Esses dias eu estava pensando sobre sacrifício animal, por causa da discussão a respeito de macumba, cabeça de bode, tourada. Assim até fica parecendo que nossa sociedade considera um absurdo imperdoável matar animais inocentes. É claro que isso não é verdade. Consideramos (bem, vocês, eles, consideram) perfeitamente aceitável matar animais em muitos casos.
Acham perfeitamente normal matar porco, frango, boi, veado, alce, camarão, peixe, tubarão, carangueijo, e muitos outros tipos de bicho, com métodos que às vezes são dolorosos, para que possam comer uma parte de seus corpos. Inclusive comem alguns animais ainda meio vivos.
Aliás come-se peru assassinado no Natal, mata-se o peru, jogam-se fora os pedaços menos apetitosos do corpo dele e come-se algumas partes da carne. Esse tipo de ritual pode, deve, é amplamente aceito por todos. Usa-se o discurso de que "pode porque é de comer", mas vamos lembrar de toda a carne que já jogamos fora na vida, de toda a carne que apodrece no supermercado, que apodrece no caminho, que não é comprada porque o preço da carne não é baixo o suficiente, nós sabemos que isso existe e muito.
É engraçado como pessoas que comem carne de boi, porco e frango, que acham normal matar rato e gambá, e que vão pra Europa comer carne de veado, às vezes ficam horrorizadas quando vêm alguém comendo coelho ou cachorro ou algum bicho que eles acham bonitinho. Enquanto isso muitos veganos vêm a mesma cena e dão de ombros. Estamos acostumados a sentir aflição ao ver animais sendo mortos por motivos que consideramos absurdos. Hoje mesmo apareceu na minha timeline uma foto de ratinhos mortos, falando de um novo método "ecológico" de matar ratinhos. Eu não quero ver foto de bicho fofo morto, entendeu?
Vocês acham que é certo e necessário, e matam com as próprias mãos ou com venenos de todo tipo barata, rato, gambá, guaxinim, morcego, pombo, abelha, vespa, marimbondo, lesma, caracol, mariposa e qualquer outro animal que cometa o crime hediondo de fazer um ninho nas paredes de um prédio habitado por humanos, ou na terra abaixo dele, ou no terreno ao lado, ou dentro dele, e que ouse mostrar sua cara!
Acham normal matar animais o tempo todo por mil razões diferentes.
Acham normal matar, com venenos que afetam todas as formas de vida do lugar, animais que querem comer as plantas que produzimos para nos alimentar, ou para nos dar prazer, ou para alimentar nossos animais, ou para qualquer outro fim.
Acham necessário e piedoso matar animais domésticos e mesmo de estimação se constraírem alguma doença contagiosa perigosa, ou alguma doença terminal, ou se cometerem alguma violência contra humanos. No caso de animais rurais, uma pata quebrada já é às vezes suficiente para que sejam "sacrificados".
Acham normal e inevitável matar diversos animais para treinamento e pesquisa em diversas áreas, especialmente na área de saúde.
Acham aceitável matar TODAS as espécies de seres vivos (animais, plantas, fungos, microoosganismos, etc) indiscriminadamente para fazer represas para gerar energia para a indústria, ou para abrir espaço para pastos e plantações de monocultura, ou para o cultivo de madeira, ou para a instalação de indústrias, ou para a construção de moradia, ou para a construção de portos ou estradas, por outra razão qualquer que pareça importante na hora para quem pode tomar essa decisão.
Matam com armadilhas e armas de fogo raposas, lobos, onças, jacarés, tubarões e outros animais considerados "maus" e "perigosos", mesmo enquanto entidades ambientalistas tentam proteger estes animais da extinção (matam estes animais de forma não muito diferente da que mata-se índios, aliás, e por motivos semelhantes também).
E aí, dado tudo isso, eu acho muito suspeito que venham me falar em resgatar galinhas de macumba. Não que eu queira que galinhas morram, mas porque estamos atacando esse ritual de fundo de quintal, esse ritual de religião invisível afro-brasileira, e não os massacres que estão acontecendo agora mesmo, de milhões de espécies nativas, muitas vezes apenas para nosso prazer e conforto e lucro do capital?
palavra por palavra, procuro chegar, devagar, ao lugar de La Loba.
"O silêncio", disse o griot,"só é escuro no começo..."
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quinta-feira, 8 de agosto de 2013
terça-feira, 21 de abril de 2009
Coisas doces
Quando cheguei em casa ontem à noite (por volta de uma da manhã) os filhotes estavam especialmente carentes. Eles me seguiram até o quarto e eu os pus para fora. Eles voltaram, e o Ugo os assustou para fora. Quando levamos o computador para o carro, eles nos seguiram até a porta e eu os mandei de volta para dentro. Quando fui dormir, os pequenos se esgueiraram atrás de mim pela fresta da porta. Como meu coração não é exatamente de pedra, eu tive que ir brincar com eles. Caindo de sono, deitei no sofá e deixei eles brincarem com minha mão no chão. Afastei Fumaça do meu sapato algumas vezes antes de adormecer. Quando acordei, os dois estavam aninhados no sofá ao meu lado.Acho que nunca me senti tão próxima de uma mãe. Eles só queriam se sentir seguros e aquecidos como na barriga de sua mãe gata. Passei horas dormindo mal e acordando a toda hora, quase caindo do sofá (que não é tão confortável assim...), totalmente cativada pelas duas coisinhas pretas. Finalmente, às cinco da manhã não agüentei mais o sono e as cores nas costas que começavam a surgir, e deixei os gatinhos dormindo para ir para minha própria cama. Quando acordei, a primeira coisa que quis fazer foi brincar com eles. Hoje Penumbra (é esse o nome que quero dar para ela) deitou no meu colo durante o café da manhã.
Acho que estou completamente apaixonada.
sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008
Across the Universe
Olho para Sebastian, correndo atrás de mim com seu brinquedo pingando baba. Será que algum dia poderei amá-lo?
Encarava o monstro diante de mim. Ele não era feio. Não era mau. Só era velho e forte e irascível. Eu encarei o monstro, mas por pouco tempo. Depois, saí correndo. Saí correndo e me perguntei por que quisera encará-lo afinal. Saí correndo e me escondi nas sombras. Mas ele veio atrás de mim.
Às vezes, pra ser sincera, gosto de pedalar até a exaustão, e depois pedalar de volta, apenas para ficar tão cansada que isso se torne a única coisa que importa. Você me perguntou o que faz sentido, e isso é uma coisa que faz sentido: descansar, quando se está cansado.
Hoje quando Flor veio pedir meu colo, reparei que sua testa estava, na parte que deveria ser branca, rubra. Quis cuidar dela, mas ela não deixou. Ela está certa. Limpar a ferida agora faria pouca diferença. Há muitas outras feridas debaixo do pêlo. Eu quero proteger minha gata, mas não sei o que posso fazer.
Você entende?
Outra vez, eu encarei o monstro, lutei contra ele, sacrifiquei tudo o que podia sacrificar para dominá-lo. E quando o vi ferido, caído no chão, me afastei, cansada; voltei ao meu mundo sacrifeito. Acreditando-o victo, o mostro meu inimigo. Ai.
Me envergonha, até, crê-lo meu inimigo. Mas lutei, lutei e então parti. Mas não estava ele morto. E quando saí de meu catre, o monstro exibiu as presas; o monstro me abocanhou. Só por magia não sucumbi. Desde então, não ouso encará-lo, mais.
Também gosto de acumular tarefas e de executá-las todas no mesmo dia, de preferência emendando-as sem pausas. Hoje, por exemplo, foi assim, apesar de minha tarefa #1 ter sido adiada para amanhã e de eu ter me exaurido completamente durante a tarefa #3, o que me fez desistir da tarefa #4, que de qualquer forma ia ser bastante complicada.
Acho que o objetivo disso é não ir para casa, e não ter que esperar. Se eu passar o dia inteiro fora de casa, fazendo coisas, não vou desperdiçar nenhum minuto do meu dia. E vou viver esse dia como eu quiser, livre, independente. Estar a céu aberto também me deixa mais forte. Isso, e estar longe.
Em geral, o que mais facilmente faz sentido são as coisas simples: o mêdo, a fome, o calor do sol, o cheiro do mato. Há também coisas menos simples, mas indiscutíveis... como a ternura que desperta um bichano adormecido, ou o amor de um cão pelo seu dono. Há coisas essenciais, como respirar, como sentir a si mesmo... sentir o outro também. Há coisas revigorantes, como enxergar uma imensa paisagem, como ver o horizonte. Há as que dominam nossos sonhos, nossos desejos, nossas nossos objetivos, antes e depois de as experimentarmos... para mim, coisas como velejar e cavalgar. E há coisas fundamentais, como trabalhar. Work hard, work worth doing.
sexta-feira, 30 de novembro de 2007
gatonajanela.img
Nada, não. Isto tudo é só sua imaginação...
Minha gata está sentada em cima de uns livros na frente da janela, olhando pra baixo e miando agudo para algo que eu não tenho a menor idéia do que pode ser. Eu sei que ela ouve quando eu rôo o unha do indicador (que está 0,3mm maior do que eu consigo suportar) porque ela vira a orelha direita na minha direção e me manda um meio-olhar de soslaio (isso é uma redundância?). Nas cinco ou seis árvores que vejo atrás do muro branco além da minha janela, os milhares de galhos pequenos e folhudos que nasceram para compôr a majestosa exuberância do verão balançam suavemente com o vento. O azul do céu está tão claro que parece branco, e ofusca um pouco minha visão dos galhos.
Está tarde, e eu não cumpri meu dever.
Está tarde, e eu cumpri meu dever, mas não sei a que ele se presta.
Está tarde demais para correr atrás dos furos que assustam no começo do meu currículo. Estou apaixonada, quero tudo muito, e o segundo pedaço do bolo talvez eu tenha que dividir em dois. Eu gosto de mim, mas é muito difícil acreditar naquilo que faço e não faço.
Eu fui trabalhar para anestesiar a frustração de não trabalhar no meu atual emprego-faculdade. E quando chega o fim de semana estou sempre pensando odeio-sexta-feira. : "é que às vezes os ícones ficam em cima uns dos outros, aí eu não encontro...". -- esse foi o primeiro dia.
Minha gata está se debruçando para fora da janela, e eu vejo seu coração batendo rápido rápido. Nos olhos arregalados os músculos-íris relaxam fazendo as pupilas virarem uns filetinhos pretos; e os pelos logo atrás das costelas balançam conforme sua respiração se acelera.
Ninguém pode prever o que acontece depois a desilusão toma conta. Nem mesmo os elefantes.
Ouve um dia em que eu amanheci no chão de pedra do quintal da minha casa. Logo depois meus dois cachorros vieram me cobrir de baba de cachorro, sujeira de pêlo de cachorro e amor pegajoso de cachorro.
sexta-feira, 17 de agosto de 2007
Lettres
Começou com o sol de fim de inverno, a cor verde das folhas e os olhos doces do meu cão. E o amor inesgotável daquela gata que dorme na minha cama (que não está aqui agora; deve ter ido procurar comida em algum lugar.) Depois foi um vislumbre resquicioso de um sentimento que eu aparentemente já esquecêra. Mas a bem da verdade nem notei, e segui meu caminho tranqüilamente, e esperei o ônibus, levemente aflita, como faço todos os dias.
Mas dessa vez uma mulher de seus vinte e seis anos chegou no ponto, sentou-se, perguntou-me sobre o ônibus que ela procurava e que era o mesmo que eu esperava (e que estava providencialmente atrasado — ela riu, meio aliviada), e foi puxando assunto até que eu tive que aceitar conversar. Olhando para trás, eu fiz o papel do animal sendo domesticado: à princípio longe, meio assustada, mas cada vez mais à vontade, chegando mais perto, até que estávamos dentro do ônibus lutando para permanecer de pé e trocando idéias e experiências (ela bem mais que eu — senti um pouco como se ela já tivesse vivido tudo o que eu vivera e tudo o que eu deveria viver) sobre coisas não tão banais assim, como a vida na faculdade, as festas de Bauru, a importância de sair de casa, as trivialidades do trabalho. Nos separamos sem o sentimentalismo desnecessário, e então a FAU... a FAU. Sabe?
Meio assutadora, como sempre. E um professor, bem, quando entrei na sala me assustei com a contradição entre a voz grossa e o homem franzino. Extremamente simpático; e tinha um nome agradável, de uma região da qual eu já ouvira falar, uma tal de Ilha da Felicidade. E nos ensinou algumas coisas sobre o Oriente e suas linguagens, e sobre o design e o desígnio, e sobre outras coisas que nós precisávemos conhecer. Tanto que eu nem tirei o caderno da mochila, nem me distraí com meus colegas: fiquei ouvindo, embevecida. Digo embevecida pensando na delícia de beber cada palavra. Não sei, como... como estar muito afim de aprender, eu acho. E rabisquei furiosamente na folha do programa, sentindo cada traço, cada fúria, e afinal, foi só aí que me dei conta: rabiscando ágil um rraaahrrna composição de uma fera; só aí me dei conta do que me tomava e me fazia sorrir, subitamente — acabada a aula — sozinha na minha carteira. Que eu podia sentir.
Sentir! Como sentia falta daquilo, daquele prazer estranho, daquela pequena loucura! E ao sair da aula... notei então que eu não queria me isolar, que queria conversar, embora não soubesse como. E olhando para o chão vermelho além da rampa de saída, percebi que eu não queria deixar a FAU. Não ainda. Não por mais algum tempo. Mas talvez. Talvez seja simplesmente necessário.
Como aquela moça me disse, quando o ônibos esvaziou um pouco: fazer faculdade fora, morar em república, sair da casa dos pais — isso é simplesmente necessário. Por quanto tempo mais eu vou ficar negando o que o mundo insiste em me falar?
PS.: Hoje eu comecei a ler um livro.
domingo, 5 de agosto de 2007
Por favor, deixe-me chorar.
Este não é um post sobre como eu terminei com meu namorado e estou destroçada (o que não é verdade); não é um post sobre como estou desiludida com a vida e com tudo o mais e prestes a me suicidar (o que é uma absurda hipérbole da realidade); nem é um post sobre como as coisas todas na verdade não estão fazendo muito sentido (o que é um eufemismo, talvez até uma metonímia da existência humana).
Na verdade é um post sobre algo anterior a isso. Ao menos para mim. Este será um post que eu deveria ter escrito dezesseis dias atrás, mas que não consegui. A vida é assim, cheia de nãoconseguís. Irromperam-me as lágrimas dos olhos quando era de os olhos conseguirem ver. Às vezes penso que a vida é assim, fútil, proposital, eufemística. A vida é sempre uma metáfora para algo maior. O nascimento é metáfora da Criação, e a morte é metáfora para a Perda. Ou é para o Fim, que é metáfora para a Mudança. Tudo o que mais nos perturba é metáfora para a Mudança... Alguém já dissera que "nada se cria, nada se perde; tudo se transforma". A Mudança é a transformação.
Só resta mesmo ao fim ser figura de linguagem, porque na verdade as coisas não acabam; se arrastam, persistem, silentes e talvez invisíveis. Ela, por exemplo. Ainda resiste na voz a vontade de chamar-lhe o nome. Ela se esconde dentro, fundo, em tudo. Está nas estrelas, nos gramados, na solidão. A solidão que se define por falta dela; ela mesma nunca permitiria a solidão.
Porque há algo maior que a Loli ainda está tentando me dizer.
Como se ela quisesse que eu entendesse que ela era metáfora para algo maior. Talvez, se eu conseguir entender, eu me torne também metáfora dessa mesma coisa intangível. Essa entidade. Talvez até mesmo o Amor.
Porque a Loli me ensinou a amar. Antes eu não entendia; diziam-me amor e eu pensava apenas que um dia eu deveria entender o que era que se chamava de Amor. E então eu entendi, olhando naqueles dois castanhos olhos doces. Assim, minha primeira definição de amor foi aquilo que eu sentia pela Loli, e ela por mim. E a minha primeira definição de ser-consolado foi estar triste e desanimada e poder abraçar a Loli assim muito silente e sentir o calor dela e o coração dela batendo fundo (uma coisa sobre os labradores é que eles são muito fundos, como madeira maciça), e a respiração dela, e ela muito quieta e eu muito quieta, muito triste, e pensar, tudo bem, tudo bem, e tudo de repente ficar um pouco melhor, um pouco mais leve, e ficar mais fácil respirar (e então ela se mexer e sair do abraço). E a Lolita me ensinou outras coisas também: me ensinou a brincar, quando eu havia esquecido como; me ensinou a passear em vez de ir-a, me ensinou a me perder.
Principalmente me perder, e esse é um ensinamento pelo qual sou muito grata. Quando o Argus ainda não existia, eu saía com ela na guia meio sem vontade e pedia pra ela me dizer onde ela queria ir. E deixava ela ir tomando as decisões, viramos à esquerda aqui, atravessamos a rua agora, vamos parar porque estamos ambas muito cansadas. Uma vez nos perdemos tão absolutamente que paramos à beira de um murinho para descansar e eu não sabia se havia forma de voltar para casa (estávamos tão exaustas!); até hoje não sei que lugar era aquele, nem como saímos de lá. Andando, acho. Quando se anda muito, parece-nos que a única solução é andar mais. E me lembro vagamente de pegar a guia e arrastar a Lolita para fora dali, porque ela sempre se cansou mais rápido que eu, e lembro de como eu tinha que puxar a guia com força para ela não parar no meio do caminho.
Uma vez também ficamos perdidas no meio da Vila Madalena, o que foi pior porque as ruas lá são horrivelmente íngremes — chegamos a subir na Nitingüi até a Harmonia apenas para que uma moça lá em cima (a primeira que víamos em vários minutos; estava anoitecendo) nos aconselhasse a descer tudo e seguir pela Natingüi até a Praça do Pôr-do-Sol. Para quem não conhece, isso são quatro ou cinco quarteirões de escadarias e ladeiras, e quando chegamos na praça estávamos mortas. E ainda tínhamos que subir a praça inteira. "Que caminho mais estúpido", dirão vocês. Mas por favor lembrem que eu estava completamente perdida. E aí minha amiga Larissa me ligou, perguntando porque eu não estava na festa dela, e eu fiquei sem saber o que dizer. Parecia absurdo contar para aquela menina bonita, bem educada, e nem de longe tão doidinha quanto eu, que eu estava perdida com minha cachorra num bairro desconhecido (não importa quão próximas de casa aquelas ruas sejam para mim hoje). Também não me lembro do estado em que estávamos quando chegamos em casa. Ou melhor, tenho uma lembrança vaga de nem ter energia para pegar dois copos d'água para nós, como eu sempre fazia. E nem ela ter energia para aceitar, quando peguei-os, passados alguns minutos. E de ficar bastante tempo parada, antes de sequer pensar em ir para a tal festa. Mas até hoje lembro desse dia com orgulho, até com uma pontinha de inveja, porque depois vieram os filhotes e o Argus e nunca mais eu pude me perder tão perdidamente quanto que gostava de me perder com a Loli. E depois também eu comecei a me perder sozinha voltando do cabeleleiro (o que nem é tão divertido) e afinal passei a conhecer tão bem o bairro que mesmo quando tento me perder eu sempre acabo sabendo exatamente onde estou. O que me faz pensar que talvez seja hora de mudar de bairro.
Por isso eu penso que talvez a culpa nem seja da Loli, e sim minha. Talvez o papel dela na minha vida tenha mesmo acabado, junto com tudo aquilo que o Santa e infância representaram pra mim. Então ela estava deixando, de qualquer forma, de ser minha cachorra. Talvez até por isso eu tenha me habituado a chamá-la de cã (cabelo branco): porque ela estava ficando velha, branca, e sequer subia nas pedras da Cajaíba, e sempre se cansava tão rápido nos passeios que o pobre do Argus voltava pra casa sem estar nem um pouco ofegante. Mas há algo mais, ou algo menos. Faz duas semanas que eu te vi pela última vez, e agora às vezes acho que você ainda está lá fora no quintal, esperando um pouco de carinho. E às vezes acho também que já faz tanto tempo, já nos acostumamos. Acho que é só isso que me permite escrever aqui, agora: não saber se você ainda vai aparecer em sonhos, não saber se eu nunca mais vou pensar em você. O que você acha, Lô? Devemos atravessar aqui, ou virar a esquina? Voltar? Visitar a Kiki e o Balto? Descansar no próximo banco? O quê, Lô? Como eu vou entender esses seus meneios de cabeça, esse seu ofegar constante, seu passo que hesita e puxa e mostra quem é que manda (eu ou você, Lô? Ainda não sei...), seus latidos para quase todos os outros cachorros (e por que não aquele labrador chocolate, aquela golden-labrador da esquina, por que com eles era tão amável?), seus cheirares os canteiros, seus puxões, corridas, pausas, andar arrastado, escolha da calçada em vez da grama, pisar na sarjeta suja em dias quentes? Eu, que sou apenas humana. E você, também, entendia quando eu te contrariava? Entendia tudo o que eu falava, contando coisas da minha vida, fazendo perguntas, comentando os lugares, os passeios, conversando até com cachorros alheios? Você entendia meu cansaço de segurar a guia firme, de gritar, minha irritação? E qual era a de ficar latindo feito louca toda vez que eu aparecia perto do quintal?! De ficar gritando por comida, sua doida?!!, logo depois do café da manhã!
Não, acho que a doida sou eu. Porque, sabe, eu te amo, Lori. E eu disse isso milhares de vezes, nos últimos meses, quando eu chegava tarde da noite em casa e encontrava você lá, deitada tão tranqüila, tão fofa, e eu pensava ela amadureceu mesmo, não está mais correndo para mim e pulando... mas será que não era já o início da doença? O que sei é que eu te abraçava, doce, quente, fundo, e era quase como chorar, mas melhor, porque não doía, e porque eu não me sentia tão só. E não era porque eu estava triste. Era só porque eu te via e queria te abraçar. Porque você era linda. Porque, sabe, você meio que foi meu primeiro amor. Não Primeiro Amor de verdade, desses que fazem o mundo girar, a gente ficar sem comer, as festas perderem a graça, e o céu ficar mais azul. Você foi meu primeiro amor amigo, assim ágape, assim (não há como explicar), assim cão. Você foi como uma irmã que não fôra sempre da família, que não era sequer minha igual. Não importa: nós duas fomos exemplos de nossas próprias espécies. Ou pelo menos você, Madame Lolita, foi. Acho que quando eu penso que quero ter um amigo para quem eu possa contar tudo, conversar sobre tudo, e que me conte tudo também, e que seja assim um melhor amigo, acho que é isso que estou procurando. Talvez seja por isso que se diga que o cão é o melhor amigo do homem.
Meu mêdo é que eu nunca consiga ter no Argus a mesma confiança que eu tinha em você.
E já que estamos nisso eu temo que nenhum outro cachorro seja tão importante para mim quanto você foi. Que outro cachorro poderia me ensinar tanto? E quando eu poderia ter tanto a aprender? Às vezes acho que a época de aprender já foi, e que agora é tempo de me tornar o que aprendi. Mas, ao mesmo tempo, vivo rezando para que tudo o que já me disseram nesse sentido seja uma grande mentira. Imagine, nunca mais poder mudar meu jeito de ser? Estar presa a essa minha criancice? Imagine nunca mais poder conscientemente alterar minha caligrafia, como fiz uma vez, aos quatorze anos. Impossível.
Mas acho que, somando os tempos bons e os ruins, nós até que tivemos um belo saldo positivo. Acho que eu posso dizer até que cuidei da minha cã, embora não tenha sido tanto quanto eu acho que deveria. Resta saber se eu conseguirei cuidar da mesma forma não apenas dos próximos cães que hão de vir mas também da minha própria vida, sem ela. Porque a presença dela sempre me lembrou de uma porção de coisas boas de lembrar, e agora parece que falta alguma coisa muito importante no meu dia-a-dia.
Inclusive eu me sinto como uma mera sombra do que sou — abalada, confusa e às avessas. Tenho a impressão de que sinto as coisas boas como se fossem ruins, e as coisas ruins me parecem boas. Mas talvez seja apenas o clima que está confuso (aliás, vocês viram que belo dia foi ontem?)
A verdade é que me pego pensando se na verdade a morte dela não foi um pouco providencial. Se não foi, como eu disse antes, algo proposital, e por isso mesmo fútil, comparado ao que seria a nobre desrazão do acaso. Eu fico pensando que nesta época nós precisávamos passar por uma grande mudança, e que a Loli cumprira sua função no mundo na etapa anterior de nossas vidas. Eu fico pensando também que quando a gente adoece a gente muda e cresce, e que talvez a morte seja a maior mudança de todas; que talvez a morte seja um passo maior de crescimento, e que portanto a minha senhora cã está seguindo na sua jornada.E também que minha família precisava mudar e crescer, e que essa morte foi a nossa doença. E que se nós conseguirmos seguir em frente, estaremos mais fortes para enfrentar os próximos desafios. Porque tudo na vida é uma metáfora para algo maior, e todo acontecimento é uma metonímia, e por isso cada coisa que existe ou acontece têm muitas formas de ser compreendida; mas me parece que nenhuma forma é completa, pois as coisas só podem ser explicadas a partir da compreensão de todas as metonímias. Acho que é por isso que é sempre tão difícil entender.
No fundo, acho que nem estou mais falando da minha cã. Porque também a Lolita se tornou agora uma metáfora para a Vida, e essa já é uma forma boa o suficiente de lembrar dela. Independente de como o homem pegou o corpo dela e o jogou dentro do carro para levar para o crematório canino, acho que o Espírito da Loli conseguiu explodir em milhões de pedacinhos e espalhar-se em todas as direções. Muito mais do que qualquer um de nós, agora a Lolita faz parte disto tudo.
A única coisa que resta, engasgada no peito e na boca, é a vontade, é a fome, de gritar, assoviar, chamar, docemente, alegremente, através do quintal ou da praia:
Loli... Lollipops... Lolita... Lolita, vem! Vem, Loli!
...
... e eu quase consigo vê-la correndo, meus olhos se enchem d'água, porque eu a vejo correndo sorrindo pra mim totalmente livre e jovem e parece impossível aceitar que eu nunca mais vou vê-la assim feliz correndo latindo sorrindo brigando gritando correndo sorrindo pra mim vindo depois que eu chamo.
O engraçado é que então eu lembro do Argus e vejo ele latindo sorridente (porque ele é um fofo, sabe?), e penso, Talvez...
E, o rosto molhado de lágrimas, no meu coração a Lolita se tornou algo mais que uma cã muito amada e querida. Algo de que, na verdade, eu nunca vou conseguir falar realmente. Algo assim secreto. Só entre eu e ela.
E só.
domingo, 10 de junho de 2007
What life is all about
Hoje foi um dia terrível. Mas, no final do dia, eu levei meu namorado ao ponto de ônibus, e nós guerreamos e inventamos brincadeiras e nos despedimos sorridente; e na volta eu encontrei um gato e andei rente ao chão e fiz movimentos felinos e falei como um gato (é incrível como os gatos acreditam quando finjimos falar a língüa deles) e ele me deixou chegar até o limite da sua área de segurança (ou seja, mesmo se eu o atacasse, ele poderia fugir, mas só por um triz).
E no começo do dia brigamos com coceguinhas e... talvez seja isso que a life is all about: começos e finais...
E no começo do dia brigamos com coceguinhas e... talvez seja isso que a life is all about: começos e finais...
sexta-feira, 8 de setembro de 2006
Apesar de tudo.
Hoje foi mesmo um dia bom... Bom em dois atos: o primeiro, de muito sol, gatos, cães, sono, café da manhã decente, cuidar das tartarugas, limpar piscina com papai, arrancar casca velha da jaboticabeira (expulsando os bichos), tirar folhas secas dos morangueirinhos enquanto partilho moranguinhos ou bananas com as tartarugas (até que são bastante simpáticas, elas...), dormir no sol... Então houve um interlúdio frio e solitário, composto por computador, msn e algumas ligações telefônicas (e alguns consequentes posts na Toca...). No segundo ato, porém, compramos presentes, andamos no sol, comemos sorvete, subimos em árvores (eu subi numa muito alta! fiquei com mêdo de descer e cair...), brincamos no parquinho, fizemos piadas bobas, esperamos, jogamos, pulamos, enfim -- e depois ainda conversamos mais, comemos, assistimos a brigas engraçadas, e outras não tão engraçadas, começamos a assistir um filme (que até que era bastante bom!) e... ah, enfim, foi divertido, all in all. Foi um dia muito bom. =^__^=
domingo, 27 de agosto de 2006
Um pouco das minhas loucuras matinais...
Hoje tive um sonho tão estranho... Sonhei que Mamãe estava morta. Não que ela morria no sonho, mas que estava morta. E o Mauro Holanda nos ensinava trigonometria e fazia piadas com os alunos e chamava os meninos de gays. E uma hora eu olhei para o lado e lá estava minha vó Celma, com uma cara levemente preocupada... Então ela meneou a cabeça, apontando para trás de mim. Eu olhei, e vi minha mãe (outro fantasma), que começou a falar comigo...
Nessa hora algo aconteceu no mundo real e eu decidi acordar. O despertador tocou, eu o desliguei, uma, duas, três vezes... Então, não era mais o despertador tocando - era o telefone. Atendi, surpresa. Era o Yuri... Eu ainda estava tentando imaginar por que diabos o Yuri me ligaria àquela hora da manhã, quando ouvi sua voz.
..............
Andei até a mesa do café, estava me sentindo tão estranha... Lancei um olhar desanimado aquelas coisas todas que eu podia comer: pão, leite, queijo, manteiga, maionneise, mel. Meu corpo não teve nenhuma reação. Andei até a geladeira e peguei um pote grande de salada de frutas. E fiquei imaginando se não podia derramar alguma bebida alcóolica na sobremesa.
..............
Passei muito tempo olhando pela porta de vidro, o jardim ensolarado lá fora... Aqui dentro, um nó no estômago. Não sabia, o que dizer, o que pensar, o que sentir... Gatinha veio andando até bem perto dos meus pés. "Preciso dar o endereço da UNIP pro meu pai", pensei. "Preciso ir me arrumar, preciso ir logo, vou me atrasar..." Mas, no final, sentei no tapete da porta e continuei olhando pelo vidro da porta: "Preciso da minha mãe."
Mamãe ligou pro Yuri, enquanto eu me deixava cair sobre o tapete. Olhava pra fora através da cortina semitransparente. A gata se aproximou, e eu esfreguei a cabeça contra a barriga dela, pedindo carinho - a inversão da ordem natural das coisas... Então fiquei de gatinhas, olhando para minhas mãos; e no tapete haviam tantos animais mortos que eu tive mêdo de que, se eu ficasse ali muito tempo, ia acabar morrendo também. Pus os cadáveres para fora e me levantei.
Tudo que eu posso te dar é solidão com vista pro mar...
Nessa hora algo aconteceu no mundo real e eu decidi acordar. O despertador tocou, eu o desliguei, uma, duas, três vezes... Então, não era mais o despertador tocando - era o telefone. Atendi, surpresa. Era o Yuri... Eu ainda estava tentando imaginar por que diabos o Yuri me ligaria àquela hora da manhã, quando ouvi sua voz.
..............
Andei até a mesa do café, estava me sentindo tão estranha... Lancei um olhar desanimado aquelas coisas todas que eu podia comer: pão, leite, queijo, manteiga, maionneise, mel. Meu corpo não teve nenhuma reação. Andei até a geladeira e peguei um pote grande de salada de frutas. E fiquei imaginando se não podia derramar alguma bebida alcóolica na sobremesa.
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Passei muito tempo olhando pela porta de vidro, o jardim ensolarado lá fora... Aqui dentro, um nó no estômago. Não sabia, o que dizer, o que pensar, o que sentir... Gatinha veio andando até bem perto dos meus pés. "Preciso dar o endereço da UNIP pro meu pai", pensei. "Preciso ir me arrumar, preciso ir logo, vou me atrasar..." Mas, no final, sentei no tapete da porta e continuei olhando pelo vidro da porta: "Preciso da minha mãe."
Mamãe ligou pro Yuri, enquanto eu me deixava cair sobre o tapete. Olhava pra fora através da cortina semitransparente. A gata se aproximou, e eu esfreguei a cabeça contra a barriga dela, pedindo carinho - a inversão da ordem natural das coisas... Então fiquei de gatinhas, olhando para minhas mãos; e no tapete haviam tantos animais mortos que eu tive mêdo de que, se eu ficasse ali muito tempo, ia acabar morrendo também. Pus os cadáveres para fora e me levantei.
Tudo que eu posso te dar é solidão com vista pro mar...
domingo, 2 de julho de 2006
Aqui está um caos.
E é bem feito. Ao meu redor as coisas correm normalmente - ainda mais agora que a Copa acabou para os canarinhos. Meu irmão vai viajar, minha irmã continua fazendo as coisas dela. Mamãe faz algumas coisas, costura, trabalha, depois vê tevê comendo um chocolate delicioso ou bebericando licor de jaboticaba (que eu ainda caho muito mais gostoso que vinho). Papai trabalha, como sempre. E às vezes quando entramos no escritório o vemos com aquele seu sorriso engraçado, que sempre parece meio malandro. Lolita está quase tão gorda quanto Tigrinha, e Argus continua esguio, mas todos passam o dia inteiro deitados. Flor e Gatinha continuam dormindo em minha cama. E Carminha lambendo a mão até a carne.
Aqui está um caos. Não o coração, nem a alma, ou espírito, ou barriga, ou o que quer que seja que nos faz seguir em frente. Mas a mente, sabe? Dizem que a casa reflete a mente da pessoa. Pois é...
Minha mente se confunde com a quantidade de músicas que tocam simultaneamente. E as lembranças que se contradizem. E tudo o mais. E a lembrança de cheiros e gostos confusos, como se houvesse sempre alguma razão para se ter fome. Especialmente as consistências, sabe? Meu corpo parece que clama constantemente por elas. Algo que se possa mastigar, como madeira.
Acho que no fundo é o enfado da mente de ter que decidir tudo sozinha. Essa total escassês de sentimentos, impulsos, vontades. Essa loucura de procurar emoções nos livros. E reviver futuros e passados. Sem saber bem aonde se vai. Ou por que se vai. Ou quando. De repente tudo parece tão.. inútil...
Sabe? como flechas disparadas contra o céu, como chutes no ar. Como mover pedras pra lá e pra cá e querer ganhar a melhor fruta. Não significa nada. E eu estou tão cansada de fazer e falar coisas e depois de um banho frio e uma macarronada perceber, sem emoção, que aquilo não significou absolutamente nada. Nada... Talvez no futuro ou no passado tudo tenha sido imensamente doloroso... Talvez tenha tido uma importância muito grande... Mas não hoje. Hoje está tudo bem, tudo bem, e parece que tudo continua como antes. Socorro não estou sentindo nada. E eu queria que você estivesse aqui, pra me encher o saco, pra me abraçar, pra olhar no fundo dos meus olhos e ficar assim profundamente quieto. Qualquer coisa; eu sei que você ainda é capaz de me fazer sentir alguma coisa. O seu cheiro, sabe? impregna em mim cada vez que eu te vejo. E eu sei que o seu cheiro é mais forte que este cheiro de suor, este cheiro de forró que estou sentindo. Eu queria conhecer alguém, eu admito. Eu queria conhecer alguém que abrisse meus horizontes, para além dessa bobagem de escola-cinema-clube-televisão (embora eu não tenha um clube...)
Eu queria conhecer alguém que risse das minhas bobagens, mas que no fundo quisesse ficar comigo uma dessas tardes sentada num banco de praça conversando sobre coisas importantes. E alguém que ralhasse comigo. Que também falasse baizinho, mesmo que de brincadeira. Alguém que tivesse mente aberta e que quisesse me conhecer, que quisesse ver algo diferente, e não sempre as mesmas pessoas. Alguém que me roubasse de mim. Alguém a quem eu pudesse apresentar meus amigos.
"Socorro, não estou sentindo nada
Nem medo, nem calor, nem fogo
Não vai dar mais pra chorar, nem pra rir
Socorro, alguma alma, mesmo que penada
Me entregue suas penas
Já não sinto amor, nem dor, já não sinto nada
Socorro, alguém me dê um coração
Que esse já não bate, nem apanha
Por favor, uma emoção pequena
Qualquer coisa
Qualquer coisa que se sinta
Em tantos sentimentos
Deve ter algum que sirva
Socorro, alguma rua que me dê sentido
Em qualquer cruzamento, acostamento, encruzilhada
Socorro, eu já não sinto nada, nada "
Aqui está um caos. Não o coração, nem a alma, ou espírito, ou barriga, ou o que quer que seja que nos faz seguir em frente. Mas a mente, sabe? Dizem que a casa reflete a mente da pessoa. Pois é...
Minha mente se confunde com a quantidade de músicas que tocam simultaneamente. E as lembranças que se contradizem. E tudo o mais. E a lembrança de cheiros e gostos confusos, como se houvesse sempre alguma razão para se ter fome. Especialmente as consistências, sabe? Meu corpo parece que clama constantemente por elas. Algo que se possa mastigar, como madeira.
Acho que no fundo é o enfado da mente de ter que decidir tudo sozinha. Essa total escassês de sentimentos, impulsos, vontades. Essa loucura de procurar emoções nos livros. E reviver futuros e passados. Sem saber bem aonde se vai. Ou por que se vai. Ou quando. De repente tudo parece tão.. inútil...
Sabe? como flechas disparadas contra o céu, como chutes no ar. Como mover pedras pra lá e pra cá e querer ganhar a melhor fruta. Não significa nada. E eu estou tão cansada de fazer e falar coisas e depois de um banho frio e uma macarronada perceber, sem emoção, que aquilo não significou absolutamente nada. Nada... Talvez no futuro ou no passado tudo tenha sido imensamente doloroso... Talvez tenha tido uma importância muito grande... Mas não hoje. Hoje está tudo bem, tudo bem, e parece que tudo continua como antes. Socorro não estou sentindo nada. E eu queria que você estivesse aqui, pra me encher o saco, pra me abraçar, pra olhar no fundo dos meus olhos e ficar assim profundamente quieto. Qualquer coisa; eu sei que você ainda é capaz de me fazer sentir alguma coisa. O seu cheiro, sabe? impregna em mim cada vez que eu te vejo. E eu sei que o seu cheiro é mais forte que este cheiro de suor, este cheiro de forró que estou sentindo. Eu queria conhecer alguém, eu admito. Eu queria conhecer alguém que abrisse meus horizontes, para além dessa bobagem de escola-cinema-clube-televisão (embora eu não tenha um clube...)
Eu queria conhecer alguém que risse das minhas bobagens, mas que no fundo quisesse ficar comigo uma dessas tardes sentada num banco de praça conversando sobre coisas importantes. E alguém que ralhasse comigo. Que também falasse baizinho, mesmo que de brincadeira. Alguém que tivesse mente aberta e que quisesse me conhecer, que quisesse ver algo diferente, e não sempre as mesmas pessoas. Alguém que me roubasse de mim. Alguém a quem eu pudesse apresentar meus amigos.
"Socorro, não estou sentindo nada
Nem medo, nem calor, nem fogo
Não vai dar mais pra chorar, nem pra rir
Socorro, alguma alma, mesmo que penada
Me entregue suas penas
Já não sinto amor, nem dor, já não sinto nada
Socorro, alguém me dê um coração
Que esse já não bate, nem apanha
Por favor, uma emoção pequena
Qualquer coisa
Qualquer coisa que se sinta
Em tantos sentimentos
Deve ter algum que sirva
Socorro, alguma rua que me dê sentido
Em qualquer cruzamento, acostamento, encruzilhada
Socorro, eu já não sinto nada, nada "
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