Cheiro de sangue
de dengue
de mangue
Cheiro de carniça no deserto
Cavalo de rumo incerto
Corta o campo
Cheiro de morte
O rosnado
O campo o mundo
O cheiro.
------------------
Acho que este é um dos primeiros poemas que eu escrevi com um tema tão corporal, animal. E ao mesmo tempo o tema é abordado quase que totalmente pela sonoridade das palavras e pela sensação das metáforas. Acho que deve ter representado um grande passo para mim, deixar que a linguagem fizesse o papel dela e não ficar querendo clarificar tudo a cada passo. Não tenho nenhuma observação engraçadinha sobre uma palavra ou verso que tenha sido por acaso.
O que dá pra tirar desse poema, relendo-o tanto tempo depois? Acho que para a Lobz de 2005, cheiro tem a ver com sílabas longas, arrastadas, que trescalam ao fundo da garganta: san, den, mas, car, ser, rum, cer, cor, cam, mor, ros, mun. A única palavra que foge do padrão é 'cavalo', mas o que pode ser mais mundano e animal que uma besta suada e recendente? Além, acho que complementa essa idéia de sertão e tal. Pus o título tentando encontrar um substantivo para "recender", mas acho que não tem.
Acho que existe também um animal selvagem, carnívoro, observando a lida suja do cavalo e da morte (embora o cavalo possa ser lido como uma metáfora), nos últimos versos. Observe como a visão dele é altamente simplificada, rosnado-campo-mundo-cheiro.
É divertido reler meus próprios poemas e tentar enxergar os possíveis fios de pensamentos. Espero que seja divertido para vocês também.
palavra por palavra, procuro chegar, devagar, ao lugar de La Loba.
"O silêncio", disse o griot,"só é escuro no começo..."
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domingo, 24 de abril de 2011
À Deriva [jul 2004 - fev 2006]
Ando sem rumo
no mar, sem prumo,
no rio à baila
à deriva
sem cor, sem sumo
ando perdida.
O amor, a vida
o mar do mundo
me deixa à margem
ao fundo
sem dar guarida
a um vagabundo.
Ando por nada
estou recortada
do meu papel
meu cais
do porto-seguro
o escuro
esconde a enseada
com névoas em véu
ando deserdada.
----------------------------
T) Este é outro tema recorrente, e não me impressiona muito que eu tenha passado um ano e meio escrevendo esse poema. Digo isso de uma forma poética: não me impressiona que eu tenha passado um ano e meio me sentindo assim. Também não me impressiona nada que o mar seja a metáfora base, já que ele representa quase naturalmente esse sentimento de falta de caminho. Gosto bastante das metáforas deste poema.
L) Vocês repararam que eu usei a palavra "guarida", que acho que nunca mais usei na vida? Acho que era só porque tinha acabado de aprender e queria aplicar em alguma coisa.
obs.: me dei conta de que quase sempre faço uma avaliação do tema e do desenvolvimento e depois alguma observação sobre um detalhe da linguagem. Achei que eu podia institucionalizar isso.
no mar, sem prumo,
no rio à baila
à deriva
sem cor, sem sumo
ando perdida.
O amor, a vida
o mar do mundo
me deixa à margem
ao fundo
sem dar guarida
a um vagabundo.
Ando por nada
estou recortada
do meu papel
meu cais
do porto-seguro
o escuro
esconde a enseada
com névoas em véu
ando deserdada.
----------------------------
T) Este é outro tema recorrente, e não me impressiona muito que eu tenha passado um ano e meio escrevendo esse poema. Digo isso de uma forma poética: não me impressiona que eu tenha passado um ano e meio me sentindo assim. Também não me impressiona nada que o mar seja a metáfora base, já que ele representa quase naturalmente esse sentimento de falta de caminho. Gosto bastante das metáforas deste poema.
L) Vocês repararam que eu usei a palavra "guarida", que acho que nunca mais usei na vida? Acho que era só porque tinha acabado de aprender e queria aplicar em alguma coisa.
obs.: me dei conta de que quase sempre faço uma avaliação do tema e do desenvolvimento e depois alguma observação sobre um detalhe da linguagem. Achei que eu podia institucionalizar isso.
Renúncia [4/4/2004]
Cála
Não quero mais saber
talvez seja só você
e talvez apenas eu
mas cála
pois não sei qual é o que há
eu não quero acreditar
que a vida é só esse breu
Eu não sei se canto ou choro
Eu só quero esquecer
as palavras de outro tempo
E eu abdico dos direitos
Sei que não será perfeito
mas não quero ficar só
no peito aberto e dentro, perto
o som caindo em si no sol
em sentimento
único neste momento
no deserto em prol do tempo
E eu só queria esquecer
a razão desse tormento
e será ela você?
Eu abdico da certeza
eu quero só amar você.
-----------------------
Acho que este na verdade é meio que uma música, sort of. Mas não muito. Alguns versos têm melodia, outros não, acho esquisito. Acho interessante como eu volto de tempos em tempos a esse tema do "talvez você esteja me fazendo mal, mas eu prefiro não descobrir isso, eu prefiro continuar na ignorância pra poder te amar". Afinal, ignorance is bliss, não é mesmo? Eu gosto do verso "eu não sei qual é o que há". Mas me incomoda todo esse tema de ficar em silêncio, não encarar as coisas. Ainda bem que fiquei mais forte desde então.
obs.: eu alterei os 'cala's do começo, acentuei-os. Hoje em dia isso parece importante pra mim, por algum motivo. Fica mais, sei lá, imperativo. E a gramática não gosta de mim mesmo, por que eu deveria ligar pra se ela tem regras ou não?
Em outro assunto, quando estava pegando esse poema eu considerei rapidamente mudar a ordem de publicação para cronológica, ao invés de alfabética no nome do arquivo (que é mais próxima de 'aleatória'). Descartei a idéia muito rápido porque me pareceu que isso significaria períodos de fases ruins alternados com períodos de fases boas, enquanto eu acho mais tolerável misturar completamente os poemas ruins com os bons. Imagine, vários poemas seguidos da minha sétima série? brrr!
Não quero mais saber
talvez seja só você
e talvez apenas eu
mas cála
pois não sei qual é o que há
eu não quero acreditar
que a vida é só esse breu
Eu não sei se canto ou choro
Eu só quero esquecer
as palavras de outro tempo
E eu abdico dos direitos
Sei que não será perfeito
mas não quero ficar só
no peito aberto e dentro, perto
o som caindo em si no sol
em sentimento
único neste momento
no deserto em prol do tempo
E eu só queria esquecer
a razão desse tormento
e será ela você?
Eu abdico da certeza
eu quero só amar você.
-----------------------
Acho que este na verdade é meio que uma música, sort of. Mas não muito. Alguns versos têm melodia, outros não, acho esquisito. Acho interessante como eu volto de tempos em tempos a esse tema do "talvez você esteja me fazendo mal, mas eu prefiro não descobrir isso, eu prefiro continuar na ignorância pra poder te amar". Afinal, ignorance is bliss, não é mesmo? Eu gosto do verso "eu não sei qual é o que há". Mas me incomoda todo esse tema de ficar em silêncio, não encarar as coisas. Ainda bem que fiquei mais forte desde então.
obs.: eu alterei os 'cala's do começo, acentuei-os. Hoje em dia isso parece importante pra mim, por algum motivo. Fica mais, sei lá, imperativo. E a gramática não gosta de mim mesmo, por que eu deveria ligar pra se ela tem regras ou não?
Em outro assunto, quando estava pegando esse poema eu considerei rapidamente mudar a ordem de publicação para cronológica, ao invés de alfabética no nome do arquivo (que é mais próxima de 'aleatória'). Descartei a idéia muito rápido porque me pareceu que isso significaria períodos de fases ruins alternados com períodos de fases boas, enquanto eu acho mais tolerável misturar completamente os poemas ruins com os bons. Imagine, vários poemas seguidos da minha sétima série? brrr!
ABC [21/03/2002 20:55]
A de bolA
B de aBelha
C de nunCa
D de anDar
E de nascEr
F de aFago
G de castiGo
H de olHar
I de demônIo
J de anJo
K de oKulta?
L de péroLa
M de âMago
N de iNerte
O de espOrte
P desamParo
Q de enQuanto
R de hoRRível
S de aSSombro
T de má sorTe
U de astUto
V de ouVir
W de reW
X de eXcuso
Y de vYr?
Z de aZul.
-------------------
Eu queria escrever, mas não sabia bem sobre o quê, então resolvi retomar minha retomada poética. Infelizmente (ou felizmente pra quem tem senso de aventura), revirar meus arquivos antigos de poemas envolve reencontrar coisas bizarras como esta o.o observação: acho que "rew" de fato já significou alguma coisa pra mim. Mesmo assim, acho que foi meio contraproducente da minha parte colocar K, Y e W no alfabeto.
B de aBelha
C de nunCa
D de anDar
E de nascEr
F de aFago
G de castiGo
H de olHar
I de demônIo
J de anJo
K de oKulta?
L de péroLa
M de âMago
N de iNerte
O de espOrte
P desamParo
Q de enQuanto
R de hoRRível
S de aSSombro
T de má sorTe
U de astUto
V de ouVir
W de reW
X de eXcuso
Y de vYr?
Z de aZul.
-------------------
Eu queria escrever, mas não sabia bem sobre o quê, então resolvi retomar minha retomada poética. Infelizmente (ou felizmente pra quem tem senso de aventura), revirar meus arquivos antigos de poemas envolve reencontrar coisas bizarras como esta o.o observação: acho que "rew" de fato já significou alguma coisa pra mim. Mesmo assim, acho que foi meio contraproducente da minha parte colocar K, Y e W no alfabeto.
sábado, 25 de dezembro de 2010
Procuro um homem [?]
Procuro um homem que não seja como todos
os outros homens que até hoje conheci
Que seja incômodo e imprestável como os outros
Mas um que saiba o quanto deve dar de si
Eu não procuro um homem que seja perfeito
mas um que seja livre e siga com coragem
Que tenha a cara de reclamar seus direitos
sem hesitar e sem se perder na linguagem
Procuro um homem que se guie por seus sonhos
e, perseguindo-os, não se acanhe de ir além
Um que consiga subjugar os seus demônios
mas que seja um pouco demônio ele também
Procuro um homem que não caia do cavalo
ou que, caindo, também saiba levantar
Que, como um gato, às vezes venha de mansinho
e às vezes pule sobre a presa pra matar
-----------------------------------------
Achei isso numa pilha de anotações antigas... Acho que deve ser de 2006, mas não posso garantir; talvez seja de antes, talvez de bem depois. Acho que eu tenho muito poemas descrevendo o amor que eu quero... Mas acho esquisito, acho que hoje em dia eu não escreveria uma coisa assim, "procuro um homem"... Eu não procuro mais um homem, eu procuro a mim, a você, a quem possa saciar essa fome, à origem da fome. Minha forma de pensar, de enxergar essa questão, mudou radicalmente.
os outros homens que até hoje conheci
Que seja incômodo e imprestável como os outros
Mas um que saiba o quanto deve dar de si
Eu não procuro um homem que seja perfeito
mas um que seja livre e siga com coragem
Que tenha a cara de reclamar seus direitos
sem hesitar e sem se perder na linguagem
Procuro um homem que se guie por seus sonhos
e, perseguindo-os, não se acanhe de ir além
Um que consiga subjugar os seus demônios
mas que seja um pouco demônio ele também
Procuro um homem que não caia do cavalo
ou que, caindo, também saiba levantar
Que, como um gato, às vezes venha de mansinho
e às vezes pule sobre a presa pra matar
-----------------------------------------
Achei isso numa pilha de anotações antigas... Acho que deve ser de 2006, mas não posso garantir; talvez seja de antes, talvez de bem depois. Acho que eu tenho muito poemas descrevendo o amor que eu quero... Mas acho esquisito, acho que hoje em dia eu não escreveria uma coisa assim, "procuro um homem"... Eu não procuro mais um homem, eu procuro a mim, a você, a quem possa saciar essa fome, à origem da fome. Minha forma de pensar, de enxergar essa questão, mudou radicalmente.
sábado, 18 de dezembro de 2010
Ao Cara da Bicicleta [24-25/9/2005]
Estou andando pela rua e vem
Você, que me coloca muito bem
Uma palavra doce no caminho.
Eu olho pra você, penso na vida
De que me vale estar assim perdida?
Em tantos colos quero fazer ninho...
Eu vinha andando meio solitária
Na sociedade me sentindo pária
E vem você chamar-me de gatinha.
Talvez não seja bom pensar assim,
Mas peço que não venha atrás de mim
Pois isso eu tenho que vencer sozinha
E, se vier, posso não ser legal
Vou ser cruel, posso te deixar mal
Se você não se despedir agora
Mas você não me ouvira o não amaro
Eu disse então que tinha namorado
Pra você desistir e ir embora
-----------------------------
Sim, existem pessoas que às vezes tiram algo de bom de encontrar um cara idiota te xavecando na rua. Esse cara de fato apareceu de bicicleta me chamando de gatinha. às vezes essas coisas imbecis são importantes pra quem está totalmente perdido.
Você, que me coloca muito bem
Uma palavra doce no caminho.
Eu olho pra você, penso na vida
De que me vale estar assim perdida?
Em tantos colos quero fazer ninho...
Eu vinha andando meio solitária
Na sociedade me sentindo pária
E vem você chamar-me de gatinha.
Talvez não seja bom pensar assim,
Mas peço que não venha atrás de mim
Pois isso eu tenho que vencer sozinha
E, se vier, posso não ser legal
Vou ser cruel, posso te deixar mal
Se você não se despedir agora
Mas você não me ouvira o não amaro
Eu disse então que tinha namorado
Pra você desistir e ir embora
-----------------------------
Sim, existem pessoas que às vezes tiram algo de bom de encontrar um cara idiota te xavecando na rua. Esse cara de fato apareceu de bicicleta me chamando de gatinha. às vezes essas coisas imbecis são importantes pra quem está totalmente perdido.
Alerta [set/2005]
Não pule no lago, eu te disse, vai se machucar
mas a água do lago era linda como a água do mar
Tinha ondas que iam e vinham, para te atrair
e eram ora cruéis ora doces, pra te consumir
Pois eu disse: não pule no lago - você não me ouviu
Se afastou de mim (sou também água) e em frente seguiu
Foi largando no caminho roupas, armas e armaduras
Mas eu acho que suas intenções não eram seguras
Você foi, pois, andando sem mêdo mas meio hesitante
mas então viu o dragão do lago - foi desconcertante!
e tão surpreendido qual gato no meio do pulo
você veio pedindo socorro, tateando no escuro
E eu pensava, ao ver você assim, voltando do errado
que eu dissera, e você não me ouvira, "não pule no lago"
-------------------------------------------------------
Ah, eu gosto tanto do ritmo deste poema! Eu gosto também de algumas das metáforas dele. Algum dia eu preciso explicar o que é o lago =)
mas a água do lago era linda como a água do mar
Tinha ondas que iam e vinham, para te atrair
e eram ora cruéis ora doces, pra te consumir
Pois eu disse: não pule no lago - você não me ouviu
Se afastou de mim (sou também água) e em frente seguiu
Foi largando no caminho roupas, armas e armaduras
Mas eu acho que suas intenções não eram seguras
Você foi, pois, andando sem mêdo mas meio hesitante
mas então viu o dragão do lago - foi desconcertante!
e tão surpreendido qual gato no meio do pulo
você veio pedindo socorro, tateando no escuro
E eu pensava, ao ver você assim, voltando do errado
que eu dissera, e você não me ouvira, "não pule no lago"
-------------------------------------------------------
Ah, eu gosto tanto do ritmo deste poema! Eu gosto também de algumas das metáforas dele. Algum dia eu preciso explicar o que é o lago =)
Direitos [23-25/9/2005]
Nem todo coração
tem direito a ficar em paz
Nem toda paixão
tem direito a um final feliz
Nem toda amara vida
tem direito de voltar atrás
Nem toda alma perdida
tem direito de ser o que quis
Mas por favor não desista, que a vida é muito maior
que esse pedaço de vida ao qual você se amarrou
Mas por favor não insista, que a vida tem mais sabor
que esse pedaço de vida o qual você não largou
Pois se amarrar
a um amor que morreu
é ainda contar
com o que já se perdeu
Além disso, veja bem, não adianta chorar
Isso não fará o alguém que você ama te amar
----------------------------------------------------
.... é, sei lá. Eu precisava convencer ao pessoas a desistirem de seus amores impossíveis com freqüência... Tentei mudar pouco este poema (só uma alteração de rtmo aqui e ali) porque ele é ruim demais pra ser melhorado. E tem umas quatro melodias diferentes que nem se encaixam tão bem assim. Ora!
tem direito a ficar em paz
Nem toda paixão
tem direito a um final feliz
Nem toda amara vida
tem direito de voltar atrás
Nem toda alma perdida
tem direito de ser o que quis
Mas por favor não desista, que a vida é muito maior
que esse pedaço de vida ao qual você se amarrou
Mas por favor não insista, que a vida tem mais sabor
que esse pedaço de vida o qual você não largou
Pois se amarrar
a um amor que morreu
é ainda contar
com o que já se perdeu
Além disso, veja bem, não adianta chorar
Isso não fará o alguém que você ama te amar
----------------------------------------------------
.... é, sei lá. Eu precisava convencer ao pessoas a desistirem de seus amores impossíveis com freqüência... Tentei mudar pouco este poema (só uma alteração de rtmo aqui e ali) porque ele é ruim demais pra ser melhorado. E tem umas quatro melodias diferentes que nem se encaixam tão bem assim. Ora!
quinta-feira, 16 de dezembro de 2010
Poema Triste II [22/9/2005]
Queria escrever um poema triste.
Um que fosse mais triste do que eu
Que fosse mais escuro do que o breu
P'r'eu achar que sou vívida e feliz.
Queria escrever um poema triste
Que fosse mais vazio do que um deserto
E mais que a bruma fosse escuro e incerto
P'r'eu achar que sou o que você me diz.
Queria escrever um poema triste.
Um que fosse mais frio que a solidão
E mais que uma miragem, ilusão
Fosse de que sou eu quem quer chorar
Queria escrever um poema triste
Que fosse mais incômodo que a fome
Que de tão tolo não mereça um nome
Mas me convença de que eu sei amar.
-----------------------------------
Conforme eu anotei no canto da folha, eu também queria escrever um poema resignado, um poema sem esperança, como eu escrevi, "resignado como a chuva"... para que eu pudesse ver o brilho da minha própria esperança. Mas é difícil rimar com chuva, não é? Enfim, acho que este poema é muito menos triste e mais bonito que o anterior. A gente não vê realmente beleza na tristeza desesperançada, é justamente a esperança e o amor que tornam a tristeza uma coisa bela. Uma coisa triste e murcha e pantanosa como a que escreveu esse poema, mas que ainda quer se expressar, que ainda quer fazer parte da beleza do mundo - amar! - é bonita de certo modo, por mais que distorcida.
Mas ainda há uma certa dor, porque por mais que haja uma certa expressão no sentido de dizer "oi! estou doendo! quero ser feliz! quero amar!", ainda assim... ainda assim esse poema não pode expressar a tristeza de verdade que existia por trás. A Mali de 2005 sabia disso. Ela sabia que seu amor era um amálgama incerto de sonho e crueldade, e que eventualmente tudo ia desmoronar com ela embaixo. A pergunta que eu me faço agora é: essa esperança superficial serviu para alguma coisa?
Mas no fundo o que eu preciso saber é: será que eu aprendi a chorar depois disso?
Queria escrever um poema triste
Que fosse resignado como a chuva
E estúpido como um vinho sem uva
Que me desse esperança de sonhar
Um que fosse mais triste do que eu
Que fosse mais escuro do que o breu
P'r'eu achar que sou vívida e feliz.
Queria escrever um poema triste
Que fosse mais vazio do que um deserto
E mais que a bruma fosse escuro e incerto
P'r'eu achar que sou o que você me diz.
Queria escrever um poema triste.
Um que fosse mais frio que a solidão
E mais que uma miragem, ilusão
Fosse de que sou eu quem quer chorar
Queria escrever um poema triste
Que fosse mais incômodo que a fome
Que de tão tolo não mereça um nome
Mas me convença de que eu sei amar.
-----------------------------------
Conforme eu anotei no canto da folha, eu também queria escrever um poema resignado, um poema sem esperança, como eu escrevi, "resignado como a chuva"... para que eu pudesse ver o brilho da minha própria esperança. Mas é difícil rimar com chuva, não é? Enfim, acho que este poema é muito menos triste e mais bonito que o anterior. A gente não vê realmente beleza na tristeza desesperançada, é justamente a esperança e o amor que tornam a tristeza uma coisa bela. Uma coisa triste e murcha e pantanosa como a que escreveu esse poema, mas que ainda quer se expressar, que ainda quer fazer parte da beleza do mundo - amar! - é bonita de certo modo, por mais que distorcida.
Mas ainda há uma certa dor, porque por mais que haja uma certa expressão no sentido de dizer "oi! estou doendo! quero ser feliz! quero amar!", ainda assim... ainda assim esse poema não pode expressar a tristeza de verdade que existia por trás. A Mali de 2005 sabia disso. Ela sabia que seu amor era um amálgama incerto de sonho e crueldade, e que eventualmente tudo ia desmoronar com ela embaixo. A pergunta que eu me faço agora é: essa esperança superficial serviu para alguma coisa?
Mas no fundo o que eu preciso saber é: será que eu aprendi a chorar depois disso?
Queria escrever um poema triste
Que fosse resignado como a chuva
E estúpido como um vinho sem uva
Que me desse esperança de sonhar
Poema Triste [22/9/2005]
Eu queria escrever um poema triste
que doesse assim tanto quanto a maldade,
que fosse lúgubre como a saudade
e, como a dor do amor, não redimisse
Para que todos lessem ou ouvissem
e então chorassem, de mágoa ou de dó
ou de lembrança, pra eu não ficar só,
e a desrazão, enfim, me permitissem
Mas as palavras, como a poesia,
por si não trazem dor, pois são vazias,
então jamais terão, em si, tristeza
Por isso esse meu desejo egoísta
vai se calar, ficar fora de vista,
pois ele contraria a natureza
Mas ainda quer ser triste o meu poema
e novamente eu entro num dilema
pois eu mesma não sei me dar certeza
-------------------------------------
Acho que o que eu quero dizer aqui, essencialmente, é que escrever não me faz me sentir melhor quando eu estou triste. Os fantasmas que eu descrevo não são receptáculos para os meus sentimentos. Eles sequer podem expressar a minha tristeza.
que doesse assim tanto quanto a maldade,
que fosse lúgubre como a saudade
e, como a dor do amor, não redimisse
Para que todos lessem ou ouvissem
e então chorassem, de mágoa ou de dó
ou de lembrança, pra eu não ficar só,
e a desrazão, enfim, me permitissem
Mas as palavras, como a poesia,
por si não trazem dor, pois são vazias,
então jamais terão, em si, tristeza
Por isso esse meu desejo egoísta
vai se calar, ficar fora de vista,
pois ele contraria a natureza
Mas ainda quer ser triste o meu poema
e novamente eu entro num dilema
pois eu mesma não sei me dar certeza
-------------------------------------
Acho que o que eu quero dizer aqui, essencialmente, é que escrever não me faz me sentir melhor quando eu estou triste. Os fantasmas que eu descrevo não são receptáculos para os meus sentimentos. Eles sequer podem expressar a minha tristeza.
terça-feira, 23 de novembro de 2010
Saudades [1/8/2005]
Não sei se você concorda
Se discorda
Se acorda
e de manhã o mundo sempre é outro
Mas eu sei
e sinto por saber
que hoje
só hoje
agora
eu quero chorar por não te ter
eu sinto saudades, juro que sinto.
Quero um abraço seu.
Quero um doce, um maracujá, um sorvete.
Quero você de volta
quase quero brigar com Deus.
Se discorda
Se acorda
e de manhã o mundo sempre é outro
Mas eu sei
e sinto por saber
que hoje
só hoje
agora
eu quero chorar por não te ter
eu sinto saudades, juro que sinto.
Quero um abraço seu.
Quero um doce, um maracujá, um sorvete.
Quero você de volta
quase quero brigar com Deus.
Sem nexo [20/7/2004]
Abro os olhos:
nada vejo
Nada sinto
nada falo
sou um pedaço de corda
môrto, rôto, amordaçado
Calado com ferro ardente
Não tenho boca, mas dente,
dente, ah, eu tenho de sobra
Sou uma loucura indecente
Um desespero fremente
Um nada acorrentado.
Quem irá calar a voz que não consente o tempo,
que se esvai tão vagarosamente...
Nem sempre o canto é uma desforra,
pode ser a hora
pode ser agora
pode ser perfeito mas não tenho nada; ,
Portas fechadas, todas!
Calai as vozes.
Fecho os olhos.
Sou azul por dentro.
Azul porque, se não fosse,
seria qualquer outra coisa.
Cálo-me diante de seu mêdo.
Fecho a janela,
fecho cada fresta,
cada espiadela,
uma cena sinistra,
uma lógica antiética,
antitésica, morfética,
ilógica, sem nexo
sem lexo, sem sexo
Como aliás, todas as coisas
menores.
Morro de sono.
Tua poesia vai
além das minhas saudades...
---------------------------------
Estou me divertindo com esses poemas antigos, escritos com as vozes de baixo do pensamento, as vozes do fundo da cabeça que não estão preocupadas em alinhavar um sentido. Por exemplo, eu não acho que todas as coisas menores sejam morféticas (uau, tirei essa do fundo do baú da tia... hm, qual tia era mesmo?) nem ilógicas, mas podem ser virgens com vocabulário ilimitado, acho que sim. Não sei se isso tem algum significado, acho mesmo que é só poesia bruta.
O que eu gosto é aquele trecho da primeira estrofe - dente, ah, eu tenho de sobra! - e o fim dessa mesma estrofe, que é uma referência rítmica ao poema que eu fiz pro livro do Azem no ginásio (Lua Nova). Aliás,
não faço idéia do que é a última estrofe.
nada vejo
Nada sinto
nada falo
sou um pedaço de corda
môrto, rôto, amordaçado
Calado com ferro ardente
Não tenho boca, mas dente,
dente, ah, eu tenho de sobra
Sou uma loucura indecente
Um desespero fremente
Um nada acorrentado.
Quem irá calar a voz que não consente o tempo,
que se esvai tão vagarosamente...
Nem sempre o canto é uma desforra,
pode ser a hora
pode ser agora
pode ser perfeito mas não tenho nada; ,
Portas fechadas, todas!
Calai as vozes.
Fecho os olhos.
Sou azul por dentro.
Azul porque, se não fosse,
seria qualquer outra coisa.
Cálo-me diante de seu mêdo.
Fecho a janela,
fecho cada fresta,
cada espiadela,
uma cena sinistra,
uma lógica antiética,
antitésica, morfética,
ilógica, sem nexo
sem lexo, sem sexo
Como aliás, todas as coisas
menores.
Morro de sono.
Tua poesia vai
além das minhas saudades...
---------------------------------
Estou me divertindo com esses poemas antigos, escritos com as vozes de baixo do pensamento, as vozes do fundo da cabeça que não estão preocupadas em alinhavar um sentido. Por exemplo, eu não acho que todas as coisas menores sejam morféticas (uau, tirei essa do fundo do baú da tia... hm, qual tia era mesmo?) nem ilógicas, mas podem ser virgens com vocabulário ilimitado, acho que sim. Não sei se isso tem algum significado, acho mesmo que é só poesia bruta.
O que eu gosto é aquele trecho da primeira estrofe - dente, ah, eu tenho de sobra! - e o fim dessa mesma estrofe, que é uma referência rítmica ao poema que eu fiz pro livro do Azem no ginásio (Lua Nova). Aliás,
não faço idéia do que é a última estrofe.
Sem te desfazer [7/4/2005]
Pela estrada
esse caminho longo
que não me diz nada
Os sóis irão se pôr
todos
e ao mesmo tempo
E eu irei aonde fôr
sempre
seguindo o vento
e o vento não vai correr
morrer
não faz mais sentido
E se for para morrer
sofrer
com que objetivo?
E por que então não sofrer?
Sorrir
por que não vencer?
Que gosto tem o prazer?
sentir
Pra quê vens dizer
Que eu tenho gosto de céu
de sol
de mar
sem (cem) ondas pra navegar
seguir
Pra te conquistar?
Pra te alcançar?
Nesse mundo sem rumo
sem mêdo
sem esse mundo
O que você quer
que eu posso te dar
Sem te machucar...
Sem te desfazer?
-------------------------
Eu dei uma limpada nesse poema, pra dar a ele um pouco mais de independência do tempo e das cirscunstâncias em que ele foi escrito. O que tirei foram uns entre-parênteses, dizendo que o vento ora sopra para o norte, ora para o sul e, afinal, por que morrer, se amamos?
A mali-chan que escreveu esse poema estava sentindo que odiava tudo o que a fazia oensar, porque pensar dói, ou talvez porque pensar é se propôr a procurar uma conclusão entre todas as possibilidades antagônicas de sentido que se pode atribuir a uma observação e de escolhas que se pode fazer. Dá pra perceber que é um poema essencialmente sobre a dificuldade de se tomar decisões?
A propósito, alguém mais tem a sensação de que talvez o verso "por que então não sofrer?" tem um sentido oposto ao que parece? Fiquei muito tentada a mudá-lo para "e então, por que não sofrer?" ou "e por que não não sofrer?"... No final não cheguei a uma conclusão a respeito de qual deles era melhor. Acho que é um ponto fraco desse poema, que poderia ser melhorado se eu não achasse ele meio medíocre de qualquer forma.
Eu também coloquei um ou outro acento diferencial porque a falta de tônica estava me incomodando (e, sim, faz diferença).
esse caminho longo
que não me diz nada
Os sóis irão se pôr
todos
e ao mesmo tempo
E eu irei aonde fôr
sempre
seguindo o vento
e o vento não vai correr
morrer
não faz mais sentido
E se for para morrer
sofrer
com que objetivo?
E por que então não sofrer?
Sorrir
por que não vencer?
Que gosto tem o prazer?
sentir
Pra quê vens dizer
Que eu tenho gosto de céu
de sol
de mar
sem (cem) ondas pra navegar
seguir
Pra te conquistar?
Pra te alcançar?
Nesse mundo sem rumo
sem mêdo
sem esse mundo
O que você quer
que eu posso te dar
Sem te machucar...
Sem te desfazer?
-------------------------
Eu dei uma limpada nesse poema, pra dar a ele um pouco mais de independência do tempo e das cirscunstâncias em que ele foi escrito. O que tirei foram uns entre-parênteses, dizendo que o vento ora sopra para o norte, ora para o sul e, afinal, por que morrer, se amamos?
A mali-chan que escreveu esse poema estava sentindo que odiava tudo o que a fazia oensar, porque pensar dói, ou talvez porque pensar é se propôr a procurar uma conclusão entre todas as possibilidades antagônicas de sentido que se pode atribuir a uma observação e de escolhas que se pode fazer. Dá pra perceber que é um poema essencialmente sobre a dificuldade de se tomar decisões?
A propósito, alguém mais tem a sensação de que talvez o verso "por que então não sofrer?" tem um sentido oposto ao que parece? Fiquei muito tentada a mudá-lo para "e então, por que não sofrer?" ou "e por que não não sofrer?"... No final não cheguei a uma conclusão a respeito de qual deles era melhor. Acho que é um ponto fraco desse poema, que poderia ser melhorado se eu não achasse ele meio medíocre de qualquer forma.
Eu também coloquei um ou outro acento diferencial porque a falta de tônica estava me incomodando (e, sim, faz diferença).
segunda-feira, 22 de novembro de 2010
Ser [1/4/2005]
Ser ou não ser?
Não ser um ser
Ser um não ser
Não ser
Entretanto ser um não-ser
É ser
E tudo o que é é um ser.
------------------------
Que divagação mais curiosa. Puta análisa semântica de uma construção que só é possível sintaticamente. Paradoxo derivado de definição completa, incoerente.
Não ser um ser
Ser um não ser
Não ser
Entretanto ser um não-ser
É ser
E tudo o que é é um ser.
------------------------
Que divagação mais curiosa. Puta análisa semântica de uma construção que só é possível sintaticamente. Paradoxo derivado de definição completa, incoerente.
O Amante da Estrela
Seus olhos encontraram uma estrela
na profunda escuridão do infindo céu.
Aquela estrela brilhava intensamente
ofuscando seus olhos cor de mel...
Seus olhos encontraram uma estrela,
e desta estrela tirou forças para lutar,
para se levantar e vencer seus medos,
para se erguer das sombras de tantos segredos
e permitir que a luz a iluminasse...
A estrela longe no céu, a brilhar...
Seus olhos tão profundos, penetrantes,
a estrela tão distante admiraram
e a estrela respondeu com um sorriso terno,
eterno, etéreo, lúcido, insano e escuro.
Olhos brilhantes que a estrela amaram.
Seu corpo vacilou no azul do espaço,
sua mente despertou de um sono longo,
seu coração bateu num baque fraco.
Mas seus olhos não deixaram sua estrela,
mas seus olhos foram fiéis, apenas eles...
Perderam a cor do mel, e um brilho opaco
marcou para sempre seus olhos escuros, perenes.
----------------------------
Que poema bizarro. Não tinha nenhuma lembrança dele e o li como se nem fosse meu. acho que eu era muito pouco rigorosa com a pontuação nessa época, e hoje isso me incomoda absurdos!
na profunda escuridão do infindo céu.
Aquela estrela brilhava intensamente
ofuscando seus olhos cor de mel...
Seus olhos encontraram uma estrela,
e desta estrela tirou forças para lutar,
para se levantar e vencer seus medos,
para se erguer das sombras de tantos segredos
e permitir que a luz a iluminasse...
A estrela longe no céu, a brilhar...
Seus olhos tão profundos, penetrantes,
a estrela tão distante admiraram
e a estrela respondeu com um sorriso terno,
eterno, etéreo, lúcido, insano e escuro.
Olhos brilhantes que a estrela amaram.
Seu corpo vacilou no azul do espaço,
sua mente despertou de um sono longo,
seu coração bateu num baque fraco.
Mas seus olhos não deixaram sua estrela,
mas seus olhos foram fiéis, apenas eles...
Perderam a cor do mel, e um brilho opaco
marcou para sempre seus olhos escuros, perenes.
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Que poema bizarro. Não tinha nenhuma lembrança dele e o li como se nem fosse meu. acho que eu era muito pouco rigorosa com a pontuação nessa época, e hoje isso me incomoda absurdos!
Changing [17/9/2008]
Sabe, resolvi olhar uma coisa no meu flog e fiquei impressionada com como tem umas coisas legais l[a. E como a galera respondia, mesmo quando as coisas eram uns desabafos náo táo legais! Al[em do mais boa parte do que eu li foi de uma fase bem interessante da minha vida. Bom, náo resisto {a tenta;áo de publicar aqui um poema tirado de l[a1
-------------------------------------
I used to be something different,
something made of something else;
My feelings were dealt with differently,
perhaps exquisitly felt;
My dreams developed strangely;
my loves would bizarely melt.
Did anyone rearrange me?
Or did I reshape myself?
I once had a different accent,
wore different clothes and hairs;
And different friends presented me
unique unusual dares;
I had other inspirations,
I performed a different act.
What is it with transformations?
How can I deal with this fact?
This former me, was it good or bad?
This former me, was it joyful or sad?
This present me, is it wise enough
to pay respect to what's buried beneath?
This former me, is it gone for good?
This former me, would it live if it could?
This present me, is it strong enough
to carry the legacy trusted to it?
-------------------------------------
I used to be something different,
something made of something else;
My feelings were dealt with differently,
perhaps exquisitly felt;
My dreams developed strangely;
my loves would bizarely melt.
Did anyone rearrange me?
Or did I reshape myself?
I once had a different accent,
wore different clothes and hairs;
And different friends presented me
unique unusual dares;
I had other inspirations,
I performed a different act.
What is it with transformations?
How can I deal with this fact?
This former me, was it good or bad?
This former me, was it joyful or sad?
This present me, is it wise enough
to pay respect to what's buried beneath?
This former me, is it gone for good?
This former me, would it live if it could?
This present me, is it strong enough
to carry the legacy trusted to it?
A mesma hist[oria? [7/4/2005]
Parado.
Os olhos correndo
param
perdem correm voltam
param.
As mão abertas se fecham
as fechadas se abrem
suam
tremem tremem tremem
brincam no ar
o tempo parado corre
passa sem passar
o tempo não existe mais
o tempo, o tempo a mesma história?
o mesmo tempo
o para sempre
o todos nós.
Se somos tão absolutamente iguais
por que é então que havemos de ser diferentes?
Se estamos todos no mesmo barco,
nadamos contra a corrente,
e aí?
Somos todos diferentes.
E nós
em nós
a agonia de ser diferente
igual
a agonia
os passos imóveis
os gritos calados
se somos diferentes, por que é então que buscamos sempre a mesma coisa?
A mesma regra?
A mesma vida?
Se somos diferentes, por que então sofremos igualmente
essa impotência
essa desimportância
essa ignorância
da vida
o que é impossível?
Os olhos correndo
param
perdem correm voltam
param.
As mão abertas se fecham
as fechadas se abrem
suam
tremem tremem tremem
brincam no ar
o tempo parado corre
passa sem passar
o tempo não existe mais
o tempo, o tempo a mesma história?
o mesmo tempo
o para sempre
o todos nós.
Se somos tão absolutamente iguais
por que é então que havemos de ser diferentes?
Se estamos todos no mesmo barco,
nadamos contra a corrente,
e aí?
Somos todos diferentes.
E nós
em nós
a agonia de ser diferente
igual
a agonia
os passos imóveis
os gritos calados
se somos diferentes, por que é então que buscamos sempre a mesma coisa?
A mesma regra?
A mesma vida?
Se somos diferentes, por que então sofremos igualmente
essa impotência
essa desimportância
essa ignorância
da vida
o que é impossível?
Se n'ao fosse errado [24/7/2004 - 2008 - hoje]
Se não fosse errado, eu bateria palmas,
cantaria os salmos, eu proclamaria
todos os poemas dos quais eu lembrasse.
Se não fosse errado, eu gargalharia,
me contorceria, cairia no chão
rolando da cama de tanta alegria.
Se não fosse errado, eu sairia correndo,
eu subiria as ruas, eu te alcançaria
eu descobriria a cor da tua casa
e a invadiria, e a saquearia,
te faria esp[olio, eu te levaria
a tornar-te meu, eu te aliciaria
a cometer loucurar sem explica;'ao
se não fosse errado, ou talvez mesmo sendo.
Se não fosse errado, eu dançaria livre,
eu andaria nua, dançando nas poças
d’água fria e suja, as alegrias nossas
seriam eternas, seria uma baderna
eternamente lírica e sem discussão,
se não fosse errado, como as coisas são.
-----------------------------------------
Este poema (do qual eu escolhi mostrar uma vers'ao mais recente) est[a guardado aqui com uma frase, com a qual n'ao sei bem como ele se relaciona:
"É a última palavra que eu digo e, entretanto, é o começo de tudo. Não tenho medo de você. Tenho um desejo, um desejo profundo. Só isso."
Gosto bastante dele. Meu verso favorito [e "se n'ao fosse errado, ou talvez mesmo sendo". Acho que d[a um f"olego de possibilidade, e gosto que isso aconte;a no meio, n'ao no fim, que [e uma conclus'ao sem liberdade.
cantaria os salmos, eu proclamaria
todos os poemas dos quais eu lembrasse.
Se não fosse errado, eu gargalharia,
me contorceria, cairia no chão
rolando da cama de tanta alegria.
Se não fosse errado, eu sairia correndo,
eu subiria as ruas, eu te alcançaria
eu descobriria a cor da tua casa
e a invadiria, e a saquearia,
te faria esp[olio, eu te levaria
a tornar-te meu, eu te aliciaria
a cometer loucurar sem explica;'ao
se não fosse errado, ou talvez mesmo sendo.
Se não fosse errado, eu dançaria livre,
eu andaria nua, dançando nas poças
d’água fria e suja, as alegrias nossas
seriam eternas, seria uma baderna
eternamente lírica e sem discussão,
se não fosse errado, como as coisas são.
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Este poema (do qual eu escolhi mostrar uma vers'ao mais recente) est[a guardado aqui com uma frase, com a qual n'ao sei bem como ele se relaciona:
"É a última palavra que eu digo e, entretanto, é o começo de tudo. Não tenho medo de você. Tenho um desejo, um desejo profundo. Só isso."
Gosto bastante dele. Meu verso favorito [e "se n'ao fosse errado, ou talvez mesmo sendo". Acho que d[a um f"olego de possibilidade, e gosto que isso aconte;a no meio, n'ao no fim, que [e uma conclus'ao sem liberdade.
O Sol [fev.2004]
O sol.
Quem me compra um jardim com flores
Se o sol não lhe chega perto?
As paredes com várias cores
pintadas com a própria vida
se algo falhar, decerto
o sol não desalumia?
E se apaga o calor do dia?
Hoje eu fui à fossa
Tirei dum canto um pau-de-chuva
que eu nunca vi o sol morrer na seca
Eu vi o sol raiar e oa passarinhos cantarem
A janela estava trancada,
a lousa vazia.
Os olhos todos vazios.
Hoje ouvi o horros cantar e as almas chorarem
E os sonhos todos morrerem.
Que bom que os espíritos falam
se o coração cála.
Quem me compra um jardim com flores
Se o sol não lhe chega perto?
As paredes com várias cores
pintadas com a própria vida
se algo falhar, decerto
o sol não desalumia?
E se apaga o calor do dia?
Hoje eu fui à fossa
Tirei dum canto um pau-de-chuva
que eu nunca vi o sol morrer na seca
Eu vi o sol raiar e oa passarinhos cantarem
A janela estava trancada,
a lousa vazia.
Os olhos todos vazios.
Hoje ouvi o horros cantar e as almas chorarem
E os sonhos todos morrerem.
Que bom que os espíritos falam
se o coração cála.
Sozinho [9/3/2005]
Estou só
Inteiramente só
Precisamente só, neste poema silente
neste poente.
A fome, a dor, a pena
não encontram
procuram
a perdição oculta em minhas pequenas mãos
a árvore
a folha
a pedra fria e a minha solidão
Não incomodam
como a dor e a fome
machucam.
o céu azul não adivinha
a grama nascendo
sob meus olhos
o fluxo do sangue
paixão eterna juvenil
meteoritos, explosões de plasma, líbelulas voando infinitamente rápidas e volúveis em sua discrição perene,
uma gota
d'água.
---
Ah, esse é um dos poemas de que eu gosto de verdade! Fiquei muito feliz com a progressão rítmica dele. Além disso, as imagens são muito minhas.
Inteiramente só
Precisamente só, neste poema silente
neste poente.
A fome, a dor, a pena
não encontram
procuram
a perdição oculta em minhas pequenas mãos
a árvore
a folha
a pedra fria e a minha solidão
Não incomodam
como a dor e a fome
machucam.
o céu azul não adivinha
a grama nascendo
sob meus olhos
o fluxo do sangue
paixão eterna juvenil
meteoritos, explosões de plasma, líbelulas voando infinitamente rápidas e volúveis em sua discrição perene,
uma gota
d'água.
---
Ah, esse é um dos poemas de que eu gosto de verdade! Fiquei muito feliz com a progressão rítmica dele. Além disso, as imagens são muito minhas.
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