quarta-feira, 17 de maio de 2017

A Mulher e a Vítima

Não é à toa que vítima é uma palavra feminina,
eu penso,
toda vez que ouço essas histórias de violência

Enquanto isso um menino é morto espancado
pelo pai
por gostar de fazer coisas - femininas -
como lavar louça -

Enquanto isso uma mulher é levada a réu
violadas todas as ordens de restrição
desamparada
recebeu o ex-marido em casa
a tiros.

--

No meu corpo
as identidades da Mulher e da Vítima
se desafiam
cada uma convicta
se ser a outra.

--

Estrada.
Falam um homem e uma mulher
- nenhum de nós hétero
todos brancos -
sobre uma história de violência que vimos na escola

Ela
fala de trauma
era muito nova
a cena, muito forte
- um grupo de homens violenta uma dona de casa -
Ela sendo mulher
imediatamente se pôs no lugar da vítima
Segura na poltrona e - violada.
- A Espectadora
Passa pelo corpo dela
a violência
de todos os homens do mundo
por todas as mulheres -

Ele
era bastante novo
para nunca ter realmente questionado
a natureza (sua) da violência.
Ele sendo homem
questiona
se colocando no lugar do monstro.
- O Espectador -
"Um ótimo filme", ele diz,
"Todos deveriam ver."
- pelo corpo dele a violência
de todos os homens
- potencial -

Meu corpo,
nem dele nem dela,
Mistura, confunde
as duas experiências
- completa -
meu corpo era velho
precoce
peludo, já
chapéuzinho dentro de lobo
- Vítima - me identifiquei imediatamente com a mulher
, mas
justamente porque arde
visto também a pele e as presas do monstro.

--

Me apavora
imaginar que antes ainda eu
(poderia)
- antes de ter me tornado -
ter nascido vítima
(quão mais assustador)
me tornado mulher através das histórias

Mas é justamente porque dói
que aprecio as histórias violentas.
Com olhos de lobo assisto
a violência
e com boca de lobo pergunto
- é possível domesticar um monstro?
Com nariz de lobo procuro
pessoas
minhas iguais
são as que sangram.

--

Não é à toa que vítima é uma palavra feminina
Nós homens somos Barba-Azul, Fera, Lobo, Rei-pai ausente e Príncipe Encantado
lutando contra o monstro que somos nós
Nós mulheres somos chapéuzinho, branca de neve, e as esposas do Barba-Azul,
e Bela
assistindo a luta dos homens-monstro
Nós sobrevivemos dos restos deles
transformando-os
ou transformando-nos neles
, mas, para nós, homens, não há essa saída
(essa releitura)
nos monstrificamos e esperamos
uma mulher que nos humanize
que nos redima
e dê sua vida por (para) nós
- Não,
a saída é morrer
ao final de um filme de caubói
monstro até o fim.

- antes morto que feminino -

, mas,
a nós mulheres resta mortalha
ou morte
enterrada em vidro, ou debaixo de casa
derretida por fogo, ou por água
ou casada com o Rei ou o Barba-Azul.

sábado, 13 de maio de 2017

A Mulher e a Vítima (primeira versão, sem cortes)

Não é à toa que vítima é uma palavra feminina,
eu penso,
quando uma mulher é estuprada pelo pai

Enquanto isso um menino é morto espancado
pelo pai
por gostar de fazer coisas - femininas -
- lavar louça -

Não é à toa que vítima é uma palavra feminina,
eu penso,
quando uma mulher é morta pelo marido

Enquanto isso uma mulher é levada a réu
violadas todas as ordens de restrição
desamparada
recebeu o ex-marido em casa
a tiros.

--

No meu corpo
as identidades da Mulher e da Vítima
se desafiam
cada uma convicta
se ser a outra.

--

Estrada.
Falam um homem e uma mulher
- nenhum de nós hétero
todos brancos -
sobre uma história de violência que todos assistimos na escola

Ela
fala de trauma
era muito nova
e a cena, muito forte
- um grupo de homens violenta uma dona de casa -
Ela sendo mulher
imediatamente se pôs no lugar da vítima
Segura na poltrona e - violada.
- A Espectadora
Passa pelo corpo dela
a violência
de todos os homens do mundo
por todas as mulheres -

Ele
era bastante novo
para nunca ter realmente questionado
a natureza (sua) da violência.
Ele sendo homem
questiona
se colocando no lugar do monstro.
- O Espectador -
"Um ótimo filme", ele diz,
"Todos deveriam ver."
- pelo corpo dele / a violência
de todos os homens
- potencial -

Meu corpo,
que não é dele nem dela,
Mistura, confunde
as duas experiências
- completa
meu corpo era velho
precoce
peludo
(chapéuzinho dentro de lobo)
- Vítima - me identifiquei imediatamente com a mulher
, mas
justamente porque arde
visto também a pele e as presas do monstro.

--

Me apavora
imaginar que antes ainda eu
(poderia)
- antes de ter me tornado -
ter nascido vítima
(quão mais assustador)
me tornado mulher através das histórias

Mas é justamente porque dói
que aprecio as histórias violentas.
Com olhos de lobo assisto
a violência
e com boca de lobo pergunto
se é possível domesticar um -
a violência
Com nariz de lobo procuro
pessoas
minhas iguais
são as que sangram.

--

Não é à toa que vítima é uma palavra feminina
Nós homens somos Barba-Azul, Fera, Lobo, Rei-pai ausente e Príncipe Encantado
lutando contra o monstro que somos nós
Nós mulheres somos chapéuzinho, branca de neve, e as esposas do Barba-Azul,
e Bela
assistindo a luta dos homens-monstro
Nós sobrevivemos dos restos deles
transformando-os
ou transformando-nos neles
, mas, para nós, homens, não há essa saída
nos monstrificamos e esperamos
uma mulher que nos humanize
que nos redima
e dê sua vida por (para) nós
- Não,
a saída é morrer
ao final de um filme de caubói
monstro até o fim
- antes morto que feminificado -
carregado por valquírias

, mas,
morto o herói
a nós mulheres resta a mortalha
ou a morte
enterrada em vidro, ou debaixo de casa
derretida por fogo, ou por água
ou casada
com Rei ou Barba-Azul.

sábado, 11 de março de 2017

Fofo

É estranho pra mim me sentir tão bem com você.

Quando eu te conheci, eu me apaixonei instantaneamente. Quando foi isso eu não sei bem. Talvez quando eu ouvi seu nome a primeira vez tenha havido uma chance de eu deixar pra lá, de eu esquecer esse nome em seguida, apenas um apelido um pouco incomum, um pouco mais velho e mais nerd que o habitual. Talvez quando eu te achei na festa tenha tido uma chance de eu esquecer seu rosto em seguida, de você ter sido só um cara aí, uma pessoa aí, sem importância. Mas quando a gente conversou pela primeira vez já não tinha mais nenhuma chance de eu deixar pra lá. E a primeira vez da qual você se lembra, eu só lembro o quão despeoporcionalmente intensos eram meus sentimentos naquela noites, aquela insegurança confusa, aquela minha inexperiência toda, a sua inesperada surpresa quando eu encostei em você. Sua sobrancelha nos meus lábios, macia.

E você não deu a mínima. Minha paixão intensa e despropositada batia na sua calma, na sua preguiça, na sua inconstância que se misturava com o meu pânico. Eu às vezes fugia, o mêdo de me expôr me dominando, e às vezes me expunha demais, esquecendo o mêdo, mas o efeito dessas minhas ondas em você era sempre passageiro, às vezes um arroubo de carinho ou de tesão, mas nunca o suficiente, nunca por tempo suficiente, quando em mim o sentimento era constante, e absurdo, beirando ao ridículo.

Eu conheci um lado de mim que eu desconhecia, desesperado, impaciente, violento e fraco. Eu disse coisas que eu não me imaginei dizendo. Eu perdi o pé e me deixei levar... Até que eu me assustei tanto que decidi fincar os pés e cortar completamente minhas expectativas.