Mostrando postagens com marcador unlabeled. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador unlabeled. Mostrar todas as postagens

sábado, 11 de março de 2017

Fofo

É estranho pra mim me sentir tão bem com você.

Quando eu te conheci, eu me apaixonei instantaneamente. Quando foi isso eu não sei bem. Talvez quando eu ouvi seu nome a primeira vez tenha havido uma chance de eu deixar pra lá, de eu esquecer esse nome em seguida, apenas um apelido um pouco incomum, um pouco mais velho e mais nerd que o habitual. Talvez quando eu te achei na festa tenha tido uma chance de eu esquecer seu rosto em seguida, de você ter sido só um cara aí, uma pessoa aí, sem importância. Mas quando a gente conversou pela primeira vez já não tinha mais nenhuma chance de eu deixar pra lá. E a primeira vez da qual você se lembra, eu só lembro o quão despeoporcionalmente intensos eram meus sentimentos naquela noites, aquela insegurança confusa, aquela minha inexperiência toda, a sua inesperada surpresa quando eu encostei em você. Sua sobrancelha nos meus lábios, macia.

E você não deu a mínima. Minha paixão intensa e despropositada batia na sua calma, na sua preguiça, na sua inconstância que se misturava com o meu pânico. Eu às vezes fugia, o mêdo de me expôr me dominando, e às vezes me expunha demais, esquecendo o mêdo, mas o efeito dessas minhas ondas em você era sempre passageiro, às vezes um arroubo de carinho ou de tesão, mas nunca o suficiente, nunca por tempo suficiente, quando em mim o sentimento era constante, e absurdo, beirando ao ridículo.

Eu conheci um lado de mim que eu desconhecia, desesperado, impaciente, violento e fraco. Eu disse coisas que eu não me imaginei dizendo. Eu perdi o pé e me deixei levar... Até que eu me assustei tanto que decidi fincar os pés e cortar completamente minhas expectativas. 

terça-feira, 21 de outubro de 2014

Privilégio hétero e essas bostas

Eu acho meio estranho quando alguém pensa que eu tenho um relacionamento hétero. Eu até entendo de onde essa idéia vem, sabe, a gente faz umas coisas meio héteras tipo ir em eventos de família, inclusive na igreja, discute com parente reaça, ouve bosta heterossexista falada em tom amigável.

Passar como hétero é um privilégio meio bosta, porque as pessoas hétero tendem a achar que a gente é também e não têm aquela auto-contenção que é resevada para Os Outros. É mais ou menos como ser visto como um bróder pelos caras escrotinhos do colégio: por um lado eles não batem em você, por outro, eles falam pra você tudo o que eles não falariam pruma mina ou prum viado. Recentemente, na casa da minha própria irmã, um mala perguntou pra roda de amigos: "é namorada de quem?". A pergunta me soou tão desrespeitosa que eu fiquei sem reação. Por ser uma pessoa muito de esquerda ("radical" segundo minha mãe), eu nunca sei quando é socialmente viável ficar puta da vida com uma merda que alguém fala. Eu devo xingar quando alguém fala uma coisa machista? E quando alguém fala uma coisa reaça? E quando alguém propõe desmatar 25m2 de beira de rio?Quando que eu posso não aturar mais e mandar pro inferno? Então eu só não reajo. Eu sei que é pior ainda, mas eu morro de medo de errar e cair num vortex de briga de família. Aí depois desse cara fazer essa pergunta escrota, seguida de uma piada escrota, um tempo depois eu tirei um sarro de leve de uma piada besta que ele fez sobre parecer gay, e ele vira pra mim e aponta que minha roupa é super gay. Eu ri. Que bom que eu não pareço ht, né, imagina que pira? Mesmo meus amigos hétero em geral não são super fãs da indumentária heteronormativa.

Outra coisa que me vêm à mente é que é um relacionamento hétero que não envolve nenhuma pessoa hétero. Na verdade mesmo se alguém vier falar que ele é homem e eu sou mulher eu já vou olhar muito torto pra essa pessoa. Tira a sua obcessão com gênero do meu corpo, que nojo! 

Ultimamente eu tenho evitado sequer falar sobre sexo e gênero, porque, sabe, eu não quero ter que ficar noiando sobre o meu papel no mundo, a vida já tá bem foda só com os compromissos que eu escolhi ter. Mas às vezes essas coisas vêm à toa, e às vezes eu quero bater em cada homem que se recusa a apertar minha mão. Ugh.

Eu diria que eu tenho em muitos aspectos os privilégios de ser lide como uma pessoa cos. Mas no meu casp isso quer dizer que eu sou lido como uma mulher cis, e que as pessoas vão me tratar desse jeito. Com mulheres às vezes é mais de boa, às vezes menos, depende do quanto elas ligam pra gênero. Mas homem parece que liga sempre muito pra gênero. Inclusive homem trans. Parece que poder discrimiar as pessoas por gênero faz parte dos privilégios do macho. E eu tenho vontade de morrer toda vez que eu sinto que o macho tá me tratando como uma fêmea, e portanto um bocho estranho e inferior. Infelizmente eu sinto isso a partir de coisas muito pequenas. Alguns homens ficam realmente ofendidos se você tenta dar um aperto de mão, mas ao mesmo tempo você vê a importância que eles dão praquilo quando apertam a mão de outros homens. É como se eu me recusar a ser mulher como eles esperam fosse uma ofensa pessoal contra eles.

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Proposta de roteiro

O filme começa com um garoto aborígene cuja comunidade está sob ataque dos latifundiários e negociantes brancos. Circunstâncias complexas obrigam o garoto a se infiltrar numa fazenda, onde ele aprende sobre os costumes dos fazendeiros, consegue cargos de confiança e prova seu valor se tornando um negociante e administrador extremamente competente. Ele acaba se tornando herdeiro do dono da fazenda, para a inveja dos filhos legítimos, e quando o dono morre, numa cena extremamente dramática, ele implementa um novo plano de negócios que permite que ele acabe comprando todas as terras ao redor. No final, ele tem que escolher entre sua antiga família aborígene e sua nova família capitalista. De alguma forma muito mágica ele consegue resolver o conflito e trazer a paz, mas acaba morrendo no processo, e as pessoas da cidade nomeiam uma avenida em homenagem a ele.

---

Observação: eu pensei em substituir o protagonista por uma mulher, mas rapudamente descobri que esse plot com uma mulher se transforma em ou O Diabo Veste Prada ou Erin Brockovich -- porque uma mulher conquistar o sucesso é uma coisa muito incrível que merece um filme. Como minha intenção era reverter o plot de <a href:"http://tvtropes.org/pmwiki/pmwiki.php/Main/MightyWhitey">"o homem branco é melhor nativo que os nativos"</a>, não me interessava muito. 

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Unsent text

Do you think I'm pretty?

I mean
I know you're not a dyke and all
I swear I'm not still hitting on you
I think I'm over you
Maybe

But are you at least a little bit attracted to me?
I mean I fet it if you don't like cunts
But
I think the thing is
I could ask boys but, I've met so many men in my life that I can't tale them seriously at all
Like all they care about me is tits and cunt and looking cute and I know how to laugh at their jokes like an instinct
They think it's cute that I can think and have opinions
Yeah I know I shouldn't talk about them like that
i think I've met so pany straight men in my life that I can hardly think of them as human anymore
How fuckep up is that
And I mean I was one of those people that defended with all my heart that yes boys and gurls can be friends
But now
I don't even know what that means anymore
Can anyone be friends?
What do you think?

Oh that's my station.

What I am saying, I have a lot of boy-friends still
Haven't I ?
I guess I would have to ask them
I dunno
It's so confusing how political having friends is
How our relationship changes so much according to relationship statuses
Love
Attraction
And how they fight and fuck amongst themselves
I can't keep up
No, really.

The thing is, when I find someone attractive, it's either they are hot as hell or they are so amazing that I can see through the veil of silly preconceived expectations and actually just look at tem, waiting to see what they will do next

That's how it was with you
You were so amazing
That's probably why I got over you, too
It's too hard to be platonically in love with someone who just gets more and more awesome while I... don't.
You were still too far above me
That's the hard thing about you girls.
I could try to imagine that it was just that I found other people who were equally amazing and who liked me back
But
I think I could have been in love with all of you for a long time
My heart is a pretty good juggler
It's a good thing I dropped that one, though
I can probably be a much better friend now
Not that you need me

Anyway
Do you think I'm pretty?
And I don't want a motherly/sisterly answer
Just tell me if... No, wait
Don't tell me
Don't answer that question.

segunda-feira, 2 de junho de 2014

Undertoe

Eu penso muito em ti, sabe, por mais inapropriado que isso seja. Tentando avaliar o erro e o acerto, o bom e o mau, o lógico e o ilógico, e o como saídos de lá viemos parar aqui.

Uns tempos atrás tu me disseste que a diferença entre nós era que tu se sentias confortável sendo homem, e que eu sempre quisera ser um homem. Às vezes eu me lembro e me deleito com o absurdo dessa idéia. Para mim, essa era justamente a semelhança entre nós. Nós dois queríamos viver grandes aventuras, capitanear navios, lutar contra dragões (ou a favor deles, talvez), subir a montanha correndo... Mas para ti isso era o teu papel designado, e o meu era lutar por isso usando um vestido longo, e no final rasgar esse vestido e mostrar que além de princesa eu era também guerreira. Estavas errado, sabe? Porque eu queria ser exatamente o mesmo que tu, sem vestidos, sem tiaras, nada de "princesa", "dama", "madame". Mas para ser o mesmo que tu eu precisava ser ainda mais selvagem do que eras, mais violento, mais rápido em provar o meu valor e defender minha honra. Quando nos separamos, eu me senti um pouco mais à vontade para ser tudo aquilo que querias tão insistenmtemente que eu fosse e que justamente por isso eu não podia ser. Mas logo a novidade passou e eu voltei aos meus modos adolescentes, mas agora sem ti, sem meus rivais e inimigos e principalmente demônios.

A vida do lado de cá é tão estranha e faz tanto sentido. É quase como se eu vivesse no mundo real. Mas ainda é estranho, e eu ainda sinto aquela falta, aquela desconexão, como se eu fosse apenas uma pessoa que aconteceu de ser, aconteceu de estar aqui, caída de paraquedas nesta vida, nesta história, e as lembranças, e mesmo os sentimentos, pertencessem a uma outra pessoa, uma outra versão de mim que eu tenho que me esforçar muito para imaginar que sou eu.

Às vezes eu penso que tudo aquilo era uma grande máscara e uma farsa, uma coisa que eu criei para enganar a eles, e a ti também; talvez para ludibriar-te e te fazer pensar que eu poderia talvez cumprir as tuas fantasias, porque te tendo eu tinha todo um universo, e ao te perder eu perdi parte de mim. Eu sinto que parte de mim, a maior parte de mim, ficou do lado de lá, rascunhado talvez em antigos cadernos e folhas soltas, mas em grande parte preso através de um portal que eu não consigo mais alcançar. Me tornei gente, talvez demais. E agora as farsas de esgarçam muito mais cedo, e a idéia de enganar alguém, ainda mais alguém como ti, por tanto tempo... Às vezes eu percebo que éramos tão semelhantes que apenas nossas máscaras e mêdos e mentiras nos separaram. Mas agora nos perdemos um pouco; eu me perdi; e aquilo que nos conectava não nos conecta mais. Ou será que foi uma máscara tua que me fez acreditar que éramos tão próximos? Não importa também, porque ao menos aqui eu posso ter uma parte de mim, e tê-la inteira, sem máscaras; ter tudo aquilo e me submeter aos teus desejos absurdos era uma traição que acabava por me desintegrar. Viver no mundo real tem seus benefícios.

Pelo menos agora somos ambos humanos, e temos uma chance qualquer de nos encontrarmos realmente. Duas pessoas, e não duas fantasias. Mas... eu também tenho a impressão de que pessoas não se dão tão bem quanto é tão fácil se darem as fantasias.

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Decepções

<small>(aviso: os vocês, como de costume, são diferentes de parágrafo para parágafo)</small>

Eu me lembro claramente de quando, doze ou treze anos atrás, você começou a dar em cima de mim, me pedindo beijos e namoros das formas mais esquisitas e, às vezes, manipuladoras, mostrando pra mim que você tinha começado a falar comigo primeira e primariamente porque você queria me beijar. Você, eu perdoei, porque minhas recusas e nossas brigas não acabaram com nossa amizade.

Eu me lembro claramente da noite, mais de doze anos atrás, em que eu acordei com uma mão sua entre minhas coxas e outra sobre o meu seio; eu me lembro do choque e do nojo, e de perceber que você me via afinal como mulher e como objeto sexual, e não como o bróder, o irmão, que eu deveria ser pra você. Nunca mencionamos esse assunto, mas ainda queima.

Eu me lembro nitidamente de quando eu e você recuperamos o livro que havíamos escrito na terceira série juntas, e eu o entreguei a você para que você mostrasse para a sua mãe justamente porque eu queria poder mostrar para a minha depois, e você nunca o trouxe de volta.

Eu lembro também do ano em que você não veio para a escola, e eu descobri por outras pessoas que você se mudara para outra, e eu percebi que apesr de eu ter te considerado minha melhor amiga e que você fosse importante pra mim, eu era a última pessoa a saber de você. Nunca mais tivemos amizade de verdade depois disso.

Eu lembro do dia dez anos atrás em que eu e você estávamos conversando sobre coisas da infância, e eu falei das coisas que eu gostava e que eram significantes pra mim, e você fez uma cara feia e começou a tirar sarro dos meus dragões e cavaleiros e magias, como se seu saci e sua turma da mônica fossem superiores. Acho que isso ainda dói tanto porque em tudo o mais você sempre foi tão legal.

Eu lembro do dia, nove anos atrás, em que vocês decidiram montar uma farsa de que eu e meu namorado havíamos brigado apenas para desesperar o professor de teatro, e que nos convenceram a atuar, e nos instigram, embora aquela farsa estivesse nos dilacerando, nos machucando, doendo, eu lembro da euforia de vocês e de como vocês pareciam extremamente felizes com toda essa história, e como eu senti desde aquela hora que vocês realmente ficariam felizes com o nosso término.

Eu lembro do ano em que você saiu do armário e do dia em que alguma de nós falou algo sobre o próprio corpo e você falou enojado de como tinha nojo de boceta.

Eu lembro da viagem, oito anos atrás, em que você insistiu e gritou e bateu na nossa porta e nos constrangeu e manipulou, dizendo que eu não podia ficar perto dele, que eu não podia deixá-lo ver meu corpo, que eu não podia querer transar com ele, e mil coisas, tornando meu relacionamento um inferno, tornando impossível pra mim tomar minhas próprias decisões.

Eu lembro do dia em que eu estava contigo e elogiei a beleza dele e você imediatamente fez um comentário ciumento, meio de brincadeira, meio não; e depois disso eu nunca tive coragem falar com você quando eu me interessava, às vezes inclusive me apaixonava, por outras pessoas, e passei todo o nosso namoro escondendo meus sentimentos, te enganando, fingindo que estava tudo bem quando na verdade não tinha como estar.

Eu lembro do dia em que eu estava em casa com meu sutiã mais grosso e você veio me aconselhar a pôr um sutiã, que os bicos dos peitos estavam aparecendo, e eu lembro como foi perturbador imaginar que você estiera olhando para os bicos dos meus peitos.

Eu lembro quando você falou que não acreditava que ela era bissexual porque ela nunca falava de garotas, sem nem saber que eu também era bissexual e eu também nunca falava de garotas, porque me dava mêdo e vergonha, e que toda vez que eu falava sobre garotos era por pressão de outras pessoas, mas dava mêdo falar sobre garotas, dava mêdo não ser hétero, e quando você duvidava da sexualidade dela estava também duvidando, mesmo sem saber, da minha. Eu lembro que demorei anos a mais pra falar sobre isso com você porque eu sabia que precisaria de provas.

Eu lembro quando eu terminei com você e depois de alguns meses eu convidei você e todos os nossos amigos para uma festa e você, vingativamente, convidou todos os mesmos amigos para outra festa no mesmo dia, e só me chamou depois que eu liguei pra você derrotada e revoltada.

Eu lembro de quando, três ou quatro anos atrás, você, que até aquele momento era um grande adepto dos relacionamentos abertos, em admiração a mim, você teve uma crise de ciúmes homérica e decidiu fechar toda essa idéia, e eu não consegui evitar sentir isso como uma traição.

Eu lembro de quando você era o amigo em quem em mais confiava, o mais perceptivo, e um dia eu te confessei, porque eu não podia mais guardar isso pra mim, eu confessei que eu estava loucamente apaixonada por ela, e você olhou pra mim e simplesmente não acreditou, disse que eu não a conhecia o suficiente, que eu amava apenas uma ilusão, que meu sentimento era falso. Eu lembro da dor, porque pra mim era tão difícil admitir que eu amava uma mulher, e ainda mais sem deixar de amar a pessoa com quem me relacionava, e você abanou tudo isso com a mão, e pra mim foi como se você não acreditasse em nada do que eu era. Eu nunca mais te fiz grandes revelações.

Eu lembro de quando eu juntei toda a minha coragem e controlei o nó no estômago e falei na mesa de jantar, pouco depois de um comentário sobre lésbicas, o melhor que eu pude, com o máximo de eloqüência, "Eu acho que sou bissexual"; e eu lembro de como você imediatamente discursou sobre como isso era uma fase, sobre como quando você era nova você também sentia essas atrações, como seria esquisito se eu trouxesse uma namorada para casa. Desde então todas os meus relacionamentos por mulheres são sombreados por uma vontade minha de te desafiar e pelo mêdo de que se eu apresentar a mulher com quem me relaciono para você eu estarei usando e objetificando ela.

Eu lembro de quando eu finalmente, depois de mais de dez anos, consegui pensar sobre isso e contar a história desse abuso para alguém, e a primeira pessoa, e única por anos, foi você, e você, a primeira coisa que você me disse foi que eu fosse falar com meu agressor, <i>que ele também deve estar sofrendo com isso</i>, e isso foi a primeira coisa, e a única, e eu passei meses tentando criar essa coragem mas no fundo sabendo que era impossível, que falar com ele seria desesperador, que eu temia tanto que ele tivesse esquecido quanto que ele lembrasse, e eu fiquei imaginando essa conversa mil vezes, e tentando imaginar o que ele diria, montando a partir de cada pequena ação, cada frase que ele dissera que poderia ter a ver com aquilo de alguma maneira.

Então eu acho que no fundo eu guardo rancôr sim.

terça-feira, 9 de julho de 2013

Monogamia/Mononormatividade e nóis com isso.

Ontem participei de uma primeira roda de discussão que se propunha a ser a respeito de "não-monogamia" (se isso se concretizou ou não é outra discussão). Sinto, pessoalmente, que a discussão foi particularmente pouco organizada e confusa, de forma que nós não tínhamos controle a respeito de que assuntos nós abordaríamos ou não, e que nós falhamos no objetivo basal de entender os problemas que nós enfrentamos e de estabelecer uma comunicação entre nós, os não-monogâmicos, que pudesse levar à criação de um vocabulário comum, à união política ou a qualquer coisa mais que uma confraternização intelectual e troca de contatos --- não que essas coisas não sejam de grande importância. Eu decidi escrever este texto antes da próxima roda de discussão com o intuito de começar uma discussão formal, teórica, organizada. O mais importante deste texto provavelmente não serão as respostas e explicações que darei, mas as perguntas que sucitarão essas respostas. Sintam-se tods livres para oferecer suas próprias respostas.

P: Quem nós somos?

Nós somos pessoas que desejam ter experiências sexuais ou afetivas, mas que não querem viver relacionamentos monogâmicos. Eu irei me referir a nós como não-monogâmicos.

Existem vários termos associados à não-monogamia: relacionamentos abertos, amor livre, poliamor, poliafeto, relações livres, etc.. Porém, me parece que atualmente não há nenhum termo que agrade a todas as pessoas não-monogâmicas. Não vejo isso como um grande problema -- também não há um nome único para o movimento que atualmente se denomina "LGBTQ+", e nao acho que isso enfraqueça o movimento. O que acho é que somos muito diversos em experiências e reivindicações, e que devemos fazer um esforço consciente de nos unirmos apesar dessas diferenças. Por exemplo, existem pessoas entre nós que gostariam de se casar com uma ou mais pessoas, enquanto outros entre nós rejeitam completamente o conceito de casamento. Eu particularmente não acho que esse seja um bom motivo para uma cisão.

P: O que é monogamia?

Monogamia é uma característica de certas relações afetivas ou sexuais entre duas pessoas. Uma relação é monogâmica quando ambas as pessoas se comprometem a não se envolver romanticamente ou sexualmente com outras pessoas que não seu par monogâmico. Ou seja, existem aspectos da relação entre essas duas pessoas, aspectos emocionais e sexuais, que são exclusivos àquela relação. Em geral numa relação monogâmica os aspectos exclusivos mais importante são "se apaixonar" e "fazer sexo", sendo que é uma traição gravíssima se envolver dessas formas com outras pessoas.

Na verdade, relacionamentos monogâmicos são bastante diversos entre si, de acordo com o que as pessoas envolvidas encaram como "romântico" e "sexual" no próprio comportamento e no de seu par monogâmico, das razões pessoais pelas quais essas pessoas são monogâmicas e principalmente, a meu ver, da quantidade de ciúmes que as pessoas sentem.

P: Nós somos contra a monogamia?

Eu jamais apontaria para um outro casal e diria "você não pode ser monogâmico!", e imagino que a maior parte de nós não faria isso. Porém, acho que alguns de nós acreditam que relações monogâmicas são ruins em si, mesmo para as pessoas que escolhem deliberadamente se envolver nelas. Eu discordo dessa postura. Embora tenhamos críticas à construção social da monogamia e à mononormatividade, não acho que podemos julgar as razões pessoais pelas quais as pessoas escolhem a monogamia.

O argumento principal contra a monogamia é que ela é uma regra e uma imposição sobre outra pessoa, e que se a exclusividade é de fato feita por amor, ela não precisaria ser imposta como uma regra. Entretanto, muitos de nós vivem em relacionamentos que possuem regras, e eu acredito que essas regras são importantes para o relacionamento funcionar. Não cabe a mim aprovar ou desaprovar as regras escolhidas por outras pessoas para seus próprios relacionamentos.

Porém, me parece que na maior parte das relações monogâmicas, devido a uma idéia mononormativa de como funcionam as pessoas, exige-se uma "monogamia de sentimentos", quer dizer, a pessoa está proibida não apenas de se relacionar com outras, mas também de se interessar por elas, ou mesmo de olhar para elas. Esse tipo maluco de monogamia leva, a meu ver, inevitavelmente, ou a acessos de culpa e auto-flagelação, ou a mentiras e segredos entre o casal.

P: Por que as pessoas são monogâmicas?

É óbvio para a maior parte de nós que, em primeiro lugar, grande parte das pessoas é apenas "socialmente monogâmica", no sentido de que "traem" seus parceiros, e em segundo lugar, quase todas as pessoas são monogâmicas apenas porque é essa é a norma social (falarei do conceito de mononormatividade em seguida). Além disso, uma parte grande das pessoas opta por não ser monogâmica simplesmente se mantendo "solteira".

Por outro lado, quando confrontadas com pessoas não-monogâmicas, as pessoas monogâmicas quase sempre procuram justificar porque elas, pessoalmente, preferem viver em monogamia.
A bem da verdade, a maior parte dessas explicações soam absurdas e até mesmo ofensivas para nós --- por exemplo "sou monogâmicx porque quero amor de verdade" ou porque "se o relacionamento está bom e cheio de amor, a pessoa não precisa de mais ninguém". A conclusão é que essas pessoas "escolheram" ser monogâmicas por completa ignorância do que significa não ser monogâmico.

Outras pessoas dão explicações mais razoáveis. Algumas pessoas entram em relações monogâmicas apenas porque su parceire é monogâmicx e ela realmente não considera a monogamia um sacrifício. Outras pessoas sentem que a exclusividade torna seus momentos íntimos mais especiais. Muitas pessoas simplesmente não acreditam que uma relação não-monogâmica possa dar certo (o que eu também atribuo à nossa invisibilidade e à ignorância geral).

E, é claro, muitas pessoas são monogâmicas porque são extremamente ciumentas. A meu ver, o ciúmes é uma exacerbação de insegurança e mêdo que nada têm a ver com a outra pessoa, mas que são projetados na outra pessoa, como se ela fosse responsável pela sua insegurança. O ciúmes é um sentimento negativo e danoso para o relacionamento, e eu acho que qualquer pessoa ciumenta deveria se esforçar para resolver esse problema. A glorificação do ciúmes, na minha opinião, é a forma mais absurda e torpe de mononormatividade, porque se glorifica uma atitude de controle sobre a vida do outro. Além disso, algumas pessoas são monogâmicas porque elas sabem que é socialmente inaceitável não ter ciúmes e não exigir a "fidelidade" de su parceire, e assim essas pessoas exercem controle sobre a vida de parceire por pressão social.

P: O que é "mononormatividade"?

Eu imagino que essa palavra tenha surgido como uma referência à "heteronormatividade". Veja, a heteronormatividade é a norma que favorece casais cis heterossexuais. Casais cis heterossexuais podem se casar, não têm mêdo de sair em público, são representados em histórias, em todas as mídias, e de modo geral se espera que uma pessoa seja cis heterossexual desde o momento em que ela nasce. Ser cis heterossexual implica em uma série interminável de vantagens sociais, jurídicas e econômicas, especialmente para pessoas casadas. Da mesma forma, ser monogâmico implica em uma série parecida de vantagens em oposição a ser não-monogâmico. Em primeiro lugar, o casamento oferece muitas vantagens, e essas vantagens apenas estão disponíveis para pessoas monogâmicas. Além disso, trocar carícias com mais de uma pessoa em público é considerado uma "depravação", mais ou menos da mesma forma que o é trocar carícias com uma pessoa do mesmo sexo. A não-monogamia é retratada em histórias, mas quase sempre como uma situação de conflito, traição, instabilidade.

A mononormatividade também é expressa nas opiniões ignorantes da maior parte das pessoas a respeito de nós, quando as pessoas acreditam que apenas na monogamia existe amor, e que apenas a monogamia é uma forma correta e pura de se relacionar; e também na ignorância das pessoas em relação a seus próprios relacionamentos uma vez que, acreditando que uma pessoa não deve ser capaz de se interessar por mais outra, assume-se que quando um membro do casal se sente atraído por outra pessoa a relação está comprometida. E quando duas pessoas começam a se relacionar, elas quase sempre assumem que a outra é monogâmica. Mais grave ainda, a mononormatividade glorifica atitudes de imposição da monogamia e de controle da vida alheia, glorifica o ciúmes e justifica inclusive a agressão física (até mesmo assassinato) da pessoa que incorre em "traição" (muitas vezes mesmo que a suposta "traição" tenha ocorrido depois do término da relação). Finalmente, a mononormatividade condena todas as pessoas não-monogâmicas (exceto talvez homens cis heterossexuais), chamando-as de "vadias", e esse rótulo é muitas vezes usado para justificar agressões e crimes cometidos contra essas pessoas, apenas porque seu "valor como pessoa" é considerado menor do que o de uma pessoa monogâmica.

Evidentemente, a mononormatividade está intrinsecamente ligada à heteronormatividade e de modo geral ao machismo, de modo que ela é especialmente cruel com mulheres, cis ou trans, pessoas trans* de modo geral e gays/bis. De fato, muitas vezes é aceito e até esperado que homens cis heterossexuais se comportem pessoalmente de forma não-monogâmica. Mas vamos falar de machismo em outro tópico.

P: Por que nós dizemos que "somos" não-mono/poli/rli/etc?

Essencialmente, é porque nós não queremos, não conseguimos, não aturamos, não suportamos viver em situações de monogamia. A monogamia é opressora para nós. Nossas opções de como viver experiências afetivas e sexuais fazem parte da nossa identidade, da mesma forma que orientações sexuais.

Existem outras pessoas que consideramos que "são" monogâmicas, porque elas só aceitam relacionamentos monogâmicos. Existem também pessoas que aceitam ambos e que não "são" nem uma coisa nem outra.

P: Por que nossa movimentação é política e não apenas pessoal?

Porque nós vivemos num mundo que ora acredita que nós não existimos, ora que estamos fadados à infelicidade, ora que somos depravads e vadias. Porque se ficarmos calados e separados, não poderemos mudar esta situação. Porque o pessoal é político.

P: É um problema nossa movimentação ser contra alguma coisa em vez de a favor de algo?

Claro que não! Nós somos a favor do direito de viver com os mesmos privilégios que o resto da sociedade, mas nosso grupo provavelmente não existiria se não houvesse uma imposição social opressiva que nos exclui. Da mesma forma que o feminismo é contra o machismo e a misoginia e o movimento LGBTQ+ é contra (o machismo e) a homofobia e a heteronormatividade, nós também nos unimos contra algo que nos oprime. É tipo a ordem natural das coisas.:wq

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Medo

Tenho sentido mêdo
Tenho me escondido
Tenho sentido raiva
Tenho contido as lágrimas

Eu queria desabafar e dizer que toda a minha pose é só fachada
Eu queria desmoronar e dizer que eu sou sim a coisa fofa e meiga e doce
Eu queria me abandonar e te deixar me fazer carinho e me comer

Só que não.
Só que só a idéia me dá engulhos e me embrulha o estômago!
Eu quero te morder até ficar vermelho e eu sentir gosto de sangue
Eu quero te deixar marcado
Eu quero te fazer carinho e te mordiscar, mas recusar seu beijo
Eu preciso te dizer que eu acho que esta fachada está grudada à carne
E que está bem aqui

Às vezes eu me pego me perguntando quem eu sou
Eu sou uma criança que já viveu para sempre
Eu sou uma pessoa de coração partido
Lutando contra os próprios instintos
E quando mais eu me liberto mais eu preciso me acorrentar
Lutando contra os próprios sentimentos
Tentando evitar morder, evitar marcar,
Evitar machucar
Quanto mais dói mais eu me apego
Até que dói demais
Quanto mais dói mais tempo dura a marca

Eu sou sim fofa e meiga e doce
Eu sou cheia de amor quando eu confio
Mas às vezes eu confio demais
E quando eu decido parar de confiar eu tenho vontade de machucar
Eu me comporto como um cão numa matilha
Ponha-se no seu lugar

Eu não preciso provar nada pra ninguém
Todo mundo me ama, todo mundo me aceita
Eu não preciso provar nada pra vocês
Mas eu quero

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Aftermath

Love, lust, friendship, alcohol
I'm not sure of which we have become
Everything is blurry, people in a hurry
To prove that they are young and wild and fun
Pictures of dancing, all is recomencing
Why do I suddenly feel so old?
People getting wasted, but I just wanna taste it
And I'm not sure of what shall now unfold

And I don't feel free
I want you with me
But that doesn't mean I want everybody
I feel so stuck
Everything's so fuckedup
And I start to feel like I don't own my body

Dance, lust, playing, alcohol
I'm not sure I like where this is going
Everything is changing, seems nobody's aging
I can't see how far this thing is growing
Pictures of hot babes, dudes are liking always
How the fuck can this joke never get old?
People getting wasted, but I still wanna taste it
I want to be respectable and bold

And I don't feel fine
I give up this time
But inside I feel like I hate everybody
I feel so used
But I'm still confused
Like I failed to be of anyhelp to anybody

Love, trust, friendship, fun times
But I have no idea of who you all are
Everything is lacking, I see myself respecting
A way of things disturbing and bizarre
Pictures of cool guys, people telling old lies
Say everybody's hot, nobody's cold
People getting wasted, but will they ever taste it?
Feel's like it's all irrelevant and old

And I feel like

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Você-Lírico

Observação sobre a forma como tenho escrito os últimos posts:

Houve um tempo em que eu acreditava que as pessoas que conhecessem a história por trás everiam ser capazes de discernir pelo menos a parte que falava sobre elas. Assim, eu me esforçava para manter personagens coesos - às vezes eu dividia os parágrafos, outras eu usava pronomes diferentes. Mas afinal me dei conta de que os personagens são apenas um artifício, um recurso literário de utilidade restrita, e freqüentemente um limitante da expressividade -- e mais, que talvez a compreensão da história não seja fundamental quando o cerne do texto é a idéia, o conceito, a sensação e o sentimento. Assim, eu tenho usado um tu-lírico fluido, que pode mudar de significado sem aviso, no meio de uma frase, e às vezes se referir a diversas pessoas dentro da mesma oração. Portanto, parem de tentar imaginar "de quem" eu estou falando. Mesmo quando as histórias são verdadeiras (e elas quase sempre são), elas estão misturadas, confundidas, e toda vez que você imaginar uma pessoa real vivendo essa história (qualquer pessoa que não seja eu), lembre-se de que... bem, de que a borboleta na verdade era um dragão, e o telefonema era uma carta. É assim com tudo. A narrativa é puramente um artifício; a verdade, uma diversão.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Explanação

Yeah, ok, eu vou explicar what was that all about.
Hoje tivemos uma reunião pra discutir o que vamos fazer com a nova casa, o que comprar, quanto vamos gastar, yatta yatta yatta. E eu meio que fui convencida de que meus gastos regulares vão subir consideravelmente, e eu ainda não estou convencida de que vou conseguir ganhar o dinheiro necessário, e isso me assusta. É claro que tem outras coisas envolvidas, mêdo de mudar de vida, mêdo de sair de casa, a dor de abandonar coisas familiares, a insegurança perante o futuro, etc etc. Mas a questão objetiva que mais me apavora é que eu simplesmente não sei se eu consigo grana suficiente.

Quer dizer, eu planejo conseguir bolsas de IC e monitoria, eu planejo conseguir dar aulas particulares, mas tudo isso é tão inseguro, é tanta coisa que eu nunca consegui antes e que eu não sei se eu estou simplesmente sonhando alto demais de novo... Meu mêdo é de ser obrigada a arranjar emprego, o que me obrigaria a deixar a faculdade meio em segundo plano. No fundo, meus irmãos estão empregados, meu namorado está formado, e eu me sinto a caçula, dando passos maiores do que o razoável para acompanhar o andar de gente mais velha, mais estabelecida, mais confiante. Eu estou apavorada, e eu não sei como encarar esse mêdo. Eu não sinto que exista nenhuma boa opção, eu não me sinto capaz de fazer o que é preciso, eu não acho que nada vai dar certo só porque tem que dar, de alguma forma. Eu não acho que as coisas vão se acertar.

Eu estou apavorada, e eu sei que a solução seria eu ser forte e eficiente e mostrar serviço e conquistar as coisas certas, mas eu estou tão assustada e confusa que só está mais difícil do que nunca fazer a coisa certa. E eu nunca fui boa nisso de qualquer forma. Eu sempre fui ligeiramente incompetente. E eu sinto que de repente eu não vou ter mais espaço pra isso, e que eu não vou mais conseguir acompanhar. Que eu vou simplesmente parar de conseguir bancar as coisas. Que pra mim vai ser consideravelmente mais difícil que pros outros, e que talvez eu acabe desistindo. Você não é tudo o que eu preciso, e eu não sei se eu tenho o que eu preciso pra sobreviver.

Eu estou apavorada, e eu não sei ainda se esse pavor é fundamentado.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Fearing, Doubting

There's only love left,
And some wonder.
There's a dream just beyond the corner
There's a fortress that refuses to be taken
And a princess that refuses to be saved

She's in love with the dragon, or so they say
But shouldn't it be the ther way around?

It's dark in here
Do light a candle
There's a bud in the cradle where the baby wolf should be.

There's a chance of saving the world, but only if we are really lost can we find ourselves.

It's lonely in here.

I had a dream once. It was here, in this very place. It was dark and eerie and your dangerous eyes were glowing. You said,

"Was it hot?"

I was a dream, once.

Dentro.

Eu estava jogando RPG, e tem gente bebendo na minha casa, e eu me sinto mal. Eu não devia me sentir mal depois de jogar RPG. Deveria ser divertido e alucinante e só isso. Eu não deveria me sentir fraca e pequena e culpada. Mas...

O foda é que 32% das vezes em que eu jogo RPG eu acabo me sentindo mal. Uma outra porção das vezes eu me sinto muito bem, uma outra porção eu me sinto meio x, mas tem essa porção do tempo em que me faz me sentir mal, e é uma droga, e a culpa é só minha, e eu não quero me sentir assim.

Eu não devia me sentir mal jogando RPG.

Mas é que o RPG me faz tomar decisões rápido e elas têm conseqüências violentas e imediatas e não há segunda chance e o que a gente está fazendo é sempre absurdo e impossível e nós não temos idéia de como proceder e a gente comete tantos erros!

Não, péra. O problema é que eu cometo erros. O problema é que eu deixo as coisas acontecerem e eu não quero que elas aconteçam e elas acontecem e eu fico me sentindo mal depois. E eu não sei o que fazer. E eu não sei quem eu devo ser. Eu não quero brigar, mas eu gostaria de ser uma pessoa melhor. Eu gostaria de ser uma pessoa boa, de vez em quando. Eu gostaria de ter a menor idéia de como proceder.

Eu não sei. Eu me sinto infeliz.

E tem gente dentro da minha casa que eu nem conheço direito, gente bebendo por beber e gente que não é amigo meu, e eu fico pensando que eu não tenho mais vontade de viver nessa baderna. Eu não quero mais ter gente na minha casa quando eu quero ficar sozinha e eu não quero ter gente de quem eu não gosto dentro da minha casa. Chega.

Eu quero parar de escrever e eu gostaria que houvesse um lugar pra ir, mas eu estou sozinha e está tudo tomado. E hoje o Zed vai dormir infeliz e eu vou dormir infeliz e me sentindo incompleta e incomodada com o fato que eu podia ter mudado alguma coisa, mas eu não mudei nada. E nós somos incompetentes sim, e nós sabemos que nós somos incompetentes. Nós só não sabemos como não ser.

Eu sei que eu não devia levar tudo tão a sério, mas é que pra mim é tudo real.

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Vocês os outros, vão se fuder e saiam do meu mundo.

Estou meio desanimada hoje. E estou falando aqui porque sei que alguns de vocês são pessoas que eu amo e que me amam também. E eu quero deitar no colo de alguém e chorar e mandar o mundo à merda e virar o Tyler Durden. Eu estava triste porque não fui bem na prova e resolvi me animar na internet mas a internet é um retrato fiel de uma sociedade machista e míope e auto-centrada e escrota. E tem muita gente legal, mas uma parte tão grande da gente legal também é escrota! E ontem um amigo meu teve uma discussão escrota com uma amiga minha e ainda não passou totalmente a vontade de vomitar. E mesmo a meninanãopode que é genial também é míope e fala como se todas as mulheres fossem iguais a ela - é isso que chamam de humor, simplificar e generalizar; por que não fazem humor a respeito do fato de que somos todas diferentes? E o filho do David Thorne que é extremamente engraçado ainda é uma criança mas já acha que gays são nojentos e lésbicas são dahora. E mesmo sabendo que tem toda aquela merda às vezes eu queria ser um homem, porque eu sou muito mulherzinha e eu detesto tudo isso e eu cansei de ser tímida e medrosa e insegura e por que ninguém me pressionou e me obrigou a ser mais macho quando eu era criança mas eu sei que também acho toda essa macheza uma merda de prepotência e agressividade mas eu quero conseguir falar e fazer merda e não me sentir estúpida depois, e ter um apelido escroto qualquer porque no fundo foda-se, eu não quero que esperem de mim que eu seja delicada porque eu não sou, eu quero ser sem-noção, eu quero não ter mêdo de falar a primeira coisa que vem à minha cabeça.

Normalmente eu não uso tanto a palavra "escroto", mas é que ela é uma palavra tão feia e usada com um sentido tão apropriado para descrever todas as coisas horríveis de que eu estou falando. O Flip acha que ser mulher é bom porque ninguém espera que você faça algo da sua vida, mas isso não significa que ser mulher é horrível porque todo mundo espera que você não faça nada da vida?

Ultimamente eu não tenho estado muito afim de ser a pessoa que eu sou. Eu me sinto desconfortável dentro do meu corpo e das minhas atitudes.

Espero que isso queira dizer que eu estou mudando.

sábado, 11 de junho de 2011

Chão

Sabe, a USP é um dos lugares de que eu mais gosto na vida. Vivi tanta coisa lá e é um lugar tão bonito. Às vezes, quando acontece de eu passar muito tempo indo pra lá sempre de carro, eu sinto falta de ir a pé, atravessar a praça do relógio, pisar nos cimnhos pisados nas alamedas das ilhas, observando a todas aquelas pessoas que passam por mim, estudantes, professores, vendedores de comida, funcionários da limpeza ou da administração, diretores, passantes.

Devem existir lugares melhores no mundo, em outras cidades, em outros países, em outros continentes. Talvez outras universidades, ou talvez lugares selvagens, ou parques temáticos, eu casas de pessoas que ainda não conheci, ou mesmo casas de pessoas que já conheço, ou colinas mineiras, ou... Mas a usp é minha casa, e vai ser por mais algum tempo ainda. Lá eu me sinto mais gente do que em qualquer outro lugar. Lá o que eu faço é de verdade. Lá sou mais competente do que jamais serei na casa dos meus pais, sou mais ambiciosa do que jamais serei nos lugares selvagens, sou mais humana também, e a usp tem um efeito mágico em mim de fazer o futuro parecer um pouco mais possível. E também tem todas essas lembranças boas, me convencendo de que eu sou gente afinal.

Sabe, quando eu ando pela cidade, eu me sinto quase sempre uma estranha nesse formigueiro humano. Eu estou cansada e não há lugar em que se possa descansar. Se eu deito num banco, vêm um cara dizendo que é proibido deitar. Se eu sento na calçada, vem um cara dizendo que é proibido sentar. E não tem lugar pra correr, e é proibido subir em árvores, e é proibido pisar na grama, e vão tomar no cu todos vocês; no final do dia eu estou sozinha, nenhum desses lugares me pertencem, em nenhum deles eu sou querida, e eu não posso sequer ir embora. É muito melhor simplesmente andar e andar, até chegar num lugar onde eu esteja sozinha, eu e as coisas inanimadas, porque as coisas inanimadas não me rejeitam.

Houveram lugares na vida que me acolheram: as praças perto do colégio, a Cajaíba, Paúba, um ou outro bairro residencial... E, bom, a USP. Acho que a USP é mais especial porque ela não é a praça perto do colégio, ela é o colégio. E eu não ando por ela apenas com meus amigos mais íntimos, mas com todos os que estiverem aqui. Até gente que nem estuda aqui! Porque aqui eu posso jogar RPG, jogar baralho, subir em árvores, dormir no chão, beber, dançar, namorar, brigar, construir coisas, destruir coisas, comer fruta no pé, observar animais selvagens (inclusive corujas e preás), cantar, assistir peças de teatro, ver filmes, comer, trabalhar, virar a noite, correr, discutir assuntos muito diversos, fazer amigos, assistir aulas diversas, entrar em palestras, passar oito horas no computador, começar qualquer assunto sem ser taxada de nada (é claro que isso é com as pessoas certas), conhecer gente muito diferente de mim e ainda me sentir em casa...

Acho que por isso, o fato da USP ser um lugar tão ridiculamente perigoso à noite me dói muito mais. A gente meio que mora aqui, a gente vive aqui e eu pretendo viver aqui por muito tempo ainda. E eu gostaria de poder correr por todas essas ruas como se elas fossem corredores da minha casa, com mêdo apenas das quedas e dos animais perigosos, e não da cidade lá fora, a Selva Humana que é muito mais assustadora que qualquer outra selva. *sigh*

É claro que eu gostaria que a cidade fosse um lugar mais público, que as ruas fossem um pouco mais nossas. Mas eu sinto muito forte essa necessidade de que as ruas que já são nossas sejam boas para nós.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Livro Dois: Música (rascunho)

Acordamos às sete da noite
depois voltamos a dormir.
Saímos de casa, estava escuro
estava chovendo, as pistas molhadas,
o som tocava um Doors ou um Stones
E a gente não sabia aonde podia ir.

Durante toda a noite cantamos e bebemos
Durante toda a manhã nós dormimos.

No dia seguinte nós esquecemos da vida.
Acordamos às cinco da tarde,
depois voltamos a dormir
Estávamos tão cansados de cantar e de beber
E eu estava tão cansada de ser feliz!

Quando abri os olhos estava na beira da praia,
As ondas fazendo um barulho que eu não sabia mais ouvir.
Depois o sol aqueceu meus ombros
e nós andamos em ruas tão vivas
e fomos pessoas na rua
na vida de uma cidade, por um dia.

Durante toda a noite nós ouvimos e falamos,
nós jogamos jogos e nós nos abraçamos
E com passos miúdos nós andamos pela cidade
E pelas idéias loucas dos nossos pares
E com bocas comedidas nós devoramos.

Quando acordamos às dez horas da manhã
Nós nos arrastamos para os nossos compromissos
Felizes de termos passado a noite
Cantando, dançando, bebendo e beijando.

Nós rimos sozinhos quando nasceu o dia
O mundo era o quintal da nossa casa
E tinha gosto de leite morno e cereal com gotas de chocolate.

sábado, 23 de abril de 2011

Reler (amor)

Às vezes eu releio coisas que escrevi há mais do que alguns meses e fico muito impressionada com a força das palavras e com a minha capacidade de não perceber o sentido real delas. Estou falando sério: acho que as palavras expressam melhor o que eu sentia na hora do que o que eu achava que pensava quando as escrevi. Digo isso com base em várias coisas que pensei e senti e fiz na mesma época, das quais me lembro. Às vezes encontro coisas como, por exemplo, isto:
Sinto que já se passaram meses e eu continuo estremecendo a qualquer menção do seu nome. Já se passaram meses e você ainda é a minha obcessão. Por mais que eu me distraia com outras coisas (e outras fomes) você ainda sempre volta, você está sempre perto, tão perto e logo além do alcance das minhas mãos. Como eu queria te ver, como eu queria te tocar e te ouvir tocar. E se você estiver pra sempre além, será que um dia minha vida estará completa sempre sem você?
Eu me pergunto como eu não percebi que estava apaixonada? Se bem que, pensando bem, quando escrevi esse trecho específico eu estava imediatamente além do ponto em que fazia sentido dar atenção a isso. Acho que foi justamente quando eu me dei conta de que estava apaixonada. Mas é muito estranho pensar que minha única atitude foi escrever essas linhas e esquecer. Guardar os sentimentos numa coisa e deixar pra lá. E tem várias outras coisas que eu leio que me impressionam muitíssimo. Às vezes tenho vontade de chacoalhar aquela Marina do passado e obrigá-la a ler o que escreve. O pior é quando estou lendo coisas que enviei para outras pessoas. É estranho pensar, mas por um momento essas pessoas podem ter entendido mais de mim do que eu mesma. Uma ou outra pessoa pode inclusive ter descoberto que eu a queria muito antes que eu descobrisse! Me sinto muito vulnerável ao pensar nisso, em como eu não consigo avaliar o quanto de mim estou revelando com palavras que eu escrevo sem conseguir conter. Inclusive neste blog! Como sou explícita às vezes sobre assuntos que a maioria das pessoas sequer comenta! Mas me incomoda um pouco que eu faça isso sem sequer perceber. É como se ao escrever eu estivesse abrindo mão de qualquer reserva ou privacidade. Eu me pergunto se neste post eu já disse coisas que no futuro eu me impressionarei por ter dito em um lugar tão público.

Não que eu me arrependa, de modo geral, do que eu digo. Acho que só me arrependo do que faço quando as conseqüências são ruins, e até agora de modo geral escrever só tem proporcionado conseqüências boas. Acho que isso é a bottom-line. Vou continuar escrevendo inconseqüentemente, porque eu gosto de saber que não tenho lá muitos segredos.

Carinho

Hoje eu me peguei querendo alguém pra dormir comigo. Literalmente. Não pra nada sexual nem nada assim. Alguém pra abraçar intimamente, alguém quente e confortável em quem se enrolar à noite, e só isso.

Eu sempre fui uma pessoa de pessoas. Eu sempre queria dormir no quarto da muvuca e defendia que a gente tinha que dormir numa verdadeira pilha. Eu lembro nitidamente de quando isso começou a ficar difícil porque eu tinha namorado e às vezes parecia inconveniente dormir com a galera. Mas naquela última viagem para a Ilha todos nós dormimos bagunçados numa grande cama, alguns abraçados ou ou apoiados em outros, e acho que fiquei feliz como em raras outras camas.

Enfim, hoje eu estava realmente querendo dormir acompanhada. E, num assunto relacionado, eu queria que fosse um pouco mais simples se aconchegar nos outros sem ter que ter uma relação libidinosa, sabe? Acho que isso até acontece depois de anos de intimidade e amizade, mas é estranho como a intimidade física vem depois de todas as outras na amizade. É um pouco confuso pra mim lidar com pessoas novas, que ainda têm uma série de limites. Eu às vezes me distraio e erro qual o protocolo que devia usar com que pessoa.

Enfim, estou indo dormir sozinha de qualquer forma. Contando os dias até meu gato voltar e eu ter alguém com quem eu posso dormir todo dia.

sexta-feira, 18 de março de 2011

De fato, estou meio cansada

Este estágio me deixa cansada. É pior quando não estou fazendo nada e fico enrolando, como agora. Isso não é justo. Eu deveria ser capaz de aproveitar meu tempo. Ou isso ou ir pra casa. Tenho mais o que fazer!

Tenho lido o twitter enquanto espero. E xkcd. Li essa tirinha hoje e twitei sobre ela, mas acho que é um pouco estúpido twittar pq acredito que ninguém presta atenção. Mas eu sempre acho que ninguém se interessa pelo que eu digo. Mesmo agora, estou apenas começando a acreditar quando o meu gato diz que se interessa por tudo o que eu digo. Eu achava que isso era impossível. Eu estou sempre preocupada demais comigo mesma, com coisas que parecem só interessar a mim, com a minha visão de mundo que discorda de tudo o mais e etc. Não sei porque alguém não me dá um tapa. Não, sei sim. É que não sou mais criança.

Não sou mais criança e por isso as pessoas devem achar que eu posso ser quem eu quiser. A pessoa que discorda disso é minha mãe, mas não tem como argumentar com ela. Mães têm o hábito de ser assim, de não saberem diferenciar a vida dos filhos da própria. Eu faço questão de não acreditar na visão de mundo da minha mãe. Somos simplesmente diferentes demais.

Mas, já que estamos nisso, mamãe me protegeu outro dia quando minha tia disse que eu era mais irresponsável que a Talita (não é muito difícil, mas foi o modo como ela disse isso). Mamãe disse "Ela não é irresponsável! Todo mundo entende mal a Marina. Ela não é irresponsável," - e aqui a coisa começa a degringolar - "ela é distraída, muito distraída, por isso que eu não quero que..." - Eu não lembro o que ela disse depois, talvez porque a Nanala a interrompeu, mas acho que talvez ela tenha falado mais coisas e eu simplesmente não quis ouvir. Eu não quero ouvir, mãe. Cale a boca.

É muito ruim eu não querer que minha mãe fique me criticando irrequisitadamente?

Mas gostei do que ela disse, "Todo mundo entende errado a Marina". E eu gostar disso é péssimo, significa que além de tudo eu gosto de achar que ninguém me entende, que eu ainda tenho que brigar e chutar e rosnar pra defender a minha visão do mundo. Que merda, eu estou lutando não por um mundo, mas por uma forma de enxergá-lo. Será que vale a pensa dedicar minha vida a isso?

Acho que eu só quero ter algo pelo que lutar. Talvez eu só queira saber que tem pelo menos uma coisa pela qual eu posso lutar e não ser derrotada nos primeiros cinco minutos. Alguma coisa que importa. Alguma coisa que não vai me fazer me sentir completamente inútil dentro de uma semana quando eu perceber que não faço nenhuma diferença. Behold me, a widely frustrated person.

Agora eu vou parar de me lamentar como um emo e falar de alguma coisa imbecil pela qual só eu me interesso.

quinta-feira, 10 de março de 2011

Silêncio

I still have it somewhere.

Ainda tenho em algum lugar aquele velho caderno de lembranças. Mas está escuro aqui.

Seus olhos brilharam na escuridão, dois faróis amarelos refletindo os faróis do carro.

I still have it somewhere.

Ossos de gato debaixo da terra, com cada vez menos carne em volta.

Ou isto: duas crianças num galho de árvore, a sede da Sociedade, chamada de Spectri.

Às vezes me pego pensando naquela garota numa cama flutuando no mar. Não consigo lembrar de onde vem essa referência da cama, mas lembro da garota, da música, das ondas pintadas com lápis de cor. Lembro dos seus olhos, de vinho, de uma peça que não me tocou, de um desenho, etc, lembro de você. E entretanto nada de ti conheço.

Às vezes me ocorrem grandes desapontamentos. Mas é só a expectativa, sabe? Às vezes conheço gentes incríveis e rapidamente perco a oportunidade de ter melhores amigos. Às vezes dói, às vezes não, às vezes mais ou menos. Às vezes vivemos um romance intenso, às vezes tudo não passa de um sonho, cartas trocadas mas nunca nem um beijo. Às vezes não lembro sequer de ter tocado suas mãos.

Acho que vai chegar o dia. Acho que temos que ser paciente. Acho que se eu me encontrasse, diria pra mim mesma: cut the crap.

But I still have it here somewhere.

Eu abri os ouvidos e tentei ouvir, mas aos poucos suas palavras param de fazer sentido. Acontece tanto! Às vezes são meses pensando que nos entenderemos perfeitamente, e depois nada mais parece se juntar. Você queria me mudar? Todas as vezes em que eu quis mudar alguém, acabei ferindo a mim mesma. As pessoas mudam, mas não faz sentido querer mudá-las.

Mas você, ainda consigo imaginar que poderíamos conversar um dia. Mas não sei se saberíamos ser amigos. Não sei... não sei.

Por um lado, sinto que é cada vez mais difícil manter as pessoas interessantes por perto. Manter as pessoas que não já são parte do bando por perto.

But surely it is still here, and we can still find it?