quinta-feira, 22 de junho de 2017

Teias de Aranha

Houve um tempo em que todas as tuas palavras grudavam na minha mente como teias de aranha.

Hoje as teias de aranhas em minha mente são memórias de outras pessoas, com outras palavras. Das tuas palavras resta somente esta frase, esta questão. Me disseste, um dia, triste, depois de uma briga e uma confissão, ainda sem perdão: que nunca imaginaras que eu também pudesse ter sofrido.

Nunca

Meu sofrimento, como de vidro
transparente
meu sofrimento, solitário, escondido
no fundo do armário da cozinha, atrás das xícaras de louça para ocasiões especiais
empilhado como copos de vidro sem nem um pedaço de guardanapo entre eles
e quando tento desempilhar, estão grudados a vácuo
pelo peso do tempo
mesmo as coisas leves, se deixadas paradas por anos, afundam como se pesadas
e deixam uma marca
e machucam

mesmo nosso próprio corpo, se parado, machuca a si mesmo.

quarta-feira, 17 de maio de 2017

A Mulher e a Vítima

Não é à toa que vítima é uma palavra feminina,
eu penso,
toda vez que ouço essas histórias de violência

Enquanto isso um menino é morto espancado
pelo pai
por gostar de fazer coisas - femininas -
como lavar louça -

Enquanto isso uma mulher é levada a réu
violadas todas as ordens de restrição
desamparada
recebeu o ex-marido em casa
a tiros.

--

No meu corpo
as identidades da Mulher e da Vítima
se desafiam
cada uma convicta
se ser a outra.

--

Estrada.
Falam um homem e uma mulher
- nenhum de nós hétero
todos brancos -
sobre uma história de violência que vimos na escola

Ela
fala de trauma
era muito nova
a cena, muito forte
- um grupo de homens violenta uma dona de casa -
Ela sendo mulher
imediatamente se pôs no lugar da vítima
Segura na poltrona e - violada.
- A Espectadora
Passa pelo corpo dela
a violência
de todos os homens do mundo
por todas as mulheres -

Ele
era bastante novo
para nunca ter realmente questionado
a natureza (sua) da violência.
Ele sendo homem
questiona
se colocando no lugar do monstro.
- O Espectador -
"Um ótimo filme", ele diz,
"Todos deveriam ver."
- pelo corpo dele a violência
de todos os homens
- potencial -

Meu corpo,
nem dele nem dela,
Mistura, confunde
as duas experiências
- completa -
meu corpo era velho
precoce
peludo, já
chapéuzinho dentro de lobo
- Vítima - me identifiquei imediatamente com a mulher
, mas
justamente porque arde
visto também a pele e as presas do monstro.

--

Me apavora
imaginar que antes ainda eu
(poderia)
- antes de ter me tornado -
ter nascido vítima
(quão mais assustador)
me tornado mulher através das histórias

Mas é justamente porque dói
que aprecio as histórias violentas.
Com olhos de lobo assisto
a violência
e com boca de lobo pergunto
- é possível domesticar um monstro?
Com nariz de lobo procuro
pessoas
minhas iguais
são as que sangram.

--

Não é à toa que vítima é uma palavra feminina
Nós homens somos Barba-Azul, Fera, Lobo, Rei-pai ausente e Príncipe Encantado
lutando contra o monstro que somos nós
Nós mulheres somos chapéuzinho, branca de neve, e as esposas do Barba-Azul,
e Bela
assistindo a luta dos homens-monstro
Nós sobrevivemos dos restos deles
transformando-os
ou transformando-nos neles
, mas, para nós, homens, não há essa saída
(essa releitura)
nos monstrificamos e esperamos
uma mulher que nos humanize
que nos redima
e dê sua vida por (para) nós
- Não,
a saída é morrer
ao final de um filme de caubói
monstro até o fim.

- antes morto que feminino -

, mas,
a nós mulheres resta mortalha
ou morte
enterrada em vidro, ou debaixo de casa
derretida por fogo, ou por água
ou casada com o Rei ou o Barba-Azul.

sábado, 13 de maio de 2017

A Mulher e a Vítima (primeira versão, sem cortes)

Não é à toa que vítima é uma palavra feminina,
eu penso,
quando uma mulher é estuprada pelo pai

Enquanto isso um menino é morto espancado
pelo pai
por gostar de fazer coisas - femininas -
- lavar louça -

Não é à toa que vítima é uma palavra feminina,
eu penso,
quando uma mulher é morta pelo marido

Enquanto isso uma mulher é levada a réu
violadas todas as ordens de restrição
desamparada
recebeu o ex-marido em casa
a tiros.

--

No meu corpo
as identidades da Mulher e da Vítima
se desafiam
cada uma convicta
se ser a outra.

--

Estrada.
Falam um homem e uma mulher
- nenhum de nós hétero
todos brancos -
sobre uma história de violência que todos assistimos na escola

Ela
fala de trauma
era muito nova
e a cena, muito forte
- um grupo de homens violenta uma dona de casa -
Ela sendo mulher
imediatamente se pôs no lugar da vítima
Segura na poltrona e - violada.
- A Espectadora
Passa pelo corpo dela
a violência
de todos os homens do mundo
por todas as mulheres -

Ele
era bastante novo
para nunca ter realmente questionado
a natureza (sua) da violência.
Ele sendo homem
questiona
se colocando no lugar do monstro.
- O Espectador -
"Um ótimo filme", ele diz,
"Todos deveriam ver."
- pelo corpo dele / a violência
de todos os homens
- potencial -

Meu corpo,
que não é dele nem dela,
Mistura, confunde
as duas experiências
- completa
meu corpo era velho
precoce
peludo
(chapéuzinho dentro de lobo)
- Vítima - me identifiquei imediatamente com a mulher
, mas
justamente porque arde
visto também a pele e as presas do monstro.

--

Me apavora
imaginar que antes ainda eu
(poderia)
- antes de ter me tornado -
ter nascido vítima
(quão mais assustador)
me tornado mulher através das histórias

Mas é justamente porque dói
que aprecio as histórias violentas.
Com olhos de lobo assisto
a violência
e com boca de lobo pergunto
se é possível domesticar um -
a violência
Com nariz de lobo procuro
pessoas
minhas iguais
são as que sangram.

--

Não é à toa que vítima é uma palavra feminina
Nós homens somos Barba-Azul, Fera, Lobo, Rei-pai ausente e Príncipe Encantado
lutando contra o monstro que somos nós
Nós mulheres somos chapéuzinho, branca de neve, e as esposas do Barba-Azul,
e Bela
assistindo a luta dos homens-monstro
Nós sobrevivemos dos restos deles
transformando-os
ou transformando-nos neles
, mas, para nós, homens, não há essa saída
nos monstrificamos e esperamos
uma mulher que nos humanize
que nos redima
e dê sua vida por (para) nós
- Não,
a saída é morrer
ao final de um filme de caubói
monstro até o fim
- antes morto que feminificado -
carregado por valquírias

, mas,
morto o herói
a nós mulheres resta a mortalha
ou a morte
enterrada em vidro, ou debaixo de casa
derretida por fogo, ou por água
ou casada
com Rei ou Barba-Azul.