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sábado, 8 de setembro de 2012

O Instante Seguinte

Eu devia ter dito "não".
Seria a resposta razoável, a opção sensata, responsável.
Amanhã de manhã haverão conseqüências. Eu me arrependerei. Eu devia ter dito "não".
Mas como?
Você perguntou, perguntou porque não era nada óbvio, porque meus sinais seriam emocionais e apenas com palavras eu poderia falar racionalmente; mas eu devia ter me antecipado, eu deveria ter visto os seus sinais e dito antes, "por favor, não", eu deveria ter dito não faça isso, por mais que meus olhos peçam por favor; não faça isso, por mais que meu corpo exija e se impaciente, não faça isso, porque meu corpo está errado, meu corpo não entende as conseqüências, meu corpo é incapaz de dizer "não".
Eu devia ter dito "não", mas como, com meu corpo gritando "sim"? Mas como, contra todos os sinais do meu corpo? Eu devia ter dito "não", para manter as aparências e evitar as conseqüências das minha ações, eu devia ter dito não e te obrigado a escolher respeitar minha renúncia, eu devia ter dito não para aprender algo novo sobre você. Mas como dizer "não" quando tudo o que eu quero é poder dizer sempre "sim", quando tudo o que eu quero é não precisar manter as aparências, quando o que eu quero mais é que todos descubram, mais cedo ou agora, que não tenho mêdo nenhum das conseqüências, que posso viver a vida sem me arrepender?
Não. É isto que eu quero, isto agora, e não há nenhum motivo pelo qual todos devêssemos dizer não. E eu disse "sim". Sim. Sim. Sim, porra. Amanhã eu vou me olhar no espelho e ser forçada a me lembrar de que eu sou uma pessoa que diz "sim".

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Você-Lírico

Observação sobre a forma como tenho escrito os últimos posts:

Houve um tempo em que eu acreditava que as pessoas que conhecessem a história por trás everiam ser capazes de discernir pelo menos a parte que falava sobre elas. Assim, eu me esforçava para manter personagens coesos - às vezes eu dividia os parágrafos, outras eu usava pronomes diferentes. Mas afinal me dei conta de que os personagens são apenas um artifício, um recurso literário de utilidade restrita, e freqüentemente um limitante da expressividade -- e mais, que talvez a compreensão da história não seja fundamental quando o cerne do texto é a idéia, o conceito, a sensação e o sentimento. Assim, eu tenho usado um tu-lírico fluido, que pode mudar de significado sem aviso, no meio de uma frase, e às vezes se referir a diversas pessoas dentro da mesma oração. Portanto, parem de tentar imaginar "de quem" eu estou falando. Mesmo quando as histórias são verdadeiras (e elas quase sempre são), elas estão misturadas, confundidas, e toda vez que você imaginar uma pessoa real vivendo essa história (qualquer pessoa que não seja eu), lembre-se de que... bem, de que a borboleta na verdade era um dragão, e o telefonema era uma carta. É assim com tudo. A narrativa é puramente um artifício; a verdade, uma diversão.

Impressão

Não, não é nem a dor, nem a marca, nem a mordida.

Ou talvez seja.

Você deve lembrar de uma boca de dor que marcou no meu braço, no fim do nosso começo, e de como toda vez que outro alguém me tocava, por cima do toque eu sentia essa dor que lembrava você. Você tinha razão: eu podia tocar outros homens, dançar com eles, beijá-los, até transar com eles, mas minha pele ainda sentiria as marcas dos seus dentes em cada lugar que eles me beijassem, e na manhã seguinte eles seriam apenas uma lembrança doce, enquanto nas nossas manhãs seguintes você era sempre uma marca presente e um desejo, imediato, de que as marcas não perdessem seu ardor antes da próxima vez que nos tocássemos. Eu tivera outros homens, outras bocas, outras mordidas mais doces, até mais prazerosas - e entretanto, cada vez que uma nova boca me morde a ponto de doer, eu penso naquela marca de dor que seus dentes cravaram em mim, me fazendo sua. Talvez por isso, novas marcas perderam seu significado, e novas bocas mal são capazes de me marcar.

Não é também a selvageria, a violência e a predação. Ou talvez seja.

Antes de você eu rosnava e mordia e brincava de gato selvagem, eu rolava na lama e derrubava no chão, eu corria e caçava e era caçada, eu me tornava bicho e uivava na noite. Mas você é tão humano e tão tranqüilo, e eu nunca o vi como uma presa. Não; você me conquistou com palavras, com idéias, com idéias sensatas e concretas, sem metáforas, sem garras, sem caçada. E eu não rosnei pra você, não corri com você, não levei você para explorar as florestas amaldiçoadas e as torres secretas das minhas paragens internas. Muito pouco deixei conhecer - meu sorriso, meu corpo, minhas idéias, meus dentes -- mas não minhas presas.

Talvez seja a fome. Talvez seja ver revelada a fome na sua forma mais brutal, a fome de engolir sem mastigar, se comer o que ainda pulsa, de não haver controle possível. Mas, pensando bem, a fome é voraz e violenta, e às vezes basta o lento, controlado, tranqüilo, dócil prazer dos seus beijos no meu pescoço. Com freqüência basta o tocar, o acarinhar suavemente. Não é preciso haver dentes - basta que haja toque.

Não - acho que não há metáfora, não há simbolismo por trás, não há longos quadros da mente colorindo a cena, não há necessidade de imaginação. Há apenas tato. Apenas prazer.

O resto é bônus.

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Um Instante

Num instante viro você:

Pernas, pêlos, o cheiro humano de você me completa, a suavidade de você me encanta.
Encantado, ponho meus lábios em você, paseio meus lábios por você, ponho você em minha boca, exploro você com a minha língüa. Sinto a reação de você sentindo a minha língua.
Sinto seu gosto e o gosto de cada pedaço próprio de você. Te mordendo, te experimentando. Sinto que estou te experimentando há sete, oito, nove anos. Mordo sua orelha, mordo sua garganta, passo os lábios por seu cabelo, por sua sobrancelha, entrelaço minhas pernas em você, confundo meu corpo com você.

Abro minha boca sobre você. Enfeitiço você com a minha fome, olho nos olhos seduzidos de você. Sinto o calor de você, o desejo de meu corpo que o cobre, cubro você com meu corpo enorme, abro minhas costelas para engolir você.

Mastigo você, desvagar, com prazer. Interessado, exploro você. Invado você, percorro você, espalho minhas raízes por dentro de você, broto e floreço em você. Cresço em você, e ao longo dos anos você se torna eu. Permaneço em você, e nunca deixo de ser você.

Devoro você, e na hibernação que segue, te esqueço.

A Mistery Tour

Eu olhei nos teus olhos e soube imediatamente. Não disse nada, pra não quebrar o encanto.

Quando minha princesa mentiu pra mim (sem querer) eu agüentei estoicamente, porque eu não sou homem o bastante para conquistar você. E você vai estar além do alcance. Domine o mundo por mim, eu vou tentar ser sua amiga, apesar da distância.

A borboleta na verdade era um dragão.

Você sorriu e eu soube que. Você me chamou com olhos vorazes. Só de lembrar eu te quero tudo de novo. Eu te quero aqui, agora. Vocês estão longe de mim, agora.

Você descreveu o gosto da minha boca sem nunca ter me beijado, e eu quis te morder pra saber se a tua carne também tem o gosto das tuas palavras. Você não tem mêdo, mas eu sim.

O meu fundo do poço é um pouco mais fundo. O meu fundo de poço ainda chama por mim.

A tartaruga voltou para a praia afinal. Todo ano mais garotos fazem dezenove anos. Todo ano mais adolescentes perdem a virgindade. Todo ano mais pessoas de vinte e poucos começam a meioque se sentirem adultas. Mas temos que largar a pele velha, e abandonar as nóias de criança.

E abandonar as nóias dos nossos pais. Mas eu sequer consigo abandonar as nóias de 20 anos atrás, completamente.

O unicórnio na verdade era um pequeno pônei. A Mágica tinha forma de coração. Eu quero compartilhar uma coisa: eu tive um grande amor.

Eu tive dois grandes amores (alémd). Às vezes mal consigo diferenciá-los dentro de mim. Ambos me levaram às alturas. Ambos mentiram pra mim. Ambos me fizeram sofrer. Não sei dizer se ambos me amaram. Mas acho que você me amou. Acho que era tudo verdade, apesar de que.

Eu te perdoei faz mil anos, eu entendo agora que não foi culpa sua. Não só. Eu quero você de volta. Eu quero voar de novo. Viajar. Quando você se afastou o mundo ficou mais silencioso. Está quieto demais aqui.

Mas eu chego a mudar de calçada quando aparece uma flor, e dou risada do grande amor (mentira)

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Panfletarismo

Ultimamente eu tenho me sentido muito gay.
Quando eu digo "gay", eu não quero dizer homossexual. Eu já passei por épocas muito lésbicas, e já passei por épocas femininas, e já passei por épocas de macho e por épocas gays. Estou numa época em que me identifico mais com homens gays. Em parte é porque eu estou admitindo que durante a maior parte da minha vida eu quis ser um homem, e só me conformei em encontrar as vantagens de ser mulher ("vantagens" é um termo estranho pra isso - digamos as "partes que eu gosto" de ser mulher). Em parte é simplesmente porque sexo gay é muito sexy, e eu detesto quando eu não posso participar (obs.: viva os homens bi!!!). Em parte é porque eu tenho tido vontade de fazer parte de um movimento que é colorido, irreverente, pega todo mundo na balada e curte vestir dourado e dançar no pole.

Eu sou bicha. Eu curto vestir dourado e dançar no pole dance, como eu nunca curti os longos dignos da sensualidade feminil. Eu quero ser a femme-fatale, mas eu sempre acabo usando uma bermuda ou bombacha, com minhas pernas peludas, meus tênis de trilha, e agora om estes óculos estou parecendo uma hipster fora de moda, uma indie sem tribo. Eu acho que sou bicha porque eu sempre fui um moleque, mas agora eu me visto bem. Enfim. E eu gosto de homem como um viado, e me sinto muito confortável falando com gay sobre homem, de uma forma que eu não me sinto tão à vontade com a maior parte das mulheres (com exceções, obviamente - mas mesmo com as exceções eu não me sinto totalmente à vontade, por vários motivos que talvez tenham algo por trás).

Eu também tenho sido muito feminista. Porque é a mesma coisa. Porque eu quero defender o meu direito como mulher bissexual que curte namoros abertos e gosta de sexo, porra. Porque eu acho que liberdade sexual é importante. No fundo é isso que está por trás do meu feminismo intenso. Porque eu quero liberdade, liberdade, como eu estou dizendo há tantos anos. Liberdade pra pegar quem você quiser. Liberdade pra se vestir como você quiser. Liberdade pra se divertir como você quiser. (tudo isso, é claro, tem limites também, mas ainda estamos a anos luz de bater com eles). Mas recentemente uma amiga amiga minha reclamou que as meninas do grupo têm sido muito feministas, muito panfletárias. E eu preciso dizer: tem que ser mesmo.

Você, que reclamou, você devia ser feminista. Aposto que você na verdade reclama pelo mesmo motivo que você fica triste porque aquele garoto com quem você saiu te chamou de vadia. Porque você tem mêdo de enfrentar. Você tem mêdo de que ele tenha razão. Você quer viver a vida do seu jeito, mas você não quer lutar pelo direito de ser respeitada. Você não faz sentido! Eu preciso te puxar e dizer que eu não acredito na sua reclamação. Eu tentei te convencer de que o que o garoto disse não era verdade. Mas eu, eu passei a vida inteira lutando, desde os quatro anos, lutando, lutando, eu treinei com os meus demônios internos antes de vir pro pau da vida real. Eu admiro você, e você ousa ter vergonha justamente da parte de você que eu admiro?! Eu invejo você, mas você não inveja a si mesma. Mas eu vou dizer, você está errada ao querer que a gente pare de panfletar. Eu pensei muito sobre isso e agora eu tenho certeza: a gente tem sim que panfletar.

Quando teve a Parada Gay e a gente não foi, o Fê chegou puto (vestindo uma coroa, e super gay, e lindo, e muito puto) com a gente porque nenhum de nós, gays, tinha ido na Parada. Nenhum de nós tinha aturado o ridículo e se divertido com o ridículo pra mostrar ao mundo que estamos lá. Eu me senti horrível, porque ele tinha razão. Mas na época eu estava mais ferida com o desrespeito a qualquer um que queira se identificar como bissexual, e eu não queria dançar junto com o povo que me reprimia dessa forma. Mas se fosse hoje, eu iria. E eu deveria ter ido, senão por mim, pelo menos por ele. Porque eu não quero jamais viver num mundo onde meus amigos tenham sua liberdade sexual toldada de maneira tão extensa. Este mundo em que a gente vive, em que quando a gente conhece um estranho, a primeira coisa que a gente faz é avaliar o quanto a gente tem que esconder e mentir.

E também tenho panfletado (devia fazer mais) sobre ciclismo, porque eu me sinto tanto
uma minoria toda vez que ando de bicicleta e toda vez que falo sobre isso que às vezes acho que deveria ter uma lei dizendo "Não discriminarás por sexo, gênero, religião, etnia, opção sexual ou meio de transporte". E o foda é que meus parentes e amigos me discriminam. Como sempre, o que dói mais é que os parentes e amigos também discriminam. Mas eu não sei se eu deveria me sentir tão mal. Eu também os discrimino por usarem carro demais. Eu discrimino meus pais por não pegarem ônibus. Eu tento ignorar, quando eu ouço um "Quando você dirigir todo dia..." (mãe, se tudo der certo, isso nunca vai acontecer).

A gente panfleta porque a gente quer que todo mundo esteja o tempo todo pensando nisso. A gente não quer ser ignorado. Talvez a forma esteja errada, talvez o jeito de chamar a atenção esteja sendo pouco efetivo. Talvez. Mas política não é uma coisa que pode ser deixada apenas para os momentos "apropriados". Não adianta discutir apenas com as pessoas próximas, nos momentos íntimos. Tem que discutir publicamente, tem que dar a cara pra bater. Eu dou a minha cara pra bater, cada dia mais. Eu prefiro levar porrada a viver me sentindo oprimida. Meu objetivo é chegar ao ponto em que eu não tenha mais vergonha nenhuma de defender o que eu acho certo. E correr o risco de levar tapa na cara.

Discutam.

domingo, 2 de setembro de 2012

Começando mal

Preciso começar a tomar as rédeas da minha vida
Mas começo mal.
Preciso parar de procrastinar, parar de dar mais atenção aos outros que a mim
Mas não acho que devo.
Estou aqui pensando e pensando em parar de pensar
E todas as coisas que fiz e que devo fazer vêm pra me assombrar
Tanta coisa passou, tanta coisa passará
Sinto que falta controle, que falta saber olhar além da próxima sombra.

Preciso começar a guiar o cavalo da minha vida
Mas começo mal.
Tenho que ir, tenho que sair, não tenho tempo pra me dedicar
(a este blog)
Sinto que falta espaço, tempo, direção
Pra dizer "foda-se, você não tem poderes sobre mim"
Pra dizer "eu adoro você, mas hoje não"
Pra dizer "eu quero que você goste de mim, mesmo quando eu não quero dedicar todo esse tempo a você"
Sabe quando os relacionamentos de repente viram obrigações?
Amizade não é pra ser obrigação, porra.

Eu quero passear com você, eu quero subir em árvores e brincar de Tudo.
Eu quero ir na balada, eu quero desaparecer
Eu quero contar histórias, compôr poesia, brincar de viajar loucamente
E jogar Cups.

Eu preciso começar a dedicar mais tempo pra escrever
Mas começo mal.