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segunda-feira, 9 de abril de 2018

Viagens

Os dias passaram e afinal era hora de partir. Yakti amarrou os cadarços de sua nova bota de viagem. Seus pés estavam maiores, suas pernas, mais compridas. Yakti se perguntava se isso seria uma vantagem ou desvantagem, em suas viagens. A última excursão parecia uma lembrança de tempos distantes. E tinha sido fantástica! Mas será que a próxima seria igual? Esse sentimento de inadequação, de nunca ser o que as pessoas esperavam, Yakti não sabia mais se era só porque sua vocação mesmo era estar em viagem, e a cidade é que era inadequada, ou se o problema era só que Yakti nunca ia ser o que as pessoas esperavam e pronto.

Pelo menos uma coisa era certa: que a escola e a família e os colegas iam todos ficar para trás por algumas semanas, e com eles boa parte dos seus problemas. E dessa vez, quando voltasse, Yakti ia escolher melhor o que contar e o que não contar no primeiro dia de aula. Talvez, se suas viagens parecessem menos impressionantes, as outras pessoas ficassem mais impressionadas (em vez de descartá-las como invencionisse e pronto). Yakti também tivera tempo pra entender que as pessoas não ficam muito impressionadas com coisas como tipos diferentes de insetos, ou detalhes do dia-a-dia das pessoas, essas coisas pequenas que tendiam a chamar sua atenção. Pelo menos os costumes escatológicos faziam algum sucesso entre as crianças. Tinha feito um certo sucesso sua história sobre as pessoas que tinham um cômodo inteiro da casa só pra fazer xixi.

Coralaimon estava esperando já na Sala de Leitura. Do lado das poltronas estava um carrinho coberto de livros amassados, rasgados, ou descorados, que Coralaimon estava examinando com uma lupa. "Alguns desses até poderiam ser restaurados", disse ele, "mas depois do sucesso que foi a última expedição, achei que podíamos nos dar a liberdade de repôr todos eles. Estes daqui todos devem poder ser comprados em livrarias fáceis de encontrar" - ele apontou para uma pilha de livros de bolso, que pareciam ter desmanchado de tanto uso. "O problema mesmo são estes aqui."

Coralaimon indicou vagamemte toda a prateleira de baixo do carrinho, onde havia dezenas de livros desorganizados. "A enchente danificou toda a seção", resmungou Coralaimon, muito frustrado. Yakti lembrava bem dessa enchente, estivera nela tentando salvar os livros raros do porão, alguns deles possivelmente insubstituíveis (e pensando bem, talvez o porão não fosse o lugar mais próprio para guardar livros raros). Mas algumas salas do nível térreo também tinham ficado alagadas, e todo mundo demorara demais para perceber. Esses livros eram de uma dessas salas, uma sessão de literatura fantástica que Yakti ainda não tinha explorado o suficiente. "O problema é que o único portal para o universo de alguns destes livros também está nesta pilha. É um daqueles gêneros onde há dezenas de livros dentro de livros dentro de livros, você sabe", Coralaimon fez uma expressão de cansada que Yakti tinha aprendido a interpretar da seguinte forma: esse assunto é muito cansativo, e nada me daria mais prazer que lidar com ele eu mesmo, quando eu era jovem. Coralaimon tinha dessas, de fingir que não gostava das coisas que gostava, até a hora em que você descobria os diários de aventura de quando Coralaimon saía em viagens procurando volumes perdidos.

"Enfim", falou Coralaimon, puxando uma caixa com seis ou sete livros de cima da mesa de centro. "É um pouco difícil de determinar para alguns deles, mas com toda a nossa pesquisa, eu acho que estes vão servir de pontos de partida para achar os outros... se não... Bom, com sorte vamos ter restaurado o suficiente alguns destes para que pelo menos fiquem legíveis."

"Certo", disse Yakti, pegando a caixa e sentando na poltrona. Os livros eram de tamanhos e estilos diferentes. Um deles era aparentemente um guia de viagem real. Dentro de cada um deles havia uma lista com títulos de outros livros, com a letra tortuosa de Coralaimon. Ao lado de alguns títulos havia notas sobre onde procurar. "Posso escolher qualquer um deles, então? E só seguir esta lista?"

Coralaimon assentiu, e Yakti rapidamente escolheu um pequeno romance reencadernado em couro. O livro continha ilustrações, e uma delas era de uma enorme biblioteca cheia de artefatos misteriosos. Yakti suspeitava que seus colegas não ficariam nada impressionados com sua opção de viajar para mais uma biblioteca, mas, por outro lado, era a opção perfeita para a primeira viagem. Um aquecimento, por assim dizer. A lista de livros (Yakti imaginava que estariam todos nessa outra biblioteca) ocupava a frente e o verso de uma folha, que Yakti dobrou três vezes para caber no bolso. Então Yakti começou a ler, e em alguns minutos de leitura, se transportou para dentro do livro.

quinta-feira, 22 de março de 2018

Desgaste

Mas estas nossas conversas sempre me desgastam tanto
fico repensando
remoendo
é difícil diferir
difícil ser
se definir em fronteiras
existir como ente

Me sinto esgarçado
desconectado de tudo o que importa
incapaz de amor ou paixão
mas ainda capaz de emoções passageiras

que as emoções peguem carona em mim
que eu as leve de um lado para outro
essa idéia me apraz
mesmo que eu nada forneça
minha fornalha move a maria fumaça
meu fogo apenas consome

que eu seja forja
me tragam metais e os esquentem em mim
que não sou fonte
nem preciso ser

fogo cozinha também
que eu seja forno
que torna as coisas comestíveis
palatáveis
e reconfortantes

essas conversas me desgastam porque eu sigo tentando enxergar tudo por todos os lados
eu coliseu
fazendo o jogo entre todos os papéis
não quero defender ninguém
mas tanto mêdo de te perder
tanto mêdo de te perder
tanto mêdo
tanto

de te perder como já perdi tanta gente

me desgastam porque toda conversa agora a gente tem que entrar como si mesmo
acabou o anonimato
e usar a máscara de Eu faz com que ela comece a desalinhar
tudo o que se usa muito acaba desgastando

seria mais fácil ser Eu como conceito abstrato guardado na estante
como livros bem-conservados porque nunca são lidos
mas ficar levando e usando de todos esses modos
a coisa acabada degenerando
depois de alguns anos, a foto 3x4 está tão apagada aue poderia ser qualquer um
e a película na qual o nome impresso já descascou quase toda
e fica um pouco de vergonha de tentar renovar o documento
será que ainda tenho direito? ou já passou tempo demais, e perdi a vag

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

De falar palavras

às vezes parece que palavras significam coisas, mas é ilusório.
palavras menos significam, mais sugerem, lembram, parecem.
palavras significam tanto quanto cores, imagens, metáforas.
em certo sentido, todas palavra é uma figura poética
escrever é, sempre, poetar.

assim principalmente palavras mais puramente metafóricas, como, ilustremente, amor.
amor em si não é signo propriamente dito, é mais uma evocação vaga de umas associações, é uma palavra como se fosse um cheiro.
amor em si não é coisa que se denomine tanto quanto coisa que se associe vagamente com uma sensação
sentir amor é antes de tudo um chute: sente-se uma coisa, e pensa-se "deve ser isso o amor, talvez"
também assim solidão, coragem, felicidade, tristeza, ódio, frustação, tédio
nenhuma têm em si uma definição, é mais um reconhecimento vago, "deve ser isso aquilo que chamam de tédio".

por isso assim é difícil pra mim dizer o que significa "eu te amo"
ou "estou triste"
ou "sou feliz".

também assim atração física, amizado, sensualidade, desejo
sente-se antes que exista palavra, e fala-se antes que se entenda o que se fala
e assim falamos meramente através de metáforas
também as tentativas de definir são vagas e vãs e isso se aplica especialmente a identidades, a orientações, a gênero

por isso me ocorre que quando me diz "eu te amo" eu me pergunto "??????" e é uma pergunta assim sem palavras só interrogações o que diabos querem dizer essas três pequenas palavras-metáforas
eu
te
amor

amor pra mim é como uma sensação de ter imensamente maior do que eu e tão pequenamente tão pequenas coisas como aquilo que a gente sente quando uma pequena pessoa um projeto de gente nos abraça espontaneamente e aquele minúsculos lábios ensaiam um projeto de beijo
caramba mas amor é aquilo que me dá quando eu vejo uma fenda na rua uma muda nascendo brotando em câmera lenta, quando num vislumbre se vê toda a imensidão do tempo, o passado geracional e o futuro mais longe ainda, quando as árvores três-andáreas forem plântulinhas e as sementes forem o início de uma nova floresta
amor é aquilo que dá quando uma estátua envelhecida coberta de musgo e uma pedra que poderia estar ali a centenas de anos, com um nome cravado difícil de ler, e umas datas
aquilo que dá quando um cânion muito profundo cortado por uma queda dágua
e um cristal imenso largado no chão porque ninguém roubaria um cristal assim, tão deliberadamente transformado em paralelepípedo de cercar flores.

amor como quando eu recebo uma mensagem sua e me ocorre largar todos os planos inclusive comer e dormir, só pra te ver por talvez cinco minutos (mesmo que eu me controle e decida manter os tais planos)
ou como quando eu penso em você e ao mesmo tempo parece que estou pensando em todos os livros que eu já li ou quis escrever porque de alguma forma eu associei você com toda essa parte imensa da minha vida.
amor como quando eu acordo e não consigo entender porque você não está do meu lado, ou como quando eu te encontro e de repente todos os meus planos vão por água abaixo porque eu preciso mesmo contar todo o meu dia pra você.

também assim quando eu vejo o sol através da janela do ônibus e entra uma pessoa e senta do meu lado e eu penso em tudo o que eu não sei sobre aquela pessoa completa que tem toda uma vida longe de mim
Ou como quando eu ouço um sotaque da minha cidade e me pergunto até que ponto essa voz fala com as mesmas gírias que eu, e vive a mesma vida, uma cópia da minha vida.
também assim terror, pequenez, e grandeza.
amor é menos uma palavra, e mais uma coisa vaga, que é tanto gente quanto árvore e pedra e ar.

por isso tanto mêdo de dizer que também te amo e você pensar em coisas puramente humanas como beijo e sexo e espero que não mas quem sabe fidelidade
mêdo de eu dizer eu te amo e você me amar de volta ou não me amar de volta, mêdo de me dizer eu te amo e eu não amar de volta ou amar de volta
por isso tanto mêdo de tocar e todas aquelas obrigações de limites e desejos e fetiches e um monte de coisa que não cabe em uma palavra mas finge-se que cabe
por isso tanto mêdo de cair num abismo onde gente fica mais importante que o cheiro da areia quente
e o macio de uma casca de árvore
um ronronar

amor quem sabe pela cor de uma libélula
ou pelo colorido de um pôster dos anos oitenta
ou por um figurino do david bowie no auge da sua glamroquisse.

amor também porque se mistura com nojo, nojo fundamentalmente de tudo que se mistura com tudo o que se mistura com amor principalmente esse amor que se confunde com gente mas que não se permite misturar com amor porque uncanny valley ou porque tabu
amor também quando sinto aquela coisa bizarra quando vejo uma cena num filme e de repente a vida parece mais inensa e cheia de possibilidades e eu não entendo porque não quero chamar essa potencialidade tods de fetiche mas também não vejo outra saída

amor por coisas muito antigas, muito dolorosas, como vampiros, elfos, aliens solitários errantes.
amor por coisas perturbadoramente pequenas, como uma bacia de pedras que a água formou espontaneamente.

e afinal mêdo, talvez porque essa palavra que eu insisto em usar é menos uma palavra e mais uma invocação, e que eu insisto em usar nos momentos errados, como quando eu falo de pedras, aliens, gatos; mêdo de que essa palavra saia dos meus lábios e chegue em lugar nenhum porque assim que encontrou o ar virou uma outra coisa, uma coisa que tem outro contexto completamente.

mêdo porque eu te abraço e você tenta me beijar e menos ainda eu sei lidar com essa boca que não é minha e que eu não compreendo, e mêdo também quando eu penso em te beijar e percebo que eu não saberia o que fazer depois.

mêdo também porque a imensidão das coisas cabe num instante, e prolongá-las torna elas ainda mais imensas, ou muito irrelevantes, e porque os finais são sempre um tanto quanto menos emocionantes que os começos, e sempre sobra aquele gosto estranho na boca, de ter vivido algo e não se saber direito se já passou ou se ainda se tem 13 anos para sempre.

mêdo talvez porque a vida vai virando uma bizarra coleção de passados, e cada vez menos se é e mais se sente e se vê, até o ponto que eu viro de novo criança, do auto da minha auto-confiança, destruídos tantos estúpidos preconceitos.

mêdo de que te amar seja o primeiro passo para te deixar, daqui a muitos anos, para encontrar um futuro que eu desconheço e não consigo nem vislumbrar. Mêdo de que depois do amor sobre essa saudade que eu ainda sinto, e tanto, e que eu não posso mais. Mêdo de eu seja insuficiente, não porque eu não seja muito, demais, até, mas porque eu seja muito na direção errada, na direção que eu preciso conter e fingir que não é importante, e muito pouco talvez nessa direção que você parece imaginar que eu seja. Mêdo dessa projeção louca, do meu corpo me definir através dos outros, quando através das pedras e das árvores e do sol ele nada mais é que o meu corpo, capaz de me levar grandes distâncias.

Em certo sentido é mais fácil amar quando se ama errado, tudo, e demais. Amar românticamente pessoas de forma saudável é... chato, e duro, e perigoso.

Em certa medida eu lembro com asco a sensação de desespero de te querer e não poder te ter, e você rindo da minha cara por eu ser assim, tanto, e tão ingenuamente.

É mais fácil ser tudo isso quando se é em todas as direções
Assim também "amar", assim também "ser feliz".

segunda-feira, 2 de junho de 2014

Melketh

Um dia um esporo caiu numa poça dágua e começou a germinar.
Uma haste alta de ergueu acima da água e duas cépalas enormes se estenderam da ponta.
Nas cépalas estavam desenhadas duas histórias paralelas, parecidas em alguns aspectos, muito diferentes em outros. Numa delas havia um cavalo branco chamado Lucas, em outra havia um grifo negro chamado Matheus, e coisas assim. Uma dessas histórias era sobre um rapaz. Esse rapaz se transportou para outro mundo e se transformou em quinze pessoas diferentes. Mas cada vez que essas pessoas se separavam, elas começavam a se divdir em outras pessoas, cada vez mais diversas, até que o rapaz era metade da população de um mundo, um mundo muito grande, muito complexo. Nesse mundo as pessoas que eram o rapaz às vezes se recenheciam brevemente, como pessoas que se reconhecem num sonho, sem querer sabendo que aquela pessoa é importante, mas sem saber porquê, ou de repente sabendo o nome dela sem perguntar; essas pessoas se atraíam e se juntavam, mas elas não sabiam que elas eram a mesma pessoa, porqe elas eram tão diferentes. Às vezes uma delas estava pegando um ônibus numa cidade do interior, e quando olhava através do corredor encontrava uma mulher de meia idade que lhe chamava a atenção, alguma coisa no olhar dela, ou no cabelo, lhe dizia que ela pertencia à sua tribo. Essas pessoas viviam sem se conhecer exatamente, mas sabendo que elas pertenciam a alguma coisa, que elas eram iguais e que, se chegasse o dia, elas se ajudariam e lutariam juntas umas pelas outras. Às vezes elas se uniam, em pequenos grpos de amigos ou de amores. Elas se uniam e tinham filhos. Elas levavam a vida, se sentindo ao mesmo tempo desconectadas, como se houvesse algo faltando no mundo o tempo todo, e unidas, como se somente aquelas pessoas, as pessoas mais próximas e aquelas pessoas desconhecidas que também pareciam tão próximas, pudessem compartilhar o qe elas viviam e sentiam e eram. O resto do mundo inteiro parecia estranho e alienígena. Essas pessoas nunca se sentiam realmente confortáveis, porque no fundo elas sentiam a dor de estarem vivendo tão separadas e incompletas. Mas, por outro lado, apenas por estarem separadas é que elas podiam ser tudo aquilo, toda aqela diversidade de coisas tão diferentes e contraditórias, e saber todas aquelas coisas diferentes, e viver todas aquelas vidas diversas. Ser um milhão de pessoas ao mesmo tempo, era difícil, mas elas viviam coisas que uma única pessoa nunca poderia viver. A paz e a felicidade que seria ser uma coisa só e una era compensada pelas incontáveis aventuras e experiências, pela diversidade de sentimentos. Cada pequena sensação, como a beleza daquela luz de fim de tarde que dora ligeiramente o adorno de uma cadeira de um bar de uma esquina, tinha uma aura, uma importância; era sagrado, de certa forma, porque era visto através do sacrifício dessa paz. Essas pessoas sentiam que tinham uma missão na vida, muito embora nunca soubessem exatamente qual. Quase nunca dedicavam sas vidas completamente a um grande objetivo (como viam algumas pessoas externas fazerem), porque seus corações estavam demais envolvidos em apreciar toda a beleza do mundo, e construir o mundo, e às vezes se espalhar e se tornar ainda mais pessoas, com gostos e qualidades e características diferentes, novas, que só seriam possíveis naquele instante, naquele lugar. E essas pessoas mudavam, e adoravam mudar; mas sentiam também uma perda, uma dor de abandonar o que eram antes, como se isso fosse cortar fora uma parte de si mesmo. Mas o rapaz mudava, e se dividia, e se distraía, e se apaixonava, e todas essas coisas eram ele ao mesmo tempo. No final, ele voltou para casa, mas ao chegar lá ele percebeu que se sentia vazio, e sozinho, e que as pessoas pareciam estranhas, e distantes, e que ele não consegia realmente se conectar com elas... Aos poucos ele notou que ele não voltara realmente, e sim que ele se divdira mais e mais até se tornar, em parte, ele mesmo; e que apenas essa parte voltara, e que essa parte estava em casa, no seu mundo, e que nenhuma das outras pessoas era ele, e que todas as outras pessoas eram estranhas e externas e feitas de pedaços de outras pessoas diferentes dele. E ele começou a se esforçar para enxergar no seu mundo as mesmas pequenas beleza -- o sol e o vento e os pequenos detalhes das cascas de árvore e das frases que os padeiros usam nas padarias -- e algumas, às vezes, lhe lembravam um pouco de coisas que ele havia visto no outro mundo... mas algumas eram novas, e eram lindas mesmo assim, e ele tentava se dividir e se tornar muitas pessoas para melhor apreciar todas essas coisas, mas não conseguia. Ele tentou voltar para o outro mundo, mas também não conseguiu. Então, ele continuou vivendo, ainda desconectado e sozinho, tentando o melhor que podia apreciar toda a diversidade do mundo sendo apenas uma pessoa, um aspecto de si mesmo.

A outra história era a minha história.

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Aftermath

Love, lust, friendship, alcohol
I'm not sure of which we have become
Everything is blurry, people in a hurry
To prove that they are young and wild and fun
Pictures of dancing, all is recomencing
Why do I suddenly feel so old?
People getting wasted, but I just wanna taste it
And I'm not sure of what shall now unfold

And I don't feel free
I want you with me
But that doesn't mean I want everybody
I feel so stuck
Everything's so fuckedup
And I start to feel like I don't own my body

Dance, lust, playing, alcohol
I'm not sure I like where this is going
Everything is changing, seems nobody's aging
I can't see how far this thing is growing
Pictures of hot babes, dudes are liking always
How the fuck can this joke never get old?
People getting wasted, but I still wanna taste it
I want to be respectable and bold

And I don't feel fine
I give up this time
But inside I feel like I hate everybody
I feel so used
But I'm still confused
Like I failed to be of anyhelp to anybody

Love, trust, friendship, fun times
But I have no idea of who you all are
Everything is lacking, I see myself respecting
A way of things disturbing and bizarre
Pictures of cool guys, people telling old lies
Say everybody's hot, nobody's cold
People getting wasted, but will they ever taste it?
Feel's like it's all irrelevant and old

And I feel like

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

You Are The Sunset

Eu ainda sinto a tua falta, nos momentos mais absurdos. E às vezes não.

A vida mudou tanto. Antes tudo o que eu fazia eu fazia pensando em ti. Todo texto que eu escrevia, eu escrevia para ti. Mesmo quando eu queria que outros lessem, no fundo o escrever era sempre teu. As palavras, os parágrafos, as vírgulas eram tuas. Minhas palavras eram tuas, meus dedos eram teus. Eu escrevia porque um dia me pediste, eu escrevia porque escreverias também. Faz tanto tempo.

Lembras daquela menina descendo os degraus da escada para o porto? Eu estou correndo, também. Competindo com ninguém. Perdendo, sempre perdendo. Mas a vida é tão linda, e tudo é tão antigo, e cada passo desta corrida me leva para lugares mais inncríveis. Às vezes é ruim, mas com mais freqüência é maravilhoso. As coisas ruins são apenas um retrogosto da delícia. O vento está sempre soprando em mim.

You are the wind, carrying me away through worlds and wonders. You are the words we battled with, the favorite words. You are the lonely traveler, the content bard, the wiseman in the caravanserai. You are the wind, the bird, the vessel, the song.

Eu me dei conta de que não escrevo mais para ti. Escrevo para mim, para os meus, tu foste embora e me deixaste aqui, ou eu te deixei. Eu visito o demônio de ti com freqüência, mas sinto falta não do poeta louco, não do ladino apaixonado, e sim do marinheiro do infinito. Sinto falta de tuas histórias.

Não tenho vontade de voltar. Éramos tão tolos e tão frágeis... Hoje sou mais forte, mais sólida, sou mais como a árvore, como a água, como a terra que nos sustenta. Hoje meus pensamentos são menos negros, e uso menos minhas garras. Mas sou menos como o vento que levanta e gira num redemoinho, menos como as folhas que caem rodopiando das árvores, menos leve... mas mais leve também. Mas como a grama que se deixa balançar, mais como as núvens que mudam de forma. Tudo é mais tranqüilo agora. Só me dói não compartilhar esta tranqüilidade contigo.

A vida mudou tanto! Mas ainda te lembras das histórias que eu contei, e eu ainda quero saber mais sobre as tuas histórias. Conheci tantas outras pessoas, tantas outras histórias, vivi outras aventuras e mudei, mudei muito, me tornei mais feroz e depois mais segura, conquistei outras pessoas, explorei outros mundos... sem ti. Mas durante muito tempo planejei voltar e te contar, do Deus que vive nas pedras à beira-mar, da leõa-princesa que roubou meu coração, das cidades abandonadas, do amor... mas não voltaste, não voltaste e eu também tinha uma raiva guardada contra ti, uma raiva da pessoa idiota que eu era quando fiz todas aquelas promessas... Mas não mais. Eu te perdoei faz tempo, e depois me perdoei também. E parei de me preocupar, e abandonei as promessas. Parei de escrever para ti. E, sem perceber, perdi todas as passagens do meu mundo para o teu.

Mas não te enganes: eu ainda te amo, de um jeito estranho, sem paixão, sem promessas, sem espaço para dor. Ainda és meu bardo favorito. Ainda procuro, sem saber como procurar, as entradas para o castelo nas núvens. Mas estranhamente não sei se o castelo ainda existe. O que existe? O que resiste? Tanto tempo passou, e nunca mais realmente nos falamos. Mas quero que faças parte da minha vida outra vez. Só não sei como fazer isso. Não sei, não sei como começar uma... uma amizade.

domingo, 16 de setembro de 2012

Obcecado

Seus braços nus cobertos de pêlos
Suaves
Hmmm
Para passar os lábios sobre a pele, suavemente
Saboreando, como a um pêssego
Mordiscando
Farejando
... isso é amor?
Doce, doce, doce
Delícia
Incalculávelmente bom
Nos meus braços, você geme
Amor.

Acordo.
O mundo me inunda de cheiros, calores, suores. Você?
Você, te procuro, você?
Penso, penso, seus olhos, seus olhos maravilhosos
No meu sonho, você geme
de prazer.
Amor.
Agora dói
Lentamente, aos poucos
Vai se espalhando pelo sonho primeiro
Pelos pensamentos, pelas lembranças
Entra no peito, fica difícil respirar
Meu estômago está deprimido
Tudo é tão pesado
Essa doença passaria se ao menos eu pudesse abraçar você, engolir você
Comer você numa bocada só

O dia passa.
Você está na rua?
Você está online?
Você está no caminho para minha aula de dança?
Meus amigos marcam de sair, você vai?
Te procuro em todas as possíveis oportunidades
Você orienta cada um de meus passos
Me distraio e perco metade do dia pensando, pensando...
Tenho seu número. Te ligo?
Te mando um e-mail? Meus dedos digitam dezenas de mensagens, apago todas
Você não quer ouvir bobagens apaixonadas
Você não quer que eu te incomode
Me contenho. Me contenho.
No meu sonho, você geme
Dói!
No meu sonho você me ama. Fecho os olhos e acordo outra vez, dói outra vez, perder seu amor.
No meu sonho eu sou a pessoa perfeita pra você.
Eu nunca vou ser a pessoa perfeita pra você.

Chego em casa e encaro uma noite sem você
Cada segundo se arrasta
Saio com os amigos, quero esquecer, eles falam da vida e eu ouço
Você, você, você, você
O que você acharia dessa conversa?
Será que você chega inesperadamente agora?
Você muda de idéia e aparece sem avisar?
Começo mais uma mensagem
Lembro que você está em outra cidade.

Tarde; deito na cama
Olho pro teto e me pergunto se vou sonhar com você
outra vez
Vai doer outra vez?
Vai ser lindo outra vez?
Quero;
digo que não quero mas quero, quero porque de noite você me ama
E você nunca vai me amar de verdade
Ou vai?
Penso em tudo o que eu deveria fazer pra te conquistar
Durmo
Sonho

De noite seus olhos maravilhosos olham no fundo dos meus.

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Um Instante

Num instante viro você:

Pernas, pêlos, o cheiro humano de você me completa, a suavidade de você me encanta.
Encantado, ponho meus lábios em você, paseio meus lábios por você, ponho você em minha boca, exploro você com a minha língüa. Sinto a reação de você sentindo a minha língua.
Sinto seu gosto e o gosto de cada pedaço próprio de você. Te mordendo, te experimentando. Sinto que estou te experimentando há sete, oito, nove anos. Mordo sua orelha, mordo sua garganta, passo os lábios por seu cabelo, por sua sobrancelha, entrelaço minhas pernas em você, confundo meu corpo com você.

Abro minha boca sobre você. Enfeitiço você com a minha fome, olho nos olhos seduzidos de você. Sinto o calor de você, o desejo de meu corpo que o cobre, cubro você com meu corpo enorme, abro minhas costelas para engolir você.

Mastigo você, desvagar, com prazer. Interessado, exploro você. Invado você, percorro você, espalho minhas raízes por dentro de você, broto e floreço em você. Cresço em você, e ao longo dos anos você se torna eu. Permaneço em você, e nunca deixo de ser você.

Devoro você, e na hibernação que segue, te esqueço.

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Fear

Take me with you when you face the world
When the world begin to fall apart
Take me with you to the darkness's heart
Take me to the end of all I know

When the voice of hope become a whisper
When the horror overtake the land
Take me with you, guide me by the hand
Through the path of firestorm and blister

Take me through the tempest and the cold
Take me with you when you leave your shelter
When the wings of dream lose all their feathers
Lead me through the nightmares that unfold

Take me with when you face our doom
Through the thunders of the unforeseen
Leave me there, where all the fears begin
Make me watch the reckless future bloom

sábado, 14 de janeiro de 2012

Duas Mulheres

Todas as coisas fenecem.




Todos os seus olhos me acompanham. Há uma luz entre nós, uma discordância. Minhas mãos acariciam a sua, levemente; talvez eu ainda tenha um pouco de mêdo. Uma vontade muito grande de te abraçar, sem saber como te fazer se sentir amada.

Elogios. Eu sou a mulher das sombras, com sombras vermelhas cobrindo meu corpo. Os olhos dos homens me seguem quando eu passo. Eles sorriem, eles comentam e elogiam. Eles não entendem que não sou eu que passa, é a Mulher das Cores que passa. A mulher das sombras. É outras, é a Máscara que eu vesti ontem, a fantasia que escolhi. Eu não sou Lady, tanto quanto o Ítalo não é um travesti. Eles não entendem que eu nunca me vestiria daquela forma. Mas Lady sim.

Eu sou a mulher das cores, com cores vermelhas cobrindo meu corpo. Meu corpo feminino ressalta a feminilidade do personagem, e eu sou uma flor, por uma noite. Os olhos dos homens me seguem quando eu passo, mas eu conheço os olhares dos homens, e o olhar de hoje é apenas um olhar de apreciação. Eles sabem que não sou eu que passo, é a Dama que passa, a Mulher das Cores. Não é esse olhar dos homens que eu procuro, é o seu olhar que eu quero. Você atrai os meus olhos, mesmo quando você esconde os seus olhos, em dias como este em que você é um gato, mais que uma garota. Você não precisa ser sempre uma garota; você se dá ao luxo de às vezes ter uma beleza masculina, e outras vezes ser extremamente feminina. Esses mesmos homens que me olham quando eu passo, eles não conseguem te entender. Sua insegurança não é a mesma que a timidez das outras mulheres. Você nunca olha pro chão.




Eu me pergunto se você vai entender. Às vezes eu te vejo e não consigo tirar os olhos das tuas pernas, e isso me perturba, às vezes me perturba tanto quanto quando eu percebi as mudanças no corpo da minha irmã depois que ela começou a fazer academia - irmãs não deveriam ficar gostosas! E quando eu te conheci eu construí uma imagem sobre você, uma imagem nascida do embaraço de te encontrar na tarde seguinte, e do seu sorriso e da sua diversão. Mas você não é tanto um filhote como aquela mulher que nasce dos ossos do lôbo que a Mulher dos Ossos recolhe e sobre os quais ela canta. Ela canta a sua canção e você nasce, você mulher, você bruxa. Você Donii que vira fera e vira pássaro para trazer a bênção da Grande Mãe. Você nasce dos ossos e da canção e corre pelo deserto nua, as lôbas e as aves te seguem, você corre e grita jovem com longos cabelos ao vento; seu Daemon é uma criatura que dorme com você abraçado forte mas que voa longe sem precisar estar sempre do seu lado. Você engana, você esconde, você é mágica. Se me perguntassem, eu me recusaria a falar sobre você. Você é em silêncio.




Eu queria conseguir entender, e aceitar, mas meus olhos não me obedecem, e eu sinto um tipo novo de mêdo, e tudo parece tão novo e assustador e empolgante. Parece que uma nova parte da vida está começando, e eu ainda não conheço as palavras certas que eu devo usar. Você é parte de mim, e você é diferente de mim. O mundo se transforma diante dos meus olhos. Eu quero pedir a todos que não tentem entender, por ora, o que eu escrevo. Não cheguem a conclusões. Olhem nos meus olhos, e bebam do meu deleite. Eu me sinto prestes a explodir. E de uma forma nova, eu amo.

Eu amo muito! Parece que a cada dia eu amo mais, e melhor. Eu sinto dor, eu sinto saudades, eu sinto apreensão pelo futuro desconhecido. Entretanto não há saída, e haverá luta. Eu amo e a cada dia eu amo mais e com menos receio, mas há muitas barreiras a atravessar. Eu corro pelas colinas, pulando cercas e pedras, eu corro pelo pântano, eu sou um cavalo alado branco, eu sou você. A Mulher dos Ossos canta e eu sou, mas eu sou o Lôbo que levanta, eu corro nas quatro patas pela floresta, meu mundo é verde e feroz, e quando a luz me atinge eu viro luz, e uma mulher corre, e esta é você. Eu sou a Mulher dos Ossos. Talvez todas sejamos. Os tempos se misturam e nada mais é conhecido, nada mais é previsível. Eu exploro.




A luz me mostra uma onda no seu cabelo e eu me pego de novo olhando pra você, indecisa, querendo sentir o seu cheiro, explorar o seu corpo (seja a minha aventura). Algumas vezes eu sonhei com você. Eu não posso exigir nada, eu não posso esperar nada, mas eu tenho vontade de te tomar nos braços, e às vezes eu tomo e a vontade passa, e às vezes ela volta mais forte, e às vezes ninguém enxerga, e eu não consigo entender. Eu quero descobrir, eu quero entender o que está acontecendo com o meu mundo, e eu não sei ainda, mas você parece importante. Você está no vento, nos animais e na terra, ou você está ao meu lado, procurando e perguntando também? Eu não posso exigir nada, eu não devo esperar nada, mas eu posso propor, eu posso oferecer.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Feminino

Eu quero galopar pelo meio da Avenida Paulista. Montando uma égua negra, adolescente, no cio. Vestida como um caubói, de pé sobre os estribos, gritando e brandindo minha carabina vermelha.

Eu quero escalar a montanha escura e salvar uma princesa. Vou seduzir o dragão a conquistar o mundo comigo, e nós duas voaremos nas costas dele, eu de meia-armadura negra, com grandes espinhos. Encontrarei a princesa de vestido longo cor-de-rosa e uma tiara com jóias delicadas, mas para o nosso urro bestial de cima da montanha é preciso que nós três estejamos nuas. Minha princesa revelará tatuagens coloridas de roseiras em suas pernas.

Eu quero liderar o bando de leoas, garantindo a carne para o bando, tendo certeza de que dentes fortes se fechem sobre a garganta da presa. Eu urrarei para manter os machos e os rinocerontes longe dos meus filhotes. Eu ofereço um grande pedaço de caça ao leão grande e forte que ganhou todas as batalhas para merecer ser aceito no nosso bando.

Eu quero dançar no baile usando vestido de cauda. Meu par se vestirá elegantemente, e quando eu rodar nos seus braços minha saia se enrolará nas pernas dele. Nós usaremos márcaras de animais, e meu vestido terá asas de demônio, e todos perguntarão quem nós fomos, quando bater meia noite e nós desaparecermos.

Eu quero me pendurar no cordame e cantando uma canção alegre, gritando para abrirem as velas, quando a tempestade passar. Eu correrei pelo convés e mergulharei no oceano, e minha forma de sereia terá longas escamas azuis e saberá falar com a serpente do mar. Minha tripulação aguardará minha volta, mas mantendo o rumo, que será sempre a próxima ilha desconhecida. Enquanto isso eu explorarei os mistérios do mar e conhecerei uma porção de sereias magníficas que preferem viver longe da superfície. Mas eu voltarei para o veleiro para determinar o próximo rumo, e para negociar com os outros capitães, e para liderar batalhas, e para ouvir as histórias dos marinheiros e adormecer no meio dos meus homens, em forma humana, segura de quem eu sou e da minha posição.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Fearing, Doubting

There's only love left,
And some wonder.
There's a dream just beyond the corner
There's a fortress that refuses to be taken
And a princess that refuses to be saved

She's in love with the dragon, or so they say
But shouldn't it be the ther way around?

It's dark in here
Do light a candle
There's a bud in the cradle where the baby wolf should be.

There's a chance of saving the world, but only if we are really lost can we find ourselves.

It's lonely in here.

I had a dream once. It was here, in this very place. It was dark and eerie and your dangerous eyes were glowing. You said,

"Was it hot?"

I was a dream, once.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Repetindo

Eu li este post antigo e tive vontade de destacá-lo. Não consegui pensar em como. Então vou simplesmente publicar de novo.

"Pensando bem, eu não vou voltar.
Eu não quero voltar. Eu só vejo fogo lá atrás.

Eu quero queimar tudo.

Eu não quero tentar reacender velhas amizades, eu não quero me basear em nada do que já foi. Eu quero cortar minhas raízes, e esquecer o passado.

Pensando bem, eu nunca vou me encontrar. Eu sou um pássaro que já voou, um inverno que passou, uma estrela que morreu, uma peça que saiu de cartaz.

Eu não quero guardar nada do meu passado. Eu quero enterrar cada caderno, cada carta de amor. Eu não quero sequer me lembrar dos sonhos, das risadas. Eu quero cortar o pecíolo e me largar no vento.

Eu quero perder a idade, perder o mêdo de envelhecer, perder o arrependimento, perder o compromisso. Eu quero perder a dor, perder a traição. Eu quero perder a culpa de ter abandonado.

Parece que quando a gente resolve um problema, a gente praticamente esquece que ele existia. Então eu quero esquecer de tudo. Eventualmente, tudo desaparece.

Eu quero me libertar da vida que eu tive até aqui. Esquecer que estou presa a ela, esquecer o dever que tenho para com ela. Eu quero recomeçar.

Acho que quem em sou agora não bate com a visão de mundo que eu tinha antes. Não bate com quem eu era, no que eu acreditava. Eu quero fechar os olhos e parar de tentar entender."

Du.

Do lado de fora do círculo, uma borboleta voa como se fosse luz colorida. A borboleta é na verdade um dragão. O dragão é na verdade uma enseada. O veleiro na enseada percorre um círculo ao teu redor e canta em louvor da tua caminhada sobre as águas. Tu és uma fada. Tu cantas. Tu és o Lobo na noite, a Gata, os pêlos teus brilham sedosos refletindo um beijo matrimonial da Lua. A Lua na verdade é um espírito da chuva. Eu sei, eu corri com ela por cima de poças d'água e voei no flanco das águias procurando olhos que vissem longe, e encontrei os teus. Eu não sou tua, mas ainda assim sigo tuas pegadas. Eu sou tua porque te amo. Eu sou o Amor, O Mais Lépido dos Dragões, minhas patas fortes e grandes percorrem espaços minúsculos por cima de montanhas ancestrais, e ao meu redor todos se apaixona, ao meu redor as urzes, as carmelitas, as senóides, as taturanas. Tu és a curva regular de um regato com inclinações matemtáticas, o revelo de uma fazenda de formigas que inadvertidamente imita uma representação da função de Riemann. Eu sou uma formiga, primitiva e carnívora, uma formiga com pêlos, com caninos. Debaixo da lua eu sinto o calor dos mamíferos, eu sinto o amor dos bichos sociais, eu crio a vida em pequenos flocos, eu passo adiante um olhar de doçura. Eu sou tua porque te amo. Eu te amo porque nas bordas de um mar imenso me parece que todas as ondulações representam a canção que quero compor para ti. O castelo de areia na verdade é uma luminária. A luminária imita um vagalume. As tuas mãos imitam as mãos de milênios de cuidado carinhoso. Tu és uma serpente do mar, leviatã imensa, a luz da lua te faz brilhar prateada, tuas escamas parecem véus de seda em dias de casamento. Tentas nos falar e ouvimos o rumor primordial das nuvens. Mas tanto quero te ouvir que te entendo. A serpente na verdade é uma criança, e a criança brinca com um filhotinho de gato no jardim de uma casa de campo. Eu te quero porque te amo, porque sonho com estar contigo, porque imagino uma vida de risadas e viagens por mar. Eu vestirei a roupa do cavaleiro negro e te protegerei de todos os perigos. Eu enfrentarei os monstros e os magos cruéis, mas eu te darei a única coisa realmente boa que tenho a oferecer. No meu leito de morte, na luta derradeira contra o último dragão (e é necessário que eu perca a batalha para que os dragões sobrevivam e para que entendas o que vim fazer) eu tocarei teu rosto com minhas mãos rudes cobertas por grossas luvas, e entenderás meu carinho e minha doçura, e me amarás um pouquinho, mas saberás que não é o toque de meus dedos no teu rosto que tenho a oferecer. Quando eu te levar a galope por campos ancestrais, quando eu rir um riso de criança em tua companhia, nada disso será o que realmente quero te dar. Os homens em verdade são todos meninos, e todas as mulheres são crianças. Eu não sou melhor do que eles, e eu não posso te enganar. Mas eu te tomarei nos braços quando estiveres triste, e eu dançarei contigo quando estiveres contente, e nós andaremos da lâmina de luz que se estende sobre o mar do Belo Reino. Eu te amo, e quero compartilhar esse luar contigo. Eu tenho tanto mêdo de que não entendas... Eu tenho um mêdo imenso de que não sejas a dama que enxergo quando te vejo. Mas, mesmo se fores outra pessoa, outro tipo de fada ou mulher, eu ainda te terei em grande estima. Ainda oferecerei minha espada se quiseres ser minha rainha. Eu não posso evitar o cavalheirismo quando enxergo teus olhos feminis. Tu és a leõa com quem tenho sonhos nas minhas noites de presa. Tu és a esfinge. A esfinge na verdade é uma avó antiga da rainha Titânia. E as harpas dos meninos gregos fazem a trilha sonora do teu caminho. Tudo isto é teu, se quiseres, se puderes ver. As paisagens infinitas se cobrem de forração verdejante. No lombo de feras imensas eu conheci os corpos de homens e de animais paleóticos. Eu dancei com os mitos antigos antes de te conhecer. E tu me fascinas porque também olhaste nos olhos dos mitos. Mas não sei dizer o que pudestes ver. Eu queria dizer que anseio por percorrer contigo um campo infinito. Mas eu tenho muito mêdo de que digas "não".

Se me abandonares às minhas próprias aventuras, ainda assim não ficarei solitário. Meu espírito vagará em boa companhia, embora talvez eu ainda me sinta um pouco só. Voltarei para te contar de todas as histórias, e por mais que me doa tudo o que não puder ser contado, tentarei ao máximo mostrar a beleza das pequenas coisas, dos detalhes dos encontros. Da borboleta que na verdade era um dragão. And so forth. Mas quero te pedir que não te vistas sempre em roupas de rainha, porque alguns tipos de trabalho exigem um gibão de couro e um par de galochas. Nós vamos entrar juntas nas florestas difíceis da terra dos Anjos. Nós vamos encontrar os olhos de antiqüíssimos deuses do Norte, de antes do Ragnarokk. E vamos pegar carona nos velhos ventos. Serás minha princesa, mesmo se não fores minha companheira de batalhas. Mas meus companheiros então serão tufões de vento, criaturas da noite, pessoas de coração como o meu, dispostos a enfrentar dragões, capazes de amar os dentes das bocas que os mordem.

Eu não guardarei rancor, porque também os amo, porque não estarei só e entenderei tua decisão de não vir conosco. Na verdade apenas serei capaz de aceitar essa decisão porque não estou só, mesmo agora. Tenho um sonho que me acompanha, um gato de orelhas negras que está sempre perto dos meus pés e corre comigo e me carrega nas costas quando preciso descansar. Eu sonhava com que dormisses comigo aninhada na barriga fofa desse animal, eu sonhava com que caçasse conosco pelos campos nevados e pelas florestas fechadas e pela tundra que cobre as planícies perto da noite. Mas se me disseres não, montarei no flanco do meu gato, vestirei minha armadura e amarrarei teu lenço, minha dama dos sonhos, na ponta da minha lança, antes de seguir para o Castelo de Nuvens onde o Rei dos Elefantes, que tem seis braços de seis diferentes cores, me dará uma missão. Eu não ficarei sozinha, mas em noites de lua mansa em que a brisa do mar-de-longe me trouxer o cheiro das nossas viagens, eu segurarei o lenço, rasgado e manchado de sangue, perto da boca, sem coragem de morder, com mêdo de perturbar os velhos demônios da tua falta. E tu serás um sonho que corre pelos uivos dos lobos, vivendo uma vida fora do meu alcance. Eu voltarei para ti, cheio de cicatrizes, e beberemos e comeremos e trocaremos histórias de caça e de reinado. Mas a cada inverno eu me terei mêdo de ter te perdido outra vez. Eu quererei te ter comigo, meu irmão de sonhos, minha irmã de noites. O gato na verdade é um homem. Tu viverás sem mim. Eu me esforçarei para parar de mentir para ti, de parar de me esconder. Tu serás feliz.

Mas esta noite, quando eu morrer na luta contra o dragão, eu cavaleiro de histórias antigas, eu teu Lancelot-Morgana, condenado a te deixar nas mãos de Guinevere, eu tocarei teu rosto com amor e explodirei como um milhão de liridas g'alambra, um milhão de pássaros de sombras levando-te comigo em todas as direções. E tu te tornarás um animal de asas.

Nos separaremos, então. Sempre nos separamos. Mas distantes é que se torna forte a única coisa realmente preciosa que posso oferecer e que ainda não tenhas: sozinha é que melhor saberás apreciar a Liberdade. Antes de ser Lancelot eu me chamava Galahad. E tu, quando não eras rei, te chamavas Gwydion. Tu eras um gamo jovem. E tu eras uma dama-fada, enfeitiçada pelos rei de Faërie. E eu era uma Lôba jovem, Raksha, uma mãe de lobos e homens, uma mulher do sangue, e um príncipe, desses que toma navios para o fim do mundo, desses que nada tem fora a própria liberdade. E eu... eu vim até aqui apenas para oferecê-la a ti. Eu sei que não a queres. Eu sei que queres todo um outro mundo. Mas não posso evitar sonhar com a tua companhia. Não posso evitar sonhar que enxergues que apenas quero te permitir ser feliz mesmo quando os reis do teu castelo não puderem te fazer sorrir. Eu quero te dar a ti mesma. Eu quero os teus olhos nos meus. Eu tenho mêdo. O rei era na verdade um namorado. O gamo era na verdade uma carta. A espada era na verdade um telefonema. Vamos voltar para casa agora. Eu te amo.

domingo, 24 de abril de 2011

Rés [julho 2005]

Cheiro de sangue
de dengue
de mangue
Cheiro de carniça no deserto
Cavalo de rumo incerto
Corta o campo
Cheiro de morte
O rosnado
O campo o mundo
O cheiro.










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Acho que este é um dos primeiros poemas que eu escrevi com um tema tão corporal, animal. E ao mesmo tempo o tema é abordado quase que totalmente pela sonoridade das palavras e pela sensação das metáforas. Acho que deve ter representado um grande passo para mim, deixar que a linguagem fizesse o papel dela e não ficar querendo clarificar tudo a cada passo. Não tenho nenhuma observação engraçadinha sobre uma palavra ou verso que tenha sido por acaso.

O que dá pra tirar desse poema, relendo-o tanto tempo depois? Acho que para a Lobz de 2005, cheiro tem a ver com sílabas longas, arrastadas, que trescalam ao fundo da garganta: san, den, mas, car, ser, rum, cer, cor, cam, mor, ros, mun. A única palavra que foge do padrão é 'cavalo', mas o que pode ser mais mundano e animal que uma besta suada e recendente? Além, acho que complementa essa idéia de sertão e tal. Pus o título tentando encontrar um substantivo para "recender", mas acho que não tem.

Acho que existe também um animal selvagem, carnívoro, observando a lida suja do cavalo e da morte (embora o cavalo possa ser lido como uma metáfora), nos últimos versos. Observe como a visão dele é altamente simplificada, rosnado-campo-mundo-cheiro.

É divertido reler meus próprios poemas e tentar enxergar os possíveis fios de pensamentos. Espero que seja divertido para vocês também.

À Deriva [jul 2004 - fev 2006]

Ando sem rumo
no mar, sem prumo,
no rio à baila
à deriva
sem cor, sem sumo
ando perdida.
O amor, a vida
o mar do mundo
me deixa à margem
ao fundo
sem dar guarida
a um vagabundo.
Ando por nada
estou recortada
do meu papel
meu cais
do porto-seguro
o escuro
esconde a enseada
com névoas em véu
ando deserdada.

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T) Este é outro tema recorrente, e não me impressiona muito que eu tenha passado um ano e meio escrevendo esse poema. Digo isso de uma forma poética: não me impressiona que eu tenha passado um ano e meio me sentindo assim. Também não me impressiona nada que o mar seja a metáfora base, já que ele representa quase naturalmente esse sentimento de falta de caminho. Gosto bastante das metáforas deste poema.

L) Vocês repararam que eu usei a palavra "guarida", que acho que nunca mais usei na vida? Acho que era só porque tinha acabado de aprender e queria aplicar em alguma coisa.

obs.: me dei conta de que quase sempre faço uma avaliação do tema e do desenvolvimento e depois alguma observação sobre um detalhe da linguagem. Achei que eu podia institucionalizar isso.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Aqui.

Eu te amo. Mas eu não apenas te amo como eu amo todas as outras pessoas que eu amo. Eu estou disposta a sacrificar milhões de futuros pelo meu futuro com você. Os filhos que eu teria com outros amantes, as festas de natal com outras famílias, as bibliotecas compartilhadas, as casas, as canecas e os sofás e todas aquelas madrugadas e manhãzinhas e conversas antes de dormir quando a gente está dormindo junto só porque a gente dorme junto sempre e é tão mais gostoso do que dormir sozinho. E vários tipos de aventuras românticas loucas, e várias descobertas profundas e vários momentos cotidianos e outras coisas que só acontecem numa convivência tão íntima e tão intensa que é não dá pra ter de verdade com mais de uma ou talvez umas poucas pessoas.

Eu quero viver a vida com você. Todas as madrugadas e viagens longas na chuva, e cafés da manhã a almoços no fim da tarde e todas as pequenas mazelas e todos os grandes desafios, e eu quero poder te contar todos os dias das coisas legais e chatas que aconteceram comigo, e ouvir você se emocionar com elas e se revoltar com as coisas que são erradas e rejubilar com as que são felizes, e ficar preocupado com as que são perigosas porque assim eu não estou sozinha. E eu quero ouvir você contar suas pequenas aventuras e as formas incríveis como você lida com tudo o que te acontece, porque eu nunca me canso de aprender sobre você e com você.

E, enquanto nós crescemos juntos, enquanto nós andamos juntos pelo mundo, pela vida, eu quero nossas vidas misturadas. Eu quero nossos irmãos tomando conta dos nossos filhotes, discutindo coisas improváveis em volta de uma grande mesa de piquenique, ou algo assim. Eu imagino sua irmã contando histórias para os meus sobrinhos, possivelmente enquanto todos nós subimos numa árvore e nossas mães e tias compartilham histórias de quando nós éramos pequenos, e eu quero todos nós juntos cantando samba e choro em alguma festa de família e nossos amigos contando histórias embaraçosas sobre nós para as crianças (se nós não tivermos filhos, eles ainda contarão para nossos sobrinhos).

E, sabe, eu quero isso devagar, minuto por minuto, cada aluno que não entende direito o que você ensina, cada lista de matemática que eu não consigo terminar, cada noite que a gente passa em claro porque o jogo ou o papo ou o mundo estão muito bons ou porque pelo menos um de nós está distraído demais com alguma pessoa incrível, cada improviso de fantasia, de viagem, de apresentação, cada entrevista de emprego, cada procura por orientador, cada pessoa nova que surge em nossas vidas ou pessoa velha que muda. Eu quero todas as viagens impulsivas no meio da noite só porque faz muito tempo que a gente não vê Minas, ou o Mar; eu quero todas as experiências transformadoras com você; eu quero cada partida de cada jogo em que a gente vicia, cada brinde, cada pote de sucrilhos e garrafa de cerveja; eu quero cada pôr do sol que nos emociona, e cada beijo, e cada transa, e cada arrepio diante da potência de uma tempestade, e cada abraço que podia nunca mais largar; e cada toque entre as nossas peles, e cada brincadeira sua com o meu gato, e eu quero construir um trecho de universo nosso, que seja um pouco mais do nosso jeito, e que seja por isso um pouco mais feliz.

E como eu quero te fazer feliz! Eu quero te ver conquistar os seus sonhos, e mudar a vida de muitas outras pessoas, e construir comigo esse futuro a cada passo, sem pressa, porque você é tão confiante de que tudo já está dando certo afinal. E eu quero estar do seu lado a cada mudança, a cada passagem, aprendendo sobre você, mudando junto, mandando tudo pro espaço e te puxando pra Zanzibar toda vez que a vida começar a ficar muito sem graça. E eu quero infinitas horas pra ficar enrolada com você, só curtindo o prazer de te amar tanto. E eu quero tudo isso com todas as palavras, mesmo que em gatês. Eu quero tudo isso com todas as histórias, loucuras e verdades. E eu quero viver pra sempre com você.



...Num assunto não muito relacionado, eu também quero muito levar aquele seu amigo delicioso pra casa. Se você pudesse dar tipo um passe-livre pra gente, ia ser realmente fantástico.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Sozinho [9/3/2005]

Estou só
Inteiramente só
Precisamente só, neste poema silente
neste poente.
A fome, a dor, a pena
não encontram
procuram
a perdição oculta em minhas pequenas mãos
a árvore
a folha
a pedra fria e a minha solidão
Não incomodam
como a dor e a fome
machucam.
o céu azul não adivinha
a grama nascendo
sob meus olhos
o fluxo do sangue
paixão eterna juvenil
meteoritos, explosões de plasma, líbelulas voando infinitamente rápidas e volúveis em sua discrição perene,
uma gota
d'água.

---

Ah, esse é um dos poemas de que eu gosto de verdade! Fiquei muito feliz com a progressão rítmica dele. Além disso, as imagens são muito minhas.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Do som que sai dos teus lábios

texto: Marina Salles
ilustração: Márcio Zamboni
música: Carl Orff


Então eu abro os olhos e meus olhos se enchem de música. Aí está você: nesse som, nesse verde que enche meus olhos quando eu vejo a paz que me invade quando eu ouço esta melodia, estas vozes. Neste momento, eu te amo. Neste momento eu sou o que eu quero, um cavaleiro voando sobre os campos, nada me pára, nada me contém, há coisas que eu salto e há coisas sob as quais me abaixo, mas nada se interpõe à minha vista do céu, porque neste momento eu sou livre, e neste momento eu alcanço o que você quis me dar. Eu alço vôo e o mundo é realmente tão grande!, como você disse... Uma guerra uma poesia se desenrola debaixo de mim. E de repente há silêncio. Acabou uma música.
Você concordou que dizer eu-te-amo era muito complicado e eu tive que me explicar: o que estou dizendo é: (eu te amo é:)


É que você chegou a mim
E num instante você viveu em mim
E sem perceber você entendeu uma parte de mim
Você estendeu a mim a sua chama
Você alegrou meu coração e mudou minha vida
E agora...
E agora eu te dou um passe
Para que entre e saia livremente dessa terra
Um passe-livre por meu coração.


E agora é esta a paisagem dentro de mim: há tapetes vermelhos dentro de um castelo, uma fortaleza, que assoma no topo de uma encosta, eu eu sou o pássaro que circunda a torre mais alta, e eu sou o homem que entra com passos pesados na sala do trono. Tudo é um sonho e tudo se desfaz. A música muda e as faces dos homens mudam. Tudo é energia, um tambor que bate regendo o coração dos homens. E eu estou aqui, eu sou as paredes e os cascos dos navios, eu sou o couro dos tambores, eu estou aqui tentando sentir e entender, procurando a resposta, procurando através dessa música, procurando a lembrança do som que saiu dos teus lábios. Eu procuro (e eu sei que é em vão) o som da tua voz através das trombetas, o som da tua voz cantando pra mim, a lembrança de você olhando nos meus olhos. Tudo é tão suave, e tão pesado, e entretanto de repente eu sou uma pomba, eu vôo sem destino, meus olhos são lágrimas, minha boca é um gosto passado, eu sou um anjo perdido procurando a resposta, procurando o sentido do som que saiu dos teus lábios.


Quem eu sou? Você me pergunta e eu sou a sua pergunta. Mas agora não importa. Quando sair de mim, deixe aberta a porta -- há muito lá fora que eu quero convidar a entrar; há muito no mundo que eu quero habitar, mas que também quero que me habite. Eu devo ser a terra e o viajante (eu devo ser a estrada e o violeiro) e eu devo ser a fonte e o sedento, e eu quero ser bem boi como berrante. Me guia e eu te guio! Eu sou o céu e a estrela. Eu não ouço as palavras desta música, mas pra mim é como o céu cantando, eu ouço a voz dos astros e eu flutuo entre eles. E eu ouço a voz da vala das estrelas. E eu lembro da sua história, e eu tento imaginar a beleza -- como será acenderem-se as estrelas?


Então as estrelas disparam e o mundo vira uma torrente uma avalanche, eu páro no meio da música, olho ao redor, suspiro, respiro fundo e me pergunto: onde estou? Esta é a minha casa, hoje é dia das mães. Mas não significa nada. Minha alma não entende nada de casas e calendários. E eu não entendo nada de música. Eu sou um joguete nas mãos dessa melodia. Finalmente eu lembro da tua voz, a tua voz cantando, a tua voz dizendo declamando com tom grave a thousand kisses deep. Mas eu devo te ouvir, cada canção, cada palavra, e enxergar cada emoção que teu olhar transparece. Eu rio. Porque te leio tão fácil e mesmo assim desconheço. Quem você é? Eu pergunto e eu sou a minha pergunta. Mas só por muito pouco tempo. Num instante eu pisco como uma estrela e eu sou outra coisa, eu sou uma outra vida. Minha alma é uma coisa dispersa, um vento, uma torrente que se divide e volta a se unir. Eu rio, porque eu sou leve agora. Agora eu não posso te ouvir, mas sei o que você fala. Porque através dessa música é você que fala, e é você no meio do mundo de vozes que é o universo. Eu ouço tudo, mas muito pouco eu entendo. E como quero entender! Por isso continuo buscando, eu estou buscando a pergunta, e eu busco todas as coisas através das vozes de todas as bocas.


E como a tua boca me morde, eu enxergo no clarão da dor o grito de todas as coisas. A tua voz nem existe agora, só existe esse terror, esse rosnado. Meu coração dispara e meu sangue urra, no fogo do teu veneno e na explosão dum sors salutis -- e de repente minha alma é fogo, meu mundo é fera, meu sangue é fúria e eu devoro o mundo e nada mais é anjo nada mais é água nada mais é calmaria porque tudo é pura loucura! Eu me levanto contra o frio da noite eu sou o Sol, invicto e irremovível, iluminando e queimando as retinas de todas as coisas eu sou a Luz cuspida de teus lábios eu sou o teu sangue e meu peito cresce num rosnado-desejo que fagocita o mundo e num instante eu sou completamente um tudo demoníaco -- e então minha alma voa.



Do alto do vôo da minha alma eu estou ouvindo palmas, e isso quer dizer que a música acabou. Mas eu me sinto leve, a música me liberta, eu fecho os olhos e a noite me carrega para onde eu quero estar, onde a música é nectar, onde a tua voz existe dentro de mim, no ímpeto de um raio e na candura de uma vela. Eu abro os olhos e você está me olhando, mas já não são olhos de fera. Então eu abro os olhos e estou aqui novamente, e eu estou sozinha.


Eu apoio o rosto nas mãos, e meus olhos são lágrimas, e meu coração ressona e tudo é silêncio através dos pequenos barulhos do dia. Eu caio em mim. Eu olho para o céu, e eu estou buscando a pergunta que eu sei que não existe, e eu queria ser o ar para poder me encher desses sons que saem de todos os lábios

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Naquela noite eu fui dormir com mêdo.
Naquela noite eu acordei com mêdo.
Mesmo com seus braços me envolvendo
Eu estou apavorada
Mesmo com seu coração batendo perto do meu
Eu acordo no final da noite
em uma das nossas camas
com o seu despertador
e penso em todas as coisas que podiam ter sido diferentes
de forma a não me trazer a onde estou agora.
Você ainda está dormindo
E eu me sinto tão segura aqui
entre os seus livros, seus brinquedos antigos,
e essa janela sem grades que dá prà rua.
Eu acordo no meio da noite
e me pergunto como eu posso ver você dormindo com esse dragão dentro de mim
acordado.
Você se revira na cama e eu sei
que vou enfrentar o mêdo para escapar da dor.
Não há nada de bravo ou de forte nisso
- eu sou só a água que corre pelas depressões do solo -
mas eu tenho mêdo de perder esta cama, estes livros, a paz deste refúgio.
Eu deito do seu lado e tento fechar os olhos
Eu te abraço, meu gato pelado, e me pergunto
Por que é que não podemos permanecer crianças?