domingo, 22 de setembro de 2019

A few translations

(this is mostly so I can post hese on tumblr)

Veils

we grow used to seeing ourselves through veils
the veil of the cradle
of love
of the night
of lies

one day, we're so enveiled
we can no longer tear the veils apart from the flesh
the gauze thick with blood clotts
clotts the gaze

tear off the veils and the flesh is raw

blood flows

---

Spider webs

Once upon a time your words stuck in my mind like spider webs.

Today the spider webs in my mind are memories of other people, with different words. Of your words, only this one sentence remains, this question. You said, one day, after an argument and a confession, but still no forgiveness: that you had never even imagined that I too could have suffered.

Never

My suffering, as if cast in glass
Transparent
My suffering silent, hidden
in the back of the kitchen cupboard, behind the porcelain for special occasions,
stacked as glasses without even a napkin between them
and when I try to unstack them, they're stuck
together by the weight of time
even light things, left alone for years, they weight
and mark
and hurt

even our own body, if still, hurts itself.

---

The Woman and The Victim

It's no accident that "vítima" is a female word,
I think,
every time I hear those stories of violence

Meanwhile a boy is battered to death
by his father
for enjoying doing things - girl's things -
such as washing dishes -

Meanwhile a woman is under arrest
- all restraining orders violated
helpless
she welcomed her ex-husband home
with a gunshot.

--

In my body
the identities of the Woman and the Victim
challenge each other
each certain
to be the other

--

Road.
A man and a woman speak
- neither of us is straight
all are white -
about a violent story we watched at school

She
talks about trauma
she was too young
the scene, too strong
- a group of men rapes a housewife -
She, being a woman,
immediately puts herself in the victim's shoes
Safe in her chair and - violated.
- The Spectator
Through her body
the violence
of all the men in the world
over all the women -

He
was young enough
to never have actually questioned
the nature (his) of violence.
He, being a man,
questions
putting himself in the shoes of the monster.
- The Spectator -
"A Great movie", he says,
"Everyone should see it."
- through his body the violence
of every man
- potential -

My body,
neither his nor hers,
Mixes, muddles
both experiences
- completes -
my body was old
precocious
already hairy
little red riding hood inside the wolf
- Victim - I instatly related to the woman
, but
precisely because it hurts
I wear also the hide and the fangs of the monster.

--

It terrifies me
to imagine that even earlier, I
(could)
- before I became -
could have been born a victim
(how much scarier)
could have become a woman through the stories

But it's precisely because it hurts
that I enjoy violent stories.
With wolf eyes I watch
the violence
and with wolf mouth I ask
- is it possible to tame a monster?
With wolf nose I search
people
my peers
are the ones bleeding

--

It's no accident that Victim is a female word
We men are Blue Beard, Beast, Wolf, absent Father-King and Prince Charming
fighting the monster that is us
We women are little red riding hood, snow white, and Blue Beard's wives,
and Beauty
watching the fight of the beast-men
We survive on their scraps
transforming them
or transforming ourselves into them
, but, for us, men, this way out is closed
(this rereading)
we monstrify ourselves and wait
for a woman who will humanize us
who will redeem us
and give her life for (to) us
- No,
the way out is to die
at the end of a western movie,
monster to the end.

- dead before feminine -

, but,
for us women the end is mourning
or death
buried in glass, or under a house,
melted by fire or by water
or married to the King, or to Blue Beard.

terça-feira, 10 de setembro de 2019

Carente

Era quase meia noite, e um toque
muito suave do seu nariz no meu
e eu queria falar
dos seus cabelos loiros
eu queria falar desse seu toque doce
dizer
"carinhoso"
e eu
"carente"
às vezes as palavras ficam lost in translation
às vezes as bocas se perdem pelo caminho

Tantos kilômetros de céu

Eu tento alimentar meu corpo com comida
Mas minha boca deseja outra
Eu me abraço debaixo das cobertas
Faminto

O sol nasce várias horas mais cedo
E eu acordo aqui sozinho

Os corpos que passam por mim parecem poços de luz do sol
E eu como uma planta jovem me retorço inteiro para voltar-me para eles
Cada sorriso, cada mínima abertura
Meu coração se entrega completamente
Nenhuma célula do meu corpo deixa de se lançar
Te conheço a apenas dez dias mas já me pego sonhando com você

Todo esse sofrimento
Mas não é você que meu corpo deseja tão desesperadamente
É qualquer coração aberto
Qualquer meio-flerte
Qualquer roçar acidental de pernas ou
recomendação de livro ou
levantar de sobrancelhas ou
qualquer bom-dia

sexta-feira, 23 de novembro de 2018

Rei incógnito

Eu sonhei contigo, Rafael.
Como há anos não sonhava.
É estranho porque às vezes quando acordado é difícil lembrar quem eu sou, e você
Eu sonhei contigo, Rafael, e talvez
sonhar contigo seja sonhar comigo.

O sonho foi assim: você, mais jovem do que eu me lembro
(e, do jeito que as coisas são, provavelmente mais jovem do que parecia)
já Rei, já Senhor, já talvez até cansado de suas muitas e tão confusas responsabilidades, disfarçado, incógnito, em terra estrangeira
-- Ou não? Porque os limites das terras são tão vagos, e o planeta é uma esfera, mas também é uma história, e há tanto que não conhecemos, tanto para ver que é absurdo pensar que duas ou três crianças disfarçadas de adultos (ou mesmo adultos disfarçados de crianças disfarçadas de adultos) poderiam conhecer todas as cidades do mundo,
e há passagens, rios e reinos dentro de montanhas, gigantes e dragões adormecidos, ruínas cobertas de floresta, bibliotecas dentro de livros --

talvez seja até inevitável que um Rei esteja sempre em terra estrangeira dentro de seu próprio reino.

Você tinha raspado o cabelo (afinal um garoto loiro de olho azul chama a atenção) e comprado uns moletons num lugar qualquer (vermelho, marrom e preto, cores nada a ver contigo), e agora estava tentando se alojar numa espécie de hostel enorme, meio hostel meio clube meio universidade, um grande vão no meio de vários corredores abertos em vários andares, uma estética industrial-futurista dessas cheias de vidro e metal branco. Cheirando a junk-food, suor, cheetos e cloro de piscina.

Você procurava um quarto pra dormir e abria uma porta pra encontrar um garoto (?) espantado, escondendo algo (ou -se) no beliche. Mas tudo bem, você também tinha algo a esconder, no caso, um pequeno companheiro, um bichinho, Rafael, como você pretende se esconder levando por aí uma coisa tão sua quanto um passarinho? Se esconda bem, Rafael, ninguém anda por aí com pássaros que nem você, ninguém por aí fala a língüa deles.

Você ri. Eu sinto-ouço sua risada, Rafa. Quando eu te conto isso. Minha preocupação estúpida por você, sendo que eu nem sei o quê você estava fazendo, se escondendo do quê. Me diz.

Você tinha um mestre, acho. Um velho; talvez --
talvez eu esteja assintindo muito Avatar e isso tenha entrado no sonho? --
e você tentava ir no vestiário tomar um banho e ficava errando o vestiário, o que é mesmo isso de homem e mulher? Em qual vestiário se entra? mas talvez
isso seja só eu sendo você sendo eu no meu sonho na minha cabeça.

Às vezes eu sinto uma saudade louca
e é besta porque você sempre está aqui de alguma forma do jeito que sempre esteve
mas eu cresci, Rafael
e eu te abandonei
tantas vezes
tantas vezes eu te abandonei pra conseguir ver este mundo, o mundo Real, sabe, o mundo em que EU vivo
pra fazer amigos que pudessem me levar a lugares que eu nunca poderia imaginar
em vez dos amigos que só podem me levar a lugares que eu imagino.
Mas vocês nunca me abandonaram, sempre
que eu visito vocês
vocês me recebem de braços abertos
é até estranho
como vocês nunca esquecem
É doido como nos sonhos eu nunca tenho tempo pra ser covarde
nos sonhos eu sei exatamente quem sou
no mundo Real as responsabilidades não vêm com os grandes poderes
elas só vêm e vêm e vêm