domingo, 5 de julho de 2009

Esquecer

Porque vivia em Alanraia, sempre soubera que um dia ficaria velho e precisaria partir. Quando a idade certa chegou, deixou suas coisas e foi. A partir daquele dia não teria mais nome. Seria um peregrino cuja terra prometida era também o ponto de partida. Trinta anos na estrada. Em Alanraia fora general e senador, e respeitado por todos os conterrâneos. Começara como chefe de guarda na periferia da cidade e ganhara uma tropeta após capturar todos os bandidos da região próxima. Trabalhara por um ano capturando bandidos em terra antes de começar a lidar com os piratas. Comprara do capitão do porto seus primeiro navio por uma picanha, quinhentos luares e cinco barris de cerveja. Três meses depois, já conhecido até em outros mares, conseguira seu segundo navio, sem picanha, mil e duzentos luares. Armou uma arapuca para os bandidos das águas que lhe valeu sua própria frota com cinco galeões e os melhores canhões da cidade. Seus homens o amavam porque alguns estavam com ele desde o início e porque ele sempre exigia deles exatamente o melhor que poderiam lhe dar. Em cinco anos, comandando quarenta navios, capturara Scarânia, antiga Levante, cobrira suas leoas de piche e lhe rebatizara Alanteni(o Pátio). Nessa batalha, aquela cujos detalhes se tornariam parte de todos os seus sonhos até o fim de sua vida, nessa batalha perfeita fora ferido na perna e conseqüentemente afastado dos seus serviços. Em Alanraia nenhum soldado ficava afastado de casa por mais de seis meses, mas dois anos inteiros na cidade era mais que qualquer marujo poderia esperar. A fama ou a confiança lhe dera assim que pisara em terra a cadeira de senador. Como senador fora justo, mas não fizera nenhuma proposta. Ou talvez seria melhor dizer que nos dois anos em que servira à cidade como senador, não fizera nenhuma lei, nenhuma reforma, mas julgara as propostas dos outros e os argumentos que ouvia com coragem e justiça, sem nunca perder de vista o benefício total à cidade. Porém, mal a perna se recuperara totalmente, já estava de novo nos mares, reformando as regras da marinha, se livrando de novos piratas; além disso recapturara Levante e desta vez dera-lhe o nome de Alanfera(a Morte). Partindo de Alanfera acuara os defensores da cidade, capturara o capitão B. Leão e o trocara por 34 prisioneiros de guerra num opressivo acordo de rendição. Fizera de Anlanfera sua base, e vivera nela por cinco anos, estendendo um exército sobre a terra como havia estendido um sobre o mar. Passava em Alanraia apenas uma semana por ano, em duas viagens apressadas, para abraçar suas filhas e beijar sua terra vermelha pedindo a bênção dos seus. Em Alanfera era sempre revoltas e carnavais, festas e rebeliões. A pantera de piche porém já nem era mais chamada de leoa. Seu exército continuava vencendo batalhas. Sua cidade tinha muito do que se orgulhar. E esse foi o fim da história.

Porque sempre vivera por Alanraia, sempre soubera o dia em que ficaria velho e teria de partir. Quando esse dia chegou, como chegava para todos, saudou seus companheiros na cidade, abraçou todos o que respeitava, caminhou pelos pátios nos quais brincara em criança, e embarcou num veleiro branco para Alanfera. Seus coronéis fizeram-lhe uma homenagem, seus soldados por toda a cidade se perfilavam à sua passagem. Numa última reunião de conselho apontou seu sucessor no posto e fizeram uma festa. Então tudo acabou. Saiu da festa sem uniforme, vestido como um dos civis daquela cidade que era tão diferente do que queria que fosse. Nenhum soldado raso ou oficial sequer olhou para ele. A partir daquele dia estava morto; não tinha nome, não tinha patente, ninguém o conhecia. Quando caminhou até o porto, era como se fosse um fantasma. Quando o veleiro branco estendeu suas velas, era como se fosse invisível. A parte mais difícil de morrer era esquecer da vida que chamara de sua. Enquanto o veleiro branco seguia o vento que não sabia para onde ia, tentava esquecer de todas as suas batalhas. Só estaria realmente livre quando não houvessem mais pronomes possessivos. Temia perder a noção do tempo, temia esquecer também de onde viera e para onde ia; o veleiro branco não tinha biruta mas tinha um relógio que marcava o tempo ao contrário e uma bússola que não apontava para o norte. E seguia para o mar do esquecimento, que também se chamava o mar da memória.
Dali a trinta anos chegaria a Alanraia apenas um peregrino. Ele diria que viera seguindo uma bússola louca e um relógio que marcaria zero. Ele contaria sonhos estranhos, histórias antigas cujos heróis pareceriam não ter nome. Ele contaria para as crianças assustadas de uma cidade que se chamava Morte, e que talvez existisse, em algum lugar. A maior parte de suas histórias seria maravilhosa, coisa de terras estranhas, de mundos estranhos, coisas que as pessoas da cidade mal poderiam imaginar.
Os peregrinos, os velhos, são bem recebidos em Alanraia. Eles recebem casa, comida, e o direito de andar livremente por onde quiserem. São consultados por todos os cidadãos em busca de conselhos ou presságios. Além disso, nunca deixam a cidade. Se tornam parte dela, como as ruas e as casas. Quando são questionados a respeito de sua vida pregressa, respondem quase sempre que acabaram de nascer.

Um comentário:

Charles B. disse...

E os pereginos eventualmente morrem? Ou em Alanraia a Morte é somente uma cidade além do mar do esquecimento?

Gostei da pantera de piche.