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segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Véus

nos acostumamos a nos olhar atravez de véus
o véu do berço
do amor
da noite
das mentiras

um dia estamos tão atravessados
que não conseguimos mais arrancar os véus da carne
a gaze embebida em sangue coagula
coagula o olhar

arrancar o véu e ficar em carne viva

carne viva

domingo, 18 de setembro de 2016

Você se acha bonita?

Há dias que a coisa toda vem abaixo.
Normalmente não falamos disso, evitamos o assunto, falamos do tempo, do dia, das plantas que floriram esta semana, das palavras que o bebê está ensaiando falar, do futuro, de dinheiro, do (ex?) marido que não reconhece o valor do seu trabalho, do filho que acabou de se mudar.

Evitamos. Eu eu evito, se me perguntam desconverso, quem, eu? Meu nome? Me chame como quiser, como sempre, "Mali" está bom, finja que nem me viu por dentro, finja que me desconhece, que não vê, através dos olhos, a hesitação, a desfaçatez, a desconexão, que não vê através dos dedos a desidentidade, finja que somos todos nossos nomes, nossas infâncias, vamos continuar jogando os Jogos que jogávamos dez, quinze anos atrás.

Um amigo meu dizia que ele sequer existia antes de chegar ao colegial. Eu achava estranho. Até que, às vezes me ocorre, anos mais tarde, dizer que eu nem existia antes de decidir entrar na segunda faculdade. Mas não digo.
Seria um pouco cruel dizer que eu passei a existir depois de afastar de você.

E seguimos na mentira, uma mentira nova desta vez, feita de suposições sistêmicas, de meias-verdades, de faltar intimidade e confiança ou haver excesso de intimidade pra contar aquelas coisas que podem acabar com uma amizade. As relações seguem em suspenso, com a respiração presa, enquanto dentro de mim se desenrola toda uma ladainha. Tão difícil confiar; e não, os anos não tornaram mais fácil.

Um dia desses minha mãe perguntou, com tom muito sério, muito preocupada. Fálavamos de beleza, de corpo, de mulheres e de ser mulher e de como tudo isso é muito complicado.
Deixe-me abrir um parênteses: minha mãe é daquelas que faz dietas o tempo todo, e de tempos em tempos me acusa de estar demasiado "magra" ou muito "gorda", e sempre tenta me convencer a mudar a dieta, a comer mais carne, a fazer mais exercícios. Ainda assim, minha mãe se preocupa, decerto, com minha saúde mental, com minha auto-confiança, com minha auto-estima. É uma boa mãe, no geral -- nunca vou terminar de agradecer tudo o que ela fez por mim, desde os sacrifícios até o modelo de pessoa que ela foi, que ela é pra mim. Fecha parênteses.

Minha mãe muito precupada muito consternada, num dia em que eu estava mais ou menos de mal com a vida (ou de tpm talvez) e ela falando -- não lembro do quê -- me pergunta: "Você se acha bonita, Marina?"
E desde então tenho revolvido na cabeça essa pergunta, mastigando, digerindo, quebrando nas partes componentes pra poder decidir lentamente a resposta

você se
acha
bonita
Marina

Bonita. Me percorre pela cabeça todas as definições de beleza que uma pessoa pode alcançar. Eu não sou como a luz atravessando as folhas novas de uma ficus na primavera. Ou como o céu emoldurando uma ilha coberta de mata atlântica nativa verdejante. Eu não sou como as pedras empilhadas na beirada do rio, nem eu sou a asa iridescente de uma borboleta. Bonita, essa pessoa. Marina.

Me ocorre que pouco me diz que ela queira saber o que eu acho sobre a beleza dessa pessoa chamada Marina. Que se ela tivesse me perguntado objetivamente, "Marina é bonita?" eu teria respondido, objetivamente, "sim".

Bonita. Marina essa pessoa cuja identidade está uns 50% baseada na idéia de ser bonita. Não bonita porque não tenha nenhum outro valor, nem bonita porque seja modelo de passarela. Mas porque na adolescência, quando se formam as identidades frágeis, Marina fez amizades sempre com os garotos que se apaixonavam, ou um dia se apaixonariam, por ela. Bonita porque todas as suas relações começavam assim, e porque tantas delas se desnaturavam justamente por causa disso. Bonita porque ela detestava depilar perna, e nunca usava maquiagem, mas nas festas de quinze anos usava longo e tudo o mais e dançava a noite toda com garotos que chamava de seus. Bonita porque o homem que passou por ela na rua disse que sim, porque o rapaz mais velho que morava na praia mandou um bilhete pra poder falar a sós com ela à noite, e ela só tinha quatorze anos, mas foi assim mesmo, porque não tinha nem muita certeza se era permitido se recusar sem mais a ir num primeiro encontro.

Bonita sem dúvida, porque quando ela decidiu relaxar das estúpidas convenções sociais e trocar de camisa de costas para os amigos, os amigos moços ficaram de olhos fixos e vidrados e deixaram bem claro que agora era hora de ela se ajeitar nas convenções sociais. Ou porque depois do colegial desenvolveu um mêdo nervoso de interagir com meninos porque quando menos ela esperava eles se apaixonavam por ela e tornavam tudo muito complicado. Bonita porque seu próprio primo se apaixonou por ela e veio questionar porque ela não lhe dava uma chance, porque o rapaz que mestrava rpg para o grupo de escoteiros ficou tão obcecado que a única opção que lhe restou foi [mentir] que ela nunca jamais teria nenhum interesse nele.

Bonita talvez com uma certa resistência, porque evitava usar vestidos e blusinhas justas, porque usava uma jeans largona e uns moletons e umas malhas de velha e umas luvas de mendigo, mas justamente por isso, justamente porque isso nem adiantava, porque ainda assim não conseguia evitar os olhares e os corações dos garotos, especialmente os muito próximos, os muito queridos; porque a maior parte do seu sofrimento de amor vinha de se apaixonarem por ela todos ao mesmo tempo, e os amores dela que não eram correspondidos eram por serem os homens muito velhos ou muito distantes ou muito gays [ou por se apaixonar, sem compreender nominalmente, por pessoas que não se encaixariam na sua presumida heterossexualidade], ou por pessoas inacessíveis de dentro dos seus longos e encadeados relacionamentos monogâmicos. E ainda mais bonita quando se desmonogamizou e se confrontou com todas as suas ilusões e tantas das suas inseguranças, e passou a usar saia curta e blusa justa e cortar o cabelo apenas pra atrair os olhares dos outros. Bonita agora com certeza porque não saberia mais não ser antes de tudo Bonita. Bonita comprando vestidos, experimentando saltos, cortando o cabelo curtinho porque lhe desesperava não ser bonita o bastante pra atrair as meninas, bonita até o último instante, com esforço, cancelando um date porque as pernas não estavam perfeitamente depiladas, gastando horas escolhendo o sutiã que dá a forma perfeita dos seios com a blusa certa, abandonando a aula de dança para não ficar com músculos demais na barriga, parando pra perguntar no meio do sexo se sua cara de gozo era bonita. Sim.

Mas Marina não é como o Mar, que vem e vai e se estende até onde a vista alcança, interminável. Eu abandonei tudo isso, as saias, os sutiãs, os romances impulsivos e os encontros casuais. Não foi exatamente o gênero que eu abandonei - até porque esse me persegue, entranhado nos ossos, nos trejeitos defensivos e no timbre da voz. O que abandonei foi o esforço, foi aquela motivação autoflagelante de horas e suor e sangue pra construir uma persona da qual eu nem gostava. Marina, essa é a verdade, Marina não se acha bonita, não se acha capaz, não se ama. Marina sobrevive integralmente do amor que recebe dos outros. Mas ela não é sequer capaz de corresponder a esse amor, com seu coração volúvel, nômade. Ela deixa atrás de si um rastro de corações partidos, e se desfaz em culpa. Tudo o que Marina pode oferecer é a intensidade, o romance. Quando isso pára de dar resultados, ou quando ela começa a se sentir velha demais, ela silenciosamente morre.

Que me importa o que eu acho da minha beleza? Minha beleza nunca foi realmente minha. Quando criança, as sessões de "embelezamento" nada mais eram que sessões de tortura. Com catorze anos, tudo o que eu queria era raspar a cabeça. Consegui força pra fazer esse experimento apenas dez anos depois. Deixar os pêlos crescerem, fazer piercings na orelha, raspar o cabelo com máquina zero, e depois pintar; experimentos, um por um, sondando as reações, principalmente de minha mãe. Lentamente, e sem sequer perceber, tornando esses pequenos símbolos os pilares da minha identidade.

Quando uso calças, hoje sinto que estou amordaçando minhas pernas. Não é que ache minhas pernas bonitas; é mais que eu não consigo mais existir socialmente sem esse símbolo exagerado de auto-expressão. Eu preciso saber, quando entro num ambiente, que todos ali saberão que eu uso pernas peludas. Mas isso não é o bastante, então eu uso também camisetas largas, bermudas masculinas, e cortes de cabelo um tanto desconjuntados feitos em casa. Eu não sou bonito, quer dizer, não me importa mais tanto ser bonito, não quero nem preciso seduzir ninguém; o que me importa é ser imediatamente fora dos padrões, imediatamente não-feminino. Mas na verdade, acho que também eu não consigo mais me achar bonito.

Nem feio. Porque belezza essa coisa que vem sempre de fora, dos olhos dos outros. E os olhos dos outros já me dizem tanta coisa que machuca, me não me é, que já me divorciei do olhar dos outros mesmo quando olho no espelho. Antes olhava no espelho e via o olhar dos outros; hoje olho no espelho e me pergunto, desesperadamente, "como é que não me vêem assim: como eu sou?!"

Através do espelho é que vejo meu corpo, nem bonito nem feio, nem gordo nem magro, nem masculino nem feminino; meu. Mas apenas através do espelho, e talvez um pouco através do viver, do tato, quando não sinto aquela dor nos peitos me lembrando que eles estão aqui, quando não me atrapalham, quando não sinto meu corpo fraco, mole, torto. Sempre quis ter pernas finas e nunca tive pernas finas. Antes eu morria de inveja de minha irmã, e também de meu irmão; agora não restou espaço para inveja, agora sinto apenas um vazio esquisito, porque não compreendo mais; minha irmã era rosa e meu irmão azul, e eu pegava sempre a toalha amarela.

Mas nas fotos, nos vídeos, nem reconheço meu corpo. Me dá um mêdo de que meu corpo nas fotos seja que nem o retrato de Dorian Gray, ficando velho e deformado e feio enquanto seu corpo de verdade permance jovem e forte. Eu me sinto assim, jovem e belo até que me mostram uma foto minha, e tenho uma voz linda até ouví-la numa gradvação, e aí fico me perguntando como meus amigos conseguem conviver comigo, com minha voz horrível, com minha coluna corcunda, com os ferros nos meus dentes, com meu cabelo desajustado, com minhas piadas ruins, e minha atitude de que sei tudo mas não ligo pra nada, com sempre o meu mesmo sorriso falso e fofinho e essas bochechas e essas tetas gordas caídas.

Uma vez eu vi uma foto bonita minha, numa viagem, no topo do mundo. Por alguns segudos.

Mas, cada vez que vejo uma foto, ou, pior ainda, um vídeo, passo dias lutando contra o nojo do meu próprio corpo -- como posso ser assim se o que eu sinto de dentro é tão melhor, mais fluido, mais forte, mais equilibrado, mais bonito?

Talvez por isso minha mãe tenha me perguntado. Porque ela viu nos meus olhos eu olhando aquela foto e pensando "que pessoa feia eu sou. Nem a fofura do meu sobrinho consegue me fazer ter vontade de olhar pra isso."

...

Uma vez eu vi uma foto minha que até achei bonita. Era eu com ele no colo, depois da minha defesa, dando o maior sorriso que eu já dei em toda a minha vida.

domingo, 1 de março de 2015

Vestido

Minha mãe me perguntou casualmente se eu não usava mais vestido. Em tom de confirmação.
Minha resposta foi prolixa.
Nãoeunãousomais quasenuncaquerdizer eutenhoalgunsaindaeutentousardevezemquandoeuvistoummasseilá pareceesquisito eunãogostomaseutenhoummonteaindaàsvezeseuponhouns praficaremcasamas eunãosaiocomelesachofeiomeachofeionãoseiexplicarsó nãocompbinamaiscomigoachoesquisito nadacontra

A verborragia tentando muito não soar simplesmente como repúdio a todos os símbolos de feminilidade, tentando evadir o machismo, tentado evitar chegar no cerne da questão, tentando impedir que a resposta seja pontuada com um

"
por
quê?

"

Minha mãe faz perguntas cada vez mais evasivas, evitando questionar, evitando. Às vezes dá indiretas. Uma vez ela me aconselhou a pensar muito sobre isso. Eu me dei conta: "ela sabe". Percebi então que não é que minha mãe não acredite em mim, mas que ela não confie em mim. Ela acredita que eu acredito em certas coisas ou que eu sinto certas coisas sobre mim, coisas sobre as quais não conversamos, a menos de perguntas evasivas e respostas prolixas, mas ela não acredita que eu possa de fato saber essas coisas sem a ajuda de um profissional.

Uma vez ela me aconselhou a pensar seriamente sobre "essas coisas". Eu mantive uma expressão neutra, enquanto avaliava se valia a penas dizer que eu já pensava sobre essas coisas, todo o tempo, todos os dias, e que se eu não falava sobre essas coisas com ela era porque ela não me dava abertura pra isso. As coisas ficam mais difíceis depois que a gente se abre, depois que a gente está vulnerável. E assim ela parece que sabe cada vez menos sobre mim, não por não ouvir, não por não enxergar, mas pelo meu silêncio deliberado, pelo meu silêncio pontual e específico, que é a única forma de proteger a dualidade da conclusão a que meus questionamentos sempre me levam. Porque me parece me minha mãe acredita que a dualidade é um estado transitório, um estado de dúvida e falta de auto-conhecimento, que há uma dialética, e que um dia haverá uma síntese, que eu deixarei de ser muitas coisas para ser uma, e que essa uma será sólida, e simples, e compreensível, e inquestionável. E não é só minha mãe. Parece que há uma expectativa generalizada ao meu redor de que algum dia as pessoas saibam extamanete quem elas são, e que quem elas são seja facilmente descritível em categorias, rótulos, gêneros, filiações.

Minha resposta a isso é simplesmente: não.




sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Bissexualidade

(baseado, sem pretensões de fidelidade, em coisas ditas em conversas reais ou imaginárias - às vezes mais de uma vez)

— = ---

— Acho que não dá pra uma pessoa ir na balada e querer pegar "qualquer um". Ou você está procurando homem, ou mulher. Mesmo um bissexual, tem dias que está hétero, dias que está gay.
— Mas você não é bissexual, nem conhece alguém que seja, certo?
— Não. Mas só não faz sentido! Querer ficar com mulher é totalmente diferente de querer ficar com homem!
— Eu fico irritada com essa gente que se diz bissexual. Não existe isso de gostar "tanto de homem quanto de mulher". Todo mundo tem uma preferência.
— Mas e as pessoas que de fato gostam de homem mas de vez em quando pegam mulher, por exemplo?
— Ah, mas isso não faz de você bissexual. Você gosta de homem, você é hétero, pegar mulher de vez em quando não muda isso. Quem diz que é bissexual tá querendo ficar em cima do muro, não quer admitir pra si mesmo e pros outros que tem uma orientação sim, ah, me poupe! Se admite, pô.
— Mas, péraí, só porque tem uma preferência então não...
— Péra, deixa eu entender, eu tô no meio de um monte de gente que se acha bissexual, né?

— Se você é gay mas fica insistindo em ter namoros hétero, você está negando os seus desejos homossexuais? Você prejudica a sua vida com isso?
— Bom, o estudo aponta a existência de alguns caras casados com mulher que tinham uma certa ereção com pornô de mulher, mas a reação era muito maior com pornô gay. Provavelmente eles eram gays enrustidos, que meio que "aprenderam" a se excitar com mulher pra se encaixarem na sociedade.
— Se você escolhe um lado e admite a sua, ham, a sua "monossexualidade", você está negando os seus desejos em relação ao outro sexo?
— Nenhum estudo encontrou bissexuais de verdade! As pessoas precisam parar de se enganar e fingir que existe um meio termo! Essa é uma falácia danosa para a nossa causa. É preciso que as pessoas entendam que homossexualidade é genético e definitivo, e que não existe cura nem meia cura. Viado é viado e fancha é fancha, ponto!
— Mas, pô, isso não é motivo pra ficar enchendo o saco dela e chamando ela de fanchona o tempo todo. Ela está meio na dúvida, deixa ela.
— Mas é claro que é motivo. É só olhar pra ela pra saber que ela é sapata, e essa história de ficar em dúvida é uma grande mentira. Ela precisa aceitar o que ela é.

— Mas e se eu não quiser aceitar o que eu sou? Como fica?
— Vai ver um psicólogo, vai.

— Quando você se descobriu gay?
— Ah, quando eu era pequeno eu já era gay. Eu achava que homem combinava com homem, e mulher com mulher.
— Eu descobri na faculdade. Passei anos me irritando com as pessoas que me chamavam de gay. Cheguei a brigar feio com uma amiga, depois a gente voltou a se falar quando eu saí do armário.
— Eu tinha uma namorada com quem eu me dava super bem e fazia um monte de sexo, mas um dia eu vi um cara gostoso e senti tesão... Hoje em dia eu nem tenho mais vontade de ficar com mulher, porque homem é tão melhor!
— Meu ex-namorado agora namora um homem.
— E como é pra você?
— Eu acho que não faz muita diferença, pra mim. É a vida pessoal dele, agora, e não muda nada do que aconteceu entre nós. Não explica nada.
— A ex-namorada da minha amiga está namorando um homem, também.
— Então ela não era gay, hem?
— Eu disse que ela era hétero! Mulher na adolescência faz umas experiências...
— Agora, a sua amiga, essa sim é sapatão, hem?
— É só olhar pra ela pra saber.
— É engraçado é que tem gente que não tem gaydar, né? Outro dia virou mó bochicho no escritório sobre a chefe, e eu disse de cara: "É que ela é lésbica, né?". Todo mundo tava super surpreso, todo mundo ficou "mas como você sabe???". Ah, vá.
— É engraçado que dá pra perceber mesmo quando a própria pessoa ainda não sabe.
— Eu me pergunto isso às vezes, se alguém olha pra você e diz que você é gay, isso quer dizer que você é mesmo? E se diz que você é hétero?

— Quando você começou a se considerar bi?
— Assim que eu parei pra pensar no assunto, uai. Eu era adolescente e eu gostava tanto de meninos quanto de meninas.
— Mas você gostava mesmo dos meninos tanto quanto das meninas? Você se apaixonava por meninos?
— Hmm, acho que eu só me apaixonei por meninas... Mas eu gostava bastante dos homens também. Não era a mesma coisa, mas nunca me ocorreu me considerar hétero.
— Mas você já teve experiência com homem?
— Já.
— E gostou?
— Foi muito bom.
— Eu já peguei homem, já dei o cu, foi bom, mas acho que eu não sou gay. Não tenho envolvimento emocional com homem.
— Eu gosto de ficar com mulher, mas eu sou bem hétero. Eu não entendo como você que gosta muito mais de pica do que eu ainda acha que é bi.
— É verdade, homem tem pica, mas, por outro lado, mulher tem peito!
— E cintura, não dá pra esquecer a cintura.
— Mas homem tem peito de homem. E barba. E mulher às vezes tem muita bochecha.
— Acho que eu não conseguiria ficar com uma mulher. Aquela vez que a gente quase fez um ménage, eu pensei "não, tem outra buceta aqui!"
— Você diz isso mas no dia seguinte pega uma mina e tem sonhos eróticos com outra. Aliás, eu só tenho sonhos eróticos com mulheres. Os seus sonhos definem a sua sexualidade?
— Outro dia eu tive um sonho super bizarro com você. Eu estava beijando você, mas você tinha um pinto!
— Você não está vendo, mas eu estava agora mesmo desenhando um pinto. Eu tinha certeza de que eu ia ter um pinto no seu sonho.
— Isso quer dizer que eu sou gay?
— Bom, você sente atração sexual por homens?
— Não. Mas e as pessoas que demoraram anos pra entender que eram gays?
— Você quer ser gay?
— Talvez eu precise ser gay.
— Se eu fosse gay eu ia ter muito mais felicidade sexual.
— Mas você acha os homens horrendos!
— Bom, por isso que eu queria ser gay, mas não sou. E eu não acho todos os homens horrendos. É só que eles são tão peludos... e grandes... e feios. Mas eu pegava o Justin Bieber, ele é quase uma menina. E bonitinha.
— Nossa, que machista!
— Machista por quê?
— Super machista essa atitude de "eu nunca ia pegar nenhum homem, e mesmo se eu pegasse um homem, tinha que ser um homem que é quase uma mulher"! É pura pose de machão.
— Mas eu só estou dizendo que o Justin Bieber não é feio...
— Ah, você só está atestando a sua masculinidade! Eu, se eu pegasse uma mulher, eu ia querer que fosse uma mulher de verdade, feminina, affe!
— Mas você não ia pegar uma mulher...
— Não, mas se eu pegasse, eu não ia pegar uma mulher que parece um homem só pra deixar claro que eu sou hétero.
— Então se eu gosto de mulheres masculinas eu sou gay?
— E se eu gosto de homens femininos? Os caras que gostam de travesti são hétero?
— Outro dia eu gamei numa mina que parecia muito com um cara que eu peguei um tempo atrás. Estou me sentindo culpada.
— Você sempre puxa pro pessoal!
— Bom, pra mim esse assunto é muito pessoal. Você acha que os meus sonhos definem a sua sexualidade?
— Por que você não define a sua sexualidade por com quem você faz sexo?
— Um garoto virgem de treze anos não pode ser gay?
— Não dá pra confiar na sexualidade de adolescentes, eles fazem experiências...
— Mas em que idade você pode começar a confiar?
— Eu fico meio assustado que isso tenha aparecido pra mim tão tarde. Sabe, eu não sou um adolescente. Todos os meus amigos que viraram gays ou bis se descobriram até uns 20 anos de idade. Será que eu estava reprimindo isso esse tempo todo?
— Bom, você sabe que eu não acredito muito em monossexualidade.

— Mãe, eu acho que eu sou bissexual.
— ...Por que você acha isso?
— Por que eu me sinto muito atraída por mulheres.
— Mas você já ficou com uma mulher?
— Já.
— Mas você nunca namorou uma mulher.
— ...Bom, eu sempre estive namorando com homens.
— Ah, filha, você é jovem, jovens fazem experiências. Quando eu era adolescente eu também me sentia muito atraída por mulheres, mas eu não sou "bissexual". Eu namorei com homens e casei com um homem, pronto!
— ...

— Eu queria ter tido essa sua confiança, de saber desde sempre que era assim mesmo.
— Mas deve ser mó legal ter essa revelação, "Oh, eu sou gay!". Imagina?

— E você?
— Eu sempre achei que eu sempre tinha sido confusa mesmo... Mas eu encontrei uns escritos antigos ontem. Parece que eu sempre tive grandes sonhos de casamento, e eu só pensava em homens. Homens altos de cabelos negros. Homens baixos, fortes e ruivos. Pra falar a verdade eu só sabia lidar com homens, desde que eu era pequena. Eu queria ser um homem, e eu até gostaria de ser um homem gay. E eu sempre me apaixonava por homens... Mas pensando bem, tinha aquela menina no colegial que tinha olhos dourados maravilhosos.... Um personagem meu, que era namorado da protagonista, tinha olhos dourados de águia como os dela. Ela chamava Júlia. Eu passava metade da aula olhando pra ela e pensando em como começar a conversa. Mas eu não chamava de amor.
— Mas você não era perdidamente apaixonada por aquele menino bonito?
— Sim, sim, por ele, por aquele outro, pelo meu melhor amigo que era apaixonado pelo meu irmão, e que chegou a achar que estava apaixonado por mim. No terceiro ano eu encontrei um garoto de olhos verdes maravilhoso, ficava o dia todo olhando pra ele e... pensando em como começar a conversa. Depois de alguns meses eu comecei a chamar de amor.
— E a Júlia?
— Encontrei ela outro dia, ela me tratou como uma amiga. Fiquei meio fascinada com o fato de que ela gostava de mim. Eu não fazia muitas amigas no colegial, me sentia incapaz de falar com mulheres. Me pergunto se o Pedro também me trataria como uma amiga.

— Você viu aquele novo estudo, com movimento de pupila?
— Ele não usa medição de engrossamento de pênis? Estou ouvindo.
— Inclusive mede mulheres também. Aí está a graça — ele meio que determinou que a maior parte das mulheres hétero têm reações a mulheres bonitas assim como a homens. E encontrou homens bissexuais também.
— Legal. Os bissexuais vão ficar felizes, mas os nossos amigos gays nem vão acreditar muito.
— Bom, é claro que nenhum desses estudo é muito confiável. Mas pelo menos a gente tem algo pra dizer.

— Como foi a conversa com a sua mãe afinal?
— Ela não acreditou. Foi bem menos assustador do que a conversa sobre namoro aberto, mas daquela vez ela foi tão legal, e dessa vez eu fiquei um pouco frustrada.
— Você quer ouvir como foi a minha conversa com a minha mãe? Qualquer uma das oito?
— Eu sei, eu sei, eu tenho a melhor mãe do mundo e eu não tenho um problema de verdade. É só que eu queria poder me sentir eu mesma, sabe?
— Mas você está negando a si mesma. Você quer ser algo que você não é.
— No começo eu achei que podia ser isso, porque eu queria muito ser bi, e porque eu queria fazer parte da comunidade gay (ou do que quer que eles se chamem agora, foda-se).
— Péra, você acha que pra fazer parte da luta você tem que ser gay?
— Eu acho que sim. Eu sei que não devia ser assim, mas é.
— Pô, então eu, que namoro um cara bissexual, não faço parte do movimento?
— Não é bem assim, não estou dizendo que não pode, da mesma forma que você pode ser homem e feminista, mas... mas os babacas vão sempre dizer que "as mulheres é que têm que lutar pelas mulheres", "os gays é que tem que lutar pelos gays", e tal. E agora estão me dizendo que bissexual não existe.
— É bom que bissexual exista, senão eu vou estar sendo enganada pelos últimos sete meses.

— Vontadezinha de arranjar uma namorada e levar ela pra casa. Só pra chocar minha mãe. Ou pra provar que é de verdade.

— ...Olha, mãe, não é só que eu me sinto atraída por mulheres. Eu sonho com mulheres. Eu me apaixono por elas. Você ia ter problemas se eu saísse com mulheres?
— Ah, Ma, você pode sair com quem você quiser. Você é jovem. Você se apaixona fácil. Mas você traz seu namorado pra casa, ele vira da família. Já se você trouxesse uma menina pra casa, uma namorada, ia ser um pouco estranho. Não é a mesma coisa, sabe?
— Ia ser estranho se eu trouxesse uma namorada? Mas estranho do que quando meu irmão traz as namoradas dele?
— Ah, Ma... Sabe, a gente sempre acha que vai conseguir lidar com essas coisas... Mas recentemente uma amiga próxima de mim descobriu que a filha era lésbica, e aí ela descobriu que não é tão fácil assim de lidar. É difícil pra gente.
— Você está falando daquela cuja filha é evidentemente gay?
— Ah, lembra, isso é segredo, não pode contar pra ninguém!

— Mas como você descobriu que era bissexual?
— Bom, eu estava no colegial, aqula história toda... Um dia minha amiga veio falar comigo, e o seio dela raspou no meu braço. Eu senti, como se diz? como se fosse uma descarga elétrica pelo corpo. Eu continuava apaixonada por aquele menino, mas depois disso eu fiquei algum tempo só conseguindo pensar em peitos.
— E foi assim, de repente, então?
— Não, não de verdade. Eu tinha acreditado que bissexual não existia. Eu comecei a me apaixonar por mulheres, a sonhar com mulheres, mas eu continuei acreditando que era hétero. Eu queria experimentar pegar mulheres, mas eu não podia me considerar bi sem nunca ter pego uma mulher. Um dia eu fui numa festa e as amigas do meu amigo me chamaram de sapata, e eu fiquei super feliz. Aí ele corrigiu eles, e eu fiquei meio brava. Mas eu me considerava hétero no fundo, não tinha coragem de reclamar. Um dia eu peguei uma mulher numa festa, mas não senti tesão nenhum. Eu estava apaixonada por uma amiga minha, obcecada e sofrendo, mas eu era hétero. Eu contei isso para um amigo e ele disse que eu devia estar projetando alguma coisa nela... Porque eu era hétero, e estava tão feliz com meu namorado. Aí um dia eu consegui sair num date com uma menina por quem eu tinha uma paixão, e foi o melhor primeiro beijo da minha vida. E mesmo assim meus amigos diziam que eu era hétero e eu meio que acreditava neles, porque eu só tinha beijado mulher duas vezes, porque eu namorava caras, porque eu nunca tinha transado com uma mulher. Então eu peguei todas as mulheres que eu consegui, o mais e o melhor que eu pude, e eu passei uma festa inteira pegando uma menina linda. Meu amigo me zuou dizendo que quando eu ficava bêbada eu virava lésbica, e eu concordei inteiramente. Mas no final daquela festa eu peguei um rapaz gostoso e gostei tanto disso que de novo eu concluí que eu era hétero. Aí eu fiquei muito confusa, peguei várias mulheres, transei com mulheres, decidi fazer o look fanchinha para atrair mulheres nos bares, mas no fundo eu achava que gostava mais de ficar com homens, e apesar de eu querer muito ser bi eu ainda acreditava que eu era hétero, no fundo. Uma hétero que por algum motivo se apaixonava por mulheres de vez em quando, mas que gostava muito de homem. Mas hétero.
— E quando isso mudou?
— Não tenho certeza. Talvez tenha sido porque eu conheci outros bissexuais. Ou porque eu descobri mulheres de quem eu gostava mais e homens de quem eu gostava menos. Ou eu parei de me importar. Na verdade... acho que o que pegou foi quando eu estava com uma mulher, e eu percebi que eu estava curtindo, estava confortável e sabia o que eu estava fazendo. Eu não estava só experimentando. Não era mais uma coisa nova pra mim. Só era bom.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Dom.

Acho que eu nunca amei ninguém como eu amo você.

Eu sei que eu sempre penso isso, toda vez que eu me apaixono, mas hoje eu estou me perguntando, será que isso não é verdade toda vez? E eu sei que o amor não deveria ser mais importante que tudo o mais somado, mas você vem e desemaranha todos os meus mêdos e me faz ver mais claramente o quanto eu estou me deixando enganar sem fazer perguntas, e nesse sentido você me faz mais livre, se não mais forte, toda vez. O capítulo da Coragem já acabou, e eu estou começando a compreender a Força. Agora eu preciso encontrar a Sabedoria para enxergar as coisas como elas são.

- Poxa, eu não queria fazer nenhuma referência a Zelda.

Eu quero conseguir sentir o verdadeiro prazer das coisas. Compreender tudo o que foi, tudo o que é, lembrar de cada amor com o brilho próprio que ele tinha. Eu entendo tudo. São só rosas que murcharam, camélias que se despedaçaram, o tempo que passou. Algum dia, isso tudo será um passado distante. Hoje em dia, eu ainda consigo sentir emoções muito fortes
ao ver um desenho
uma foto
uma carta
sua letra, num bilhete
Mas às vezes leio minhas próprias palavras como se fossem de outra pessoa.

Sabe, meu avô morreu esta semana, e eu compreendi, em meio a muito mais dor do que eu esperava, que agora eu finalmente podia lembrar dele como ele era quando ele ainda não estava tão perto da morte. Eu posso lembrar dele rindo, fazendo piadas sem graça, brigando e berrando que não brinca mais, fazendo papel de vô bobo. Eu posso lembrar dele como um velho chato que eu amava e não como um velho deprimente que eu esperava que morresse. Essas lembranças me engolfam e eu começo a me arrepender de não ter ido visitá-lo mais vezes, mas logo me lembro quão terrível era visitá-lo nos últimos meses. Lembro que a pessoa que eu gostaria de ver nem era mais aquela que estava lá.

Da mesma forma ultimamente eu tenho conseguido recuperar a parte dos últimos anos que não foi só dor e frustração e chorar no cantinho e entrar em desespêro. Eu consigo começar a ver as possibilidades, as coisas que aprendi, as portas abertas, o crescimento. Ainda tenho um pouco de mêdo de olhar pra isso, mas quem sabe daqui a pouco eu esteja rindo desse mêdo. Por que, sabe, ainda dói bastante. Mas alguma hora a raiva vai passar. Alguma hora a dor vai acabar. Alguma hora tudo vai se encaixar, e pronto.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Da natureza e do Nome

É interessantíssimo como as coisas mudam.

Eu sempre lembro de quando a Ana Bruner sugeriu que a gente descrevesse nossa Weltanschauung numa carta para nós mesmos dali a cinco anos. Não fiz e sempre me arrependi. De tempos em tempos penso nisso que penso que deveria escrever isso agora, mas nunca faço. Continuo escrevendo coisas menos relevantes neste espaço.

Das nossas aulas de filosofia do primeiro colegial guardo umas lembranças meio confusas, ora muito boas, ora muito ruins, e e percebo, com resignação, que muito daquilo eu aceitei sem grande reflexão e me cabia questionar, mesmo que não me fosse pedido — e muito daquilo que me pareceu profundo na época agora me parece meio insípido. Mas a lição verbal qe me pula à mente com mais freqüência, como um enigma não-respondido, ainda é a do côco podre:

— Imagine que um côco cai do coqueiro à beira do mar e mergulha na água. Se for um coco sadio, ele rapidamente volta à superfície sem sequer ter batido no fundo, por força de sua própria leveza que o expulsa da água. Entretanto, um côco apodrecido não tem o poder de flutuar, e uma vez que mergulha na água desce até o fundo e lá fica. O mergulho é a experiência negativa, e nós somos todos côcos. Por mais fundo que uma pessoa mergulhe, se ela não estiver podre, isto é, se não tiver renunciado à sua natureza, sempre poderá voltar para a superfície.

O que me pega é essa questão da natureza. Será que cada pessoa tem uma natureza, um propósito desconhecido de tornar-se si mesmo, como diz Demian? Será que cada pessoa tem um nome verdadeiro, que a descreve completamente e a partir do qual é possível compreender todas as suas atitudes?

Já levantei a questão do nome antes, e me surpreende com que leviandade meus amigos me mandam respostas para uma questão tão fundamental. Não me intriga a existência de um Deus, de fato, mas me intriga a nossa própria existência. Será que somos todos apenas partículas que se uniram por acaso, formando consciências sem significado que criaram arbitrariamente todo um universo de concepções que tenta explicar o que só existe a partir da nossa própria existência? Ou será que somos precedidos ou ao menos concomitantes a um mundo de idéias? O que é um conceito?

O que me aflige é que sem essa resposta não me parece possível distingüir se estamos indo para cima ou para baixo. Estaremos afundando como côcos podres ou voltando à superfície? Teremos asas para voar ou estas serão asas de cera fadadas a falharem a qualquer momento? Estamos voando ou caindo, mergulhando ou meramente afogando-nos? Isto que eu sinto é dor ou prazer? Estou morrendo ou isto é apenas começar a nascer? Sou um monstro, ou isto é ser uma pessoa? O que pode me fazer mal? O que pode me fazer bem? Será que alguma coisa na vida vale a pena?

O problema é que sem uma resposta não tenho um modelo segundo o qual conseguir enxergar o mundo. Eu vejo e sinto coisas, mas como saber se aquela núvem realmente anuncia tempestade, ou se ela será imediatamente varrida para longe? Não consigo dar significado ao que vejo, e assim é como se não visse nada. Tudo passa tão rápido, e na velocidade é ainda mais difícil enxergar, especialmente enxergar coisas sutis como a brisa, as folhas das árvores, as emoções contidas das pessoas.

A questão do sacrifício é fundamental. Tanto do que fazemos não nos traz prazer, entretando o fazemos, pensando num fruto futuro muitas vezes bastante distante. Mas diariamente vacilamos, sem saber se esse bem futuro é mesmo um bem, se ele vale a pena. E não temos como saber, porque não sabemos diferenciar bem de mal, porque não sabemos a que devemos dedicar nossas vidas, porque a cada instante nossas vontades mudam e nossos sonhos se tornam mais vagos e tantas vezes avessos ao que sonhávamos antes. Parece impossível realizar qualquer coisa sem se condenar a trabalhar naquilo em que já não se acredita ou sem, ao contrário, lançar-se sempre com toda a intensidade em trabalhos velozes, construídos vorazmente e que acabem logo, assim que acabar a paixão. Nesse caso, também, se não houver paixão não há viver, e corremos o risco de passarmos muito tempo mortos.

Enfim, comecei este escurso porque lembrei de uma revelação que me surpreendeu a respeito de mim mesma ultimamente. Uma dessas coisas que eu precisava ter gravado na minha carta para dali a cinco anos e que agora (bem, já passaram mais de cinco anos) meio que sumiu, e eu me sinto como se eu não fosse mais eu.

A vida toda tive a certeza de que teria filhos. Três, a menos que fosse rica, então mais. Ter filhos sempre me pareceu o certo, inqüestionavelmente certo, e não podia ser um filho único, e sempre me parecera que irmãos em dois brigam demais. Três eram o número perfeito, o número de ouro, e eu teria filhos lindos, e os ensinaria tudo o que fosse fundamental, e eles me surpreenderiam com sua individualidade, mas levariam adiante, com genialidade e graça, os valores do minha família. Até que, sem aviso, há algumas semanas, ouvi em mim mesma o pensamento: "é melhor então que eu não tenha filhos". Eu pensei que não seria bom ter filhos se eu não conseguisse ter uma família estruturada, algo como uma casa fixa, um marido, não demasiado distante das casas de meus irmãos, e se possível próximo aos meus primos, pais, tios. Mas naquele momento me pareceu possível que eu não conseguisse nenhuma dessas coisas em tempo hábil, e nesse caso eu preferiria não ter meus próprios filhos — embora ainda me restasse a opção de adotar, acabado o tempo hábil.

A verdade é que talvez mais importante que ter filhos seja ter amigos, alunos, pessoas cuja vida pode se transformar pelo meu toque, pessoas que eu posso influenciar, a quem eu posso revelar meus valores e torcer para que acreditem neles. O significado da família não se perdeu totalmente em mim, e eu ainda tenho a certeza de um dia ter sobrinhos, e não consigo conceber a vida afastada de minha família. Por outro lado, não sei mais se eu devo ter filhos, sangue do meu sangue, aquela coisa sagrada. Não sei o que estou disposta a sacrificar por isso. Existe muita coisa na minha vida que no momento me parece impensável sacrificar (e não estou falando dessas coisas típicas de gente que não tem grana e faz faculdade).

Se eu não conseguir encontrar a resposta para pelo menos uma das minhas perguntas, então não terá sentido ter filhos, para mais vidas de questionamento e passos no vazio na Perdição. Se eu me perder, não criarei um povo para vagar comigo. Mas é claro que nada posso dizer do futuro. Que sentido tem caminhar quando nada se enxerga? O sentido de talvez encontrar algo diferente, a que nunca chegaria se continuando parado. Entretanto... posso avançar tateando, não encontro a confiança para seguir com fé um caminho reto. Se não vejo nada, sinto apenas vagos cheiros... rastejo. A vida não tem nada para reafirmar nossa esperança, entretanto prosseguimos. O que devemos negar e o que devemos aceitar? Até que ponto eu devo me entregar?

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Estranho,

De repente, me parece que a label que tem os textos mais bonitos é "mãe".

Estranho.
Acho que eu me emociono muito quando lido com essas questões de mãe,

de fugir de casa
de conquistar minha independência
de querer te impressionar, merecer teu orgulho
te querer te proteger porque você também é humana
de tentar te convencer de que eu te amo mesmo quando quero sair de debaixo da tua asa

acho que é porque mãe é muito close to heart.

Curioso.

Mas também é lindo.

terça-feira, 25 de março de 2008

À vida, porque viver non necesse.

...the lines drawn on your hand...


Hoje estendi meu feriado para ir ao aniversário do meu primo de um ano. O primeiro aniversário. Primeiro de toda uma vida. Para mim ainda é estranho, quatro anos depois de o Ennzo nascer, ainda é estranho ter primos tão pequenos.

Mamãe não entende a estranheza porque para ela a vida foi uma grande constante. Não para mim. Passei tempo demais sem notar que as pessoas mudavam. Passei tempo demais sem me dar conta. Mas agora vejo claramente; agora o véu se afasta e o tempo me encara nos olhos, sem sorrir, mas também sem rosnar. Agora é a hora de nascer de novo; agora é hora de crescer. Tenho agora consciência, como nunca tive, das gerações. Agora uma nova geração de crianças nasce e cresce, e elas criam suas personalidades, e riem e choram, e aprendem, e em breve Ennzo e Bruno se tornarão rapazes, e terão suas brigas de irmãos, suas disputas, suas alianças. Eles crescerão e aprenderão aquilo que aprendemos, e outras coisas além. Eles terão melhores amigos e namoradas. Eles irão ao cinema e aprenderão a beber. Agora eu entendo, como não podia entender quando me apresentaram aquele bebê gordinho, três anos atrás. Alice aprenderá a engatinhar e balbuciará o que poderão ser palavras. Ela se apoiará nas coisas e nas pessoas para ficar de pé, e ficará feliz quando conseguir. Talvez essa seja a metáfora da vida do Homem. Nós nos apoiaremos nas coisas e nos outros para ficarmos de pé, e só estaremos felizes quando conseguirmos imitá-los.

Mas não é só isso. Minha irmã também crescerá, sairá de casa, se casará. Ela terá filhos que também aprenderão a andar, e seus filhos serão tão diferentes uns dos outros quanto nós somos diferentes; quanto Mamãe é diferente de seus irmãos; quanto Vovó é diferente de suas irmãs. Os velhos morrerão, talvez, e os jovens sofrerão (porque jovens sempre sofrem), e os adultos lutarão para serem o que sempre foram. E novas crianças nascerão, e suas risadas nos farão sorrir aquele sorriso exagerado, e as histórias delas serão contadas anos depois... Agora eu entendo.
Entendo que presente se criará através do passado, que se tornará dor e delícia nas nossas presentes lembranças. O grande sonho de criar uma família de muitas gerações, em que a história de antes precede a história de hoje, e todas são uma só e todas são importantes, se realizará. Será possível então lembrar daquilo que foi antes. Tudo aquilo que dói agora, também, se tornará parte da história. O mundo, pitoresco e completo, se realizará.


É esse o sentimento.

The journey, it mirrors... the journey, it mirrors...

É esse o sentimento!

...the lines drawn on your hand...

sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

Across the Universe

Olho para Sebastian, correndo atrás de mim com seu brinquedo pingando baba. Será que algum dia poderei amá-lo?



Encarava o monstro diante de mim. Ele não era feio. Não era mau. Só era velho e forte e irascível. Eu encarei o monstro, mas por pouco tempo. Depois, saí correndo. Saí correndo e me perguntei por que quisera encará-lo afinal. Saí correndo e me escondi nas sombras. Mas ele veio atrás de mim.

Às vezes, pra ser sincera, gosto de pedalar até a exaustão, e depois pedalar de volta, apenas para ficar tão cansada que isso se torne a única coisa que importa. Você me perguntou o que faz sentido, e isso é uma coisa que faz sentido: descansar, quando se está cansado.

Hoje quando Flor veio pedir meu colo, reparei que sua testa estava, na parte que deveria ser branca, rubra. Quis cuidar dela, mas ela não deixou. Ela está certa. Limpar a ferida agora faria pouca diferença. Há muitas outras feridas debaixo do pêlo. Eu quero proteger minha gata, mas não sei o que posso fazer.

Você entende?

Outra vez, eu encarei o monstro, lutei contra ele, sacrifiquei tudo o que podia sacrificar para dominá-lo. E quando o vi ferido, caído no chão, me afastei, cansada; voltei ao meu mundo sacrifeito. Acreditando-o victo, o mostro meu inimigo. Ai.
Me envergonha, até, crê-lo meu inimigo. Mas lutei, lutei e então parti. Mas não estava ele morto. E quando saí de meu catre, o monstro exibiu as presas; o monstro me abocanhou. Só por magia não sucumbi. Desde então, não ouso encará-lo, mais.

Também gosto de acumular tarefas e de executá-las todas no mesmo dia, de preferência emendando-as sem pausas. Hoje, por exemplo, foi assim, apesar de minha tarefa #1 ter sido adiada para amanhã e de eu ter me exaurido completamente durante a tarefa #3, o que me fez desistir da tarefa #4, que de qualquer forma ia ser bastante complicada.
Acho que o objetivo disso é não ir para casa, e não ter que esperar. Se eu passar o dia inteiro fora de casa, fazendo coisas, não vou desperdiçar nenhum minuto do meu dia. E vou viver esse dia como eu quiser, livre, independente. Estar a céu aberto também me deixa mais forte. Isso, e estar longe.

Em geral, o que mais facilmente faz sentido são as coisas simples: o mêdo, a fome, o calor do sol, o cheiro do mato. Há também coisas menos simples, mas indiscutíveis... como a ternura que desperta um bichano adormecido, ou o amor de um cão pelo seu dono. Há coisas essenciais, como respirar, como sentir a si mesmo... sentir o outro também. Há coisas revigorantes, como enxergar uma imensa paisagem, como ver o horizonte. Há as que dominam nossos sonhos, nossos desejos, nossas nossos objetivos, antes e depois de as experimentarmos... para mim, coisas como velejar e cavalgar. E há coisas fundamentais, como trabalhar. Work hard, work worth doing.

sábado, 25 de agosto de 2007

Pensamentos...

Acho que não é culpa minha. Digo, por que seria? Fico pensando em coisas do passado, às vezes o passado revela mais, às vezes menos. Algumas lembranças estão cheias de um ressentimento pegajoso que não quer sair. Outras estão vazia, limpas, pingando como louça no escorredor. E o tempo passa num ritmo contraditório, em que todas as coisas se tornam impossíveis. Outras vezes, acho que nós é que passamos pelo tempo, e é por isso mesmo que ele parece tão inatingível. Não é mesmo possível pensar no futuro — o futuro só existirá depois que o presente for totalmente corrompido em função dele. É por isso que tenho mêdo de seguir em frente.
Da mesma forma que as crianças às vezes sentem os ossos crescendo, às vezes sinto a dor do crescimento do meu espírito. Acho que algum dia foi determinado que este ano as coisas mudariam, e eu aceitei sem reclamar. Assim como todas as coisas fúteis que aceitei, sempre sem reclamar. Mamãe reclama, abatida, pensativa (e tanto temos pensado ultimamente), das coisas que planejamos fazer e não fazemos, das coisas que fazemos mal, sem planejar. Mas eu não estou escutando de verdade. Estou rindo das bobagens da vida, criando coragem para algo que acho que nunca terei coragem de fazer. Mas é como se eu já tivesse definido ou decidido meu destino, embora não tenha certeza de que ele me agrada. Hoje estou serena, calma — vocês deviam ter ouvido o que planejava escrever ontem à noite. Às vezes paro no alto das rampas da FAU e fico olhando maravilhada a estrutura do prédio. Sorrio quase sem querer, enquanto as pessoas passam às minhas costas, quase sem me notar. Mas quando me afasto do grupo recebo um sorriso ou um tchau nervoso. Sorrio de volta, aceno, falo qualquer coisa. Penso que preciso ser mais agressiva. Eu nunca planejei de verdade fazer essa faculdade por mais de seis meses. Até agora tudo tem sido um teste, um aprendizado. Fico pensando se terei coragem de fazer agora a grande mudança para o ano que vem. Penso nisso e vejo uma série de desvantagens. De novo, me sinto insuportavelmente pequena.
O começo de tudo está em aceitar todas essas pequenas coisas que não fazem sentido. Quando terminei de ler A Caixa Preta, pensei: "Essa história não faz sentido", e guardei o livro na estante, sentindo que havia algo errado e que eu estava corroborando para com isso. Senti a mesma coisa com o final de Rorouni Kenshin. Mas guardei as duas histórias num cofre no peito, sabendo o quanto elas haviam sido importantes pra mim, independente de seus finais desanimados.
Guardei também os meus dois meses no Senac, embora eles ainda sejam louça suja. Estou pensando em como vou guardar o tempo e os amigos que fiz e ainda pretendo fazer na FAU. Não: ontem eu disse, Nos cumprimentamos, às vezes até nos tocamos. Depois nos afastamos sem despedidas. Ele conversa com seus amigos da faculdade e eu... eu não tenho amigos. Tenho apenas a vontade de que eles sejam meus amigos e a vaga noção de que gostam de mim; mas quando a conversa acaba nunca tenho certeza de que ela recomeçará algum dia, como tenho com meus amigos. E o tempo passa ao mesmo tempo muito rápido e muito devagar, fazendo com que construir qualquer coisa pareça impossível. Todos os momentos parecem demasiado curtos para que possam fazer diferença, e muito distantes para formarem um conjunto. Assim tenho a constante sensação de estar começando sempre um contato novo, nunca se aproximando da situação de conforto — e ainda assim quando nos avistamos parece surgir uma ameaçadora obrigação de familiaridade, de um cumprimento cuja ausência parece determinar o fechamento quase definitivo das possibilidades de uma nova amizade. Como quando se conhece uma pessoa a muito tempo, já notaram como então é mais difícil se tornar próxima dela. Acho que é por isso que decidi que teria apenas seis meses. Se nesses seis meses não conseguir realmente me aproximar de pelo menos um dos meus colegas, vou ficar bastante desanimada. De novo, tenho a sensação de que eles se considerariam meus amigos; mas também tenho o estranho mêdo de que achem que eu não quero ficar perto deles. (acho que nunca descrevi essa questão tão categóricamente — e nem sei o que isso significa).

Chega.

quinta-feira, 21 de dezembro de 2006

Uma Vírgula.

Eu diria que o ser é apenas parte do não-ser, mas eu não acredito nisso. Ser em si é a razão de tudo o mais. A textura dos troncos das árvores, o cheiro da terra roxa e das folhas jovens que nascem nela, o sorriso do desconhecido diante de um gesto de simpatia, tudo isso justifica nosso desejo incontrolável de viver. Por viver.
Sinto-me como uma criança, que descobre um inseto novo, que faz planos complexos e os esquece em poucos segundos. Semana passada eu vi o meu primeiro louva-a-deus, e ele não era tão assustador quanto parecera. Durante essa semana que agora acaba, peguei o hábito de andar de ônibus, fiz um amigo, desenhei, fiz compras na Teodoro.
Mas tudo está ainda muito pela metade.
Sou uma criança que tem mêdo de errar, que só arrisca quando está sozinha, muito longe do olhar da mãe — porque a mãe, veja só, a mãe percebe todo erro muito logo, mas os desconhecidos acham que você sempre sabe o que está fazendo. Não conto mentiras, mas também não conto verdades. Respondo o mínimo, que quanto menos se diz menor é a chance de falar algo que ofenda ou fira. Mas será que o silêncio pode também causar uma má imagem?
Não acredito nas pessoas, porque sei que todas são más, por dentro ou por fora. Mas também são todas boas. Sou uma criança que precisa de carinho, compreensão, contestação, respeito, espaço, explicações. Para mim nada é óbvio, nada é simples, tudo tem um sentido profundo por trás. É preciso haver respeito, esforço, beleza, delicadeza, empatia, sutileza, aparência. É preciso valorizar o silêncio, a nudez e o ímpeto. E, principalmente, não se pode desprezar o café-da-manhã. Por mais que a noite seja a soberana dos sentidos e sentimentos, o café-da-manhã é a medida das coisas da alma.
Acho que a maior beleza da infância é a maneira como tudo se aprende. É preciso estar disposto a aprender, e cada coisa nova (e há tantas coisas novas!) é uma pequena aventura. É delícia a pequenez das coisas, tudo miúdo, conciso, sutil. A pequenez não admite desleixo, devassidão. A pequenez tem que ser imensa, rígida, estudada. Quando não se puder fazer nada, observa-se. Eu observo, olho, admiro. A visão é uma dádiva. Sempre que possível, faze um desenho de observação. Verás que as árvores são mais estranhas do que aquele serzinho plástico que desenhas. Admire. Não há perigo em olhar.

Não sei se há mais o que dizer. Quero fugir daqui onde tudo me assusta.

Vou sentir saudades, vou morrer de falta de ti, Gato. Me cativaste sem perceber e eu não sei mais viver sem ti. Não seja egoísta, não desapareça. Por favor.

Por favor, meu amor, não me abandone, que sou criança e não suporto solidão...

quinta-feira, 14 de setembro de 2006

Sobre ontem e hoje.

Eu estou feliz =)
Feliz porque eu sei que papai pensou com cuidado na minha proposta, e não só nela como na forma de me contar, e ele pensou com cuidado o suficiente para estar certo.
Feliz por subir em árvores antes da aula começar, por desenhar gosminhas, por correr na praça, por sentir o sol quente na pele fria e a sombra gostosa de se ler livros sobre o Rei Arthur e o problema humano da Força.
Feliz por passar mais tempo com meus amigos, por assistir aulas engraçadas com professores malucos em cadeiras apertadas, por comer azeitona e andar em ônibus vazio, por entender um pouco mais da vida de vocês, e da minha, por rir das suas piadas e poder fazer as minhas.
Feliz porque vou sair com vocês este fim de semana, porque vamos no parque e porque vamos ver aquela peça, porque faz muito tempo que eu não te vejo, porque vamos rir juntos como sempre, porque é simplesmente bom estar com vocês.
Feliz porque criei um dragão novo nos meus desenhos (e ele é lindo!), porque descobri alguns poemas velhos mas bons, porque me lembrei de como se discute com colegas e como se conversa com as pessoas, porque tenho acordado em horas propícias (depois do sol nascer! ^^) e tenho chegado no horário, porque posso escrever aqui sem mêdo de repressão.
Feliz porque nos encontramos finalmente (e devo dizer que foi só agora que o reconheci), e porque no final das contas você me diverte imensamente.
Feliz porque mamãe não desiste nunca de me dar forças, porque suas amigas me fazem perceber coisas que parecem pequenas mas são fundamentais, porque papai chega rindo e pega uma cerveja, porque não há razão nenhuma para se ter mêdo.

Sim, estou feliz porque já não tenho mêdo daquilo que me apavorava ontem. E ontem, quando a Rê pediu um brinde "à não-viagem", eu estava tão alegre, que realmente brindei ao fato de não ir viajar - porque, vocês sabem, depois que as coisas se arranjam, da melhor forma, construímos com elas castelos tão alegres quanto aqueles que perdemos (embora talvez menos cultos...).E cada batalha, por mais que não traga uma vitória concreta, me torna mais confiante e mais forte, desde que seguida por suficientes risadas de pessoas compreensivas. Estou feliz porque tenho vocês! E porque o mundo é bonito... e porque, no fim, depende muito de nós. E eu confio muito em nós. =^_~=

terça-feira, 12 de setembro de 2006

Desânimo Pós-Bom-Humor

Estou triste...
Estou triste porque acho que não há esperança...
Porque acho mesmo que nem vale a pena tentar... Mas... É que tem coisas na vida que a gente não pode decidir... Tem coisas na vida que ficam na mão deles... Tem coisas que não fazem diferença, que...

Estou triste porque não acredito no que estou dizendo... E porque a internet não me oferece mais nada... Porque tudo o que eu posso fazer é... tentar descobrir o que te aflije... enquanto penso... Será que existe alguma possibilidade dela me deixar ir?... Talvez seja um investimento grande demais, não sei. Mas eu sei que mais tarde isso tudo vai desaparecer... vai esvanescer...

Odeio ter que depender de recursos desconhecidos... Odeio ser apresentada a tantas possibilidades tentadoras, e não poder simplesmente aceitar... Bom, agora... acho que perguntar não machuca... Ao menos ao outros não machuca...

Aiai, essa minha vida tola...



Me desculpe, é só que eu gosto de repartir as coisas. Eu queria que você gostasse das minhas gosminhas. Eu queria que você me abrisse a porta do seu mundo. Mas eu queria tanta coisa... que acho que não vou pedir nada. Não tenho vontade de falar. E ainda...


...a cara que ele fez foi tão... embaraçosa...

domingo, 27 de agosto de 2006

Um pouco das minhas loucuras matinais...

Hoje tive um sonho tão estranho... Sonhei que Mamãe estava morta. Não que ela morria no sonho, mas que estava morta. E o Mauro Holanda nos ensinava trigonometria e fazia piadas com os alunos e chamava os meninos de gays. E uma hora eu olhei para o lado e lá estava minha vó Celma, com uma cara levemente preocupada... Então ela meneou a cabeça, apontando para trás de mim. Eu olhei, e vi minha mãe (outro fantasma), que começou a falar comigo...

Nessa hora algo aconteceu no mundo real e eu decidi acordar. O despertador tocou, eu o desliguei, uma, duas, três vezes... Então, não era mais o despertador tocando - era o telefone. Atendi, surpresa. Era o Yuri... Eu ainda estava tentando imaginar por que diabos o Yuri me ligaria àquela hora da manhã, quando ouvi sua voz.

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Andei até a mesa do café, estava me sentindo tão estranha... Lancei um olhar desanimado aquelas coisas todas que eu podia comer: pão, leite, queijo, manteiga, maionneise, mel. Meu corpo não teve nenhuma reação. Andei até a geladeira e peguei um pote grande de salada de frutas. E fiquei imaginando se não podia derramar alguma bebida alcóolica na sobremesa.

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Passei muito tempo olhando pela porta de vidro, o jardim ensolarado lá fora... Aqui dentro, um nó no estômago. Não sabia, o que dizer, o que pensar, o que sentir... Gatinha veio andando até bem perto dos meus pés. "Preciso dar o endereço da UNIP pro meu pai", pensei. "Preciso ir me arrumar, preciso ir logo, vou me atrasar..." Mas, no final, sentei no tapete da porta e continuei olhando pelo vidro da porta: "Preciso da minha mãe."
Mamãe ligou pro Yuri, enquanto eu me deixava cair sobre o tapete. Olhava pra fora através da cortina semitransparente. A gata se aproximou, e eu esfreguei a cabeça contra a barriga dela, pedindo carinho - a inversão da ordem natural das coisas... Então fiquei de gatinhas, olhando para minhas mãos; e no tapete haviam tantos animais mortos que eu tive mêdo de que, se eu ficasse ali muito tempo, ia acabar morrendo também. Pus os cadáveres para fora e me levantei.

Tudo que eu posso te dar é solidão com vista pro mar...

segunda-feira, 14 de agosto de 2006

Perdoa-me — coração aos pulos

Não queria que fosse assim. Queria me libertar, queria poder voar, mas não queria assim. Na perseguição dos meus sonhos, passei por vezes por campos que desconhecias. Fugi de ti, fugi, escapei do teu amor nos únicos lugares em que não me encontrarias. Mudei meus hábitos, passei a chegar em casa mais tarde, a chegar por caminhos diferentes, a andar com pessoas diferente; recusei-me a aceitar teus imprevistos e revoltei-me sem senhuma precisão de revoltar. Eu sei que fiz vários esforços para me afastar dos teus domínios. Esqueci-me deste teu lado humano, esqueci-me de que é preciso cuidado. Tentei te desafiar, quis ignorar teus conselhos, quis costurar minha própria fantasia e, na verdade, nem tentaste intervir. Foi tudo silencioso, eu só queria provar pra mim mesma, pra mim e não para ti, que na verdade eu sei fazer as coisas por mim mesma. Eu tentei me libertar de ti, tentei cortar este cordão umbilical, inventei meus próprios caminhos e fui pra casa sem pedir a direção. Tentei ensinar caminhos aos meus irmão, aos meus amigos, tentei ganhar respeito, tentei cuidar de mim. Conversei contigo de igual para igual, ri das tuas piadas, te abracei quando estiveste triste. Tudo para me livrar de ti, desta influência assoladora que me faz me perder na dúvida: será que sou eu que falo, ou será tua esta voz? Tentei de tudo pra me libertar de ti. Cheguei tarde em casa todos os dias, sem sequer explicar o porquê dos meus atrasos. Tentei até mesmo me aproximar de ti, na esperança de que a proximidade diminuísse essa minha credibilidade infantil, assim como a tua desconfiança de mim. Admito que cada passo para longe foi minha culpa, minha vontade, mesmo que nem sempre consciente. Mesmo assim, não era isto o que eu queria.

Perdoa-me. A culpa que sinto, eu sei que não chega aos pés da tua aflição. Eu menti ao dizer que esqueci; na verdade, quando ia para casa até pensei, preciso chegar antes que mamãe se preocupe. Pensei até, e o teria dito em voz alta se não parecesse inútil, quando nos encontramos. Será que ela se preocupará? pensei, mas não quis acreditar, e tanto não quis que não acreditei. Queria esse resto de liberdade, nunca mais ter que fazer qualquer coisas debaixo da tua grande asa. Me deixei esquecer, me deixei negligenciar o cuidado mais essencial. Na verdade muito do que conversamos não teria vindo à tona se eu tivesse tido a devida responsabilidade. Por isso, arrepender-me é difícil. Tudo é difícil. O que sinto agora é nojento, e nem um pouco gostoso. Meu mêdo é que com o tempo eu repita o mesmo erro (outra vez), e sob o mesmo pretexto. Perdoas-me?

Marina: olha para mesa, começa a chorar, e deixa os seus sonhos escorregarem um pouquinho em direção ao abismo infinito
Sent at 21:04 on segunda-feira

Se me quiseres perdoar, perdoa também a necessidade que sinto de ficar assim longe de ti. Perdoa também isto: lembrei-me agora do que me levou a querer, no ano passado, ir fazer faculdade em alguma outra cidade, longe de ti, sozinha. Perdoa minha solidão. Perdoa meu afastamento. Perdoa as minhas estranhezas e loucuras, perdoa-me por não me envergonhar de nenhuma delas, por conviver com pessoas tão assim tímidas, por nunca fazer o que gostarias. Perdoa a minha negligência, perdoa a minha falta de interesse nas questões que fazem tua vida. Perdoa por ser menor do que poderia ser, e por não me envergonhar disso também. E por não manter perto os bons amigos. Perdoa-me por me sentir mais tranqüila entre meus amigos do que jamais me sentirei em casa. Perdoas-me?

Olha, eu vou me perder, eu vou me machucar, mas cada palavra tua me dá mais vontade de cometer erros e sentir as melhores e as piores coisas. Perdoa-me por não ouvir o que dizes. Perdoa-me por ser tão insensível. Perdoa-me por não te compreender, e também por ser tão incompreensível. Perdoa-me por sentir-me presa, perdoa a minha dor, perdoa estes meus pedidos de perdão. Minha vida está nas tuas mãos — e eu vou continuar lutando para escapar dessa dívida impagável.

Eu te amo, mãe. Perdoa a minha impaciência... é que o céu parece tão bonito, e eu não consigo aprender a voar...

domingo, 13 de agosto de 2006

"Agora eu lembro porque eu tenho que dizer que te odeio"

As aspas são porque o que eu ia escrever não tem nada a ver com o que vou escrever.

Estou triste... Eu sei que essa tristeza vai embora quando eu sair lá fora e ver o céu azul, mas isso não me deixa menos triste agora... Não, me deixa ainda mais triste, porque tudo parece tão sem sentido... E nem posso te culpar...

Este ia ser um daqueles posts em que eu tento explicar prà minha mãe porque ela não pode me dar conselhos... Era um texto bonito, eu ia me orgulhar de escrevê-lo; daqui há um ano eu ia estar lendo posts antigos e pensaria "que post bonito" e ia me orgulhar de mim. Eram palavras bonitas, bem colocadas, quase um poema - mas não era verdade. A culpa... a culpa não é sua...
A razão dos seus conselhos doerem tanto, não é só que eu acredito em qualquer coisa que você disser. É que eu já estava pensando naquilo antes. O tempo todo. Eu fui assim, me perdendo por entre olhares cativantes, e quando cheguei no olhar dele apenas havia um companheirismo que eu queria reconquistar... Pra você talvez não faça sentido, mas você nào sabe a história toda, mãe. Nem eu posso te contar...

Olha, hoje eu acordei de um sonho estranho. Foi como uma adaga sem fio entrando no meu peito. Hoje acordei chorando. Com raiva, de mim, de você, de todos. Agora também eu não estou dizendo a verdade, porque eu sei que não foi apenas carência que me fez fazer o que fiz. Se fosse, eu teria que acreditar que eu cometi um grande erro.
"E quado eu digo grande erro eu quero dizer um erro imenso
Um erro tão monstruosamente grande
Que me faz me sentir tão insensível
Quanto Mara, que matou seus dois amores
Que matou seus dois anjos com as próprias mãos."

Hoje eu acordei e pensei que não estava feliz. Que aquilo era apenas tranqüilidade, era apenas contentamento. Hoje eu acordei chorando. No meu sonho, a Clarinha ria porque eu e o Charles não conseguíamos explicar pra ela a história da China, enquanto subíamos nas rochas pela praia. No meu sonho, um navio maravilhoso era levado pela tempestade até dentro da caverna onde tentávamos nos esconder, e quase nos esmagava. Todos iam embora pela tempestade, saindo temerosamente da caverna segura. A Lori ria, quando na caverna vazia uma onda mais forte me jogava em cima de você. Mas você não era quem eu esperava...

Você disse que o melhor talvez fosse o mais difícil. Mas não é apenas difícil, mãe, é praticamente impossível, insuportável.

quinta-feira, 27 de julho de 2006

Os dias vão passando devagar...

...as coisas não encontram seu lugar / tudo muda, menos a saudade de você...

Se eu já não tento te trazer
de volta nesta canção
Só peço pra não me esquecer...
não ouça esta paixão...

A chuva já parou de me lembrar,
com gotas que não param, seu olhar
Tudo muda, mesmo o que eu sinto por você...



I don't wanna loose you in yourself, and I don't wanna loose myself in you...


Ultimamente tenho contado os dias.
Vocês que me conhecem devem entender que quando eu começo a contar os dias é porque algo está terrivelmente errado. Porque há algo que eu quero que acabe logo ou que comece logo. Mas não é simplesmente isso. É também porque estou com mêdo de alguma coisa. Mêdo de que minha expectativa seja em vão, como quase sempre é.
Estou com mêdo do vestibular também. Tanto que nem falei aos meus pais ainda o que eu acho que acho que quero fazer.

E desde que pensei em começar a escrever este post (há um ou dois dias...) deu para elevar isso a um raciocínio minimamente complexo...
É que... Vocês sabem aquela sensaçào típica do dia seguinte, o dia seguinte a uma festa que você esperava há meses, seguinte à volta da melhor viagem do ano, seguinte ao primeiro beijo do cara que você queria faz teempo, seguinte ao seu aniversário, ao natal, a uma loucura, a uma conquista, ao ano-novo, a uma nova experiência, a um reencontro, a qualquer coisa importante? Aquela estranha sensação de vazio, de falta de objetivo, de confusão entre o presente e o passado, de reconstrução, de falta, de vontade de continuar o que começou no dia anterior, de impaciência, de depois-do-fim. Aquele frio na barriga que dá quando a gente pensa "Agora que passou a razão da minha ansiedade, eu posso ficar tranqüila, está tudo resolvido...", mas vê que está tão ansiosa quanto antes, mas agora sem saber realmente pelo que se deve esperar...
Eu imagino até que existam bons dias-seguintes, em que não se sinta aquela estranha ressaca moral de não ter agido como podia na hora certa, ou simplesmente de não ter agido, mesmo sabendo que era impossível... Imagino dias seguintes em que se continue o que foi começado, em que algo se desenvolva, em que não haja aquela espera indecisa por um toque de telefone, ou em que a espera seja interrompida por um sms dizendo "Estou na praça pôr do sol. Venha agora." ou qualquer coisa igualmente egoísta e ao mesmo tempo necessária, alguma coisa que me obrigasse a me sentir diferente, transformando o dia anterior não na morte de uma situação, mas na criação de uma nova.

Mas nunca é assim.

E na ansiedade estranha que estou sentindo agora, na ansiedade que estranhamente se amaina conforme a contagem regressiva vai chegando ao fim, vai crescendo em mim um mêdo, um mêdo de ir percebendo todas as falhas dos meus planos (criadas certamente por meus próprios mêdos e escrúpulos), um mêdo de não saber se conseguir o que desejo vai realmente me trazer qualquer alegria, ou se só vai trazer mais dor, mais mêdo, mais sofrimento e dúvidas e dívidas e todo aquele mar pegajoso no qual eu nadei por tanto tempo e no qual agora ando mergulhada até os joelhos, me esforçando para chegar à terra seca. E eu não quero mais dúvidas e dívidas!! Eu não quero ter que me importar com os sentimentos de pessoas que querem que eu não queira o que eu quero!
Mas quanto mais penso, quanto mais tenho vontade de gritar, quanto mais ando para fora desse mar, mais a corrente se esforça em me puxar para dentro, e minhas pernas, desacostumadas ao meu peso, fraquejam e tremem como uma chama exposta ao vento. Eu tento olhar para o futuro, um futuro brilhante, alegre, onde boas surpresas me acordarão para o café, mas quando respiro fundo e dou mais um passo adiante, essa luz desaparece e vejo um futuro retalhado, composto somente de dias-seguintes. Eu não tenho boa experiência com dias seguintes...

Então outro dia minhã irmã me falou certas coisas que me convenceram de que estava tudo errado. Tudo errado, desde o prinípio! Mas todas as formas de fazê-lo certo estão ainda mais erradas... Parece que toda a nossa forma de viver estava funcionando às avessas, de forma que mesmo nós não compreendíamos bem o código pelo qual nos comunicávamos (e eu não posso dizer que tenha sido completamente sem propósito essa nossa incompreensão), e que nossos próprios movimentos estavam em desacordo com aposição que assumíamos tomar perante a sociedade. Tentamos ser ao mesmo tempo aristocratas e foras-da-lei, e todos sabem que isso só funcionaria com uma complicada rede de mentiras, segredos e disfarces -- mas nós ousamos assumir publicamente as duas identidades, como bicho do mato, inconscientes da nossa prepotência.
E é claro que ela estava certa, não é possível ser tão despudorados como nós somos, tão carinhosos, tão infantis e sem limites. Mas que fazer? se não consigo de forma alguma aprisionar meus sentimentos em caixas sociais, se é somente em liberdade que eles sabem expressar-se plenamente, e mesmo assim com dificuldade? Que fazer, se na verdade esse carinho exagerado é mais uma tentativa de revirtuar o afeto, desvirtuado por outro tipo de carinho exagerado? Que fazer se na verdade o que falta é somente dizer em voz alta o que todos já sabem, e não ousam dizer em voz alta?
Eu sou um animal. Não preciso de beijos, nem de sexo; posso viver sem devorar os homens que amo. Mas ainda assim sinto falta do seu cheiro, do seu gosto, do seu calor, sinto falta de todas essas coisas que fazem falta. O resto, ficar, namorar, beijar, transar, viajar, trocar cartas, conversar et cetera, o resto são apenas meios de saciar essa carência, de preencher esse vazio. O resto são apenas meios. A ordem das coisas é uma questão humana, social. A existência delas, não necessariamente. Todo o problema na verdade está na ordem das coisas, que permite que elas se concretizem ou não (como no jogo de GROW). Como eu disse antes, tentar salvar essa situação com novas ações e elementos seria um erro, pois não mudaria a ordem original do que já foi concretizado. Estamos numa situação virtualmente insolúvel.

Mas... Mas não é uma proposta que mereça ser de todo abandonada, apesar de termos começado com o terceiro pé. Acho que ainda podemos tentar, começar de novo, começar pelas coisas simples até que possamos compreender de verdade, com pele e nervos, o o tic-tac do relógio que criamos. Assim: você me chama para sair, conversamos, comemos alguma coisa, damos as mãos ou, em outro caso, os braços, discutimos arte, filosofia, tentamos aprender coisas novas, ficamos algum tempo sem nos falarmos, nos encontramos no lugar de sempre. Será que ainda é possível ser assim?






PS.: eu achava que sabia do que estava falando quando comecei a escrever. Quando terminei, vi que estava falando de algo completamente diferente.

PPS.: hoje a Lu me fez compreender uma coisa que de outra forma eu não aceitaria... mas essa coisa se torna muito mais complicado tento em vista o segundo significado que atribuí a esse texto depois de escrevê-lo.

PS*.: eu resolvi aumentar o número de posts na página da frente porque aparentemente eu escrevo bem mais do que o normal durante as férias... (embora elas já estejam quase no final...)

PS**.: a música no começo é uma adaptação de Carta, fechamento de Yuyu Hakushô

PS***.: eu sei, eu não precisava de tantos peésses, mas eles são divertidos de escrever...

segunda-feira, 26 de junho de 2006

Essa força

Eu gosto disso.
Essa sensação estranha que nasce no peito e se espalha para a ponta dos dedos, fazendo o corpo se arrepiar, a garganta se abrir e querer cantar, até que domina meu corpo inteiro. Esse pulsar estranho dos dedos dos pés, essa temperatura única do ar nos meus pulmões, essa sede e essa vontade de chorar. Esse nervosismo desnecessário, essa impotência, essa vontade de viver, essa serenidade e essa urgência. Essa paciente impaciência. Principalmente a impossibilidade total de imaginar qualquer coisa, e a delícia de sentir apenas, essa melodia estranha que me põe totalmente à sua mercê.
É quase como estar apaixonado.
De certa forma, acho que ler e ver tantas histórias de amor me torna mais propensa a esse tipo de sentimento. Mas é a música a grande causadora desse meu tormento deleitoso, essa espécie de dor agradável que só se compara à tensão ansiosa dos amantes. É a música.

But his voice
filled my spirit
with a strange, sweet sound . . .
In that night
there was music
in my mind . . .
And through music
my soul began
to soar!


"Aiái, Guanabara", diz o Mário de Andrade dos meus vagos pensamentos. E eu sussurro para mim mesma coisas tenebrosas.

... ... ...

É claro que não posso transmitir por texto a emoção que passa aquela voz tão...
doce.,
aguda.,
desejosa.,
baixa.,
sussurrada.,
trêmula.,
sutil...

Só então...

Ou ao menos é como ela canta em minha imaginação, como um último pedido desesperado, fraco, rendido, como o remorso apaixonado do Chevalier Mal Fet ajoelhado aos pés de sua dama, como um beijo quase um sussurro, um sopro de beijo de Lancelot nos cabelos de Guenevere... Como pode Christine depois desse sopro ainda poder dizer que quer se afastar da noite para sempre, que quer apenas o dia
e tu sempre ao meu lado
meu futuro e meu passado...


Ah, Christine, como pode você querer tanto o dia?! Como pode escapar do delírio fantásmico da noite, da Música da Noite e do toque apaixonado de um fantasma que destrói o mundo pra te recriar... Ou não? Será? Será? Será...?

...
Eu diria que são tipos bastante distintos de amor.
...


Sei lá, viu?
















Pronto.
Branco.
Assim é melhor, esse vazio, esse azul.
Meu peito está mais sossegado, não canta agora.
Eu continuo sem entender completamente como é possível, o amor é tão orgulhoso...
"A generosidade é o oitavo pecado capital." De fato. Pessoas generosas acabam cedendo aos seus amores, aos seus impulsos, não porque são vis, mas simplesmente porque amam demais o mundo para vê-lo esvaziar-se do sentido compulsivo que lhe dão. Essa intensidade vemos como uma riqueza, e tememos sim a morte, e não a queremos nem para os outros. Os generosos sempre lutarão, mesmo que seja contra Deus. Por isso Lancelot, Arthur e Guenever eram muito generosos para verem o Graal. No fim, o amor deles, amor impuro como todo amor no fundo é, foi mais forte que a fé.
E essa força, essa ânsia luta justamente contra a pureza, que quer um mundo despido, um mundo perfeito. Acho que assim respondo à sua pergunta, mãe. Não quero ser budista, porque o budismo só tem sentido se for completo, e eu, embora preze a completude, não busco a perfeição. Não é que eu não acredite na perfeição. Acredito; assim como acredito que existam os Princípios Absolutos, que só serão alcançados depois de abandonados os Princípios Efêmeros. Mas eu prefiro, talvez até mesmo porque sou tão jovem, eu prefiro saborear a minha sede de vida, eu prefiro a Paixão, a Humanidade. Somos todos imperfeitos, e nunca seremos perfeitos, mas somos, por isso mesmo, completos. Pesados. Eu gosto de ser um animal.

Vê?; eu não sou tão contraditória assim.
Quando foi que falei que os maus precisam ser amados? O assunto agora é o mesmo.
Mas acho que agora que vi a peça eu entendo porque a moça não fica com o fantasma no final. É um pouco patético, entende? O homem não tinha futuro, diferente do jovem conde com quem ela se casa. A noite talvez seja um sonho para quem é capaz de negá-la. Outros, porém, conseguiriam viver nela. Mas a vida seria de qualquer forma curta... Acho que tanto amor fora suficiente para ela - agora ela deveria querer uma vida com alguém mais autoconfiante e menos desesperado. Ela amou o Fantasma, afinal. Mas, na peça, ao menos, ele não estava preparado para ser amado, assim, depois de não haver mais volta. Toda a situação era impossível...

Sabe, uma das coisas boas de ser jovem assim é se sentir tão pequeno que não dá pra ter medo de tudo. Nem dó. O mundo é uma descoberta, uma aventura.

quarta-feira, 26 de abril de 2006

A Menor Idéia - (a)

Vocês não têm a menor idéia do que estou sentindo.
Vocês não fazem a menor idéia desta raiva e frustração.
Vocês não podem saber desta vontade de urras que os odeio...
eu gostaria que não soubessem nunca.
Mas não posso ocultar.

Vocês não têm a menor idéia de como dói.
Vocês não têm noção do que me persegue,
Mas no fundo eu também não tenho a menor idéia.

Eu não quero dizer que te odeio
Eu não quero te fazer chorar
Eu não quero te fazer desistir de mim
Eu não quero parecer amarga
Eu não quero que me vejas chorando

Mas eu não quero continuar assim...

domingo, 22 de janeiro de 2006

Sobre tudo aquilo que eu pensei, fiz, senti ou disse em toda a minha vida

Antes que me perguntem o que quero dizer com este post, pergunto-vos o que pergunta o Quintana: que quis dizer Deus com este mundo? Mesmo assim, peço a todos os que lêem meu blog para lê-lo, e lê-lo de verdade e por inteiro, já que, afinal, eu simplesmente não serei capaz de dividi-lo em muitos posts diferentes...

Este não é um post para ser terminado. Por princípio, não pode estar completo nunca. Por experiência, sei que à medida que o for escrevendo descobrirei não apenas mais coisas para dizer, mas também que ainda não terei dito a maior parte do que terei pretendido. That's life.

Como eu gosto de começar pelo mais prosaico, vou lembrar daquilo que me forçou a abrir a janela deste post definitivamente. Estava eu procurando algo para ler, e, como sempre, abri o piano. Dentro do piano, entre as cordas grossas envolvidas por lãs coloridas, estava a partitura de uma malodia doce e distante, como o choro das sereias, e os pensamentos daqueles que a amam... E no fim dos comentários, enquanto pensava sobre o que eu teria a dizer àquela menina que tanto me desperta o interesse... esbarrei sem querer no comentário de Digo.
Não sei explicar de fato o que senti, pois não me vieram palavras naquele momento. É só que, de algum modo, aquela declaração tão aberta de amor e ternura me pôs no chinelo. Mesmo. Hoje andei até o Rosano de chinelo. Não tive coragem de escrever nada para pôr depois daquele textículo tão... doce. De tempos em tempos algumas pessoas tem que nos lembrar de como são doces. O Digo e a Lori são casos típicos... Me lembra de quando eles eram as únicas pessoas no meu mundo que me faziam crer realmente naquilo de o amor trazer felicidade... Afinal, eu não era nem um pouco feliz, e a maior parte dos meus amigos sofria horrores com suas paixões... Mas eles...
Eles corriam pelo pátio em brincadeiras juvenis como pequenos gatos felpudos e negros e fortes e doces como os tigres, as bruxas e os deuses...
E acho que em algum momento eu dei ao meu amor uma segunda... ou terceira, ou quarta... bom, mais uma chance, e foi provavelmente a melhor coisa que já fiz. O ano novo com o Yuri foi o mais próximo que eu jamais tive de um ano novo de verdade... Nauqle instante em que ele me olhou com aqueles olhos de azul-profundo e dis: "feliz ano novo."
O ano começou ali.

Meu pai:
— huhuhu

Não tenho o que dizer sobre tudo isso. Saudades, solidão, e eu aqui desesperadamente apaixonada...

Então lembro daquela chuva de cigarras e de como os agrônomos orgãnicos tem certeza de que a causa das pragas é a monocultura, e que deveríamos plantar ecologicamente, colocando no solo tantas calorias quantas tiramos dele... e que eucalipto é uma planta tão vilã quanto os vilões das histórias em qaudrinhos. E é estranho, porque de repente, acho que eu realmente SEI do que estou falando quando digo que não devemos ser tão cruéis com a natureza. E todo aquele papo sobre o detector de mentiras usado nas plantas e etc. e o fato de todos os seres, incluindo as árvores e os anjos, serem imperfeitos, porque, não sei, acho que somos todos feitos de sraf! E somos fruto de uma sucessão de erros e acertos, e nunca chegaremos à perfeição justamente por causa disso... Então, devemos nos acalmar e aceitar-nos como indivíduos, em toda a nossa completude animal, espiritual e humana. Entretanto, o que fazemos será sempre imperfeito e incompleto, pois somos apenas parte do processo. Todos temos dificuldades que não conseguimos superar e não suportamos ter de contornar. Nós sabemos que não sabemos como lidar com todas as situações, e nos preocupamos em aprender e procurar o certo, o perfeito, mas sabemos também que nunca acharemos a reação definitiva, pois a situação será sempre diferente e nós nunca estaremos 100% adaptados ao meio ambiente. Com isso, temos um desafio maior do que o que realmente encaramos: o de ousar saber como agir, e o de agir sabendo que a ação não será a melhor possível, não será tudo o que pudemos fazer. ... We are never gonna get there. We are never gonna be all we were meant to be. 'Cause, no matter how dragon you are inside, you are still human in your conscience, and human beings aren't mythological creatures; human beings are real.

Talvez nisso se resuma toda a minha frustração. Sabe, algo que eu percebi nesses últimos poucos meses é que eu simplesmente não consigo parar de me comparar com meus irmãos. Eu sou incapaz de parar de admirar quão responsáveis, independentes e capazes eles são, em oposição a mim, que nunca consigo impressionar a mim mesma. É incrível como eu me sinto inútil e imprestável perto deles, e como, por mais que eu me esforce para ajudar, para fazer tudo o que me pedem e para ser a primeira ..... This is just bullshit. You'll all say I'm lying, and you'll be right. I know I didn't mean it, but I just did it. I really want to help, I want to, I want and I try... Y' know... Eu quero sempre pegar o cabo da genoa e puxá-lo nem que seja só para dizer: olha pai, eu sei o que fazer, você não precisa confiar só nos seus outros filhos... mas quando ele diz p'r'eu ir e pegar o leme e manter o rumo eu nem sei fazer isso eu viro a roda e giro e quando chega no rumo eu paro de girar como se fosse um videogame e soltar a roda fosse fazer ela voltar pro lugar e meu pai reclama mas eu nem sei o que estou fazendo de errado, e obviamente ninguém me diz porque obviamente todo mundo acha que eu sei porque isso é óbvio e eu devia saber, mas eu não sei e eu não sei como eu deveria saber do mesmo jeito que eu não sei como as pessoas sabem das fofocas e das notícias e das CPIs e porra... e de novo eu me vejo pequena gritando em pensamento com minha mãe porque ela gosta dos meus escritos mas não gosta quando eu perambulo por aí ou em volta da mesa ela não sabe que uma coisa depende da outra ninguém sabe porque ninguém é mosquinha ou ninguém presta atenção porque todos já têm aquela velha opinião de mim aquela visão cousa-pequena-viajante-que-fala-em-eneroide-e-é-inteligente de mim e talvez por isso eu queira ser uma metamorfose ambulante para que ninguém tenha uma opinião velha e podre e formada de mim mas eu faço tudo outra vez o xixi de gato o copo no quarto e durmo outra vez e deito da cama com fama outra vez e acho que é por isso que ninguém confia em mim quando eu digo ninguém para quando eu não gosto porque eles sabem você sabem vocês querem que eu reaja mas porque eu reagiria se vocês já sabem e eu não posso nem negar porque piora, vocês não querem perder a discussão mas eu não vou mentir eu não vou deixar pra lá eu quero que prestem atençào em mim mas eu não quero que vocês me ouçãm pedindo então por que eu estou escrevendo aqui que é um lugar onde todos vão ler e por que eu vou postar eu sei que vou e por que eu corrijo quando erro mas não posso interromper nem com pontos e vírgulas e travessões e aspas e parênteses e eu estou sim in love eu só não sei porque ninguém lembra que eu já deixei aquilo tudo para trás mas eu ainda quero que vocês me digam o que fazer para eu provar que sou tão capaz e eficiente quanto o marco por mais que isso seja difícil e por mais que ele seja o máximo e adulto e masculino e lindo e tenha passado na faculdade e ande até o metrô sem ficar muito cansado mas saiba também os ônibus para lá e seja organizado e artista e o melhor irmão do mundo e lembre das pessoas e não desista de comprar presente só porque é difícil e eu nem sei mas por que eu estou escrevendo aqui? Eu devia ter saído e passado aquele roxo permanganato de potássio no Argus afinal... afinal, provavelmente ele só ficou tão ruim como está porque eu não passei pomada nele logo no começo, essa era a minha função e eu não cumpri e eu não quero me pôr em primaeiro lugar nme aaahhhhh nem o quê? Eu não quero que meus cães fiquem mal porque eu não dei atençào para eles, nem que a mamãe fique estressada e passe o dia trabalhando porque eu não ajudei com o que ela quis que eu já deveria saber e acho que eu provavelmente sei eu não fiz o presente da ada nem do yuri nem da kiki nem do tutu nem de ninguém nessa ordem e eu queria me desculpar mas desculpas é o que se pede quando se vai se suicidar mas eu não vou me suicidar porque só idiotas pensam seriamente nisso nós somos imperfeitos demais para ter um ápice verdadeiro você sabe que está se enganando fingindo que ó amor verdadeiro eu sei que é lindo e perfeito e que eu não deveria estar dizendo isso mas eu fiquei tão brava quando pensei isso mesmo eu fiquei com muito medo daquele respirar quente tão perto da minha boca e eu tive tanta raiva porque eu posso te entender racionalmente mas algo no seu aparelho de sentir deve estar quebrado pra você não achar isso muito errado gostar dele não é errado o problema é você não querer mais ser nem você por causa disso agora vamos fingir que eu não falei nada porque eu não queria falar disso mesmo foi só algo que veio como uma torrente eu li hoje e-mails antigos e só pra você e pro cham quando eu não conseguia mais ser amiga dele eu sofri tanto num e-mail talvez porque o yuri não goste muito de e-mails por mais lindo e gotoso que ele seja ele não entrou suavemente no meu mundo pois não era como eu nunca vai ser como eu mas ontem nós ficamos juntos e fizemos macarrão com ovo e nos beijamos e mordemos e abraçamos e fomos ao cinema e recebemos ligações das nossas mães com certo incômodo e um certo excesso de comprreensão e foi ótimo e delicioso só nós dois mas quando não somos só nós dois quando há eu e ele junto nós somos meio estranhos porque nós falamos em línguas diferentes e eu sinto tanta vergonha quando falo numa outra língua mesmo que ele entenda searching for the answer to my riddle às vezes me dá uma vergonha tão grande porque eu queria ser mais brasileira e nacionalista e informada e saber no mínimo se o Gabeira é assim tão legal quanto parece, mas ao mesmo tempo não sei se quero mesmo saber ou se só espero uma confirmação de qualquer coisa...

E de novo... eu nunca quis ser a ovelha negra da família... Mas cada vez que parece que eu nem existo pra falar e me defender eu quero não existir mesmo, eu quero sumir... eu quero... que você se orgulhe, pelo menos um pouco, ou nào, pelo menos tanto quanto você se orgulha dela, pai, pelo menos o suficiente para eu conversar com você como ela conversa pai, assim de igual pra igual... assim sem medo de te desapontar pai, de dizer qualquer coisa que não devia ter dito, de não ter o namorado perfeito que me traz e me busca e está aqui todo dia e compra um veleiro (um veleiro!) e conversa e se sente à vontade, mas sabe...
Eu sei que eles não fazem isso por mal... eu sei que eles não querem me machucar, e também não quero que eles meçam cada uma de suas palavras antes de falar com a marininha-de-louça.. Eu sei que eles só fazem isso por mim sabe, para me educar e proteger, e isso só me deixa mais desarmada... Porque meus irmãos sabe, eles são cobrados também, mas eles ficam irritados e reclamam, brigam, lutam, começam a voltar pra casa só à meia-noite, dizem "mande a Marina fazer isso", tentam conversar racionalmente e se desgrudar dos pais, mas eu... porra, eu só quero conseguir conversar com meus pais, porque eu não consigo realmente reclamar com eles porque realmente eu faço muito menos do que os meus irmãos...

Yuri: Boa Noite, Mali!
Lembre-se de desligar o computador.
Marina: ij. .,m
y u eser i
Yuri: você estava aí!!!!!!
Marina: yrui
ruyi
uriu
yuri
Yuri: ufa
Marina?
Marina: eu odeio a minha família, sabe?
Yuri: Duvido.
Mas por que você diz isso?
Marina: não sie
mas eu constantemente me sinto insuficiente perto deles
e sinto que você também é insuficinte para eles
cada vez que meu pai reclama que eu não pego o ônibus
que você devia vir me buscar
Yuri: Ele diz que eu devia ir te buscar?
Marina: toda vez
Yuri: Toda vez que você vem para cá?
Marina: mesmo que você esteja do outro lado da cidade
toda vez que ele tem que me levar até o metrô ou alfgo assim
para algum lugar que não seja sua cas
Yuri: Realmente não gosto dessa idéia, mas acho que vou começar a fazer isso.
Sent at 00:30 on sexta-feira
Yuri: quer que eu te ensine a ir até o metrô de ônibus?
Marina?
Sent at 00:35 on sexta-feira
Marina: quero
eu não quero pedir nada pros meus pais, yu
nunca mais
eu não quero sentir que estou sempre devendo pra eles
Yuri: tudo bem.
Marina: abusando deles
Yuri: Tudo bem, Marina.
Farei o que eu puder, tá bom?
Marina: ta
onde... onde eu arranjo um mapa?
eu sempre quis um mapa de são paulo
pra eu poder aprender a andar sozinha
Yuri: um mapa completo?
Marina: como assim?
Yuri: todas as ruas?
Marina: sim
ou não
Yuri: Em qualquer banca tem os Guias.
Marina: ou pode ser só da região
mas ele são tão... livros...
Yuri: Aqui na Pamplona tem uns caras que vendem mapas de parede...
mas não deve ter muitas ruas.
Marina: vou lembrar disso
nbão dá pra ter tudo
Yuri: No Listão OESP tem mapas da cidade toda.
Você deve ter coisas assim na sua casa.
Marina: devo
Yuri: www.apontador.com.br
Marina: mas não são minhas
eu teria que pegar emprestado, xerocar, sei lá
Yuri: procura o seu endereço e imprime um mapa dos arredores da sua casa.
Eu não tenho nada disso também.
Assim que eu te encontrar, vou dar um mapa da rede de transporte metropolitano.
Marina: ^^
Yuri: Mas não começa a andar por aí, pegar metrô, trem, ônibus sozinha.
Marina: como assim?
Yuri: Depois pode, mas não vai direto.
Não é porque você tem os mapas que você sabe andar.
Você precisa saber prestar atenção.
Marina: no sentido de que eu vou me perder ou... algo pior?
Yuri: Não. Os mapas te fazem não se perder. No sentido de que você pode ser assaltada, roubada, surrupiada, sequestrada...
Marina: sabe o que é? eu passei minha vida inteira esperando que as pessoas simplesmente... me ensinassem, sabe? a fazer as coisas
Yuri: Sei.
Marina: mas ninguém teve essa iluminada idéia
e eu nunca tive coragem de pedir
já que aparentemente eu já devia saber
Yuri: não devia não...
Marina: ou eu não devia nem pensar nisso
Yuri: quer dizer, devia, mas é esperado que não soubesse.
Marina: ou eu devia pedir ajuda para "alguém"
ou "em outra hora"
mas nunca havia outra pessoa ou outra hora que eu percebesse
talvez fosse só eu que não percebesse
porque todos pareciam muito ocupados com suas próprias vidas
e por um momento eu me sinto até agradecida por meus pais terem me dado à luz
como se eles tivessem me presenteado com a vida, me feito um grande favor
uma caridade, como uma carona
Yuri: E é bom que você tenha em mente que isso tudo é uma bobagem.
(Não o que você sente)
Marina: Mas eu não posso mais esperar que alguém me ensine yuri
e é sim o que eu sinto
Yuri: o que você quer, então?
Marina: eu não sei
essas coisas que todo mundo diz que eu não sei... como andar na rua, como prestar atenção e etc... às vezes eu acho que eu já sei
ou que, mesmo que eu não saiba, nada nesse mundo vai conseguir me fazer saber mais do que eu já sei, além da experiência
Yuri: Mas é exatamente experiência!! Só experiência vai te fazer saber mais.
Marina: só que quando eu estou acompanhada por alguém que sabe mais do que eu e anda mais rápido que eu e não fala nada eu simplemente não , não presto atenção mesmo!
eu presto atenção em andar e seguir e confiar e esqueço de ser independente
Yuri: É. você está falando de mim.
Marina: e do meu irmão
e de todos os outros que andam comigo
eu não consigo pensar em ninguém que ande comigo e que não tenha essas características
Yuri: O que você quer que eu faça?
Eu vejo um cara andando atrás de nós, a rua está vazia, ele consegue escutar o que a gente fala. Ele entrou numa casa, mas e se não entrasse? e se ele estivesse mesmo seguindo a gente?
E se ele tivesse uma arma?
E se...
Marina: ...
eu odeio esse mundo
eu não consigo yuri
ficar sempre em segurança
Yuri: Eu falo: 'Marina, anda rápido', você não anda. Eu falo de novo, você percebe que eu estou afobado.
Marina: ou talvez eu devesse fazer como o luque e a luda e praticar andar rápido
Yuri: Então eu nunca vou ficar tranquilo com você andando sozinha por aí.
Você não precisa andar rápido!
Marina: NÃO????
Yuri: Quando eu posso, eu danço no meio da rua!
Marina: Você lê o que escreve?!?!?!
Yuri: Eu danço no meio da Avenida paulista!
Not connected - [Quando você fala "anda rápido" eu ando rápido e você continua achando que eu estou andando devagar porque eu já estou cansada e você mal começou a andar...]
Sent at 01:05 on sexta-feira


Chega. Eu não quero mais desabafar... desabafar dói e meus ouvidos não suportam mais minhas naridas inutilizadas...

Sabe, hoje eu fiz uma promessa para mim mesma, no momento em que vesti esta minha camiseta amarela com dragão. Eu prometi que ia registrar os meus sonhos das últimas noites no diário de sonhos que comecei em dezembro. Claro que eu não cumpri a promessa, mas não é isso que me faz sentir mal... é que, sei lá... my dreams will eventually fade away... I had such a good dream today... Estávamos num lugar com árvores, e tínhamos chegado lá numa viagem com o carro abarrotado...era uma península gramada agradabilíssima e todos os meus amigos do meu ano do santa estavam lá. Estavam todos comendo o almoço que os adultos da viagem haviam feito, mas o Bruno apareceu com uma comida diferente e apetitosa e eu fui com ele até a praia pegar daquela comida... e encontrei o pessoal que já saiu do santa, gente das turmas de 2005, 2004 e 2003, fazendo um pique-nique à beira-mar, e enquanto eu abraçava a Mari Rocha a Paulinha levantou chorando e dizendo que não esperava ou não queria que nós estivéssemos lá já que era um almoço de ex-alunos, mas ela sentia muitas saudades...

*sigh* Tenho tido sonhos muito estranhos... Há poucos dias, logo depois deste sonho do churrasco, tive outro em que nós salvamos três cavalinhos size of a dog da morte por falta de cuidados do dono, e os levamos para a Cajaíba, onde os colocamos junto com as famílias de classe média-alta que viviam nas casas do meio (uma delas com três andares!)... Os cavalinhos se chamavam Benwy, Benji (machos) e Brenda (fêmea), e eram todos castanhos, mas no final do sonho veio de Paraty um quarto cavalinho também doente ou ferido, mas este era colorido, este fugiu de seu dono, e ele se chamava Lucas. Alguém me explica?
E depois (dia 31) tive aquele sonho sobre o Cavalo Branco, no qual inclusive eu tentava acariciar o cavalo e sem querer pegava a mão do Lucas... mas não sei se o cavalinho do sonho chamava lucas por causa deste Lucas. Também, acho que o Cavalo Branco merece um post só seu...
Enfim. Anteontem o Bruno Salles veio aqui e ficamos uma porção de horas conversando sobre filosofia, ninjutsu, o Corpo, psicologia, sonhos e análise de sonhos, sociedade, sonhos e mais uma porção de coisas... No mínimo eu diria que isso abriu ainda mais minha cabeça... o mundo é um lugar confuso e estranho, e preservar nossa espécie passa SIM por preservar tudo ao nosso redor. Plantation é muito nocivo demais para nós todos, vegetarianismo leviano é doença, lutar contra o mêdo não é ignorá-lo, a prática nem sempre faz a perfeição. Nem tudo precisa ser questionado, nem tudo precisa ser aceito, nem todos os valores são bons, nem tudo o que é ilícito é mau. Nem todas as pessoas estão certas. Às vezes nós estamos preocupados demais em aceitar para observar o que aceitamos. Isso não é admiração, isso não é inclusão: isso é ignorar o próximo em prol de um valor vazio. Algum personagem de quadrinhos já disse que um valor ensinado como a honestidade ou a coragem ou a generosidade ou a justiça ou a liberdade não é um motivo bom o suficiente para se matar alguém, por mais errada que essa pessoa seja. Da mesma forma, um princípio inquestionado tido como auto-evidente dificilmente justifica qualquer fim. E não, os fins não necessariamente justificam os meios, e o oposto também não é 100% verdade.
"Um ditado espirituoso nada prova" - dizia... quem era mesmo? Voltaire?

No mundo em que vivemos, os royalties não têm sentido: não conhecemos absolutamente nada sobre quem criou os objetos que tanto usamos. Então, por que haveríamos de querer pagar-lhes qualquer coisa, quando podemos adquirir o mesmo objeto por um terço do preço feito com um pouco menos de capricho por alguém que não vende uma etiqueta? E no resto das questões, será que não há nada durável e barato que não inclua destruição em massa de seres vivos inocentes e ignorantes (árvores por exemplo)?