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segunda-feira, 2 de maio de 2022

Museu dos que Já Foram

Em torno do toco de árvore reúnem-se fantasmas

Este caibro deitado já esteve erguido
Estes pedaços de pau já foram haste
A roda carcomida era suporte
Este caco de cerâmica já foi parte parte 

Esta tela enferrujada já foi arte 

Pendurada numa árvore frondosa
a sucata de metal balança e tine
parafusos e pinos e mosquetões
que já trabalharam pesado 

hoje são um sino no jardim

segunda-feira, 4 de maio de 2020

experimento com redondilhas e medo do futuro

Do you ever just
see yourself fall down
in slow motion

Vôo suborbital
Desacoplo jatos
Por um momento - estrelas
O horizonte azul -
Periapsis negativa
Apoapsis no passado
Eu em queda livre
Em câmera lenta
Vejo-me chegar
À alta atmosfera
Rápido demais

Aceleracão
Gravitacional
Inexorável

Alta atmosfera
Virado pra trás
Vejo só - estrelas.

Queimo em reentrada
Atravesso nuvens

...

Tenho paraquedas?



domingo, 22 de setembro de 2019

A few translations

(this is mostly so I can post hese on tumblr)

Veils

we grow used to seeing ourselves through veils
the veil of the cradle
of love
of the night
of lies

one day, we're so enveiled
we can no longer tear the veils apart from the flesh
the gauze thick with blood clotts
clotts the gaze

tear off the veils and the flesh is raw

blood flows

---

Spider webs

Once upon a time your words stuck in my mind like spider webs.

Today the spider webs in my mind are memories of other people, with different words. Of your words, only this one sentence remains, this question. You said, one day, after an argument and a confession, but still no forgiveness: that you had never even imagined that I too could have suffered.

Never

My suffering, as if cast in glass
Transparent
My suffering silent, hidden
in the back of the kitchen cupboard, behind the porcelain for special occasions,
stacked as glasses without even a napkin between them
and when I try to unstack them, they're stuck
together by the weight of time
even light things, left alone for years, they weight
and mark
and hurt

even our own body, if still, hurts itself.

---

The Woman and The Victim

It's no accident that "vítima" is a female word,
I think,
every time I hear those stories of violence

Meanwhile a boy is battered to death
by his father
for enjoying doing things - girl's things -
such as washing dishes -

Meanwhile a woman is under arrest
- all restraining orders violated
helpless
she welcomed her ex-husband home
with a gunshot.

--

In my body
the identities of the Woman and the Victim
challenge each other
each certain
to be the other

--

Road.
A man and a woman speak
- neither of us is straight
all are white -
about a violent story we watched at school

She
talks about trauma
she was too young
the scene, too strong
- a group of men rapes a housewife -
She, being a woman,
immediately puts herself in the victim's shoes
Safe in her chair and - violated.
- The Spectator
Through her body
the violence
of all the men in the world
over all the women -

He
was young enough
to never have actually questioned
the nature (his) of violence.
He, being a man,
questions
putting himself in the shoes of the monster.
- The Spectator -
"A Great movie", he says,
"Everyone should see it."
- through his body the violence
of every man
- potential -

My body,
neither his nor hers,
Mixes, muddles
both experiences
- completes -
my body was old
precocious
already hairy
little red riding hood inside the wolf
- Victim - I instatly related to the woman
, but
precisely because it hurts
I wear also the hide and the fangs of the monster.

--

It terrifies me
to imagine that even earlier, I
(could)
- before I became -
could have been born a victim
(how much scarier)
could have become a woman through the stories

But it's precisely because it hurts
that I enjoy violent stories.
With wolf eyes I watch
the violence
and with wolf mouth I ask
- is it possible to tame a monster?
With wolf nose I search
people
my peers
are the ones bleeding

--

It's no accident that Victim is a female word
We men are Blue Beard, Beast, Wolf, absent Father-King and Prince Charming
fighting the monster that is us
We women are little red riding hood, snow white, and Blue Beard's wives,
and Beauty
watching the fight of the beast-men
We survive on their scraps
transforming them
or transforming ourselves into them
, but, for us, men, this way out is closed
(this rereading)
we monstrify ourselves and wait
for a woman who will humanize us
who will redeem us
and give her life for (to) us
- No,
the way out is to die
at the end of a western movie,
monster to the end.

- dead before feminine -

, but,
for us women the end is mourning
or death
buried in glass, or under a house,
melted by fire or by water
or married to the King, or to Blue Beard.

terça-feira, 10 de setembro de 2019

Carente

Era quase meia noite, e um toque
muito suave do seu nariz no meu
e eu queria falar
dos seus cabelos loiros
eu queria falar desse seu toque doce
dizer
"carinhoso"
e eu
"carente"
às vezes as palavras ficam lost in translation
às vezes as bocas se perdem pelo caminho

Tantos kilômetros de céu

Eu tento alimentar meu corpo com comida
Mas minha boca deseja outra
Eu me abraço debaixo das cobertas
Faminto

O sol nasce várias horas mais cedo
E eu acordo aqui sozinho

Os corpos que passam por mim parecem poços de luz do sol
E eu como uma planta jovem me retorço inteiro para voltar-me para eles
Cada sorriso, cada mínima abertura
Meu coração se entrega completamente
Nenhuma célula do meu corpo deixa de se lançar
Te conheço a apenas dez dias mas já me pego sonhando com você

Todo esse sofrimento
Mas não é você que meu corpo deseja tão desesperadamente
É qualquer coração aberto
Qualquer meio-flerte
Qualquer roçar acidental de pernas ou
recomendação de livro ou
levantar de sobrancelhas ou
qualquer bom-dia

terça-feira, 14 de agosto de 2018

Quando nasci

(obs: achei este texto na pilha de rascunhos, e entendendo que o final dele precisa ser reescrito e tal, mas estou numa vibe de publicar coisas mal-escritas, então aqui vai)

----

Algumas semanas antes de eu nascer, um homem olhou para o meu corpo e disse: mulher.
Minha vó se alegrou de saber que teria uma netinha.
Minha mãe se recusou a saber, ela disse: já tenho uma menina e um menino, o próximo bebê pode ser o que ele quiser. O que vier é lucro.

Eu sou lucro.

Quando nasci, um homem olhou para o leu corpo e disse: mulher.
Me tiraram do colo de minha mãe. Me mantiveram numa cama estéril. Me devolveram para os braços de meu irmão bebê que gritava: minha! Minha! Minha!

Toda criança não pertence a si mesma.

Minhas tias comemoraram meu corpo chamado mulher. Minhas primas me deram espaço nas brincadeiras dos vestidos, das maquiagens, das fadas. O mundo maravilhoso de ser mulher.

Meus primos (e os outros meninos) me disseram que quem jogava mal era mulherzinha, que mulher era covarde, que mulher era ruim, e assim eu aprendi que me chamavam de mulher para me ofender. Mulher era um palavrão.

Quando eu mudei de escola, as crianças ouviram meu nome e souberam: mulher. As meninas me adotaram, me incluíram, me ensinaram as delicadezas, as brincadeiras, os assuntos de mulher; os meninos se afastaram e me afastaram, e tiraram sarro, e puxaram meu cabelo e me chamaram de muitas coisas, às vezes por nojo, às vezes por interesse; e eu aprendi que eu precisava participar da separação entre homem e mulher.

Quando eu cresci um pouco, eu descobri que meu corpo era proibido, que só podia ser visto por aquelas que tinham um corpo semelhante ao meu; que se eu quisesse interagir com meu corpo, revelar meu corpo, trocar os panos que cobriam meu corpo, eu precisava me esconder de todos os que não eram mulher. Eu não entendi; mas eu entendi que meu corpo era mulher, que meu corpo me separava e me limitava ao conjunto das pessoas que se chamavam mulher.

Nas aulas de educação física, o professor olhou pra mim e disse: mulher. Então ele me fez fazer exercícios mais leves, me obrigou a me esforçar menos, baixou suas expectativas sobre o meu desempenho, e muitas vezes me impediu de jogar futebol, porque eu era mulher; e eu aprendi que mulher era fraca, lenta, incapaz e ruim, que eu não tinha mira, nem força, nem fôlego, nem reflexos, e não adiantava eu tentar mostrar que eu tinha, que eu era, que eu podia fazer, porque mulher não pode, não tem, não é; assim era toda mulher.

Quando eu me senti só, um menino olhou para o meu corpo e disse: mulher. E desejou meu corpo e minha companhia, e fez amizade comigo, porque eu era mulher. E ele me permitiu me sentir importante, e inteligente, e querida, como nenhuma pessoa jamais me fizera sentir. Quando nossa amizade cresceu, eu chamei de amor; não amor daquele tipo proibido que só podia haver entre homem e mulher, mas amor daquele tipo doce que se tem entre irmão, entre irmãs, entre familiares e pessoas amigas. Mas ele me pediu em namoro, porque o amor dele era daquele tipo estranho que significava que ele era homem e eu era mulher e o corpo dele, diferente do meu, desejava o meu corpo, diferente do dele. E eu aprendi que eu poderia ter amigos se eu fosse desejável como mulher.

Conforme cresci, minhas amigas e meus amigos me perguntaram, cada vez mais insistentemente, de que menino eu gostava, e eu entendi que eu precisava gostar dos meninos (daquele jeito estranho que só meninas podiam gostar de meninos, e que envolvia romances e beijos e a separação entre homem e mulher), e que os meninos precisavam gostar de mim (dessa forma estranha que só os meninos podiam gostar das meninas e que envolvia corpos e beijos e a separação entre homem e mulher), mais que das outras meninas, e que competir pela atenção do menino que eu gostava era ser mulher.

Quando meus seios cresceram, meu irmão adolescente olhou pro meu corpo e disse: mulher. E eu percebi seu olhar e senti que ele também me via através das divisões e separações e através dos nossos corpos, e que o amor que ele tinha por mim, aquele amor de irmãos, estava manchado pela sugestão daquele gostar que existe entre homem e mulher.

Quando meus pêlos cresceram, eu fiquei feliz de me aproximar mais de uma fera, de uma lôba -- mas logo descobri que pêlos precisavam ser arrancados, em longas sessões de tortura, e eu aprendi que o sofrimento era parte de ser mulher, e que eu não podia ser um bicho, ser selvagem, ser loba, enquanto eu fosse mulher.

Conforme cresci, eu comecei a valorizar apenas as meninas que faziam amizades com meninos, as que recusavam a separação rígida entre os sexos -- mas porque o mundo adolescente era feito da separação entre homem e mulher, nossas amizades se encheram de cotonações sexuais, porque amizades entre homem e mulher sempre se misturavam com aquele tipo estranho de gostar que vinha da reunião dos sexos separados. E eu soube que eu precisava participar desses jogos, e que só podia jogar na posição de mulher.

Eu tentei resistir.
Com meus amigos de internet, eu brincava que era homem, ou bicho, ou fera. Nós falávamos de não ter sexo, ou de poder alternar entre os sexos. Nós falávamos de abraços masculinos, e de não ter vergonha do corpo um do outro. Nós falávamos de amizade, aquela amizade entre pessoas irmãs, um paraíso perdido anterior à cisão entre os sexos, do passado (que eu imaginava que houvesse existido) onde nós havíamos sido livres das limitantes separações entre homem e mulher. O paraíso, anterior aos sexos.

Adolescente, eu decidi que não ia me impôr a vergonha do corpo, que eu podia sim tirar a roupa na frente do meu melhor amigo, meu amigo-irmão; e o fiz. Mas adolescíamos, e eu senti o olhar do meu amigo, e percebi seu desejo, aquele estranho desejo que só um homem podia ter sobre uma mulher, aquele desejo sobre o corpo, sobre cada pedaço de pele exposta ou sugestão de forma; e entendi que eu nunca mais poderia mostrar diante de um homem meu corpo mulher. Minha amizade com homens, a partir dali, seria sempre limitada pelo meu corpo de mulher.

E quando meus pêlos cresceram tão rápido e tão fortes que removê-los passou a ser um tormento, e eu comecei a usar shorts mesmo com pernas peludas, minhas amigas riram de mim, e eu entendi que a pior coisa que eu podia fazer como mulher era ter características de homem.

Mas quando eu descobri que vários dos meus amigos mais íntimos me amavam e me desejavam como mulher, eu entendi que eu era uma mulher amável e desejável, e que eu podia fazer meus amigos felizes sendo mulher.

Depois disso, quando eu comecei a sonhar com os olhos dourados de uma mulher, eu tive mêdo de sequer interagir com ela, com mêdo de que eu não fosse capaz de atender às expectativas de qualquer mulher
 
Depois disso, quando meu amigo me contou que ele era gay, eu tive o baque de aprender que eu podia partilhar amor com um homem que não desejava meu corpo de mulher; e ao mesmo tempo o baque de desejar um homem que jamais desejaria meu corpo de mulher..

E depois, quando eu comecei a namorar o rapaz que declamava seu amor a princesas de corações gélidos, eu odiei esse amor cortês, e decidi me afastar o mais possível da idealização que ele tinha de mulher. E depois, quando eu decidi me afastar dele, eu decidi começar a explorar o que poderia ser me comportar como uma mulher.

Então eu comecei a usar vestidos, e saias, e toda aquela parafernália que me faria mulher; e depois eu descobri que eu não sabia usar maquiagem, mas que poderia não usar, e que se eu raspasse as pernas, não precisaria depilar, e que haviam formas de escapar a algumas partes do sofrimento de ser mulher.

Quando virei mulher, eu compreendi que eu podia tentar resistir à imposição de ser mulher.

Quando eu consegui assumir minha sexualidade, e ir atrás de vivê-la satisfatoriamente, eu descobri que outras pessoas gostariam até das partes mais bizarras, das partes que eu detestava, do meu corpo de mulher. E eu aceitei que meu corpo não era nojento, errado ou deformado, através do desejo e do sexo e do olhar dos homens.

E quando eu entrei em paz com minha sexualidade, eu consegui fazer amizades tranqüilas e honestas e profundas com outras mulheres, e eu descobri que muitas delas também se revoltavam contra o sofrimento de ser mulher; e eu descobri que eu podia lutar contra cada pequeno pedaço do modelo de mulher.

Depois disso, quando eu deixei meus pêlos crescerem, e eu senti o triunfo de voltar a ter patas de fera, os homens vieram atrás de mim me dizer o quanto eles me admiravam na minha coragem como mulher; e eu não consegui dizer a eles que pouco me interessava ser julgada como mulher.

Quando eu encontrei outra pessoa como eu, e brinquei com ela sentindo que nenhum de nós era homem e nenhuma era mulher, eu me dei conta de que eu nunca estava realmente feliz enquanto eu fosse reconhecide como mulher. Mulher era uma prisão, uma corrente que me atava. A liberdade era a fera, a resistência, e o nada.



Quando nasci, eu olhei para o mundo com meus olhos que não eram nem de homem nem de mulher.

quinta-feira, 22 de março de 2018

Desgaste

Mas estas nossas conversas sempre me desgastam tanto
fico repensando
remoendo
é difícil diferir
difícil ser
se definir em fronteiras
existir como ente

Me sinto esgarçado
desconectado de tudo o que importa
incapaz de amor ou paixão
mas ainda capaz de emoções passageiras

que as emoções peguem carona em mim
que eu as leve de um lado para outro
essa idéia me apraz
mesmo que eu nada forneça
minha fornalha move a maria fumaça
meu fogo apenas consome

que eu seja forja
me tragam metais e os esquentem em mim
que não sou fonte
nem preciso ser

fogo cozinha também
que eu seja forno
que torna as coisas comestíveis
palatáveis
e reconfortantes

essas conversas me desgastam porque eu sigo tentando enxergar tudo por todos os lados
eu coliseu
fazendo o jogo entre todos os papéis
não quero defender ninguém
mas tanto mêdo de te perder
tanto mêdo de te perder
tanto mêdo
tanto

de te perder como já perdi tanta gente

me desgastam porque toda conversa agora a gente tem que entrar como si mesmo
acabou o anonimato
e usar a máscara de Eu faz com que ela comece a desalinhar
tudo o que se usa muito acaba desgastando

seria mais fácil ser Eu como conceito abstrato guardado na estante
como livros bem-conservados porque nunca são lidos
mas ficar levando e usando de todos esses modos
a coisa acabada degenerando
depois de alguns anos, a foto 3x4 está tão apagada aue poderia ser qualquer um
e a película na qual o nome impresso já descascou quase toda
e fica um pouco de vergonha de tentar renovar o documento
será que ainda tenho direito? ou já passou tempo demais, e perdi a vag

terça-feira, 20 de março de 2018

Doesn't fit

We stretch a little and notice we don't quite fit

We stand
as a toddler
in the crib
(quite annoyed)
trying to figure out how to get down and go to the adult's bed

Our clothes, our beds, our shoes
too small
we shed
painfully
Our mothers at our favourite coat: take it off, it doesn't fit!

And at the family lunch
we don't fit at the adults' table, so we sit
with our cousins and siblings
in tiny kid-sized chairs
unconfortably

At the soccer game we can hardly breath
we want so hard to win
a sports bra from the year before is suffocating me

We take it all off

We stand
before so many closets
full of clothes that don't fit

Before a party
trying so many cute dresses
each more hideous than the one before it
none fit.
And we just want to fit in so badly
but I don't know where we fit in
or what to fit in as

So we try
dresses and suits and coats and shirts
we despair
we take it all off

we stumble through life
changing ill-fitting costumes
(such time wasted in changing rooms)
always inappropriate
sometimes naked
towards a final box
made to the measure of our bodies
where we don't quite fit.

---

A gente se estica um pouco e nota que já não cabe

De pé
criança
no berço
(incomodada)
tentando decidir como sair dali e chegar na cama dos adultos

as roupas, as camas, sapatos,
pequenos,
perdemos
com sofrência
A mãe pra blusa favorita: tira isso, não te cabe!

E no almoço de família
A gente não cabe na mesa dos adultos
então senta
com os primos e irmãos
nas cadeiras pequenas da mesa das crianças
desconfortavel.

E no futebol mal dá pra respirar
a gente quer tanto ganhar
mas o top comprado ano passado tá sufocando

Tira essa merda toda

A gente fica parado
na frente de tanto armário
que não serve.
No dia da festa
experimentando tanto vestido bonito
cada um mais horroroso que o outro
nada serve.
E a gente quer tanto se encaixar
sem saber onde é que a gente entra
muito menos
como o quê.

Então fica experimentando vestido
calça terno blusa camisa chapéu sapato
nada cabe
a gente chora
nu

A gente vaga pela festa
se trocando
mas nada nunca serve
(tanto tempo desperdiçado na frente do espelho)
sempre destoante
às vezes nu
pra chegar na última caixa
feita na medida do nosso corpo
que não cabe.

Tempestade

Tenho escrito uns poeminhas, não sei bem se estou feliz com eles nem o que fazer deles, acho que vou deixar aqui.
Segue

---

Uma tempestade
cai a luz com estrondo
e árvores
dentro de casa
lá fora o furacão
janelas cerradas ar abafado
calor parado
silêncio, perante barulho
sozinhos
fora do ar
no escuro.

Opção
abrir -- lá fora respirar
o ar tempestuoso
rir--correr--molhar-se--friagem
(que a idade)
(e também, pra quê?)
e aqui
aconchego na cama e
quem sabe silêncio e
pensar.

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Véus

nos acostumamos a nos olhar atravez de véus
o véu do berço
do amor
da noite
das mentiras

um dia estamos tão atravessados
que não conseguimos mais arrancar os véus da carne
a gaze embebida em sangue coagula
coagula o olhar

arrancar o véu e ficar em carne viva

carne viva

quinta-feira, 22 de junho de 2017

Teias de Aranha

Houve um tempo em que todas as tuas palavras grudavam na minha mente como teias de aranha.

Hoje as teias de aranhas em minha mente são memórias de outras pessoas, com outras palavras. Das tuas palavras resta somente esta frase, esta questão. Me disseste, um dia, triste, depois de uma briga e uma confissão, ainda sem perdão: que nunca imaginaras que eu também pudesse ter sofrido.

Nunca

Meu sofrimento, como de vidro
transparente
meu sofrimento, solitário, escondido
no fundo do armário da cozinha, atrás das xícaras de louça para ocasiões especiais
empilhado como copos de vidro sem nem um pedaço de guardanapo entre eles
e quando tento desempilhar, estão grudados a vácuo
pelo peso do tempo
mesmo as coisas leves, se deixadas paradas por anos, afundam como se pesadas
e deixam uma marca
e machucam

mesmo nosso próprio corpo, se parado, machuca a si mesmo.

quarta-feira, 17 de maio de 2017

A Mulher e a Vítima

Não é à toa que vítima é uma palavra feminina,
eu penso,
toda vez que ouço essas histórias de violência

Enquanto isso um menino é morto espancado
pelo pai
por gostar de fazer coisas - femininas -
como lavar louça -

Enquanto isso uma mulher é levada a réu
violadas todas as ordens de restrição
desamparada
recebeu o ex-marido em casa
a tiros.

--

No meu corpo
as identidades da Mulher e da Vítima
se desafiam
cada uma convicta
se ser a outra.

--

Estrada.
Falam um homem e uma mulher
- nenhum de nós hétero
todos brancos -
sobre uma história de violência que vimos na escola

Ela
fala de trauma
era muito nova
a cena, muito forte
- um grupo de homens violenta uma dona de casa -
Ela sendo mulher
imediatamente se pôs no lugar da vítima
Segura na poltrona e - violada.
- A Espectadora
Passa pelo corpo dela
a violência
de todos os homens do mundo
por todas as mulheres -

Ele
era bastante novo
para nunca ter realmente questionado
a natureza (sua) da violência.
Ele sendo homem
questiona
se colocando no lugar do monstro.
- O Espectador -
"Um ótimo filme", ele diz,
"Todos deveriam ver."
- pelo corpo dele a violência
de todos os homens
- potencial -

Meu corpo,
nem dele nem dela,
Mistura, confunde
as duas experiências
- completa -
meu corpo era velho
precoce
peludo, já
chapéuzinho dentro de lobo
- Vítima - me identifiquei imediatamente com a mulher
, mas
justamente porque arde
visto também a pele e as presas do monstro.

--

Me apavora
imaginar que antes ainda eu
(poderia)
- antes de ter me tornado -
ter nascido vítima
(quão mais assustador)
me tornado mulher através das histórias

Mas é justamente porque dói
que aprecio as histórias violentas.
Com olhos de lobo assisto
a violência
e com boca de lobo pergunto
- é possível domesticar um monstro?
Com nariz de lobo procuro
pessoas
minhas iguais
são as que sangram.

--

Não é à toa que vítima é uma palavra feminina
Nós homens somos Barba-Azul, Fera, Lobo, Rei-pai ausente e Príncipe Encantado
lutando contra o monstro que somos nós
Nós mulheres somos chapéuzinho, branca de neve, e as esposas do Barba-Azul,
e Bela
assistindo a luta dos homens-monstro
Nós sobrevivemos dos restos deles
transformando-os
ou transformando-nos neles
, mas, para nós, homens, não há essa saída
(essa releitura)
nos monstrificamos e esperamos
uma mulher que nos humanize
que nos redima
e dê sua vida por (para) nós
- Não,
a saída é morrer
ao final de um filme de caubói
monstro até o fim.

- antes morto que feminino -

, mas,
a nós mulheres resta mortalha
ou morte
enterrada em vidro, ou debaixo de casa
derretida por fogo, ou por água
ou casada com o Rei ou o Barba-Azul.

sábado, 13 de maio de 2017

A Mulher e a Vítima (primeira versão, sem cortes)

Não é à toa que vítima é uma palavra feminina,
eu penso,
quando uma mulher é estuprada pelo pai

Enquanto isso um menino é morto espancado
pelo pai
por gostar de fazer coisas - femininas -
- lavar louça -

Não é à toa que vítima é uma palavra feminina,
eu penso,
quando uma mulher é morta pelo marido

Enquanto isso uma mulher é levada a réu
violadas todas as ordens de restrição
desamparada
recebeu o ex-marido em casa
a tiros.

--

No meu corpo
as identidades da Mulher e da Vítima
se desafiam
cada uma convicta
se ser a outra.

--

Estrada.
Falam um homem e uma mulher
- nenhum de nós hétero
todos brancos -
sobre uma história de violência que todos assistimos na escola

Ela
fala de trauma
era muito nova
e a cena, muito forte
- um grupo de homens violenta uma dona de casa -
Ela sendo mulher
imediatamente se pôs no lugar da vítima
Segura na poltrona e - violada.
- A Espectadora
Passa pelo corpo dela
a violência
de todos os homens do mundo
por todas as mulheres -

Ele
era bastante novo
para nunca ter realmente questionado
a natureza (sua) da violência.
Ele sendo homem
questiona
se colocando no lugar do monstro.
- O Espectador -
"Um ótimo filme", ele diz,
"Todos deveriam ver."
- pelo corpo dele / a violência
de todos os homens
- potencial -

Meu corpo,
que não é dele nem dela,
Mistura, confunde
as duas experiências
- completa
meu corpo era velho
precoce
peludo
(chapéuzinho dentro de lobo)
- Vítima - me identifiquei imediatamente com a mulher
, mas
justamente porque arde
visto também a pele e as presas do monstro.

--

Me apavora
imaginar que antes ainda eu
(poderia)
- antes de ter me tornado -
ter nascido vítima
(quão mais assustador)
me tornado mulher através das histórias

Mas é justamente porque dói
que aprecio as histórias violentas.
Com olhos de lobo assisto
a violência
e com boca de lobo pergunto
se é possível domesticar um -
a violência
Com nariz de lobo procuro
pessoas
minhas iguais
são as que sangram.

--

Não é à toa que vítima é uma palavra feminina
Nós homens somos Barba-Azul, Fera, Lobo, Rei-pai ausente e Príncipe Encantado
lutando contra o monstro que somos nós
Nós mulheres somos chapéuzinho, branca de neve, e as esposas do Barba-Azul,
e Bela
assistindo a luta dos homens-monstro
Nós sobrevivemos dos restos deles
transformando-os
ou transformando-nos neles
, mas, para nós, homens, não há essa saída
nos monstrificamos e esperamos
uma mulher que nos humanize
que nos redima
e dê sua vida por (para) nós
- Não,
a saída é morrer
ao final de um filme de caubói
monstro até o fim
- antes morto que feminificado -
carregado por valquírias

, mas,
morto o herói
a nós mulheres resta a mortalha
ou a morte
enterrada em vidro, ou debaixo de casa
derretida por fogo, ou por água
ou casada
com Rei ou Barba-Azul.

terça-feira, 19 de março de 2013

Mulher Não Sabe Brincar

Mulher não sabe brincar.
Não dá pra brincar com mulher.
Mulher leva tudo à sério. Mulher é séria demais.
Mulher não entende que a graça está em ser escroto.
Mulher não entende que homem não pensa assim de verdade.
Mulher não sabe entrar na brincadeira.
Mulher bate forte demais.
Mulher não entende que não é pra machucar.
Mulher não entende que é pra xingar, não pra ofender.
Mulher acha que é sério.
Quando homem bate de brincadeira, mulher revida a sério.
Mulher não entende a brincadeira.
Mulher é violenta demais.
Mulher é nervosa demais.
Mulher é histérica demais.

O cara tava só falando, não tinha porque ela partir pra agressão física.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Mar

E reiterando a minha dor
Eu me arrastei pela orla do mar
A areia arrranhando minhas pernas
E eu cheguei na outra pedra
Onde era quente, e macio e duro
Eu escalei a outra pedra
sentei e fiquei olhando o mar
O mar batendo duas ondas furiosas
O mar que não me alcançava mais

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Aftermath

Love, lust, friendship, alcohol
I'm not sure of which we have become
Everything is blurry, people in a hurry
To prove that they are young and wild and fun
Pictures of dancing, all is recomencing
Why do I suddenly feel so old?
People getting wasted, but I just wanna taste it
And I'm not sure of what shall now unfold

And I don't feel free
I want you with me
But that doesn't mean I want everybody
I feel so stuck
Everything's so fuckedup
And I start to feel like I don't own my body

Dance, lust, playing, alcohol
I'm not sure I like where this is going
Everything is changing, seems nobody's aging
I can't see how far this thing is growing
Pictures of hot babes, dudes are liking always
How the fuck can this joke never get old?
People getting wasted, but I still wanna taste it
I want to be respectable and bold

And I don't feel fine
I give up this time
But inside I feel like I hate everybody
I feel so used
But I'm still confused
Like I failed to be of anyhelp to anybody

Love, trust, friendship, fun times
But I have no idea of who you all are
Everything is lacking, I see myself respecting
A way of things disturbing and bizarre
Pictures of cool guys, people telling old lies
Say everybody's hot, nobody's cold
People getting wasted, but will they ever taste it?
Feel's like it's all irrelevant and old

And I feel like

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Paralelismo

Faço uma breve pausa para falar do meu recurso poético estrutural favorito, o parelelismo. Tentei achar boas referências na internet sobre isso, mas eu sou muito ruim em procurar coisas na internet na verdade.

Paralelismo sintático se constrói repetindo a sintaxe em duas orações paralelas, como por exemplo quando eu digo "Maria estuda matemática enquanto João joga vôlei". Na poesia, usa-se paralelismo entre versos e estrofes, repetindo a estrutura sintática, e às vezes também semântica, da estrofe 1 na estrofe 2, como, por exemplo, o esboço de poema sobre o qual eu estive falando:

1. You see me here, wrinkled and grey
2. I've lost my luster along the way
3. You can't see the fury, you can't see my claws
4. My fangs are hanging on a devil's walls

1. You hear me here, off-tone and coarse
2. I've lost my voice to a devil's curse
3. You can't hear the hunger, you can't hear me scream
4. But hear my tale, my devil's dream

Aqui fiz o paralelismo particularmente estrito:
see - hear
wrinkled - off-tone
grey - coarse
luster - voice
fury - hunger
along the way - to a devil's curse
claws - scream
walls - dream

Evidentemente meu ponto aqui é que eu não queria trocar "hear the hunger" por "see the hunger" por que isso ia cabar com o paralelismo. Além disso, estou falando de hunter's hunger, não de famine. You can hear the hunger in my voice. E além disso, como o Ugo comentou, eu gosto da idéia de "you can't hear this, you can't hear that, but at least hear my tale, it's the only voice I have left".

Para ilustrar melhor o conceito, saí procurando algum poema meu em português que tivesse paralelismo forte. Foi horrível; eu tinha esquecido como minha coleção de poemas é absolutamente deplorável. Enfim, achei este poema do qual eu não gosto tanto assim, mas que é praticamente um exercício em paralelismo:

Poesia.
Poesia.
Eu chamo pela poesia.
Eu clamo pela poesia.
Meu sangue!quente a rima fria -
um mangue!quente a voz vazia.
Poesia,
ai! A poesia..
Eu morro pela poesia.
Escorro pela poesia.
Beleza por si só se cria,
certeza vaga por si se irradia.
Ai!
A poesia poesia...
Eu luto pela poesia.
Eu - luto pela poesia!
Que escorre por minha alistia
e morre com minha alforria..
Poesia!
Poesia.
Eu canto pelo poesia.
Eu - canto pela poesia!
Ela, que em minha voz ria,
vela, a que m'alumia..
Poesia!
Poesia!
Eu choro pela poesia
Eu coro pela poesia
Do sangue que me vem à face fria
do mangue que me prende à voz vazia
Palavras que me trazem à alegria
mas garras que me trazem agonia
Por ti, por ti apenas, poesia.
Poesia.
Poesia!

[17/8/2004]

Pensando bem, talvez esse poema seja um exemplo meio medíocre de paralelismo porque ele não cria paralelos interessantes, mas apenas repete a estrutura over and over and over and over again (como eu um dia pude achar isso legal?!). Vou procurar um texto de outro autor que seja mais bacaninha.

Ah, que tal este do João Cabral de Melo Neto?


Alguns Toureiros

Eu vi Manolo Gonzáles
e Pepe Luís, de Sevilha:
precisão doce de flor,
graciosa, porém precisa.

Vi também Julio Aparício,
de Madrid, como Parrita:
ciência fácil de flor,
espontânea, porém estrita.

Vi Miguel Báez, Litri,
dos confins da Andaluzia,
que cultiva uma outra flor:
angustiosa de explosiva.

E também Antonio Ordóñez,
que cultiva flor antiga:
perfume de renda velha,
de flor em livro dormida.

Mas eu vi Manuel Rodríguez,
Manolete, o mais deserto,
o toureiro mais agudo,
mais mineral e desperto,

o de nervos de madeira,
de punhos secos de fibra
o da figura de lenha
lenha seca de caatinga,

o que melhor calculava
o fluido aceiro da vida,
o que com mais precisão
roçava a morte em sua fímbria,

o que à tragédia deu número,
à vertigem, geometria
decimais à emoção
e ao susto, peso e medida,

domingo, 16 de setembro de 2012

Obcecado

Seus braços nus cobertos de pêlos
Suaves
Hmmm
Para passar os lábios sobre a pele, suavemente
Saboreando, como a um pêssego
Mordiscando
Farejando
... isso é amor?
Doce, doce, doce
Delícia
Incalculávelmente bom
Nos meus braços, você geme
Amor.

Acordo.
O mundo me inunda de cheiros, calores, suores. Você?
Você, te procuro, você?
Penso, penso, seus olhos, seus olhos maravilhosos
No meu sonho, você geme
de prazer.
Amor.
Agora dói
Lentamente, aos poucos
Vai se espalhando pelo sonho primeiro
Pelos pensamentos, pelas lembranças
Entra no peito, fica difícil respirar
Meu estômago está deprimido
Tudo é tão pesado
Essa doença passaria se ao menos eu pudesse abraçar você, engolir você
Comer você numa bocada só

O dia passa.
Você está na rua?
Você está online?
Você está no caminho para minha aula de dança?
Meus amigos marcam de sair, você vai?
Te procuro em todas as possíveis oportunidades
Você orienta cada um de meus passos
Me distraio e perco metade do dia pensando, pensando...
Tenho seu número. Te ligo?
Te mando um e-mail? Meus dedos digitam dezenas de mensagens, apago todas
Você não quer ouvir bobagens apaixonadas
Você não quer que eu te incomode
Me contenho. Me contenho.
No meu sonho, você geme
Dói!
No meu sonho você me ama. Fecho os olhos e acordo outra vez, dói outra vez, perder seu amor.
No meu sonho eu sou a pessoa perfeita pra você.
Eu nunca vou ser a pessoa perfeita pra você.

Chego em casa e encaro uma noite sem você
Cada segundo se arrasta
Saio com os amigos, quero esquecer, eles falam da vida e eu ouço
Você, você, você, você
O que você acharia dessa conversa?
Será que você chega inesperadamente agora?
Você muda de idéia e aparece sem avisar?
Começo mais uma mensagem
Lembro que você está em outra cidade.

Tarde; deito na cama
Olho pro teto e me pergunto se vou sonhar com você
outra vez
Vai doer outra vez?
Vai ser lindo outra vez?
Quero;
digo que não quero mas quero, quero porque de noite você me ama
E você nunca vai me amar de verdade
Ou vai?
Penso em tudo o que eu deveria fazer pra te conquistar
Durmo
Sonho

De noite seus olhos maravilhosos olham no fundo dos meus.

Aged or Tamed

Passei algum tempo pensando sobre os comentários que vocês fizeram sobre o poema, e cheguei à conclusão de que talvez eu devesse investir mais nessa idéia de envelhecimento, de wrinkled and grey and hoarse and dry. This is what I came up with:

You see me standing, wrinkled and grey
I've lost my luster along the way
You can't see the anger, you see no claws
My fangs, they're hanging from a devil's walls

You hear me mumbling, off-tune and coarse
I'm old and cursing my final course
You can't hear the hunger, you can't hear the lust
But hear my tale, somebody must

(Eu queria dizer "my hide lost it's luster", mas achei que ficava muito comprido)
(minha primeira idéia foi "hear my tale, beneath my dust")

(By the way, a note to Ugo: how come seeing hunger is more plausible than hearing it? Está mais claro nesta versão o que eu quis fazer, ou ainda está esquisito?)

Por outro lado, achei que talvez eu devesse investir mais na idéia de "sweetened", até porque a idéia do poema é fundamentalmente "perdi minhas garras para um demônio". E saiu isto:

You see me coming, appeased and neat
I've lost my fierceness and faced defeat
You can't see the anger and I have no claws
My fangs are hanged on a devil's walls

You hear me humming, sweetened and shy
I've lost my thunderous voice, my pride
You can't see the hunger, can't hear my dream
But hear my tale, my one last scream

I was a wolfness in lives before... bla bla bla

Pra falar a verdade não curti muito essa segunda estrofe (maybe I've gone too far?). Possivelmente seria melhor a opção mais prosaica (ou ridícula) que eu tinha pensado antes:

You hear me humming, lovely and sweet
I beg you sit as I peel a beet
You can't hear the hunger, you can't hear the screams
But hear my tale, my hopeless dream

Eu estava pensando esse dias em como os rascunhos são tão importantes quanto o poema em si, em como é impossível traduzir um poema sem recriá-lo porque o produto final é irremediavelmente mais pobre que o processo de construção (é um preço a se pagar por ele se parecer com alguma coisa legível), e para reescrever o poema é preciso um novo processo de construção.

É impossível incorporar essas duas visões tão distintas tão completamente no mesmo poema, embora seja possível mesclá-las de uma forma mais fraca. Porém eu só tenho a ganhar elaborando sobre elas. É como ume exercício de improvisação no teatro. Eu também acho que posso misturar partes não tão comprometidas dos poemas e gerar resultados novos, e talvez mais interessantes. Por exemplo:

You hear me humming, lovely and sweet
I beg you sit as I peel a beet
You can't hear the hunger, you can't hear the lust
But hear my tale, somebody must

(eu gosto muito de colocar hunger e lust num poema sobre uma velha ou uma daminha fofa desse jeito, porque parece muito real, embora pra falar a verdade este poema seja uma fantasia)

Espero que vocês estejam se divertindo tanto quanto eu estou com esta discussão =)

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

(di)versão

As pessoas me convenceram de que howl na verdade rima com how (é um saco aprender uma língüa através de prosa, né?). Acho que vou desistir de usar essa palavra

Por outro lado, descobri uma outra versão dessa segunda estrofe que substitui "poison" por "fierceness". O que vocês acham?

You hear me now, saddened and sweet
I've lost my fierceness and faced defeat
You can't hear the yearning, you can't hear me snarl
But hear my tale, of old and far

("snarl" é outra palavra que não rima com nada >.<)
(Não pretendo realmente mudar o final dos dois primeiros versos, e hunger tem muito mais ferocidade que yearning, mas estava afim de me divertir)

(a internets diz que "growl" é um bom substituto pra "snarl". Mas e aí, o que rima com "growl"? Estou pensando em abandonar toda essa idéia também, fica muito mary-sue como diria a ixa...)

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Writers Block

Tem um poema que estou tentando escrever há mil anos que parece que nunca consigo. Na verdade, tem três poema relevantes nesse estado (e mais ou menos todos os meus livros, que são dezenas), dois deles da época do colegial, e um de dois anos atrás.Com um deles tive a dificuldade extra de ter tido meu caderno roubado com metade das anotações sobre ele.

Recentemente resolvi rever como começa um dos meus poemas, mas não está ficando bom. Eu queria pedir ajuda. É meio difícil porque esse poema precisa ser em inglês (só porque eu estou escrevendo ele principalmente por causa do ritmo e das rimas, que não são traduzíveis), e eu conheço poucas pessoas que escrevam bem de verdade, tenham contato comigo e gostem de escrever em inglês. Mas eu vou pedir aqui, mesmo assim.

A minha primeira versão dessas primeiras estrofes reescritas, para apreciação:

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You see me here, wrinkled and grey
I've lost my shine along the way
You can't see the fury, you can't see the claws
My fangs, they're hanging on a devil's walls

You hear me here, sweetened and sad
I've lost the poison that I once had
You can't hear the hunger, you can't hear me howl
But hear my tale, ...

(estou tentando colocar alguma coisa aqui, pensei em mold, mas tá difícil de construir, unfold é muito brega, old já usei na estrofe seguinte de um forma melhor, e não consegui pensar em nada que rime com howl - talvez seja o caso de trocar esse terceiro verso)

----EDIT-edit- decidi separar em vários posts, é mais natural.