acontecer com os sonhos interessantes, esse também nem acabou, e eu acordei.
Era uma casa de praia ou algo assim. Havia várias garotas, amigas de amigos, que haviam me sido apresentadas naquele dia. Lindas (como as garotas que você me apresenta costumam ser, não?). Eu queria seduzi-las, queria tocá-las, todas ou uma de cada vez, enquanto nós estávamos sentadas no chão dessa espécie de cabana num sítio. Elas... não sei, talvez elas refutassem meus sinais. Ou talvez elas aceitassem-nos, mas levemente, sem compromisso, sem -- sem darem-se, entende? Frustrada, eu me afastei, alguém -- um homem, talvez ele, talvez você -- me chamou. Esse homem me chamou debaixo do batente da porta, um lugar escuro, entre a sala e a varanda, e, das sombras, me ofereceu algo para tomar -- um beijo, talvez -- e me disse: "Com isto, você vai sair deste sonho e sonhar com aquilo que você mais deseja." Eu sorvi (um beijo?) cheia de dúvidas, curiosa, queria mesmo descobrir meu maior desejo, mas será que essas coisas mágicas funcionam? Saí da cabana, lá fora fazia sol, era bonito, minha mãe e meus irmãos -- ainda meio crianças -- conversavam alegres e despreocupados ao redor de uma daquelas mesas de madeiras pesadas que meu avô (foi mesmo meu avô?) fez a partir de caixotões tirados de navios (ou era outra a história?). Ao lado de minha mãe, que vestia aquele vestido de flores rosas que ela ainda tem, estava meu primo, o Urso. Meu coração se apertou um pouco com a visão, saudades, compreensão, mas que sonho mais óbvio.. É claro que ao lado deles, sentada em cadeira de praia, usando biquíni desconjuntado de tecidos engruvinhados (um sutiã com um motivo complexo, verde escuro, uma calcinha preta, por exemplo) e um chapéu de palha, estava minha tia, jovem, magra, meio vermelha de sol e coberta de pintas, com o cabelo castanho comprido e ondulado, falando alguma coisa naquela voz dela -- aquela Voz que ela tinha. Do lado dela a Puca com cara de senhora, aquele cabelo comprido de Branca de Neve, um vestido longo sério e primaveril, nada parecida com a imagem que eu tenho de verdade dela. Que grande mágica, esta, eu pensava meio amargurada, enquanto iam aparecendo os outros personagens desta cena idílica, Max, Sé, Rita... Mêdo e saudade -- que previsível! -- virei a cara e fui na outra direção. O sonho atrás de mim silenciou, eu sabia que estava acordando, quando vi a moto na minha frente meu primeiro pensamento foi "Agora não, estou acordada, não vou mais conseguir descobrir meu maior desejo de verdade!"
Montei na moto -- uma moto grande para mim, com tinta metalizada, design agressivo e... e uma cestinha de bicicleta, dessa que nossas bikes tinham quando a gente era pequeno e ia passear em Santo Amaro, ficar dando voltas no campinho de futebol. Montei na minha moto linda e disparei, saltando da varanda, descendo a escada, atravessando um jardim suspeitamente parecido com o da minha avó morta, subindo uma ladeira que era mais um muro para sair no caminhozinho (que de fato existia na casa da minha avó) que ia levar a (a casinha de telhado em V onde dormia a empregada) o Castelo.
Eu ri comigo mesma agora que eu sabia que eu estava num sonho, e mais que isso, que eu era A Lôba, que meus poderes super-heróicos me permitiriam vencer qualquer desafio, salvar todos os meus amigos, e ser admirada, reconhecida e às vezes respeitosamente temida. O Caminho era reto, estreito e longo, dentro de uma Mata Atlântica escura, como numa trilha que fazemos por lugares bonitos e conservados. Por essa estrada passavam umas pessoas tristes, do lado direito, em fila única, mas afastadas em intervalos irregulares, porque caminhavam sozinhas. A pessoa logo à minha frente, eu vi quando decidi ultrapassá-la, era ela. Ela usava um capuz, mas por baixo do capuz eu vi seu cabelo tão loiro que brilhava como num quadro do Rembrant. Mas não era ela, ela. Ela estava triste, mas eu não. Eu sou invencível. Eu chamei-a para subir na moto comigo, trocamos algumas palavras, na minha frente, pelo lado esquerdo, vinha um caminhão pela outra mão. Urgi; ela subiu, de túnica mesmo, e disparamos, desviando das pobres pessoas que tinham que aguentar o caminho e o aperto do caminhão. Disparamos, e no final daquela trilha reta estava O Castelo, alto, cheio de torres imponentes, um castelo Disney só que negro, numa perspectiva estranha como num quadrinho, para ressaltar o portão enorme na frente (aliás, falando em portões, me lembre de contar a história do jogo dos Pôneis). Na frente do portão, estavam os Guardas, um vestindo uma armadura de placas lisas de madeira, e o outro usando uma armadura estranha, que tinha bolas ocas como seios no peito, e no cinturão tinha uma tora de madeira que queria significar um pênis gigante. Tive a impressão de que esse guarda tinha peitos, mas não achei que fosse uma mulher.
Estávamos numa casa de campo de algum tipo, com quartos de visita e armários vazios. Fomos lutando com os guardas, usando paus contra os bastões e a armadura deles, casa adentro. Eu e ela nos separamos, havia um terceiro homem, e ela estava lutando com ele enquanto eu lutava com os dois guardas -- uma luta estranha, ritual, que foi misturando danças sexuais envolvendo a estranha armadura-arma que ele usava, aquele pênis gigante ora servia como um bastão ou um porrete, ora como um pau. Até que o outro guarda, o do peito plano, apareceu gritando e fazendo um escarcéu, que eu era uma vadia, que queria roubar o homem dele (acho que então eram um casal gay), e querendo me bater, me matar, briguei com ele (eu sou invencível) enquanto o convencia de que não, seu maluco, é só uma dança-luta-ritual, não estamos fazendo sexo, puxa vida. Subjuguei o casal de guardas e fui procurar por ela, que estava tentando assassinar um homem, batendo nele e jogando coisas de vidro na cabeça dele. Tentamos impedi-la, eu e -- outro homem -- tentamos convencê-la de que ela não precisava matar, nós nem estávamos entendendo o que estava acontecendo. Ela jogou um aquário gigante na cabeça do moço desacordado, e a cabeça dele rolou pelo chão. Eu me desesperei por um momento, mas ela começou a chorar de novo, disse que era de mentira, o moço de verdade estava escondido (desacordado) debaixo da cama, ela nem coragem de matá-lo tinha, que merda ter tanto ódio e sequer conseguir dar o troco que merece.
E como costuma acontecer com os sonhos interessantes, esse também nem acabou, e eu acordei.
sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013
Bissexualidade
(baseado, sem pretensões de fidelidade, em coisas ditas em conversas reais ou imaginárias - às vezes mais de uma vez)
— = ---
— Acho que não dá pra uma pessoa ir na balada e querer pegar "qualquer um". Ou você está procurando homem, ou mulher. Mesmo um bissexual, tem dias que está hétero, dias que está gay.
— Mas você não é bissexual, nem conhece alguém que seja, certo?
— Não. Mas só não faz sentido! Querer ficar com mulher é totalmente diferente de querer ficar com homem!
— Eu fico irritada com essa gente que se diz bissexual. Não existe isso de gostar "tanto de homem quanto de mulher". Todo mundo tem uma preferência.
— Mas e as pessoas que de fato gostam de homem mas de vez em quando pegam mulher, por exemplo?
— Ah, mas isso não faz de você bissexual. Você gosta de homem, você é hétero, pegar mulher de vez em quando não muda isso. Quem diz que é bissexual tá querendo ficar em cima do muro, não quer admitir pra si mesmo e pros outros que tem uma orientação sim, ah, me poupe! Se admite, pô.
— Mas, péraí, só porque tem uma preferência então não...
— Péra, deixa eu entender, eu tô no meio de um monte de gente que se acha bissexual, né?
— Se você é gay mas fica insistindo em ter namoros hétero, você está negando os seus desejos homossexuais? Você prejudica a sua vida com isso?
— Bom, o estudo aponta a existência de alguns caras casados com mulher que tinham uma certa ereção com pornô de mulher, mas a reação era muito maior com pornô gay. Provavelmente eles eram gays enrustidos, que meio que "aprenderam" a se excitar com mulher pra se encaixarem na sociedade.
— Se você escolhe um lado e admite a sua, ham, a sua "monossexualidade", você está negando os seus desejos em relação ao outro sexo?
— Nenhum estudo encontrou bissexuais de verdade! As pessoas precisam parar de se enganar e fingir que existe um meio termo! Essa é uma falácia danosa para a nossa causa. É preciso que as pessoas entendam que homossexualidade é genético e definitivo, e que não existe cura nem meia cura. Viado é viado e fancha é fancha, ponto!
— Mas, pô, isso não é motivo pra ficar enchendo o saco dela e chamando ela de fanchona o tempo todo. Ela está meio na dúvida, deixa ela.
— Mas é claro que é motivo. É só olhar pra ela pra saber que ela é sapata, e essa história de ficar em dúvida é uma grande mentira. Ela precisa aceitar o que ela é.
— Mas e se eu não quiser aceitar o que eu sou? Como fica?
— Vai ver um psicólogo, vai.
— Quando você se descobriu gay?
— Ah, quando eu era pequeno eu já era gay. Eu achava que homem combinava com homem, e mulher com mulher.
— Eu descobri na faculdade. Passei anos me irritando com as pessoas que me chamavam de gay. Cheguei a brigar feio com uma amiga, depois a gente voltou a se falar quando eu saí do armário.
— Eu tinha uma namorada com quem eu me dava super bem e fazia um monte de sexo, mas um dia eu vi um cara gostoso e senti tesão... Hoje em dia eu nem tenho mais vontade de ficar com mulher, porque homem é tão melhor!
— Meu ex-namorado agora namora um homem.
— E como é pra você?
— Eu acho que não faz muita diferença, pra mim. É a vida pessoal dele, agora, e não muda nada do que aconteceu entre nós. Não explica nada.
— A ex-namorada da minha amiga está namorando um homem, também.
— Então ela não era gay, hem?
— Eu disse que ela era hétero! Mulher na adolescência faz umas experiências...
— Agora, a sua amiga, essa sim é sapatão, hem?
— É só olhar pra ela pra saber.
— É engraçado é que tem gente que não tem gaydar, né? Outro dia virou mó bochicho no escritório sobre a chefe, e eu disse de cara: "É que ela é lésbica, né?". Todo mundo tava super surpreso, todo mundo ficou "mas como você sabe???". Ah, vá.
— É engraçado que dá pra perceber mesmo quando a própria pessoa ainda não sabe.
— Eu me pergunto isso às vezes, se alguém olha pra você e diz que você é gay, isso quer dizer que você é mesmo? E se diz que você é hétero?
— Quando você começou a se considerar bi?
— Assim que eu parei pra pensar no assunto, uai. Eu era adolescente e eu gostava tanto de meninos quanto de meninas.
— Mas você gostava mesmo dos meninos tanto quanto das meninas? Você se apaixonava por meninos?
— Hmm, acho que eu só me apaixonei por meninas... Mas eu gostava bastante dos homens também. Não era a mesma coisa, mas nunca me ocorreu me considerar hétero.
— Mas você já teve experiência com homem?
— Já.
— E gostou?
— Foi muito bom.
— Eu já peguei homem, já dei o cu, foi bom, mas acho que eu não sou gay. Não tenho envolvimento emocional com homem.
— Eu gosto de ficar com mulher, mas eu sou bem hétero. Eu não entendo como você que gosta muito mais de pica do que eu ainda acha que é bi.
— É verdade, homem tem pica, mas, por outro lado, mulher tem peito!
— E cintura, não dá pra esquecer a cintura.
— Mas homem tem peito de homem. E barba. E mulher às vezes tem muita bochecha.
— Acho que eu não conseguiria ficar com uma mulher. Aquela vez que a gente quase fez um ménage, eu pensei "não, tem outra buceta aqui!"
— Você diz isso mas no dia seguinte pega uma mina e tem sonhos eróticos com outra. Aliás, eu só tenho sonhos eróticos com mulheres. Os seus sonhos definem a sua sexualidade?
— Outro dia eu tive um sonho super bizarro com você. Eu estava beijando você, mas você tinha um pinto!
— Você não está vendo, mas eu estava agora mesmo desenhando um pinto. Eu tinha certeza de que eu ia ter um pinto no seu sonho.
— Isso quer dizer que eu sou gay?
— Bom, você sente atração sexual por homens?
— Não. Mas e as pessoas que demoraram anos pra entender que eram gays?
— Você quer ser gay?
— Talvez eu precise ser gay.
— Se eu fosse gay eu ia ter muito mais felicidade sexual.
— Mas você acha os homens horrendos!
— Bom, por isso que eu queria ser gay, mas não sou. E eu não acho todos os homens horrendos. É só que eles são tão peludos... e grandes... e feios. Mas eu pegava o Justin Bieber, ele é quase uma menina. E bonitinha.
— Nossa, que machista!
— Machista por quê?
— Super machista essa atitude de "eu nunca ia pegar nenhum homem, e mesmo se eu pegasse um homem, tinha que ser um homem que é quase uma mulher"! É pura pose de machão.
— Mas eu só estou dizendo que o Justin Bieber não é feio...
— Ah, você só está atestando a sua masculinidade! Eu, se eu pegasse uma mulher, eu ia querer que fosse uma mulher de verdade, feminina, affe!
— Mas você não ia pegar uma mulher...
— Não, mas se eu pegasse, eu não ia pegar uma mulher que parece um homem só pra deixar claro que eu sou hétero.
— Então se eu gosto de mulheres masculinas eu sou gay?
— E se eu gosto de homens femininos? Os caras que gostam de travesti são hétero?
— Outro dia eu gamei numa mina que parecia muito com um cara que eu peguei um tempo atrás. Estou me sentindo culpada.
— Você sempre puxa pro pessoal!
— Bom, pra mim esse assunto é muito pessoal. Você acha que os meus sonhos definem a sua sexualidade?
— Por que você não define a sua sexualidade por com quem você faz sexo?
— Um garoto virgem de treze anos não pode ser gay?
— Não dá pra confiar na sexualidade de adolescentes, eles fazem experiências...
— Mas em que idade você pode começar a confiar?
— Eu fico meio assustado que isso tenha aparecido pra mim tão tarde. Sabe, eu não sou um adolescente. Todos os meus amigos que viraram gays ou bis se descobriram até uns 20 anos de idade. Será que eu estava reprimindo isso esse tempo todo?
— Bom, você sabe que eu não acredito muito em monossexualidade.
— Mãe, eu acho que eu sou bissexual.
— ...Por que você acha isso?
— Por que eu me sinto muito atraída por mulheres.
— Mas você já ficou com uma mulher?
— Já.
— Mas você nunca namorou uma mulher.
— ...Bom, eu sempre estive namorando com homens.
— Ah, filha, você é jovem, jovens fazem experiências. Quando eu era adolescente eu também me sentia muito atraída por mulheres, mas eu não sou "bissexual". Eu namorei com homens e casei com um homem, pronto!
— ...
— Eu queria ter tido essa sua confiança, de saber desde sempre que era assim mesmo.
— Mas deve ser mó legal ter essa revelação, "Oh, eu sou gay!". Imagina?
— E você?
— Eu sempre achei que eu sempre tinha sido confusa mesmo... Mas eu encontrei uns escritos antigos ontem. Parece que eu sempre tive grandes sonhos de casamento, e eu só pensava em homens. Homens altos de cabelos negros. Homens baixos, fortes e ruivos. Pra falar a verdade eu só sabia lidar com homens, desde que eu era pequena. Eu queria ser um homem, e eu até gostaria de ser um homem gay. E eu sempre me apaixonava por homens... Mas pensando bem, tinha aquela menina no colegial que tinha olhos dourados maravilhosos.... Um personagem meu, que era namorado da protagonista, tinha olhos dourados de águia como os dela. Ela chamava Júlia. Eu passava metade da aula olhando pra ela e pensando em como começar a conversa. Mas eu não chamava de amor.
— Mas você não era perdidamente apaixonada por aquele menino bonito?
— Sim, sim, por ele, por aquele outro, pelo meu melhor amigo que era apaixonado pelo meu irmão, e que chegou a achar que estava apaixonado por mim. No terceiro ano eu encontrei um garoto de olhos verdes maravilhoso, ficava o dia todo olhando pra ele e... pensando em como começar a conversa. Depois de alguns meses eu comecei a chamar de amor.
— E a Júlia?
— Encontrei ela outro dia, ela me tratou como uma amiga. Fiquei meio fascinada com o fato de que ela gostava de mim. Eu não fazia muitas amigas no colegial, me sentia incapaz de falar com mulheres. Me pergunto se o Pedro também me trataria como uma amiga.
— Você viu aquele novo estudo, com movimento de pupila?
— Ele não usa medição de engrossamento de pênis? Estou ouvindo.
— Inclusive mede mulheres também. Aí está a graça — ele meio que determinou que a maior parte das mulheres hétero têm reações a mulheres bonitas assim como a homens. E encontrou homens bissexuais também.
— Legal. Os bissexuais vão ficar felizes, mas os nossos amigos gays nem vão acreditar muito.
— Bom, é claro que nenhum desses estudo é muito confiável. Mas pelo menos a gente tem algo pra dizer.
— Como foi a conversa com a sua mãe afinal?
— Ela não acreditou. Foi bem menos assustador do que a conversa sobre namoro aberto, mas daquela vez ela foi tão legal, e dessa vez eu fiquei um pouco frustrada.
— Você quer ouvir como foi a minha conversa com a minha mãe? Qualquer uma das oito?
— Eu sei, eu sei, eu tenho a melhor mãe do mundo e eu não tenho um problema de verdade. É só que eu queria poder me sentir eu mesma, sabe?
— Mas você está negando a si mesma. Você quer ser algo que você não é.
— No começo eu achei que podia ser isso, porque eu queria muito ser bi, e porque eu queria fazer parte da comunidade gay (ou do que quer que eles se chamem agora, foda-se).
— Péra, você acha que pra fazer parte da luta você tem que ser gay?
— Eu acho que sim. Eu sei que não devia ser assim, mas é.
— Pô, então eu, que namoro um cara bissexual, não faço parte do movimento?
— Não é bem assim, não estou dizendo que não pode, da mesma forma que você pode ser homem e feminista, mas... mas os babacas vão sempre dizer que "as mulheres é que têm que lutar pelas mulheres", "os gays é que tem que lutar pelos gays", e tal. E agora estão me dizendo que bissexual não existe.
— É bom que bissexual exista, senão eu vou estar sendo enganada pelos últimos sete meses.
— Vontadezinha de arranjar uma namorada e levar ela pra casa. Só pra chocar minha mãe. Ou pra provar que é de verdade.
— ...Olha, mãe, não é só que eu me sinto atraída por mulheres. Eu sonho com mulheres. Eu me apaixono por elas. Você ia ter problemas se eu saísse com mulheres?
— Ah, Ma, você pode sair com quem você quiser. Você é jovem. Você se apaixona fácil. Mas você traz seu namorado pra casa, ele vira da família. Já se você trouxesse uma menina pra casa, uma namorada, ia ser um pouco estranho. Não é a mesma coisa, sabe?
— Ia ser estranho se eu trouxesse uma namorada? Mas estranho do que quando meu irmão traz as namoradas dele?
— Ah, Ma... Sabe, a gente sempre acha que vai conseguir lidar com essas coisas... Mas recentemente uma amiga próxima de mim descobriu que a filha era lésbica, e aí ela descobriu que não é tão fácil assim de lidar. É difícil pra gente.
— Você está falando daquela cuja filha é evidentemente gay?
— Ah, lembra, isso é segredo, não pode contar pra ninguém!
— Mas como você descobriu que era bissexual?
— Bom, eu estava no colegial, aqula história toda... Um dia minha amiga veio falar comigo, e o seio dela raspou no meu braço. Eu senti, como se diz? como se fosse uma descarga elétrica pelo corpo. Eu continuava apaixonada por aquele menino, mas depois disso eu fiquei algum tempo só conseguindo pensar em peitos.
— E foi assim, de repente, então?
— Não, não de verdade. Eu tinha acreditado que bissexual não existia. Eu comecei a me apaixonar por mulheres, a sonhar com mulheres, mas eu continuei acreditando que era hétero. Eu queria experimentar pegar mulheres, mas eu não podia me considerar bi sem nunca ter pego uma mulher. Um dia eu fui numa festa e as amigas do meu amigo me chamaram de sapata, e eu fiquei super feliz. Aí ele corrigiu eles, e eu fiquei meio brava. Mas eu me considerava hétero no fundo, não tinha coragem de reclamar. Um dia eu peguei uma mulher numa festa, mas não senti tesão nenhum. Eu estava apaixonada por uma amiga minha, obcecada e sofrendo, mas eu era hétero. Eu contei isso para um amigo e ele disse que eu devia estar projetando alguma coisa nela... Porque eu era hétero, e estava tão feliz com meu namorado. Aí um dia eu consegui sair num date com uma menina por quem eu tinha uma paixão, e foi o melhor primeiro beijo da minha vida. E mesmo assim meus amigos diziam que eu era hétero e eu meio que acreditava neles, porque eu só tinha beijado mulher duas vezes, porque eu namorava caras, porque eu nunca tinha transado com uma mulher. Então eu peguei todas as mulheres que eu consegui, o mais e o melhor que eu pude, e eu passei uma festa inteira pegando uma menina linda. Meu amigo me zuou dizendo que quando eu ficava bêbada eu virava lésbica, e eu concordei inteiramente. Mas no final daquela festa eu peguei um rapaz gostoso e gostei tanto disso que de novo eu concluí que eu era hétero. Aí eu fiquei muito confusa, peguei várias mulheres, transei com mulheres, decidi fazer o look fanchinha para atrair mulheres nos bares, mas no fundo eu achava que gostava mais de ficar com homens, e apesar de eu querer muito ser bi eu ainda acreditava que eu era hétero, no fundo. Uma hétero que por algum motivo se apaixonava por mulheres de vez em quando, mas que gostava muito de homem. Mas hétero.
— E quando isso mudou?
— Não tenho certeza. Talvez tenha sido porque eu conheci outros bissexuais. Ou porque eu descobri mulheres de quem eu gostava mais e homens de quem eu gostava menos. Ou eu parei de me importar. Na verdade... acho que o que pegou foi quando eu estava com uma mulher, e eu percebi que eu estava curtindo, estava confortável e sabia o que eu estava fazendo. Eu não estava só experimentando. Não era mais uma coisa nova pra mim. Só era bom.
— = ---
— Acho que não dá pra uma pessoa ir na balada e querer pegar "qualquer um". Ou você está procurando homem, ou mulher. Mesmo um bissexual, tem dias que está hétero, dias que está gay.
— Mas você não é bissexual, nem conhece alguém que seja, certo?
— Não. Mas só não faz sentido! Querer ficar com mulher é totalmente diferente de querer ficar com homem!
— Eu fico irritada com essa gente que se diz bissexual. Não existe isso de gostar "tanto de homem quanto de mulher". Todo mundo tem uma preferência.
— Mas e as pessoas que de fato gostam de homem mas de vez em quando pegam mulher, por exemplo?
— Ah, mas isso não faz de você bissexual. Você gosta de homem, você é hétero, pegar mulher de vez em quando não muda isso. Quem diz que é bissexual tá querendo ficar em cima do muro, não quer admitir pra si mesmo e pros outros que tem uma orientação sim, ah, me poupe! Se admite, pô.
— Mas, péraí, só porque tem uma preferência então não...
— Péra, deixa eu entender, eu tô no meio de um monte de gente que se acha bissexual, né?
— Se você é gay mas fica insistindo em ter namoros hétero, você está negando os seus desejos homossexuais? Você prejudica a sua vida com isso?
— Bom, o estudo aponta a existência de alguns caras casados com mulher que tinham uma certa ereção com pornô de mulher, mas a reação era muito maior com pornô gay. Provavelmente eles eram gays enrustidos, que meio que "aprenderam" a se excitar com mulher pra se encaixarem na sociedade.
— Se você escolhe um lado e admite a sua, ham, a sua "monossexualidade", você está negando os seus desejos em relação ao outro sexo?
— Nenhum estudo encontrou bissexuais de verdade! As pessoas precisam parar de se enganar e fingir que existe um meio termo! Essa é uma falácia danosa para a nossa causa. É preciso que as pessoas entendam que homossexualidade é genético e definitivo, e que não existe cura nem meia cura. Viado é viado e fancha é fancha, ponto!
— Mas, pô, isso não é motivo pra ficar enchendo o saco dela e chamando ela de fanchona o tempo todo. Ela está meio na dúvida, deixa ela.
— Mas é claro que é motivo. É só olhar pra ela pra saber que ela é sapata, e essa história de ficar em dúvida é uma grande mentira. Ela precisa aceitar o que ela é.
— Mas e se eu não quiser aceitar o que eu sou? Como fica?
— Vai ver um psicólogo, vai.
— Quando você se descobriu gay?
— Ah, quando eu era pequeno eu já era gay. Eu achava que homem combinava com homem, e mulher com mulher.
— Eu descobri na faculdade. Passei anos me irritando com as pessoas que me chamavam de gay. Cheguei a brigar feio com uma amiga, depois a gente voltou a se falar quando eu saí do armário.
— Eu tinha uma namorada com quem eu me dava super bem e fazia um monte de sexo, mas um dia eu vi um cara gostoso e senti tesão... Hoje em dia eu nem tenho mais vontade de ficar com mulher, porque homem é tão melhor!
— Meu ex-namorado agora namora um homem.
— E como é pra você?
— Eu acho que não faz muita diferença, pra mim. É a vida pessoal dele, agora, e não muda nada do que aconteceu entre nós. Não explica nada.
— A ex-namorada da minha amiga está namorando um homem, também.
— Então ela não era gay, hem?
— Eu disse que ela era hétero! Mulher na adolescência faz umas experiências...
— Agora, a sua amiga, essa sim é sapatão, hem?
— É só olhar pra ela pra saber.
— É engraçado é que tem gente que não tem gaydar, né? Outro dia virou mó bochicho no escritório sobre a chefe, e eu disse de cara: "É que ela é lésbica, né?". Todo mundo tava super surpreso, todo mundo ficou "mas como você sabe???". Ah, vá.
— É engraçado que dá pra perceber mesmo quando a própria pessoa ainda não sabe.
— Eu me pergunto isso às vezes, se alguém olha pra você e diz que você é gay, isso quer dizer que você é mesmo? E se diz que você é hétero?
— Quando você começou a se considerar bi?
— Assim que eu parei pra pensar no assunto, uai. Eu era adolescente e eu gostava tanto de meninos quanto de meninas.
— Mas você gostava mesmo dos meninos tanto quanto das meninas? Você se apaixonava por meninos?
— Hmm, acho que eu só me apaixonei por meninas... Mas eu gostava bastante dos homens também. Não era a mesma coisa, mas nunca me ocorreu me considerar hétero.
— Mas você já teve experiência com homem?
— Já.
— E gostou?
— Foi muito bom.
— Eu já peguei homem, já dei o cu, foi bom, mas acho que eu não sou gay. Não tenho envolvimento emocional com homem.
— Eu gosto de ficar com mulher, mas eu sou bem hétero. Eu não entendo como você que gosta muito mais de pica do que eu ainda acha que é bi.
— É verdade, homem tem pica, mas, por outro lado, mulher tem peito!
— E cintura, não dá pra esquecer a cintura.
— Mas homem tem peito de homem. E barba. E mulher às vezes tem muita bochecha.
— Acho que eu não conseguiria ficar com uma mulher. Aquela vez que a gente quase fez um ménage, eu pensei "não, tem outra buceta aqui!"
— Você diz isso mas no dia seguinte pega uma mina e tem sonhos eróticos com outra. Aliás, eu só tenho sonhos eróticos com mulheres. Os seus sonhos definem a sua sexualidade?
— Outro dia eu tive um sonho super bizarro com você. Eu estava beijando você, mas você tinha um pinto!
— Você não está vendo, mas eu estava agora mesmo desenhando um pinto. Eu tinha certeza de que eu ia ter um pinto no seu sonho.
— Isso quer dizer que eu sou gay?
— Bom, você sente atração sexual por homens?
— Não. Mas e as pessoas que demoraram anos pra entender que eram gays?
— Você quer ser gay?
— Talvez eu precise ser gay.
— Se eu fosse gay eu ia ter muito mais felicidade sexual.
— Mas você acha os homens horrendos!
— Bom, por isso que eu queria ser gay, mas não sou. E eu não acho todos os homens horrendos. É só que eles são tão peludos... e grandes... e feios. Mas eu pegava o Justin Bieber, ele é quase uma menina. E bonitinha.
— Nossa, que machista!
— Machista por quê?
— Super machista essa atitude de "eu nunca ia pegar nenhum homem, e mesmo se eu pegasse um homem, tinha que ser um homem que é quase uma mulher"! É pura pose de machão.
— Mas eu só estou dizendo que o Justin Bieber não é feio...
— Ah, você só está atestando a sua masculinidade! Eu, se eu pegasse uma mulher, eu ia querer que fosse uma mulher de verdade, feminina, affe!
— Mas você não ia pegar uma mulher...
— Não, mas se eu pegasse, eu não ia pegar uma mulher que parece um homem só pra deixar claro que eu sou hétero.
— Então se eu gosto de mulheres masculinas eu sou gay?
— E se eu gosto de homens femininos? Os caras que gostam de travesti são hétero?
— Outro dia eu gamei numa mina que parecia muito com um cara que eu peguei um tempo atrás. Estou me sentindo culpada.
— Você sempre puxa pro pessoal!
— Bom, pra mim esse assunto é muito pessoal. Você acha que os meus sonhos definem a sua sexualidade?
— Por que você não define a sua sexualidade por com quem você faz sexo?
— Um garoto virgem de treze anos não pode ser gay?
— Não dá pra confiar na sexualidade de adolescentes, eles fazem experiências...
— Mas em que idade você pode começar a confiar?
— Eu fico meio assustado que isso tenha aparecido pra mim tão tarde. Sabe, eu não sou um adolescente. Todos os meus amigos que viraram gays ou bis se descobriram até uns 20 anos de idade. Será que eu estava reprimindo isso esse tempo todo?
— Bom, você sabe que eu não acredito muito em monossexualidade.
— Mãe, eu acho que eu sou bissexual.
— ...Por que você acha isso?
— Por que eu me sinto muito atraída por mulheres.
— Mas você já ficou com uma mulher?
— Já.
— Mas você nunca namorou uma mulher.
— ...Bom, eu sempre estive namorando com homens.
— Ah, filha, você é jovem, jovens fazem experiências. Quando eu era adolescente eu também me sentia muito atraída por mulheres, mas eu não sou "bissexual". Eu namorei com homens e casei com um homem, pronto!
— ...
— Eu queria ter tido essa sua confiança, de saber desde sempre que era assim mesmo.
— Mas deve ser mó legal ter essa revelação, "Oh, eu sou gay!". Imagina?
— E você?
— Eu sempre achei que eu sempre tinha sido confusa mesmo... Mas eu encontrei uns escritos antigos ontem. Parece que eu sempre tive grandes sonhos de casamento, e eu só pensava em homens. Homens altos de cabelos negros. Homens baixos, fortes e ruivos. Pra falar a verdade eu só sabia lidar com homens, desde que eu era pequena. Eu queria ser um homem, e eu até gostaria de ser um homem gay. E eu sempre me apaixonava por homens... Mas pensando bem, tinha aquela menina no colegial que tinha olhos dourados maravilhosos.... Um personagem meu, que era namorado da protagonista, tinha olhos dourados de águia como os dela. Ela chamava Júlia. Eu passava metade da aula olhando pra ela e pensando em como começar a conversa. Mas eu não chamava de amor.
— Mas você não era perdidamente apaixonada por aquele menino bonito?
— Sim, sim, por ele, por aquele outro, pelo meu melhor amigo que era apaixonado pelo meu irmão, e que chegou a achar que estava apaixonado por mim. No terceiro ano eu encontrei um garoto de olhos verdes maravilhoso, ficava o dia todo olhando pra ele e... pensando em como começar a conversa. Depois de alguns meses eu comecei a chamar de amor.
— E a Júlia?
— Encontrei ela outro dia, ela me tratou como uma amiga. Fiquei meio fascinada com o fato de que ela gostava de mim. Eu não fazia muitas amigas no colegial, me sentia incapaz de falar com mulheres. Me pergunto se o Pedro também me trataria como uma amiga.
— Você viu aquele novo estudo, com movimento de pupila?
— Ele não usa medição de engrossamento de pênis? Estou ouvindo.
— Inclusive mede mulheres também. Aí está a graça — ele meio que determinou que a maior parte das mulheres hétero têm reações a mulheres bonitas assim como a homens. E encontrou homens bissexuais também.
— Legal. Os bissexuais vão ficar felizes, mas os nossos amigos gays nem vão acreditar muito.
— Bom, é claro que nenhum desses estudo é muito confiável. Mas pelo menos a gente tem algo pra dizer.
— Como foi a conversa com a sua mãe afinal?
— Ela não acreditou. Foi bem menos assustador do que a conversa sobre namoro aberto, mas daquela vez ela foi tão legal, e dessa vez eu fiquei um pouco frustrada.
— Você quer ouvir como foi a minha conversa com a minha mãe? Qualquer uma das oito?
— Eu sei, eu sei, eu tenho a melhor mãe do mundo e eu não tenho um problema de verdade. É só que eu queria poder me sentir eu mesma, sabe?
— Mas você está negando a si mesma. Você quer ser algo que você não é.
— No começo eu achei que podia ser isso, porque eu queria muito ser bi, e porque eu queria fazer parte da comunidade gay (ou do que quer que eles se chamem agora, foda-se).
— Péra, você acha que pra fazer parte da luta você tem que ser gay?
— Eu acho que sim. Eu sei que não devia ser assim, mas é.
— Pô, então eu, que namoro um cara bissexual, não faço parte do movimento?
— Não é bem assim, não estou dizendo que não pode, da mesma forma que você pode ser homem e feminista, mas... mas os babacas vão sempre dizer que "as mulheres é que têm que lutar pelas mulheres", "os gays é que tem que lutar pelos gays", e tal. E agora estão me dizendo que bissexual não existe.
— É bom que bissexual exista, senão eu vou estar sendo enganada pelos últimos sete meses.
— Vontadezinha de arranjar uma namorada e levar ela pra casa. Só pra chocar minha mãe. Ou pra provar que é de verdade.
— ...Olha, mãe, não é só que eu me sinto atraída por mulheres. Eu sonho com mulheres. Eu me apaixono por elas. Você ia ter problemas se eu saísse com mulheres?
— Ah, Ma, você pode sair com quem você quiser. Você é jovem. Você se apaixona fácil. Mas você traz seu namorado pra casa, ele vira da família. Já se você trouxesse uma menina pra casa, uma namorada, ia ser um pouco estranho. Não é a mesma coisa, sabe?
— Ia ser estranho se eu trouxesse uma namorada? Mas estranho do que quando meu irmão traz as namoradas dele?
— Ah, Ma... Sabe, a gente sempre acha que vai conseguir lidar com essas coisas... Mas recentemente uma amiga próxima de mim descobriu que a filha era lésbica, e aí ela descobriu que não é tão fácil assim de lidar. É difícil pra gente.
— Você está falando daquela cuja filha é evidentemente gay?
— Ah, lembra, isso é segredo, não pode contar pra ninguém!
— Mas como você descobriu que era bissexual?
— Bom, eu estava no colegial, aqula história toda... Um dia minha amiga veio falar comigo, e o seio dela raspou no meu braço. Eu senti, como se diz? como se fosse uma descarga elétrica pelo corpo. Eu continuava apaixonada por aquele menino, mas depois disso eu fiquei algum tempo só conseguindo pensar em peitos.
— E foi assim, de repente, então?
— Não, não de verdade. Eu tinha acreditado que bissexual não existia. Eu comecei a me apaixonar por mulheres, a sonhar com mulheres, mas eu continuei acreditando que era hétero. Eu queria experimentar pegar mulheres, mas eu não podia me considerar bi sem nunca ter pego uma mulher. Um dia eu fui numa festa e as amigas do meu amigo me chamaram de sapata, e eu fiquei super feliz. Aí ele corrigiu eles, e eu fiquei meio brava. Mas eu me considerava hétero no fundo, não tinha coragem de reclamar. Um dia eu peguei uma mulher numa festa, mas não senti tesão nenhum. Eu estava apaixonada por uma amiga minha, obcecada e sofrendo, mas eu era hétero. Eu contei isso para um amigo e ele disse que eu devia estar projetando alguma coisa nela... Porque eu era hétero, e estava tão feliz com meu namorado. Aí um dia eu consegui sair num date com uma menina por quem eu tinha uma paixão, e foi o melhor primeiro beijo da minha vida. E mesmo assim meus amigos diziam que eu era hétero e eu meio que acreditava neles, porque eu só tinha beijado mulher duas vezes, porque eu namorava caras, porque eu nunca tinha transado com uma mulher. Então eu peguei todas as mulheres que eu consegui, o mais e o melhor que eu pude, e eu passei uma festa inteira pegando uma menina linda. Meu amigo me zuou dizendo que quando eu ficava bêbada eu virava lésbica, e eu concordei inteiramente. Mas no final daquela festa eu peguei um rapaz gostoso e gostei tanto disso que de novo eu concluí que eu era hétero. Aí eu fiquei muito confusa, peguei várias mulheres, transei com mulheres, decidi fazer o look fanchinha para atrair mulheres nos bares, mas no fundo eu achava que gostava mais de ficar com homens, e apesar de eu querer muito ser bi eu ainda acreditava que eu era hétero, no fundo. Uma hétero que por algum motivo se apaixonava por mulheres de vez em quando, mas que gostava muito de homem. Mas hétero.
— E quando isso mudou?
— Não tenho certeza. Talvez tenha sido porque eu conheci outros bissexuais. Ou porque eu descobri mulheres de quem eu gostava mais e homens de quem eu gostava menos. Ou eu parei de me importar. Na verdade... acho que o que pegou foi quando eu estava com uma mulher, e eu percebi que eu estava curtindo, estava confortável e sabia o que eu estava fazendo. Eu não estava só experimentando. Não era mais uma coisa nova pra mim. Só era bom.
terça-feira, 26 de junho de 2012
A Lagoa de Cristal
(one of my oldests daydreams was this of a cleansing magic. it could heal body and mind, clean air and earth and water, and make everything good and full of beauty)
---
E de repente estavam numa clareira, e as árvores estavam coloridas com reflexos inconstantes de água clara. A lagoa parecia apenas uma lagoa comum, e, como acontece com as lagoas comuns, a vegetação era mais vistosa e mais verde bem perto da água. Dava pra ver as pedras arredondadas brilhando no lugar onde a lagoa escoava num rio raso, mas o rio que a alimentava estava do outro lado, meio longe e escondido na mata. "Não parece muito impressionante", pensou Marin, e pôs um pé dentro da água.
O pé queimou como se pisasse em fogo, e ela pulou para trás de reflexo, assustada, as patas ardendo e o coração disparado. Rafael pulou junto, de susto; os dois meninos olharam pra ela preocupados.
-- A água às vezes arde enquanto cura. -- disse Rind, enquanto Marin recusava ajuda pra levantar. -- A gente tem que entrar devagar, por isso e porque precisa estar calmo pra não... pra não esquecer o que significa estar bem.
-- O que quer dizer? -- perguntou Rafa, com os dois pés dentro da lagoa, -- Está fazendo cócegas, mas é gostoso. -- ele fechou os olhos e foi andando lentamente pra dentro da água. Esse era o lugar certo pra fazer isso, Rind tinha dito, porque a lagoa ali era rasa e ia afundando lentamente. Mas havia também uma trilha para cima da pedra que ficava na parte mais profunda da lagoa, de onde alguém menos cauteloso poderia pular, ou ser jogado. Rind tinha dito que se você fosse jogado na Lagoa, corria o risco de se dissolver na água, ou virar um unlak ou um cardume de peixes. Marin não acreditava em unlaks ou em gente virando água e peixe. Ela tinha visto o homem-cavalo e o lobo que corria pelas nuvens, mas esses eram outros tipos de mágica. Rind tinha dito que depois da Lagoa ela ia ser tão forte quanto o Unicórnio. Que os homens-cavalo batizavam todas as suas crianças nessa água pra receber a bênção dos Guardiões, que eles sempre nos guardem. Mas a Lagoa ardia nos seus pés, enquanto Rafael entrava nela tranqüilamente, de olhos fechados. Não era justo. Tudo era sempre mais fácil para os meninos! Mas por um instante Marin viu Rafael fazer uma careta ao dar um passo. Talvez ele estivesse só fingindo, e aí era ainda pior. Ela não podia deixar ele ser mais corajoso que ela. Tudo era sempre mais fácil para um menino, mas ela era melhor que ele, ela fazia as coisas mais difíceis.
Rind gritou -- Marin, não corr --- mas ela estava correndo e tropeçando e caindo na água, tchi-bum, e a lagoa era funda o bastante pra ela de repente estar no fundo, e tudo era claro, cegante de claro, e doía e ardía, queimava como entrar numa banheira de gelo.
Marin de repente queria sair dali, não queria sentir mais dor. Ela era uma mulher, diziam que mulheres sentem menos dor, ela nunca tinha sentido tanta dor assim, nem naquela vez jogando bola - mas era impossível pensar em jogar bola, ela queria gritar, queria que tivesse menos luz, até a água dentro da sua boca ardia na sua língua, no céu da boca, como uma pasta de dente ardida demais. Em algum livro tinha um homem que ficava ferido e desmaiava de dor, será que ela ia desmaiar de dor?
E então talvez ela estivesse desmaiando, porque a dor passou, e então vieram as sensações estranhas. As sensações estranhas eram de calor e frio ao mesmo tempo, de molhado mas ressecado, e havia um vento extremamente forte que ameaçava levá-la pelos ares. Seus olhos estavam cegos, então só restava sentir. Marin sentiu que estava numa floresta, com cheiro de chuva e mato e o cheiro do pêlo do lôbo branco na sua pele, na sua bôca, junto com a sensação da fôrça que vinha nas suas quatro patas, e cheio daquele som das árvores chacoalhadas pela ventania -- depois sentiu que ondas batiam forte nas suas pernas por todos os lados, e um vento louco jogava água e areia na sua cara, e a balançava como uma árvore -- depois que água corria por ima dela como se ela fosse uma sarjeta, ou o leito de um rio caudaloso, mas rodas e patas corriam por ela, e ela se sentia vibrar como um tambor -- de repente ela se sentiu seca e forte como um cavalo, com cheiro de estábulo de fazenda, e vontade de correr pelo mundo -- e por um momento todas as sensações ficaram muito confusas quando ela começou a correr simultaneamente em todas as direções, e ela lembrou de quando ela ficava na varanda de um apartamento olhando os carros passando e querendo ser o Vento.
Então o Vento voltou a ser uma pessoa, que pôs as patas muito confusas no fundo da lagoa. Agora ela conseguia ver tudo muito claramente, e por um momento sentiu se sentiu maravilhosa - tudo estava no lugar, e ela podia se mexer como quisesse, e respirar debaixo d'água, e ser qualquer coisa! Seu corpo mudava de forma e tudo mudava de cor, e parecia que sua mente também estava se mexendo. Mas aos poucos a alegria foi mudando para desespêro, porque seus dentes pareciam moles e soltos mudando de forma sem parar no lugar, e suas mão de repente não pareciam mais mãos de nada que ela conhecesse, e sua pele ficava mudando de textura e até seus pêlos não ficavam de um jeito só. Rind tinha dito pra tomar cuidado, que era importante ser você mesmo no final. Marin não queria virar uma unlak ou um cardume. Nem mesmo queria ser o Vento. Era tão estranho não ser ninguém desse jeito, e ela tinha tanta coisa que ela era. Marin decidiu que estar bem era ser você mesmo. E então ela teve braços de menina e pernas de menina, e barriga de menina, e olhos de menina que viam muito bem debaixo d'água, e tentou lembrar como era ter dentes de menina, e como era ficar de pé, e respirar, e como eram seus cabelos, e seus pés, e suas outras patas. No fim, ela estava bastante parecida consigo mesma, e se sentindo leve, porque não tinha lembrado de devolver o cansaço, a fome e outros desconfortos de menina.
O fundo da lagoa era azul e bonito e cheio de peixes que Marin queria perseguir e tentar pegar. Mas meninas não respiravam debaixo d'água, e logo ela estava se desesperando e procurando voltar à superfície, à superfície, onde haveria ar!
Quando saiu da Lagoa, arfando e pingando água brilhante, que agora parecia um pouco assustadora, Marin encontrou Rafael, saindo da Lagoa rindo e brincando com a água.
-- Foi incível, Rind! Eu fui um pássaro e uma cobra, e nadei como uma tartaruga e voei como um falcão! Eu fui de todas as cores e de todas as formas, e eu sinto como se fosse pra ser assim mesmo, eu vou ser tudo, eu vou me tornar tudo o que eu quiser! Você não se sente assim, Marin? É tão incrível! Eu vou voar além das nuvens! E você, Marin, o que você foi?
Marin olhou para Rafa seriamente, pensando em como ele estava levando aquilo como se tivesse sido uma brincadeira deliciosa, como tomar sorvete e ir no parque de diversões. Mas, pensando bem, ela se sentia bem, agora que tinha acabado. Era como se ela tivesse se afogado e voltado à vida de uma vez só, mas agora estava tudo bem. Seu corpo inteiro ainda ardia um pouco, mas era um ardor leve, que um vendedor de pasta de dente chamaria de "refrescância". Só restava um pouco de estranheza, de não ter muita certeza de se ela ainda era a mesma pessoa de antes. Ou talvez ela fosse, e tudo aquilo tivesse sido só um sonho.
-- Marin? O que você foi?
-- O que mais, Rafa? Eu fui um lôbo.
---
E de repente estavam numa clareira, e as árvores estavam coloridas com reflexos inconstantes de água clara. A lagoa parecia apenas uma lagoa comum, e, como acontece com as lagoas comuns, a vegetação era mais vistosa e mais verde bem perto da água. Dava pra ver as pedras arredondadas brilhando no lugar onde a lagoa escoava num rio raso, mas o rio que a alimentava estava do outro lado, meio longe e escondido na mata. "Não parece muito impressionante", pensou Marin, e pôs um pé dentro da água.
O pé queimou como se pisasse em fogo, e ela pulou para trás de reflexo, assustada, as patas ardendo e o coração disparado. Rafael pulou junto, de susto; os dois meninos olharam pra ela preocupados.
-- A água às vezes arde enquanto cura. -- disse Rind, enquanto Marin recusava ajuda pra levantar. -- A gente tem que entrar devagar, por isso e porque precisa estar calmo pra não... pra não esquecer o que significa estar bem.
-- O que quer dizer? -- perguntou Rafa, com os dois pés dentro da lagoa, -- Está fazendo cócegas, mas é gostoso. -- ele fechou os olhos e foi andando lentamente pra dentro da água. Esse era o lugar certo pra fazer isso, Rind tinha dito, porque a lagoa ali era rasa e ia afundando lentamente. Mas havia também uma trilha para cima da pedra que ficava na parte mais profunda da lagoa, de onde alguém menos cauteloso poderia pular, ou ser jogado. Rind tinha dito que se você fosse jogado na Lagoa, corria o risco de se dissolver na água, ou virar um unlak ou um cardume de peixes. Marin não acreditava em unlaks ou em gente virando água e peixe. Ela tinha visto o homem-cavalo e o lobo que corria pelas nuvens, mas esses eram outros tipos de mágica. Rind tinha dito que depois da Lagoa ela ia ser tão forte quanto o Unicórnio. Que os homens-cavalo batizavam todas as suas crianças nessa água pra receber a bênção dos Guardiões, que eles sempre nos guardem. Mas a Lagoa ardia nos seus pés, enquanto Rafael entrava nela tranqüilamente, de olhos fechados. Não era justo. Tudo era sempre mais fácil para os meninos! Mas por um instante Marin viu Rafael fazer uma careta ao dar um passo. Talvez ele estivesse só fingindo, e aí era ainda pior. Ela não podia deixar ele ser mais corajoso que ela. Tudo era sempre mais fácil para um menino, mas ela era melhor que ele, ela fazia as coisas mais difíceis.
Rind gritou -- Marin, não corr --- mas ela estava correndo e tropeçando e caindo na água, tchi-bum, e a lagoa era funda o bastante pra ela de repente estar no fundo, e tudo era claro, cegante de claro, e doía e ardía, queimava como entrar numa banheira de gelo.
Marin de repente queria sair dali, não queria sentir mais dor. Ela era uma mulher, diziam que mulheres sentem menos dor, ela nunca tinha sentido tanta dor assim, nem naquela vez jogando bola - mas era impossível pensar em jogar bola, ela queria gritar, queria que tivesse menos luz, até a água dentro da sua boca ardia na sua língua, no céu da boca, como uma pasta de dente ardida demais. Em algum livro tinha um homem que ficava ferido e desmaiava de dor, será que ela ia desmaiar de dor?
E então talvez ela estivesse desmaiando, porque a dor passou, e então vieram as sensações estranhas. As sensações estranhas eram de calor e frio ao mesmo tempo, de molhado mas ressecado, e havia um vento extremamente forte que ameaçava levá-la pelos ares. Seus olhos estavam cegos, então só restava sentir. Marin sentiu que estava numa floresta, com cheiro de chuva e mato e o cheiro do pêlo do lôbo branco na sua pele, na sua bôca, junto com a sensação da fôrça que vinha nas suas quatro patas, e cheio daquele som das árvores chacoalhadas pela ventania -- depois sentiu que ondas batiam forte nas suas pernas por todos os lados, e um vento louco jogava água e areia na sua cara, e a balançava como uma árvore -- depois que água corria por ima dela como se ela fosse uma sarjeta, ou o leito de um rio caudaloso, mas rodas e patas corriam por ela, e ela se sentia vibrar como um tambor -- de repente ela se sentiu seca e forte como um cavalo, com cheiro de estábulo de fazenda, e vontade de correr pelo mundo -- e por um momento todas as sensações ficaram muito confusas quando ela começou a correr simultaneamente em todas as direções, e ela lembrou de quando ela ficava na varanda de um apartamento olhando os carros passando e querendo ser o Vento.
Então o Vento voltou a ser uma pessoa, que pôs as patas muito confusas no fundo da lagoa. Agora ela conseguia ver tudo muito claramente, e por um momento sentiu se sentiu maravilhosa - tudo estava no lugar, e ela podia se mexer como quisesse, e respirar debaixo d'água, e ser qualquer coisa! Seu corpo mudava de forma e tudo mudava de cor, e parecia que sua mente também estava se mexendo. Mas aos poucos a alegria foi mudando para desespêro, porque seus dentes pareciam moles e soltos mudando de forma sem parar no lugar, e suas mão de repente não pareciam mais mãos de nada que ela conhecesse, e sua pele ficava mudando de textura e até seus pêlos não ficavam de um jeito só. Rind tinha dito pra tomar cuidado, que era importante ser você mesmo no final. Marin não queria virar uma unlak ou um cardume. Nem mesmo queria ser o Vento. Era tão estranho não ser ninguém desse jeito, e ela tinha tanta coisa que ela era. Marin decidiu que estar bem era ser você mesmo. E então ela teve braços de menina e pernas de menina, e barriga de menina, e olhos de menina que viam muito bem debaixo d'água, e tentou lembrar como era ter dentes de menina, e como era ficar de pé, e respirar, e como eram seus cabelos, e seus pés, e suas outras patas. No fim, ela estava bastante parecida consigo mesma, e se sentindo leve, porque não tinha lembrado de devolver o cansaço, a fome e outros desconfortos de menina.
O fundo da lagoa era azul e bonito e cheio de peixes que Marin queria perseguir e tentar pegar. Mas meninas não respiravam debaixo d'água, e logo ela estava se desesperando e procurando voltar à superfície, à superfície, onde haveria ar!
Quando saiu da Lagoa, arfando e pingando água brilhante, que agora parecia um pouco assustadora, Marin encontrou Rafael, saindo da Lagoa rindo e brincando com a água.
-- Foi incível, Rind! Eu fui um pássaro e uma cobra, e nadei como uma tartaruga e voei como um falcão! Eu fui de todas as cores e de todas as formas, e eu sinto como se fosse pra ser assim mesmo, eu vou ser tudo, eu vou me tornar tudo o que eu quiser! Você não se sente assim, Marin? É tão incrível! Eu vou voar além das nuvens! E você, Marin, o que você foi?
Marin olhou para Rafa seriamente, pensando em como ele estava levando aquilo como se tivesse sido uma brincadeira deliciosa, como tomar sorvete e ir no parque de diversões. Mas, pensando bem, ela se sentia bem, agora que tinha acabado. Era como se ela tivesse se afogado e voltado à vida de uma vez só, mas agora estava tudo bem. Seu corpo inteiro ainda ardia um pouco, mas era um ardor leve, que um vendedor de pasta de dente chamaria de "refrescância". Só restava um pouco de estranheza, de não ter muita certeza de se ela ainda era a mesma pessoa de antes. Ou talvez ela fosse, e tudo aquilo tivesse sido só um sonho.
-- Marin? O que você foi?
-- O que mais, Rafa? Eu fui um lôbo.
segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012
Perguntas (e uma Maldição)
De novo estou publicando provisoriamente. Lembrem que o resto da história está aqui.
-------------------------------
Ainda me lembro claramente da revolta que senti naquele momento, com os olhos antigos da velha observando o efeito que suas palavras tinham em mim. Ela terminou a história com um tom tão solene que eu decidi que ela só podia ser estúpida ou louca. Eu era uma criança que acrediatava no certo e no errado, e pra mim era uma coisa errada você contar uma história que não fizesse sentido. Que tipo de história era aquela, em que o herói deixa a donzela pra trás e depois a mata, e nem se sente mal? Na arrogância infinita que os meninos aventureiros tem, eu levantei a voz e exigi que ela pelo menos admitisse sua vergonha.
- Essa não é a história de Roder, sua velha louca! Achei que a senhora ia me contar uma versão nova e melhor porque a senhora é daqui, mas essa história é pior que as que a Lilinha, que tem três anos, conta! Não tem pé nem cabeça! Como que a Faelyn podia estar dentro da caverna, se ela tava esperando pelo herói por meses e anos?! Como que Faelyn podia ser o dragão, se o dragão tinha aprisionado Faelyn um primeiro lugar?! Como que...
Mas nessa hora a velha não estava mais séria e tinha começado a sorrir de um jeito maroto, um jeito mau, como se estivesse tirando sarro de mim, se divertindo como se eu tivesse caído direitinho em sua armadilha. Eu ainda tentei insistir mais um pouco mais, mas minha imaginação estava trabalhando mais rápido do que eu podia contê-la, e atribuindo sentido à história toda.
- Sabe o que que eu acho? Eu acho que você é Faelyn, e que você inventou essa história porque você queria ser a princesa que o Roder salvou, mas não foi, e ele matou o dragão e depois fugiu com uma outra princesa, uma princesa que não chamava Faelyn, e que era muito mais bonita e mais delicada e mais jovem que você, que é só uma velha coroca que nenhum herói gosta e que nem sabe contar história!
Eu estava revoltado e tinha perdido toda a delicadeza. Quando me dei conta do que havia dito, de quão gravemente eu havia insultado aquela senhora, aquela mulher apavorante que provavelmente também era uma bruxa, eu gelei, certo de que viria uma grande punição. O sorriso dela tinha diminuído, e eu senti que havia uma certa dose de desagrado naquele sorriso duro, que parecia forçado, e no jeito como os olhos verdes estavam fixados tão intensamente em mim. Eu estava com mêdo e queria procurar uma rota de fuga, queria escapar daquela mulher, mas também não podia desviar os olhos dela. E havia um pouco de orgulho ali também, porque eu não queria virar as costas para uma mulher tão baixa que podia destruir uma história nobre como a de Roder apenas por sua própria vaidade. Felizmente, antes que eu criasse coragem de fazer alguma coisa, ela tornou a falar:
- Você comete o mesmo erro de sempre, menino, mesmo depois que eu lhe avisei. O problema não está nas histórias, está nos ouvidos de garotinhos como você, que acham que só os que as avós deles contaram é verdade. Que acham que os heróis são grandes e apaixonados por lindas donzelas, que são frágeis e só querem ser resgatadas. Garotinhos como você nada sabem de dragões. Eu lhe dei uma história de grande poder, uma história que é verdadeira e fala sobre verdades, e você vai aprender o valor dela com o tempo. Essa história é sobre como Roder matou sua primeira donzela por ser apaixonado por dragões. Você encontrará, em sua vida, outras histórias que sua avó não poderia lhe contar, histórias que não são grandiosas e não falam sobre conquistas, e sim sobre derrotas. E você mesmo também viverá suas próprias histórias, e você entenderá que nem tudo é o que parece, e que nem sempre e fácil entender de que tipo de história você está participando...
A velha não estava mais sorrindo, só estava me olhando enquanto a sua voz melodiosa me enfeitiçava outra vez, e ela de novo parecia uma mulher jovem e bonita. Eu estava coberto de calafrios.
- Por exemplo, - ela continuou - a história do ogro que você matou. Será que ele era mesmo um monstro terrível raptor de donzelas? Ou será que monstro não é você, que entrou em sua casa e o agrediu, você, que começou, como Roder, querendo salvar donzelas, e que no final só tinha pensamentos para o sangue de monstro lhe cobrindo?!
Eu não podia mais me mexer, e tinha certeza agora de que ela era uma bruxa, que sabia tudo sobre mim e que ia me transformar em alguma coisa horrível, talvez um ogro. Conforme ela falava essas coisas, seu olhar ia ficando mais intenso e assustador, embora a voz continuasse calma e agradável. Mas, de uma hora para outra, ela estava vociferando, dizendo coisas que me perseguiriam pelo resto da vida.
- Você é amaldiçoado, Meranael! Você tem a maldição do matador de monstros e do contador de histórias, e você seguirá os passos dos grandes heróis, mas não os que você imagina, e sim os que eles realmente deram. Você enfrentará desafios, e conhecerá mais pessoas e lugares do que você espera conhecer, mas você terá sede pela verdade, e ela sempre escapará por entre seus dedos. Você contará muitas histórias, mas nenhuma história verdadeira jamais estará completa, e muitas vezes as histórias verdadeiras não farão sentido como você espera. Mas, enquando sua alma humana permanecer neste mundo, você não se desviará do seu caminho."
-------------------------------
Ainda me lembro claramente da revolta que senti naquele momento, com os olhos antigos da velha observando o efeito que suas palavras tinham em mim. Ela terminou a história com um tom tão solene que eu decidi que ela só podia ser estúpida ou louca. Eu era uma criança que acrediatava no certo e no errado, e pra mim era uma coisa errada você contar uma história que não fizesse sentido. Que tipo de história era aquela, em que o herói deixa a donzela pra trás e depois a mata, e nem se sente mal? Na arrogância infinita que os meninos aventureiros tem, eu levantei a voz e exigi que ela pelo menos admitisse sua vergonha.
- Essa não é a história de Roder, sua velha louca! Achei que a senhora ia me contar uma versão nova e melhor porque a senhora é daqui, mas essa história é pior que as que a Lilinha, que tem três anos, conta! Não tem pé nem cabeça! Como que a Faelyn podia estar dentro da caverna, se ela tava esperando pelo herói por meses e anos?! Como que Faelyn podia ser o dragão, se o dragão tinha aprisionado Faelyn um primeiro lugar?! Como que...
Mas nessa hora a velha não estava mais séria e tinha começado a sorrir de um jeito maroto, um jeito mau, como se estivesse tirando sarro de mim, se divertindo como se eu tivesse caído direitinho em sua armadilha. Eu ainda tentei insistir mais um pouco mais, mas minha imaginação estava trabalhando mais rápido do que eu podia contê-la, e atribuindo sentido à história toda.
- Sabe o que que eu acho? Eu acho que você é Faelyn, e que você inventou essa história porque você queria ser a princesa que o Roder salvou, mas não foi, e ele matou o dragão e depois fugiu com uma outra princesa, uma princesa que não chamava Faelyn, e que era muito mais bonita e mais delicada e mais jovem que você, que é só uma velha coroca que nenhum herói gosta e que nem sabe contar história!
Eu estava revoltado e tinha perdido toda a delicadeza. Quando me dei conta do que havia dito, de quão gravemente eu havia insultado aquela senhora, aquela mulher apavorante que provavelmente também era uma bruxa, eu gelei, certo de que viria uma grande punição. O sorriso dela tinha diminuído, e eu senti que havia uma certa dose de desagrado naquele sorriso duro, que parecia forçado, e no jeito como os olhos verdes estavam fixados tão intensamente em mim. Eu estava com mêdo e queria procurar uma rota de fuga, queria escapar daquela mulher, mas também não podia desviar os olhos dela. E havia um pouco de orgulho ali também, porque eu não queria virar as costas para uma mulher tão baixa que podia destruir uma história nobre como a de Roder apenas por sua própria vaidade. Felizmente, antes que eu criasse coragem de fazer alguma coisa, ela tornou a falar:
- Você comete o mesmo erro de sempre, menino, mesmo depois que eu lhe avisei. O problema não está nas histórias, está nos ouvidos de garotinhos como você, que acham que só os que as avós deles contaram é verdade. Que acham que os heróis são grandes e apaixonados por lindas donzelas, que são frágeis e só querem ser resgatadas. Garotinhos como você nada sabem de dragões. Eu lhe dei uma história de grande poder, uma história que é verdadeira e fala sobre verdades, e você vai aprender o valor dela com o tempo. Essa história é sobre como Roder matou sua primeira donzela por ser apaixonado por dragões. Você encontrará, em sua vida, outras histórias que sua avó não poderia lhe contar, histórias que não são grandiosas e não falam sobre conquistas, e sim sobre derrotas. E você mesmo também viverá suas próprias histórias, e você entenderá que nem tudo é o que parece, e que nem sempre e fácil entender de que tipo de história você está participando...
A velha não estava mais sorrindo, só estava me olhando enquanto a sua voz melodiosa me enfeitiçava outra vez, e ela de novo parecia uma mulher jovem e bonita. Eu estava coberto de calafrios.
- Por exemplo, - ela continuou - a história do ogro que você matou. Será que ele era mesmo um monstro terrível raptor de donzelas? Ou será que monstro não é você, que entrou em sua casa e o agrediu, você, que começou, como Roder, querendo salvar donzelas, e que no final só tinha pensamentos para o sangue de monstro lhe cobrindo?!
Eu não podia mais me mexer, e tinha certeza agora de que ela era uma bruxa, que sabia tudo sobre mim e que ia me transformar em alguma coisa horrível, talvez um ogro. Conforme ela falava essas coisas, seu olhar ia ficando mais intenso e assustador, embora a voz continuasse calma e agradável. Mas, de uma hora para outra, ela estava vociferando, dizendo coisas que me perseguiriam pelo resto da vida.
- Você é amaldiçoado, Meranael! Você tem a maldição do matador de monstros e do contador de histórias, e você seguirá os passos dos grandes heróis, mas não os que você imagina, e sim os que eles realmente deram. Você enfrentará desafios, e conhecerá mais pessoas e lugares do que você espera conhecer, mas você terá sede pela verdade, e ela sempre escapará por entre seus dedos. Você contará muitas histórias, mas nenhuma história verdadeira jamais estará completa, e muitas vezes as histórias verdadeiras não farão sentido como você espera. Mas, enquando sua alma humana permanecer neste mundo, você não se desviará do seu caminho."
segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012
Manhã em Raéa
Na cidade de Raéa tudo era tão bonito! As praças estavam cobertas de lírios e as torres dos palácios se erguiam claras e majestosas em direção ao céu azul e límpido lá em cima. Em Raéa nunca chovia, nunca ficava nublado, talvez porque a cidade estava acima da maioria das nuvens, no topo dos picos fantásticos que o povo comum chamava de Heaven. É claro que o nome original do lugar era Haven, mas quem discordaria do nome que o povo dava, quer dizer, haveria um lugar mais próximo de se chamar de Céu? Os enormes pássaros de Raéa se agitavam e cantavam para despertar a cidade. Os habitantes de Raéa, como qualquer povo de boa fé, veneravam a Quemi, o Pássaro das Cores, e a Quehy, a Fênix de Luz. Exemplares jovens das duas espécies saltitavam aqui e ali, colorindo e iluminando o ar em que dançavam; mas o pássaro mais presente da cidade era o que eles chamavam de Alma dos Ventos, uma ave imponente que parecia nunca parar de crescer e que viajava distância inacreditável para fazer seus ninhos nas torres dos palácios. E, como era bem cedo, os parapeitos das janelas estavam apinhados de Almas das Manhãs, os menores pássaros de Raéa (ainda um pouco maiores que um sabiá de peito laranja), que tinham penas macias como as plumas de um bebê e que se reuniam ao nascer do sol para se aquecer, conversar com seus irmãos em trinados baixos e graves e entoar adoráveis cantigas de acordar. Não havia melhor forma de acordar que o amanhecer de Raéa! O sol entrava por todas as janelas e fazia brilhar as torres imaculadamente brancas. As casas baixas, feitas de blocos mais rudes das pedras claras das montanhas, estavam cobertas de flores delicadas que se abriam ao toque do sol. Cada porta, esculpida na mais nobre madeira jovem que crescia timidamente abaixo das nuvens, se abria, e cada janela, apenas para deixar o vento entrar. Logo todos estariam despertos, e a cidade estaria cantando com o prazer de um novo dia. Era por essas manhãs que Lyserh vivia. Ele adorava saltar para a rua e sentir o ar correndo por sua pele enquanto abrandava a queda. O azul do céu e o branco brilhante das casas e das flores o preenchia , como o calor do sol. Ele cumprimentava os pássaros ao caminhar pela praça. Era sua vez de ser feliz. Era tudo o que tinha na vida.
Neste dia, Ly também estava feliz porque ia conseguir uma coisa a mais, uma coisa a mais a que se agarrar nos momentos em que a luz parecia distante. Ele não tinha a menor dúvida de que a partir de então ele seria feliz! Ali, em Raéa, onde cada dia era perfeito, ali ele ia encontrar seu lugar do lado direito de Deus. Era impossível parar de sorrir. Ali ele ia encontrar aquilo que daria sentido à sua vida.
Ele atravessou mais algumas praças cobertas de lírios, e algumas ruas estreitas e floridas, saltitando de pedra em pedra e cantarolando para acompanhar as Almas. Antigamente ele costumava pensar com freqüência em como seria, depois da morte, é claro, ser um pássaro e passar seus dias planando e chilreando por aí; mas hoje esse pensamento sequer lhe ocorreu -- a vida parecia tão bela assim do jeito que estava! Era difícil pensar em coisas tristes ou mesmo coisas imperfeitas neste dia alegre.
Uma sombra passou por sua cabeça; a sombra do pórtico que separava seu bairro, cheio de jardins, do centro de Raéa, onde as construções altas de pedra antiga e acinzentada deixavam todo o espaço fresco e sombreado. A rua em frente era longa, estreita e cheias de portas dos dois lados, numa parede de sobrados interrompida a cada dezena de metros por vielas laterais. Mais adiante, a rua se inclinava em direção ao cume da cidade, e os topos das construções da região mais alta apareciam por trás dos telhados dos sobrados.
Lysere pôr os pés no chão e correu pelos próximos quarteirões, ansioso agora que podia enxergar a ponta do prédio ao qual se dirigia. As ruas estreitas e sinuosas do centro estavam apenas acordando, e o menino, que conhecia Raéa com a planta dos pés, corria através das primeiras barracas montadas nos mercados, e cortava caminho por dentro das galerias que acabaram de abrir, e se enfiava em ruelas esmagadas entre casarões para atravessar pracinhas nos fundos dos quarteirões. Em Raéa, conforme se chegava mais perto do cume, mais as construções tinham ornamentos e torres e balaustradas, e mais eram feitas de pedras coloridas e inclusive mais escuras, e aqui algumas delas tinham também gárgulas pretas sobre os balaústres, beirais e cumeeiras, com formato de dragão mostrando os dentes, e mais para cima ainda haveria gárgulas de pedra clara, com formato de grifo ou de águia, e nos pés e nas costas das gárgulas as Almas das Manhãs faziam seus ninhos, equilibrados.
Mas a rua que Lysere procurava era uma curta e um pouco mais larga, escondida no meio das ruas amontoadas do centro, ainda na região onde as gárgulas eram pretas e as construções eram de pedra cinza mais escura que em todo o resto da cidade. Para chegar nessa rua era preciso passar por galerias e vielas e caminhos que nem todos conheciam, e ela estava fora de todas as rotas da vias grandes, e por isso era muito vazia e tranqüila, e a essa hora da manhã parecia deserta. Essa era a rua dos mestres do conhecimento, que viviam reclusos com seus discípulos em suas torres estreitas. Cada torre era cercada por um muro baixo, com portões vazados e ornamentados que davam para a rua, e muitas delas tinham jardins ou sacadas, onde às vezes era possível ver um aprendiz dormitando, lendo ou apreciando a manhã. Algumas das torres eram apenas prédinhos quadrados de três ou quatro andares, outras eram circulares e iam afinando nos andares mais altos; algumas delas tinham portões grandes no andar térreo, outras tinham portas pequenas de madeira, e algumas ainda tinham apenas uma escada exterior que levava a uma porta-balcão no meio do segundo-andar. Muitas delas tinham os andares superiores feitos de pedra branca, como as casas das periferias da cidade. A Rua dos Mestres era uma das mais antigas da cidade, e quando Liserh corria por ela ele sentia o cheiro das madeiras e pedras escuras e das trepadeiras que cobriam todos os muros e quase fechavam as grandes janelas, e sentia o olhar das gárgulas monstruosas vigiando-o em seu caminho, o mêdo que toda criança tinha daquela parte da cidade se somando ao nervosismo pelo que ia acontecer com ele hoje. Quando chegou ao seu destino, Liserh parou para recuperar o fôlego e a calma, querendo parecer controlado e respeitável ao entrar.
Era apenas por um acaso histórico que a pena de Raéa do Braço do Grande Anjo, a força militar de elite que servia à defesa de Heaven, tinha sua sede na Rua dos Pensamentes. O prédio da sede se destacava de longe porque suas paredes eram impecavelmente brancas, livres de trepadeiras, ao invés de ter gárgulas negras e assustadoras espalhadas pelos beirais, tinha um único Grifo branco e dourado alçando vôo de cima da grande janela do terceiro andar, sobre um telhado ornamentado apenas com telhas em forma de penas. O terreno era maior do que os outros da rua, e o portão era mais alto, e o próprio prédio era mais largo, e embora não fosse um dos mais altos, ele se destacava por seu uma construção inteiriça, diferente das outras torres que tinham pedaços construídos em época diferentes. Desde a primeira vez em que vira aquele prédio, Liserh sentira que ele era especial, e quando aprendera na escola que aquela era a sede do Braço do Grande Anjo, se tornara seu sonho um dia ser chamado para entrar naquele lugar.
(estou publicando provisóriamente, deixem comentários)
Neste dia, Ly também estava feliz porque ia conseguir uma coisa a mais, uma coisa a mais a que se agarrar nos momentos em que a luz parecia distante. Ele não tinha a menor dúvida de que a partir de então ele seria feliz! Ali, em Raéa, onde cada dia era perfeito, ali ele ia encontrar seu lugar do lado direito de Deus. Era impossível parar de sorrir. Ali ele ia encontrar aquilo que daria sentido à sua vida.
Ele atravessou mais algumas praças cobertas de lírios, e algumas ruas estreitas e floridas, saltitando de pedra em pedra e cantarolando para acompanhar as Almas. Antigamente ele costumava pensar com freqüência em como seria, depois da morte, é claro, ser um pássaro e passar seus dias planando e chilreando por aí; mas hoje esse pensamento sequer lhe ocorreu -- a vida parecia tão bela assim do jeito que estava! Era difícil pensar em coisas tristes ou mesmo coisas imperfeitas neste dia alegre.
Uma sombra passou por sua cabeça; a sombra do pórtico que separava seu bairro, cheio de jardins, do centro de Raéa, onde as construções altas de pedra antiga e acinzentada deixavam todo o espaço fresco e sombreado. A rua em frente era longa, estreita e cheias de portas dos dois lados, numa parede de sobrados interrompida a cada dezena de metros por vielas laterais. Mais adiante, a rua se inclinava em direção ao cume da cidade, e os topos das construções da região mais alta apareciam por trás dos telhados dos sobrados.
Lysere pôr os pés no chão e correu pelos próximos quarteirões, ansioso agora que podia enxergar a ponta do prédio ao qual se dirigia. As ruas estreitas e sinuosas do centro estavam apenas acordando, e o menino, que conhecia Raéa com a planta dos pés, corria através das primeiras barracas montadas nos mercados, e cortava caminho por dentro das galerias que acabaram de abrir, e se enfiava em ruelas esmagadas entre casarões para atravessar pracinhas nos fundos dos quarteirões. Em Raéa, conforme se chegava mais perto do cume, mais as construções tinham ornamentos e torres e balaustradas, e mais eram feitas de pedras coloridas e inclusive mais escuras, e aqui algumas delas tinham também gárgulas pretas sobre os balaústres, beirais e cumeeiras, com formato de dragão mostrando os dentes, e mais para cima ainda haveria gárgulas de pedra clara, com formato de grifo ou de águia, e nos pés e nas costas das gárgulas as Almas das Manhãs faziam seus ninhos, equilibrados.
Mas a rua que Lysere procurava era uma curta e um pouco mais larga, escondida no meio das ruas amontoadas do centro, ainda na região onde as gárgulas eram pretas e as construções eram de pedra cinza mais escura que em todo o resto da cidade. Para chegar nessa rua era preciso passar por galerias e vielas e caminhos que nem todos conheciam, e ela estava fora de todas as rotas da vias grandes, e por isso era muito vazia e tranqüila, e a essa hora da manhã parecia deserta. Essa era a rua dos mestres do conhecimento, que viviam reclusos com seus discípulos em suas torres estreitas. Cada torre era cercada por um muro baixo, com portões vazados e ornamentados que davam para a rua, e muitas delas tinham jardins ou sacadas, onde às vezes era possível ver um aprendiz dormitando, lendo ou apreciando a manhã. Algumas das torres eram apenas prédinhos quadrados de três ou quatro andares, outras eram circulares e iam afinando nos andares mais altos; algumas delas tinham portões grandes no andar térreo, outras tinham portas pequenas de madeira, e algumas ainda tinham apenas uma escada exterior que levava a uma porta-balcão no meio do segundo-andar. Muitas delas tinham os andares superiores feitos de pedra branca, como as casas das periferias da cidade. A Rua dos Mestres era uma das mais antigas da cidade, e quando Liserh corria por ela ele sentia o cheiro das madeiras e pedras escuras e das trepadeiras que cobriam todos os muros e quase fechavam as grandes janelas, e sentia o olhar das gárgulas monstruosas vigiando-o em seu caminho, o mêdo que toda criança tinha daquela parte da cidade se somando ao nervosismo pelo que ia acontecer com ele hoje. Quando chegou ao seu destino, Liserh parou para recuperar o fôlego e a calma, querendo parecer controlado e respeitável ao entrar.
Era apenas por um acaso histórico que a pena de Raéa do Braço do Grande Anjo, a força militar de elite que servia à defesa de Heaven, tinha sua sede na Rua dos Pensamentes. O prédio da sede se destacava de longe porque suas paredes eram impecavelmente brancas, livres de trepadeiras, ao invés de ter gárgulas negras e assustadoras espalhadas pelos beirais, tinha um único Grifo branco e dourado alçando vôo de cima da grande janela do terceiro andar, sobre um telhado ornamentado apenas com telhas em forma de penas. O terreno era maior do que os outros da rua, e o portão era mais alto, e o próprio prédio era mais largo, e embora não fosse um dos mais altos, ele se destacava por seu uma construção inteiriça, diferente das outras torres que tinham pedaços construídos em época diferentes. Desde a primeira vez em que vira aquele prédio, Liserh sentira que ele era especial, e quando aprendera na escola que aquela era a sede do Braço do Grande Anjo, se tornara seu sonho um dia ser chamado para entrar naquele lugar.
(estou publicando provisóriamente, deixem comentários)
quarta-feira, 6 de abril de 2011
Aqui.
Eu te amo. Mas eu não apenas te amo como eu amo todas as outras pessoas que eu amo. Eu estou disposta a sacrificar milhões de futuros pelo meu futuro com você. Os filhos que eu teria com outros amantes, as festas de natal com outras famílias, as bibliotecas compartilhadas, as casas, as canecas e os sofás e todas aquelas madrugadas e manhãzinhas e conversas antes de dormir quando a gente está dormindo junto só porque a gente dorme junto sempre e é tão mais gostoso do que dormir sozinho. E vários tipos de aventuras românticas loucas, e várias descobertas profundas e vários momentos cotidianos e outras coisas que só acontecem numa convivência tão íntima e tão intensa que é não dá pra ter de verdade com mais de uma ou talvez umas poucas pessoas.
Eu quero viver a vida com você. Todas as madrugadas e viagens longas na chuva, e cafés da manhã a almoços no fim da tarde e todas as pequenas mazelas e todos os grandes desafios, e eu quero poder te contar todos os dias das coisas legais e chatas que aconteceram comigo, e ouvir você se emocionar com elas e se revoltar com as coisas que são erradas e rejubilar com as que são felizes, e ficar preocupado com as que são perigosas porque assim eu não estou sozinha. E eu quero ouvir você contar suas pequenas aventuras e as formas incríveis como você lida com tudo o que te acontece, porque eu nunca me canso de aprender sobre você e com você.
E, enquanto nós crescemos juntos, enquanto nós andamos juntos pelo mundo, pela vida, eu quero nossas vidas misturadas. Eu quero nossos irmãos tomando conta dos nossos filhotes, discutindo coisas improváveis em volta de uma grande mesa de piquenique, ou algo assim. Eu imagino sua irmã contando histórias para os meus sobrinhos, possivelmente enquanto todos nós subimos numa árvore e nossas mães e tias compartilham histórias de quando nós éramos pequenos, e eu quero todos nós juntos cantando samba e choro em alguma festa de família e nossos amigos contando histórias embaraçosas sobre nós para as crianças (se nós não tivermos filhos, eles ainda contarão para nossos sobrinhos).
E, sabe, eu quero isso devagar, minuto por minuto, cada aluno que não entende direito o que você ensina, cada lista de matemática que eu não consigo terminar, cada noite que a gente passa em claro porque o jogo ou o papo ou o mundo estão muito bons ou porque pelo menos um de nós está distraído demais com alguma pessoa incrível, cada improviso de fantasia, de viagem, de apresentação, cada entrevista de emprego, cada procura por orientador, cada pessoa nova que surge em nossas vidas ou pessoa velha que muda. Eu quero todas as viagens impulsivas no meio da noite só porque faz muito tempo que a gente não vê Minas, ou o Mar; eu quero todas as experiências transformadoras com você; eu quero cada partida de cada jogo em que a gente vicia, cada brinde, cada pote de sucrilhos e garrafa de cerveja; eu quero cada pôr do sol que nos emociona, e cada beijo, e cada transa, e cada arrepio diante da potência de uma tempestade, e cada abraço que podia nunca mais largar; e cada toque entre as nossas peles, e cada brincadeira sua com o meu gato, e eu quero construir um trecho de universo nosso, que seja um pouco mais do nosso jeito, e que seja por isso um pouco mais feliz.
E como eu quero te fazer feliz! Eu quero te ver conquistar os seus sonhos, e mudar a vida de muitas outras pessoas, e construir comigo esse futuro a cada passo, sem pressa, porque você é tão confiante de que tudo já está dando certo afinal. E eu quero estar do seu lado a cada mudança, a cada passagem, aprendendo sobre você, mudando junto, mandando tudo pro espaço e te puxando pra Zanzibar toda vez que a vida começar a ficar muito sem graça. E eu quero infinitas horas pra ficar enrolada com você, só curtindo o prazer de te amar tanto. E eu quero tudo isso com todas as palavras, mesmo que em gatês. Eu quero tudo isso com todas as histórias, loucuras e verdades. E eu quero viver pra sempre com você.
...Num assunto não muito relacionado, eu também quero muito levar aquele seu amigo delicioso pra casa. Se você pudesse dar tipo um passe-livre pra gente, ia ser realmente fantástico.
Eu quero viver a vida com você. Todas as madrugadas e viagens longas na chuva, e cafés da manhã a almoços no fim da tarde e todas as pequenas mazelas e todos os grandes desafios, e eu quero poder te contar todos os dias das coisas legais e chatas que aconteceram comigo, e ouvir você se emocionar com elas e se revoltar com as coisas que são erradas e rejubilar com as que são felizes, e ficar preocupado com as que são perigosas porque assim eu não estou sozinha. E eu quero ouvir você contar suas pequenas aventuras e as formas incríveis como você lida com tudo o que te acontece, porque eu nunca me canso de aprender sobre você e com você.
E, enquanto nós crescemos juntos, enquanto nós andamos juntos pelo mundo, pela vida, eu quero nossas vidas misturadas. Eu quero nossos irmãos tomando conta dos nossos filhotes, discutindo coisas improváveis em volta de uma grande mesa de piquenique, ou algo assim. Eu imagino sua irmã contando histórias para os meus sobrinhos, possivelmente enquanto todos nós subimos numa árvore e nossas mães e tias compartilham histórias de quando nós éramos pequenos, e eu quero todos nós juntos cantando samba e choro em alguma festa de família e nossos amigos contando histórias embaraçosas sobre nós para as crianças (se nós não tivermos filhos, eles ainda contarão para nossos sobrinhos).
E, sabe, eu quero isso devagar, minuto por minuto, cada aluno que não entende direito o que você ensina, cada lista de matemática que eu não consigo terminar, cada noite que a gente passa em claro porque o jogo ou o papo ou o mundo estão muito bons ou porque pelo menos um de nós está distraído demais com alguma pessoa incrível, cada improviso de fantasia, de viagem, de apresentação, cada entrevista de emprego, cada procura por orientador, cada pessoa nova que surge em nossas vidas ou pessoa velha que muda. Eu quero todas as viagens impulsivas no meio da noite só porque faz muito tempo que a gente não vê Minas, ou o Mar; eu quero todas as experiências transformadoras com você; eu quero cada partida de cada jogo em que a gente vicia, cada brinde, cada pote de sucrilhos e garrafa de cerveja; eu quero cada pôr do sol que nos emociona, e cada beijo, e cada transa, e cada arrepio diante da potência de uma tempestade, e cada abraço que podia nunca mais largar; e cada toque entre as nossas peles, e cada brincadeira sua com o meu gato, e eu quero construir um trecho de universo nosso, que seja um pouco mais do nosso jeito, e que seja por isso um pouco mais feliz.
E como eu quero te fazer feliz! Eu quero te ver conquistar os seus sonhos, e mudar a vida de muitas outras pessoas, e construir comigo esse futuro a cada passo, sem pressa, porque você é tão confiante de que tudo já está dando certo afinal. E eu quero estar do seu lado a cada mudança, a cada passagem, aprendendo sobre você, mudando junto, mandando tudo pro espaço e te puxando pra Zanzibar toda vez que a vida começar a ficar muito sem graça. E eu quero infinitas horas pra ficar enrolada com você, só curtindo o prazer de te amar tanto. E eu quero tudo isso com todas as palavras, mesmo que em gatês. Eu quero tudo isso com todas as histórias, loucuras e verdades. E eu quero viver pra sempre com você.
...Num assunto não muito relacionado, eu também quero muito levar aquele seu amigo delicioso pra casa. Se você pudesse dar tipo um passe-livre pra gente, ia ser realmente fantástico.
sexta-feira, 11 de março de 2011
"O Boi tem a fazenda inteira dentro dele!"
Situação: Maria (ou qual seja o nome dela) é uma sul-rio-grandense que veio trabalhar como empregada doméstica em São Paulo.
— Maria, vai no açougue e traz um lagarto pra fazer assado.
— Lagarto?! Come-se lagarto aqui em São Paulo?!
— Não, lagarto, a parte do boi, assim-assim-etc...
— Ah, quer dizer tatu!
(história contada pela avó do André)
— Maria, vai no açougue e traz um lagarto pra fazer assado.
— Lagarto?! Come-se lagarto aqui em São Paulo?!
— Não, lagarto, a parte do boi, assim-assim-etc...
— Ah, quer dizer tatu!
(história contada pela avó do André)
terça-feira, 1 de março de 2011
The Coin Shower
"A man went outside
... it started raining coins
... ... he picked them up"
- Garth Nix, age 6
sábado, 18 de dezembro de 2010
Rascunhos
"Não faça rascunhos. Leve cada desenho a sério." - Peçanha
Sabe, eu tenho dois rascunhos quase permanente no meu blog, além de um rascunho rotativo de Histórias Sem Fim. São começos de histórias que eu queria escrever, que começaram muito naturalmente, mas que eu não consigo continuar! É tão difícil continuar. Particularmente esta sobre o Lay, o Anjo do Relâmpago (é a primeira vez que o chamo assim, em português), é difícil porque eu comecei querendo escrever com leveza e beleza, mas a vida do Lay não é bonita, e eu não consigo dar o passo do lirismo para a narrativa. Acho narrativas muito difíceis, me dou muito melhor com as descrições. Bem, acho que nunca serei um contador de histórias como o Garth Nix, mas talvez eu possa almejar um pouco do fascínio do Tolkien... Enfim, vou publicar esse rascunho para vocês terem uma idéia do que estou falando.
------------------------------------
Na cidade de Raéa tudo era tão bonito! As praças estavam cobertas de lírios e as torres dos palácios se erguiam claras e majestosas em direção ao céu azul e límpido lá em cima. Em Raéa nunca chovia, nunca ficava nublado, talvez porque a cidade estava acima da maioria das nuvens, no topo dos picos fantásticos que o povo comum chamava de Heaven. É claro que o nome original do lugar era Haven, mas quem discordaria do nome que o povo dava, quer dizer, haveria um lugar mais próximo de se chamar de Céu? Os enormes pássaros de Raéa se agitavam e cantavam para despertar a cidade. Os habitantes de Raéa, como qualquer povo de boa fé, venerava a Quemi, o Pássaro das Cores, e a Quehy, a Fênix de Luz. Exemplares jovens das duas espécies saltitavam aqui e ali, colorindo e iluminando o ar em que dançavam; mas o pássaro mais presente da cidade era o que eles chamavam de Alma dos Ventos, uma ave imponente que parecia nunca parar de crescer e que viajava distância inacreditáveis para fazer seu ninho nas torres dos palácios. E, como era bem cedo, os parapeitos das janelas estavam apinhados de Almas das Manhãs, os menores pássaros de Raéa (ainda um pouco maiores que um sabiá de peito laranja), que tinham penas macias como as plumas de um bebê e que se reuniam no nascer do sol para se aquecer, conversar com seus irmãos em trinados baixos e graves e entoar adoráveis cantigas de acordar. Não havia melhor forma de acordar que o amanhecer de Raéa! O sol entrava por todas as janelas e fazia brilhar as torres imaculadamente brancas. As casas baixas, feitas de blocos mais rudes das pedras claras das montanhas, estavam cobertas de flores delicadas que se abriam ao toque do sol. Cada porta, esculpida na mais nobre madeira jovem que crescia timidamente abaixo das nuvens, se abria, e cada janela, apenas para deixar o vento entrar. Logo todos estariam despertos, e a cidade estaria cantando com o prazer de um novo dia. Era por essas manhãs que Lyserh vivia. Ele adorava saltar para a rua e sentir o ar correndo por sua pele enquanto abrandava a queda. O azul do céu e o branco brilhante das casas e das flores o preenchia , como o calor do sol. Ele cumprimentava os pássaros ao caminhar pela praça. Era sua vez de ser feliz. Era tudo o que tinha na vida.
Neste dia, Ly também estava feliz porque ia conseguir uma coisa a mais, uma coisa a mais a que se agarrar nos momentos em que a luz parecia distante. Ele não tinha a menor dúvida de que a partir de então ele seria feliz! Ali, em Raéa, onde cada dia era perfeito, ali ele ia encontrar seu lugar do lado direito de Deus. Era impossível parar de sorrir. Ali ele ia encontrar aquilo que daria sentido à sua vida.
Ele atravessou mais algumas praças cobertas de lírios, e algumas ruas estreitas e floridas, saltitando de pedra em pedra e cantarolando para acompanhar as Almas. Antigamente ele costumava pensar com freqüência em como seria, depois da morte, é claro, ser um pássaro e passar seus dias planando e chilreando por aí; mas hoje esse pensamento sequer lhe ocorreu -- a vida parecia tão bela assim do jeito que estava! Era difícil pensar em coisas tristes ou mesmo coisas imperfeitas neste dia alegre.
---------------------------------------------
Minha idéia é contar como Lyserh entrou para a força de elite dos Anjos. É muito importante para a história que ele entre nela. Na verdade é essa a fundação do personagem. Mas eu não consigo fazer acontecer.
quinta-feira, 16 de dezembro de 2010
Faelyn
O dragão surgiu de repente depois de uma curva, e assomava enorme, quase batendo em todas as paredes da imensa galeria. Era um dragão magnífico, de escamas verdes cobrindo as costelas e placas vermelhas por todo o dorso, brilhando intensamente mesmo na pouca luz da caverna. Suas garras eram do tamanho da espada de Roder, cinzentas e muito mais fortes do que a lâmina. Toda a couraça do dragão reluzia em tonalidades detalhadamente distintas, colorindo as paredes e o chão como um caleidoscópio. Seus chifres eram grandes como árvores, e seus olhos tinham a intensidade de um caçador. Era o dragão perfeito, o monstro de todas as lendas, o inimigo dos sonhos de Roder, Aquele era o dragão definitivo, o dragão com que ele sonhava quando sua irmã lhe contava histórias antes de dormir.
- Nahär! - gritou Roder o nome de seus ancestrais enquanto desembainhava a espada. O dragão levantou a cabeça num susto e se encolheu contra o fundo da galeria, contorcendo o longo pescoço escamoso para virar os olhos para o invasor. Roder, vendo aquela carne enorme se virando e movendo com estradalhaço, ergueu a espada que tinha matado cem ogros e se lançou em corrida para fincar sua lâmina entre as escamas da barriga do monstro. Mas não é tão fácil penetrar o couro de um dragão, e este, tentando espantar o incômodo cutucador, abriu a bocarra cheia de dentes pontudos e rugiu na cara de seu agressor. Mas Roder, em vez de de se assustar com os presas imensas e o rugido ensurdecedor se revigorou com eles e e, convencido de que aquele era o mais terrível e formidável monstro que um herói já enfrentara sem ser devorado, estendeu o braço e enfiou sua espada no fundo da enorme garganta. E o dragão caiu.
Como eu disse, o problema está sempre nos ouvintes. vejo que você me ouve com olhos arregalados e emoção renovada a cada frase, sem imaginar o que acontece a seguir. Também Roder acreditava estar vivendo a estória de sua vida, e nesse momento seu coração batia rápido e sua mente viava pelos cenários do triunfo e das canções dos menestréis. Mas nesse mesmo momento sua visão se desfez.
A bocarra do dragão caíra sobre o herói e o mantinha preso entre as presas e a espada, um dente enorme enfiado no braço desarmado. De repente o espeto dos dentes desapareceu e Roder se desequilibrou e caiu sentado no chão, atordoado mas sem largar a espada. Uma névoa com cor de dragão volteava e revolvia em torno dele, parecendo querer se reunir no centro da galeria logo à sua frente. Entretanto Roder via nitidamente através da névoa, que não tinha cheiro, e não havia vento. Era uma ilusão! Não havia dragão, mas seu braço estava ferido e a espada, suja de sangue. O herói ficou no chão, confuso e paralizado pela percepção de que estivera lutando contra um dragão de mentira. Entretanto, devia haver alguém, quem sabe um demônio ou um vil feiticeiro por trás dessa névoa, pois alguém raptara a donzela, alguém o chamar através da caverna, alguém causara o ferimento no seu braço, e mais - alguém deixara seu sangue sobre sua espada. Roder ficou de pé e avançou lentamente para onde a névoa começava a se compactar numa forma humana, determinado a garantir sua vitória contra quem fosse o vilão de sua história. Ele se postou altivo e ameaçador diante do homem que a névoa formava; mas o homem era na verdade Faelyn, caída e agonizante aos seus pés, numa poça de sangue que saía de sua garganta - e ele desfez a pose e tentou desesperado ajudá-la, mas a garota se esquivou dele apavorada, e seus últimos movimentos neste mundo foram para fugir de seu suposto salvador.
Imagino Roder tentando ajudar a garota, tentando entender onde ele tomara o caminho errado, como era possível que o dragão cruel se tornasse a dozela inocente. E principalmente, como a donzela fôra parar dentro da caverna se ela estava esperando por ele lá fora? Mas não, Roder não parou para pensar nessas coisas, porque era jovem e estava apenas em busca de monstros, não de respostas. A única pergunta que ele fez era onde encontraria o feiticeiro que trocara a vida da donzela pela do dragão, e o que teria que fazer para trazê-lo até o fio de sua espada. E, com seus sonhos de triunfo derramados com o sangue de Faelyn, ele foi buscar seu feiticeiro pelos túneis mais profundos na caverna, que levavam para longe desta cidade.
- Nahär! - gritou Roder o nome de seus ancestrais enquanto desembainhava a espada. O dragão levantou a cabeça num susto e se encolheu contra o fundo da galeria, contorcendo o longo pescoço escamoso para virar os olhos para o invasor. Roder, vendo aquela carne enorme se virando e movendo com estradalhaço, ergueu a espada que tinha matado cem ogros e se lançou em corrida para fincar sua lâmina entre as escamas da barriga do monstro. Mas não é tão fácil penetrar o couro de um dragão, e este, tentando espantar o incômodo cutucador, abriu a bocarra cheia de dentes pontudos e rugiu na cara de seu agressor. Mas Roder, em vez de de se assustar com os presas imensas e o rugido ensurdecedor se revigorou com eles e e, convencido de que aquele era o mais terrível e formidável monstro que um herói já enfrentara sem ser devorado, estendeu o braço e enfiou sua espada no fundo da enorme garganta. E o dragão caiu.
Como eu disse, o problema está sempre nos ouvintes. vejo que você me ouve com olhos arregalados e emoção renovada a cada frase, sem imaginar o que acontece a seguir. Também Roder acreditava estar vivendo a estória de sua vida, e nesse momento seu coração batia rápido e sua mente viava pelos cenários do triunfo e das canções dos menestréis. Mas nesse mesmo momento sua visão se desfez.
A bocarra do dragão caíra sobre o herói e o mantinha preso entre as presas e a espada, um dente enorme enfiado no braço desarmado. De repente o espeto dos dentes desapareceu e Roder se desequilibrou e caiu sentado no chão, atordoado mas sem largar a espada. Uma névoa com cor de dragão volteava e revolvia em torno dele, parecendo querer se reunir no centro da galeria logo à sua frente. Entretanto Roder via nitidamente através da névoa, que não tinha cheiro, e não havia vento. Era uma ilusão! Não havia dragão, mas seu braço estava ferido e a espada, suja de sangue. O herói ficou no chão, confuso e paralizado pela percepção de que estivera lutando contra um dragão de mentira. Entretanto, devia haver alguém, quem sabe um demônio ou um vil feiticeiro por trás dessa névoa, pois alguém raptara a donzela, alguém o chamar através da caverna, alguém causara o ferimento no seu braço, e mais - alguém deixara seu sangue sobre sua espada. Roder ficou de pé e avançou lentamente para onde a névoa começava a se compactar numa forma humana, determinado a garantir sua vitória contra quem fosse o vilão de sua história. Ele se postou altivo e ameaçador diante do homem que a névoa formava; mas o homem era na verdade Faelyn, caída e agonizante aos seus pés, numa poça de sangue que saía de sua garganta - e ele desfez a pose e tentou desesperado ajudá-la, mas a garota se esquivou dele apavorada, e seus últimos movimentos neste mundo foram para fugir de seu suposto salvador.
Imagino Roder tentando ajudar a garota, tentando entender onde ele tomara o caminho errado, como era possível que o dragão cruel se tornasse a dozela inocente. E principalmente, como a donzela fôra parar dentro da caverna se ela estava esperando por ele lá fora? Mas não, Roder não parou para pensar nessas coisas, porque era jovem e estava apenas em busca de monstros, não de respostas. A única pergunta que ele fez era onde encontraria o feiticeiro que trocara a vida da donzela pela do dragão, e o que teria que fazer para trazê-lo até o fio de sua espada. E, com seus sonhos de triunfo derramados com o sangue de Faelyn, ele foi buscar seu feiticeiro pelos túneis mais profundos na caverna, que levavam para longe desta cidade.
segunda-feira, 22 de novembro de 2010
O Amante da Estrela
Seus olhos encontraram uma estrela
na profunda escuridão do infindo céu.
Aquela estrela brilhava intensamente
ofuscando seus olhos cor de mel...
Seus olhos encontraram uma estrela,
e desta estrela tirou forças para lutar,
para se levantar e vencer seus medos,
para se erguer das sombras de tantos segredos
e permitir que a luz a iluminasse...
A estrela longe no céu, a brilhar...
Seus olhos tão profundos, penetrantes,
a estrela tão distante admiraram
e a estrela respondeu com um sorriso terno,
eterno, etéreo, lúcido, insano e escuro.
Olhos brilhantes que a estrela amaram.
Seu corpo vacilou no azul do espaço,
sua mente despertou de um sono longo,
seu coração bateu num baque fraco.
Mas seus olhos não deixaram sua estrela,
mas seus olhos foram fiéis, apenas eles...
Perderam a cor do mel, e um brilho opaco
marcou para sempre seus olhos escuros, perenes.
----------------------------
Que poema bizarro. Não tinha nenhuma lembrança dele e o li como se nem fosse meu. acho que eu era muito pouco rigorosa com a pontuação nessa época, e hoje isso me incomoda absurdos!
na profunda escuridão do infindo céu.
Aquela estrela brilhava intensamente
ofuscando seus olhos cor de mel...
Seus olhos encontraram uma estrela,
e desta estrela tirou forças para lutar,
para se levantar e vencer seus medos,
para se erguer das sombras de tantos segredos
e permitir que a luz a iluminasse...
A estrela longe no céu, a brilhar...
Seus olhos tão profundos, penetrantes,
a estrela tão distante admiraram
e a estrela respondeu com um sorriso terno,
eterno, etéreo, lúcido, insano e escuro.
Olhos brilhantes que a estrela amaram.
Seu corpo vacilou no azul do espaço,
sua mente despertou de um sono longo,
seu coração bateu num baque fraco.
Mas seus olhos não deixaram sua estrela,
mas seus olhos foram fiéis, apenas eles...
Perderam a cor do mel, e um brilho opaco
marcou para sempre seus olhos escuros, perenes.
----------------------------
Que poema bizarro. Não tinha nenhuma lembrança dele e o li como se nem fosse meu. acho que eu era muito pouco rigorosa com a pontuação nessa época, e hoje isso me incomoda absurdos!
quinta-feira, 18 de novembro de 2010
Uns pés [12/8/2005]
Uns pés na estrada
Uns meninos
Umas folhas ao vento
Uma floresta
Um veleiro no lago - vários destinos
Numa caverna escura, uma fresta
para uma nesga de luz.
Tocam o chão as folhas
e através do tempo
A mão que me conduz
que transcende o momento
persiste em movimento
perde o meu rumo - e o seu.
Perdidos em nós mesmos
nós procuramos
Confiando em nossos pés
nos arrumamos
Se nós lutamos pelo mundo inteiro
nosso norte é o céu.
-------
Esse poema na verdade foi composto para abrir um livro do Krystalian do Charles. Acho que o Charles tem uma relação com seus livros que é meio parecida com a que eu tenho com os meus. Ou tinha. Ou tínhamos, não sei. Tive que mudar a diagramação porque o blogger não entende indentação e eu não sei como resolver isso. Acho que perde muito, mas fazer o quê. (se pá eu devia postar uma imagem com o poema?)
Eu gosto bastante deste poema, mas acho que ele deve fazer mais sentido combinado com o livro, do qual lembro muito pouco. No mais, vocês que me expliquem.
Uns meninos
Umas folhas ao vento
Uma floresta
Um veleiro no lago - vários destinos
Numa caverna escura, uma fresta
para uma nesga de luz.
Tocam o chão as folhas
e através do tempo
A mão que me conduz
que transcende o momento
persiste em movimento
perde o meu rumo - e o seu.
Perdidos em nós mesmos
nós procuramos
Confiando em nossos pés
nos arrumamos
Se nós lutamos pelo mundo inteiro
nosso norte é o céu.
-------
Esse poema na verdade foi composto para abrir um livro do Krystalian do Charles. Acho que o Charles tem uma relação com seus livros que é meio parecida com a que eu tenho com os meus. Ou tinha. Ou tínhamos, não sei. Tive que mudar a diagramação porque o blogger não entende indentação e eu não sei como resolver isso. Acho que perde muito, mas fazer o quê. (se pá eu devia postar uma imagem com o poema?)
Eu gosto bastante deste poema, mas acho que ele deve fazer mais sentido combinado com o livro, do qual lembro muito pouco. No mais, vocês que me expliquem.
sexta-feira, 29 de outubro de 2010
Do som que sai dos teus lábios
texto: Marina Salles
ilustração: Márcio Zamboni
música: Carl Orff
Então eu abro os olhos e meus olhos se enchem de música. Aí está você: nesse som, nesse verde que enche meus olhos quando eu vejo a paz que me invade quando eu ouço esta melodia, estas vozes. Neste momento, eu te amo. Neste momento eu sou o que eu quero, um cavaleiro voando sobre os campos, nada me pára, nada me contém, há coisas que eu salto e há coisas sob as quais me abaixo, mas nada se interpõe à minha vista do céu, porque neste momento eu sou livre, e neste momento eu alcanço o que você quis me dar. Eu alço vôo e o mundo é realmente tão grande!, como você disse... Uma guerra uma poesia se desenrola debaixo de mim. E de repente há silêncio. Acabou uma música.
Você concordou que dizer eu-te-amo era muito complicado e eu tive que me explicar: o que estou dizendo é: (eu te amo é:)

É que você chegou a mim
E num instante você viveu em mim
E sem perceber você entendeu uma parte de mim
Você estendeu a mim a sua chama
Você alegrou meu coração e mudou minha vida
E agora...
E agora eu te dou um passe
Para que entre e saia livremente dessa terra
Um passe-livre por meu coração.

E agora é esta a paisagem dentro de mim: há tapetes vermelhos dentro de um castelo, uma fortaleza, que assoma no topo de uma encosta, eu eu sou o pássaro que circunda a torre mais alta, e eu sou o homem que entra com passos pesados na sala do trono. Tudo é um sonho e tudo se desfaz. A música muda e as faces dos homens mudam. Tudo é energia, um tambor que bate regendo o coração dos homens. E eu estou aqui, eu sou as paredes e os cascos dos navios, eu sou o couro dos tambores, eu estou aqui tentando sentir e entender, procurando a resposta, procurando através dessa música, procurando a lembrança do som que saiu dos teus lábios. Eu procuro (e eu sei que é em vão) o som da tua voz através das trombetas, o som da tua voz cantando pra mim, a lembrança de você olhando nos meus olhos. Tudo é tão suave, e tão pesado, e entretanto de repente eu sou uma pomba, eu vôo sem destino, meus olhos são lágrimas, minha boca é um gosto passado, eu sou um anjo perdido procurando a resposta, procurando o sentido do som que saiu dos teus lábios.

Quem eu sou? Você me pergunta e eu sou a sua pergunta. Mas agora não importa. Quando sair de mim, deixe aberta a porta -- há muito lá fora que eu quero convidar a entrar; há muito no mundo que eu quero habitar, mas que também quero que me habite. Eu devo ser a terra e o viajante (eu devo ser a estrada e o violeiro) e eu devo ser a fonte e o sedento, e eu quero ser bem boi como berrante. Me guia e eu te guio! Eu sou o céu e a estrela. Eu não ouço as palavras desta música, mas pra mim é como o céu cantando, eu ouço a voz dos astros e eu flutuo entre eles. E eu ouço a voz da vala das estrelas. E eu lembro da sua história, e eu tento imaginar a beleza -- como será acenderem-se as estrelas?

Então as estrelas disparam e o mundo vira uma torrente uma avalanche, eu páro no meio da música, olho ao redor, suspiro, respiro fundo e me pergunto: onde estou? Esta é a minha casa, hoje é dia das mães. Mas não significa nada. Minha alma não entende nada de casas e calendários. E eu não entendo nada de música. Eu sou um joguete nas mãos dessa melodia. Finalmente eu lembro da tua voz, a tua voz cantando, a tua voz dizendo declamando com tom grave a thousand kisses deep. Mas eu devo te ouvir, cada canção, cada palavra, e enxergar cada emoção que teu olhar transparece. Eu rio. Porque te leio tão fácil e mesmo assim desconheço. Quem você é? Eu pergunto e eu sou a minha pergunta. Mas só por muito pouco tempo. Num instante eu pisco como uma estrela e eu sou outra coisa, eu sou uma outra vida. Minha alma é uma coisa dispersa, um vento, uma torrente que se divide e volta a se unir. Eu rio, porque eu sou leve agora. Agora eu não posso te ouvir, mas sei o que você fala. Porque através dessa música é você que fala, e é você no meio do mundo de vozes que é o universo. Eu ouço tudo, mas muito pouco eu entendo. E como quero entender! Por isso continuo buscando, eu estou buscando a pergunta, e eu busco todas as coisas através das vozes de todas as bocas.

E como a tua boca me morde, eu enxergo no clarão da dor o grito de todas as coisas. A tua voz nem existe agora, só existe esse terror, esse rosnado. Meu coração dispara e meu sangue urra, no fogo do teu veneno e na explosão dum sors salutis -- e de repente minha alma é fogo, meu mundo é fera, meu sangue é fúria e eu devoro o mundo e nada mais é anjo nada mais é água nada mais é calmaria porque tudo é pura loucura! Eu me levanto contra o frio da noite eu sou o Sol, invicto e irremovível, iluminando e queimando as retinas de todas as coisas eu sou a Luz cuspida de teus lábios eu sou o teu sangue e meu peito cresce num rosnado-desejo que fagocita o mundo e num instante eu sou completamente um tudo demoníaco -- e então minha alma voa.

Do alto do vôo da minha alma eu estou ouvindo palmas, e isso quer dizer que a música acabou. Mas eu me sinto leve, a música me liberta, eu fecho os olhos e a noite me carrega para onde eu quero estar, onde a música é nectar, onde a tua voz existe dentro de mim, no ímpeto de um raio e na candura de uma vela. Eu abro os olhos e você está me olhando, mas já não são olhos de fera. Então eu abro os olhos e estou aqui novamente, e eu estou sozinha.

Eu apoio o rosto nas mãos, e meus olhos são lágrimas, e meu coração ressona e tudo é silêncio através dos pequenos barulhos do dia. Eu caio em mim. Eu olho para o céu, e eu estou buscando a pergunta que eu sei que não existe, e eu queria ser o ar para poder me encher desses sons que saem de todos os lábios
Assinar:
Comentários (Atom)