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quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Aqui

("aqui, na escuridão que me cobre como um túmulo, eu conto esta história")

Achei que era apropriado começar com uma citação da peça de teatro (A Morte Trágica de Dois Amantes Muito Infelizes Que Morreram Um de Veneno e o Outro de Dor, Com Vários Incidentes, ou Romeu e Julieta) que nós apresentamos em 2004. Ah, 2004, quinze anos, estar apaixonada. Acho prazeroso estar apaixonada, e com quinze anos isso parecia natural, descomplicado, simples, até o momento em que eu me apaixonei por três pessoas ao mesmo tempo, um com namorada, um gay, um que morria de ciúmes do meu amor pelos outros dois. Vida difícil essa. Essa parte não mudou nada. No fim eu namorei o que tinha namorada, depois com o que não tinha, depois terminei com esse também e decidi não namorar nunca mais, mas meus planos foram impedidos pela existência mágica dos namoros abertos e pela minha incapacidade de não me apaixonar (infelizmente nunca namorei com o que era gay, acho que teria sido o mais feliz dos três namoros).

Ultimamente eu tenho achado tudo muito estranho, e quando eu fico pensativa eu sempre me volto para o passado. Hoje por exemplo sonhei que era colega de classe da Kiki, minha, ahm, melhor amiga de ginásio, uma líder natural forte e decidida e da qual eu nunca soube nenhum dos mêdos e desejos mais profundos. No meu sonho (como, na verdade, na realidade) eu era uma péssima aluna e ficava brincando com ela em vez de fazer a tarefa, e evidentemente quando eu ia fazer a tarefa era tarde demais. Por favor, seja mais explícito, sonho.

Nos últimos treze ou quatorze meses eu não tenho sabido direito quem eu sou. E ao mesmo tempo eu finalmente tenho entendido quem eu sou.

No começo foi confuso e doloroso, meus sentimentos me jogaram de um lado pro outro, eu senti ciúmes, ódio, repulsa, eu dei patadas no meu melhor amigo, eu quis sacanear meu irmão, eu me contive e fui fazer sexo com outra menina, mas logo depois eu já não queria mais seus beijos. Eu fui horrível, eu peço desculpas. Eu queria que eles parassem de ser tão homens, tão bonitos, eu super não sei lidar com gente que é competição mas não é presa. O foda dessa vida gay que eu tenho é que essas pessoas que são só competição são raras, e eu não aprendo a lidar. Fico me perguntando se ser hétero não é um sofrimento constante, competindo o tempo todo, tendo raiva e ciúmes. Eu lembro vagamente do quanto eu amava mais as meninas que queriam ficar com meus homens, just in case, acho que é uma defesa contra a guerra. Sisterhoods e brotherhoods, mas nunca uma siblinghood. Mas é muito mais fácil simplesmente chamá-las junto.

Este vai ser um daqueles textos dos quais eu me envergonho depois de uns meses, aposto.

Estou tomando café só pra conseguir escrever.

Enfim, competir com homens é muito difícil. Eu posso até ser mais bonita que o cara, mas, sabe, ele tem músculos, barba, pica. Não tem muito o que eu possa fazer contra uma pica. O que nos leva de volta ao assunto original do post (na minha cabeça) que é o fato de que eu realmente curto mina hétero. Não minazinha Pat, cabelo comprido e sombra, shortinho, bronzeado e luzes, mas mina macho, de coxa grossa, piercing, dessas que usa coturno com saia, tatuada, que anda de bike, que pega todo mundo, que dança rock pesado e veste sobretudo rasgado, que pinta o corpo, que é brother, que bebe, que manda, feminista, que entende das coisas que entende, que faz arte, que corta o próprio cabelo, que me pega. Mas essencialmente HT. Eu fico meio perdida com lésbicas (e aqui eu estou sendo reducionista, estou dividindo as pessoas entre as que pegam mais homem e as que pegam mais mulher). Pra falar a verdade às vezes eu vejo uma lésbica e penso "mas ela é lésbica, não vai querer ficar comigo". Acho que me perturba o fato de que mulher lésbica de fato gosta de mim como mulher. Mulher ht me pega como se eu fosse um cara, me faz me sentir um cara (enquanto eu elaboro este argumento eu estou de tênis de trilha e calça jeans, sem camisa, eu tenho cabelo curto, 1,58m, e me pergunto se eu sou mesmo diferente do meu irmão), especialmente quando elas parecem não saber muito bem o que fazer com uma mulher, mas ainda assim conseguem me pegar como, sei lá, como pessoa. Mulher lésbica às vezes é feminina demais, me perturba. Me deixa confusa. Me faz me sentir inexperiente, também, talvez isso seja um fator relevante. Talvez tudo seja uma ego-trip gigante. Mas.

Enfim, agora me desçam sua psicologia barata (ou cara, tanto faz).

Mulher que se dá bem com mulher sempre me deixa desconfortável, me faz me sentir menos mulher, menos homem também, menos tudo. Por que a vida é sempre uma competição idiota? Eu me sinto espremida no meio, não sou homem o suficiente pras hétero, não sou lésbica o suficiente pras lésbicas, de vez em quando rola, mas minha cabeça fica cheia de caraminholas. Eu visualizo a sua cara meio que rindo das minha dúvidas adolescentes. Mas você é homem, e eu não tenho grilo com homem, um homem como você não tem grilo, eu nem espero que você entenda por que eu penso essas bobagens.

Às vezes eu penso em mudar de sexo. Queria compartilhar isso aqui. Eu nunca vou fazer, eu acho, mas está constantemente na minha cabeça. Ao mesmo tempo eu não queria de verdade ser homem, ter toda essa auto-confiança excessiva ou esse excesso de auto-piedade que quase todos os homens que eu conheço têm. Eu sou mais bem resolvida que isso. Ainda assim, eu sinto prazer em fazer tudo o que eu puder pra ficar mais masculina. E no dia seguinte usar saia curta e brincos, pork; pork se eu fosse homem eu certamente iria me travestir, pork. Eu lembro de quando eu cortei o cabelo, vesti os brincos e por um momento me achei um transgender me travestindo (depois passou). Eu queria ser mais andrógina, assim como você, Lo. Eu achei tão incrível rolar com você e não saber quais de nós eram homens ou mulheres. Eu queria ter ficado nesse estágio, sentindo essa libertação fantástica. Da próxima vez, quem sabe. Eu não penso em você como um homem, not really. Eu só penso em você como você. Mrrrr.

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Putaria e outras punhetarias

Eu aqui ouvindo The National e quase gozando nas calças.
Eu em geral paro de falar essas coisas uma ou duas semanas depois de encontrar você. Mas hoje tá foda. Eu passei o dia inteiro fechando os olhos e mordendo a língua, visualizando em vez seus dentes mordendo a sua língua, os lábios entreabertos, seus olhos fechando e o ar saindo numa leve lufada de dentro dessa boca. Putaqueopariu. Eu repito seus movimentos, os olhos fechando, o levantar ligeiramente o canto dos lábios, o morder a língua, eu lembro do seu olhar quando eu perguntei se você não gostava e rio tudo de novo, deliciada. Estranho como eu repito você como se repetir você fosse, sei lá, te imprimir na minha pele, a tua boca sobre a minha boca como uma tatuagem mascarada com silk. Assim mesmo. De preferência com nossas línguas se lambendo, bem devagarinho, minha lingua molhando seus lábios de saliva, e aquilo tudo o que acontece em volta disso. Eu aqui ouvindo The National e quase me apaixonando. A voz desse cara é um tesão. Canta desse jeito pra mim a qualquer momento que eu te amarro na parede e te fodo até você dizer chega. E verdade seja dita, eu sou capaz de te comer até você dizer chega. Eu sou capaz de muita coisa, quando parece preciso. E agora parece preciso parar de pensar em você... mas não agora-agora. Deixa eu saborear este momento mais um pouquinho.

Hoje passou uma garota no metrô e nós dois viramos a cabeça para olhá-la. Cabelo curto e loiro, baixinha e magrela, levando uma bicicleta, camiseta rasgada nos ombros, tatuagem, seios pequenos, puta vontade de roçar o nariz muito levemente nesses seios lindos e sentir o cheiro dela, colocar uma mão encaixada como uma meia-taça em volta de um seio delicado, colocar a mão no abdomen dela e abrir sua roupa como aquele filho da puta em Paprika; eu não devia estar pensando em sexo com uma garota que eu vi na rua, mas ela era tão não tão linda mas tão interessante e atraente de um jeito que dava vontade de chamá-la prum café, ou pruma balada, vontadezinha de não ter pudor nenhum nessas horas e só me aproximar da pessoa e falar que você parece ser o máximo, mas mêdo também, mêdo demais de ela não querer receber o meu olhar, de ela não querer falar comigo pork, dela estar pouco se fudendo para o que eu acho dela, porque ela não precisa de ninguém falando merda pra ela no metrô quando ela está atrasada com a bicicleta, e eu nem tinha tempo mesmo. É muito confuso pra mim, sempre foi, na minha ânsia louca de nunca ser um babaca, eu acabo sendo uma pessoa meio tímida. Aliás, falando em babacas, você ainda tem o contato daquele brother pra pedir pra apagar alguém sem estardalhaço? É que eu preciso urgentemente me livrar de um colega - nunca antes eu tinha conhecido alguém e imediatamente querido matar essa pessoa. Odeio lidar com gente escrota, fico sem jeito e acabo rindo e não fazendo nada, mas o que eu queria mesmo era amarrá-lo nu num buraco e fazer uma vibe meio negrinho do pastoreio, tem muita saúva por aqui acho que dá pra fazer um trabalho bem feito.

Chega de pensamento ruim, cansei.

Eu fecho os olhos e por um momento penso em dormir no seu ombro, que idéia idiota, não, mas parecia tão gostoso. Eu penso naquele beijo que você me deu na frente de todo mundo, aquilo foi doce, meio que dizendo pra mim "tudo sussa, tudo de boas, estamos entre amigos, eventualmente todo mundo vai saber que você me come", não, péra, acho que não era isso que você estava dizendo. Putaqueopariu, eu acho que eu evolui de biscate pra outright puta, mas você sentiu a mão dele no meu pescoço, aquela perna gostosa ao alcance da pata, saca do que eu tô falando? Não sei se você saca, você não sabe nem que quando você me beija desse jeito fofo isso significa imediatamente que ou eu tô te namorando ou eu só to enrolando um pouco pra achar o melhor momento pra trepar com você, porra. Possivelmente os dois. Pelo menos dessa vez todos nós sabemos do que nós estamos falando. Porra.

Eu queria falar mais sobre sexo, amor, trepadas com meus amigos com meus amigos. Eles falam mas eles são umas biscates solteiras e reputáveis, eu só sou essa coisa gostosinha que tem o suficiente pra todo mundo (sério, se tem alguma coisa que tem pra todo mundo, é essa menina). De vez em quando o tempo pára e eu percebo umas coisas idiotas, tipo que minha mão deve estar cheirando a buceta, e penso em sexo. De vez em quando alguma gostosa respira em mim e eu sinto aquele cheiro de boca de mulher e aí fica difícil, difícil mesmo. Às vezes eu só chego perto de você e sinto aquele cheiro que as pessoas soltam quando elas querem deixar a gente louco, e comigo funciona. Eu fico revivendo as coisas, distraidamente. Uns toques. O sol. Uma sensação. Um beijo no pescoço.

Em dúvida entre esquecer de você por duas semanas ou fazer o mais natural e obcecar com você. Obcessão mesmo, eu mordo o lábio e sai da boca um rosnado, eu jogo a cabeça pra trás, eu abro uma mensagem automática que vem com uma foto fofa sua dizendo que é um absurdo a gente não ter trepado pelo menos umas sete vezes (uma vez quando eu te conheci, duas na semana seguinte, uma vez quando eu te reencontrei, pelo menos três na semana passada). E você ainda duvida de mim, me provoca, me dá vontade de te mandar tomar no cu, de lamber seu pescoço quando você tá tentando dormir. E aqui estou eu lambendo seu pescoço e descrevendo a minha língua na sua pele enquanto você tenta dormir. Tentar atrapalhar seu sono é minha nova diversão, junto com todos esses fetiches que eu não sabia que eu tinha mas que você apontou e esclareceu. Você me fez me dar conta da minha vida de um jeito muito forte. Agora eu acho que eu tenho que lidar com isso, porra. Mas não agora, não agora. Agora é hora de sofrer e gemer mais um pouco.

Vou voltar pra cama agora e desistir de te esquecer.

sábado, 8 de setembro de 2012

O Instante Seguinte

Eu devia ter dito "não".
Seria a resposta razoável, a opção sensata, responsável.
Amanhã de manhã haverão conseqüências. Eu me arrependerei. Eu devia ter dito "não".
Mas como?
Você perguntou, perguntou porque não era nada óbvio, porque meus sinais seriam emocionais e apenas com palavras eu poderia falar racionalmente; mas eu devia ter me antecipado, eu deveria ter visto os seus sinais e dito antes, "por favor, não", eu deveria ter dito não faça isso, por mais que meus olhos peçam por favor; não faça isso, por mais que meu corpo exija e se impaciente, não faça isso, porque meu corpo está errado, meu corpo não entende as conseqüências, meu corpo é incapaz de dizer "não".
Eu devia ter dito "não", mas como, com meu corpo gritando "sim"? Mas como, contra todos os sinais do meu corpo? Eu devia ter dito "não", para manter as aparências e evitar as conseqüências das minha ações, eu devia ter dito não e te obrigado a escolher respeitar minha renúncia, eu devia ter dito não para aprender algo novo sobre você. Mas como dizer "não" quando tudo o que eu quero é poder dizer sempre "sim", quando tudo o que eu quero é não precisar manter as aparências, quando o que eu quero mais é que todos descubram, mais cedo ou agora, que não tenho mêdo nenhum das conseqüências, que posso viver a vida sem me arrepender?
Não. É isto que eu quero, isto agora, e não há nenhum motivo pelo qual todos devêssemos dizer não. E eu disse "sim". Sim. Sim. Sim, porra. Amanhã eu vou me olhar no espelho e ser forçada a me lembrar de que eu sou uma pessoa que diz "sim".

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Impressão

Não, não é nem a dor, nem a marca, nem a mordida.

Ou talvez seja.

Você deve lembrar de uma boca de dor que marcou no meu braço, no fim do nosso começo, e de como toda vez que outro alguém me tocava, por cima do toque eu sentia essa dor que lembrava você. Você tinha razão: eu podia tocar outros homens, dançar com eles, beijá-los, até transar com eles, mas minha pele ainda sentiria as marcas dos seus dentes em cada lugar que eles me beijassem, e na manhã seguinte eles seriam apenas uma lembrança doce, enquanto nas nossas manhãs seguintes você era sempre uma marca presente e um desejo, imediato, de que as marcas não perdessem seu ardor antes da próxima vez que nos tocássemos. Eu tivera outros homens, outras bocas, outras mordidas mais doces, até mais prazerosas - e entretanto, cada vez que uma nova boca me morde a ponto de doer, eu penso naquela marca de dor que seus dentes cravaram em mim, me fazendo sua. Talvez por isso, novas marcas perderam seu significado, e novas bocas mal são capazes de me marcar.

Não é também a selvageria, a violência e a predação. Ou talvez seja.

Antes de você eu rosnava e mordia e brincava de gato selvagem, eu rolava na lama e derrubava no chão, eu corria e caçava e era caçada, eu me tornava bicho e uivava na noite. Mas você é tão humano e tão tranqüilo, e eu nunca o vi como uma presa. Não; você me conquistou com palavras, com idéias, com idéias sensatas e concretas, sem metáforas, sem garras, sem caçada. E eu não rosnei pra você, não corri com você, não levei você para explorar as florestas amaldiçoadas e as torres secretas das minhas paragens internas. Muito pouco deixei conhecer - meu sorriso, meu corpo, minhas idéias, meus dentes -- mas não minhas presas.

Talvez seja a fome. Talvez seja ver revelada a fome na sua forma mais brutal, a fome de engolir sem mastigar, se comer o que ainda pulsa, de não haver controle possível. Mas, pensando bem, a fome é voraz e violenta, e às vezes basta o lento, controlado, tranqüilo, dócil prazer dos seus beijos no meu pescoço. Com freqüência basta o tocar, o acarinhar suavemente. Não é preciso haver dentes - basta que haja toque.

Não - acho que não há metáfora, não há simbolismo por trás, não há longos quadros da mente colorindo a cena, não há necessidade de imaginação. Há apenas tato. Apenas prazer.

O resto é bônus.

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Um Instante

Num instante viro você:

Pernas, pêlos, o cheiro humano de você me completa, a suavidade de você me encanta.
Encantado, ponho meus lábios em você, paseio meus lábios por você, ponho você em minha boca, exploro você com a minha língüa. Sinto a reação de você sentindo a minha língua.
Sinto seu gosto e o gosto de cada pedaço próprio de você. Te mordendo, te experimentando. Sinto que estou te experimentando há sete, oito, nove anos. Mordo sua orelha, mordo sua garganta, passo os lábios por seu cabelo, por sua sobrancelha, entrelaço minhas pernas em você, confundo meu corpo com você.

Abro minha boca sobre você. Enfeitiço você com a minha fome, olho nos olhos seduzidos de você. Sinto o calor de você, o desejo de meu corpo que o cobre, cubro você com meu corpo enorme, abro minhas costelas para engolir você.

Mastigo você, desvagar, com prazer. Interessado, exploro você. Invado você, percorro você, espalho minhas raízes por dentro de você, broto e floreço em você. Cresço em você, e ao longo dos anos você se torna eu. Permaneço em você, e nunca deixo de ser você.

Devoro você, e na hibernação que segue, te esqueço.

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Disruption

I like the eyes of you
When you beckon
I feel the tastes of you
When you kiss
I taste the mouths of you
When you touch
I bite the skins off you
When you scream

Eu me sinto cheia de energia e calor
Foda-se que eu passei os últimos dois dias doente e que estou começando a ficar gripada
Eu me sinto uma lôba de novo, e foda-se tudo o mais

Eu quero dançar
Eu quero voar
Eu quero caçar todas as minhas presas

I am the night wolf
Hear me howl
Hear me snarl
Make me purr

I smell the yearns of you
When you

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Cinqüenta Presas

"Mas jamais poderei esquecer de uma sensação – ao vê-lo fumando nu na janela, pensei: 'quero de novo. E de novo. E de novo'." - Letícia



Estive lendo o blog da @sexocomletícia, www.cemhomens.com/, e me divertindo com nossas semelhanças e diferenças de visão de mundo, com as experiências interessantes que ela tem para compartilhar, e com os pensamentos também. Às vezes uma ou outra afliçãozinha de não me sentir parte do mesmo mundo que ela, mas isso passa. A Letícia é mais uma das mulheres divertidas que a Pretzel me mostrou na internet. O que me faz pensar que eu devo ter muito em comum com a Pretzel. E quando eu estava fazendo estágio e tinha que aturar aquele papo de homem de escritório (não quero realmente generalizar, mas criei muitos preconceitos contra o mundo das empresas) essas mulheres me permitiam acreditar que eu não estava sozinha num mundo hostil que nos odeia e nem se dá conta disso. Elas, e os protestos a favor do casamento gay.

A verdade é que eu gosto de uma vida divertida, livre e pessoal, digo, personalizada, e gosto que ela seja de um jeito particular que não é totalmente padrão e que é totalmente contra algumas das nossas intituições morais e aquilo que a gente finge ser quando conversa com as nossas tias (felizmente eu tenho uma família bem tranqüila, mas ainda tem uma porção de coisas que acho que nunca vou compartilhar tranqüilamente com alguns membros dela). E eu me encontro muito com algumas das coisas que a Letícia diz. Chego a ficar com uma leve inveja dela. Ultimamente, com a faculdade e o namorado e estágios e família e gatos e o diabo a quatro, não tenho tido muita disponibilidade, tanto de tempo como de espírito, pra viver aventuras assim.

Ultimamente, não tenho nem sabido quem caçar. Todas as pessoas por quem tenho me interessado fervorosamente estão namorando, ou só gostam de homem, ou os dois. Ou eu nunca as vejo. E eu sempre me sinto um pouco envergonhada por reclamar disso enquanto eu tenho um namorado, e depois eu sempre me sinto meio ridícula por me sentir envergonhada por algo que eu já aceitei que faz parte de mim e que eu não quero mudar. Ontem eu estava conversando sobre isso com o Diogo (que é sempre um amigo muito bom quando você precisa compartilhar um segredo) e ele perguntou: "Isso é normal pra você?", e eu disse "sim", e foi isso, estava resolvido. Agora eu só preciso que aquelas pessoas que têm namorado de quem eu estava falando tenham uma visão parecida com a minha.

E tem aquela coisa de esse texto dizer que "Como ainda não conheci nenhum homem que pudesse satisfazer uma mulher que quer “de novo, de novo, e de novo”, o jeito é utilizar os serviços de vários homens. Talvez, até de mais de um ao mesmo tempo".

Mas faz algumas semanas eu me dei conta de que não é só porque você tem um namorado mais ou menos disponível que você tem que fazer sexo todo dia. Eu descobri isso e foi surpreendente porque eu achava que eu já sabia que namoro não era só sexo. Mas parece que não, eu achava que era sim. Aí o André me disse que não era bem assim e eu parei pra pensar e, realmente, tem dias em que tem coisas mais legais pra fazer. Não coisas legais em absoluto, coisas que são legais naquele dia. Sim, ir numa festa louca com todos os seus amigos, rir por doze horas seguidas, é sempre muito legal. Mas tem dias em que coisas banais são mais legais do que sexo, tipo jogar Theme Hospital. Ou consertar a bicicleta. Ou ficar enrolado no sofá vendo TV e jogando Kongregate.

Por outro lado há dias em que todos os meus pensamentos levam a sexo, e tudo o que eu quero é comer todo mundo. Eu fico um pouco desorientada nesses dias, até porque obviamente eu nunca como todo mundo. Eu não sei se todo mundo tem esses dias de fera, em que todas aquelas outras coisas da vida parecem só uma decoração em volta do prato principal que é comer alguém. Imagino que seja uma coisa meio normal. As pessoas devem lidar com isso de formas diferentes, também.

E talvez esse texto tenha me pegado por que ela sofria com uma paixão não correspondida e aí encontrou um cara que a fez desencanar um pouco disso e simplesmente se libertar e ir se divertir. Foi uma experiência que realmente a modificou, dá pra sentir ao longo da história. E acho que eu quero um pouco alguma coisa que me faça desencanar das coisas com as quais estou encanada agora. Que me faça mais lôba, mais feliz e menos mimizenta.

http://www.cemhomens.com/2011/06/numero-1-irresistiveis-olhos-verdes.html#more

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Do som que sai dos teus lábios

texto: Marina Salles
ilustração: Márcio Zamboni
música: Carl Orff


Então eu abro os olhos e meus olhos se enchem de música. Aí está você: nesse som, nesse verde que enche meus olhos quando eu vejo a paz que me invade quando eu ouço esta melodia, estas vozes. Neste momento, eu te amo. Neste momento eu sou o que eu quero, um cavaleiro voando sobre os campos, nada me pára, nada me contém, há coisas que eu salto e há coisas sob as quais me abaixo, mas nada se interpõe à minha vista do céu, porque neste momento eu sou livre, e neste momento eu alcanço o que você quis me dar. Eu alço vôo e o mundo é realmente tão grande!, como você disse... Uma guerra uma poesia se desenrola debaixo de mim. E de repente há silêncio. Acabou uma música.
Você concordou que dizer eu-te-amo era muito complicado e eu tive que me explicar: o que estou dizendo é: (eu te amo é:)


É que você chegou a mim
E num instante você viveu em mim
E sem perceber você entendeu uma parte de mim
Você estendeu a mim a sua chama
Você alegrou meu coração e mudou minha vida
E agora...
E agora eu te dou um passe
Para que entre e saia livremente dessa terra
Um passe-livre por meu coração.


E agora é esta a paisagem dentro de mim: há tapetes vermelhos dentro de um castelo, uma fortaleza, que assoma no topo de uma encosta, eu eu sou o pássaro que circunda a torre mais alta, e eu sou o homem que entra com passos pesados na sala do trono. Tudo é um sonho e tudo se desfaz. A música muda e as faces dos homens mudam. Tudo é energia, um tambor que bate regendo o coração dos homens. E eu estou aqui, eu sou as paredes e os cascos dos navios, eu sou o couro dos tambores, eu estou aqui tentando sentir e entender, procurando a resposta, procurando através dessa música, procurando a lembrança do som que saiu dos teus lábios. Eu procuro (e eu sei que é em vão) o som da tua voz através das trombetas, o som da tua voz cantando pra mim, a lembrança de você olhando nos meus olhos. Tudo é tão suave, e tão pesado, e entretanto de repente eu sou uma pomba, eu vôo sem destino, meus olhos são lágrimas, minha boca é um gosto passado, eu sou um anjo perdido procurando a resposta, procurando o sentido do som que saiu dos teus lábios.


Quem eu sou? Você me pergunta e eu sou a sua pergunta. Mas agora não importa. Quando sair de mim, deixe aberta a porta -- há muito lá fora que eu quero convidar a entrar; há muito no mundo que eu quero habitar, mas que também quero que me habite. Eu devo ser a terra e o viajante (eu devo ser a estrada e o violeiro) e eu devo ser a fonte e o sedento, e eu quero ser bem boi como berrante. Me guia e eu te guio! Eu sou o céu e a estrela. Eu não ouço as palavras desta música, mas pra mim é como o céu cantando, eu ouço a voz dos astros e eu flutuo entre eles. E eu ouço a voz da vala das estrelas. E eu lembro da sua história, e eu tento imaginar a beleza -- como será acenderem-se as estrelas?


Então as estrelas disparam e o mundo vira uma torrente uma avalanche, eu páro no meio da música, olho ao redor, suspiro, respiro fundo e me pergunto: onde estou? Esta é a minha casa, hoje é dia das mães. Mas não significa nada. Minha alma não entende nada de casas e calendários. E eu não entendo nada de música. Eu sou um joguete nas mãos dessa melodia. Finalmente eu lembro da tua voz, a tua voz cantando, a tua voz dizendo declamando com tom grave a thousand kisses deep. Mas eu devo te ouvir, cada canção, cada palavra, e enxergar cada emoção que teu olhar transparece. Eu rio. Porque te leio tão fácil e mesmo assim desconheço. Quem você é? Eu pergunto e eu sou a minha pergunta. Mas só por muito pouco tempo. Num instante eu pisco como uma estrela e eu sou outra coisa, eu sou uma outra vida. Minha alma é uma coisa dispersa, um vento, uma torrente que se divide e volta a se unir. Eu rio, porque eu sou leve agora. Agora eu não posso te ouvir, mas sei o que você fala. Porque através dessa música é você que fala, e é você no meio do mundo de vozes que é o universo. Eu ouço tudo, mas muito pouco eu entendo. E como quero entender! Por isso continuo buscando, eu estou buscando a pergunta, e eu busco todas as coisas através das vozes de todas as bocas.


E como a tua boca me morde, eu enxergo no clarão da dor o grito de todas as coisas. A tua voz nem existe agora, só existe esse terror, esse rosnado. Meu coração dispara e meu sangue urra, no fogo do teu veneno e na explosão dum sors salutis -- e de repente minha alma é fogo, meu mundo é fera, meu sangue é fúria e eu devoro o mundo e nada mais é anjo nada mais é água nada mais é calmaria porque tudo é pura loucura! Eu me levanto contra o frio da noite eu sou o Sol, invicto e irremovível, iluminando e queimando as retinas de todas as coisas eu sou a Luz cuspida de teus lábios eu sou o teu sangue e meu peito cresce num rosnado-desejo que fagocita o mundo e num instante eu sou completamente um tudo demoníaco -- e então minha alma voa.



Do alto do vôo da minha alma eu estou ouvindo palmas, e isso quer dizer que a música acabou. Mas eu me sinto leve, a música me liberta, eu fecho os olhos e a noite me carrega para onde eu quero estar, onde a música é nectar, onde a tua voz existe dentro de mim, no ímpeto de um raio e na candura de uma vela. Eu abro os olhos e você está me olhando, mas já não são olhos de fera. Então eu abro os olhos e estou aqui novamente, e eu estou sozinha.


Eu apoio o rosto nas mãos, e meus olhos são lágrimas, e meu coração ressona e tudo é silêncio através dos pequenos barulhos do dia. Eu caio em mim. Eu olho para o céu, e eu estou buscando a pergunta que eu sei que não existe, e eu queria ser o ar para poder me encher desses sons que saem de todos os lábios

terça-feira, 20 de abril de 2010

Livro Um: Fera

"I was a wolfness in those dead days
and I thought only of mates and preys"



Eu não sei se é muito decente eu falar sobre o que aconteceu comigo nos últimos dias. Eu poderia guardar tudo pra mim, me contentar em escrever num diário, e quem sabe daqui a cinqüenta anos confessar para meus filhos que um dia eu me tornei uma fera...
É claro que eu não vou fazer isso. Eu nunca fiz. Pra mim, minha imagem pública não é tão importante quanto a comunicação. Mamãe talvez dissesse que eu poderia falar dessas coisas com meus amigos mais íntimos, mas será que eu teria coragem? Meus amigos mais íntimos são tão íntimos assim? Hell, há coisas que eu não consigo contar para pessoa alguma, não sem muito muito esforço. Ultimamente não tenho contado tudo nem ao Di, que era meu melhor amigo. É que há coisas dentro de mim que me deixam meio nervosa. Bom, ao assunto:

Descobri muitas coisas novas sobre mim estes dias. Por exemplo, descobri que eu não sou racional. Nada do que faço é derivado de uma conclusão racional. O máximo de racionalidade que eu consigo manter é: já que meus instintos estão pedindo tão intensamente por isso, o mais sensato é obedecer. Eu preciso de emoções, de intuições, para me dizer para onde ir. O pensamento define apenas o como.

Descobri também que eu posso ser outra coisa. Uma coisa que sente com os dentes, não com os olhos. Uma coisa que quer com os dentes, não com o estômago. Uma coisa que vê através de cheiros, que não vê céu, só carne. Uma coisa que tem olhos voltados para a frente para melhor perseguir a presa.

É incrível como de repente todas as coisas perderam a importância. Eu esqueci a prova de terça, eu esqueci o EP pra semana que vem. Eu esqueci a matéria que eu queria fazer e até a necessidade de subir em árvores — essa sim é a parte mais assustadora.

No domingo eu ainda conseguia querer desesperadamente velejar. No domingo à noite, nem o vento importava.

Eu fui uma lôba por quatro dias
Mordi o silêncio e cacei sozinha
Larguei minha mente e o meu dever

Meu celular também sempre escreve "quero te ter". Eu não escrevi nada nesses dias que não quisesse dizer quero te ter. Eu mordi o ar e engoli saliva tentando conter minha fome. Eu arreganhei os dentes quando você se aproximou... Eu rosnei, num anúncio, quando soube que te teria.

I was a wolfness again one day
I felt alive when I scented "prey"
My preys were trying to hunt me too...
But I'm no kill — I'm not for you

Este texto parece louco, mas não tão louco quanto eu me senti! Eu era uma fera! A god of old! They spoke of me, all tales told! Eu que me preocupo tanto com o céu e o chão, eu andei de cabeça erguida, sempre olhando e procurando, sempre à caça.

My claws were keen to cut
My teeth were keen to kill
And all the creatures great and small
Were subject to my will

Eu te assustei quando rosnei pra você? É o que eu me pergunto? Minhas lembranças estão um pouco confusa, porque toda a minha mente estava concentrada em um ponto só. Eu nunca soube que seria obcessiva. Eu me assustei com a minha fúria. Como todos os meus pensamentos continham as palavras Caça, Fome, Corpo, Dentes. Ah, é, estou falando sobre Sexo. É claro que é só por isso que eu não deveria estar escrevendo isto aqui. Não é educado falar tão abertamente sobre sexo. Mas como não falar?

As outras coisas da vida foram perdendo gradativamente a impôrtância. Primeiro desapareceu tudo o que era inteiramente intelectual, como os estudos. Em Ibiúna eu já estava plenamente dedicada às emoções físicas: ousei mais do que nunca no wakeboard e senti arrepios de alegria quando me agachei na prancha e pus a mão na água que passava rápida ao meu redor. Dirigi a lancha como um homem dirigindo um carro foda. Senti o peso da moto embaixo de mim. Bebi uma cuba livre e me assustei com o gosto do álcool, subitamente muito consciente do quanto eu precisava me controlar. Dancei. Sequer me incomodei com as insinuações dos mais velhos sobre nós. Eu estava cedendo cada vez mais aos instintos, e a qualquer momento qualquer coisa podia ser verdade. Olhando pra trás, é incrível como eu estava me comportando bem.

Quando cheguei em casa a consciência da minha obcessão já era dolorosa. Aquilo tinha me afligido a semana inteira, mas de repente era uma necessidade. Eu precisava sair, eu precisava de ar puro. Meus pensamentos não eram sobre isso, meus pensamentos maquinavam armadilhas, procuravam a melhor forma de te atrair, de te enganar, de te aprisionar entre minhas garras. Eu precisava de algo que me distraísse, de risadas, de álcool, de pessoas. Duas forças lutaram dentro de mim: uma queria amigos, e outra queria presas.

Segunda foi ainda pior porque eu encontrei pessoas com as quais eu queria construir uma amizade. Eu estava me sentindo mal, talvez de fome, de sono (eu não conseguira dormir mais de cinco horas), da consciência de que teria que usar aparelho por um tempo, e principalmente da fúria que ainda queimava, faminta, dentro de mim. O mundo parecia tão frio! Quase não ouvi a aula, tão concentrada que estava em me manter longe do homem ao meu lado. A pior parte de mim não conseguia apreciar a vida se não estivesse caçando. Me impressionei com meus comentários mau-humorados; fugi no meio da segunda aula, fui encontrar o Bruno. No fundo, eu ia pedir ajuda pra ele. Mas não sei se não seria só uma ajuda na minha caçada.

Foi uma noite boa, eu acho, que acabou muito cedo. Se... (...)

Então na terça eu tive um lampejo de lucidez e lembrei do Diogo. Não, eu não tinha esquecido do meu namorado. Eu só tinha esquecido, como acontece com freqüência, de como ele me faz bem. Aquilo estava indo longe demais e eu precisava de um pouco de paz. Eu precisava conseguir lembrar das minhas prioridades. Então eu (...) o encontrei no CM e o abracei forte. Sempre me surpreendo com o efeito dele sobre mim. Senti a febre baixar, senti a fome se acalmando conforme eu o apertava, me encolhia no abraço dele, me deixava proteger. Lembrei das coisas que eu tinha esquecido, começando pelo amor. Eu precisava dele. O abraço de qualquer outro homem (eu acho) me deixaria apenas mais faminta. O beijo de qualquer outro homem apenas atiçaria minha voracidade. O abraço dele me deixou lúcida. O beijo dele começou a me saciar. Eu pedi pra ele me obrigar a ir embora ou eu não iria nunca.

A pessoa que eu poderia ser se eu decidisse ficar solteira me fascina e me assusta. Uma parte muito grande me mim se deliciou com todos os meus pensamentos e ações lupinas. Quando eu me afastei do Diogo, senti um alívio tremendo por poder controlar que tipo de coisa eu ia fazer. Por poder achar as árvores bonitas, por poder me interessar pelos meus estudos. No final do dia, eu me assustei com tudo o que eu tinha protelado quando minha mente estava voltada para a caça. Mas também senti falta: o poder que amanava dos meus impulsos... Mesmo a ferocidade que eu desenvolvera...

Eu não sabia que eu tinha isso em mim: essa coisa em mim que age não por amor, mas por fome; não com carinho, mas com fúria. Eu já havia sentido em mim uma fera que está sempre agitada, mas... mas nunca imaginei que ela pudesse ser tão violenta. Não sabia que ia ser tão difícil contê-la. E uma parte de mim, uma parte daquele lado negro de mim, se pergunta se eu deveria ter mesmo me contido. Outra parte acha que eu nem tentei conter, na maior parte do tempo. Que eu só estava com mêdo demais para ceder.

...agora, alguns daqueles meus impulsos me parecem simplesmente idiotas.

Acho que eu devia tentar encontrar uma forma de associar esses meus dois lados. A auto-confiança, objetividade e inteligência da lôba com a temperança, tranqüilidade e abertura da humana? Mas, de alguma forma, eu suspeito que a lôba em mim não aceite ser domada. Eu não sei até que ponto para conseguir sua força eu precisaria... alimentá-la.