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terça-feira, 8 de abril de 2008

Despedida

"Seus olhares se encontraram através da superfície da água, que era como um espelho..."


Preciso parar. Desistir. Abandonar.
Preciso enfrentar a verdade e a solidão, se pá.
Mas aqui é como um poço muito profundo que eu cavo, cavo e não chega a lugar nenhum. E continuo cavando. Cavo quando estou feliz para que a água se torne mais funda. Cavo quando a água se esvai para procurar água. Quando cavo às vezes encontro água e às vezes permito que a água se esvaia. Fico sozinha às vezes. no fundo do poço, pensando.
Às vezes olho para cima, e é pior. Vejo tudo de baixo. As camadas de terra que atravessei. Detesto sentir e lembrar tudo aquilo, que antes era tão importante e agora é tão vazio. Não estou mais nas profundezas. Não há água no fundo do poço. Quero me distanciar de tudo aquilo e continuo cavando. Quero encontrar água e nela mergulhar.
O mundo aqui é úmido e escuro. Continuo cavando para baixo mas não percebo se me desvio, se sem querer estou cavando mais para a direita ou para a esquerda. Não tenho consciência do caminho que percorri, e de nada adianta.
Grito às vezes. Mas não consigo ouvir a resposta. Quando encontro algo enterrado, jogo-o para fora do poço, para mostrar aos que estão lá em cima, ou deveriam estar. Mas imagino que não haja ninguém lá em cima (talvez todos estejam dentro de seus próprios poços) porque os objetos curiosos se acumulam ao redor da abertura formando uma muralha de abandono ao meu redor.

Quero sair. Quero sair. Tento escalar as paredes, mas dói terrivelmente voltar pelo caminho que percorri. O cheiro das camadas de terra que um dia escavei me dá náuseas, e sempre acabo caindo de volta no fundo do poço. E quando caio o desespero me invade e preciso cavar, preciso cavar, e quanto mais cavo, mais fundo fico, mais longe. Não sei para onde estou indo, e a escuridão é cada vez maior. O pedaço de céu que consigo enxergar é cada vez mais estreito, e às vezes, à noite, chego a duvidar de sua existência. Quero sair, quero escapar; mas nenhum caminho é possível.

Preciso parar.
Preciso esquecer.
Quem sabe se eu fechar os olhos e realmente acreditar que nada disto existe;
quem sabe se eu realmente abandonar essa existência e parar de acreditar em tudo que aprisiona e que dá mêdo;
quem sabe? Talvez seja possível escapar.
Talvez todo o cenário desapareça: a terra úmida, com suas camadas; o poço onde não há mais água; as pilhas de coisas lá fora que pareciam legais, mas a que ninguém deu bola, e que se tornaram paredes também. Se tudo desaparecer, talvez eu alcance aquele pedacinho de céu que consigo enxergar aqui de baixo.

Preciso abandonar.

quinta-feira, 3 de abril de 2008

Não sei você

mas eu cansei de ser só eu
cansei de não saber seu nome
e de onde vem


Não sei, você,
parece que acha às vezes que é tudo muito fácil,
coisa que adoro e odeio.
Você, não sei, parece
que acha que eu sou pra sempre
que não tem perigo nenhum
Você, talvez, não vê
Há perigo em todas as ruas
detrás das esquinas há monstros
E eu, a manhã me devora,
e eu, amanhã; amanhã...
É que o mundo é uma reta, porém
o mundo dá voltas.
Nãe sei, você,
sei lá, parece
que acha que entende as coisas
mas sabe que não sabe nada
e quando não sabe, talvez, parece que finje
então parece que quando quer saber, ignora
Os monstros não devem ser ignorados;
e há perigo em todas as ruas,
como você sabe...
Há coisas que sobre as quais não poderemos passar.
Não sei, parece
sabe?
Você, quando não sabe a resposta
age como se não houvesse resposta
age como se já tivesse a resposta
Age como se não houvesse pergunta
e eu, amanhã, amanhã...
Sem querer, vou embora.
Amanhã amanheço, e você?
Sem você, vou embora
e você me segura e me diz
sem querer...
sem querer?

Sem querer te devoro e te expulso e te choro e não quero!
Já cansei.
Essa dança.
Já dancei; e et cetera.
Você, não sei, parece que sempre espera algo diferente; será?
Parece que acha às vezes que é tudo proposital.
Você é a voz do mundo, não faça
não, por favor, não faça o papel do mundo
nesta peça de você e eu
Não seja a cara do mundo
Não faça parte do mundo
O mundo é feito de ruas
perigosas.

Tudo bem com você? Onde dói?

sábado, 29 de março de 2008

...

The devils, they burn inside of us... are we ever gonna com back down?

O Espectro do meu Sonho em Mim

Apavorado acordo em treva...


E ontem foi um dia longo e estranho. E hoje, não sei, sinto algo que se parece muito com culpa. Não fiz nada de errado, então por quê?

Apavorado em treva acordo o mar,
sonâmbulo, patético e sem fim,
e há um manto em luz de prata a lhe velar.
Esse é o espectro do meu sonho em mim.

Ontem esperei o intervalo fora da aula, querendo dormir. E fui acolhida por funcionários preocupados. E dormi ao invés de astudar francês. E passei boa parte da tarde pelos cantos. Mas isso esqueci. Tudo isso esqueci.
Ontem discuti minha idéia de jogo com o Charles, que foi honesto de uma forma gostosa e doída. Ele me acompanhou enquanto eu fazia um trabalho, e depois se despediu, com um beijo. Mas isso eu deixei para trás. Tudo isso ficou para trás.
Ontem não me manifestei durante a aula. Ouvi e fiz um comentário, mas de certa forma me escondi. Mas isso não prendeu-me ao chão. Nada disso me prendeu ao chão.
Ontem a música tocou e fiquei indo e voltando, indecisa, procurando, evitando amigos com outros amigos e cantando baixinho a música que me fascinava. E quando a Tarsila chegou, usei seu celular para pedir permissão para ir a um bar, para o qual fui no carro dela, e onde não paguei nem uma cerveja. Será que foi isso que me aprisionou?

Não. Suspeito;
o não-pagar já se tornou rotina,
e não estou dizendo que maus costumes não doam dobrado,
mas de qualquer forma eu vou pagar,
e o que estou sentindo;



O que estou sentindo não é real.



Meu deus (eu nem acredito mais em Deus), ontem eu devo ter ficado muito bêbada para justificar o tanto de absurdos que pensei.
Não os que falei. Só o que pensei.

Sou o mar! sou o mar!...


Suspeito que essa sensação estranha, esse sentimento que parece culpa (mas por quê?), bem, suspeito que não tenha vindo do bar, mas do sonho.

Não sei porque um sonho me faria me sentir culpada, mas sinto que há algo maior nesse sonho
que não consigo pegar...
Haviam muitas mesas de jantar... Logo ao lado meu irmão jogava um jogo de video-game muito divertido num telão, e nós assistíamos. Meu primo Max havia vindo numa barraca e eu como não tinha onde dormir ia dormir com ele na barraca. Ele me abraçava protetoramente, e eu tentava dormir no colo dele enquanto assistíamos o Marco jogar videogame. Nas mesas de jantar estava toda a família — tios, tias, tias-avós, filhos de tias-avós, meus pais, minha irmã (ou será que ela assistia o videogame conosco, encostada na parede mais distante?), minhas primas Giulia e Carol, Meus primos mais velhos, minha avó Celma... Vovó sorria mais jovem do que eu me lembrava, e me dava alguma coisa (ela sempre me dava alguma coisa... este casaco verde-limão... este anel de brilhante... aquela ameixa preta que nunca parei de comer.) e minha tia ria enquanto contava alguma coisa de sua vida. Estava tudo certo, mas eu não sentava na mesa com todos eles (acho que só adultos sentavam na mesa) e eu tentava dormir, rolando para fora do abraço do meu primo (incrível que ele não deixe de ser meu primo, depois de tantos anos), eu tentava dormir longe, haviam três colchões e eu trouxera roupa de cama, eu tentava dormir para não pensar, haviam três colchões de ar como o que eu comprei a caminho do bife, eu... Talita me acordou, e eu estava pensando.

Demorei alguns segundos para interromper o raciocínio de sonho. Sentia uma forte vontade de ver meu primo (não nos vemos há vários anos). O sol entrava pela janela, e havia trabalho a fazer. Pensei na noite anterior, no bar, no sabor da cerveja, nas pessoas que conheci, nas pessoas com quem muito conversei, em como me diverti — mas não parecia nem um pouco divertido. Me arrastei então pela casa, meio sonho, meio gente; havia trabalho a fazer e a diversão de ontem desapareceu do meu peito, dando lugar a esse sentimento esquisito, parecido com culpa.

Quando a gente sonha, a gente tem consciência?

sexta-feira, 28 de março de 2008

Como ser aprendiz

"Aquilo que em mim sente está pensando" - Fernando Pessoa

Aprender é difícil. Aprender é delicioso, como criar. Freud falava em orgasmo e criação, mas os árabes falavam de comer, dormir, amar e conhecer. Intuo que os árabes sejam significativamente mais sábios que Freud. Intuo, aliás, que Freud não seja tão sábio assim.

Aprender é em parte confiar. Difícil é confiar. Confiar implica respeitar, e respeito implica reconhecimento. Conhecer de novo, à procura do conhecimento real. Respeitar não significa admirar incondicionalmente ou de forma acrítica. Respeitar não é estimar. Não é possível respeitar alguém pondo-o num pedestal. Respeitar implica, acima de tudo, reconhecer.

Confiança implica conhecimento. Confiar em alguém é saber do que essa pessoa é capaz. Confiança tem como pré-requisito o respeito. Respeitar, quase sempre, requer ser respeitado.

Estou falando tudo isso por causa da aula de hoje, e de tudo o que veio antes dela. Por causa do Agnaldo falando do Miguilim e ficando todo arrepiado. Ele estava a menos de um metro de mim e eu vi claramente os pêlos do seu antebraço se eriçando enquanto seus olhos brilhavam falando de Miguilim pondo os óculos. É tão difícil, sabe? encontrar alguém tão apaixonado, alguém... tão deslumbrado, tentando (vê-se) abrir mais e mais os olhos para ver aquilo a que a razão não basta.
É por causa disso (principalmente) que gosto do Agnaldo. Gosto de tê-lo como meu professor. Admiro sua clareza de pensamento, sua eloqüência, mas acima de tudo sua admiração perante os grandes artistas. Sua exaltação. Se eu tivesse ainda quinze anos, me permitiria apaixonar-me por ele. Percebo isso talvez porque não tenho mais quinze anos.

Ele não me admira. Ele não me ajuda nem me elogia. Ele não me superestima nem me subestima, e nisso está a maior parte do meu respeito por ele, como professor. Descobri que não consigo gostar demais de ninguém que, sem me conhecer a fundo, goste demais de mim. Isso é desrespeito. Respeito é procurar ver realmente. Respeito é decoro, é tratar as coisas como são, já que estávamos (lembra?) falando de hybris. Embora eu perceba que o professor provavelmente não sabe meu nome, fico feliz, talvez tolamente, por ele me tratar pelo que sou, sem erros. Respeitar é trilhar o próprio caminho, e não o dos outros.

quarta-feira, 26 de março de 2008

Delusion

Uma revoada de pombas brancas voa sobre nós através da névoa.


Angels and Devils
Dishwalla




This is the last time
that I'm ever gonna come her tonight
This is the last time -
É impossível não sentir dor. É impossível não temer. Será igualmente impossível não sentir amor?
- I will fall
into a place that fails us all -
Tenho pensado tanto, e tanto querido, que mal me sobra tempo para amar. O mêdo inclusive sobrepuja o querer amar. O medo e a preocupação. Hoje até me peguei querendo pensar que não estou à procura de amigos e conseguindo apenas segui-los através do ar cada vez mais grosso. É como se eu não quisesse mais. Amo-os, e é tudo. Me peguei pensando também que não acredito em quase nada do que fazemos de design gráfico. E que nunca serei uma boa designer. Mas talvez. Maybe this is the last time I will fall into that place that fails us all
- Inside



Well, I can see the pain in you
And I can see the love in you
but fighting all the demons will take time
Por dentro coleções de corpos,
Máscaras vazias.
Que se erguem por vontade ou necromancia
Que sorriem por alegria ou por maldição.
It will take time


Meu Deus.
E eu nem acredito mais em Deus. Assim, desse jeito. Não sei. Fé, comunhão, todas essas coisas. O futuro está aí, nós estamos em outro lugar. Como você disse, antes do começo. Como eu imaginei, morrendo e renascendo, lutando pelo melhor útero, mas nem tanto assim. Porque derrotar nossos demônios leva tanto tempo, que parece não valer a pena. But I can see the pain in you.
The angels they burn inside for us
Fiquei imaginando coisas, deliciadamente.
Haveriam bibliotecas e fazendas, e não seria preciso lutar para subir de nível.
Humanos seriam desequilibrados, e haveriam raças secretas.
Seria possível escrever livros, revelando segredos.
E romances, é claro, dariam experiência.
Afinal, o que seria de mim sem romances? O que seria de nós?
Are we ever
Are we ever gonna learn to fly?
Romances, como sonhos, são muito mais importantes para o aprendizado do que é reconhecido. Nós é que... desconfiamos demais da realidade. Nós é que não temos fé em nossos mestres. Nós é que queremos matar nossos pais.
Mas depois nossos pais deixam de ser nossos pais eles ainda são nossos mestres, nossos amigos, nossa responsabilidade. O problema é que nós dificilmente deixamos de ser seus filhos. And I can see the love in you.
The devils they burn inside of us
Are we ever gonna come back down -
Por dentro, sempre por dentro;
quando na verdade o que aflige é o que está por fora, e que é tão forte que fere
que fere com um punhal
dentro nossos corações...

Tremem..
- come around?


Imaginei caminhos a serem seguidos, bons e maus, fáceis e difíceis, absurdos e sensatos.
Imaginei mestres e aprendizes. Mães e nascimentos. Órfãos. Vidas. Números.
Imaginei um coração jogável, como eu sempre quis, maior e mais ambicioso do que um simples jogo. Baseado como sempre na eternidade versus a satisfação imediata. Os dias seriam horas e anos, bem, seriam anos. Apenas muito, muito longos. E o tempo seria contado em meses, como se todos fossem sempre, sempre bebês.
I'm always gonna worry about the things that could make us cold...


E vou imaginar mais, imaginar com mais vontade e mais fervor, dar mais voltas no vazio e chegar cada vez mais longe na minha obcessão que agora parece tão criminosamente infrutífera. Porque imaginar é vencer. Imaginar é não sucumbir. Imaginar é reter (em forma líqüida) aquilo que o mêdo e a responsabilidade tentam arrancar de mim como se fosse, talvez, contraproducente.
This is the last time
Imaginar é descer para a terra e inevitavelmente ascender, não aos céus, mas ao Universo; ascender e compreender como um Deus com um microscópio, que a árvore vem da flor, que a pele é uma malha de células; que as moléculas vêm dos átomos, que são mundos feitos de quarks, e que nada disso passa de um intrincado sistema de energia-matéria, que, sendo uma, são Tudo.
That I'm ever gonna give in tonight
Imaginar, talvez... é escapar.
Are there angels or devils crawling here?
E se for possível não se render, e viver a partir daquilo que também dá sentido à vida? E se for possível fazer desse mundo um mundo em que não apenas eu viva? E se um dia tudo o que foi desperdício se tornar aprendizado, e tudo o que foi aprendizado se tornar desperdício?
I just wanna know what blurs and what is clear -
E se?
- to see!

terça-feira, 25 de março de 2008

À vida, porque viver non necesse.

...the lines drawn on your hand...


Hoje estendi meu feriado para ir ao aniversário do meu primo de um ano. O primeiro aniversário. Primeiro de toda uma vida. Para mim ainda é estranho, quatro anos depois de o Ennzo nascer, ainda é estranho ter primos tão pequenos.

Mamãe não entende a estranheza porque para ela a vida foi uma grande constante. Não para mim. Passei tempo demais sem notar que as pessoas mudavam. Passei tempo demais sem me dar conta. Mas agora vejo claramente; agora o véu se afasta e o tempo me encara nos olhos, sem sorrir, mas também sem rosnar. Agora é a hora de nascer de novo; agora é hora de crescer. Tenho agora consciência, como nunca tive, das gerações. Agora uma nova geração de crianças nasce e cresce, e elas criam suas personalidades, e riem e choram, e aprendem, e em breve Ennzo e Bruno se tornarão rapazes, e terão suas brigas de irmãos, suas disputas, suas alianças. Eles crescerão e aprenderão aquilo que aprendemos, e outras coisas além. Eles terão melhores amigos e namoradas. Eles irão ao cinema e aprenderão a beber. Agora eu entendo, como não podia entender quando me apresentaram aquele bebê gordinho, três anos atrás. Alice aprenderá a engatinhar e balbuciará o que poderão ser palavras. Ela se apoiará nas coisas e nas pessoas para ficar de pé, e ficará feliz quando conseguir. Talvez essa seja a metáfora da vida do Homem. Nós nos apoiaremos nas coisas e nos outros para ficarmos de pé, e só estaremos felizes quando conseguirmos imitá-los.

Mas não é só isso. Minha irmã também crescerá, sairá de casa, se casará. Ela terá filhos que também aprenderão a andar, e seus filhos serão tão diferentes uns dos outros quanto nós somos diferentes; quanto Mamãe é diferente de seus irmãos; quanto Vovó é diferente de suas irmãs. Os velhos morrerão, talvez, e os jovens sofrerão (porque jovens sempre sofrem), e os adultos lutarão para serem o que sempre foram. E novas crianças nascerão, e suas risadas nos farão sorrir aquele sorriso exagerado, e as histórias delas serão contadas anos depois... Agora eu entendo.
Entendo que presente se criará através do passado, que se tornará dor e delícia nas nossas presentes lembranças. O grande sonho de criar uma família de muitas gerações, em que a história de antes precede a história de hoje, e todas são uma só e todas são importantes, se realizará. Será possível então lembrar daquilo que foi antes. Tudo aquilo que dói agora, também, se tornará parte da história. O mundo, pitoresco e completo, se realizará.


É esse o sentimento.

The journey, it mirrors... the journey, it mirrors...

É esse o sentimento!

...the lines drawn on your hand...

quinta-feira, 6 de março de 2008

Le Démon de Minuit

"Os dois me queriam, e eu, por pura loucura, fiz um sorteio."


Por dentro vidas vazias,
Máscaras quebradas.

Queria apenas dizer que hoje lendo um livro
O livre de Hervé Bazin chamado O Demônio da Meia-Noite
tive de recorrer ao dicionário para entender uma das muitas metáforas (muitos diriam que são excessivas)
afinal como forçar-se a lembrar com clareza o que representam os signos montante e jusante?

Estou perdendo de novo a noção dos dias e de novo as coisas começam a parecer difíceis.
Mas tenho fé em alguma coisa.
Não sei bem. Procuro ter fé. Tenho a boca sêca.

Percebi hoje que minto pra mim com a perfeita consciência de que estou mentindo. Sei o quanto é ridículo, mas me compreendo, assim. Para que possa finjir para os outros. Covardia, talvez; mas quem realmente teria coragem de existir plenamente no mundo, diante da sociedade? O tipo de covardia que inclusive se esconde e se justifica. Às vezes murmuro para mim mesma, sem nenhum motivo, sem saber se é real ou mentira: não quero finjir. Não vou finjir que estou à vontade, que me sinto tranqüila, aceita, segura. Não vou finjir que tenho interesse em que e em quem não me interessa. Será? Não tornaria tudo ainda mais duro, esta decisão ao mesmo tempo valente e pateticamente covarde? Não tornaria mais duro finjir, eventualmente, que não me interesso, quando me interesso por que a que não interessa meu interesse?

Estou perdendo a noção das coisas, esquecendo o que eu já sabia. Sinto que tudo o que sei é inútil, que o que deveria saber, não sei. Tenho preguiça das coisas e uma ânsia curiosa por me exaurir. Estou preocupada com meus limites físicos, mas o que mais me desespera é sentir minhas limitações intelectuais. Percebo agora que o peso da farsa que eu carrego há tanto tempo apenas aumenta com o passar dos anos. Por dentro, às vezes odeio todos aqueles que me admiraram um dia, e que mal me conhecem. Às vezes sem querer sinto uma raiva que envolve as imagens de todos os personagens da minha meta-infância. Sinto raiva da minha capacidade de escrever sobre isso. Não quero desabafar. Quero sair.

sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

Across the Universe

Olho para Sebastian, correndo atrás de mim com seu brinquedo pingando baba. Será que algum dia poderei amá-lo?



Encarava o monstro diante de mim. Ele não era feio. Não era mau. Só era velho e forte e irascível. Eu encarei o monstro, mas por pouco tempo. Depois, saí correndo. Saí correndo e me perguntei por que quisera encará-lo afinal. Saí correndo e me escondi nas sombras. Mas ele veio atrás de mim.

Às vezes, pra ser sincera, gosto de pedalar até a exaustão, e depois pedalar de volta, apenas para ficar tão cansada que isso se torne a única coisa que importa. Você me perguntou o que faz sentido, e isso é uma coisa que faz sentido: descansar, quando se está cansado.

Hoje quando Flor veio pedir meu colo, reparei que sua testa estava, na parte que deveria ser branca, rubra. Quis cuidar dela, mas ela não deixou. Ela está certa. Limpar a ferida agora faria pouca diferença. Há muitas outras feridas debaixo do pêlo. Eu quero proteger minha gata, mas não sei o que posso fazer.

Você entende?

Outra vez, eu encarei o monstro, lutei contra ele, sacrifiquei tudo o que podia sacrificar para dominá-lo. E quando o vi ferido, caído no chão, me afastei, cansada; voltei ao meu mundo sacrifeito. Acreditando-o victo, o mostro meu inimigo. Ai.
Me envergonha, até, crê-lo meu inimigo. Mas lutei, lutei e então parti. Mas não estava ele morto. E quando saí de meu catre, o monstro exibiu as presas; o monstro me abocanhou. Só por magia não sucumbi. Desde então, não ouso encará-lo, mais.

Também gosto de acumular tarefas e de executá-las todas no mesmo dia, de preferência emendando-as sem pausas. Hoje, por exemplo, foi assim, apesar de minha tarefa #1 ter sido adiada para amanhã e de eu ter me exaurido completamente durante a tarefa #3, o que me fez desistir da tarefa #4, que de qualquer forma ia ser bastante complicada.
Acho que o objetivo disso é não ir para casa, e não ter que esperar. Se eu passar o dia inteiro fora de casa, fazendo coisas, não vou desperdiçar nenhum minuto do meu dia. E vou viver esse dia como eu quiser, livre, independente. Estar a céu aberto também me deixa mais forte. Isso, e estar longe.

Em geral, o que mais facilmente faz sentido são as coisas simples: o mêdo, a fome, o calor do sol, o cheiro do mato. Há também coisas menos simples, mas indiscutíveis... como a ternura que desperta um bichano adormecido, ou o amor de um cão pelo seu dono. Há coisas essenciais, como respirar, como sentir a si mesmo... sentir o outro também. Há coisas revigorantes, como enxergar uma imensa paisagem, como ver o horizonte. Há as que dominam nossos sonhos, nossos desejos, nossas nossos objetivos, antes e depois de as experimentarmos... para mim, coisas como velejar e cavalgar. E há coisas fundamentais, como trabalhar. Work hard, work worth doing.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

A campina

Um sussurro, apenas; mas um sussurro sincero.



Era noite. Lua e estrelas sobre um vazio aéreo. Um bimotor cruzava o céu lentamente, e era com os ouvidos muito abertos que ela escutava o ressonar do monstro no horizonte. A paisagens era vazia. Uma grande campina no meio de lugar nenhum. Os antigos haviam chamado aquilo de Ass'marin, e ela usava a palavra imensidão. Os antigos haviam morrido, haviam sido enterrados, e ela usava a palavra Perdição. Para honrá-los, talvez. E ao longe o tambor abafado dos cascos de um velho cavalo.

Era noite. Muito longe era possível ouvir o rumor das ondas como uma respiração. Uma rajada de leões emboscando uma única presa, chamada O Mundo. Um vento perdido varria a distância e trazia-lhe o cheiro do sal. Se ouvisse com muita atenção, talvez, um marinheiro gritando. Uma gaivota. O vento, incessante, espalhava um cheiro de relva, que estava em todo lugar. Havia um buraco amassado no mato onde ela estava. Sinal de uma manada que passara talvez a tarde ali. Uma manada de búfalos vira o Sol se pôr.

O campo era imenso, tanto que parecia um segredo. Deviam haver predadores terríveis à espreita na relva. Presas e garras esperando dar uso a um estômago vago. Haveriam também cavernas, árvores, riachos, escondidos bem como os leões para que o olho incauto não os notasse? Haveriam rochas, e até colinas? O vento ondulava a relva, talvez ajudando a esconder o mistério do umbigo do mundo.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

Another book ends


" Highway 66 is the main migrant road. 66 - the long concrete path across the
country, waving gently up and down the map, from Mississippi to Bakersfield.
66 is the path of people in flight, refugees from dust and shrinking land, from
the thunders of tractors and shrinking ownership, from the desert's slow
northward invasion, from the twisting winds that howl up out of Texas, from
the floods that bring no richness to the land and steal what little richness is
there. From all of these the people are in flight, and they come into 66 from
the tributary side roads, from the wagon tracks and the rutted country roads.
66 is the mother road, the road of flight. "

John Steinbeck


Hoje terminei, alguns anos depois, o livro As Vinhas da Ira. E é tão estranho. O final é tão estranho. Como se fosse uma estranha desistência do escritor. Como se fosse um filme que acaba com um tiro no escuro. Assim:
uma mão se ergue, com uma arma na mão. Você vê a mão, a arma (um revólver, e você que entende de armas reconhece o modelo e o calibre), um pedaço do pulso e da manga da camisa. E a imagem se apaga enquanto você ouve o estampido. E então começam os créditos. Você não sabe de quem é a mão (todos usam a mesma camisa), você não sabe quem pegou a arma, quem levou o tiro. Você não sabe nada, e é um filme policial. O policial e o bandido se encontram finalmente, e esse final indefinido. Você desiste e se aquieta. E lembra da história e sorri e pensa que o final talvez não importe tanto assim. No final, o indivíduo se dilui no coletivo. A família se desmancha. Quase completamente.

Preserve your memories.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

Assumiçãozinha

Eu adoro olhar pro meu blog. Eu entro nele todos os dias, e fico olhando, meio esperando que eu ache um comentário novo, meio só olhando mesmo, pras cores. Acho que talvez eu tenha chegado bem perto do template definitivo...

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

Prologues

Time it was and what a time it was it was,
A time of innocence a time of confidences.

Long ago it must be, I have a photograph
Preserve your memories, they're all that's left you



Escrevo aqui, e não ali, porque aqui não são necessárias imagens. E não é possível imaginar o que há por dentro.

Por dentro sonhos.
Por dentro vozes.
Aqui sonho tantos sentidos que me esvanece o sentido de estar num sonho.
E você (você sabe quando estou pensando em você?)
é tudo um risco imenso, o de acreditar em mentiras.
O de não se ferir com elas.
E a minha fascinação por lâminas...

Baby.
Baby você é uma lâmina.
Baby you're a dagger and I'm flesh (esperando ser dilacerada)
Baby I can tell, there's nothing left but flesh; why don't you cut me open?
Cut my eyes wide open.

Por dentro vidas sem vida,
coleções de máscaras.
Por dentro alucinações.
O passado bate à porta e você não o reconhece.
Seus amigos estão muito longe, e você não os reconhece.
Eles têm outros nomes, novas alcunhas, novos apostos, e apostam novas moedas em novas esperanças. Por dentro.
E também por fora.
Nas lembranças é que nos encontramos novamente e tudo está como deixamos;
quando saímos do apartamento que compartilhávamos deixamos as almofadas no chão, a cama desfeita e o nosso cheiro no ar. E uns pratos sujos em cima da pia. Uma torta no forno. Assim:
— Faz apenas duas horas que você partiu e a casa já está à sua espera.
Mas no nosso caso parece que fazem anos. O passado sempre parece ter acabado alguns anos atrás.

Tudo isso é apenas uma forma de dizer. O risco de acreditar em mentiras.
Acho que nós poderíamos parar de modificar o passado. Parece que quando voltei ao velho apartamento a colcha estava rasgada e as almofadas faziam as vezes de travesseiro, na cama meticulosamente arrumada. O sofá estava voltado para a janela coberta de teias de aranha. Alguém levou a tevê. E com ela os óculos de um gato. Os pratos e travessas foram lavados e guardados molhados num armário trancado.
Tudo isso para tentar expressar.
E é impossível expressar. A imaginação não chega tão longe. As possibilidades são limitadas. Há coisas a pensar e sentir, coisas que independem do passado. Coisas que se baseiam na história que está escrita por dentro. Os registros externos não significam quase nada.

Acho que não.
Desde aquele momento, muito tempo atrás.
Acho que não faz diferença agora o que acontece depois. Não há necessariamente uma história. Agora, independente do que acontecer, por muito tempo ainda, eu pensarei em você deste jeito. Eu posso não conseguir lembrar por que mesmo que te amo, mas vou continuar te amando. É ridículo assim. Mas você vai retribuir o meu amor de alguma forma. Nem sei se você sabe como ele nasceu e cresceu. Não preciso saber com certeza. Nesse caso (e no nosso caso) não há risco de haverem mentiras. Ou verdades. Ou qualquer coisa.

Talvez seja essa a solução: simplesmente não procurar o passado.
Se eu deixá-lo de lado, não terei que correr o risco.
E não importa mesmo. Eu não sinto nada. O que está assim tão distante não tem nunhuma importância agora. Não para mim, pelo menos. Eu não sou o que sou por causa de qualquer coisa que aconteceu comigo quando eu tinha quatro anos, então por que com você seria diferente? Não, eu já era assim. E depois me tornei o que já era. Porque a Capitu já estava dentro da Capitu de Matacavalos. E a pergunta, a pergunta que eu queria fazer é anterior a tudo isso, a tudo o que vocês sabem sobre mim (bom, quase todos vocês).

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Sometimes is just an empty shell.

domingo, 27 de janeiro de 2008

At times

Uma pequena tradução
Eu sei que traduções nunca são perfeitas, mas eu me esforcei, ao menos um pouco...



There are times,
while I observe you
There are times while I follow you
When you live without me
And without knowing me
Sometimes
while I admire you
While I admire your life I ask
— I always ask, and why? —
I ask if you are
if you breathe, if...
You cry? You live?          At times?
                                                                 Your soul?
I call for you
but it is with no voice
There are times while I think you
When you exist in me
And without knowing me          you feed me
while I pursue you
(while I devour you)
I call for you
but I want you not to hear me
and At times
to appear
But it is with the silenced voice
There are times while I dream you
When you cease to exist
without perceiving me
Sometimes
while I admire you
While your existence I ask



Your soul?

sábado, 26 de janeiro de 2008

Just keep talking

no silêncio, quando nem o eco responde — keep talking...



Às vezes,
enquanto te observo
Às vezes enquanto te sigo
Quando convives sem mim
E sem me saberes
Às vezes
enquanto te admiro
Enquanto admiro tua vida pergunto
— pergunto sempre, e por quê? —
pergunto se és
se respiras, se...
Se choras? Se vives?          Às vezes?
                                                                        Tua alma?
Te chamo
mas é com a voz muda
Às vezes enquanto te penso
Quando existes em mim
E sem me saberes                   me alimentas
enquanto te persigo
(enquanto te devoro)
Te chamo
mas quero que não me ouças
e Às vezes
aparecer
Mas é com a voz calada
Às vezes enquanto te sonho
Quando deixas de existir
sem me perceberes
Às vezes
enquanto te admiro
Enquanto a tua existência pergunto



Tua alma?

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

Pequeno Glossário Temático
dos termos desta lôba.

Em ordem de aparição.



1- Tipo de moradia rústica, especialmente comum entre as de animais de pequeno porte, que consiste em um buraco ou túnel, com ou sem ramificações ou galerias, escavado pelo próprio residente. Como a toca é escavada na medida certa para o residente, ela costuma ser uma ótima defesa contra animais maiores. Obs.: embora lobos e cães sejam eficientes em escavar tocas em caso de necessidade, duvido muito que esse seja seu estilo favorito de moradia, em geral.
1- Canídeo selvagem do gênero feminino, conhecido por sua ferocidade, inteligência e adptabilidade. Costumam formar casais para a vida inteira e são reconhecidamente fiéis à família. Em geral têm hábitos noturnos.
1- A ausência (relativa) de som. *Segundo o dicionário Aurélio, 2- "interrupção de correspondência epistolar", 3- "Sigilo, segredo", 4- "interj. para mandar calar ou impor sossego", 5- "Taciturnidade". 6- A versão sonora das trevas. 7- Espaço ou situação em que o sentido da audição é desprezado.
1- Integrante de uma organização militar. 2- Personagem que se define ou destaca por sua experiência bélica ou militar.
1- A ausência (relativa) de luz. *Segundo o adicionário Aurélio, 2- "misterioso, escuso, suspeito", 3- "falta de luz; pouco claro; sombrio; tenebroso", 4- "Escuridão", 5- "Que se distingüe mal; que não tem sonoridade; surdo", 6- "lugar sombrio, recôndito". 7- Espaço ou situação em que o sentido da visão é desprezado. 8- A versão luminosa das trevas.

sábado, 12 de janeiro de 2008

O ser imenso abriu apenas um olho, e quase sem se mexer examinou cuidadosamente o que via.

Be yourself, no matter what they say


Eu preciso falar sobre aquelas meninas. Preciso falar sobre elas assim como preciso falar sobre o João Dante mas não ainda. Preciso falar porque algo acontece e é algo diferente de tudo o que aconteceu antes. Antes era apenas um sonho, agora... Digo que o dragão acorda de um breve sono, olha ao redor e decide que o Filho do Cão está por aqui. Ele se deita novamente e adormece, adormece aguardando o tempo (que virá) quando houverem mais dragões e quando eles puderem crescer e se multiplicar. Mas então algo acontece. Algo como um ligeiro tremor, uma vibração que suas grossas escamas mal percebem. "Ainda levará anos para que eu possa fazer uma armadura", disse-me o dragão do sonho; mas agora ele olha ao redor, até um pouco assustado, e pergunta: você acha que o futuro já chegou?

Elas tinham nomes como Mônica, Bárbara, Fernanda. Eram pequenas, como convém a pequenas meninas, pequenas como estas. Com os pratos brancos. Eram o futuro. Mariana, Bianca, Luna. Eram fortes, e apaixonadas. E deveriam aprender. E seriam o futuro. Eram três, e não sabíamos bem como encontrá-las. E teriam nomes como os nossos. E nos sucederiam. Isso na história. Mas um dia sonhei com estar conversando com três meninas e o Rafa, ou seria o Ugo? E um dia vi a cena do sonho e levei um susto (ninguém percebeu). E foi como se fossem elas mesmo. Não exatamente elas, mas alguma coisa parecida. O futuro já chegou? eu me perguntei, assustada. Tão rápido, com tanta antecedência?

Depois se tornaram meninas de verdade, deste mundo e não do outro. Mas eu olharia para elas em dúvida mais algumas vezes, por mais algum tempo. E então elas começaram a falar, como filhotes de dragão que finalmente se dão conta de seus poderes (dentro de mim, é claro. elas mesmas provavelmente já conheciam seus poderes). E alguma coisa me assustou. Naquelas meninas que não eram, pensando bem, tão pequenas. Alguma coisa entre dizer yuri-monitor e falar sobre mim em um de seus posts. Como dragões adolescentes que de repente assustam a todos com seus poderes. Como correntes, de algo maior do que ferro. E velhos jogos da verdade (perdi o Jogo) em que falamos de Amor, e de Deus, e eram a mesma coisa, no final das contas. E ler aquelas palavras foi como estar de novo com quinze anos, sofrendo uma paixão difícil, tendo sonhos acusadores, pensando em beijos proibidos, e descobrindo formas de ter amigos que eu não conhecia, e me fortalencendo cada vez mais, e abraçando, e sonhando. E eu olhei nos olhos daquele dragão jovem e falei, claramente:

— Eu achei que não existiam dragõas mães nesta era. Mesmo diante de ti, não posso acreditar que existas.
— A dragõa-mãe me carrega desde as eras antigas. Dragões mais nascerão — respondeu meu amigo, dulcíssimo. — Dragões cobrirão os céus, pois a dragõa-mãe ainda vive.
— E teu pai, meu amigo, ainda existe?
— Meu pai é o mesmo que o teu. Ele dorme no fundo dos mares; ele caça ao pé das montanhas. Mas as eras tiraram sua força.
— E os dragões que dormem escondidos?
— Nós os encontraremos, irmã. O meu cheiro os despertará, pois trago ainda o cheiro do berço. Nós os despertaremos, irmã, e os levaremos à mãe. Nós renasceremos, irmã.

Uma mudança extremamente sutil no odor da caverna foi o que despertou, por um instante, o dragão seu mestre.

What the hell am I doing here?
Do I belong here?


Quando você foi embora, deu um sorriso amarelo e eu quis despistar você. Você é um idiota, mas eu ainda te amo. E sempre vou te amar. Mesmo que você nunca voltedessa viagem curta que você foi fazer, eu sempre vou te amar. O amor não acaba nunca, o que é bom, ruim, desesperador. E quando apagam-se as luzes, é o cheiro dele (ou dele?) que ainda me alucina, por mais que eu tente escapar. Estou presa, presa pelo amor nunca acabar. E o desejo, aquele desejo proibido que hoje eu sei ocultar (e até controlar). Minha melhor amiga do ginásio, que recentemente eu joguei pra classificação "conhecido" nos amigos do orkut, me disse uma vez que a gente nunca deixa de gostar de um cara bonito. Mas a beleza não é bem a questão, não é? Não é exatamente isso. É o seu cheiro, que contamina quase a casa inteira, que me faz sentir coisas que me deixam ansiosa, me dão nojo e fazem meu coração bater mais cauteloso.

Ultimamente tenho sentido muito ciúmes, sabe?

Comecei este post o coração disparado, agitado, mal sei porquê. São aquelas meninas, sabe? Roubando de mim com os olhos de um bandido meu passado e meu sonho encardido. Quanta suavidade neste punhado de pó. A chave para entender é a curiosidade, e eu quero ceder a ela. Você tem um cachorro? Gosta de Terry Pratchet? Às vezes fica hipnotizada pelo céu? Você quer chorar e quer poder não chorar, quando algo no peito sente de uma maneira errada, mas quase deliciosa? Você quer amar mas tem amor demais no coração? Você transborda sem querer, e se contém quase o tempo todo, para que nas outras palavras não te reconheçam?
O Curioso perguntou pelo Artur e lembrei de quando o Tu era assim bem como eu (oculto) palavras traduzindo mais do que conheciam dele. E como tenho orgulho dele! Como tenho orgulho e como admiro esse homem! Será que todos podem crescer assim? Será que eu também terei orgulho de mim? Será que um dia não terei mais inveja? ("se eu fosse um pecado", lembra?) E como isso acontece? E é bom?

I don't care if hurts,
I wanna have control
I want a perfect body,
I want a perfect soul


Mas não quero falar agora das minhas fraquezas.

sábado, 22 de dezembro de 2007

Apenas um pensamento...

...desses que não adormecem nunca.


Ultimamente postar neste blog tem me feito me sentir meio ridícula. Como se isso fosse me ajudar a perder seu respeito. É tão devastador, sentir sempre que você está milhares de anos na minha frente... E o pior é pensar que eu até preferia que você nem lesse estas palavras, ou que, se as lesse, não entendesse. Mas, ao mesmo tempo, é tão desanimador pensar que você pode não me entender... Como se isso fosse me ajudar a perder meu respeito por você.

O que provavelmente tornaria minha vida mais fácil, mas mais vazia. Mas eu queria... sim, eu queria me livrar desse poder que você tem sobre mim. Eu queria dizer que meu reino é tão grande quanto o seu. E, em algum lugar no fundo, eu acho que é mesmo.

No silêncio barulhento da cidade, eu me pergunto no que você está pensando.