Houve um tempo em que todas as tuas palavras grudavam na minha mente como teias de aranha.
Hoje as teias de aranhas em minha mente são memórias de outras pessoas, com outras palavras. Das tuas palavras resta somente esta frase, esta questão. Me disseste, um dia, triste, depois de uma briga e uma confissão, ainda sem perdão: que nunca imaginaras que eu também pudesse ter sofrido.
Nunca
Meu sofrimento, como de vidro
transparente
meu sofrimento, solitário, escondido
no fundo do armário da cozinha, atrás das xícaras de louça para ocasiões especiais
empilhado como copos de vidro sem nem um pedaço de guardanapo entre eles
e quando tento desempilhar, estão grudados a vácuo
pelo peso do tempo
mesmo as coisas leves, se deixadas paradas por anos, afundam como se pesadas
e deixam uma marca
e machucam
mesmo nosso próprio corpo, se parado, machuca a si mesmo.
palavra por palavra, procuro chegar, devagar, ao lugar de La Loba.
"O silêncio", disse o griot,"só é escuro no começo..."
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quinta-feira, 22 de junho de 2017
terça-feira, 10 de dezembro de 2013
Disforia é quando tem um dragão saindo do nosso peito e devorando as almas das pessoas imortais à nossa volta?
O jantar está servido e eu só tenho olhos olhos olhos
Minhas mãos afagam meu coração tem pêlos.
Por que os senhores atiraram suas palavras frias contra mim?
O branco gelo engole minhas panturrilhas
Eu não sou gay, eu não sou viado, eu não sou sapatão, eu não sou mulher
Suas raposinhas são demais pra mim
Cale a sua boca seu menino lindo femme fofo, tão jovem tão... Eu nunca poderia usar raposinhas assim
Eu acho seu vestido lindo em você, não em mim
Eu não sou você, eu não sou dos seus
Eu não sou bofinho, eu jamais serei
Eu não sou bi, eu não sou gay, eu não sou "heterossexual" eu nem sei o que são essas coisas
Às vezes eu sinto tesão olhando o céu, o mar, o tronco de uma árvore, os pelos de um cachorrinho
Eu nem sei do que vocês estão falando
--- Parece que nós somos a minoria aqui, né?
--- Ahn... "nós"? Quem somos nós?
Quem somos "nós"? Nós o quê? Quando você diz "nós", o que é que você vê em mim? Quem eu sou? Quem eu sou? Eu arranco seu coração com as tripas seu coração com os dentes mas é o meu coração e é você quem arranca
Eu quero meter as garras em algum pedaço muito violento de você
Sua boca
Seus olhos
Eu sentei de frente para eles e elas e roí todas as minhas unhas
Eu preciso saber, eu preciso saber
Deixa eu me recompôr, deixa eu me recompôr
No meu sonho minha mãe sabia.
No meu sonho minha mãe sabia.
No meu sonho minha mãe sabia.
No meu sonho minha mãe sabia.
No meu sonho minha mãe sabia.
Ela sabia. Eu contei. Ela sabia sim.
Ela achava que tudo bem.
Ela aceitava naturalmente.
Ela não fazia nenhuma objeção.
Nenhum "é só uma fase"
Nenhum "eu também já senti isso mas"
Nenhum "mas"
Nenhuma objeção.
Cada letra que eu escrevo e eu escrevo letra por letra me faz me sentir um pouco menos dragão demônio violência assassinado dentes
No meu sonho ela achava tudo bem.
Catarse-desabafo.
No meu sonho tava tudo bem.
Só é importante pra mim.
Hoje eu encontrei duas velhinhas que me cederam lugar na mesa delas que tinha menos espaço que todas as outras mesas mas elas eram duas velhinhas muito gente-boas e uma delas tinha problemas nos rins e por isso uma artérias ligada numa veia que fazia um zunido como uma máquinha e eu disse que o meu nome era Marina porque elas eram velhinhas e velhinhas são como se fossem famílias e eu quero família como se fosse família minha família não precisa se envolver com a minha identidade sexualidade e toda a verdade da minha vida e minha família pode me chamar pelo meu nome de família que minha mãe me deu mas eu também não
não quero me esconder.
e mas
Hoje eu encontrei um garoto e ele me perguntou qual era o meu nome pra saber se ele já tinha ouvido falar de mim e eu disse "
meu nome costumava ser Marina
"
E eu digo sempre assim, costumava ser, por favor não me chamem mais por esse nome, a menos que você seja tipo família, ou alguém que já me conheceu com esse nome antes como se fosse família mas pessoas novas simplesmente não podem me chamar assim.
"marina"
As pessoas ficam me perguntando "qual seu nome de verdade" e eu tenho vontade de dar respostas atravessadas mas eu nunca dou.
Uma vez aconteceu de:
--- Meu nome é Oz (e estendi a mão)
--- Mas esse é seu nome de verdade?
--- Bem... meus pais me chamam de Marina. Mas só meus pais, eu prefiro que me chame de Oz.
--- Muito prazer, Marina.
E eu aqui remoendo essa raiva, como se fosse invisível essa gressão medida, deliberada, eu quero mais é mandar você... Mas minha voz se cala porque todos os insultos são errados, eu quero é cagar no seu Deus, cuspir em você, derrubar seu Deus como você sem dúvida derruba o meu. Um dragão que nasce da minha garganta mas não consegue sair e se volta pra dentro devorando as minhas entranhas eu te odeio eu te odeio mas violência gera mais violência mas eu te odeio tanto eu quero tanto que você morra.
Malditos peitos e florzinhas nessa camisa linda que são só o suficiente pra vocês não aceitarem quando eu digo que EU NÃO SOU CIS, pare de me tratar como se fosse minimamente razoável me tratar como você não trataria o seu bróder pára de me tratar como se eu achasse minimamente razoável esse ridículo tratamente diferencial nos seus ridículos gêneros definidos socialmente por ridículas diferenças de uma biologia social que não passa de uma imposição sobre as verdades pessoas das vivências pessoais não acadêmicas de pessoas reais, como se fosse necessário ter um diploma e falar "português correto" e concordar com pelo menos uma escola de autores consagrados e de preferência mortos pra ser capaz de dizer uma coisa que seja verdade e não seja uma tautologia.
Tire as mãos do meu corpo, tire a sua bocas do meu corpo; Tire a sua língua nojenta de dois mil anos de cultura ocidental normatizante generificada impositiva do meu corpo vivo, real, animal, feito da mesma madeira dessa terra fértil que você esterilizaria se pudesse controlar, porque no fundo você não consegue aceitar um mundo que não possa ser contido pela sua cultura científica dentro dessa estrutura de poder intelectual, bom newsflash seu babaca, isso não é ciência, ciência não é saber explicar apenas o que você se digna a ver, ciência é saber aceitar mesmo a magia, o milagre, o absurdo, e explicar mesmo isso, e nunca rejeitar uma coisa que foi de fato observada. Mas meu corpo não é seu objeto de estudo, meu corpo é o meu corpo, meu corpo existe e é real e eu quero mais é que você suma daqui com seus olhos estúpidos que só conseguem me enxergar através do que a sua cultura generista é capaz de identificar no corpo que você só consegue explicar através dos seus ridículos livros de psicosóciobiologia que são só uma faceta, uma redução do real, e induzem ao erro na sua simplicidade. Você diria que a luz do sol está caindo na terra, atraída pela gravidade? Uma única teoria não explica tudo. Mas eu sei que a questão aqui não é científica, é política.
Tire seus olhos desavisados e desconhecidos e normatizados do meu corpo.
Desabafo.
Tautologia.
Catarse.
Hoje o menino me pergunto "E qual é o seu nome hoje?" e eu respondi "Oz. No facebook tá Ozzer". Mas era o menino que estava lá, que tinha ido atráz, um que tinha se disposto minimamenta e entender. Eles são tão raros.
Disforia é quando a gente sente raiva por umas coisas estúpidas tipo não acreditarem quando a gente fala o próprio nome? É quando a gente sente monstros invisíveis devorando todas as partes do nosso corpo por causa de um simples olhar, um jeito de falar, ou perguntar, ou sugerir?
Eu me sinto cansado. Eu mal nasci e já me sinto cansado. Get your act together, Ozzer, stop fooling around.
É assim que a gente se sente? Quando a máscara cai e as pessoas enchergam através de nós, não o que somos de verdade mas os pedaços nus que nos compões e que entretando não nos definem, e são sempore menos que nós? Quando a performance falha e as pessoas enchergam não o que somos mas o que falhamos em ser? Quando o personagem se desmonta e se desmancha numa pilha de entranhas e ossos no chão, um sem sentido, um desconstruído, quando enchergam aquém de nós, e deixamos de ser um todo coeso para sermos um não-ser, uma máquina-monstro-carne que anda e fala apenas por desígnio de um acaso biológico? Quando deixamos de ser um indivíduo para nos tornarmos uma peça num sistema cistêmico onde o que somos é determinado meramente pelas propriedades físicas que apresentados nas mentes proto-científicas de nossos pares que disparam seus olhares contra nos? É assim que a gente se sente, quando se deixa de existir?
(Also, por que bofinhos depilam as pernas?)
Minhas mãos afagam meu coração tem pêlos.
Por que os senhores atiraram suas palavras frias contra mim?
O branco gelo engole minhas panturrilhas
Eu não sou gay, eu não sou viado, eu não sou sapatão, eu não sou mulher
Suas raposinhas são demais pra mim
Cale a sua boca seu menino lindo femme fofo, tão jovem tão... Eu nunca poderia usar raposinhas assim
Eu acho seu vestido lindo em você, não em mim
Eu não sou você, eu não sou dos seus
Eu não sou bofinho, eu jamais serei
Eu não sou bi, eu não sou gay, eu não sou "heterossexual" eu nem sei o que são essas coisas
Às vezes eu sinto tesão olhando o céu, o mar, o tronco de uma árvore, os pelos de um cachorrinho
Eu nem sei do que vocês estão falando
--- Parece que nós somos a minoria aqui, né?
--- Ahn... "nós"? Quem somos nós?
Quem somos "nós"? Nós o quê? Quando você diz "nós", o que é que você vê em mim? Quem eu sou? Quem eu sou? Eu arranco seu coração com as tripas seu coração com os dentes mas é o meu coração e é você quem arranca
Eu quero meter as garras em algum pedaço muito violento de você
Sua boca
Seus olhos
Eu sentei de frente para eles e elas e roí todas as minhas unhas
Eu preciso saber, eu preciso saber
Deixa eu me recompôr, deixa eu me recompôr
No meu sonho minha mãe sabia.
No meu sonho minha mãe sabia.
No meu sonho minha mãe sabia.
No meu sonho minha mãe sabia.
No meu sonho minha mãe sabia.
Ela sabia. Eu contei. Ela sabia sim.
Ela achava que tudo bem.
Ela aceitava naturalmente.
Ela não fazia nenhuma objeção.
Nenhum "é só uma fase"
Nenhum "eu também já senti isso mas"
Nenhum "mas"
Nenhuma objeção.
Cada letra que eu escrevo e eu escrevo letra por letra me faz me sentir um pouco menos dragão demônio violência assassinado dentes
No meu sonho ela achava tudo bem.
Catarse-desabafo.
No meu sonho tava tudo bem.
Só é importante pra mim.
Hoje eu encontrei duas velhinhas que me cederam lugar na mesa delas que tinha menos espaço que todas as outras mesas mas elas eram duas velhinhas muito gente-boas e uma delas tinha problemas nos rins e por isso uma artérias ligada numa veia que fazia um zunido como uma máquinha e eu disse que o meu nome era Marina porque elas eram velhinhas e velhinhas são como se fossem famílias e eu quero família como se fosse família minha família não precisa se envolver com a minha identidade sexualidade e toda a verdade da minha vida e minha família pode me chamar pelo meu nome de família que minha mãe me deu mas eu também não
não quero me esconder.
e mas
Hoje eu encontrei um garoto e ele me perguntou qual era o meu nome pra saber se ele já tinha ouvido falar de mim e eu disse "
meu nome costumava ser Marina
"
E eu digo sempre assim, costumava ser, por favor não me chamem mais por esse nome, a menos que você seja tipo família, ou alguém que já me conheceu com esse nome antes como se fosse família mas pessoas novas simplesmente não podem me chamar assim.
"marina"
As pessoas ficam me perguntando "qual seu nome de verdade" e eu tenho vontade de dar respostas atravessadas mas eu nunca dou.
Uma vez aconteceu de:
--- Meu nome é Oz (e estendi a mão)
--- Mas esse é seu nome de verdade?
--- Bem... meus pais me chamam de Marina. Mas só meus pais, eu prefiro que me chame de Oz.
--- Muito prazer, Marina.
E eu aqui remoendo essa raiva, como se fosse invisível essa gressão medida, deliberada, eu quero mais é mandar você... Mas minha voz se cala porque todos os insultos são errados, eu quero é cagar no seu Deus, cuspir em você, derrubar seu Deus como você sem dúvida derruba o meu. Um dragão que nasce da minha garganta mas não consegue sair e se volta pra dentro devorando as minhas entranhas eu te odeio eu te odeio mas violência gera mais violência mas eu te odeio tanto eu quero tanto que você morra.
Malditos peitos e florzinhas nessa camisa linda que são só o suficiente pra vocês não aceitarem quando eu digo que EU NÃO SOU CIS, pare de me tratar como se fosse minimamente razoável me tratar como você não trataria o seu bróder pára de me tratar como se eu achasse minimamente razoável esse ridículo tratamente diferencial nos seus ridículos gêneros definidos socialmente por ridículas diferenças de uma biologia social que não passa de uma imposição sobre as verdades pessoas das vivências pessoais não acadêmicas de pessoas reais, como se fosse necessário ter um diploma e falar "português correto" e concordar com pelo menos uma escola de autores consagrados e de preferência mortos pra ser capaz de dizer uma coisa que seja verdade e não seja uma tautologia.
Tire as mãos do meu corpo, tire a sua bocas do meu corpo; Tire a sua língua nojenta de dois mil anos de cultura ocidental normatizante generificada impositiva do meu corpo vivo, real, animal, feito da mesma madeira dessa terra fértil que você esterilizaria se pudesse controlar, porque no fundo você não consegue aceitar um mundo que não possa ser contido pela sua cultura científica dentro dessa estrutura de poder intelectual, bom newsflash seu babaca, isso não é ciência, ciência não é saber explicar apenas o que você se digna a ver, ciência é saber aceitar mesmo a magia, o milagre, o absurdo, e explicar mesmo isso, e nunca rejeitar uma coisa que foi de fato observada. Mas meu corpo não é seu objeto de estudo, meu corpo é o meu corpo, meu corpo existe e é real e eu quero mais é que você suma daqui com seus olhos estúpidos que só conseguem me enxergar através do que a sua cultura generista é capaz de identificar no corpo que você só consegue explicar através dos seus ridículos livros de psicosóciobiologia que são só uma faceta, uma redução do real, e induzem ao erro na sua simplicidade. Você diria que a luz do sol está caindo na terra, atraída pela gravidade? Uma única teoria não explica tudo. Mas eu sei que a questão aqui não é científica, é política.
Tire seus olhos desavisados e desconhecidos e normatizados do meu corpo.
Desabafo.
Tautologia.
Catarse.
Hoje o menino me pergunto "E qual é o seu nome hoje?" e eu respondi "Oz. No facebook tá Ozzer". Mas era o menino que estava lá, que tinha ido atráz, um que tinha se disposto minimamenta e entender. Eles são tão raros.
Disforia é quando a gente sente raiva por umas coisas estúpidas tipo não acreditarem quando a gente fala o próprio nome? É quando a gente sente monstros invisíveis devorando todas as partes do nosso corpo por causa de um simples olhar, um jeito de falar, ou perguntar, ou sugerir?
Eu me sinto cansado. Eu mal nasci e já me sinto cansado. Get your act together, Ozzer, stop fooling around.
É assim que a gente se sente? Quando a máscara cai e as pessoas enchergam através de nós, não o que somos de verdade mas os pedaços nus que nos compões e que entretando não nos definem, e são sempore menos que nós? Quando a performance falha e as pessoas enchergam não o que somos mas o que falhamos em ser? Quando o personagem se desmonta e se desmancha numa pilha de entranhas e ossos no chão, um sem sentido, um desconstruído, quando enchergam aquém de nós, e deixamos de ser um todo coeso para sermos um não-ser, uma máquina-monstro-carne que anda e fala apenas por desígnio de um acaso biológico? Quando deixamos de ser um indivíduo para nos tornarmos uma peça num sistema cistêmico onde o que somos é determinado meramente pelas propriedades físicas que apresentados nas mentes proto-científicas de nossos pares que disparam seus olhares contra nos? É assim que a gente se sente, quando se deixa de existir?
(Also, por que bofinhos depilam as pernas?)
sexta-feira, 6 de dezembro de 2013
Das coisas que nos souberam bem
Aqui estamos, e somos onze. Onde dos quinze que partiram. Onze dentre todos os que se dispuseram.
A Letra.
A Faca.
O broche e a chave.
A pata.
O pingente.
A máscara.
O laço.
O cinto.
O Giz.
O focinho.
O pedal.
E o escudo.
Nós nos voltamos para o passado. Nós perguntamos sobre o passado. A Letra se imprime sobre a Pele do passado. Nossos olhos são espelhos que distorcem a luz do passado. Nós somos lentes. Nós escrevemos.
Um de nós se ergue sobre duas pernas. Um de nós renega nosso antigo nome. Um de nós desce de seu cavalo e corta suas tranças e as joga sobre o chão onde pisa. Um de nós ergue-se novamente.
O Focinho se ergue em direção a ele. Um de nós acaricia o focinho e o abandona. Um de nós abandona nosso antigo nome.
Uma de nós se levanta em oposição a ele. Um de nós oferece seu corpo para a faca, que ela marque seu corpo e o submeta. A Faca o corta. Uma de nós marca nele nosso indelével nome. Um de nós sangra e se reconstitue. A Faca e o Escudo são idênticos. Nossos olhos são espelhados e refletem imagens idênticas, um macho pequeno e coberto de sangue e uma fêmea grande e coberta de sangue. Um de nós ajoelha-se e uma de nós o abraça. Mas por fim se separam. Um de nós apaga nosso único nome.
Somos múltiples. A Máscara o veste e mostra nossa História. A Letra se escreve e conta nossa História. Um de nós aceita em reclusão. A caverna de nossa História é escura e longa e suas paredes contam de muitas coisas. Um de nós ouve em atenção. Nós o mandaremos como nosso mensageiro e como nosso cônsul, para os domínios que nossas vozes falham em alcançar. Nós o mandaremos ao passo em que ele se manda, fugido de nós.
O Focinho o morde.
A Pata o sagra. Uma de nós o olha nos olhos e o absolve e condena. Uma de nós lhe dá uma missão. Uma de nós o ama e o fertiliza, para que ele chegue prenhe ao seu universo. A Máscara o abençoa e o compreende. O Broche e a Chave o vestem e o ornam, mas ele os guarda numa caixa de madeira. Um de nós despe-se e se apresenta nu. O pingente transforma-se e o protege. Um de nós agradece.
O Cinto e o Giz transformam-se em objetos para que um de nós o use. Mas ele os guarda também, em silêncio. Ele os usará quando for a hora.
Finalmente, o Laço o abraça. A Letra abre seu livro e o Laço chama através dele todas as vozes que precisam se ouvir presentes. Um de nós toca cada um de nós em respeito, amor e premonição. Estamos no fim da caverna e há paisagens lá fora. Todas nós nos agrupamos na beirada da caverna. As paisagens nos perturbam e nos confundem. Nós nem sempre podemos transitar no mundo lá fora.
Uma de nós dá alguns passos para fora e invoca o Futuro. Nossos deuses sussuram como árvores balançadas pelo vento.
Um de nós começa sua jornada.
A Letra.
A Faca.
O broche e a chave.
A pata.
O pingente.
A máscara.
O laço.
O cinto.
O Giz.
O focinho.
O pedal.
E o escudo.
Nós nos voltamos para o passado. Nós perguntamos sobre o passado. A Letra se imprime sobre a Pele do passado. Nossos olhos são espelhos que distorcem a luz do passado. Nós somos lentes. Nós escrevemos.
Um de nós se ergue sobre duas pernas. Um de nós renega nosso antigo nome. Um de nós desce de seu cavalo e corta suas tranças e as joga sobre o chão onde pisa. Um de nós ergue-se novamente.
O Focinho se ergue em direção a ele. Um de nós acaricia o focinho e o abandona. Um de nós abandona nosso antigo nome.
Uma de nós se levanta em oposição a ele. Um de nós oferece seu corpo para a faca, que ela marque seu corpo e o submeta. A Faca o corta. Uma de nós marca nele nosso indelével nome. Um de nós sangra e se reconstitue. A Faca e o Escudo são idênticos. Nossos olhos são espelhados e refletem imagens idênticas, um macho pequeno e coberto de sangue e uma fêmea grande e coberta de sangue. Um de nós ajoelha-se e uma de nós o abraça. Mas por fim se separam. Um de nós apaga nosso único nome.
Somos múltiples. A Máscara o veste e mostra nossa História. A Letra se escreve e conta nossa História. Um de nós aceita em reclusão. A caverna de nossa História é escura e longa e suas paredes contam de muitas coisas. Um de nós ouve em atenção. Nós o mandaremos como nosso mensageiro e como nosso cônsul, para os domínios que nossas vozes falham em alcançar. Nós o mandaremos ao passo em que ele se manda, fugido de nós.
O Focinho o morde.
A Pata o sagra. Uma de nós o olha nos olhos e o absolve e condena. Uma de nós lhe dá uma missão. Uma de nós o ama e o fertiliza, para que ele chegue prenhe ao seu universo. A Máscara o abençoa e o compreende. O Broche e a Chave o vestem e o ornam, mas ele os guarda numa caixa de madeira. Um de nós despe-se e se apresenta nu. O pingente transforma-se e o protege. Um de nós agradece.
O Cinto e o Giz transformam-se em objetos para que um de nós o use. Mas ele os guarda também, em silêncio. Ele os usará quando for a hora.
Finalmente, o Laço o abraça. A Letra abre seu livro e o Laço chama através dele todas as vozes que precisam se ouvir presentes. Um de nós toca cada um de nós em respeito, amor e premonição. Estamos no fim da caverna e há paisagens lá fora. Todas nós nos agrupamos na beirada da caverna. As paisagens nos perturbam e nos confundem. Nós nem sempre podemos transitar no mundo lá fora.
Uma de nós dá alguns passos para fora e invoca o Futuro. Nossos deuses sussuram como árvores balançadas pelo vento.
Um de nós começa sua jornada.
segunda-feira, 18 de março de 2013
Heart's Desire?
Isto foi quinta ou sexta passada... Depois de você me dar um bolo, e de eu procurá-la para me consolar e de ela me procurar por sua causa. Depois de conversar com ela. Eu tive dois ou três sonhos com ela, cada um mais interessante que o anterior. No primeiro sonho, duas semanas atrás, logo depois de conhecê-la, eu decidia que eu não me interessava mais por homens, por causa dela. Neste sonho...
Era uma casa de praia ou algo assim. Havia várias garotas, amigas de amigos, que haviam me sido apresentadas naquele dia. Lindas (como as garotas que você me apresenta costumam ser, não?). Eu queria seduzi-las, queria tocá-las, todas ou uma de cada vez, enquanto nós estávamos sentadas no chão dessa espécie de cabana num sítio. Elas... não sei, talvez elas refutassem meus sinais. Ou talvez elas aceitassem-nos, mas levemente, sem compromisso, sem -- sem darem-se, entende? Frustrada, eu me afastei, alguém -- um homem, talvez ele, talvez você -- me chamou. Esse homem me chamou debaixo do batente da porta, um lugar escuro, entre a sala e a varanda, e, das sombras, me ofereceu algo para tomar -- um beijo, talvez -- e me disse: "Com isto, você vai sair deste sonho e sonhar com aquilo que você mais deseja." Eu sorvi (um beijo?) cheia de dúvidas, curiosa, queria mesmo descobrir meu maior desejo, mas será que essas coisas mágicas funcionam? Saí da cabana, lá fora fazia sol, era bonito, minha mãe e meus irmãos -- ainda meio crianças -- conversavam alegres e despreocupados ao redor de uma daquelas mesas de madeiras pesadas que meu avô (foi mesmo meu avô?) fez a partir de caixotões tirados de navios (ou era outra a história?). Ao lado de minha mãe, que vestia aquele vestido de flores rosas que ela ainda tem, estava meu primo, o Urso. Meu coração se apertou um pouco com a visão, saudades, compreensão, mas que sonho mais óbvio.. É claro que ao lado deles, sentada em cadeira de praia, usando biquíni desconjuntado de tecidos engruvinhados (um sutiã com um motivo complexo, verde escuro, uma calcinha preta, por exemplo) e um chapéu de palha, estava minha tia, jovem, magra, meio vermelha de sol e coberta de pintas, com o cabelo castanho comprido e ondulado, falando alguma coisa naquela voz dela -- aquela Voz que ela tinha. Do lado dela a Puca com cara de senhora, aquele cabelo comprido de Branca de Neve, um vestido longo sério e primaveril, nada parecida com a imagem que eu tenho de verdade dela. Que grande mágica, esta, eu pensava meio amargurada, enquanto iam aparecendo os outros personagens desta cena idílica, Max, Sé, Rita... Mêdo e saudade -- que previsível! -- virei a cara e fui na outra direção. O sonho atrás de mim silenciou, eu sabia que estava acordando, quando vi a moto na minha frente meu primeiro pensamento foi "Agora não, estou acordada, não vou mais conseguir descobrir meu maior desejo de verdade!"
Montei na moto -- uma moto grande para mim, com tinta metalizada, design agressivo e... e uma cestinha de bicicleta, dessa que nossas bikes tinham quando a gente era pequeno e ia passear em Santo Amaro, ficar dando voltas no campinho de futebol. Montei na minha moto linda e disparei, saltando da varanda, descendo a escada, atravessando um jardim suspeitamente parecido com o da minha avó morta, subindo uma ladeira que era mais um muro para sair no caminhozinho (que de fato existia na casa da minha avó) que ia levar a (a casinha de telhado em V onde dormia a empregada) o Castelo.
Eu ri comigo mesma agora que eu sabia que eu estava num sonho, e mais que isso, que eu era A Lôba, que meus poderes super-heróicos me permitiriam vencer qualquer desafio, salvar todos os meus amigos, e ser admirada, reconhecida e às vezes respeitosamente temida. O Caminho era reto, estreito e longo, dentro de uma Mata Atlântica escura, como numa trilha que fazemos por lugares bonitos e conservados. Por essa estrada passavam umas pessoas tristes, do lado direito, em fila única, mas afastadas em intervalos irregulares, porque caminhavam sozinhas. A pessoa logo à minha frente, eu vi quando decidi ultrapassá-la, era ela. Ela usava um capuz, mas por baixo do capuz eu vi seu cabelo tão loiro que brilhava como num quadro do Rembrant. Mas não era ela, ela. Ela estava triste, mas eu não. Eu sou invencível. Eu chamei-a para subir na moto comigo, trocamos algumas palavras, na minha frente, pelo lado esquerdo, vinha um caminhão pela outra mão. Urgi; ela subiu, de túnica mesmo, e disparamos, desviando das pobres pessoas que tinham que aguentar o caminho e o aperto do caminhão. Disparamos, e no final daquela trilha reta estava O Castelo, alto, cheio de torres imponentes, um castelo Disney só que negro, numa perspectiva estranha como num quadrinho, para ressaltar o portão enorme na frente (aliás, falando em portões, me lembre de contar a história do jogo dos Pôneis). Na frente do portão, estavam os Guardas, um vestindo uma armadura de placas lisas de madeira, e o outro usando uma armadura estranha, que tinha bolas ocas como seios no peito, e no cinturão tinha uma tora de madeira que queria significar um pênis gigante. Tive a impressão de que esse guarda tinha peitos, mas não achei que fosse uma mulher.
Estávamos numa casa de campo de algum tipo, com quartos de visita e armários vazios. Fomos lutando com os guardas, usando paus contra os bastões e a armadura deles, casa adentro. Eu e ela nos separamos, havia um terceiro homem, e ela estava lutando com ele enquanto eu lutava com os dois guardas -- uma luta estranha, ritual, que foi misturando danças sexuais envolvendo a estranha armadura-arma que ele usava, aquele pênis gigante ora servia como um bastão ou um porrete, ora como um pau. Até que o outro guarda, o do peito plano, apareceu gritando e fazendo um escarcéu, que eu era uma vadia, que queria roubar o homem dele (acho que então eram um casal gay), e querendo me bater, me matar, briguei com ele (eu sou invencível) enquanto o convencia de que não, seu maluco, é só uma dança-luta-ritual, não estamos fazendo sexo, puxa vida. Subjuguei o casal de guardas e fui procurar por ela, que estava tentando assassinar um homem, batendo nele e jogando coisas de vidro na cabeça dele. Tentamos impedi-la, eu e -- outro homem -- tentamos convencê-la de que ela não precisava matar, nós nem estávamos entendendo o que estava acontecendo. Ela jogou um aquário gigante na cabeça do moço desacordado, e a cabeça dele rolou pelo chão. Eu me desesperei por um momento, mas ela começou a chorar de novo, disse que era de mentira, o moço de verdade estava escondido (desacordado) debaixo da cama, ela nem coragem de matá-lo tinha, que merda ter tanto ódio e sequer conseguir dar o troco que merece.
E como costuma acontecer com os sonhos interessantes, esse também nem acabou, e eu acordei.
Era uma casa de praia ou algo assim. Havia várias garotas, amigas de amigos, que haviam me sido apresentadas naquele dia. Lindas (como as garotas que você me apresenta costumam ser, não?). Eu queria seduzi-las, queria tocá-las, todas ou uma de cada vez, enquanto nós estávamos sentadas no chão dessa espécie de cabana num sítio. Elas... não sei, talvez elas refutassem meus sinais. Ou talvez elas aceitassem-nos, mas levemente, sem compromisso, sem -- sem darem-se, entende? Frustrada, eu me afastei, alguém -- um homem, talvez ele, talvez você -- me chamou. Esse homem me chamou debaixo do batente da porta, um lugar escuro, entre a sala e a varanda, e, das sombras, me ofereceu algo para tomar -- um beijo, talvez -- e me disse: "Com isto, você vai sair deste sonho e sonhar com aquilo que você mais deseja." Eu sorvi (um beijo?) cheia de dúvidas, curiosa, queria mesmo descobrir meu maior desejo, mas será que essas coisas mágicas funcionam? Saí da cabana, lá fora fazia sol, era bonito, minha mãe e meus irmãos -- ainda meio crianças -- conversavam alegres e despreocupados ao redor de uma daquelas mesas de madeiras pesadas que meu avô (foi mesmo meu avô?) fez a partir de caixotões tirados de navios (ou era outra a história?). Ao lado de minha mãe, que vestia aquele vestido de flores rosas que ela ainda tem, estava meu primo, o Urso. Meu coração se apertou um pouco com a visão, saudades, compreensão, mas que sonho mais óbvio.. É claro que ao lado deles, sentada em cadeira de praia, usando biquíni desconjuntado de tecidos engruvinhados (um sutiã com um motivo complexo, verde escuro, uma calcinha preta, por exemplo) e um chapéu de palha, estava minha tia, jovem, magra, meio vermelha de sol e coberta de pintas, com o cabelo castanho comprido e ondulado, falando alguma coisa naquela voz dela -- aquela Voz que ela tinha. Do lado dela a Puca com cara de senhora, aquele cabelo comprido de Branca de Neve, um vestido longo sério e primaveril, nada parecida com a imagem que eu tenho de verdade dela. Que grande mágica, esta, eu pensava meio amargurada, enquanto iam aparecendo os outros personagens desta cena idílica, Max, Sé, Rita... Mêdo e saudade -- que previsível! -- virei a cara e fui na outra direção. O sonho atrás de mim silenciou, eu sabia que estava acordando, quando vi a moto na minha frente meu primeiro pensamento foi "Agora não, estou acordada, não vou mais conseguir descobrir meu maior desejo de verdade!"
Montei na moto -- uma moto grande para mim, com tinta metalizada, design agressivo e... e uma cestinha de bicicleta, dessa que nossas bikes tinham quando a gente era pequeno e ia passear em Santo Amaro, ficar dando voltas no campinho de futebol. Montei na minha moto linda e disparei, saltando da varanda, descendo a escada, atravessando um jardim suspeitamente parecido com o da minha avó morta, subindo uma ladeira que era mais um muro para sair no caminhozinho (que de fato existia na casa da minha avó) que ia levar a (a casinha de telhado em V onde dormia a empregada) o Castelo.
Eu ri comigo mesma agora que eu sabia que eu estava num sonho, e mais que isso, que eu era A Lôba, que meus poderes super-heróicos me permitiriam vencer qualquer desafio, salvar todos os meus amigos, e ser admirada, reconhecida e às vezes respeitosamente temida. O Caminho era reto, estreito e longo, dentro de uma Mata Atlântica escura, como numa trilha que fazemos por lugares bonitos e conservados. Por essa estrada passavam umas pessoas tristes, do lado direito, em fila única, mas afastadas em intervalos irregulares, porque caminhavam sozinhas. A pessoa logo à minha frente, eu vi quando decidi ultrapassá-la, era ela. Ela usava um capuz, mas por baixo do capuz eu vi seu cabelo tão loiro que brilhava como num quadro do Rembrant. Mas não era ela, ela. Ela estava triste, mas eu não. Eu sou invencível. Eu chamei-a para subir na moto comigo, trocamos algumas palavras, na minha frente, pelo lado esquerdo, vinha um caminhão pela outra mão. Urgi; ela subiu, de túnica mesmo, e disparamos, desviando das pobres pessoas que tinham que aguentar o caminho e o aperto do caminhão. Disparamos, e no final daquela trilha reta estava O Castelo, alto, cheio de torres imponentes, um castelo Disney só que negro, numa perspectiva estranha como num quadrinho, para ressaltar o portão enorme na frente (aliás, falando em portões, me lembre de contar a história do jogo dos Pôneis). Na frente do portão, estavam os Guardas, um vestindo uma armadura de placas lisas de madeira, e o outro usando uma armadura estranha, que tinha bolas ocas como seios no peito, e no cinturão tinha uma tora de madeira que queria significar um pênis gigante. Tive a impressão de que esse guarda tinha peitos, mas não achei que fosse uma mulher.
Estávamos numa casa de campo de algum tipo, com quartos de visita e armários vazios. Fomos lutando com os guardas, usando paus contra os bastões e a armadura deles, casa adentro. Eu e ela nos separamos, havia um terceiro homem, e ela estava lutando com ele enquanto eu lutava com os dois guardas -- uma luta estranha, ritual, que foi misturando danças sexuais envolvendo a estranha armadura-arma que ele usava, aquele pênis gigante ora servia como um bastão ou um porrete, ora como um pau. Até que o outro guarda, o do peito plano, apareceu gritando e fazendo um escarcéu, que eu era uma vadia, que queria roubar o homem dele (acho que então eram um casal gay), e querendo me bater, me matar, briguei com ele (eu sou invencível) enquanto o convencia de que não, seu maluco, é só uma dança-luta-ritual, não estamos fazendo sexo, puxa vida. Subjuguei o casal de guardas e fui procurar por ela, que estava tentando assassinar um homem, batendo nele e jogando coisas de vidro na cabeça dele. Tentamos impedi-la, eu e -- outro homem -- tentamos convencê-la de que ela não precisava matar, nós nem estávamos entendendo o que estava acontecendo. Ela jogou um aquário gigante na cabeça do moço desacordado, e a cabeça dele rolou pelo chão. Eu me desesperei por um momento, mas ela começou a chorar de novo, disse que era de mentira, o moço de verdade estava escondido (desacordado) debaixo da cama, ela nem coragem de matá-lo tinha, que merda ter tanto ódio e sequer conseguir dar o troco que merece.
E como costuma acontecer com os sonhos interessantes, esse também nem acabou, e eu acordei.
quinta-feira, 24 de maio de 2012
Alarara/En Passant
"Somos do mesmo sangue, tu e eu"
Um dia eu acreditei nessas palavras
Mas o tempo passou e tudo mudou tanto
Será que todo mundo se sente como um extraterreste?
Quando eu era pequena, várias das minhas estórias começavam com ir para outro mundo. No outro mundo, eu era uma rainha, uma princesa, uma guerreira, uma heroína (ou talvez vocês fossem entender melhor se eu dissesse um Rei, um Príncipe, um Guerreiro, um Herói). Eu era descendente do Povo Antigo, escolhida pelos Guardiães, meu Destino era proteger o meu lugar, where I belonged.
Or do I belong there still?
Com o tempo, eu comecei a entender que se eu descendia dos Grandes Reis, só podia ser através de meus pais. Eu não poderia abdicar da veracidade da minha família, então meus irmãos, meus primos e às vezes até gente adulta começaram a aparecer nas minhas aventuras. Meus irmãos vinham para o Mundo comigo, eles eram grandes Líderes, tinham conhecimentos e habilidades que eu não tinha, e eram valorosos rivais, aliados ou inimigos. Mas fatalmente, dado alguns anos no Mundo, eles acabavam voltando para o mundo real, ou eles se envolviam com os seus próprios problemas, e eu acabava ficando só com os meus amigos de Lá, vivendo aquelas aventuras muito pessoais, construindo uma história e uma família que...
Depois, resolvi voltar para o mundo d'Aqui, mas sei lá... Eu quiz trazer meus amigos comigo, mas não sabia como apresentá-los à galera. E como explicar para minha mãe que eu ainda a amava, mesmo depois de todos aqueles anos? E como explicar que eu não era a mesma pessoa que havia saído daqui? Como explicar o que eu era? E quem eu era afinal?
Meus irmãos entenderam algumas coisas, e eu com muito esforço de ambas as partes consegui explicar uma ou outra coisa a alguns homens apaixonados (ao longo dos anos). Mas eles se afastaram (enfim, nós nos afastamos) e, bom, tantas vezes foi tão difícil traduzir as palavras de Veraki, Hatsi e Zaty para a língüa dos humanos...
Enfim...
No fundo, eu voltei para casa e tentei lutar a luta pequena (ränaki), a lida de manter a casa (honaki?) e viver a vida (maaki?). Afinal, a outra eu estava tendo um filho, e ensinando crianças. E tal. E eu estava determinada a conviver com pessoas, pra variar.
"Somos do mesmo sangue, tu e eu."
Mas nós não somos nem do mesmo mundo! No fundo, eu fui criada meio em Ziget, e eu sou meio Zaty. Por dentro, por dentro, por dentro.
Será que todo mundo se sente um extraterrestre? Será que cada pessoa veio de outro planeta? Ou será que sou só eu?
Eu estou começando a esquecer as minhas palavras... E me dói isso, eu entendo a dor de quem não pertence a lugar algum.
Será que todo mundo se sente um extraterrestre?
Um dia eu acreditei nessas palavras
Mas o tempo passou e tudo mudou tanto
Será que todo mundo se sente como um extraterreste?
Quando eu era pequena, várias das minhas estórias começavam com ir para outro mundo. No outro mundo, eu era uma rainha, uma princesa, uma guerreira, uma heroína (ou talvez vocês fossem entender melhor se eu dissesse um Rei, um Príncipe, um Guerreiro, um Herói). Eu era descendente do Povo Antigo, escolhida pelos Guardiães, meu Destino era proteger o meu lugar, where I belonged.
Or do I belong there still?
Com o tempo, eu comecei a entender que se eu descendia dos Grandes Reis, só podia ser através de meus pais. Eu não poderia abdicar da veracidade da minha família, então meus irmãos, meus primos e às vezes até gente adulta começaram a aparecer nas minhas aventuras. Meus irmãos vinham para o Mundo comigo, eles eram grandes Líderes, tinham conhecimentos e habilidades que eu não tinha, e eram valorosos rivais, aliados ou inimigos. Mas fatalmente, dado alguns anos no Mundo, eles acabavam voltando para o mundo real, ou eles se envolviam com os seus próprios problemas, e eu acabava ficando só com os meus amigos de Lá, vivendo aquelas aventuras muito pessoais, construindo uma história e uma família que...
Depois, resolvi voltar para o mundo d'Aqui, mas sei lá... Eu quiz trazer meus amigos comigo, mas não sabia como apresentá-los à galera. E como explicar para minha mãe que eu ainda a amava, mesmo depois de todos aqueles anos? E como explicar que eu não era a mesma pessoa que havia saído daqui? Como explicar o que eu era? E quem eu era afinal?
Meus irmãos entenderam algumas coisas, e eu com muito esforço de ambas as partes consegui explicar uma ou outra coisa a alguns homens apaixonados (ao longo dos anos). Mas eles se afastaram (enfim, nós nos afastamos) e, bom, tantas vezes foi tão difícil traduzir as palavras de Veraki, Hatsi e Zaty para a língüa dos humanos...
Enfim...
No fundo, eu voltei para casa e tentei lutar a luta pequena (ränaki), a lida de manter a casa (honaki?) e viver a vida (maaki?). Afinal, a outra eu estava tendo um filho, e ensinando crianças. E tal. E eu estava determinada a conviver com pessoas, pra variar.
"Somos do mesmo sangue, tu e eu."
Mas nós não somos nem do mesmo mundo! No fundo, eu fui criada meio em Ziget, e eu sou meio Zaty. Por dentro, por dentro, por dentro.
Será que todo mundo se sente um extraterrestre? Será que cada pessoa veio de outro planeta? Ou será que sou só eu?
Eu estou começando a esquecer as minhas palavras... E me dói isso, eu entendo a dor de quem não pertence a lugar algum.
Será que todo mundo se sente um extraterrestre?
sábado, 14 de janeiro de 2012
Duas Mulheres
Todas as coisas fenecem.
Todos os seus olhos me acompanham. Há uma luz entre nós, uma discordância. Minhas mãos acariciam a sua, levemente; talvez eu ainda tenha um pouco de mêdo. Uma vontade muito grande de te abraçar, sem saber como te fazer se sentir amada.
Elogios. Eu sou a mulher das sombras, com sombras vermelhas cobrindo meu corpo. Os olhos dos homens me seguem quando eu passo. Eles sorriem, eles comentam e elogiam. Eles não entendem que não sou eu que passa, é a Mulher das Cores que passa. A mulher das sombras. É outras, é a Máscara que eu vesti ontem, a fantasia que escolhi. Eu não sou Lady, tanto quanto o Ítalo não é um travesti. Eles não entendem que eu nunca me vestiria daquela forma. Mas Lady sim.
Eu sou a mulher das cores, com cores vermelhas cobrindo meu corpo. Meu corpo feminino ressalta a feminilidade do personagem, e eu sou uma flor, por uma noite. Os olhos dos homens me seguem quando eu passo, mas eu conheço os olhares dos homens, e o olhar de hoje é apenas um olhar de apreciação. Eles sabem que não sou eu que passo, é a Dama que passa, a Mulher das Cores. Não é esse olhar dos homens que eu procuro, é o seu olhar que eu quero. Você atrai os meus olhos, mesmo quando você esconde os seus olhos, em dias como este em que você é um gato, mais que uma garota. Você não precisa ser sempre uma garota; você se dá ao luxo de às vezes ter uma beleza masculina, e outras vezes ser extremamente feminina. Esses mesmos homens que me olham quando eu passo, eles não conseguem te entender. Sua insegurança não é a mesma que a timidez das outras mulheres. Você nunca olha pro chão.
Eu me pergunto se você vai entender. Às vezes eu te vejo e não consigo tirar os olhos das tuas pernas, e isso me perturba, às vezes me perturba tanto quanto quando eu percebi as mudanças no corpo da minha irmã depois que ela começou a fazer academia - irmãs não deveriam ficar gostosas! E quando eu te conheci eu construí uma imagem sobre você, uma imagem nascida do embaraço de te encontrar na tarde seguinte, e do seu sorriso e da sua diversão. Mas você não é tanto um filhote como aquela mulher que nasce dos ossos do lôbo que a Mulher dos Ossos recolhe e sobre os quais ela canta. Ela canta a sua canção e você nasce, você mulher, você bruxa. Você Donii que vira fera e vira pássaro para trazer a bênção da Grande Mãe. Você nasce dos ossos e da canção e corre pelo deserto nua, as lôbas e as aves te seguem, você corre e grita jovem com longos cabelos ao vento; seu Daemon é uma criatura que dorme com você abraçado forte mas que voa longe sem precisar estar sempre do seu lado. Você engana, você esconde, você é mágica. Se me perguntassem, eu me recusaria a falar sobre você. Você é em silêncio.
Eu queria conseguir entender, e aceitar, mas meus olhos não me obedecem, e eu sinto um tipo novo de mêdo, e tudo parece tão novo e assustador e empolgante. Parece que uma nova parte da vida está começando, e eu ainda não conheço as palavras certas que eu devo usar. Você é parte de mim, e você é diferente de mim. O mundo se transforma diante dos meus olhos. Eu quero pedir a todos que não tentem entender, por ora, o que eu escrevo. Não cheguem a conclusões. Olhem nos meus olhos, e bebam do meu deleite. Eu me sinto prestes a explodir. E de uma forma nova, eu amo.
Eu amo muito! Parece que a cada dia eu amo mais, e melhor. Eu sinto dor, eu sinto saudades, eu sinto apreensão pelo futuro desconhecido. Entretanto não há saída, e haverá luta. Eu amo e a cada dia eu amo mais e com menos receio, mas há muitas barreiras a atravessar. Eu corro pelas colinas, pulando cercas e pedras, eu corro pelo pântano, eu sou um cavalo alado branco, eu sou você. A Mulher dos Ossos canta e eu sou, mas eu sou o Lôbo que levanta, eu corro nas quatro patas pela floresta, meu mundo é verde e feroz, e quando a luz me atinge eu viro luz, e uma mulher corre, e esta é você. Eu sou a Mulher dos Ossos. Talvez todas sejamos. Os tempos se misturam e nada mais é conhecido, nada mais é previsível. Eu exploro.
A luz me mostra uma onda no seu cabelo e eu me pego de novo olhando pra você, indecisa, querendo sentir o seu cheiro, explorar o seu corpo (seja a minha aventura). Algumas vezes eu sonhei com você. Eu não posso exigir nada, eu não posso esperar nada, mas eu tenho vontade de te tomar nos braços, e às vezes eu tomo e a vontade passa, e às vezes ela volta mais forte, e às vezes ninguém enxerga, e eu não consigo entender. Eu quero descobrir, eu quero entender o que está acontecendo com o meu mundo, e eu não sei ainda, mas você parece importante. Você está no vento, nos animais e na terra, ou você está ao meu lado, procurando e perguntando também? Eu não posso exigir nada, eu não devo esperar nada, mas eu posso propor, eu posso oferecer.
Todos os seus olhos me acompanham. Há uma luz entre nós, uma discordância. Minhas mãos acariciam a sua, levemente; talvez eu ainda tenha um pouco de mêdo. Uma vontade muito grande de te abraçar, sem saber como te fazer se sentir amada.
Elogios. Eu sou a mulher das sombras, com sombras vermelhas cobrindo meu corpo. Os olhos dos homens me seguem quando eu passo. Eles sorriem, eles comentam e elogiam. Eles não entendem que não sou eu que passa, é a Mulher das Cores que passa. A mulher das sombras. É outras, é a Máscara que eu vesti ontem, a fantasia que escolhi. Eu não sou Lady, tanto quanto o Ítalo não é um travesti. Eles não entendem que eu nunca me vestiria daquela forma. Mas Lady sim.
Eu sou a mulher das cores, com cores vermelhas cobrindo meu corpo. Meu corpo feminino ressalta a feminilidade do personagem, e eu sou uma flor, por uma noite. Os olhos dos homens me seguem quando eu passo, mas eu conheço os olhares dos homens, e o olhar de hoje é apenas um olhar de apreciação. Eles sabem que não sou eu que passo, é a Dama que passa, a Mulher das Cores. Não é esse olhar dos homens que eu procuro, é o seu olhar que eu quero. Você atrai os meus olhos, mesmo quando você esconde os seus olhos, em dias como este em que você é um gato, mais que uma garota. Você não precisa ser sempre uma garota; você se dá ao luxo de às vezes ter uma beleza masculina, e outras vezes ser extremamente feminina. Esses mesmos homens que me olham quando eu passo, eles não conseguem te entender. Sua insegurança não é a mesma que a timidez das outras mulheres. Você nunca olha pro chão.
Eu me pergunto se você vai entender. Às vezes eu te vejo e não consigo tirar os olhos das tuas pernas, e isso me perturba, às vezes me perturba tanto quanto quando eu percebi as mudanças no corpo da minha irmã depois que ela começou a fazer academia - irmãs não deveriam ficar gostosas! E quando eu te conheci eu construí uma imagem sobre você, uma imagem nascida do embaraço de te encontrar na tarde seguinte, e do seu sorriso e da sua diversão. Mas você não é tanto um filhote como aquela mulher que nasce dos ossos do lôbo que a Mulher dos Ossos recolhe e sobre os quais ela canta. Ela canta a sua canção e você nasce, você mulher, você bruxa. Você Donii que vira fera e vira pássaro para trazer a bênção da Grande Mãe. Você nasce dos ossos e da canção e corre pelo deserto nua, as lôbas e as aves te seguem, você corre e grita jovem com longos cabelos ao vento; seu Daemon é uma criatura que dorme com você abraçado forte mas que voa longe sem precisar estar sempre do seu lado. Você engana, você esconde, você é mágica. Se me perguntassem, eu me recusaria a falar sobre você. Você é em silêncio.
Eu queria conseguir entender, e aceitar, mas meus olhos não me obedecem, e eu sinto um tipo novo de mêdo, e tudo parece tão novo e assustador e empolgante. Parece que uma nova parte da vida está começando, e eu ainda não conheço as palavras certas que eu devo usar. Você é parte de mim, e você é diferente de mim. O mundo se transforma diante dos meus olhos. Eu quero pedir a todos que não tentem entender, por ora, o que eu escrevo. Não cheguem a conclusões. Olhem nos meus olhos, e bebam do meu deleite. Eu me sinto prestes a explodir. E de uma forma nova, eu amo.
Eu amo muito! Parece que a cada dia eu amo mais, e melhor. Eu sinto dor, eu sinto saudades, eu sinto apreensão pelo futuro desconhecido. Entretanto não há saída, e haverá luta. Eu amo e a cada dia eu amo mais e com menos receio, mas há muitas barreiras a atravessar. Eu corro pelas colinas, pulando cercas e pedras, eu corro pelo pântano, eu sou um cavalo alado branco, eu sou você. A Mulher dos Ossos canta e eu sou, mas eu sou o Lôbo que levanta, eu corro nas quatro patas pela floresta, meu mundo é verde e feroz, e quando a luz me atinge eu viro luz, e uma mulher corre, e esta é você. Eu sou a Mulher dos Ossos. Talvez todas sejamos. Os tempos se misturam e nada mais é conhecido, nada mais é previsível. Eu exploro.
A luz me mostra uma onda no seu cabelo e eu me pego de novo olhando pra você, indecisa, querendo sentir o seu cheiro, explorar o seu corpo (seja a minha aventura). Algumas vezes eu sonhei com você. Eu não posso exigir nada, eu não posso esperar nada, mas eu tenho vontade de te tomar nos braços, e às vezes eu tomo e a vontade passa, e às vezes ela volta mais forte, e às vezes ninguém enxerga, e eu não consigo entender. Eu quero descobrir, eu quero entender o que está acontecendo com o meu mundo, e eu não sei ainda, mas você parece importante. Você está no vento, nos animais e na terra, ou você está ao meu lado, procurando e perguntando também? Eu não posso exigir nada, eu não devo esperar nada, mas eu posso propor, eu posso oferecer.
quarta-feira, 11 de janeiro de 2012
Feminino
Eu quero galopar pelo meio da Avenida Paulista. Montando uma égua negra, adolescente, no cio. Vestida como um caubói, de pé sobre os estribos, gritando e brandindo minha carabina vermelha.
Eu quero escalar a montanha escura e salvar uma princesa. Vou seduzir o dragão a conquistar o mundo comigo, e nós duas voaremos nas costas dele, eu de meia-armadura negra, com grandes espinhos. Encontrarei a princesa de vestido longo cor-de-rosa e uma tiara com jóias delicadas, mas para o nosso urro bestial de cima da montanha é preciso que nós três estejamos nuas. Minha princesa revelará tatuagens coloridas de roseiras em suas pernas.
Eu quero liderar o bando de leoas, garantindo a carne para o bando, tendo certeza de que dentes fortes se fechem sobre a garganta da presa. Eu urrarei para manter os machos e os rinocerontes longe dos meus filhotes. Eu ofereço um grande pedaço de caça ao leão grande e forte que ganhou todas as batalhas para merecer ser aceito no nosso bando.
Eu quero dançar no baile usando vestido de cauda. Meu par se vestirá elegantemente, e quando eu rodar nos seus braços minha saia se enrolará nas pernas dele. Nós usaremos márcaras de animais, e meu vestido terá asas de demônio, e todos perguntarão quem nós fomos, quando bater meia noite e nós desaparecermos.
Eu quero me pendurar no cordame e cantando uma canção alegre, gritando para abrirem as velas, quando a tempestade passar. Eu correrei pelo convés e mergulharei no oceano, e minha forma de sereia terá longas escamas azuis e saberá falar com a serpente do mar. Minha tripulação aguardará minha volta, mas mantendo o rumo, que será sempre a próxima ilha desconhecida. Enquanto isso eu explorarei os mistérios do mar e conhecerei uma porção de sereias magníficas que preferem viver longe da superfície. Mas eu voltarei para o veleiro para determinar o próximo rumo, e para negociar com os outros capitães, e para liderar batalhas, e para ouvir as histórias dos marinheiros e adormecer no meio dos meus homens, em forma humana, segura de quem eu sou e da minha posição.
Eu quero escalar a montanha escura e salvar uma princesa. Vou seduzir o dragão a conquistar o mundo comigo, e nós duas voaremos nas costas dele, eu de meia-armadura negra, com grandes espinhos. Encontrarei a princesa de vestido longo cor-de-rosa e uma tiara com jóias delicadas, mas para o nosso urro bestial de cima da montanha é preciso que nós três estejamos nuas. Minha princesa revelará tatuagens coloridas de roseiras em suas pernas.
Eu quero liderar o bando de leoas, garantindo a carne para o bando, tendo certeza de que dentes fortes se fechem sobre a garganta da presa. Eu urrarei para manter os machos e os rinocerontes longe dos meus filhotes. Eu ofereço um grande pedaço de caça ao leão grande e forte que ganhou todas as batalhas para merecer ser aceito no nosso bando.
Eu quero dançar no baile usando vestido de cauda. Meu par se vestirá elegantemente, e quando eu rodar nos seus braços minha saia se enrolará nas pernas dele. Nós usaremos márcaras de animais, e meu vestido terá asas de demônio, e todos perguntarão quem nós fomos, quando bater meia noite e nós desaparecermos.
Eu quero me pendurar no cordame e cantando uma canção alegre, gritando para abrirem as velas, quando a tempestade passar. Eu correrei pelo convés e mergulharei no oceano, e minha forma de sereia terá longas escamas azuis e saberá falar com a serpente do mar. Minha tripulação aguardará minha volta, mas mantendo o rumo, que será sempre a próxima ilha desconhecida. Enquanto isso eu explorarei os mistérios do mar e conhecerei uma porção de sereias magníficas que preferem viver longe da superfície. Mas eu voltarei para o veleiro para determinar o próximo rumo, e para negociar com os outros capitães, e para liderar batalhas, e para ouvir as histórias dos marinheiros e adormecer no meio dos meus homens, em forma humana, segura de quem eu sou e da minha posição.
sábado, 9 de outubro de 2010
Irmão de Caça
Lembro da primeira vez que te vi de pé à beira deste meu mar, de como foi bonito e emocionante. Nunca cheguei a te encontrar, nunca cheguei a falar contigo à beira deste mar. Mas vi que você via; te via às vezes passando ao longe, navegando, domando as velas negras do Sonho, cavalgando vento e ondas. Você cresceu sem mim. Eu estive longe.
Eu estive longe a correr pelas florestas, pelas dunas, pelos espinheiros, eu estive matando monstros e demônios e me cobrindo de sangue. Você esteve conquistando o mundo, longe e perto de mim. Eu passei um tempo longe naquela cidade-fantasma que construí com tamanho carinho e para a qual chamei todos os meus novos amigos, aquele lugar de sonho onde as coisas não se destruíam. Você veio uma vez, olhou para tudo aquilo com curiosidade, depois torceu o nariz, deu de ombro e me chamou para uma aventura no mar, qualquer coisa mais instintiva do que aquela farsa. Eu até fui... mas voltei, saudosa, teu mundo não é mais meu e eu voltei a construir minha cidade, fiquei aqui, sim, sem dúvidas, e feliz até, até o dia em que Ele veio e com um pousar no chão fez tudo virar brasa, fez a cidade arrasada virar pedra, vir ao chão. Aí eu chorei.
Eu chorei e me enterrei junto aos escombros, vazia e fraca, lembrando todas as ruínas que já deixei para trás. Mas o Castelo Abandonado agora é um paraíso de ramos e flores comendo as paredes e derrubando vidraças - tudo se renova - e a À Entrada da Caverna nem existe mais. Eu fiquei aqui, junto a estes escombros, olhando as pedras e as dores e as memórias destruídas, tudo tão caro e tão inútil, tanta dor, e nem sei se um dia você entenderá do que estou falando. Eu olhei para as minhas pedras, machucada, e sequer havia ali a beleza da destruição, a dor da morte, o Sangue. Ele olhou pra mim, imperioso, e eu ao me humilhar bati no fundo da minha ruína e voltei com um jorro de raiva; e pela primeira vez eu lutei contra ele e o expulsei. A cidade estava vazia, já nem parecia cidade, as pedras eventualmente seriam só pedras e eu poderia passar por aqui novamente. Veja, há até uma pequena flor nascendo desta fenda junto aos meus pés!
Então eu saí da cidade, mas você estava tão longe... Eu tinha um mundo de terras a atravessar, e você continuava a navegar, lugares onde eu nunca tinha estado. Tudo pareceu tão diferente agora que a ilusão tinha acabado. Por um tempo eu fechei os olhos e evitei voltar aqui, evitei pensar nestas terras, nesses mares, nas nossas aventuras... Você voltou e tentou me chamar, mas eu tinha tanto a reconstruir, tanto que eu deixara degenerar, e ao mesmo tempo tantas coisas novas que eu precisava criar, erguer, firmar e povoar que eu disse, tantas vezes, não. Suas aventuras eram alguns dos meus sonhos! Mas eu já não sou exatamente aquela pessoa que eu costumava ser, e existem coisas e pessoas às quais eu não posso dar as costas.
Eu queria que tudo se encaixasse, que a gente pudesse ir caçar juntos, mas me parece que por agora nossas caçadas serão em nichos diferentes. Mas não desista, irmão, que ainda voltaremos a correr juntos, que ainda lutaremos na mesma arena. Não me esqueça ainda.
Don't write me off just yet.
Eu estive longe a correr pelas florestas, pelas dunas, pelos espinheiros, eu estive matando monstros e demônios e me cobrindo de sangue. Você esteve conquistando o mundo, longe e perto de mim. Eu passei um tempo longe naquela cidade-fantasma que construí com tamanho carinho e para a qual chamei todos os meus novos amigos, aquele lugar de sonho onde as coisas não se destruíam. Você veio uma vez, olhou para tudo aquilo com curiosidade, depois torceu o nariz, deu de ombro e me chamou para uma aventura no mar, qualquer coisa mais instintiva do que aquela farsa. Eu até fui... mas voltei, saudosa, teu mundo não é mais meu e eu voltei a construir minha cidade, fiquei aqui, sim, sem dúvidas, e feliz até, até o dia em que Ele veio e com um pousar no chão fez tudo virar brasa, fez a cidade arrasada virar pedra, vir ao chão. Aí eu chorei.
Eu chorei e me enterrei junto aos escombros, vazia e fraca, lembrando todas as ruínas que já deixei para trás. Mas o Castelo Abandonado agora é um paraíso de ramos e flores comendo as paredes e derrubando vidraças - tudo se renova - e a À Entrada da Caverna nem existe mais. Eu fiquei aqui, junto a estes escombros, olhando as pedras e as dores e as memórias destruídas, tudo tão caro e tão inútil, tanta dor, e nem sei se um dia você entenderá do que estou falando. Eu olhei para as minhas pedras, machucada, e sequer havia ali a beleza da destruição, a dor da morte, o Sangue. Ele olhou pra mim, imperioso, e eu ao me humilhar bati no fundo da minha ruína e voltei com um jorro de raiva; e pela primeira vez eu lutei contra ele e o expulsei. A cidade estava vazia, já nem parecia cidade, as pedras eventualmente seriam só pedras e eu poderia passar por aqui novamente. Veja, há até uma pequena flor nascendo desta fenda junto aos meus pés!
Então eu saí da cidade, mas você estava tão longe... Eu tinha um mundo de terras a atravessar, e você continuava a navegar, lugares onde eu nunca tinha estado. Tudo pareceu tão diferente agora que a ilusão tinha acabado. Por um tempo eu fechei os olhos e evitei voltar aqui, evitei pensar nestas terras, nesses mares, nas nossas aventuras... Você voltou e tentou me chamar, mas eu tinha tanto a reconstruir, tanto que eu deixara degenerar, e ao mesmo tempo tantas coisas novas que eu precisava criar, erguer, firmar e povoar que eu disse, tantas vezes, não. Suas aventuras eram alguns dos meus sonhos! Mas eu já não sou exatamente aquela pessoa que eu costumava ser, e existem coisas e pessoas às quais eu não posso dar as costas.
Eu queria que tudo se encaixasse, que a gente pudesse ir caçar juntos, mas me parece que por agora nossas caçadas serão em nichos diferentes. Mas não desista, irmão, que ainda voltaremos a correr juntos, que ainda lutaremos na mesma arena. Não me esqueça ainda.
Don't write me off just yet.
quinta-feira, 10 de junho de 2010
Sobre aquilo que eu não queria explicar
É meio ridículo que eu não queira falar dessas coisas pessoalmente com você mas ainda insista em escrever sobre elas, aqui onde eu sei que você vai ler.
Eu queria conseguir pensar como você, Tássio, e não me lamentar pelos erros que eu cometi quando eu era uma jogadora novata. Mas no meu caso os erros estão aqui, muito próximos para que eu consiga me distanciar deles. Eu ainda sou novata. Então eu tenho que lidar com eles e aprender. Mas acho que a lógica da vida deve ser muito mais difícil de pegar que a do gô. Você talvez tenha visto, naquele dia em que eu tentei aprender a jogar, que em vários momentos em não via saída nenhuma e jogava apenas por intuição. Também na vida faço isso, quando me encontro em situações confusas, sigo lassa as ordens do meu coração, e às vezes é para bem, mas muitas vezes também é para mal. Você não sabe distingüir bem e mal, útil e inútil, certo e errado, mas eu consigo sentir os erros e acertos -- é claro que às vezes temos que provar o fel da vergonha para entender quem somos, o que fizemos, para onde nos dirigimos, qual o próximo passo. A amnésia do futuro é o pior tipo.
Agora algumas coisas estão tão claras, coisas que eu nunca teria imaginado pensar. Eu preciso me tornar mais forte, conseguir olhar as pessoas nos olhos e permitir que a minha própria voz fale, e não apenas a voz de sonho com que eu te conto minhas loucuras e a voz de mêdo com que eu te faço perguntas. Eu preciso falar com a voz de poder que é uma arma na minha lida. Agora eu entendo quantas dores na minha vida foram apenas falta de usar essa voz. Eu tenho que ser forte para poder controlar os demônios. Eu tenho que ter força para poder sobreviver aos seus passos dentro de mim. Eu entendo agora quantas coisas me causaram mais dor do que prazer porque eu não pude segurá-las com as duas mãos. Eu ainda preciso aprender muito. Eu ainda sou muito frágil.
Acho que aqui termina o capítulo que eu quis chamar da Coragem. O próximo trecho será chamado de Força.
Eu queria conseguir pensar como você, Tássio, e não me lamentar pelos erros que eu cometi quando eu era uma jogadora novata. Mas no meu caso os erros estão aqui, muito próximos para que eu consiga me distanciar deles. Eu ainda sou novata. Então eu tenho que lidar com eles e aprender. Mas acho que a lógica da vida deve ser muito mais difícil de pegar que a do gô. Você talvez tenha visto, naquele dia em que eu tentei aprender a jogar, que em vários momentos em não via saída nenhuma e jogava apenas por intuição. Também na vida faço isso, quando me encontro em situações confusas, sigo lassa as ordens do meu coração, e às vezes é para bem, mas muitas vezes também é para mal. Você não sabe distingüir bem e mal, útil e inútil, certo e errado, mas eu consigo sentir os erros e acertos -- é claro que às vezes temos que provar o fel da vergonha para entender quem somos, o que fizemos, para onde nos dirigimos, qual o próximo passo. A amnésia do futuro é o pior tipo.
Agora algumas coisas estão tão claras, coisas que eu nunca teria imaginado pensar. Eu preciso me tornar mais forte, conseguir olhar as pessoas nos olhos e permitir que a minha própria voz fale, e não apenas a voz de sonho com que eu te conto minhas loucuras e a voz de mêdo com que eu te faço perguntas. Eu preciso falar com a voz de poder que é uma arma na minha lida. Agora eu entendo quantas dores na minha vida foram apenas falta de usar essa voz. Eu tenho que ser forte para poder controlar os demônios. Eu tenho que ter força para poder sobreviver aos seus passos dentro de mim. Eu entendo agora quantas coisas me causaram mais dor do que prazer porque eu não pude segurá-las com as duas mãos. Eu ainda preciso aprender muito. Eu ainda sou muito frágil.
Acho que aqui termina o capítulo que eu quis chamar da Coragem. O próximo trecho será chamado de Força.
segunda-feira, 17 de maio de 2010
De sobre o mirante
(a noite é uma criança distraída)
Eu achei que chegaria um dia que não seria assim tão incrível e aí eu ficaria muito decepcionada e até meio depressiva. Eu achei que ia ser horrível. Mas não foi assim. Foi só meio confuso. Eu acordei um dia sem grandes ambições. Eu acordei e queria escrever, cantar, almoçar com o Basílio e a Néia, jogar RPG talvez. Mentira, eu sabia que eu não conseguiria jogar. Mas eu queria ver meus amigos. Eu queria tentar. Então o dia escorreu assim, eu o tempo todo distraída, meio alheia, tanta coisa pra sentir atrasado, tanta coisa tenta pra pensar.
--------------------
Eu cheguei em casa, tirei a corrente do pescoço e tentei voltar para o mundo de antes, mas não podia, porque nem eu nem o rio éramos os mesmos. Eu tomei um banho longo e me joguei na cama e dormi, sem querer querendo, dormi pra tentar entender, pra tentar sincronizar meu corpo com o mundo de agora-aqui, e dormi sabendo que estava perdendo a noite perdendo tudo, e fui acordada com:
— Vamos assistir Carmina Burana na Luz em vinte-e-cinco minutos, você vem?
— Eu tô em casa, me deixa ir que eu corro como o vento pra tentar chegar a tempo.
Tudo deu errado mas eu cheguei a duas músicas e meia do final. Eu me emocionei com os últimos "venus..." a quinze metros do palco, eu me mantive lá contra os desejos dos meus que estavam tão mais longe. Eu andei pela multidão e os rostos das pessoas que ouviam eram de glória: olhos fechados, vários lábios cantando. Hoje o jornal dizia que foi uma apresentação pífia. Algumas músicas sobrevivem a qualquer coisa. E no final eu larguei todas as coisas para abrir os braços. Eu cantei também. Nada disso importa. E a partir daí foi uma noite como qualquer outra.
Eu olhei pra você e meu pensamento se contorceu numa careta, porque se só ouvir o seu nome já me distrai tanto do mundo, que dirá caminhar ao seu lado?
Teve um momento em que o Poru estava assustando as pessoas (não o culpem, a idéia foi minha) de um jeito muito simpático, e eu acho que eu causei a maior quantidade de mêdo num desconhecido na minha vida. É que aquela menina era muito linda. Talvez ela nem fosse perfeita, ela era tão delicada, não era gostosa, não emanava poder como as pessoas de quem eu geralmente gosto, ela... ela parecia uma flor, um lírio branco iluminado por um único raio de luar.
"Quando me tocas eu me transformo
Como uma flor que se abre
Como uma flor eu me abro
Para o calor do teu toque"
Ela tinha a pele clara e os traços delicados, cabelos escuros curtos meio ondulados emoldurando o rosto. Eu fui falar com o Poru e olhei para ela e disse "nossa". E eu começava a falar com o Poru mas meu olhar ficava se voltando para ela, e eu queria muito parar e conversar com ela, descobrir quem ela era, como eu poderia vê-la mais vezes (num pedestal), e ao mesmo tempo eu precisava dizer para o Poro que estávamos indo embora, beber cerveja com o Sacha (o que no final não fizemos ¬¬), dar tchau para os amigos do David, e em certo momento eu virei para ela e disse:
"Uau, como você é linda."
...
Se vocês tivessem visto o olhar dela, vocês entenderiam melhor porque naquela hora eu me senti um monstro. Um ogro raptor de donzelas. Eu tive mêdo de mim mesma. E aí fomos embora.
E depois conversamos bastante, e tudo meio enevoado, tudo tão bonito, tantas pessoas que... mas eu não digo nada, eu estou tão em silêncio. Assistimos Deixa ela entrar e foi tão emocionante quando a música antes. Um filme lindo. E depois fomos pra casa, e dormimos juntos, conversando sobre as coisas que precisávamos mudar, sobre nossos erros, sobre nosso amor, sobre os estudos, sobre acordar no dia seguinte, sobre xkcd, sobre i love the whole world (the future is pretty cool).
Então eu acordei pensando em como expressar, não pensando em viver ainda mais coisas incríveis e perfeitas. E ao longo do dia o mêdo foi ficando cada vez mais forte, o mêdo de não poder falar, o mêdo de estar tudo o que importa apenas um pouco além do limite das conversas razoáveis. Eu lembrei o olhar nos olhos deles quando eu falei da minha sexta-feira, eu lembrei de vários olhares de muitos tempos antes e depois. Eu fiquei com mêdo. Eu voltei pra casa depois do jogo e tentei escrever, mas tudo o que eu queria dizer não podia ser dito, e a minha pilha de rascunhos no blogger ficava cada vez maior. Mas eu não podia dizer.
Que dizer do que eu sinto por você? Do que não é desejo, não é amor, não é paixão, não é um interesse fútil? Que dizer do que nem eu entendo? Como eu posso te querer sem te querer? E como passar por cima do mêdo?
Que dizer do meu desejo por você, completamente despropositado?
Que dizer dos meus sonhos, dos meus mêdos, completamente errados?
Na calma, eu também pensei em você. Eu achei que chegaria um dia que seria perfeitamente normal e que eu odiaria isso. Mas não. Chegou um dia em que eu estava tão repleta de uma sensação de glória que nada mais parecia me importar. Como eu queria poder expressar! E tudo era tão silêncio. Eu parei e pensei em como eu me sentira feliz, como eu queria poder expressar essa alegria irrestrita, essa alegria devastadora, que me fez saltirar e rir e cantar e dançar ao redor de você. Como eu tenho que lhe agradecer pela alegria que me preencheu completamente, como eu nunca esperava ficar tão feliz! Depois disso nada mais importa, meu dia estava vazio, meu dia era um raio de sol o mais importante é o agora, mas eu vou viver o resto da minha vida lembrando desse mar, sabendo que por sua causa eu fui feliz, sabendo a importância de todas as outras pessoas que me trouxeram até aqui, eu estava sorrindo sem conseguir lidar direito com esse foco de luz que nasceu no meu peito, essa torre iluminada de marfim que brilha, que desvela praias e falésias, flores, tiés-sangue, que está vazia agora mas que prepara uma festa, e é tudo por você, meu companheiro de viagem, meu bardo, muito obrigada!
Eu quero criar um novo nome para um tipo de relacionamento. Não vai se chamar conquistadores de mundo. Estou em dúvida entre Companheiros de Caça e Companheiros de Viagem. Eu quero virar com você, viajar e caçar com você. Essa é a minha luz, a minha alegria, o meu farol. Ugo, teu barco (o Sonho) vai se guiar também por esse farol. Quando nós navegarmos juntos, nós nos reuniremos nessa torre. É a primeira construção em muito tempo que não está cinzenta e abandonada. Não há demônios aqui! Nós nos guiaremos por sua luz. Daqui a cem anos, se eu me lembrar desse dia, eu ainda terei luz para guiar minha jornada.
Isso tudo me assusta.
Me assusta porque não posso chamar a todos para virem comigo se eu não puder convidá-los para a festa. Eu quero chamar vocês, que eu amo, que me apóiam sempre. Senão, quem virá para a festa. Eu sei: senão, virão todos os demônios para a festa. E ali eles vagarão sem destino, ali eles tomarão conta de mais uma construção que eu abandonarei. Meu farol! Minha torre de luz! Não! Eu vou dar um jeito. Eu vou criar coragem e quebrar todas as barreiras. Pelo amor. Por mim. Por sempre.
Eu vou falar a verdade.
Mas não agora.
Eu achei que chegaria um dia que não seria assim tão incrível e aí eu ficaria muito decepcionada e até meio depressiva. Eu achei que ia ser horrível. Mas não foi assim. Foi só meio confuso. Eu acordei um dia sem grandes ambições. Eu acordei e queria escrever, cantar, almoçar com o Basílio e a Néia, jogar RPG talvez. Mentira, eu sabia que eu não conseguiria jogar. Mas eu queria ver meus amigos. Eu queria tentar. Então o dia escorreu assim, eu o tempo todo distraída, meio alheia, tanta coisa pra sentir atrasado, tanta coisa tenta pra pensar.
--------------------
Eu cheguei em casa, tirei a corrente do pescoço e tentei voltar para o mundo de antes, mas não podia, porque nem eu nem o rio éramos os mesmos. Eu tomei um banho longo e me joguei na cama e dormi, sem querer querendo, dormi pra tentar entender, pra tentar sincronizar meu corpo com o mundo de agora-aqui, e dormi sabendo que estava perdendo a noite perdendo tudo, e fui acordada com:
— Vamos assistir Carmina Burana na Luz em vinte-e-cinco minutos, você vem?
— Eu tô em casa, me deixa ir que eu corro como o vento pra tentar chegar a tempo.
Tudo deu errado mas eu cheguei a duas músicas e meia do final. Eu me emocionei com os últimos "venus..." a quinze metros do palco, eu me mantive lá contra os desejos dos meus que estavam tão mais longe. Eu andei pela multidão e os rostos das pessoas que ouviam eram de glória: olhos fechados, vários lábios cantando. Hoje o jornal dizia que foi uma apresentação pífia. Algumas músicas sobrevivem a qualquer coisa. E no final eu larguei todas as coisas para abrir os braços. Eu cantei também. Nada disso importa. E a partir daí foi uma noite como qualquer outra.
Eu olhei pra você e meu pensamento se contorceu numa careta, porque se só ouvir o seu nome já me distrai tanto do mundo, que dirá caminhar ao seu lado?
Teve um momento em que o Poru estava assustando as pessoas (não o culpem, a idéia foi minha) de um jeito muito simpático, e eu acho que eu causei a maior quantidade de mêdo num desconhecido na minha vida. É que aquela menina era muito linda. Talvez ela nem fosse perfeita, ela era tão delicada, não era gostosa, não emanava poder como as pessoas de quem eu geralmente gosto, ela... ela parecia uma flor, um lírio branco iluminado por um único raio de luar.
"Quando me tocas eu me transformo
Como uma flor que se abre
Como uma flor eu me abro
Para o calor do teu toque"
Ela tinha a pele clara e os traços delicados, cabelos escuros curtos meio ondulados emoldurando o rosto. Eu fui falar com o Poru e olhei para ela e disse "nossa". E eu começava a falar com o Poru mas meu olhar ficava se voltando para ela, e eu queria muito parar e conversar com ela, descobrir quem ela era, como eu poderia vê-la mais vezes (num pedestal), e ao mesmo tempo eu precisava dizer para o Poro que estávamos indo embora, beber cerveja com o Sacha (o que no final não fizemos ¬¬), dar tchau para os amigos do David, e em certo momento eu virei para ela e disse:
"Uau, como você é linda."
...
Se vocês tivessem visto o olhar dela, vocês entenderiam melhor porque naquela hora eu me senti um monstro. Um ogro raptor de donzelas. Eu tive mêdo de mim mesma. E aí fomos embora.
E depois conversamos bastante, e tudo meio enevoado, tudo tão bonito, tantas pessoas que... mas eu não digo nada, eu estou tão em silêncio. Assistimos Deixa ela entrar e foi tão emocionante quando a música antes. Um filme lindo. E depois fomos pra casa, e dormimos juntos, conversando sobre as coisas que precisávamos mudar, sobre nossos erros, sobre nosso amor, sobre os estudos, sobre acordar no dia seguinte, sobre xkcd, sobre i love the whole world (the future is pretty cool).
Então eu acordei pensando em como expressar, não pensando em viver ainda mais coisas incríveis e perfeitas. E ao longo do dia o mêdo foi ficando cada vez mais forte, o mêdo de não poder falar, o mêdo de estar tudo o que importa apenas um pouco além do limite das conversas razoáveis. Eu lembrei o olhar nos olhos deles quando eu falei da minha sexta-feira, eu lembrei de vários olhares de muitos tempos antes e depois. Eu fiquei com mêdo. Eu voltei pra casa depois do jogo e tentei escrever, mas tudo o que eu queria dizer não podia ser dito, e a minha pilha de rascunhos no blogger ficava cada vez maior. Mas eu não podia dizer.
Que dizer do que eu sinto por você? Do que não é desejo, não é amor, não é paixão, não é um interesse fútil? Que dizer do que nem eu entendo? Como eu posso te querer sem te querer? E como passar por cima do mêdo?
Que dizer do meu desejo por você, completamente despropositado?
Que dizer dos meus sonhos, dos meus mêdos, completamente errados?
Na calma, eu também pensei em você. Eu achei que chegaria um dia que seria perfeitamente normal e que eu odiaria isso. Mas não. Chegou um dia em que eu estava tão repleta de uma sensação de glória que nada mais parecia me importar. Como eu queria poder expressar! E tudo era tão silêncio. Eu parei e pensei em como eu me sentira feliz, como eu queria poder expressar essa alegria irrestrita, essa alegria devastadora, que me fez saltirar e rir e cantar e dançar ao redor de você. Como eu tenho que lhe agradecer pela alegria que me preencheu completamente, como eu nunca esperava ficar tão feliz! Depois disso nada mais importa, meu dia estava vazio, meu dia era um raio de sol o mais importante é o agora, mas eu vou viver o resto da minha vida lembrando desse mar, sabendo que por sua causa eu fui feliz, sabendo a importância de todas as outras pessoas que me trouxeram até aqui, eu estava sorrindo sem conseguir lidar direito com esse foco de luz que nasceu no meu peito, essa torre iluminada de marfim que brilha, que desvela praias e falésias, flores, tiés-sangue, que está vazia agora mas que prepara uma festa, e é tudo por você, meu companheiro de viagem, meu bardo, muito obrigada!
Eu quero criar um novo nome para um tipo de relacionamento. Não vai se chamar conquistadores de mundo. Estou em dúvida entre Companheiros de Caça e Companheiros de Viagem. Eu quero virar com você, viajar e caçar com você. Essa é a minha luz, a minha alegria, o meu farol. Ugo, teu barco (o Sonho) vai se guiar também por esse farol. Quando nós navegarmos juntos, nós nos reuniremos nessa torre. É a primeira construção em muito tempo que não está cinzenta e abandonada. Não há demônios aqui! Nós nos guiaremos por sua luz. Daqui a cem anos, se eu me lembrar desse dia, eu ainda terei luz para guiar minha jornada.
Isso tudo me assusta.
Me assusta porque não posso chamar a todos para virem comigo se eu não puder convidá-los para a festa. Eu quero chamar vocês, que eu amo, que me apóiam sempre. Senão, quem virá para a festa. Eu sei: senão, virão todos os demônios para a festa. E ali eles vagarão sem destino, ali eles tomarão conta de mais uma construção que eu abandonarei. Meu farol! Minha torre de luz! Não! Eu vou dar um jeito. Eu vou criar coragem e quebrar todas as barreiras. Pelo amor. Por mim. Por sempre.
Eu vou falar a verdade.
Mas não agora.
terça-feira, 4 de maio de 2010
Paragens Internas - resumo dos capítulos anteriores - o primeiro dia e a primeira noite
Isto aqui costumava ser uma grande floresta. Ia até onde a vista alcança e mais além. Esta parte juntava com aqueles bosques escuros ali distantes, e do outro lado corria até mergulhar no que agora são charcos, perto do desfiladeiro. E antes disso havia uma grande planície, uma campina sempre verde e viva dos quais poucos ainda se lembram bem. Eu mesmo nasci nos últimos dias daquela campina, no último verão glorioso antes de tudo se transformar. Mas daquele tempo eu me lembro que era inteiramente habitado pelo ruflar das asas de infinitos pássaros, e que tudo era cheio de luz. Tudo era tão vivo! O campo se cobria de flores diferentes a cada estação, e eram de todas as cores e atraíam todos os bichos. Este lugar era como um jardim imenso que se estendia do Mar do Oeste até os confins do infinito do outro lado, e era habitado por espíritos livres que mudavam de forma e viajavam em infindas brincadeiras. Naquela era o Tempo não existia, e os espíritos que nasciam logo amadureciam e voltavam a ser crianças, apenas pelo prazer da mudança. Tudo o que vivia aqui era dotado de asas, embora alguns optassem por viver nas águas e outros preferissem correr sob ou sobre a terra.
Então veio a Grande Morte, quando um tremor abalou a terra e os mares recuaram, inundando toda a parte de trás do mundo, onde viviam as coisas mais selvagens. E aqui, a terra secou e endureceu, e todos os seres morreram ou fugiram para aguardar debaixo da proteção das montanhas. O Sol estancou no céu, e a Lua ficou parada a iluminar o lado de trás do mundo; e foi aí também que o Tempo começou. E por um tempo infinito vivemos na sombra e esperamos sem que nada mudasse além das nossas formas, pois enquanto esperamos nossas asas se despedaçaram em dor e e nossos dedos se transformaram em garras, e não podíamos mais tocar músicas alegres, apenas entoar lamentos sem palavras. Lá fora, não havia nenhum vento sobre a terra ressecada, e o único movimento era o de um tímido rio vermelho que escorria lentamente na superfície da terra, nascido dentro de uma montanha e que desaguava no Mundo de Fora através da saída do Poço. Então, quando o mêdo da morte começava a se apoderar de nós, entrou no mundo um espírito sem idade, o único herói verdadeiro de nossa história, a quem chamamos Rin, que na língüa de então significava fio, como o de uma lâmina, mas que também quer dizer aquele que é, ou o que pertence. E Rin também foi chamado de o Salvador. e de Espírito-Criança, mas o nome pelo qual todos os que vieram depois se lembram dele é Rin Rad, pois Rad significa tigre e era pelos tigres, de todas as criaturas que vieram depois, que Rin tinha maior respeito. E assim que chegou ao mundo Rin desceu aos os mais profundos subterrâneos e também andou até os mais distantes mares, e neles nadou e conheceu as coisas selvagens, mas logo voltou, porque no mar não havia dor, e Rin não podia abandonar a dor da terra assolada pela Grande Morte. Munido desse amor pela alegria das coisas, e da água do mar onde se banhara, Rin Rad subiu o Rio de Sangue até a sua nascente, e ali, de alguma forma que ainda não conhecemos, nosso herói transformou todo o sangue em lágrimas, e deu às lágrimas o poder de criar e curar, e fez a água correr para que tudo o que houvesse no mundo se enchesse de vida.
Então o sol se desprendeu no Céu e conseguiu finalmente concluir seu longo crespúsculo. O período que se seguiu foi chamado por nós de A Grande Noite. A terra toda se cobriu de plantas que cresceram selvagenmente em uma enorme floresta, e todas as criaturas que andam e correm saíram de seus esconderijos para habitá-la. E como a vida da floresta viesse da água do mar que Rin colhera, as coisas que nasceram ali eram ferozes como os habitantes de Atrás. Naquele tempo não haviam estrelas, então, para que tivéssemos alguma luz, Rin Rad plantou suas próprias sementes no solo à margem do Rio de Sangue, e ali cresceram árvores cujos frutos eram gemas luminosas de todos os matizes. O mundo se enchera de alegria pela libertação da terra, mas as criaturas que o habitavam não possuíam mais asas e viviam mudando entre formas sombrias, mesmo que coloridas, que rastejavam e se enroscavam ao redor das árvores das luzes, já que somente elas tinham algo da delicadeza e da vivacidade que existiam no mundo antes da Grande Morte. Então Rin Rad cantou para a terra e a terra respondeu ao seu canto e criou os Caçadores, que nasceram para ser os habitantes de direito da nova floresta, e entre estes Rin chamou os Tigres, os Lobos, os Ursos e as Panteras e entregou a cada família um fruto de uma das árvores, e mandou que eles se espalhassem e dividissem as terras como lhes aprazisse, e que protegessem suas gemas e cuidassem para que elas não perdessem o brilho. Assim as luzes se espalharam e espalharam sua magia por todas as partes, e os seres que mudavam de forma se espalharam atrás delas, e muitos deles se disfarçaram de caçadores para permanecerem próximos a um fruto, e muitos outros se transformaram em animais pequenos para que pudessem se infiltrar nas tocas dos caçadores, mas nenhum deles jamais teve um fruto em seu poder, e por isso seu pesar pela perda da luz de antes nunca arrefeceu.
E com o tempo os habitantes do mundo se acostumaram com a nova floresta, e muitos deles começaram a se colorir com as cores das gemas das árvores e a criar novas formas, e afinal um grupo deles decidiu tomar uma área nos limites da floresta e transformá-la numa grande campina, onde os espíritos antigos criaram novas formas, baseadas nas formas que usavam antes da Grande Morte, mas voltadas para o brilho colorido que emanava da floresta, em lugar do sol. E, vendo as dificuldades dos espíritos da campina, a Leoa pediu a Rin uma de suas pedras, e Rin fez uma árvore nova, que dava frutos brancos e mais brilhantes que os outros, e a Leoa levou seus frutos para a campina e alí criou seu território, onde sempre havia tranqüilidade e paz. E nesse campina também ressurgiram a Queni e a Quemi, os Pássaros de Fogo e de Cor, que decidiram voltar para a floresta quando tiveram suficiente confiança em suas asas, e então ajudaram a nascer novas aves entre os Caçadores, das quais as primeiras foram a Coruja e o Gavião. E assim a Floresta cresceu e ganhou forma e vida, e seus habitantes se multiplicaram e se transformaram para ficarem mais graciosos e mais ferozes, e se aprimoraram caçando e guerreando mas também cantando à margem do Rio de Sangue em homenagem a Rin Rad e às luzes das árvores. Eles também cantavam ocasionalmente em nome da Senhora, que partira durante a Grande Morte e que desde então não fora vista, e conta-se que foi de tanto eles chamarem seu nome que em dado momento ela retornou.
Então veio a Grande Morte, quando um tremor abalou a terra e os mares recuaram, inundando toda a parte de trás do mundo, onde viviam as coisas mais selvagens. E aqui, a terra secou e endureceu, e todos os seres morreram ou fugiram para aguardar debaixo da proteção das montanhas. O Sol estancou no céu, e a Lua ficou parada a iluminar o lado de trás do mundo; e foi aí também que o Tempo começou. E por um tempo infinito vivemos na sombra e esperamos sem que nada mudasse além das nossas formas, pois enquanto esperamos nossas asas se despedaçaram em dor e e nossos dedos se transformaram em garras, e não podíamos mais tocar músicas alegres, apenas entoar lamentos sem palavras. Lá fora, não havia nenhum vento sobre a terra ressecada, e o único movimento era o de um tímido rio vermelho que escorria lentamente na superfície da terra, nascido dentro de uma montanha e que desaguava no Mundo de Fora através da saída do Poço. Então, quando o mêdo da morte começava a se apoderar de nós, entrou no mundo um espírito sem idade, o único herói verdadeiro de nossa história, a quem chamamos Rin, que na língüa de então significava fio, como o de uma lâmina, mas que também quer dizer aquele que é, ou o que pertence. E Rin também foi chamado de o Salvador. e de Espírito-Criança, mas o nome pelo qual todos os que vieram depois se lembram dele é Rin Rad, pois Rad significa tigre e era pelos tigres, de todas as criaturas que vieram depois, que Rin tinha maior respeito. E assim que chegou ao mundo Rin desceu aos os mais profundos subterrâneos e também andou até os mais distantes mares, e neles nadou e conheceu as coisas selvagens, mas logo voltou, porque no mar não havia dor, e Rin não podia abandonar a dor da terra assolada pela Grande Morte. Munido desse amor pela alegria das coisas, e da água do mar onde se banhara, Rin Rad subiu o Rio de Sangue até a sua nascente, e ali, de alguma forma que ainda não conhecemos, nosso herói transformou todo o sangue em lágrimas, e deu às lágrimas o poder de criar e curar, e fez a água correr para que tudo o que houvesse no mundo se enchesse de vida.
Então o sol se desprendeu no Céu e conseguiu finalmente concluir seu longo crespúsculo. O período que se seguiu foi chamado por nós de A Grande Noite. A terra toda se cobriu de plantas que cresceram selvagenmente em uma enorme floresta, e todas as criaturas que andam e correm saíram de seus esconderijos para habitá-la. E como a vida da floresta viesse da água do mar que Rin colhera, as coisas que nasceram ali eram ferozes como os habitantes de Atrás. Naquele tempo não haviam estrelas, então, para que tivéssemos alguma luz, Rin Rad plantou suas próprias sementes no solo à margem do Rio de Sangue, e ali cresceram árvores cujos frutos eram gemas luminosas de todos os matizes. O mundo se enchera de alegria pela libertação da terra, mas as criaturas que o habitavam não possuíam mais asas e viviam mudando entre formas sombrias, mesmo que coloridas, que rastejavam e se enroscavam ao redor das árvores das luzes, já que somente elas tinham algo da delicadeza e da vivacidade que existiam no mundo antes da Grande Morte. Então Rin Rad cantou para a terra e a terra respondeu ao seu canto e criou os Caçadores, que nasceram para ser os habitantes de direito da nova floresta, e entre estes Rin chamou os Tigres, os Lobos, os Ursos e as Panteras e entregou a cada família um fruto de uma das árvores, e mandou que eles se espalhassem e dividissem as terras como lhes aprazisse, e que protegessem suas gemas e cuidassem para que elas não perdessem o brilho. Assim as luzes se espalharam e espalharam sua magia por todas as partes, e os seres que mudavam de forma se espalharam atrás delas, e muitos deles se disfarçaram de caçadores para permanecerem próximos a um fruto, e muitos outros se transformaram em animais pequenos para que pudessem se infiltrar nas tocas dos caçadores, mas nenhum deles jamais teve um fruto em seu poder, e por isso seu pesar pela perda da luz de antes nunca arrefeceu.
E com o tempo os habitantes do mundo se acostumaram com a nova floresta, e muitos deles começaram a se colorir com as cores das gemas das árvores e a criar novas formas, e afinal um grupo deles decidiu tomar uma área nos limites da floresta e transformá-la numa grande campina, onde os espíritos antigos criaram novas formas, baseadas nas formas que usavam antes da Grande Morte, mas voltadas para o brilho colorido que emanava da floresta, em lugar do sol. E, vendo as dificuldades dos espíritos da campina, a Leoa pediu a Rin uma de suas pedras, e Rin fez uma árvore nova, que dava frutos brancos e mais brilhantes que os outros, e a Leoa levou seus frutos para a campina e alí criou seu território, onde sempre havia tranqüilidade e paz. E nesse campina também ressurgiram a Queni e a Quemi, os Pássaros de Fogo e de Cor, que decidiram voltar para a floresta quando tiveram suficiente confiança em suas asas, e então ajudaram a nascer novas aves entre os Caçadores, das quais as primeiras foram a Coruja e o Gavião. E assim a Floresta cresceu e ganhou forma e vida, e seus habitantes se multiplicaram e se transformaram para ficarem mais graciosos e mais ferozes, e se aprimoraram caçando e guerreando mas também cantando à margem do Rio de Sangue em homenagem a Rin Rad e às luzes das árvores. Eles também cantavam ocasionalmente em nome da Senhora, que partira durante a Grande Morte e que desde então não fora vista, e conta-se que foi de tanto eles chamarem seu nome que em dado momento ela retornou.
segunda-feira, 19 de abril de 2010
Quando.
Eram passos escuros
Como se eram sombras
Haviam dentes
Havia dentição
e mordedura
Eram os olhos rubros
Era outra era
Agora
Havia fome vera, engolidora
Quando eu
Não se era então
Dever, devorar
Não se pensava então
O que não se pensa não se come
Comer, mastigar
Era.
Havia riso.
Era tudo muito doce e muito
Preso
Era tudo vôo, mas.
Mas:
Onde não há caça não há presa
Onde não há presa não há terra
Onde não há terra não se explora
Onde não se explora não se.
Tudo vôo só céu.
Acho
Um beijo
Havia presas, sangue dos lábios
Um sonho é como ser tudo
Ter-poder
tudo.
Quando.
Um rosnado de fome
De vitória
De raiva antecipação
Fulva
Ígnea.
"Esta é a minha presa."
Quando:
Próximo
Concienciosamente
Toca
Um...
R
Como se eram sombras
Haviam dentes
Havia dentição
e mordedura
Eram os olhos rubros
Era outra era
Agora
Havia fome vera, engolidora
Quando eu
Não se era então
Dever, devorar
Não se pensava então
O que não se pensa não se come
Comer, mastigar
Era.
Havia riso.
Era tudo muito doce e muito
Preso
Era tudo vôo, mas.
Mas:
Onde não há caça não há presa
Onde não há presa não há terra
Onde não há terra não se explora
Onde não se explora não se.
Tudo vôo só céu.
Acho
Um beijo
Havia presas, sangue dos lábios
Um sonho é como ser tudo
Ter-poder
tudo.
Quando.
Um rosnado de fome
De vitória
De raiva antecipação
Fulva
Ígnea.
"Esta é a minha presa."
Quando:
Próximo
Concienciosamente
Toca
Um...
R
segunda-feira, 22 de março de 2010
Howl with me
"You find me sitting at this table
with my friend Fin and my friend John
My friend Murdaney tells us stories
of things long gone, long gone
And we may take a glass together
the whisky makes it all so clear
It fires our dulled imaginations
and I feel so near, so near
I feel so near
to the howling of the winds
I feel so near
to the crashing of the waves
I feel so near
to the flowers in the field
Feel so near...
The old man looks out to the island
He says this place is endless thin
There's no real distance here to mention
we might all fall in, all fall in
No distance to the spirits of the living
No distance to the spirits of the dead
And as he turned his eyes were shining
and he proudly said, proudly said
I feel so near
to the howling of the winds
I feel so near
to the crashing of the waves
I feel so near
to the flowers in the field
Feel so near...
So we build our tower constructions
There to mark our place in time
We justify our great destructions
As on we climb, on we climb
Now the journey doesn't seem to matter
The destination's faded out
But gathering out along the headland
I hear the children shout, children shout
I feel so near
to the howling of the winds
I feel so near
to the crashing of the waves
I feel so near
to the flowers in the field
Feel so near..."
with my friend Fin and my friend John
My friend Murdaney tells us stories
of things long gone, long gone
And we may take a glass together
the whisky makes it all so clear
It fires our dulled imaginations
and I feel so near, so near
I feel so near
to the howling of the winds
I feel so near
to the crashing of the waves
I feel so near
to the flowers in the field
Feel so near...
The old man looks out to the island
He says this place is endless thin
There's no real distance here to mention
we might all fall in, all fall in
No distance to the spirits of the living
No distance to the spirits of the dead
And as he turned his eyes were shining
and he proudly said, proudly said
I feel so near
to the howling of the winds
I feel so near
to the crashing of the waves
I feel so near
to the flowers in the field
Feel so near...
So we build our tower constructions
There to mark our place in time
We justify our great destructions
As on we climb, on we climb
Now the journey doesn't seem to matter
The destination's faded out
But gathering out along the headland
I hear the children shout, children shout
I feel so near
to the howling of the winds
I feel so near
to the crashing of the waves
I feel so near
to the flowers in the field
Feel so near..."
sexta-feira, 12 de março de 2010
Essência
Estou na FAU, todos os meus amigos estão em aula, estou dividida entre filosofar, passear no sol, ler um livro ou estudar. Bem, aqui eu estou.
Há pouco tempo eu estive lendo Fight Club (que tem aspectos melhores e outros piores que o filme — notadamente o fato de o narrado não se chamar Tyler Durden) e tem aquela parte em que o narrador tem que dizer o que ele gostaria de mudar em sua vida antes que o carro batesse de frente, quer dizer, seu desejo final antes da morte, aquela coisa que você diria pro padre na hora da extrema unção se o seu padre só se sentisse vivo enquanto espanca outro homem no porão de um bar ou se esforça para destruir o mundo.
"Drunk drivers against mothers", kind-a-thing.
Eu estava no jardim, tinha um dia lindo na minha frente (é preciso observar que meu jardim em si é lindo) e minha vida parecendo escorrer das minhas mãos como um chumaço de plumas e me perguntei: o que eu quero, o que eu responderia ao mecânico dirigindo meu carro em direção à morte quando ele me fizesse essa pergunta?
— Eu quero escrever meus livros.
Sabe, não aquelas coisas amadorísticas que eu mostro pra vocês, eu quero escrever a história de Shaer, a guerra dos três demônios, a viagem de Aragorn. Eu quero mostrar a força da lida deles, eu quero declarar a que conclusão cheguei.
Tudo isso me parece impossível, como me parecia impossível velejar, me parece impossível eu um dia saber escrever e ter coragem de macular essas histórias com minhas palavras. Mas eu faço um esforço, embora débil, para que um dia isso se torne possível.
Eu sou uma escritora, uma Cantadora em essência? Nâo sei. Não tenho a mesma seiva criativa do Charles, e não há grandiosidade em meus poemas nem sabedoria em minha prosa, tudo que me resta é minha paixão, que se dilui no tempo conforme eu falho em escrever o próximo capítulo. Por exemplo, quando comecei as Histórias Sem Fim, pretendia escrever um capítulo por semana, e já se passou um ano e escrevi talvez quatro folhas.
Espero entretanto que ao menos a história seja interessante.
A Bia da Biblioteca um dia me disse "Não deixe os números confundirem você: você nasceu para as letras". Sim, sim, as letras, as palavras me encantam, mas a matemática também me encanta, tudo o que é linguagem me encanta, talvez nasça daí minha paixão por computação, mas meus interesses vão muito além desse encanto. Talvez a ciência, a arte, a fábera, e todas as coisas da vida sejam apenas hobbies, coisas do coração, coisas que são alimento mas que não são o objetivo final. Todo esse amor que eu tenho pelo mundo, talvez seja apenas a forma de devorá-lo.
Quem pode saber? Eu quero ter cento e dezoito anos e ser velha, forte e sábia. Eu quero levantar o mundo (me dêem uma alavanca!), eu quero acima de tudo enxergar. Entretanto, toda vez que me distraio do mundo e tento me concentrar no eu, eu sei que a forma como Eu gostaria de existir no mundo seria através das histórias.
Há pouco tempo eu estive lendo Fight Club (que tem aspectos melhores e outros piores que o filme — notadamente o fato de o narrado não se chamar Tyler Durden) e tem aquela parte em que o narrador tem que dizer o que ele gostaria de mudar em sua vida antes que o carro batesse de frente, quer dizer, seu desejo final antes da morte, aquela coisa que você diria pro padre na hora da extrema unção se o seu padre só se sentisse vivo enquanto espanca outro homem no porão de um bar ou se esforça para destruir o mundo.
"Drunk drivers against mothers", kind-a-thing.
Eu estava no jardim, tinha um dia lindo na minha frente (é preciso observar que meu jardim em si é lindo) e minha vida parecendo escorrer das minhas mãos como um chumaço de plumas e me perguntei: o que eu quero, o que eu responderia ao mecânico dirigindo meu carro em direção à morte quando ele me fizesse essa pergunta?
— Eu quero escrever meus livros.
Sabe, não aquelas coisas amadorísticas que eu mostro pra vocês, eu quero escrever a história de Shaer, a guerra dos três demônios, a viagem de Aragorn. Eu quero mostrar a força da lida deles, eu quero declarar a que conclusão cheguei.
Tudo isso me parece impossível, como me parecia impossível velejar, me parece impossível eu um dia saber escrever e ter coragem de macular essas histórias com minhas palavras. Mas eu faço um esforço, embora débil, para que um dia isso se torne possível.
Eu sou uma escritora, uma Cantadora em essência? Nâo sei. Não tenho a mesma seiva criativa do Charles, e não há grandiosidade em meus poemas nem sabedoria em minha prosa, tudo que me resta é minha paixão, que se dilui no tempo conforme eu falho em escrever o próximo capítulo. Por exemplo, quando comecei as Histórias Sem Fim, pretendia escrever um capítulo por semana, e já se passou um ano e escrevi talvez quatro folhas.
Espero entretanto que ao menos a história seja interessante.
A Bia da Biblioteca um dia me disse "Não deixe os números confundirem você: você nasceu para as letras". Sim, sim, as letras, as palavras me encantam, mas a matemática também me encanta, tudo o que é linguagem me encanta, talvez nasça daí minha paixão por computação, mas meus interesses vão muito além desse encanto. Talvez a ciência, a arte, a fábera, e todas as coisas da vida sejam apenas hobbies, coisas do coração, coisas que são alimento mas que não são o objetivo final. Todo esse amor que eu tenho pelo mundo, talvez seja apenas a forma de devorá-lo.
Quem pode saber? Eu quero ter cento e dezoito anos e ser velha, forte e sábia. Eu quero levantar o mundo (me dêem uma alavanca!), eu quero acima de tudo enxergar. Entretanto, toda vez que me distraio do mundo e tento me concentrar no eu, eu sei que a forma como Eu gostaria de existir no mundo seria através das histórias.
terça-feira, 26 de janeiro de 2010
Écrire
Se minha vida fosse um livro, o primeiro volume se chamaria Viagem. Eu seria um cão um gato um lobo um pássaro e o maior capítulo seria Liberdade. Seria um livro de causos, de aventuras, de família, de Estórias mil. Seria um volume dedicado ao irmão Gris. O segundo volume, com gostinho de depois-do-fim, seria o de Akela, e se chamaria Sozinho. Seria um livro de guerras, de lutas, de sangue, de escuridão, de perigo, de leões. Um mundo sem amigos, mas também sem fraquezas. Um mundo sem o conceito de erros. Um mundo onde poderia nascer o ódio. O terceiro volume seria Amigo, seria um livro dedicado à chuva e ao vento do verão. Seria o livro que faz a travessia do Selvagem ao genuínamente amoroso. O quarto volume se chamaria Amor — parte um, Desejo; parte dois, Entrega; parte três, Poder; parte quatro, Libertação. O quinto volume se chama Mêdo. Esse seria o livro da derrocada, o livro que destrói todos os outros enquanto ainda tenta retomá-los, o livro da Destruição. Mas haveria um capítulo para Laços e um capítulo para Doçura. Também haveriam capítulos para a Darrota. E eu estou tentando a muito tempo (e tão sem efeito!) começar um livro novo, um livro melhor, chamado Coragem. Mas eu não consigo porque parece que falta algo. Parece que falta um onde do qual tirar forças, um motivo para resistir e enfrentar. Ou alguém que me dê confiança.
Espero que seja possível encontrar.
Espero que seja possível encontrar.
sexta-feira, 11 de dezembro de 2009
Denise (mas não só)
Sei às vezes que a melhor parte de nós é aquela que mesmo nós não conhecemos. Aquela parte oculta. Imaginamos durante toda vida uma forma de chegar até essa reserva de nós que está fora de nosso alcance. Tentamos tudo, procuramos resolutos o portão despercebido que nos leva ao jardim secreto de nós mesmos.
Imagina como seria esse jardim se fosse povoado e habitado como as nossas outras construções, se fosse limpo e asseado com manutenção constante? Imagino esse lugar drenado de todas as marcas de seu abandono, imagino esse lugar sendo apenas uma parte de mim pela qual eu passo sem olhar. A beleza mesmo está nessa vegetação selvagem que nasce sobre uma camada sedimentar de mistério. A beleza são os fantasmas, a vida que povoa o desconhecido. A beleza é os monstros marinhos que figuram nas bordas dos mapas das grandes navegações. Eu busco aquele lugar inseguro, aquele lugar invisito, um lugar onde Há Dragões.
E como chegar a ele, quando não pisamos num solo envolto nas pegadas de um Deus Desconhecido?
Eu o procuro através das pessoas. Das palavras também, mas nas palavras que vêm das pessoas. Porque no Outro encontro o que desconheço do Eu. O melhor de mim, sem dúvida, é aquilo que vejo quando conheço alguém novo — alguém que me toca e liberta, que me traz algo verdadeiramente novo. Estou tão desgastada pelo tempo, entretanto quando olho em olhos novos vejo tudo outra vez: o barulho das árvores no vento, o cheiro das folhas molhadas, a textura peculiar do líquem et cetera. O novo é a minha memória. A experiência é o meu passado. Sei às vezes que o que mais espero de mim é o meu futuro que é também meu passado, Ou talvez os sonhos do passado que só podem existir num botão de esperança. É tudo assim; se esperarmos demais, tudo vira literatura e música, mas se lutarmos demais, nos tornamos... como dizer? Nos tornamos apenas lutadores. E na luta da vida esquecemos talvez que o que realmente nos move são as raízes daquele Eu desconhecido. Esquecemos que temos sob a superfície uma cidade de construções abandonadas. É impossível viver sempre no presente, é impossível dar manutenção a tudo isso. Mais que isso — é falso, é inútil. A beleza pra mim é percorrer esses salões vazios. É ouvir o canto dos pássaros que embalaram civilizações passadas.
Nas pessoas encontro as passagens secretas que levam ao outro lado do Eu. Nas experiência novas me crio e recrio e descubro mundos além dos que eu já vivia. Ergo torres sobre torres, torres sobre descampados, castelos sobre florestas em homenagem a reinos que se fazem num átimo quando uma frase me descreve. Queria poder dar a devida importância a essa cidade-palavra; levar seus inocentes fundadores a conhecer as vielas, os mirantes, os pombais. Toda vez que alguém me conhece queria... queria poder abrir as portas de mim! Mas não queria mostrar o tosco, o sujo, sabe? os fios elétricos os auditórios os dvds piratas nas calçadas os carros branco-preto-pratas as locadoras o bilhete único o telemarketing os filmes b os joguinhos de flash os romancetes júlia-sabrina os efeitos especiais o congestionamento o sabor artificial idêntico ao original as embalagens de biscoito as pessoas que correm os trabalhadores de escritório engravatados sozinhos em carros quatro-portas na hora do rush a comida da cantina os prédios provisórios sem manutenção cheios de pessoas a burocracia as matérias em que não aprendemos nada e a iluminação noturna fluorescente que deixa a noite parecida com shopping-center. Não!, eu queria mostrar as florestas, as grandes obras arquitetônicas, os lugares desabitados, o Mar! Eu queria poder tirar tudo o que é tolo e passageiro, e deixar só o âmago pulsante da poesia viva. Eu queria poder mostrar só o que realmente vale a pena em mim. Só as melhores músicas. Só palavras verdadeiras, escritas na Língua Antiga.
Mas eu não posso. Na verdade não posso tanto que nem consigo mostrar a reverberação que nossas conversas têm no meu passado. Não posso porque tudo se cobre por um véu de trivialidade. Mas nada é trivial. Nada é. Ouço dedos dançando numa rapsódia húngara, minha vida toda eu procurava sem saber algumas notas de Liszt, mas quando as encontro nos dedos de uma conversa banal eu sei de repende que tudo de vazio que acontece tem um significado profundo nesse mundo abaixo do meu mundo, esse río-abajo-río de mim. Coisas idiotas como uma barata de repente se tornam estranhas e sagradas e assustadoras. O mundo dentro de mim tem constantes revoluções. E eu, que mal as vejo, que as sinto mas não as noto, tão cheios estão meus olhos das mil coisas que vejo sobre o mundo, eu que percorro a vida a contra-pêlo, não posso ser uma boa guia para essa viagem.
Eu queria poder ir além disso. Ir aos melhores filmes e aos melhores livros. Construir um templo que revele quem eu deveria ser respeitosamente. Dançar como dedos no início da Sonata ao Luar. Deslizar sobre uma paisagem de inverno. Haver comunicação verdadeira entre eu e você. Trocarmos os nomes dos nossos amantes junto com passagens de Cortázar. Queria chegar mais perto da magia de tudo isso.
Queria chegar com você ao lugar de La Loba.
Imagina como seria esse jardim se fosse povoado e habitado como as nossas outras construções, se fosse limpo e asseado com manutenção constante? Imagino esse lugar drenado de todas as marcas de seu abandono, imagino esse lugar sendo apenas uma parte de mim pela qual eu passo sem olhar. A beleza mesmo está nessa vegetação selvagem que nasce sobre uma camada sedimentar de mistério. A beleza são os fantasmas, a vida que povoa o desconhecido. A beleza é os monstros marinhos que figuram nas bordas dos mapas das grandes navegações. Eu busco aquele lugar inseguro, aquele lugar invisito, um lugar onde Há Dragões.
E como chegar a ele, quando não pisamos num solo envolto nas pegadas de um Deus Desconhecido?
Eu o procuro através das pessoas. Das palavras também, mas nas palavras que vêm das pessoas. Porque no Outro encontro o que desconheço do Eu. O melhor de mim, sem dúvida, é aquilo que vejo quando conheço alguém novo — alguém que me toca e liberta, que me traz algo verdadeiramente novo. Estou tão desgastada pelo tempo, entretanto quando olho em olhos novos vejo tudo outra vez: o barulho das árvores no vento, o cheiro das folhas molhadas, a textura peculiar do líquem et cetera. O novo é a minha memória. A experiência é o meu passado. Sei às vezes que o que mais espero de mim é o meu futuro que é também meu passado, Ou talvez os sonhos do passado que só podem existir num botão de esperança. É tudo assim; se esperarmos demais, tudo vira literatura e música, mas se lutarmos demais, nos tornamos... como dizer? Nos tornamos apenas lutadores. E na luta da vida esquecemos talvez que o que realmente nos move são as raízes daquele Eu desconhecido. Esquecemos que temos sob a superfície uma cidade de construções abandonadas. É impossível viver sempre no presente, é impossível dar manutenção a tudo isso. Mais que isso — é falso, é inútil. A beleza pra mim é percorrer esses salões vazios. É ouvir o canto dos pássaros que embalaram civilizações passadas.
Nas pessoas encontro as passagens secretas que levam ao outro lado do Eu. Nas experiência novas me crio e recrio e descubro mundos além dos que eu já vivia. Ergo torres sobre torres, torres sobre descampados, castelos sobre florestas em homenagem a reinos que se fazem num átimo quando uma frase me descreve. Queria poder dar a devida importância a essa cidade-palavra; levar seus inocentes fundadores a conhecer as vielas, os mirantes, os pombais. Toda vez que alguém me conhece queria... queria poder abrir as portas de mim! Mas não queria mostrar o tosco, o sujo, sabe? os fios elétricos os auditórios os dvds piratas nas calçadas os carros branco-preto-pratas as locadoras o bilhete único o telemarketing os filmes b os joguinhos de flash os romancetes júlia-sabrina os efeitos especiais o congestionamento o sabor artificial idêntico ao original as embalagens de biscoito as pessoas que correm os trabalhadores de escritório engravatados sozinhos em carros quatro-portas na hora do rush a comida da cantina os prédios provisórios sem manutenção cheios de pessoas a burocracia as matérias em que não aprendemos nada e a iluminação noturna fluorescente que deixa a noite parecida com shopping-center. Não!, eu queria mostrar as florestas, as grandes obras arquitetônicas, os lugares desabitados, o Mar! Eu queria poder tirar tudo o que é tolo e passageiro, e deixar só o âmago pulsante da poesia viva. Eu queria poder mostrar só o que realmente vale a pena em mim. Só as melhores músicas. Só palavras verdadeiras, escritas na Língua Antiga.
Mas eu não posso. Na verdade não posso tanto que nem consigo mostrar a reverberação que nossas conversas têm no meu passado. Não posso porque tudo se cobre por um véu de trivialidade. Mas nada é trivial. Nada é. Ouço dedos dançando numa rapsódia húngara, minha vida toda eu procurava sem saber algumas notas de Liszt, mas quando as encontro nos dedos de uma conversa banal eu sei de repende que tudo de vazio que acontece tem um significado profundo nesse mundo abaixo do meu mundo, esse río-abajo-río de mim. Coisas idiotas como uma barata de repente se tornam estranhas e sagradas e assustadoras. O mundo dentro de mim tem constantes revoluções. E eu, que mal as vejo, que as sinto mas não as noto, tão cheios estão meus olhos das mil coisas que vejo sobre o mundo, eu que percorro a vida a contra-pêlo, não posso ser uma boa guia para essa viagem.
Eu queria poder ir além disso. Ir aos melhores filmes e aos melhores livros. Construir um templo que revele quem eu deveria ser respeitosamente. Dançar como dedos no início da Sonata ao Luar. Deslizar sobre uma paisagem de inverno. Haver comunicação verdadeira entre eu e você. Trocarmos os nomes dos nossos amantes junto com passagens de Cortázar. Queria chegar mais perto da magia de tudo isso.
Queria chegar com você ao lugar de La Loba.
quinta-feira, 16 de julho de 2009
Again?
Just because I'm losing
Doesn't mean I'm lost
Doesn't mean I'll stop
Sobre a história anterior: eu escrevo só porque você lê.
PS para o Charles.:
Quando os velhos de Alanraia morrem, são enterrados num imenso mausoléu subterrâneo sem caixões. Buracos nas sarjetas permitem que entrem nesse mausoléu água, sol e pessoas distraídas. O mausoléu assim se torna um grande jardim subterrâneo, cheio de plantas escuras, fungos e outras criaturas. O solo de Alanraia, construída sobre esse campo imenso, é o que há de mais sagrado para os Alanreses. Os jovens de Alanraia, quando morrem, são queimados até que só reste o pó, e o pó é soprado sobre um bando de pássaros migratórios, para que seja levado para outra parte do mundo.
domingo, 5 de julho de 2009
Esquecer
Porque vivia em Alanraia, sempre soubera que um dia ficaria velho e precisaria partir. Quando a idade certa chegou, deixou suas coisas e foi. A partir daquele dia não teria mais nome. Seria um peregrino cuja terra prometida era também o ponto de partida. Trinta anos na estrada. Em Alanraia fora general e senador, e respeitado por todos os conterrâneos. Começara como chefe de guarda na periferia da cidade e ganhara uma tropeta após capturar todos os bandidos da região próxima. Trabalhara por um ano capturando bandidos em terra antes de começar a lidar com os piratas. Comprara do capitão do porto seus primeiro navio por uma picanha, quinhentos luares e cinco barris de cerveja. Três meses depois, já conhecido até em outros mares, conseguira seu segundo navio, sem picanha, mil e duzentos luares. Armou uma arapuca para os bandidos das águas que lhe valeu sua própria frota com cinco galeões e os melhores canhões da cidade. Seus homens o amavam porque alguns estavam com ele desde o início e porque ele sempre exigia deles exatamente o melhor que poderiam lhe dar. Em cinco anos, comandando quarenta navios, capturara Scarânia, antiga Levante, cobrira suas leoas de piche e lhe rebatizara Alanteni(o Pátio). Nessa batalha, aquela cujos detalhes se tornariam parte de todos os seus sonhos até o fim de sua vida, nessa batalha perfeita fora ferido na perna e conseqüentemente afastado dos seus serviços. Em Alanraia nenhum soldado ficava afastado de casa por mais de seis meses, mas dois anos inteiros na cidade era mais que qualquer marujo poderia esperar. A fama ou a confiança lhe dera assim que pisara em terra a cadeira de senador. Como senador fora justo, mas não fizera nenhuma proposta. Ou talvez seria melhor dizer que nos dois anos em que servira à cidade como senador, não fizera nenhuma lei, nenhuma reforma, mas julgara as propostas dos outros e os argumentos que ouvia com coragem e justiça, sem nunca perder de vista o benefício total à cidade. Porém, mal a perna se recuperara totalmente, já estava de novo nos mares, reformando as regras da marinha, se livrando de novos piratas; além disso recapturara Levante e desta vez dera-lhe o nome de Alanfera(a Morte). Partindo de Alanfera acuara os defensores da cidade, capturara o capitão B. Leão e o trocara por 34 prisioneiros de guerra num opressivo acordo de rendição. Fizera de Anlanfera sua base, e vivera nela por cinco anos, estendendo um exército sobre a terra como havia estendido um sobre o mar. Passava em Alanraia apenas uma semana por ano, em duas viagens apressadas, para abraçar suas filhas e beijar sua terra vermelha pedindo a bênção dos seus. Em Alanfera era sempre revoltas e carnavais, festas e rebeliões. A pantera de piche porém já nem era mais chamada de leoa. Seu exército continuava vencendo batalhas. Sua cidade tinha muito do que se orgulhar. E esse foi o fim da história.
Porque sempre vivera por Alanraia, sempre soubera o dia em que ficaria velho e teria de partir. Quando esse dia chegou, como chegava para todos, saudou seus companheiros na cidade, abraçou todos o que respeitava, caminhou pelos pátios nos quais brincara em criança, e embarcou num veleiro branco para Alanfera. Seus coronéis fizeram-lhe uma homenagem, seus soldados por toda a cidade se perfilavam à sua passagem. Numa última reunião de conselho apontou seu sucessor no posto e fizeram uma festa. Então tudo acabou. Saiu da festa sem uniforme, vestido como um dos civis daquela cidade que era tão diferente do que queria que fosse. Nenhum soldado raso ou oficial sequer olhou para ele. A partir daquele dia estava morto; não tinha nome, não tinha patente, ninguém o conhecia. Quando caminhou até o porto, era como se fosse um fantasma. Quando o veleiro branco estendeu suas velas, era como se fosse invisível. A parte mais difícil de morrer era esquecer da vida que chamara de sua. Enquanto o veleiro branco seguia o vento que não sabia para onde ia, tentava esquecer de todas as suas batalhas. Só estaria realmente livre quando não houvessem mais pronomes possessivos. Temia perder a noção do tempo, temia esquecer também de onde viera e para onde ia; o veleiro branco não tinha biruta mas tinha um relógio que marcava o tempo ao contrário e uma bússola que não apontava para o norte. E seguia para o mar do esquecimento, que também se chamava o mar da memória.
Dali a trinta anos chegaria a Alanraia apenas um peregrino. Ele diria que viera seguindo uma bússola louca e um relógio que marcaria zero. Ele contaria sonhos estranhos, histórias antigas cujos heróis pareceriam não ter nome. Ele contaria para as crianças assustadas de uma cidade que se chamava Morte, e que talvez existisse, em algum lugar. A maior parte de suas histórias seria maravilhosa, coisa de terras estranhas, de mundos estranhos, coisas que as pessoas da cidade mal poderiam imaginar.
Os peregrinos, os velhos, são bem recebidos em Alanraia. Eles recebem casa, comida, e o direito de andar livremente por onde quiserem. São consultados por todos os cidadãos em busca de conselhos ou presságios. Além disso, nunca deixam a cidade. Se tornam parte dela, como as ruas e as casas. Quando são questionados a respeito de sua vida pregressa, respondem quase sempre que acabaram de nascer.
Porque sempre vivera por Alanraia, sempre soubera o dia em que ficaria velho e teria de partir. Quando esse dia chegou, como chegava para todos, saudou seus companheiros na cidade, abraçou todos o que respeitava, caminhou pelos pátios nos quais brincara em criança, e embarcou num veleiro branco para Alanfera. Seus coronéis fizeram-lhe uma homenagem, seus soldados por toda a cidade se perfilavam à sua passagem. Numa última reunião de conselho apontou seu sucessor no posto e fizeram uma festa. Então tudo acabou. Saiu da festa sem uniforme, vestido como um dos civis daquela cidade que era tão diferente do que queria que fosse. Nenhum soldado raso ou oficial sequer olhou para ele. A partir daquele dia estava morto; não tinha nome, não tinha patente, ninguém o conhecia. Quando caminhou até o porto, era como se fosse um fantasma. Quando o veleiro branco estendeu suas velas, era como se fosse invisível. A parte mais difícil de morrer era esquecer da vida que chamara de sua. Enquanto o veleiro branco seguia o vento que não sabia para onde ia, tentava esquecer de todas as suas batalhas. Só estaria realmente livre quando não houvessem mais pronomes possessivos. Temia perder a noção do tempo, temia esquecer também de onde viera e para onde ia; o veleiro branco não tinha biruta mas tinha um relógio que marcava o tempo ao contrário e uma bússola que não apontava para o norte. E seguia para o mar do esquecimento, que também se chamava o mar da memória.
Dali a trinta anos chegaria a Alanraia apenas um peregrino. Ele diria que viera seguindo uma bússola louca e um relógio que marcaria zero. Ele contaria sonhos estranhos, histórias antigas cujos heróis pareceriam não ter nome. Ele contaria para as crianças assustadas de uma cidade que se chamava Morte, e que talvez existisse, em algum lugar. A maior parte de suas histórias seria maravilhosa, coisa de terras estranhas, de mundos estranhos, coisas que as pessoas da cidade mal poderiam imaginar.
Os peregrinos, os velhos, são bem recebidos em Alanraia. Eles recebem casa, comida, e o direito de andar livremente por onde quiserem. São consultados por todos os cidadãos em busca de conselhos ou presságios. Além disso, nunca deixam a cidade. Se tornam parte dela, como as ruas e as casas. Quando são questionados a respeito de sua vida pregressa, respondem quase sempre que acabaram de nascer.
quinta-feira, 28 de maio de 2009
E essas coisas
Eu me pergunto o que estou fazendo aqui. Esperando o próximo fim de semana, a próxima aventura trivial num mundo extremamente mágico; o próximo beijo. Quem sabe se fechar os olhos haverão dragões. Os dragões estão todos mortos neste mundo. Mas quem sabe, se eu andar e andar e andar, eu consiga chegar num lugar onde há dragões. Balanço a cabeça e me concentro na próxima tarefa. Mas minha mente cheia de perguntas não se concentra em nada. Os dragões estão mortos neste mundo, e sinto tremenda saudade de haverem dragões.
E sigo: tento lembrar quem eu era, ter qualquer lembrança, qualquer vislumbre, mas a lida te endurece e rareia o cabelo e avermelha a pele e antes que tomemos conta estamos velhos — velhos como macaco velho, sabidos, antigos e maus. Se passar tempo demais, pode acontecer, morremos. Se passar tempo demais viramos poeira por dentro. Agora mesmo estou cuspindo fuligem. Agora mesmo estou procurando ajuda, e não vejo ninguém.
Deve ser assim que os velhos se sentem, sozinhos, quando todos os seus amigos estão mortos ou senis. Deve ser assim que se sentem rodeados por crianças que sabem tudo e por um mundo que não compreendem. Como um estrangeiro, como um prisioneiro, sonhando de noite e de dia com aquela casa enorme da sua infância. Eu também tenho uma casa enorme na minha infância. E eu sinto tanta saudade daquela casa...
Parece que todos os meus amigos estão mortos, só que quem foi embora fui eu. Eu não vejo casa vazia, eu não vejo casa nenhuma. As coisas que eu faço, as tarefas, as perquisas, eu sou como aquele empregado que detesta seu trabalho e trabalha pra sobreviver. Eu nunca sei por onde começar, cada vez mais eu não entendo nada, eu procuro, eu preciso de ajuda, estou cansada de estar sempre sozinha. Mas quem sabe não estamos sempre sozinhos o tempo todo, e apenas eu não perceba porque eu sou eu e vejo apenas através de meus próprios olhos. Estou tão cansada de nada nunca dar certo.
Estou como que lutando uma guerra em terra estranha, não posso voltar enquanto não vencermos, não posso abandonar essa batalha; morrer seria mais honroso; quero voltar para casa, nunca mais estive em casa, sinto falta de tudo lá, e lá sempre haverá dragões... Como tenho mêdo! Tenho mêdo de não poder voltar, tenho mêdo de lutar para sempre; e se a guerra nunca acabar? As pessoas aqui são estranhas, mas aos poucos vou fazendo amigos. Aos poucos, muito, muito devagar, eles vão entendendo que sou ao mesmo tempo como eles e completamente diferente. Aos poucos também vou pegando a manha deste modo de vida, quando não estou gritando de desespero no meu quarto, vou entendendo as sutilezas e as belezas desta terra, e vou me tornando eles, mais e mais. Quando voltar para casa quem sabe eu terei habilidades úteis para emprestar aos meus conterrâneos. Ou será que ao voltar para casa, minha mudança terá sido tamanha que mesmo lá serei apenas diferente?
Olho para trás, o caminho de casa não existe, eu haverei de andar por léguas sem fim em busca desse lugar sagrado, eu andarei o mundo à procura de mim. É preciso que o tempo dure pra sempre para que eu possa encontrar meu lugar. De onde eu venho, existem pessoas que vivem para sempre. Assim eu poderia ver tudo, encontrar tudo, eu quero conhecer tudo e estar em todos os lugares. De onde eu venho, é esse o sonho de todas as crianças. As crianças crescem para viver assim.
Aqui, não, aqui somos todos guerreiros, não posso me distrair com bobagens porque ainda tenho muito o que aprender para poder lutar bem. Essa guerra é a minha vida. Aos poucos vou começando a entender que a vida é assim mesmo, que é aqui que vivemos, que é isto o que fazemos; aos poucos vou esquecendo de anotar o caminho de casa, aos poucos vou me afastando mais e mais e mais. Depois daqui, para onde será que eu vou? O mundo é imenso, e eu não tenho mais casa, eu devo percorrer o mundo inteiro, é isso que eu sou.
Eu sinto que estou perdendo tempo. Acho que estou atrasada. Vejo meus colegas fazendo projetos, pesquisas, participando de concursos, trabalhando. Eu não posso fazer nada disso, eu me dedico inteiramente a esta guerra. Esta guerra é a minha vida. Contra quem estamos lutando? Pelo quê estamos lutando? Eu não pergunto nada, apenas sigo as ordens. Eu não posso desistir da minha batalha. Mesmo se eu nunca vencer, continuarei lutando, continuarei tentando, até que seja o fim de tudo. De nós. Mas se eu não viver para sempre, enquanto eu estou nesta guerra eu estou para sempre morta. Tenho medo de um dia estar velha e cometer suicídio. Tenho medo de um dia ficar inconsciente.
Outra coisa de que tenho mêdo é de nunca encontrar o caminho de casa...
E sigo: tento lembrar quem eu era, ter qualquer lembrança, qualquer vislumbre, mas a lida te endurece e rareia o cabelo e avermelha a pele e antes que tomemos conta estamos velhos — velhos como macaco velho, sabidos, antigos e maus. Se passar tempo demais, pode acontecer, morremos. Se passar tempo demais viramos poeira por dentro. Agora mesmo estou cuspindo fuligem. Agora mesmo estou procurando ajuda, e não vejo ninguém.
Deve ser assim que os velhos se sentem, sozinhos, quando todos os seus amigos estão mortos ou senis. Deve ser assim que se sentem rodeados por crianças que sabem tudo e por um mundo que não compreendem. Como um estrangeiro, como um prisioneiro, sonhando de noite e de dia com aquela casa enorme da sua infância. Eu também tenho uma casa enorme na minha infância. E eu sinto tanta saudade daquela casa...
Parece que todos os meus amigos estão mortos, só que quem foi embora fui eu. Eu não vejo casa vazia, eu não vejo casa nenhuma. As coisas que eu faço, as tarefas, as perquisas, eu sou como aquele empregado que detesta seu trabalho e trabalha pra sobreviver. Eu nunca sei por onde começar, cada vez mais eu não entendo nada, eu procuro, eu preciso de ajuda, estou cansada de estar sempre sozinha. Mas quem sabe não estamos sempre sozinhos o tempo todo, e apenas eu não perceba porque eu sou eu e vejo apenas através de meus próprios olhos. Estou tão cansada de nada nunca dar certo.
Estou como que lutando uma guerra em terra estranha, não posso voltar enquanto não vencermos, não posso abandonar essa batalha; morrer seria mais honroso; quero voltar para casa, nunca mais estive em casa, sinto falta de tudo lá, e lá sempre haverá dragões... Como tenho mêdo! Tenho mêdo de não poder voltar, tenho mêdo de lutar para sempre; e se a guerra nunca acabar? As pessoas aqui são estranhas, mas aos poucos vou fazendo amigos. Aos poucos, muito, muito devagar, eles vão entendendo que sou ao mesmo tempo como eles e completamente diferente. Aos poucos também vou pegando a manha deste modo de vida, quando não estou gritando de desespero no meu quarto, vou entendendo as sutilezas e as belezas desta terra, e vou me tornando eles, mais e mais. Quando voltar para casa quem sabe eu terei habilidades úteis para emprestar aos meus conterrâneos. Ou será que ao voltar para casa, minha mudança terá sido tamanha que mesmo lá serei apenas diferente?
Olho para trás, o caminho de casa não existe, eu haverei de andar por léguas sem fim em busca desse lugar sagrado, eu andarei o mundo à procura de mim. É preciso que o tempo dure pra sempre para que eu possa encontrar meu lugar. De onde eu venho, existem pessoas que vivem para sempre. Assim eu poderia ver tudo, encontrar tudo, eu quero conhecer tudo e estar em todos os lugares. De onde eu venho, é esse o sonho de todas as crianças. As crianças crescem para viver assim.
Aqui, não, aqui somos todos guerreiros, não posso me distrair com bobagens porque ainda tenho muito o que aprender para poder lutar bem. Essa guerra é a minha vida. Aos poucos vou começando a entender que a vida é assim mesmo, que é aqui que vivemos, que é isto o que fazemos; aos poucos vou esquecendo de anotar o caminho de casa, aos poucos vou me afastando mais e mais e mais. Depois daqui, para onde será que eu vou? O mundo é imenso, e eu não tenho mais casa, eu devo percorrer o mundo inteiro, é isso que eu sou.
Eu sinto que estou perdendo tempo. Acho que estou atrasada. Vejo meus colegas fazendo projetos, pesquisas, participando de concursos, trabalhando. Eu não posso fazer nada disso, eu me dedico inteiramente a esta guerra. Esta guerra é a minha vida. Contra quem estamos lutando? Pelo quê estamos lutando? Eu não pergunto nada, apenas sigo as ordens. Eu não posso desistir da minha batalha. Mesmo se eu nunca vencer, continuarei lutando, continuarei tentando, até que seja o fim de tudo. De nós. Mas se eu não viver para sempre, enquanto eu estou nesta guerra eu estou para sempre morta. Tenho medo de um dia estar velha e cometer suicídio. Tenho medo de um dia ficar inconsciente.
Outra coisa de que tenho mêdo é de nunca encontrar o caminho de casa...
quarta-feira, 8 de outubro de 2008
Reencontro
Aos meus melhores amigos.
O tempo, em minhas mãos, é uma serpente alada. Ela me leva e me mostra o fim do universo. Eu sou apenas criança.
Já fui grande, depois pequena — hoje sou deusa.
Já fui guerreira, estudante, artista — hoje sou mulher.
Já fui adulta, adolescente, velha — hoje sou, enfim, criança.
Como esperei por isso! Por ser jovem e ser eu! Como lutei contra mim!
Pois não estou mais num poço. Os poços se desfizeram como se nunca houvessem existido. Agora o mundo se torna infinito. Agora o universo se dissolve! Como sonhei com isso.
Chegamos ao fim e ao começo, onde todas as portas se abrem. Os demônios que me perseguiram até aqui, os demônios param e olham. Nada é o mesmo, e as metáforas lentamente perdem seu sentido. Sólido se torna líqüido e líqüido se torna luz! Eu enfim abandono e retorno, com um único passo, ao meu lugar de origem dentro de mim. Os cervos levantam suas cabeças e olham. Os dragões levantam as pálpebras e olham. Balthazar levanta a ponta de seu chapéu. O Róque levanta uma pena de sua asa. O Sonho infla suas velas negras. O mundo pára e recomeça. Não pensemos mais em poços. Eu sou, outra vez, o vento. Voltemos a cantar como quando éramos crianças. Tudo o que um dia nos feriu, agora é só um espinho caído no chão da vida. Sob nossas pegadas. Nós, não.
Não sei explicar o canto que enche meu peito. O que fiz, o que houve para que eu perdesse o mêdo. Não sou mais eu, somos todos. O universo parece mais alegre. O universo nasce ao meu redor. Estou tudo de novo. Tudo sempre. Infinito.
Cheguei a pensar em muros, em reviver velhas dores, mas tudo perde o sentido. Não há mais muros, nem cercas, nem qualquer um desses objetos metaforicamente limitantes. Estamos livres? Ou éramos livres desde o primeiro instante?
Não sei, mas eu também me sinto como a terra. Também me sinto velha e verdadeira. Parece que não sei nada, e tudo está ao alcance das mãos. O universo urra como uma besta, e eu urro de volta em resposta ao desafio. Sempre achei que eu ia viver pra sempre, mas agora suspeito que também possa viver feliz.
Vamos viver uma grande aventura?!
,
amor,
Marina.
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