segunda-feira, 9 de abril de 2018

Viagens

Os dias passaram e afinal era hora de partir. Yakti amarrou os cadarços de sua nova bota de viagem. Seus pés estavam maiores, suas pernas, mais compridas. Yakti se perguntava se isso seria uma vantagem ou desvantagem, em suas viagens. A última excursão parecia uma lembrança de tempos distantes. E tinha sido fantástica! Mas será que a próxima seria igual? Esse sentimento de inadequação, de nunca ser o que as pessoas esperavam, Yakti não sabia mais se era só porque sua vocação mesmo era estar em viagem, e a cidade é que era inadequada, ou se o problema era só que Yakti nunca ia ser o que as pessoas esperavam e pronto.

Pelo menos uma coisa era certa: que a escola e a família e os colegas iam todos ficar para trás por algumas semanas, e com eles boa parte dos seus problemas. E dessa vez, quando voltasse, Yakti ia escolher melhor o que contar e o que não contar no primeiro dia de aula. Talvez, se suas viagens parecessem menos impressionantes, as outras pessoas ficassem mais impressionadas (em vez de descartá-las como invencionisse e pronto). Yakti também tivera tempo pra entender que as pessoas não ficam muito impressionadas com coisas como tipos diferentes de insetos, ou detalhes do dia-a-dia das pessoas, essas coisas pequenas que tendiam a chamar sua atenção. Pelo menos os costumes escatológicos faziam algum sucesso entre as crianças. Tinha feito um certo sucesso sua história sobre as pessoas que tinham um cômodo inteiro da casa só pra fazer xixi.

Coralaimon estava esperando já na Sala de Leitura. Do lado das poltronas estava um carrinho coberto de livros amassados, rasgados, ou descorados, que Coralaimon estava examinando com uma lupa. "Alguns desses até poderiam ser restaurados", disse ele, "mas depois do sucesso que foi a última expedição, achei que podíamos nos dar a liberdade de repôr todos eles. Estes daqui todos devem poder ser comprados em livrarias fáceis de encontrar" - ele apontou para uma pilha de livros de bolso, que pareciam ter desmanchado de tanto uso. "O problema mesmo são estes aqui."

Coralaimon indicou vagamemte toda a prateleira de baixo do carrinho, onde havia dezenas de livros desorganizados. "A enchente danificou toda a seção", resmungou Coralaimon, muito frustrado. Yakti lembrava bem dessa enchente, estivera nela tentando salvar os livros raros do porão, alguns deles possivelmente insubstituíveis (e pensando bem, talvez o porão não fosse o lugar mais próprio para guardar livros raros). Mas algumas salas do nível térreo também tinham ficado alagadas, e todo mundo demorara demais para perceber. Esses livros eram de uma dessas salas, uma sessão de literatura fantástica que Yakti ainda não tinha explorado o suficiente. "O problema é que o único portal para o universo de alguns destes livros também está nesta pilha. É um daqueles gêneros onde há dezenas de livros dentro de livros dentro de livros, você sabe", Coralaimon fez uma expressão de cansada que Yakti tinha aprendido a interpretar da seguinte forma: esse assunto é muito cansativo, e nada me daria mais prazer que lidar com ele eu mesmo, quando eu era jovem. Coralaimon tinha dessas, de fingir que não gostava das coisas que gostava, até a hora em que você descobria os diários de aventura de quando Coralaimon saía em viagens procurando volumes perdidos.

"Enfim", falou Coralaimon, puxando uma caixa com seis ou sete livros de cima da mesa de centro. "É um pouco difícil de determinar para alguns deles, mas com toda a nossa pesquisa, eu acho que estes vão servir de pontos de partida para achar os outros... se não... Bom, com sorte vamos ter restaurado o suficiente alguns destes para que pelo menos fiquem legíveis."

"Certo", disse Yakti, pegando a caixa e sentando na poltrona. Os livros eram de tamanhos e estilos diferentes. Um deles era aparentemente um guia de viagem real. Dentro de cada um deles havia uma lista com títulos de outros livros, com a letra tortuosa de Coralaimon. Ao lado de alguns títulos havia notas sobre onde procurar. "Posso escolher qualquer um deles, então? E só seguir esta lista?"

Coralaimon assentiu, e Yakti rapidamente escolheu um pequeno romance reencadernado em couro. O livro continha ilustrações, e uma delas era de uma enorme biblioteca cheia de artefatos misteriosos. Yakti suspeitava que seus colegas não ficariam nada impressionados com sua opção de viajar para mais uma biblioteca, mas, por outro lado, era a opção perfeita para a primeira viagem. Um aquecimento, por assim dizer. A lista de livros (Yakti imaginava que estariam todos nessa outra biblioteca) ocupava a frente e o verso de uma folha, que Yakti dobrou três vezes para caber no bolso. Então Yakti começou a ler, e em alguns minutos de leitura, se transportou para dentro do livro.

quinta-feira, 22 de março de 2018

Desgaste

Mas estas nossas conversas sempre me desgastam tanto
fico repensando
remoendo
é difícil diferir
difícil ser
se definir em fronteiras
existir como ente

Me sinto esgarçado
desconectado de tudo o que importa
incapaz de amor ou paixão
mas ainda capaz de emoções passageiras

que as emoções peguem carona em mim
que eu as leve de um lado para outro
essa idéia me apraz
mesmo que eu nada forneça
minha fornalha move a maria fumaça
meu fogo apenas consome

que eu seja forja
me tragam metais e os esquentem em mim
que não sou fonte
nem preciso ser

fogo cozinha também
que eu seja forno
que torna as coisas comestíveis
palatáveis
e reconfortantes

essas conversas me desgastam porque eu sigo tentando enxergar tudo por todos os lados
eu coliseu
fazendo o jogo entre todos os papéis
não quero defender ninguém
mas tanto mêdo de te perder
tanto mêdo de te perder
tanto mêdo
tanto

de te perder como já perdi tanta gente

me desgastam porque toda conversa agora a gente tem que entrar como si mesmo
acabou o anonimato
e usar a máscara de Eu faz com que ela comece a desalinhar
tudo o que se usa muito acaba desgastando

seria mais fácil ser Eu como conceito abstrato guardado na estante
como livros bem-conservados porque nunca são lidos
mas ficar levando e usando de todos esses modos
a coisa acabada degenerando
depois de alguns anos, a foto 3x4 está tão apagada aue poderia ser qualquer um
e a película na qual o nome impresso já descascou quase toda
e fica um pouco de vergonha de tentar renovar o documento
será que ainda tenho direito? ou já passou tempo demais, e perdi a vag

terça-feira, 20 de março de 2018

Doesn't fit

We stretch a little and notice we don't quite fit

We stand
as a toddler
in the crib
(quite annoyed)
trying to figure out how to get down and go to the adult's bed

Our clothes, our beds, our shoes
too small
we shed
painfully
Our mothers at our favourite coat: take it off, it doesn't fit!

And at the family lunch
we don't fit at the adults' table, so we sit
with our cousins and siblings
in tiny kid-sized chairs
unconfortably

At the soccer game we can hardly breath
we want so hard to win
a sports bra from the year before is suffocating me

We take it all off

We stand
before so many closets
full of clothes that don't fit

Before a party
trying so many cute dresses
each more hideous than the one before it
none fit.
And we just want to fit in so badly
but I don't know where we fit in
or what to fit in as

So we try
dresses and suits and coats and shirts
we despair
we take it all off

we stumble through life
changing ill-fitting costumes
(such time wasted in changing rooms)
always inappropriate
sometimes naked
towards a final box
made to the measure of our bodies
where we don't quite fit.

---

A gente se estica um pouco e nota que já não cabe

De pé
criança
no berço
(incomodada)
tentando decidir como sair dali e chegar na cama dos adultos

as roupas, as camas, sapatos,
pequenos,
perdemos
com sofrência
A mãe pra blusa favorita: tira isso, não te cabe!

E no almoço de família
A gente não cabe na mesa dos adultos
então senta
com os primos e irmãos
nas cadeiras pequenas da mesa das crianças
desconfortavel.

E no futebol mal dá pra respirar
a gente quer tanto ganhar
mas o top comprado ano passado tá sufocando

Tira essa merda toda

A gente fica parado
na frente de tanto armário
que não serve.
No dia da festa
experimentando tanto vestido bonito
cada um mais horroroso que o outro
nada serve.
E a gente quer tanto se encaixar
sem saber onde é que a gente entra
muito menos
como o quê.

Então fica experimentando vestido
calça terno blusa camisa chapéu sapato
nada cabe
a gente chora
nu

A gente vaga pela festa
se trocando
mas nada nunca serve
(tanto tempo desperdiçado na frente do espelho)
sempre destoante
às vezes nu
pra chegar na última caixa
feita na medida do nosso corpo
que não cabe.

Tempestade

Tenho escrito uns poeminhas, não sei bem se estou feliz com eles nem o que fazer deles, acho que vou deixar aqui.
Segue

---

Uma tempestade
cai a luz com estrondo
e árvores
dentro de casa
lá fora o furacão
janelas cerradas ar abafado
calor parado
silêncio, perante barulho
sozinhos
fora do ar
no escuro.

Opção
abrir -- lá fora respirar
o ar tempestuoso
rir--correr--molhar-se--friagem
(que a idade)
(e também, pra quê?)
e aqui
aconchego na cama e
quem sabe silêncio e
pensar.