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sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Fingir por um instante que estamos em 2003

Derp, eu escrevi esse título pq queria escrever como se fosse o LiveJournal, mas sem perceber o título é exatamente uma descrição do que eu quero falar sobre. Daquilo sobre o que eu quero falar. Isso.

Eu tenho perguntado pros meus amigos se isso é normal. Tenho feito muito isso. Acho que é importante fazer e eu passei os primeiros 25 anos da minha vida praticamente nunca perguntando, e simplesmente supondo ou que eu sou a pessoa difirentona ou que eu sou perfeitamente normal.

Mais ou menos assim:
"Ah, nossa, eu gosto de escrever histórias sangrentas e cheias de gente morrendo e sofrendo, ninguém nunca vai entender por que eu faço isso, todo mundo vai me odiar se ficar sabendo que eu escrevo histórias darks tarde da noite"
"Poxa vida, eu sinto tanta dor antes de dormir, será que todos os adolescentes e jovens adultos sentem dor desse jeito? Provavelmente né, não é como se tivesse algo que eu pudesse fazer a respeito..."

Enfim minha adolescência foi muito besta porque por um lado eu me achava super ~outsider~ por fazer coisas que tipo metade dos adolescentes fazem, e ao mesmo tempo sofrendo pacas com coisas que não são normais e que eu deveria ter ido num médico resolver, e pensando bem acho que é assim com todo mundo porque a gente não se conversa direito.

A coisa da vez é que eu sinto que é meio que um absurdo que eu esteja aqui, agora. Eu fico confuso a respeito de em que ano estou. Meus amigos acharam um pouco bizarro quando descrevi as coisas nesses termos, mas não sei em que outros termos descrever. Eu tenho dificuldade de aceitar que eu esteja morando nesta casa e não na casa que eu morava antes. Ou na anterior. Ou na casa dos meus pais. Às vezes eu tenho uns sonhos como se estivesse em 2010, ou 2008, ou 2006, ou 2003. E é bizarro pensar nisso porque 2010 e 2008 parecem tão próximos em números mas foram tão completamente diferentes, e ao mesmo tempo eu nem sei dizer direito o que aconteceu nos últimos 7 anos. Os anos começaram a se fundir uns aos outros, e eu não consigo entender como. Tudo o que aconteceu parece misturado e ao mesmo tempo parece mentira. Como eu posso ter me afastado dos meus amigos do ginásio? Eu fico sonhando com eles, e às vezes eu acordo de manhã e penso que eu vou pra escola, e aí eu lembro que eu não vou pra escola faz mais de dez anos, e que o tempo que eu fui realmente próximo dessas pessoas foi mais curto do que o tempo que passou desde então. Às vezes o passado parece que foi hoje, ou que é amanhã, e às vezes parece que nunca aconteceu. Não pode ter acontecido. Principalmente tudo o que aconteceu depois desse passado. Eu não acredito que eu perdi a virgindade. Que eu aprendi a derivar. Que eu estou pagando as minhas próprias contas.

O pior de tudo é que parece que estou cada vez mais adulto. Cada vez mais eu meio que sei me comportar, e os problemas das vidas das pessoas parecem coisas que eu já lidei antes. Mas a enormidade de estar morando na minha própria casa, quer dizer, numa casa que eu estou pagando aluguel, junto com uma pessoa que eu conheci depois de grande já, isso não pára de me surpreender. Eu não consigo aceitar que eu pago as minhas próprias contas, que eu decido o destino da minha vida, que eu decidi sair da cidade e eu de fato saí. Ok que eu nunca teria conseguido sozinho, mas eu fiz. Eu que decidi. Eu não sei lidar com isso. Com a enormidade dessas decisões. Parece que eu cheguei no fim, ou no cume da vida: pronto, é isso, chegamos, eu sou uma pessoa adulta que paga suas contas, mora na sua casa, tem as suas coisas, toma suas decisões. O que mais tem pra conquistar na vida? Eu fico tendo impulsos de conquistar riqueza, dinheiro, conforto, mas no fundo acho que é só um desejo de conquistar mais coisas, de não estar aqui ainda, de não ter chegado.

E ao mesmo tempo eu me sinto tão dissociado disso. No começo eu queria jogar video-game todos os dias, pra saber que eu estava curtindo aquilo que eu gosto, que faz parte de mim. Faz meses que eu não jogo video-game. O impulso da novidade vai se perdendo, e eu vou me afogando debaixo de tudo isso, dessa constância, de estar na mesma casa faz um dia, dois dias, uma semana, uma vida. O tempo fica dilatado. Eu morei nesta casa desde sempre. Eu não consigo lembrar do tempo antes disso. Ou eu estou vivendo no passado. Eu perdi tanta coisa, e eu não consigo mais me lembrar de todos que eu perdi. E ao mesmo tempo eu não quero esquecer. E mais que isso, tenho mêdo de mudar, porque depois da mudança sei que o passado vai ser mais uma coisa confusa, que não vou conseguir deixar pra trás, mais umas casa que eu não vou conseguir aceitar que não moro mais, mais uma lembrança que vai parecer que foi hoje, ou amanhã, uma coisa encrustrada que não vai sair e que eu vou ter mêdo de esquecer, até o ponto em que eu vou duvidar das minhas próprias memórias, e não vou conseguir lidar com o quanto eu vou ter esquecido. Mais uma cidade que eu não vou reconhecer direito do quanto vai ter mudado. Eu tenho mêdo de me apegar a pessoas novas porque parece que isso sempre vem com esquecer pessoas antigas, ou que vai ser uma amizade fulgaz, e aí eu vou esquecer essas pessoas.

Às vezes é tão ruim. Às vezes eu não consigo sair de casa e não consigo dormir, e não consigo comer, e tudo vai se embolando. E existem dias bons, dias em que parece que há coisas novas, que existe um futuro, que a vida não é só um presente estático num mar de passado wibbly-wobbly timey-wimey. Que existe uma ordem na qual o futuro vem depois do passado. Só que é tão fulgaz. Tudo acaba, e parece que nunca vai continuar, que nunca vai se encaixar numa trama que faça sentido. Eu não consigo nem escrever direito. Tudo parece tão fútil. Não é como se existisse sucesso.

Pelo menos em 2003 eu conseguia sonhar com um futuro. Agora que estou nele, não, agora que estou muito depois dele, não sei o que fazer a respeito.

quinta-feira, 22 de junho de 2017

Teias de Aranha

Houve um tempo em que todas as tuas palavras grudavam na minha mente como teias de aranha.

Hoje as teias de aranhas em minha mente são memórias de outras pessoas, com outras palavras. Das tuas palavras resta somente esta frase, esta questão. Me disseste, um dia, triste, depois de uma briga e uma confissão, ainda sem perdão: que nunca imaginaras que eu também pudesse ter sofrido.

Nunca

Meu sofrimento, como de vidro
transparente
meu sofrimento, solitário, escondido
no fundo do armário da cozinha, atrás das xícaras de louça para ocasiões especiais
empilhado como copos de vidro sem nem um pedaço de guardanapo entre eles
e quando tento desempilhar, estão grudados a vácuo
pelo peso do tempo
mesmo as coisas leves, se deixadas paradas por anos, afundam como se pesadas
e deixam uma marca
e machucam

mesmo nosso próprio corpo, se parado, machuca a si mesmo.

domingo, 18 de setembro de 2016

Você se acha bonita?

Há dias que a coisa toda vem abaixo.
Normalmente não falamos disso, evitamos o assunto, falamos do tempo, do dia, das plantas que floriram esta semana, das palavras que o bebê está ensaiando falar, do futuro, de dinheiro, do (ex?) marido que não reconhece o valor do seu trabalho, do filho que acabou de se mudar.

Evitamos. Eu eu evito, se me perguntam desconverso, quem, eu? Meu nome? Me chame como quiser, como sempre, "Mali" está bom, finja que nem me viu por dentro, finja que me desconhece, que não vê, através dos olhos, a hesitação, a desfaçatez, a desconexão, que não vê através dos dedos a desidentidade, finja que somos todos nossos nomes, nossas infâncias, vamos continuar jogando os Jogos que jogávamos dez, quinze anos atrás.

Um amigo meu dizia que ele sequer existia antes de chegar ao colegial. Eu achava estranho. Até que, às vezes me ocorre, anos mais tarde, dizer que eu nem existia antes de decidir entrar na segunda faculdade. Mas não digo.
Seria um pouco cruel dizer que eu passei a existir depois de afastar de você.

E seguimos na mentira, uma mentira nova desta vez, feita de suposições sistêmicas, de meias-verdades, de faltar intimidade e confiança ou haver excesso de intimidade pra contar aquelas coisas que podem acabar com uma amizade. As relações seguem em suspenso, com a respiração presa, enquanto dentro de mim se desenrola toda uma ladainha. Tão difícil confiar; e não, os anos não tornaram mais fácil.

Um dia desses minha mãe perguntou, com tom muito sério, muito preocupada. Fálavamos de beleza, de corpo, de mulheres e de ser mulher e de como tudo isso é muito complicado.
Deixe-me abrir um parênteses: minha mãe é daquelas que faz dietas o tempo todo, e de tempos em tempos me acusa de estar demasiado "magra" ou muito "gorda", e sempre tenta me convencer a mudar a dieta, a comer mais carne, a fazer mais exercícios. Ainda assim, minha mãe se preocupa, decerto, com minha saúde mental, com minha auto-confiança, com minha auto-estima. É uma boa mãe, no geral -- nunca vou terminar de agradecer tudo o que ela fez por mim, desde os sacrifícios até o modelo de pessoa que ela foi, que ela é pra mim. Fecha parênteses.

Minha mãe muito precupada muito consternada, num dia em que eu estava mais ou menos de mal com a vida (ou de tpm talvez) e ela falando -- não lembro do quê -- me pergunta: "Você se acha bonita, Marina?"
E desde então tenho revolvido na cabeça essa pergunta, mastigando, digerindo, quebrando nas partes componentes pra poder decidir lentamente a resposta

você se
acha
bonita
Marina

Bonita. Me percorre pela cabeça todas as definições de beleza que uma pessoa pode alcançar. Eu não sou como a luz atravessando as folhas novas de uma ficus na primavera. Ou como o céu emoldurando uma ilha coberta de mata atlântica nativa verdejante. Eu não sou como as pedras empilhadas na beirada do rio, nem eu sou a asa iridescente de uma borboleta. Bonita, essa pessoa. Marina.

Me ocorre que pouco me diz que ela queira saber o que eu acho sobre a beleza dessa pessoa chamada Marina. Que se ela tivesse me perguntado objetivamente, "Marina é bonita?" eu teria respondido, objetivamente, "sim".

Bonita. Marina essa pessoa cuja identidade está uns 50% baseada na idéia de ser bonita. Não bonita porque não tenha nenhum outro valor, nem bonita porque seja modelo de passarela. Mas porque na adolescência, quando se formam as identidades frágeis, Marina fez amizades sempre com os garotos que se apaixonavam, ou um dia se apaixonariam, por ela. Bonita porque todas as suas relações começavam assim, e porque tantas delas se desnaturavam justamente por causa disso. Bonita porque ela detestava depilar perna, e nunca usava maquiagem, mas nas festas de quinze anos usava longo e tudo o mais e dançava a noite toda com garotos que chamava de seus. Bonita porque o homem que passou por ela na rua disse que sim, porque o rapaz mais velho que morava na praia mandou um bilhete pra poder falar a sós com ela à noite, e ela só tinha quatorze anos, mas foi assim mesmo, porque não tinha nem muita certeza se era permitido se recusar sem mais a ir num primeiro encontro.

Bonita sem dúvida, porque quando ela decidiu relaxar das estúpidas convenções sociais e trocar de camisa de costas para os amigos, os amigos moços ficaram de olhos fixos e vidrados e deixaram bem claro que agora era hora de ela se ajeitar nas convenções sociais. Ou porque depois do colegial desenvolveu um mêdo nervoso de interagir com meninos porque quando menos ela esperava eles se apaixonavam por ela e tornavam tudo muito complicado. Bonita porque seu próprio primo se apaixonou por ela e veio questionar porque ela não lhe dava uma chance, porque o rapaz que mestrava rpg para o grupo de escoteiros ficou tão obcecado que a única opção que lhe restou foi [mentir] que ela nunca jamais teria nenhum interesse nele.

Bonita talvez com uma certa resistência, porque evitava usar vestidos e blusinhas justas, porque usava uma jeans largona e uns moletons e umas malhas de velha e umas luvas de mendigo, mas justamente por isso, justamente porque isso nem adiantava, porque ainda assim não conseguia evitar os olhares e os corações dos garotos, especialmente os muito próximos, os muito queridos; porque a maior parte do seu sofrimento de amor vinha de se apaixonarem por ela todos ao mesmo tempo, e os amores dela que não eram correspondidos eram por serem os homens muito velhos ou muito distantes ou muito gays [ou por se apaixonar, sem compreender nominalmente, por pessoas que não se encaixariam na sua presumida heterossexualidade], ou por pessoas inacessíveis de dentro dos seus longos e encadeados relacionamentos monogâmicos. E ainda mais bonita quando se desmonogamizou e se confrontou com todas as suas ilusões e tantas das suas inseguranças, e passou a usar saia curta e blusa justa e cortar o cabelo apenas pra atrair os olhares dos outros. Bonita agora com certeza porque não saberia mais não ser antes de tudo Bonita. Bonita comprando vestidos, experimentando saltos, cortando o cabelo curtinho porque lhe desesperava não ser bonita o bastante pra atrair as meninas, bonita até o último instante, com esforço, cancelando um date porque as pernas não estavam perfeitamente depiladas, gastando horas escolhendo o sutiã que dá a forma perfeita dos seios com a blusa certa, abandonando a aula de dança para não ficar com músculos demais na barriga, parando pra perguntar no meio do sexo se sua cara de gozo era bonita. Sim.

Mas Marina não é como o Mar, que vem e vai e se estende até onde a vista alcança, interminável. Eu abandonei tudo isso, as saias, os sutiãs, os romances impulsivos e os encontros casuais. Não foi exatamente o gênero que eu abandonei - até porque esse me persegue, entranhado nos ossos, nos trejeitos defensivos e no timbre da voz. O que abandonei foi o esforço, foi aquela motivação autoflagelante de horas e suor e sangue pra construir uma persona da qual eu nem gostava. Marina, essa é a verdade, Marina não se acha bonita, não se acha capaz, não se ama. Marina sobrevive integralmente do amor que recebe dos outros. Mas ela não é sequer capaz de corresponder a esse amor, com seu coração volúvel, nômade. Ela deixa atrás de si um rastro de corações partidos, e se desfaz em culpa. Tudo o que Marina pode oferecer é a intensidade, o romance. Quando isso pára de dar resultados, ou quando ela começa a se sentir velha demais, ela silenciosamente morre.

Que me importa o que eu acho da minha beleza? Minha beleza nunca foi realmente minha. Quando criança, as sessões de "embelezamento" nada mais eram que sessões de tortura. Com catorze anos, tudo o que eu queria era raspar a cabeça. Consegui força pra fazer esse experimento apenas dez anos depois. Deixar os pêlos crescerem, fazer piercings na orelha, raspar o cabelo com máquina zero, e depois pintar; experimentos, um por um, sondando as reações, principalmente de minha mãe. Lentamente, e sem sequer perceber, tornando esses pequenos símbolos os pilares da minha identidade.

Quando uso calças, hoje sinto que estou amordaçando minhas pernas. Não é que ache minhas pernas bonitas; é mais que eu não consigo mais existir socialmente sem esse símbolo exagerado de auto-expressão. Eu preciso saber, quando entro num ambiente, que todos ali saberão que eu uso pernas peludas. Mas isso não é o bastante, então eu uso também camisetas largas, bermudas masculinas, e cortes de cabelo um tanto desconjuntados feitos em casa. Eu não sou bonito, quer dizer, não me importa mais tanto ser bonito, não quero nem preciso seduzir ninguém; o que me importa é ser imediatamente fora dos padrões, imediatamente não-feminino. Mas na verdade, acho que também eu não consigo mais me achar bonito.

Nem feio. Porque belezza essa coisa que vem sempre de fora, dos olhos dos outros. E os olhos dos outros já me dizem tanta coisa que machuca, me não me é, que já me divorciei do olhar dos outros mesmo quando olho no espelho. Antes olhava no espelho e via o olhar dos outros; hoje olho no espelho e me pergunto, desesperadamente, "como é que não me vêem assim: como eu sou?!"

Através do espelho é que vejo meu corpo, nem bonito nem feio, nem gordo nem magro, nem masculino nem feminino; meu. Mas apenas através do espelho, e talvez um pouco através do viver, do tato, quando não sinto aquela dor nos peitos me lembrando que eles estão aqui, quando não me atrapalham, quando não sinto meu corpo fraco, mole, torto. Sempre quis ter pernas finas e nunca tive pernas finas. Antes eu morria de inveja de minha irmã, e também de meu irmão; agora não restou espaço para inveja, agora sinto apenas um vazio esquisito, porque não compreendo mais; minha irmã era rosa e meu irmão azul, e eu pegava sempre a toalha amarela.

Mas nas fotos, nos vídeos, nem reconheço meu corpo. Me dá um mêdo de que meu corpo nas fotos seja que nem o retrato de Dorian Gray, ficando velho e deformado e feio enquanto seu corpo de verdade permance jovem e forte. Eu me sinto assim, jovem e belo até que me mostram uma foto minha, e tenho uma voz linda até ouví-la numa gradvação, e aí fico me perguntando como meus amigos conseguem conviver comigo, com minha voz horrível, com minha coluna corcunda, com os ferros nos meus dentes, com meu cabelo desajustado, com minhas piadas ruins, e minha atitude de que sei tudo mas não ligo pra nada, com sempre o meu mesmo sorriso falso e fofinho e essas bochechas e essas tetas gordas caídas.

Uma vez eu vi uma foto bonita minha, numa viagem, no topo do mundo. Por alguns segudos.

Mas, cada vez que vejo uma foto, ou, pior ainda, um vídeo, passo dias lutando contra o nojo do meu próprio corpo -- como posso ser assim se o que eu sinto de dentro é tão melhor, mais fluido, mais forte, mais equilibrado, mais bonito?

Talvez por isso minha mãe tenha me perguntado. Porque ela viu nos meus olhos eu olhando aquela foto e pensando "que pessoa feia eu sou. Nem a fofura do meu sobrinho consegue me fazer ter vontade de olhar pra isso."

...

Uma vez eu vi uma foto minha que até achei bonita. Era eu com ele no colo, depois da minha defesa, dando o maior sorriso que eu já dei em toda a minha vida.

sábado, 27 de junho de 2015

Update

Estou aqui porque uma pessoa postou um comentário no meu último post, dizendo que gosta do que eu escrevo desde O Pato Está na Ratoeira. Gente. O Pato foi uma piada interna entre eu, Yuri e Artur, que virou um blog onde postávamos coisas esquisitas, que o Artur abandonou alguns anos depois de ir para Campinas porque afinal aquilo era parte de um passado compremetedor. Eu quase não escrevia nO Pato. Eu me lembro da gosmificação dos olhos, e de Deus morrendo na fila de espera do hospital público, e de pouco mais. Meu relacionamento com Artur e Yuri era uma coisa muito estranha e muito íntima... diferente de todos os relacionamentos que eu já tive eu acho. No final uma coisa que ficou no passado, como tudo o mais. Às vezes até bate uma saudade. Ou um vazio impreenchível.

O post no qual apareceu esse comentário era sobre Zuzu. Oliver. Meu sobrinho. Hoje Tali mandou uma foto e disse que Oli já pega objetos com as mãos, amassa e joga para longe. Eu fico me arrependendo de cada oportunidade de vê-los que eu perco (que são muitas).
Eu tenho tanta coisa pra fazer e quase não vejo minha irmã e meu sobrinho. Eu sonhei com eles noite passada, sonhei que morávamos todos num mesmo condomínio, e que chamávamos a família inteira pra uma festa na piscina (inteira quer dizer todas as primas e tias avós). Eu ficava brincando com Oli. Adoro brincar com Oli, segurar no colo, passear com ele, dar banho. Pessoa fofa.

Não conseguia lembrar que eu tinha postado neste blog no último ano. Li a postagem de baixo, e era sobre meu relacionamento com minha mãe, como ela evita falar sobre certos assuntos, como ela fica brava que eu sumo, como ela quer discutir gênero e sexualidade comigo mas ao mesmo tempo não quer(emos). Semana passada eu decidi contar pra ela que eu estava saindo com uma pessoa... com uma menina, meio que. Eu estava me sentindo mal de guardar segredo, sabendo que se fosse um homem eu talvez já tivesse contado antes. Seguiu uma conversa esquisita na qual minha mãe me falou que eu não era trans e mais um monte de coisas sobre gênero, porque de alguma forma ela conectou todos os assuntos como se eles fossem uma coisa só. Não, sério.

Ela disse que sabia que eu não era trans porque eu era muito feminina, e ela acrescentou que "eu não sei de onde você herdou essa feminilidade, porque não foi de mim". Aí eu falei pra ela que ela era muito mais feminina, mas ela falou que ela se achava super masculinizada e nada feminina. Eu falei que eu é que era masculinizade, e ela é que era feminina, que usava vestidos, e pintava as unhas, e se arrumava e gostava dessas coisas "de mulher", e inclusive ela estava me dizendo que usar vestido era uma delícia como se ela estivesse preocupada com o fato de eu não querer usar. Aí a gente ficou nesse "é você!", "não, é você!" por mais algumas iterações até a gente abandonar o assunto. Mas eu fiquei pensando que é engraçado que ela se veja como masculinizada e eu como feminina. Talez a questão seja que ela de fato quer ser mais feminina, que ela de fato gostaria disso, embora pra ela não seja muito natural, enquanto eu estou na situação oposta, porque isso que ela vê como "feminilidade" em mim é algo que está fora do meu controle, é algo que eu tento evitar mas não consigo, eu detesto o quanto eu me esforço pra ser macho e mesmo assim todo mundo me diz que eu sou fofa e delicada e feminina e blargblargblarg. Talvez a gente se incomode mais com aquilo que a gente não consegue controlar. Se bem que ultimamente eu tenho refletido sobre como eu não tenho também a coragem de deixar a fofura e delicadeza de lado. Elas são como muralhas altas, impedindo as pessoas de chegarem perto. São coisas seguras, coisas que no máximo vão levar as pessoas a me verem como um pouco boba e inferior e incompetente como acontece quando você é lida muito estereotipicamente como mulher, mas elas implicam pouco risco... Se eu tento me impôr, me colocar, deixar a "feminilidade" de lado, eu também tenho que me provar. Eu posso jogar no easy e nunca ganhar muitos pontos, ou eu poderia me arriscar a talvez ser completamente destruíde, mas com uma chance de ganhar um highscore, como algumas pessoas muito mais fodelantes do que eu fazem. Eu tenho mêdo demais. E toda vez que eu exponho meu lado menos fofinho, vem alguém e me destrói... até eu aprender que o que eu considero foda e sério e adulto em mim são coisas que outras pessoas (homens) consideram noob e infantil. Eu sou um garoto de treze anos. Deixa eu repetir isso porque é importante.

Eu sou um garoto de treze anos. Eu cansei desse jogo de ser fofinha e de pelúcia e de ajudar os outros com seus problemas impossíveis de resolver e etc. Mas eu não tenho nada mais. Eu não sei me impôr eu não passei a adolescência levando xingamento escroto dos meus amigos pra saber que isso é tudo na boa fé. Na real, eu passei a adolescência recebendo diminutivos pejorativos dos meus amigos, e me defendi guardando dentro de mim tudo o que era grande e perverso e... associando tudo isso a sexo eu acho.

Na verdade tudo isso é uma metáfora pra todas as minhas outras inseguranças. Eu vou parar por aqui porque eu já sei que falar sobre as minhas inseguranças não me ajuda em nada a diminuí-las e efetivamente só me faz me sentir mais idiota por estar "me expondo", como minha mãe disse.pas

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Segregaçã Etária

Eu tava aqui pensando em como a segregação etária perpetrada pela escola é um problema. Deixe-me explicar.

Quando eu tava no colegial, eu tinha muites amigues, unides entre outras coisas por quão desajustades nós éramos à ordem social escolar. Algumes de nós tinham sofrido muito bullying na mesma escola. No colegial, quando começamos a nos envolver em romances adolescentes e outras situações novelescas, nossas inseguranças e imaturidades, misturadas com as nóias com que anos de exclusão social haviam nos imbuído, começaram a causar conflitos entre nós. Eu me lembro de um amigo que decidiu sabotar meu namoro com outro cara, por exemplo. Na época eu morri de raiva dele por que a atitude dele me fez tomar decisões erradas e sofrer. Muitas pessoas pareciam querer que eu fosse mais "puritana" ou sei lá. Vários dos nossos amigos estavam "no armário", ou saindo dele e ainda meio perdidos. Hoje em dia eu olho pra trás e penso que a pessoa que eu sou hoje teria lidado com tudo aquilo, dialogado, resolvido os problemas. Mas aí eu penso que eu hoje em dia não posso nem ajudar adolescentes a entender os problemas confusos nos quais eles se metem. Será que teria ajudado se na época nós pudéssemos ter tido amizade com pessoas mais velhas? As pessoas mais elhas na nossa vida eram sempre parentes e professores e colegas de trabalho dos nossos parentes -- boa parte eram que pessoas com quem eu não conversaria sobre nada pessoal, nem no passado, nem hoje. Nós estávamos constantemente inventando o mundo em que vivíamos, ou tentando sobreviver às complicadas hierarquias sociais da micro-sociedade adolescente da escola. Isso poderia até ser libertador, mas na prática a micro sociedade era tão hostil quanto nós esperávamos que o mundo lá fora fosse. Eu não sabia que eu ia conseguir me libertar das inúmeras correntes que me prendiam na escola. Eu não sabia que a vida ia ser maior e melhor e mais livre, e que eu ia concluir que não valia a pena ter nenhuma daquelas nóias, e que eu ia ter vergonha dos meus preconceitos bobos da adolescência. Eu não sabia que eu ia ter uma comunidade queer, não-mono, não-binarista de amigues que iam prezar pela miberdade e segurança de todo mundo. O mundo humano parecia desinteressante e limitado. Eu preferia a solidão à interação social. Naquela época, meu amigo fez uma piada, quando eu estava brincando com um pedaço de pau ele olhou pra mim e falou "você gosta de um pau, hem?" E eu tive que juntar 200% da minha força de vontade pra encarar de volta e falar "claro! Você não?".. Eu lembro porque foi extremamente significante. Hoje eu dia eu faço essas coisas sem nem pensar. Eu também lembro da minha primeira conversa sobre sexo, quando eu tinha 18 e fui numa viagem com amigues da minha irmã mais velha (todos e todas cis e hétero). Pensa só, no colegial eu tive que defender a minha honra e de meus namorados e amigos inúmeras vezes, mas eu nunca tinha tido uma conversa de verdade sobre sexo, na qual eu pudesse falar e perguntar e rir das piadas bobas e ouvir histórias boas e ruins e verdadeiras. Eu só tinha participado de piadas, zueiras, ofensas e bullying. Eu tinha vontade de conhecer outros tipos de pessoas, outros estilos de vida, mas eu só consegui isso depois de sair da escola. De fato, depois da escola todo mundo foi ficando mais seguro de si e se descobrindo e saindo dos armários todos. Demorou um tempo, mas aconteceu.

Quando eu penso na minha história de vida tudo parece meio surreal. Não sei se é só dissociação mesmo, porque eu passei tanto tempo sentindo que tudo era uma enganação, e porque eu dava tanta mais importância a histórias fictícias, ou porque falando objetivamente nada aconteceu, mas subjetivamente minha vida parecia um filme da Bridget Johnes. Acho que grande parte é porque nada bateu com o que era pra ser adolescência, com os relatos de adolescência que eu ouvi, tanto na época quanto depois. Eu ouvi relatos de adolescentes que tinham poucos amigos e odiavam todo mundo, e relatos de adolescentes que tinham vários amigos e iam em festas e bebiam escondido dos pais, e relatos de adolescentes que trepavam muito e passavam o dia na rua, mas nenhum relato era de adolescentes que não bebiam, não trepavam, não fumavam (essencialmente por moralismo barato, me parece), tinham infinitos amigos, gostavam de várias pessoas, inventavam histórias fofas e malucas e horríveis e não sabiam se comunicar direito com os outros adolescentes. Ainda fico me perguntando se não há adolescentes como nós na minha velha escola, perdidos e empolgados e se machucando uns aos outros por pura ignorância coletiva.

Enfim eu desviei um pouco do assunto original, mas eu acho que teria ajudado se nossas ofertas de amizade não fossem tão limitadas em faixa etária, se pudéssemos ter mais contato com pessoas mais novas e mais velhas com quem nos déssemos bem. Acho que teríamos ficado menos à mercê dos moralismos que os adultos da geração de nossos pais queriam que acreditássemos.

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Dam and flood

Ultimamente tenho sentido um impulso de voltar ao que eu era antes, antes de eu sair de casa, antes de sair do armário, antes de aprender as coisas sobre as quais eu mais penso e falo no meu dia a dia. Voltar para a época em que eu não questionava a cisgeneridade e nem a minha heterossexualidade. Voltar para uma época em que minhas dificuldades de hoje em dia não existiam. Às vezes eu me sinto de. Volta, me sinto de novo com doze anos e me achando tão grande e tendo certeza de que eu faria todas aquelas grandes coisas antes dos dezenove. Eu tento pensar nas dificuldades também; na insegurança sobre tudo, nos terríveis arrependimentos, no silêncio, nos segredos. Se hoje em dia eu guardo segredos porque não quero criar conflito, naquela época eu guardava segredos porque queria ter amigos. Eu tinha tanta certeza de que meus amigos teriam mêdo dos meus pensamentos mais obscuros! Entretanto eu era criança sim, embora uma criança estranah. E hoje eu vejo como eu tinha poucas preocupações, muitas idéias utópicas, muita fé. Eu era uma pessoa forte, talvez mais forte do que sou hoje.

Às vezes eu quero voltar. Eu não quero discutir todas essas coisas a cada instante da minha vida. Eu só quero uma vida tranqüila, onde eu possa me dedicar ao que importa. O passado passou e eu não me tornei uma pessoa tão capaz quanto eu esperava, nem tão capaz quanto as pessoas que eu admiro. Eu mudei pouco demais, talvez. Mas eu mudei muito também, e mudei para algo mais difícil. E 

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Às vezes eu me pergunto se o saceifício valeu a pena. Eu me perguntei, que saceifício? Às vezes eu me peguei pensando coisas como "se eu nm estou feliz, então de quê valeu o sarigício?" E eu me perguntei, "mas qual sacrifício?". E pouco depois ou pouco antes eu me peguei pensando em tudo aquilo que eu sacrifiquei, tudo aquilo que eu suprimi e afoguei apenas para que eu pudesse viver no mundo teal, apenas para que eu pudesse ser feliz e fazer amigos e quem sabe trabalhar e tentar mudar o mundo e batalhar para fazer alguma difeeença, para interagir com a realidade e fazer uma diferença na realidad em vea de apenas fugir dela.  Esse sacrifício. E eu estou aqui nos meus vinte e conco anos, aquela idade que todo mundo diz que é quando o metabolismo fica mais lrento e a gente pára de crzscer pra gomeçar a znvelhecer, e eu ainda não cheguei lá, eu ainda não cheguei no mundo real, nada do que eu fiz fez nenhuma diferença, e eu ajudei im pouco algumas pessoas que talvez venham a fazer um pouquinho de diferença, pessoas mil ezzes melhores do que eu, então  talvez eu devesse pensar que eu fiz alguma coisa, dando esse pouquinho de apoio a essas pessoas. Mas eu não estou feliz. E eu estou me enfiando num buraco cada vez mais fundo em que eu não tenho nem dinheiro nem merecimento mérito nem nenhum valor que me permita me fazer feliz. Por um momento, um pouquinho de tempo, alguns anos, eu achei que estava dando certo, que eu estava começando a me conectar com a realidade. Por um tempo, eu senti que eu estava melhorando, que eu estava me tornando mais forte, e que eu estava feliz também. Por algum tempo ali em 2010 e 2011 eu inclusive me senti realmente feliz. Mas agora eu não me sinto avançando, nem feliz, e não parece mais ter valido a pena, o quanto eu sacrifiquei de mim, daquilo que me compunha, pra me tornar isto.

Isto não serve de nada. Isto não vai trazer bem pra ninguém. Isto não vale o sacrifício daquele senso inabalável de quem eu era e qual era o meu propósito no mundo. Isto não vale nada.

Eu tenho tido momentos de felicidade. Um curso particularmente empolgante, um desafio novo, uma boa história, uma pessoa apaixonante. Momentos. Às vezes eu consigo me manter feliz por dois dias seguidos! Mas no demais... Eu acho que todos os meus amigos vão acabar desistindo de mim simplesmente porque eu não mereço. Ou que eu vou abandoná-los e só notar meses depois. Ou quee eu não vou mais tolerar o jeito como eles me olham, ou falam de mim, como se eu fosse uma pessoa completamente diferente do que eu quero ser.eu devo ser mesmo. Eu nunca vou ser uma pessoa respeitável. Sempre vai ter alguém pra me olhar dzsse jeito. 

Este texto não vai nem me aliviar na real. É só um registro idiota. Eu acho que a vida até aqui só não valeu a pena todos ossacrifícios. Será que eu posso voltar e reiniciar do save point?

segunda-feira, 2 de junho de 2014

Undertoe

Eu penso muito em ti, sabe, por mais inapropriado que isso seja. Tentando avaliar o erro e o acerto, o bom e o mau, o lógico e o ilógico, e o como saídos de lá viemos parar aqui.

Uns tempos atrás tu me disseste que a diferença entre nós era que tu se sentias confortável sendo homem, e que eu sempre quisera ser um homem. Às vezes eu me lembro e me deleito com o absurdo dessa idéia. Para mim, essa era justamente a semelhança entre nós. Nós dois queríamos viver grandes aventuras, capitanear navios, lutar contra dragões (ou a favor deles, talvez), subir a montanha correndo... Mas para ti isso era o teu papel designado, e o meu era lutar por isso usando um vestido longo, e no final rasgar esse vestido e mostrar que além de princesa eu era também guerreira. Estavas errado, sabe? Porque eu queria ser exatamente o mesmo que tu, sem vestidos, sem tiaras, nada de "princesa", "dama", "madame". Mas para ser o mesmo que tu eu precisava ser ainda mais selvagem do que eras, mais violento, mais rápido em provar o meu valor e defender minha honra. Quando nos separamos, eu me senti um pouco mais à vontade para ser tudo aquilo que querias tão insistenmtemente que eu fosse e que justamente por isso eu não podia ser. Mas logo a novidade passou e eu voltei aos meus modos adolescentes, mas agora sem ti, sem meus rivais e inimigos e principalmente demônios.

A vida do lado de cá é tão estranha e faz tanto sentido. É quase como se eu vivesse no mundo real. Mas ainda é estranho, e eu ainda sinto aquela falta, aquela desconexão, como se eu fosse apenas uma pessoa que aconteceu de ser, aconteceu de estar aqui, caída de paraquedas nesta vida, nesta história, e as lembranças, e mesmo os sentimentos, pertencessem a uma outra pessoa, uma outra versão de mim que eu tenho que me esforçar muito para imaginar que sou eu.

Às vezes eu penso que tudo aquilo era uma grande máscara e uma farsa, uma coisa que eu criei para enganar a eles, e a ti também; talvez para ludibriar-te e te fazer pensar que eu poderia talvez cumprir as tuas fantasias, porque te tendo eu tinha todo um universo, e ao te perder eu perdi parte de mim. Eu sinto que parte de mim, a maior parte de mim, ficou do lado de lá, rascunhado talvez em antigos cadernos e folhas soltas, mas em grande parte preso através de um portal que eu não consigo mais alcançar. Me tornei gente, talvez demais. E agora as farsas de esgarçam muito mais cedo, e a idéia de enganar alguém, ainda mais alguém como ti, por tanto tempo... Às vezes eu percebo que éramos tão semelhantes que apenas nossas máscaras e mêdos e mentiras nos separaram. Mas agora nos perdemos um pouco; eu me perdi; e aquilo que nos conectava não nos conecta mais. Ou será que foi uma máscara tua que me fez acreditar que éramos tão próximos? Não importa também, porque ao menos aqui eu posso ter uma parte de mim, e tê-la inteira, sem máscaras; ter tudo aquilo e me submeter aos teus desejos absurdos era uma traição que acabava por me desintegrar. Viver no mundo real tem seus benefícios.

Pelo menos agora somos ambos humanos, e temos uma chance qualquer de nos encontrarmos realmente. Duas pessoas, e não duas fantasias. Mas... eu também tenho a impressão de que pessoas não se dão tão bem quanto é tão fácil se darem as fantasias.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Desculpa

Peço desculpas.
Vocês foram uma parte findamental de minha vida, e eu os traí, e nunca me desculpei propriamente. Eu vos amava. Talvez ainda ame. Eu lembro dos feriados passadosas fazendas e casas de campo, eu lembro dos ensaios de teatro, e eu sei que foram bols tempos, que vocês nunca me impuseram forçosamente nada... Exceto quando me impuseram a virgindade mas. Eu sei que vocês, que nós fomos incríveis como nenhum grupo do qual participei depois.
Eu ainda amo vocês.

Desculpa. Desculpa por ter mentido e enganado a vocês esse tempo todo. Eu mento a vocês quando deixei acreditarem que eu era uma pessoa cis-hétero. Eu menti quando deixei vocês acreditarem que eu não me importava com viver sem bebida e sem esportes e sem todas essas coisas que nós não usávamos. Eu menti sobre quem eu era e quando eu precisei ser eu mesmo eu abandonei vocês, e por isso eu peço desculpas.

Eu peço desculpas especialmente pro cham. Eu sei que nunca te contei nem um décimo do que eu pensava e sentia. Eu achei que você não entenderia. Eu nem sinto tanta culpa porque ru sei que você também mentiu a mim e me enganou. Você também não era um macho hétero. 

Eu peço desculpas porque eu poderia ter arriscado nossa amizade em vez de tê-la condenado ao fracasso. Eu tive mêdo de perder vocês, de que vocês começassem a me tratar ccom um pouquinho de frieza e que isso escalasse até que não desse mais.

Eu tive mêdo de que vocês desprezassem meus sentimentos e fingissem que eles eram de mentira e os tratassem como fantasias. Nunca houve uma mostra de que seria diferente.

Eu peço desculpas, mas eu tenho ainda alguma raiva engasgada de vocês. Eu tenho raiva de como toda vez que a gente se encontra parece que a conversa não flui, e quando flui é uma conversa que me deixa mal. Eu tenho raiva de como hoje em dia nossa conversa parece normativa, sexista, heteronormativa, cisnormativa. Eu fico querendo me abrir mas o ambiente é sempre hostil demais, eu me sinto sempre na defensiva demais.

Eu sinto muito. Apesar do nosso amor eu tratei vocês como se vocês fossem pessoas normais. E vocês agora de fato parecem normais. Eu não compreendo muito bem. É meio doloroso.

Mas eu ainda tenho uma certa esperança.

terça-feira, 4 de junho de 2013

Ser Homem

O quanto da minha vida foi determinado por eu ser mulher?

Sabe, esta é uma questão pra mim. O que eu seria se eu fosse homem? Essa questão não é fácil de responder. Mas, bem, olha o meu irmão. Ele é um cara legal, e talvez ele seja feminista (eu nunca conversei com ele a respeito disso), mas, é diferente. Tudo é diferente.

Eu às vezes me pego pensando em mim mesma como uma versão gender-bended do meu irmão. Eu acho que "se eu fosse homem", eu seria forte como ele, rápido e ágil como ele. Eu sempre tentei acompanhá-lo, eu sempre corri com ele como se fôssemos iguais. Meu irmão foi uma das pouquíssimas pessoas na minha vida que sempre me tratou como se eu fosse igual a ele, mesmo sendo menina. Eu tenho algumas dificuldades com meu irmão, mas isso eu devo a ele: ele nunca achou que eu ser menina fosse desculpa para não correr, não lutar, não subir em árvore, não fazer barra, não entrar no campeonato de video-game ou na competição de bebida. Meu irmão nunca me mandou parar, e sempre ficou realmente decepcionado quando eu deixava de fazer alguma dessas coisas com ele. Acho que é por isso que me perturba (e fere) tanto quando meu irmão me trata como menina ou mulher. Na maior parte do tempo, parece que nossa relação teria sido exatamente igual se eu fosse homem.

Entretanto, meu irmão é a exceção. O resto do mundo me tratou de formas muito diferentes apenas porque eu era menina (mesmo antes de isso fazer qualquer diferença razoável). Eu acho que nossa relação de irmãos teria sido muito diferente porque eu teria participado de eventos que eram proibidos pra mim --- viagens com meu tio machão e os primos, andar de lancha na tempestade, ou simplesmente fazer alguns exercícios ---, porque meus primos teriam visto a minha força em vez de ver apenas minha fofura, porque eu conseguiria acompenhar mais de perto as capacidades físicas do meu irmão, mesmo se eu não fosse tão forte quanto ele.

Talvez o mundo fosse menos contraditório se eu fosse um garoto. E menos ofensivo. Sabe, quando eu era pequena, eu não entendia que eu não era um menino, que eu era diferente do meu irmão --- até porque nós éramos iguais: minha mãe sempre contou a história das pessoas que passavam e perguntavam "são gêmeos ou gêmeas?". Eu gostava de jogar bola, de lutinha e de salvar o mundo, e minha irmã gostava disso também e nunca foi um problema. Mas eu entendia perfeitamente bem que quando um moleque dizia que alguma coisa era "de menina", que alguém fazia alguma coisa "como uma menina", ou que alguém era "uma menininha", isso era apenas uma ofensa. Chamar alguém de "menina" era sempre um insulto. Então eu não queria, de forma nenhuma, ser uma menina. Minha mãe não entendia isso, nem as tias e as professoras e os professores e as outras crianças, nenhuma delas podia ver que quando me chamavam de "menina", "mocinha", "garotinha", eu tomava aquilo como um insulto.
Enquanto as pessoas me vissem como uma menina, eu estava perdendo. Eu precisava ser forte. Eu precisava ser mais forte do que todos os meninos, pra mostrar que eu era um deles. Eu precisava não desistir nunca, porque desistir significava ser inferior para sempre. Na minha imaginação, eu era uma heroína, uma figura mítica que se transformava em lobos e panteras, que era a maior guerreira do mundo (eu tinha um amigo que era o Rei e um amigo que era um Mago, mas nenhum deles era tão forte quanto eu), que era a líder de um time de esportes marciais com bola, eu freqüentemente salvava meus amigos de perigos terríveis e ora salvava ora enfrentava os garotos por quem eu me interessava, e eu atravessava o mundo num cavalo tão rápido que ele cavalgava sobre as águas,e em algumas histórias eu tinha até uma contra-parte masculina. Minhas histórias eram cheios de personagens masculinos fortes e impressionante, mas todos eles me respeitavam porque eu era mais forte e experiente que eles.

Não ajudou em nada o fato de que, aos cinco anos, enquanto eu queria ser um dos meninos e estava fazendo de tudo para não ser "maricas" nem "menininha", enquanto minha irmã e minha prima faziam sugestões absurda de que eu, sendo uma "menina", estava apaixonada pelo meu amiguinho, enquanto os adultos me chamavam de "fofinha" e "gracinha" e "menina linda" sem nem suspeitar que o que eu queria mesmo era respeito (e, sério, não era difícil ver isso das atitudes que eu tinha), quando eu tinha cinco anos de idade um homem, um adulto retardado, funcionário na escola em que eu estava aprendendo a escrever e multiplicar por 10, me levou, talvez duas ou cinco vezes, para o quarto de brinquedos e me fez pôr a mão numa linguiça quente e suja que ele tinha no bolso.
Eu digo isso assim com todas as palavras porque foi isso que aconteceu. Talvez esse homem tenha me feito acariciar o pênis dele, ou pior. Outras mulheres que conheço talvez tenham histórias piores de abuso durante a infância. Eu me sinto mal por trazer um assunto "pesado" à tona num texto que deveria ser simplesmente sobre a criação de meninos e meninas --- mas, inevitavelmente, não sei exatamente quanto tempo depois, eu cheguei à conclusão de que aquilo aconteceu porque eu era menina. Não aconteceu com meus amigos, meus companheiros de viagens espaciais e aventuras na selva. Aconteceu com uma outra menina (não sei bem quando eu fiquei sabendo disso), uma que, para a minha sorte, gritou, deu o alarme, permitiu que a preocupação da minha mãe com meu comportamento nos levasse a um psicólogo e, com alguma ajuda de professora e avó e mãe (figuras maternas ou figuras femininas não sei), eu contasse o que aconteceu e digerisse de alguma forma toda a experiência. Qualquer religião que eu tivesse não tinha sequer uma tentativa de ajudar. Os livros, as histórias não falam de abusos com garotinhas. Eu fiz o que pude: me tornei um herói e um animal selvagem, uma força da natureza, uma guerreira, uma fera selvagem, assassina. O mundo das minhas histórias era cheio de sangue e violência. De alguma forma minha relação com o mundo exterior, nas minhas memórias, não mudou muito em caráter, apenas em intensidade, já que meu interesse em interagir com o mundo lá fora ficou muito menor, ainda mais depois que eu mudei de escola e perdi todos os amigos e professoras. No mundo lá fora eu tinha meninos que tiravam sarro de mim, professores que me insultavam, pais que tinham mêdo de que eu ficasse louca, e umas meninas que faziam "coisas de menina" e aparentemente achavam isso legal, o que para mim era totalmente incompreensível.

Na minha cabeça eu não era tanto uma menina quanto um animal selvagem --- acho digno de nota que o animal que eu escolhia era em geral um lobo ou uma pantera, que praticamente não tem dimorfismo sexual, ou uma leõa, que é um animal que caça e organiza o bando enquanto o macho é paparicado e embelezado. Eu era fã de Raksha, a Demônia, a mãe-loba do Mogli, porque ela enfrentava o Shere-Khan (e na minha cabeça ela é que tinha enfrentado cinco oponentes para escolher o macho que ela queria), e eu era fã de Buck, o canzarrão de Jack London que se tornava o líder de todos os lobos. Eu me esforçava para ser forte, eu subia nas árvores mais altas, eu corria, eu escalava todas as pedras e me metia no meio do mato sempre que eu podia, porque o mundo humano era feito para maricas, mas eu não era apenas uma criança, eu era uma fera, e eu tinha vivido mais do que os adultos podiam imaginar, e algum dia eles iam ser pegos de surpresa por mim. Eu ia provar que eu não era uma menina, que ninguém podia abusar de mim. Nessa época eu também odiava a única parte decididamente feminina do meu corpo, passava horas puxando e deformando meus lábios, não sei bem se tentando esconder a vagina ou se tentando modelar uma espécie de pênis com o que eu tinha à mão.

Enquanto isso nas aulas de educação física os professores não queriam que eu jogasse bola com os meninos, e eu era obrigada a jogar queimada ou brincar de elástico com as meninas, que para mim eram criaturas alienígenas. Pior que isso, nas aulas em que os meninos faziam flexão eu tinha que fazer "flexão de menina", algo que eu achava desagradável e humilhante. E "barra de menina", que sequer era um exercício para os braços, e sim uma prova de paciência: o desfio era ficar pendurado na barra, sem ter que se mexer, ou levantando os joelhos, pelo máximo de tempo. Naquela época, eu e mais algumas meninas conseguíamos fazer barras e flexões tão bem quanto alguns dos meninos; essas prova eram só uma espécie de humilhação e insulto especial. Depois de introjetar muito bem que fazer qualquer coisa "como uma menina" era uma vergonha, eu era obrigada a fazer esportes "como uma menina". Meus professores estavam me xingando na minha cara, e eu tinha que aceitar, calada, afinal, eu era, mesmo, "uma menina". Minha auto-confiança foi destruída, e eu passei a vida duvidando de tudo o que eu fazia, pensava e dizia.

Eu tinha pouquíssima experiência e empatia com meninas. Eu não mencionei nenhuma atividade "feminina" até agora porque para mim elas não existiam. Na verdade, nós brincávamos de casinha e boneca junto com comandos em ação, junto com meu irmão, e tinha também as coisas que minha prima trazia, por exemplo a brincadeira de desfile da "pakalolo" que fazíamos inventando formas de enrolar toalhas e lençóis, a brincadeira das fadas que vinham de outro mundo contar histórias (minha prima e minha irmã eram muito criativas), brincar de sereia, brincar de comida --- eu gostava dessas brincadeiras, mas por algum motivo eu não dava importância a elas. Acho que o fato de que nunca tinha meninos por perto quando brincávamos de pakalolo ajudava, pois eu podia baixar a guarda, e ao mesmo tempo eu lembro que se a brincadeira começava a derivar pra maquiagens e outras coisas mais "de menina", eu fugia.
Eu tinha amigas meninas na escola (eu não tinha amigos porque eu era incapaz de entender por que os meninos da escola me enchiam tanto o saco), mas pra falar a verdade eu não tinha amizades de verdade, na maior parte do tempo. A maior parte das meninas falava uma língüa que eu mal conseguia entender, até uns 12 anos de idade. Felizmente eu encontrei algumas meninas que se pareciam comigo, que detestavam coisas "de menina" e com quem eu podia jogar bola, andar de bike, e tentar, de alguma forma, procurar uma forma de lidar com toda a humilhação que era ser menina quando a coisa certa a se ser era claramente menino.
Assim, durante a pré-adolescência, quando eu estava começando a fazer amizade com garotos e gente tão deslocada quanto eu, nós descobrimos o paganismo, Brumas de Avalon, bruxas e toda uma mitologia na qual as mulheres eram o centro, na qual cada mulher era uma encarnação da Deusa. Encarar o feminino como divino ajudou muito a sobreviver à adolescência (assim como todas aquelas histórias de heroína e lobos e tudo o mais). E sobreviver à adolescência, previsivelmente, foi o tipo de desafio que requeria ajuda.

Na adolescência meu corpo começou a mostrar que eu era mulher através de peitos e pernas grossas, tudo o que eu nunca quis ter, não tanto porque era coisa de mulher mas mais porque minha irmã não tinha e eu queria ser igual a ela --- mas a mitologia da mulher-deusa me fez aceitar esse corpo como símbolo do meu poder, e cultivá-lo e amá-lo, e eu aos poucos parei de tentar me machucar. Simultaneamente, eu desenvolvi todos os pêlos do mundo, o que eu imediatamente achei o máximo porque me deixava mais parecida com um lôbo (além do mais, minha melhor amiga também era peluda). Por outro lado, eu parei de crescer, desenvolvi problemas do joelho e na coluna que me causavam dor toda vez que eu jogava bola, e rapidamente os meninos começaram a ficar mil vezes melhores que eu em tudo o que eu valorizava. Minhas "amigas" que gostavam de coisas de menina começaram a falar de garotos e romance, meus amigos começaram a se interessar por mim (o que eu detestava), e minha mãe decidiu que eu tinha que fazer todo tipo de coisa agora que eu era "mocinha".
Eu até me divertia com os vestidos de festa e maquiagem que uma amiga de mamãe fazia em mim para os casamentos e afins; mas logo depois começou a tortura de depilação, descoloração, desodorante feminino, e cada vez mais pessoas reclamando do jeito como eu me vestia, das roupas velhas, feias, furadas --- em pouco tempo eu entendi que eu não podia ter pêlos, nem cicatrizes, nem machucados nem furos nas roupas, porque tudo isso era coisa de homem, era coisa que era legal no meu irmão, mas em mim era feio. Mas, como eu disse antes, eu não conseguia entender do fundo do coração que eu era "menina" e que para mim "coisa de menina" era bom e que eu e meu irmão tínhamos que ser diferentes, eu queria as mesmas coisas que ele, eu queria ter cicatrizes legais, eu queria ser foda, eu queria me arriscar e me machucar e disputar a bola e rasgar os joelhos das calças porque isso tudo é sinal de que você tem garra. Então eu não só era chamada de "menina" como ainda levava bronca por fazer tudo o que merecia "respeito", e ainda por cima quando eu estava com meu irmão, que ainda era o cara que me tratava como igual, eu mal conseguia acompanhá-lo. E aos poucos até meus amigos nerds e esquisitos começaram a me dar uma lavada em todas as nossas corridas e lutinhas e what-not. Eu tive que começar a admitir que eu não era mais um dos garotos, e comecei a desejar ser. Meu irmão, nessa época, tinha um melhor amigo super bacana, e eles começaram a conhecer meninas também. Eu tinha uma relação estranha com o amigo do meu irmão, ora ele era como um irmão, ora eu achava que ele me via como uma mulher.

Um dia meu irmão me viu como mulher. Eu sei disso, mas eu nunca falei sobre isso com ninguém, muito menos com ele. Foi uma traição, e eu nunca perdoei meu irmão. Essa parte, essa traição, isso nunca teria acontecido se eu fosse um homem.

Toda essa história foi anos antes de eu realmente me assumir como feminista. Foi anos antes de eu me assumir como qualquer coisa. Foi antes do colegial. A partir dos catorze anos minha vida emocional foi tão intensa que todas as outras questões pareceram menos importantes no momento. O que eu notei foi uma resistência, da deusa-lôba dentro de mim, a me machucar depilando as pernas, a se disfarçar com maquiagens que eu não sabia aplicar e que deixavam ridícula. E uma miríade de sonhos e fantasias, que foram se tornando mais diversos, incluindo romance e sexo e até mesmo filhos (eventualmente netos). Mas eu queria amar e eu aos dezoito decidi fechar o teatro, cancelar todas as aventuras, e viver a "vida real". Depois disso passei mais uns bons dois anos continuando a cometer erros e crimes contra as leis da deusa-lôba, e mais uns três ou quatro numa jornada de auto-conhecimento, que me trouxeram até aqui, nua, sem deusa, sem lôba, sem herói, sem nada além do meu corpo e da minha história, e das minhas convicções políticas. Hoje em dia eu consigo usar vestidos e saias sem me sentir ridícula. Recentemente eu aprendi que posso ter pernas peludas e que posso sair sem sutiã. Eu ainda tenho dificuldades com algumas coisas bestas --- ainda não gosto de ser menina, de ser fofinha, de que me chamem pelo meu nome. Hoje em dia eu sei que eu não sou um homem, que eu jamais poderia ser homem. Por outro lado, eu não tenho mais a menor idéia do que significa ser mulher --- se eu aceitar que eu sou mulher, eu sinto que eu estou dissolvendo completamente o conceito de mulher. Ou talvez essa seja a forma de lidar com a raiva. Talvez eu só queira ser uma mulher masculina e pronto.

Voltando à pergunta: eu seria feminista se eu fosse homem? Bem, eu sei que eu sou feminista não exatamente porque eu sou mulher mas porque eu fui uma menina que queria em primeiro lugar ser um bicho, ou um garoto. Como seria a narrativa acima se eu tivesse nascido com um pintinho? Eu não teria a raiva, a insegurança, os insultos, a convicção de que o mundo estava sendo injusto comigo ao me taxar de menina... Eu acho que se eu tivesse nascido menino, eu teria me encaixado, vivido as aventuras, acompanhado os garotos. Eu não teria sofrido abuso, meu irmão e meus amigos nunca teriam deixado de me ver como um dos caras, eu não teria a pressão para entender o mundo das meninas, nem pra sofrer na mesa de depilação. Minhas calças teriam bolsos! Eu acho que se eu tivesse nascido menino eu simplesmente me sentiria mais encaixado no mundo, e teria menos motivação interna pra ser feminista.

É claro que eu poderia ser feminista mesmo assim. Mas sinto que todos os motivos pessoais que me levaram ao feminismo não estariam mais lá. Eu ainda seria feminista por motivos políticos, provavelmente, mas pra falar a verdade eu não sei se eu teria tanta convicção numa bandeira que não falasse com a minha história de vida (e talvez, também, eu fosse um garoto babaca e auto-centrado que não conseguiria ver a necessidade do feminismo). Talvez com os anos e o esclarecimento eu começasse a querer usar saia ou pintar o cabelo ou beijar garotos ou alguma outra coisa que me jogasse no feminismo. Talvez a história fosse totalmente diferente do que eu imagino. Mas tudo isso é irrelevante, porque esta é a minha história, não a de uma pessoa que nunca existiu. E esta é a minha história. Na minha história eu sou ora uma guerreira, ora uma lôba, ora uma deusa, e na minha história eu sou feminista porquê eu fui menina.

Fim.

quarta-feira, 10 de abril de 2013

As Gerações e os Anos

Hoje eu estava pensando em te ligar, aí comecei a me perguntar por quê, aí pensei em tudo o que a minha vida significa hoje e ontem e sempre, e porque tudo parece tão diferente.

Eu achava que eu não tinha sonhos porque os meus sonhos eram tão gigantescos que eu não conseguia ver como eles se relacionavam à realidade. Por isso nunca nenhum deles ficou mais próximo de ser tornar real.

Quando eu entrei no Design, em 2007, eu tinha 18 anos, era virgem, tinha um namoro monogâmico, tinha pavor de qualquer coisa envolvendo bancos e burocracia e conhecia umas três linhas de ônibus que eu não sabia direito onde passavam. Eu estava habituada a ser levada e buscada pelos meus pais, a fazer festinhas de videogame na casa dos meus amigos, a ficar desenhando durante a aula porque desenhar parecia importante, aula não, mas fora da aula eu assistia TV, escrevia no blog e inventava sonhos. Eu não sei se teve um bom motivo ou se foi só porque ela tinha carro e nós precisávamos de carona, mas a coisa mais próxima que eu tinha de uma amiga no Design era a Tarsila, que tinha a idade respeitável de 23 anos, tinha acabado de se formar em Direito, e era quase uma veterana ou uma irmã mais velha da turminha nerd que pegava carona com ela. Como eu estava descobrindo como ser nerd e estava empolgada com isso, eu tinha problemas com o fato de que ela era zero nerd. Hoje em dia isso me parece um pouco ridículo.

Eu lembrei da Tarsila porque ficou na cabeça uma vez que ela estava contando do peguete novo depois de anos de um namoro que tinha começado no Direito. Ela riu e disse: "É o cara que eu tô comendo! Vou falar isso sempre." Na época eu estava apenas começando a conhecer o mundo das pessoas que efetivamente conversa sobre sexo, e eu tinha acabado de descobrir a expressão "dar" aplicada a mulheres, e eu já a odiava. Eu tinha a opinião muito estrita de que era uma questão política parar de usar essa expressão. Então eu acho que fiquei feliz ouvindo a Tarsila dizer isso. O que me perturba é que eu fiquei feliz e surpresa. Pensando bem, eu provavelmente me daria melhor com a Tarsi se eu fosse um pouco menos criança.

Eu passei muito tempo no esforço de pôr a culpa de tudo no Design e nas pessoas da FAU e dizer que fazer essa faculdade foi um erro e que minha vida teria sido melhor sem esses anos tristes. Talvez eu esteja ficando velha e chegando naquela fase em que se começa a perdoar os erros do passado e admitir que "tudo tem um propósito"... Não, acho que Design não teve nenhum propósito, nem foi particularmente engrandecedor. Provavelmente eu teria sido menos infeliz se eu tivesse tido uma coragem de última hora e preenchido a ficha de inscrição para Oceano (eu estava com essa página do manual aberta, afinal). Mas ainda teria sido uma droga em muitos aspectos.

Quer dizer, minha passagem pelo Design não foi muito diferente do resto da minha vida. Eu era infeliz pra caralho no Design, mas eu era infeliz pra caralho na adolescência também. Eu me divertia com uns poucos amigos que viviam num mundo de fantasia. Eu só me divertia porque havia fantasia. E minha maior fantasia era que um dia a fantasia virasse realidade. Eu estava disposta a sofrer se fosse pra alcançar meus sonhos fantasiosos, quero dizer, se o caminho do herói aparecesse diante de mim como ele aparece para os heróis nos filmes... Durante o colegial eu sofria pra caralho com tudo, mas eu tirava uma alegria maior de estar sempre apaixonada, sempre tentando lidar com paixões avassaladoras e tentando conquistar alguém. Era difícil se preocupar com outra coisa, e ainda por cima eu tinha coragem de chorar no colo dos meus amigos. Só que quando eu saí da escola, eu tive toda essa expectativa de virar adulta, e não deixar as pessoas me diminuírem, e aprender a dirigir e a usar o banco e andar de ônibus e conhecer a cidade e fazer amigos sem ajuda de ninguém e, e, e. E é claro que além disso minhas aulas noturnas não me permitiam ver minha família nem meus amigos, de forma que eu fiquei sozinha, e aos poucos eu parei de ter amigos daquela forma que eu tinha no colegial. Ou talvez eu tenha decidido concientemente abandonar esses amigos, eu não me lembro. Eu me lembro que eu me obriguei a parar de fantasiar, porque eu precisava me tornar real, e eu me obriguei a parar de machucar as pessoas e a deixá-las sempre em dúvida. Mas no fundo o que eu me lembro mais nitidamente é que eu não confiava em ninguém, nessa época. E nenhuma dessas coisas parece ter relação com o Design.

Eu de vez em quando lembro de uma coisa que eu cantava, no auge do meu desespero por me dar conta de que eu não tinha nenhum amigo de verdade na faculdade. Era uma coisa assim:

"Don't take me back
Don't take me home
Let me stay here
a little longer
Don't take me back
To where I come from
Let me become
a little stronger
'Cause I know I can be what you want of me
I won't be lonely if only you let me be
Don't take me back
Don't take me home"


Eu odiava estar ali, é verdade. Eu era péssima naquilo e eu sabia. Eu não ia jamais cumprir o meu objetivo inicial de mudar o mundo com o Design. Meus amigos não tinham nada a ver comigo e não entendiam quem eu era. Mas, sei lá, hoje eu teria me dado bem com eles, eu acho. Hoje eu não preciso de gente que me entenda, ou se pá eu achei essas pessoas, e elas não estão no IME (talvez no CM, talvez). Eu continuo não tendo amigos na faculdade. Meus amigos de verdade da época continuam sendo pessoas incríveis, e eles teriam bastado se eu não tivesse me imposto que eu precisava ser capaz de fazer amigos incríveis onde quer que eu fosse. E se eu não tivesse me forçado a ser uma boa namorada e nunca mais machucar meu namorado (porque eu achava que eu devia isso a ele), eu poderia ter perseguido todas as minhas mil paixões da época com menos mêdo. Acho que qualquer curso que eu fizesse teria sido igualmente horrível nesse aspecto. E francamente, talvez qualquer curso me desse a mesma sensação de "eu não sou igual às outras pessoas daqui e eu não nasci pra fazer a mesma coisa que elas fazem". Na verdade, a única saída teria sido não ir pra faculdade, ir pra algum lugar onde as pessoas nem queiram ser tão iguais umas às outras. Não sei se existe um lugar abençoado assim.

Bateu uma saudade de algumas coisas da época do Design. Alguns amigos, algumas paixões. Eu me odiava, mas eu não odiava tudo. Eu queria ter, sei lá, aproveitado melhor. Bebido mais. Tido menos mêdo. Beijado aquele menino que às vezes me tirava do desespêro me chamando pra brincar de pega-pega. Eu queria ter raspado o cabelo quando eu quis, e ter ido na balada gay. Eu queria ter dito alguma coisa, pra alguém. É engraçado como eu acho que se eu tivesse os amigos que eu tenho hoje, seria diferente. Mas será que eu confiaria neles? E eles em mim?

Se pá eu só queria que eu tivesse não parado de sonhar, apenas começado a de fato tornar meus sonhos realidade, custasse o que custasse.

domingo, 7 de agosto de 2011

O Registro

"Extraio de mim para o papel; o sumo de minha alma para o papel"



Vou começar este post copiando algumas páginas do meu caderno:
"[4/8/2011] (...)
Ontem...
... Hoje quero escrever coisas muito íntimas, e como as pessoas do meu lado tendem a ler eu caderno contra a minha vontade enquanto escrevo, eu estou evitando escrever. Lembrei agora daquela página daquele antigo diário que escrevi toda em código (arghe-sangue-pirata, para quem isso significa alguma coisa) porque ninguém podia saber do meu desejo secreto pelo prof. paiva. Hoje isso parece tão bobo. Eu preferia qu aquela página estivesse em uma língüa que eu pudesse ler.
Estive pensando muito sobre coisas que eu achava de um jeito e agora vejo qu acho de outro, e é um pouco surpreendente notar que eu achava todas essas coisas absurdas. Lembra de quando eu tinha fantasias com namorar o Yuri e trai-lo com o Charles? E encontrei uma falha naquele plano da Ana Bruner de escrever minha Weltanschauung: eu nunca poderia prever que essas coisas que mudaram seriam relevantes o suficiente para anotá-las! Quantas outras coisas eu nem poderei lembrar? Estes cadernos são o melhor registro de quem eu sou, de quem eu era quando os escrevi. E mesmo que eu escreva todos os dias, sempre falta alguma coisa. Tem tanta coisa que não dizemos. Tem tanta coisa que nem pensamos nas vozes superiores do pensamento! Talvez eu devesse me proucupar mais em guardar comentários em blogs alheios, dou muito mais opiniões ali. Ou pelo menos opiniões mais incisivas. Talvez eu devess desencanar disso tudo também, afinal, de que me serve obter tão extenso registro? Que me serve ter um registro tão extenso e cuidadoso de mim?"

Com uma freqüência assustadora, eu percebo que no passado eu pensava coisas que hoje em da me arecem totalmente absurdas. Essa fantasia da tração é uma das que mais me choca. Naquela época eu estava começando a descobrir quão difícil é tentar amar uma só pessoa, e eu queria ter os dois (como todo mundo sabe, eventualmente eu acabei namorando os dois, um depois do outro. Mas não foi uma coisa planejada. Acho que foram só paixões muito intensas que não desapareceriam se não se cncretizassem), e eu achava que não havia nenhuma olução lícia, por isso nas minhas fantasias eu buscava as soluções ilícitas. Isso foi antes do episódio em que eu decidi que não ia mais namorar e no qual o Di conseguiu me mostrar que existiam outras opções de vida. Hoje em dia, eu considero que se eu quero trair (propositalmente) meu namorado, é porque eu não devia estar namorando com ele pra começo de conversa. Fico aliviada por ter chegado a essa conclusão sem passar por nenhuma situação realmente problemática (pelo menos nesse âmbito). Sempre fui correta demais para conseguir fazer algo que eu sabia que machucaria alguém que eu amo (e eu sempre tive certeza de que não conseguiria realmente mentir para alguém amado e íntimo).

Acho que por um lado me é útil fazer esse registro de mim, porque assim eu consigo ver mais claramente o que mudou, o que ficou. Além disso, eu posso escrever, eu tenho sobre o que escrever, eu gosto de escrever e de faer palavras bonitas. E no blog, é claro, eu posso me comnicar. Mesmo nos meus cadernos-diários eu sempr sinto que estou escrevendo para alguém. Talvez seja a marina do futuro. Tavez eu esteja escrevendo para uma menina do futuro que vai encontrar esses registros e le-los um a um. Às vezes eu tenho vontade e ostro o qe escrevi para algumas pessoas. Eu sou sincera porque acho que não vale a pena viver se não e para viver plenamente, sinceramente, sendo quem você é. Eu escrevo em um úico blog porque me recuso a me fragmentar. No mesmo lugar escrevo poesia, discuto meus estudos e assuntos acadêmicos, divago sobre política e sociedade, e temas que são totamente inapropriados para uns ou outros públicos. Porque eu me recuso a me fragmentar. Mas para quem estou escrevendo?

E por quê? Será que isso sequer é realmene uma questão? Acho que se eu continuar registrando, eu nunca vou me arreender.

...

Eu tenho uma certa necessidade de preservar o presente, sabe?

domingo, 24 de abril de 2011

À Deriva [jul 2004 - fev 2006]

Ando sem rumo
no mar, sem prumo,
no rio à baila
à deriva
sem cor, sem sumo
ando perdida.
O amor, a vida
o mar do mundo
me deixa à margem
ao fundo
sem dar guarida
a um vagabundo.
Ando por nada
estou recortada
do meu papel
meu cais
do porto-seguro
o escuro
esconde a enseada
com névoas em véu
ando deserdada.

----------------------------

T) Este é outro tema recorrente, e não me impressiona muito que eu tenha passado um ano e meio escrevendo esse poema. Digo isso de uma forma poética: não me impressiona que eu tenha passado um ano e meio me sentindo assim. Também não me impressiona nada que o mar seja a metáfora base, já que ele representa quase naturalmente esse sentimento de falta de caminho. Gosto bastante das metáforas deste poema.

L) Vocês repararam que eu usei a palavra "guarida", que acho que nunca mais usei na vida? Acho que era só porque tinha acabado de aprender e queria aplicar em alguma coisa.

obs.: me dei conta de que quase sempre faço uma avaliação do tema e do desenvolvimento e depois alguma observação sobre um detalhe da linguagem. Achei que eu podia institucionalizar isso.

domingo, 21 de novembro de 2010

Sonhos (28/02/1999)

Cada sono tem seu sonho
Que se sonham toda hora
Em cada sonho que se sonha
Baseia-se uma nova história

Eu nasci e eu cresci.
Cresci no mundo das nuvens e voei para o mundo dos sonhos.
E toda noite eu vou para o mundo dos sonhos.
Um lugar onde tudo é real e não existe impossível.

Onde você vê o invisível
Onde você ouve o inalditível
Onde você sente o insensível
Onde tudo pode ser possível

E se você deseja o indesejável
Ou você toca o intocável
Se o mundo dos sonhos me ensinou?
O inimaginável me mostrou

Quando o mundo dos sonhos posso ver
Vejo algo que não posso descrever
Se nesse mundo existe ódio, tristeza e dor
Também pode haver felicidade e amor.

-------

Eu declamei esse poeminha para todos os pais e alunos do primário do Santa uma vez. A razão disso é mais queeu tinha escrito muitos poucos poemas do que qualquer outra. Mas acho que também eu precisava mostrar para todos a minha defesa ao mundo dos sonhos. Sabe, quando eu era pequena (há não tanto tempo assim) meu sonhar acordado era muito reprimido e discriminado. Os garotos da escola me achavam esquisita e meus pais estavam sempre me chamando de louca (mas pelo menos minha mãe não se importa em pagar a conta do psicólogo...). Então eu acho que esse poema tinha um certo valor de manifesto. Aliás acho que tudo o que eu faço é um pouco manifestoso. Nessa época todos os meus poemas estavam atestando veementemente alguma coisa - o valor dos sonhos, meu valor como contadora de histórias, a importância da natureza, a crueldade das queimadas, etc.

terça-feira, 4 de maio de 2010

Paragens Internas - resumo dos capítulos anteriores - o primeiro dia e a primeira noite

Isto aqui costumava ser uma grande floresta. Ia até onde a vista alcança e mais além. Esta parte juntava com aqueles bosques escuros ali distantes, e do outro lado corria até mergulhar no que agora são charcos, perto do desfiladeiro. E antes disso havia uma grande planície, uma campina sempre verde e viva dos quais poucos ainda se lembram bem. Eu mesmo nasci nos últimos dias daquela campina, no último verão glorioso antes de tudo se transformar. Mas daquele tempo eu me lembro que era inteiramente habitado pelo ruflar das asas de infinitos pássaros, e que tudo era cheio de luz. Tudo era tão vivo! O campo se cobria de flores diferentes a cada estação, e eram de todas as cores e atraíam todos os bichos. Este lugar era como um jardim imenso que se estendia do Mar do Oeste até os confins do infinito do outro lado, e era habitado por espíritos livres que mudavam de forma e viajavam em infindas brincadeiras. Naquela era o Tempo não existia, e os espíritos que nasciam logo amadureciam e voltavam a ser crianças, apenas pelo prazer da mudança. Tudo o que vivia aqui era dotado de asas, embora alguns optassem por viver nas águas e outros preferissem correr sob ou sobre a terra.
Então veio a Grande Morte, quando um tremor abalou a terra e os mares recuaram, inundando toda a parte de trás do mundo, onde viviam as coisas mais selvagens. E aqui, a terra secou e endureceu, e todos os seres morreram ou fugiram para aguardar debaixo da proteção das montanhas. O Sol estancou no céu, e a Lua ficou parada a iluminar o lado de trás do mundo; e foi aí também que o Tempo começou. E por um tempo infinito vivemos na sombra e esperamos sem que nada mudasse além das nossas formas, pois enquanto esperamos nossas asas se despedaçaram em dor e e nossos dedos se transformaram em garras, e não podíamos mais tocar músicas alegres, apenas entoar lamentos sem palavras. Lá fora, não havia nenhum vento sobre a terra ressecada, e o único movimento era o de um tímido rio vermelho que escorria lentamente na superfície da terra, nascido dentro de uma montanha e que desaguava no Mundo de Fora através da saída do Poço. Então, quando o mêdo da morte começava a se apoderar de nós, entrou no mundo um espírito sem idade, o único herói verdadeiro de nossa história, a quem chamamos Rin, que na língüa de então significava fio, como o de uma lâmina, mas que também quer dizer aquele que é, ou o que pertence. E Rin também foi chamado de o Salvador. e de Espírito-Criança, mas o nome pelo qual todos os que vieram depois se lembram dele é Rin Rad, pois Rad significa tigre e era pelos tigres, de todas as criaturas que vieram depois, que Rin tinha maior respeito. E assim que chegou ao mundo Rin desceu aos os mais profundos subterrâneos e também andou até os mais distantes mares, e neles nadou e conheceu as coisas selvagens, mas logo voltou, porque no mar não havia dor, e Rin não podia abandonar a dor da terra assolada pela Grande Morte. Munido desse amor pela alegria das coisas, e da água do mar onde se banhara, Rin Rad subiu o Rio de Sangue até a sua nascente, e ali, de alguma forma que ainda não conhecemos, nosso herói transformou todo o sangue em lágrimas, e deu às lágrimas o poder de criar e curar, e fez a água correr para que tudo o que houvesse no mundo se enchesse de vida.
Então o sol se desprendeu no Céu e conseguiu finalmente concluir seu longo crespúsculo. O período que se seguiu foi chamado por nós de A Grande Noite. A terra toda se cobriu de plantas que cresceram selvagenmente em uma enorme floresta, e todas as criaturas que andam e correm saíram de seus esconderijos para habitá-la. E como a vida da floresta viesse da água do mar que Rin colhera, as coisas que nasceram ali eram ferozes como os habitantes de Atrás. Naquele tempo não haviam estrelas, então, para que tivéssemos alguma luz, Rin Rad plantou suas próprias sementes no solo à margem do Rio de Sangue, e ali cresceram árvores cujos frutos eram gemas luminosas de todos os matizes. O mundo se enchera de alegria pela libertação da terra, mas as criaturas que o habitavam não possuíam mais asas e viviam mudando entre formas sombrias, mesmo que coloridas, que rastejavam e se enroscavam ao redor das árvores das luzes, já que somente elas tinham algo da delicadeza e da vivacidade que existiam no mundo antes da Grande Morte. Então Rin Rad cantou para a terra e a terra respondeu ao seu canto e criou os Caçadores, que nasceram para ser os habitantes de direito da nova floresta, e entre estes Rin chamou os Tigres, os Lobos, os Ursos e as Panteras e entregou a cada família um fruto de uma das árvores, e mandou que eles se espalhassem e dividissem as terras como lhes aprazisse, e que protegessem suas gemas e cuidassem para que elas não perdessem o brilho. Assim as luzes se espalharam e espalharam sua magia por todas as partes, e os seres que mudavam de forma se espalharam atrás delas, e muitos deles se disfarçaram de caçadores para permanecerem próximos a um fruto, e muitos outros se transformaram em animais pequenos para que pudessem se infiltrar nas tocas dos caçadores, mas nenhum deles jamais teve um fruto em seu poder, e por isso seu pesar pela perda da luz de antes nunca arrefeceu.
E com o tempo os habitantes do mundo se acostumaram com a nova floresta, e muitos deles começaram a se colorir com as cores das gemas das árvores e a criar novas formas, e afinal um grupo deles decidiu tomar uma área nos limites da floresta e transformá-la numa grande campina, onde os espíritos antigos criaram novas formas, baseadas nas formas que usavam antes da Grande Morte, mas voltadas para o brilho colorido que emanava da floresta, em lugar do sol. E, vendo as dificuldades dos espíritos da campina, a Leoa pediu a Rin uma de suas pedras, e Rin fez uma árvore nova, que dava frutos brancos e mais brilhantes que os outros, e a Leoa levou seus frutos para a campina e alí criou seu território, onde sempre havia tranqüilidade e paz. E nesse campina também ressurgiram a Queni e a Quemi, os Pássaros de Fogo e de Cor, que decidiram voltar para a floresta quando tiveram suficiente confiança em suas asas, e então ajudaram a nascer novas aves entre os Caçadores, das quais as primeiras foram a Coruja e o Gavião. E assim a Floresta cresceu e ganhou forma e vida, e seus habitantes se multiplicaram e se transformaram para ficarem mais graciosos e mais ferozes, e se aprimoraram caçando e guerreando mas também cantando à margem do Rio de Sangue em homenagem a Rin Rad e às luzes das árvores. Eles também cantavam ocasionalmente em nome da Senhora, que partira durante a Grande Morte e que desde então não fora vista, e conta-se que foi de tanto eles chamarem seu nome que em dado momento ela retornou.

quinta-feira, 11 de março de 2010

O que eu faço quando perco alguém

Quando eu te perdi
(lembro nitidamente)
chorei por anos, de tempos em tempos
a vida pareceu sem graça
as brincadeiras não foram as mesmas.
Por anos não tive ninguém pra mim como você.
Mas com o tempo, acho, fui te tornando menos que uma memória
te tornei meu sangue, te tornei meu core.
Quando me curei, era eu que havia faltado.

Quando te perdi, entrei em desespêro.
Não parecia certo te perder.
Eu não estava certa sem você.
Todas as coisas que eu fazia pareciam idiotas,
todas as piadas pareciam estúpidas,
todos os meus amigos pareciam bobões
por que nenhum deles era você.
Queria voltar pra você, queria te encontrar
Mas aos poucos
meus amigos
se tornaram estrelas mais brilhantes que você
(e quando me dei conta, era eu que havia me afastado)

Quando te perdi, eu entendi.
Minha dor era tão grande que parecia abarcar o universo, mas isso não importava, porque eu entendi.
Eu senti saudades, mas pensei:
"Vivemos tudo o que poderíamos viver"
Você viveu, viverá, para sempre.

Quando te perdi, eu observei
Eu observei até que você viesse à tona
eu observei os outros que também te perdiam
eu procurei por você nos olhos deles
eu procurei por você nos registros, nas lembranças
eu procurei por você na memória e em Deus
e talvez eu te encontre, não sei, na Morte.

Quando te perdi, eu te amaldiçoei
Eu gritei, eu urrei em silêncio
Eu xinguei sua família, seus sonhos
Aqueles amigos que a gente teve e que eu não tenho mais.
Quando te perdi, não te perdoei
Ainda não te perdôo.

Quando eu te perdi
(e como me dói pensar nisso)
eu mergulhei em coisas felizes, talvez pra esquecer
Amigos, amor, essas coisas
Porque foi tão definitivo!
No fim,
eu perdi tanto
mas consegui manter você
um pouco ao menos de você.

Quando te perdi
(acho que perdi metade do meu coraço junto,
por isso não sinto profundamente essa perda)
Sério, quando te perdi
Passei alguns anos sem saber direito o que fazer da minha vida.
Passei muito tempo sem saber se as outras pessoas que eu conhecia
poderiam de alguma forma preencher o espaço que antes era só pra ti
De verdade,
ainda não tenho certeza do que aconteceu
Não que eu sinta sua falta, é só que
...às vezes eu acho que ainda sobra em mim esse espaço vazio.

Quando te perdi
...
...
...
...
Bom...
...
..
.
.
É: quando eu te perdi, o vazio de não ter você foi tão avassalador que entrei em desespêro e tranquei o pensamento pra fora da minha mente. Toda vez que pensei em você meu mundo ficou negro, e quis chorar. Toda vez que ouvi de você, gritei em minha mente para abafar os urros dessa ânsia que não me deixava respirar. Tentei, com todas as forças, fazer minha vida fazer sentido sem você. Tentei me convencer de que sua história podia prosseguir sem mim. Tentei fechar meus ouvidos para qualquer traço de você, com mêdo da dor lancinante que me causava qualquer notícia sua. Chorei: chorei copiosamente, sem conseguir sequer enxugar as lágrimas. E nunca parei de sonhar com você.

Quando te perdi, sentei e olhei a noite, magoada,
pensando em todas as promessas que fizemos e que não iríamos cumprir,
pensando em todas as aventuras que não poderíamos fazer.

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Mais um capítulo na minha epopéia

Este capítulo vai ser um apanhado de pensamentos que me ocorreram ao longo do dia:

I

Embora eu tenha decidido há muito tempo não fazer Design, por todos os lado que eu via o problema eu chegava sempre à conclusão de que ainda era aquilo o que eu queria ser e fazer, o que era o mais legal, a minha essência. Eu olhava os problemas com olhar de designer, eu olho para o mundo com esse olhar. Eu defendo o design contra todos os ataques e insisto que ele é o mais importante. Eu sempre achei que o problema não fosse o tema em si, mas o método do curso, e que no fim eu ia acabar voltando, quem sabe com um diploma ou dois, para acabar me tornando Designer.
Nos últimos dias isso vem, lentamente, mudando. Não sei que mudança é essa, nas minhas prioridades e nos meus desejos. Nos últimos dias eu tenho sentido um interesse pela física, pela química e pela biologia que eu não sentia desde o colegial, quando eu cogitava me tornar cientista. Eu tenho desejado aprender com tanto fervor quanto naquela época, e não apenas para me tornar algo maior, mas também pelo puro interesse pelo conhecimento. De repente tenho ficado em dúvida se o mais importante é salvar o mundo, trabalhar no mundo, ou antes de tudo compreendê-lo.

II

Como disse no ítem anterior, no segundo colegial eu passei por uma fase em que Física e Química me pareciam os cursos mais empolgantes. Eu queria conhecer o mundo, queria estudar matemática, queria trabalhar em laboratório e enxergar trocas de energia em tudo o que eu visse, pois é. Por muitos anos depois disso lembrei dessa empolgação como um deslize, uma paixão passageira por uma coisa que pra mim era um hobbie, uma diversãozinha que eu podia praticar na escola, um jogo para jogar com os amigos. Não: eu queria mesmo saber de tudo, perguntava para os professores sobre as folhas anômalas da grama, fazia anotações sobre os insetos, tentava imaginar as fórmulas dos ingredientes do shampoo.

Esses dias minha mãe me disse que naquela época ela achava que eu ia fazer Física, que ela nunca entendeu por que eu fui fazer Design, e aí meio que tudo voltou com tudo, todas as questões daquela época, como Design tinha me parecido a mistura certa de ciência e arte (que ingenuidade a minha, não?), como ciência e arte eram próximas para mim e como na verdade eu queria descobrir mais sobre o mundo antes de poder mudá-lo com minhas próprias mãos! Eu não lembro de como foi começar a faculdade, mas deve ter sido mesmo terrível pra mim; eu lembro da empolgação de estudar Fotografia, Desenho, história do design, editoração, técnicas visuais (sim, o curso do SENAC me empolgava bem mais que o da FAU), história da arte (que eu tinha esperado a vida toda pra estudar), técnicas de gravura, e... Bom, não sei se tinha mais.

Hoje tudo me parece uma decepção tão grande, eu descobri que não ia ter cálculo nem física, parei o SENAC com todas as suas matérias legais, não houveram mais aulas de técnicas no Design, as aulas de ergonomia eram um saco, eu acabei não aprendendo o que eu queria aprender e aprendendo bem mal o que eles achavam que eu devia aprender. Mesmo assim, naquela época eu culpava minha má interação com os colegas e veteranos, minha falta de hábito de estudar, o choque de perder o jantar com a família (acho que acabei perdendo minha família nessa), minha dificuldade de interagir com a burocracia (e minha timidez de modo geral) — enfim eu julgava que se eu crescesse, amadurecesse e aprendesse a ser como eles, tudo ia se encaixar magicamente; eu achava que só dependia de mim.

III

Hoje eu percebo o quanto eu senti falta da pesquisa — esse espírito de procurar, de investigar, de modelar e imaginar possibilidades, de construir: como isso falta! O conhecimento associado ao Design deveria ser uma Tecnologia. Assim como ao longo dos séculos se desenvolveram novas estratégias de Go, ao longo do tempo mesmo os materiais e técnicas antigos podem ser reinventados em processos e produtaos novos! Se houver um esforço de reunir o que já foi feito e construir em cima disso, quão longe podemos chegar? Talvez nada longe, visto que existe um mercado imortal do design ruim (aliás, sempre me pergunto como essa persistência do ruim funciona). Mas talvez muito longe ainda assim! Queria que meu curso tivesse menos projeto e mais estudo, que aprendêssemos uma enorme variedade de técnicas e os detalhes de cada uma delas, para que soubéssemos o que estamos fazendo quando projetamos. Design não é apenas Método! Não quero de forma nenhuma fazer o curso Deisgn FAUUSP, mas ainda acho possível que eu volte para fazer uma pós, um mestrado ou doutorado em design ^^

IV

Enfim eu lembrei que um dia eu quis com muita convicção fazer Física, e fiquei imaginando que coisas estranhas poderiam ter acontecido se eu tivesse feito essa opção. Será que eu teria vários amigos Físicos, conheceria toda a USP e teria tido um primeiro ano feliz? Será que eu teria me dado bem com os físicos que são meus grandes amigos hoje? Talvez isso tivesse sido ótimo, ou talvez fosse péssimo, não dá pra saber. Mas agora não importa muito, eu acho. Esses três anos não foram em vão, eu aprendi muita coisa neles, embora talvez eu tenha me tornado muito menos do que eu esperava.

...
... Acho que tudo está bem quando acaba bem.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Template II

Este template tem um subtítulo bizarro.

Eu descobri rapidamente que não suporto aquele modelo da Toca por mais que ele seja lindo. Vi que tinha este outro guardado aqui e resolvi experimentar. Obviamente ele é muito, muito mais alegre que o anterior. Não lembro em que época da minha vida eu usei isto. É estranho.

O que eu gostava naquele template "ashkar zbol" (que é um template de luto, não se engane) é que os links visitados desapareciam. Eu achava isso extremamente bonito. Claro que era um problema se você quisesse acessar um mesmo site duas vezes, mas acho que era um problema fútil que se compensava pela beleza dos links entremeados de vazios. Durante algum tempo eu inclusive escrevi em preto sobre preto. Foi uma época triste, mas bela. Fiquei feliz quando acabou, quando pude mudar de blog, de nome, de vida. Por algum tempo tudo foi muito diferente.

domingo, 13 de dezembro de 2009

Template

Este template tem um subtítulo muito mais legal.


Eu estava editando umas coisas no meu blog e decidi ver o que acontece se eu retornar ao modelo antigo da Toca da Lôba. Foi uma esperiência muito estranha. O mais estranho foi reparar como o jeito como eu escrevo e a configuração dos meus textos não faz mais sentido com esse template antigo. Quando leio os textos antigos que ainda estão na Toca, acho tudo muito lindo. Até os nomes dos posts nos Ecos se encaixam de uma forma interessante. Mas quando aplico o template a este Blog, não faz sentido. Tenho notado que muitos dos meus posts antigos também só ficavam agradáveis de se ler no template original em que foram compostos. É curioso entender como essas coisas fazem diferença. Acho que eu entendo porque eu mudei de template.

Também é meio engraçado notar os links como estão diferentes! A maior parte desses lugares aí nem existem mais! Alguns deles já haviam deixado de fazer sentido havia muitos anos quando eu abandonei esse template. Curioso. Também é curioso que eu só tenha tido vontade de guardar dois dos muitos templates que criei para a Toca. Mostro o outro quem sabe semana que vem. Nem sei como ele é! E depois vou voltar ao que estava antes, que apesar de tudo faz muito mais sentido hoje em dia.

Nota: este template usa os comentários do haloscan, não do blogger. Preciso dar um jeito de fazer com que os dois apareçam num mesmo template, mas ainda não sei como. Agora, não dá para ler os comentários feitos ontem por exemplo. E quando eu voltar para o modelo normal não vou poder ler os comentários feitos hoje.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Eu sou uma pessoa constante

Eu estou aplicando os marcadores do blogger aos meus posts antigos. Queria fazer isso faz tempo, mas sempre soube (ainda sei) que dá um trabalho do capeta, por isso não tinha feito ainda. Criei muitos marcadores, mas não foram exatamente suficientes porque nem tudo pode ser classificado, e tal. Além disso havia coisas que eu não queria agrupar, como todos os posts depressivos, imagina?

Enfim, um dos posts era esse resultado de quiz sobre mim:


You rank up there with your seduction skills, though you might not know it.
That's because you're a natural at seduction. You don't realize your power!
The root of your natural seduction power: your innocence and optimism.

You're the type of person who happily plays around and creates a unique little world.
Little do you know that your personal paradise is so appealing that it sucks people in.
You find joy in everything - so is it any surprise that people find joy in you?

You bring back the inner child in everyone you meet with your sincere and spontaneous ways.
Your childlike (but not childish) behavior also inspires others to care for you.
As a result, those who you befriend and date tend to be incredibly loyal to you.


Três anos depois, ainda acho que essa resposta tem tudo pra ser verdadeira. É claro, eu teria que perguntar pra eles pra saber a verdade ^^

Enfim, como será que eu vou marcar este post?

domingo, 12 de abril de 2009

Sobre mim

Agora há pouco eu meio que estava relendo uns posts antigos do meu blog. A princípio pra ver se tinha qualquer poema que prestasse aqui. E também para verificar umas alterações de layout. É confuso tentar manter os posts coloridos quando se muda as cores do layout.


Eu acho estranho ler esses textos antigos. Estranhos pra caramba.
Acho triste ler os de 2007, 2008, porque nunca sei do que eles estão falando, e, quando sei, não é coisa boa.
Acho perturbador ler os de 2006, porque eles são dolorosos, apaixonados, cheios de cilpa e segredos, de pecados, de tentativas de libertação e afinal de uma liberdade insegura. Mas eu me identifico com essa pessoa de 2006. Acho que ela se parece muito comigo.
Acho confuso demais ler um texto de 2005... confuso mas delicioso, porque no início de 2005 eu já estava apaixonada por todos os garotos e você pode ver nos textos como eu me sentia em relação a cada um deles... e também porque, incrivelmente, apesar disso eu estava completamente feliz. Mais pro meio do ano, as coisas estão mais difíceis e os textos estão repletos de emoção e aventura, conforme os conflitos (a respeito de garotos, mainly) vão se fazendo representar por cenas épicas de cavaleiros, monstros, demônios, anjos, criaturas místicas, batalhas, animais selvagens, gatos, pégasos. Ou pelo menos eu consigo ler isso, hehehe. 2006 tem um pouco disso também. Mas não me identifico muito com a infantilidade, o cansaço e o desespero que transparecem nesses textos. Mesmo então, suspeito que eu estivesse me divertindo mais do que podia demonstrar (não que eu mentisse nos posts — mas eu em geral escrevia apenas quando movida por sentimentos exageradamente intensos).

Mas o mais estranho é ler textos de 2004. Os textos de 2004 não têm uma unidade clara. Como muita, mas muita coisa mesmo aconteceu nesse ano, a impressão que dá é que a autora era esquizofrênica (obs.: don't sue me, squick). A parte mais estranha é ler os textos de amor (que são a maioria, por razões óbvias: eu tinha quinze anos nessa época). Eu tinha quinze anos e estava vivendo o meu primeiro amor de verdade. E tudo o mais girava em torno disso. Nada mais tinha a menor importância. Eu estava louca e me sentia já metade de dois (diferente de um), e me lembro realmente de agir como metade de dois, aliás, eu me lembro de tudo, todos os momentos, todos os carinhos, as partes confusas, as partes boas, tudo. Para mim não faz o menor sentido.

Não consigo me identificar com aquela pessoa. Pra mim parece estranho ter sentido aquelas coisas por aquelas pessoas. Quer dizer -- eu ainda adoro o Yuri e até hoje acho ele um gato (:þ -- mas ele é mesmo), mas me parece meio surreal a gente ter vivido juntos todas aquelas maluquices, aquelas viagens, aqueles erros óbvios, aquelas idéias doidas, que hoje em dia eu nem sonharia ter. Parece tão estranho ter sido tão infantil! Eu não me lembro de ser assim, nem antes, nem depois. Acho que só naquele primeiro ano de amor e loucura foi assim, mesmo. Depois ficou difícil demais pra tanta inocência. E antes também. Mas... acho que era bom. Muito bom. Até porque eu dizia em meus escritos que eu vivia em dor e escuridão antes de "te conhecer". Essa é a parte mais estranha de se ler. Estranha porque eu parte eu sei que é verdade, e emparte eu sei que é mentira. Estranha também porque eu me sinto assim hoje em dia, eu tenho vontade de usar exatamente as mesmas palavras, mas tudo, absolutamente tudo, parece diferente — inclusive as partes iguais.

Eu meio que não consigo evitar ler todas essas coisas como um complexo e sujo relato da minha viagem por uma porção de homens (pelo menos oito — mas posso contar uns dezessete (#%*) se for realmente precisa) até chegar à libertação. Posso até dar nomes para eles:

o Primeiro Mestre
o Namorado
o Grande Mestre
o Parceiro
o Inalcansável
o Colega-Modelo
o Encontro Casual
o Amigo

Ok, agora que eu escrevi isso eu me sinto muito idiota por ter escrito isso. Mas ainda faz muito sentido. Eu poderia preencher as lacunas com

o garoto da escola
o absurdo
o amigo irmão
o beijo sem importância
os amigos-do-amigo (2)
o abraço sem compromisso
o que ganhou uma chance
o vizinho

Mas seria difícil tirar o sentido disso
Não sei porque eu faço essas coisas
Porque eu penso sobre isso
Mas é que pra mim o sentido é muito importante
Eu só estou tentando encontrar um sentido.