sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Fingir por um instante que estamos em 2003

Derp, eu escrevi esse título pq queria escrever como se fosse o LiveJournal, mas sem perceber o título é exatamente uma descrição do que eu quero falar sobre. Daquilo sobre o que eu quero falar. Isso.

Eu tenho perguntado pros meus amigos se isso é normal. Tenho feito muito isso. Acho que é importante fazer e eu passei os primeiros 25 anos da minha vida praticamente nunca perguntando, e simplesmente supondo ou que eu sou a pessoa difirentona ou que eu sou perfeitamente normal.

Mais ou menos assim:
"Ah, nossa, eu gosto de escrever histórias sangrentas e cheias de gente morrendo e sofrendo, ninguém nunca vai entender por que eu faço isso, todo mundo vai me odiar se ficar sabendo que eu escrevo histórias darks tarde da noite"
"Poxa vida, eu sinto tanta dor antes de dormir, será que todos os adolescentes e jovens adultos sentem dor desse jeito? Provavelmente né, não é como se tivesse algo que eu pudesse fazer a respeito..."

Enfim minha adolescência foi muito besta porque por um lado eu me achava super ~outsider~ por fazer coisas que tipo metade dos adolescentes fazem, e ao mesmo tempo sofrendo pacas com coisas que não são normais e que eu deveria ter ido num médico resolver, e pensando bem acho que é assim com todo mundo porque a gente não se conversa direito.

A coisa da vez é que eu sinto que é meio que um absurdo que eu esteja aqui, agora. Eu fico confuso a respeito de em que ano estou. Meus amigos acharam um pouco bizarro quando descrevi as coisas nesses termos, mas não sei em que outros termos descrever. Eu tenho dificuldade de aceitar que eu esteja morando nesta casa e não na casa que eu morava antes. Ou na anterior. Ou na casa dos meus pais. Às vezes eu tenho uns sonhos como se estivesse em 2010, ou 2008, ou 2006, ou 2003. E é bizarro pensar nisso porque 2010 e 2008 parecem tão próximos em números mas foram tão completamente diferentes, e ao mesmo tempo eu nem sei dizer direito o que aconteceu nos últimos 7 anos. Os anos começaram a se fundir uns aos outros, e eu não consigo entender como. Tudo o que aconteceu parece misturado e ao mesmo tempo parece mentira. Como eu posso ter me afastado dos meus amigos do ginásio? Eu fico sonhando com eles, e às vezes eu acordo de manhã e penso que eu vou pra escola, e aí eu lembro que eu não vou pra escola faz mais de dez anos, e que o tempo que eu fui realmente próximo dessas pessoas foi mais curto do que o tempo que passou desde então. Às vezes o passado parece que foi hoje, ou que é amanhã, e às vezes parece que nunca aconteceu. Não pode ter acontecido. Principalmente tudo o que aconteceu depois desse passado. Eu não acredito que eu perdi a virgindade. Que eu aprendi a derivar. Que eu estou pagando as minhas próprias contas.

O pior de tudo é que parece que estou cada vez mais adulto. Cada vez mais eu meio que sei me comportar, e os problemas das vidas das pessoas parecem coisas que eu já lidei antes. Mas a enormidade de estar morando na minha própria casa, quer dizer, numa casa que eu estou pagando aluguel, junto com uma pessoa que eu conheci depois de grande já, isso não pára de me surpreender. Eu não consigo aceitar que eu pago as minhas próprias contas, que eu decido o destino da minha vida, que eu decidi sair da cidade e eu de fato saí. Ok que eu nunca teria conseguido sozinho, mas eu fiz. Eu que decidi. Eu não sei lidar com isso. Com a enormidade dessas decisões. Parece que eu cheguei no fim, ou no cume da vida: pronto, é isso, chegamos, eu sou uma pessoa adulta que paga suas contas, mora na sua casa, tem as suas coisas, toma suas decisões. O que mais tem pra conquistar na vida? Eu fico tendo impulsos de conquistar riqueza, dinheiro, conforto, mas no fundo acho que é só um desejo de conquistar mais coisas, de não estar aqui ainda, de não ter chegado.

E ao mesmo tempo eu me sinto tão dissociado disso. No começo eu queria jogar video-game todos os dias, pra saber que eu estava curtindo aquilo que eu gosto, que faz parte de mim. Faz meses que eu não jogo video-game. O impulso da novidade vai se perdendo, e eu vou me afogando debaixo de tudo isso, dessa constância, de estar na mesma casa faz um dia, dois dias, uma semana, uma vida. O tempo fica dilatado. Eu morei nesta casa desde sempre. Eu não consigo lembrar do tempo antes disso. Ou eu estou vivendo no passado. Eu perdi tanta coisa, e eu não consigo mais me lembrar de todos que eu perdi. E ao mesmo tempo eu não quero esquecer. E mais que isso, tenho mêdo de mudar, porque depois da mudança sei que o passado vai ser mais uma coisa confusa, que não vou conseguir deixar pra trás, mais umas casa que eu não vou conseguir aceitar que não moro mais, mais uma lembrança que vai parecer que foi hoje, ou amanhã, uma coisa encrustrada que não vai sair e que eu vou ter mêdo de esquecer, até o ponto em que eu vou duvidar das minhas próprias memórias, e não vou conseguir lidar com o quanto eu vou ter esquecido. Mais uma cidade que eu não vou reconhecer direito do quanto vai ter mudado. Eu tenho mêdo de me apegar a pessoas novas porque parece que isso sempre vem com esquecer pessoas antigas, ou que vai ser uma amizade fulgaz, e aí eu vou esquecer essas pessoas.

Às vezes é tão ruim. Às vezes eu não consigo sair de casa e não consigo dormir, e não consigo comer, e tudo vai se embolando. E existem dias bons, dias em que parece que há coisas novas, que existe um futuro, que a vida não é só um presente estático num mar de passado wibbly-wobbly timey-wimey. Que existe uma ordem na qual o futuro vem depois do passado. Só que é tão fulgaz. Tudo acaba, e parece que nunca vai continuar, que nunca vai se encaixar numa trama que faça sentido. Eu não consigo nem escrever direito. Tudo parece tão fútil. Não é como se existisse sucesso.

Pelo menos em 2003 eu conseguia sonhar com um futuro. Agora que estou nele, não, agora que estou muito depois dele, não sei o que fazer a respeito.

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Véus

nos acostumamos a nos olhar atravez de véus
o véu do berço
do amor
da noite
das mentiras

um dia estamos tão atravessados
que não conseguimos mais arrancar os véus da carne
a gaze embebida em sangue coagula
coagula o olhar

arrancar o véu e ficar em carne viva

carne viva

quinta-feira, 22 de junho de 2017

Teias de Aranha

Houve um tempo em que todas as tuas palavras grudavam na minha mente como teias de aranha.

Hoje as teias de aranhas em minha mente são memórias de outras pessoas, com outras palavras. Das tuas palavras resta somente esta frase, esta questão. Me disseste, um dia, triste, depois de uma briga e uma confissão, ainda sem perdão: que nunca imaginaras que eu também pudesse ter sofrido.

Nunca

Meu sofrimento, como de vidro
transparente
meu sofrimento, solitário, escondido
no fundo do armário da cozinha, atrás das xícaras de louça para ocasiões especiais
empilhado como copos de vidro sem nem um pedaço de guardanapo entre eles
e quando tento desempilhar, estão grudados a vácuo
pelo peso do tempo
mesmo as coisas leves, se deixadas paradas por anos, afundam como se pesadas
e deixam uma marca
e machucam

mesmo nosso próprio corpo, se parado, machuca a si mesmo.