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terça-feira, 14 de agosto de 2018

Quando nasci

(obs: achei este texto na pilha de rascunhos, e entendendo que o final dele precisa ser reescrito e tal, mas estou numa vibe de publicar coisas mal-escritas, então aqui vai)

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Algumas semanas antes de eu nascer, um homem olhou para o meu corpo e disse: mulher.
Minha vó se alegrou de saber que teria uma netinha.
Minha mãe se recusou a saber, ela disse: já tenho uma menina e um menino, o próximo bebê pode ser o que ele quiser. O que vier é lucro.

Eu sou lucro.

Quando nasci, um homem olhou para o leu corpo e disse: mulher.
Me tiraram do colo de minha mãe. Me mantiveram numa cama estéril. Me devolveram para os braços de meu irmão bebê que gritava: minha! Minha! Minha!

Toda criança não pertence a si mesma.

Minhas tias comemoraram meu corpo chamado mulher. Minhas primas me deram espaço nas brincadeiras dos vestidos, das maquiagens, das fadas. O mundo maravilhoso de ser mulher.

Meus primos (e os outros meninos) me disseram que quem jogava mal era mulherzinha, que mulher era covarde, que mulher era ruim, e assim eu aprendi que me chamavam de mulher para me ofender. Mulher era um palavrão.

Quando eu mudei de escola, as crianças ouviram meu nome e souberam: mulher. As meninas me adotaram, me incluíram, me ensinaram as delicadezas, as brincadeiras, os assuntos de mulher; os meninos se afastaram e me afastaram, e tiraram sarro, e puxaram meu cabelo e me chamaram de muitas coisas, às vezes por nojo, às vezes por interesse; e eu aprendi que eu precisava participar da separação entre homem e mulher.

Quando eu cresci um pouco, eu descobri que meu corpo era proibido, que só podia ser visto por aquelas que tinham um corpo semelhante ao meu; que se eu quisesse interagir com meu corpo, revelar meu corpo, trocar os panos que cobriam meu corpo, eu precisava me esconder de todos os que não eram mulher. Eu não entendi; mas eu entendi que meu corpo era mulher, que meu corpo me separava e me limitava ao conjunto das pessoas que se chamavam mulher.

Nas aulas de educação física, o professor olhou pra mim e disse: mulher. Então ele me fez fazer exercícios mais leves, me obrigou a me esforçar menos, baixou suas expectativas sobre o meu desempenho, e muitas vezes me impediu de jogar futebol, porque eu era mulher; e eu aprendi que mulher era fraca, lenta, incapaz e ruim, que eu não tinha mira, nem força, nem fôlego, nem reflexos, e não adiantava eu tentar mostrar que eu tinha, que eu era, que eu podia fazer, porque mulher não pode, não tem, não é; assim era toda mulher.

Quando eu me senti só, um menino olhou para o meu corpo e disse: mulher. E desejou meu corpo e minha companhia, e fez amizade comigo, porque eu era mulher. E ele me permitiu me sentir importante, e inteligente, e querida, como nenhuma pessoa jamais me fizera sentir. Quando nossa amizade cresceu, eu chamei de amor; não amor daquele tipo proibido que só podia haver entre homem e mulher, mas amor daquele tipo doce que se tem entre irmão, entre irmãs, entre familiares e pessoas amigas. Mas ele me pediu em namoro, porque o amor dele era daquele tipo estranho que significava que ele era homem e eu era mulher e o corpo dele, diferente do meu, desejava o meu corpo, diferente do dele. E eu aprendi que eu poderia ter amigos se eu fosse desejável como mulher.

Conforme cresci, minhas amigas e meus amigos me perguntaram, cada vez mais insistentemente, de que menino eu gostava, e eu entendi que eu precisava gostar dos meninos (daquele jeito estranho que só meninas podiam gostar de meninos, e que envolvia romances e beijos e a separação entre homem e mulher), e que os meninos precisavam gostar de mim (dessa forma estranha que só os meninos podiam gostar das meninas e que envolvia corpos e beijos e a separação entre homem e mulher), mais que das outras meninas, e que competir pela atenção do menino que eu gostava era ser mulher.

Quando meus seios cresceram, meu irmão adolescente olhou pro meu corpo e disse: mulher. E eu percebi seu olhar e senti que ele também me via através das divisões e separações e através dos nossos corpos, e que o amor que ele tinha por mim, aquele amor de irmãos, estava manchado pela sugestão daquele gostar que existe entre homem e mulher.

Quando meus pêlos cresceram, eu fiquei feliz de me aproximar mais de uma fera, de uma lôba -- mas logo descobri que pêlos precisavam ser arrancados, em longas sessões de tortura, e eu aprendi que o sofrimento era parte de ser mulher, e que eu não podia ser um bicho, ser selvagem, ser loba, enquanto eu fosse mulher.

Conforme cresci, eu comecei a valorizar apenas as meninas que faziam amizades com meninos, as que recusavam a separação rígida entre os sexos -- mas porque o mundo adolescente era feito da separação entre homem e mulher, nossas amizades se encheram de cotonações sexuais, porque amizades entre homem e mulher sempre se misturavam com aquele tipo estranho de gostar que vinha da reunião dos sexos separados. E eu soube que eu precisava participar desses jogos, e que só podia jogar na posição de mulher.

Eu tentei resistir.
Com meus amigos de internet, eu brincava que era homem, ou bicho, ou fera. Nós falávamos de não ter sexo, ou de poder alternar entre os sexos. Nós falávamos de abraços masculinos, e de não ter vergonha do corpo um do outro. Nós falávamos de amizade, aquela amizade entre pessoas irmãs, um paraíso perdido anterior à cisão entre os sexos, do passado (que eu imaginava que houvesse existido) onde nós havíamos sido livres das limitantes separações entre homem e mulher. O paraíso, anterior aos sexos.

Adolescente, eu decidi que não ia me impôr a vergonha do corpo, que eu podia sim tirar a roupa na frente do meu melhor amigo, meu amigo-irmão; e o fiz. Mas adolescíamos, e eu senti o olhar do meu amigo, e percebi seu desejo, aquele estranho desejo que só um homem podia ter sobre uma mulher, aquele desejo sobre o corpo, sobre cada pedaço de pele exposta ou sugestão de forma; e entendi que eu nunca mais poderia mostrar diante de um homem meu corpo mulher. Minha amizade com homens, a partir dali, seria sempre limitada pelo meu corpo de mulher.

E quando meus pêlos cresceram tão rápido e tão fortes que removê-los passou a ser um tormento, e eu comecei a usar shorts mesmo com pernas peludas, minhas amigas riram de mim, e eu entendi que a pior coisa que eu podia fazer como mulher era ter características de homem.

Mas quando eu descobri que vários dos meus amigos mais íntimos me amavam e me desejavam como mulher, eu entendi que eu era uma mulher amável e desejável, e que eu podia fazer meus amigos felizes sendo mulher.

Depois disso, quando eu comecei a sonhar com os olhos dourados de uma mulher, eu tive mêdo de sequer interagir com ela, com mêdo de que eu não fosse capaz de atender às expectativas de qualquer mulher
 
Depois disso, quando meu amigo me contou que ele era gay, eu tive o baque de aprender que eu podia partilhar amor com um homem que não desejava meu corpo de mulher; e ao mesmo tempo o baque de desejar um homem que jamais desejaria meu corpo de mulher..

E depois, quando eu comecei a namorar o rapaz que declamava seu amor a princesas de corações gélidos, eu odiei esse amor cortês, e decidi me afastar o mais possível da idealização que ele tinha de mulher. E depois, quando eu decidi me afastar dele, eu decidi começar a explorar o que poderia ser me comportar como uma mulher.

Então eu comecei a usar vestidos, e saias, e toda aquela parafernália que me faria mulher; e depois eu descobri que eu não sabia usar maquiagem, mas que poderia não usar, e que se eu raspasse as pernas, não precisaria depilar, e que haviam formas de escapar a algumas partes do sofrimento de ser mulher.

Quando virei mulher, eu compreendi que eu podia tentar resistir à imposição de ser mulher.

Quando eu consegui assumir minha sexualidade, e ir atrás de vivê-la satisfatoriamente, eu descobri que outras pessoas gostariam até das partes mais bizarras, das partes que eu detestava, do meu corpo de mulher. E eu aceitei que meu corpo não era nojento, errado ou deformado, através do desejo e do sexo e do olhar dos homens.

E quando eu entrei em paz com minha sexualidade, eu consegui fazer amizades tranqüilas e honestas e profundas com outras mulheres, e eu descobri que muitas delas também se revoltavam contra o sofrimento de ser mulher; e eu descobri que eu podia lutar contra cada pequeno pedaço do modelo de mulher.

Depois disso, quando eu deixei meus pêlos crescerem, e eu senti o triunfo de voltar a ter patas de fera, os homens vieram atrás de mim me dizer o quanto eles me admiravam na minha coragem como mulher; e eu não consegui dizer a eles que pouco me interessava ser julgada como mulher.

Quando eu encontrei outra pessoa como eu, e brinquei com ela sentindo que nenhum de nós era homem e nenhuma era mulher, eu me dei conta de que eu nunca estava realmente feliz enquanto eu fosse reconhecide como mulher. Mulher era uma prisão, uma corrente que me atava. A liberdade era a fera, a resistência, e o nada.



Quando nasci, eu olhei para o mundo com meus olhos que não eram nem de homem nem de mulher.

quinta-feira, 13 de março de 2014

Seios (SEIOS!)

(mais um roteiro pra hora em que eu largar mão da preguiça e ir executar esses zines)

*** imagem no espelho, fazendo uma dessas coisas tipo escovar os dentes, calça jeans, sem camisa, postura masculina, seios ***

Às vezes eu me olho no espelho e não acho meu corpo nada feminino.

** seios **

Eu tenho seios, é verdade.

* ventre, calça jeans, talvez pêlos da barriga *

Existem também homens cis que têm seios

*(as próximas imagens, lado a lado)*

Ou porque sofrem dessa condição hormonal que os homens, muito engraçadamente, chamam de "ginecomastia"

** imagem de homem com seios, desesperado e tentando escondê-los ***

Ou porque são gordos.

** imagem de homem gordo com peitos grandes **

** homens (um pra cada parte) com peitinho, super envergonhados **

Quando os homens têm seios / mesmo que muito pequenos / eles sentem muita vergonha

** ? **

E são encorajados a remover essa parte de seus corpos cirurgicamente

Por que, afinal

Pra quê serve um homem ter seios?

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** olhando pra baixo, imagem triste, segurando os seios com as mãos **

Às vezes eu queria fazer essa cirurgia também

** sequência a respeito de usar um binder, eu acho, ou talvez imagens de eu sem seios **

Imagina

Imagina!

Acho que

Em algum momento, eu cheguei a pensar que eu era um homem

Se eu fosse um homem, então todo mundo acharia que eu não deveria ter seios

** eu, homem **

Imagina

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Não é nem que eu ache eles feios

É mais a sensação, quando eles balançam

Ou quando eu deito

Ou quando eu os toco

O tempo todo

O

TEMPO

TODO

Tem dias em que eu não consigo sair de casa com essas coisas balangando no meu peito, com essas coisas enormes deformando minhas roupas, gritando alguma coisa pro mundo que eu tenho nojo de ouvir, eu não quero ouvir, CALA A BOCA, CORPO!

** imagem com os olhares de outras pessoas, aqui, ainda na sensação de barulho, muito ruído visual, eu se encolhendo, talvez algumas frases machistas voltadas pra mulheres **

Eu só queria que meus seios ficassem quietos...

Mas tem outros dias, como hoje, em que eles ficam quietos.

** imagem de paz e tranquilidade, sem camisa e sem pessoas **

Aí eu sinto que meu corpo não é realmente feminino

** auto-inspecionando o corpo **

E por mais que eles incomodem um pouco

É só um inconvenientezinho, como uma gordurinha localizada

** quadro sem falas, ainda autoinspecionando, do quadril pra cima, ruído surgindo da parte debaixo do quadro, olhando para baixo com curiosidade **

** quadro com o corpo todo, sem calças, mostrando a bunda e as pernas, ruído saindo das partes mais feminilizadas, expressão de choque/desagrado **

Tem outras partes do corpo que não calam a boca NUNCA.

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Transição e Identificação com Mulheres

Ultimamente eu tenho tido vontade de dizer coisas como "eu, como mulher...". Eu tenho sentido identificação com mulheres. Estranhamente, isso é algo novo pra mim. É curioso que eu tenha passado a me identificar com mulheres justamente depois de desistir de me identificar como mulher. Eu acredito, na verdade, que essas coisas estejam relacionadas.

Eu passei uma parte muito grande da minha vida sem nenhuma identificação com mulheres. Embora eu pensasse em mim como mulher (com certa raiva e desejo de ser um menino), eu não via absolutamente nenhuma semelhança entre eu e as outras meninas da escola, por exemplo. Eu não via por que eu devia ser mais semelhante a minhas primas que aos meus primos, ou me identificar mais com minhas tias que com meus tios. Eu tinha uma relação ótima com minhas primas, e havia uma certa divisão de gênero entre meus primos, mas eu nunca me senti plenamente dentro do grupo das primas. Eu era a criança mais nova, a caçula, e isso era uma espécie de identidade pra mim. Eu queria muito mais fazer as atividades de menino que eu não podia fazer do que a maior parte das atividades de menina. Na escola, a separação era muito mais intensa. No pré, eu tenho uma lembrança, muito vaga, de apenas três meninas (lembro de um único dia na casa de Jennifer, lembro de sua mãe e sua gata, mas não seu rosto; lembro do rosto de Melissa, de seu pai e de quando a visitamos muitos anos depois; lembro vagamente de onde eu estava no parquinho no dia em que Marcela veio contar, desesperada, que havia matado nosso coelho), e uma lembrança muito forte da amizade intensa que eu tive com três ou quatro meninos (Ricardo, Vinícius, Kauã, e um pouco de Alan). Quando mudei para outra escola e a segregação entre os gêneros era mais forte, eu me sentia ainda mais deslocade por não ter essa cultura de segregação. Eu tentava fazer amizade com os meninos, mas era muito difícil. Fiz muitas amigas meninas, mas era uma amizade difícil; há poucas meninas daquela época com quem eu tinha uma amizade confortável. Elas tentavam me ensinar a fazer coisas de menina e eu me sentia uma menina desajeitada e sem cultura. Depois de um tempo eu desisti de tentar; fiz amizades com garotos que se interessavam por mim e com as garotas que gostavam de fazer amizades com garotos. Minha identificação com garotos era sempre muito mais forte que com garotas.

Eu achava normal; eu me identificava como uma garota esquisita, uma outcast. Alguns anos mais tarde, um amigo meu apontou, neste blog mesmo, que eu era uma pessoa muito feminina, mas "preferia" me ver como uma pessoa estranha. Foi a primeira vez que eu suspeitei que minha visão de mim não tivesse nada a ver com a visão dos outros. Pensando bem, é um pensamento meio desesperador, esse de que os outros estavam me vendo como uma mulher adequada, bem-encaixada na vida, confortável, e só eu estava me vendo como eu realmente me sentia. Pensando bem, isso explica muita coisa, mas muita coisa mesmo.

Veja, eu me identificava como mulher, eu identificava que coisas aconteciam comigo por ser mulher, e coisas que eu fazia por ser mulher, eu tinha desejos específicos de deixar de ser e ter sido mulher, eu só não me identificava com outras mulheres.

Em algum momento eu descobri a bissexualidade, a não-monogamia, e por fim o feminismo.

A bissexualidade serviu pra compreender parte da minha ansiedade com certas mulheres como simplesmente uma ansiedade de ter desejo por uma mulher que eu tinha todos os motivos para crer que era hétero. Quando eu compreendi melhor meus sentimentos, eu desenvolvi uma necessidade louca de ser lésbica. Eu acho que eu imaginava que entre as lésbicas eu talvez sentisse alguma forma de identificação. Até hoje eu tenho essa imagem de que lésbicas vivem num mundo mágico composto por mulheres em que todas elas se sentem bem, aceitas e bem-encaixadas. De fato, muitas vezes elas passam deliberadamente essa impressão. Entretanto, por ser uma pessoa bissexual e estar quase sempre com homens, (e eu culpo um pouco a dificuldade que eu e minhas amigas bi tínhamos de fazer essa coisa perigosa que é ficar com garotas à vista de outrem), eu nunca cheguei a me envolver romanticamente com mulheres. Por outro lado, eu vivi amores platônicos extremamente intensos --- e esses amores, de uma forma mais poética do que confusa, me jogaram de um lado pro outro no simbolismo de gênero, porque eu invejava a mitologia do amor heterossexual e eu queria a simbologia do cavaleiro, dos mitos primitivos, da rainha e do amante, de todas essas coisas, mas eu também queria romper as expectativas heterossexuais, então eu alternava entre narrativas heróicas masculinas e femininas, tornando o gênero de todos os envolvidos uma coisa poéticamente fluida, como dá pra ver aqui.

A não-monogamia serviu para focar meus sentimentos de deslocamento e exclusão numa coisa objetiva: eu era diferente de todas as demais porque pra mim monogamia simplesmente não era uma opção. Não-monogamia foi claramente a minha primeira e mais importante orientação sexual clara (já que a heterossexualidade fora meramente uma imposição social, e a bissexualidade se manteve como uma dúvida até praticamente ano passado).

O feminismo veio vindo aos poucos, misturando coisas que minhas amigas mais politizadas e minha mãe me diziam. Eu lembro do dia em que eu e minha mãe tivemos uma longa e iluminadora conversa sobre o abuso que sofri na infância, e como isso abriu meus olhos para muitas coisas. Depois, no feminismo, eu comecei a me identificar com outras mulheres através dos relatos de abusos. Os espaços exclusivos para mulheres, mesmo que virtuais, como o Mulheres Livres, permitiam que nós falássemos em grandes grupo sobre essas coisas, e ficou muito claro como nós estávamos todas juntas, e como aquela roda de histórias era poderosa. Eu inclusive escrevi sobre isso aqui, no início do ano passado. Naquele momento eu entendi que minha maior identificação com outras mulheres era através das histórias de abuso e resistência, abuso e sobrevivência, abuso e essa capacidade louca que temos de continuar em frente, muitas vezes continuando a conviver com o abusador, amando-o ou cuidando dele durante toda a vida, fingindo que somos capazes de perdoar, às vezes por incapacidade de condenar completamente. Minha identificação com outras mulheres vinha através do laço com minha mãe e minha avó e minha bisavó na linhagem materna que certamente haviam sofrido abusos antes de mim, e vivido e sido as pessoas fortes e incríveis que elas eram e ela é.

Mas ao mesmo tempo eu descobri, através de sexo e de posts deste blog, que eu não era a única pessoa no meu círculo que rejeitava o próprio gênero. Ao mesmo tempo eu conheci uma mulher trans e um homem trans --- minha voz ainda treme um pouco quando eu tento descrever a sensação poderosa que me causou ver aquele corpo másculo, peludo e musculoso, e saber que era fisicamente possível ter aquilo para mim. E esse mesmo homem disse: "Eu não sou homem, eu não sou mulher, gender, fuck it". Então eu segui esse caminho loucamente libertador de simplesmente negar meu gênero. Não apenas tentar me libertar abstratamente das imposições de gênero como eu estava fazendo antes, mas rejeitar arbitrariamente tudo o que era feminino.

Essa diferença foi poderosa porque havia muita coisa que eu tinha mêdo de fazer. Eu precisei juntar coragem por anos antes de deixar as pernas sem depilação; eu demorei pelo menos dez anos sem conseguir seguir minha vontade de raspar a cabeça; eu passei mais do que isso sem nem cogitar andar sem sutiã; eu freqüentemente tentava experimentar coisas "de mulher", talvez numa tentativa fútil de me identificar com outras mulheres, ou numa tentativa ainda mais fútil de "exercitar meu poder de escolha". Eu havia acreditado no pensamento liberal de que mulheres escolhem pessoalmente depilar as pernas e as axilas, usar maquiagem e esmalte, usar sutiã, salto-alto, saia, cabelo comprido, e eu havia acreditado de uma forma tal que eu aplicava essas escolhas a mim, questionando apenas superficialmente por que eu estava fazendo isso.

Pra se ter uma idéia, na primeira vez em que eu saí com uma mulher lésbica, eu me vesti da forma mais feminina que eu pude, com brincos delicados, saia curta, sandália, e me senti ligeiramente boba por ver que ela se vestia de um jeito muito mais parecido com o que eu me vestia normalmente.

Para outra idéia, quando eu percebi que eu ia ficar com um garoto que declaradamente preferia pessoas peludas, eu, que havia me mantido peluda mesmo na praia, de biquíni, tive que depilar as pernas. E eu continuei alternando entre deixar crescer e depilar por anos, mesmo que cada vez que eu depilasse eu sentisse um momento de desagrado cada vez que eu via minhas pernas peladas.

Além disso, eu usava sutiã e dizia que era porque eu detestava a sensação dos meus peitos balançando. Eu ainda detesto profundamente essa sensação, mas eu não uso mais sutiã quase nunca. Hoje em dia me parece que eu usava sutiã basicamente por mêdo de que meus peitos ficassem caídos.

Eu achava que eu estava exercitando meu poder de escolha sobre meu corpo e minhas roupas, mas não era uma escolha em liberdade. Quando eu escolhi deixar de me comportar como mulher e deliberadamente tomar comportamentos masculinizados, essa falta de liberdade deliberada me forçou a notar uma séria de limitações que eu havia me imposto anteriormente. Essa experiência me transformou completamente. Além disso, é claro, as pessoas trans, anarquistas e não-monogâmicas que conheci nessa época (tenho dificuldade de separar os grupos) me levaram para uma teoria feminista e uma militância muito mais radical do que a que eu havia conhecido até então, que me permitiu pensar muito mais profundamente sobre tudo o que eu experienciava.

O processo de transição (até agora) foi confuso e irregular.

Um dia eu resolvi me travestir, e tive um momento inicial de extremo prazer por parecer um homem, seguida de uma crise nervosa em que eu precisava me vestir com roupas fofas e femininas que eu adorasse. Depois de um tempo eu comecei espontaneamente a me vestir de forma mais ou menos andrógina. Depois, num processo que eu ainda não consegui entender, eu subitamente comecei a rejeitar roupas femininas: quando eu vestia qualquer coisa com rendinhas, ou sainhas, ou estampas delicadas, eu sentia um estranhamento, uma repulsa, como se aquilo estivesse ridículo e errado. Eu acho que ainda estou nessa fase, embora de vez em quando eu use uma ou outra roupa feminina.

Nas relações com as pessoas foi semelhante: no começo me causava estranhamento quando me tratavam de forma neutra ou masculina, até o dia em que eu senti uma transição dentro de mim e comecei espontaneamente a usar pronomes masculinos pra falar de mim mesmo, e depois, em alguns momentos começou a se tornar desagradável quando certas pessoas usavam pronomes femininos para se referir a mim. Hoje em dia há uma segmentação na minha cabeça, eu ainda quero que minha família me trate como sempre me tratou, não quero fazer uma transição na minha vida, e quando me apresento para velhinhas desconhecidas na rua eu ainda uso meu nome de batismo; mas certas pessoas têm uma relação muito generificada comigo, certos amigos usam demais pronomes e formas femininas, e dependendo do caso e do amigo, de há quanto tempo o conheço e como é nossa relação, isso incomoda. O que me incomoda não é, na verdade, o pronome ou o nome ou a forma gramatical escolhida, é o tratamento em geral, é a diferenciação. É possível notar quanta relevância o gênero têm em nossas relações observando o quanto ele se mostra na linguagem usada. E de modo geral usar formas gramaticais que evidenciem o gênero tem parecido esquisito para mim.

A relação com meu corpo, ao mesmo tempo, mudou bastante, mas talvez por outros motivos. Em alguns aspectos, eu tenho sentido menos vontade de transformação, eu tenho sentido menos incômodo por ter poucos pêlos, menos incômodo por não ter barba nem pêlos nos braços (ah, os pêlos nos braços... acho que metade da minha atração por homens vem deles...). Eu parei de usar sutiã, e percebi que a sensação que eu sempre tive com os peitos balançando é bastante parecida ou talvez conectada com disforia --- essa sensação louca de asfixia, de que tudo vai ser insuportável pra sempre, contra qual o único remédio é desviar o olhar e respirar fundo e não pensar a respeito disso. Eu percebo que a sensação de disforia que eu às vezes tenho com meus peitos é muito parecida com o desespêro que eu tive por estar na faculdade errada, ou por não estar levando a vida que eu quero de modo geral. Eu percebo que eu sempre senti isso de certa forma. Esse incômodo do descontrôle, de ter que lidar com algo que você queria que nem existisse. Sempre foi assim.

"Sempre fui assim" é a frase que mais me levou a descobertas nos últimos sete anos.

E por fim, chegamos à identificação com mulheres.

Na verdade essa identificação é algo muito recente. Eu senti um impulso de identificação quando me percebi desejante de mulheres, mas no relacionamento com elas ainda me sentia o patinho feio. Eu senti uma identificação com as histórias de abuso, mas essa identificação não era suficiente para eu me sentir confortável. Eu não vou explicar em detalhes o que me fez começar a me identificar com mulheres porque é um assunto complexo político e teórico e que envolve uma infinidade de tretas e mereceria uma série de posts a respeito. Vou apenas dizer que minha percepção das agressões que eu sofro por ser designada mulher aumentou, e que assuntos específicos de pessoas designadas mulheres têm sido discutidos com freqüência, e que voltei a discutir primeiramente feminismo, mas com essa nova visão que desenvolvi nesse processo, e que afinal notei (esses dias) que me identifico primariamente com outras pessoas designadas mulheres e que sofrem o mesmo tipo de agressão que eu, que temos pensamentos parecidos, e posicionamentos parecidos. Eu desenvolvi nesse tempo a admiração pelas pessoas que assumem "mulher" como identidade política depois de terem sido forçosamente designadas mulheres por toda a vida; eu as admiro porque vejo nisso um ato de lealdade às outras mulheres, àquelas que jamais questionariam seu gênero. Cada vez mais eu me identifico como uma pessoa faab: designada mulher, mas não feliz com isso. Às vezes me ocorre que minha incapacidade de me identificar confortavelmente como mulher seja antes uma fraqueza de caráter, uma dificuldade em resistir, como resistem as mulheres que admiro, uma falta de resiliência; Admitir minha mulheridade seria difícil e doloroso, então deixo de lado, deixo pra outro dia. Escolho não me identificar. Tento, mas nem sempre consigo, evitar esse pensamento desmoralisante.

Mas trabalhamos. Percebo agora que o envolvimento com a transgeneridade, assim como com a não-heterossexualidade e a não-monogamia, me permitiu amadurecer muitas idéias e me dar maior segurança para me relacionar com outras pessoas; mas principalmente, a não-obrigação de me identificar com outras mulheres tornou o convívio com elas muito mais fácil. Poder me identifcar a priori como o outro, o diferente, me torna imune à maior armadilha do convívio com mulheres, que é quando elas supõe que eu, "por ser mulher", penso, ajo e sei coisas que elas sabem. Quando me sinto inseguro em relação à minha habilidade em performar mulher, eu posso me esconder sob o escudo de não ser, de fato, uma mulher.

Talvez seja ilusão minha que mulheres se identificam umas com as outras, não sei; mas talvez não seja, talvez seja só a minha construção de gênero que não foi tão bem feita quanto com as outras mulheres, talvez ela tenha sido quebrada cedo demais pelo abuso; talvez seja só uma conjunção de fatores, de eu ser bissexual, não-monogâmica, por minha mãe nunca ter me ensinado a usar vestidos e pintar a unhas, por eu ter tido vontade de jogar futebol mas nunca ter tido muito talento pelos esportes, por eu ser uma criança exageradamente tímida, mas muito eloquente, talvez sejam apenas todas essas coicidências que fazem minha experiência de gênero funcionar melhor quando eu escolho negar meu gênero designado.

Mas trabalhamos. Talvez isso mude de novo durante este ano.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Roteiro pra zine [1]

Tema: roupas e estética de gênero.
Possivelmente usar fotos em preto e branco, talvez editadas. Evitar mostrar o rosto, e especialmente os olhos. Quero uma coisa fria e impessoal nas imags, e pessoal nas palavras.

[primeiro quadro]
Eu normalmente passo o dia em casa de bermuda e sem camisa. Ficar sem camisa me dá uma sensação de liberdade tremenda...
<imagem de eu deitade em algum lugar, da cintura pra baixo>

[quadro]
Uma sensação de posse sobre meu próprio corpo.
<imagem completa, mostrando o corpo todo, sem camisa, seios à mostra>
 É só assim que eu sinto que meu corpo é realmente meu, quando estou sozinho e meio nu.

[quadro]
No resto do tempo, meu corpo pertence aos olhares dos outros.

[quadro]
Hoje tava um calor desgraçado. Eu decidi vestir minha regata mais fresca.
<alguma imagem da paisagem, do sol, talvez com um pedaço de corpo, ainda sem rosto>

[quadro]
<Imagem da regata, mostrando as florzinjas e o decote>

[quadro]
As florzinhas não são muito grandes.
Nem o decote.
Eu decidi que não vou deixar isso escolher por mim o que eu visto
Mas eu visto sabendo...
<neste e o próximo sequência de vestir a regata>

[quadro]
"Hoje vão me chamar de mulher".

-- aqui deve mudar a página
[abre com um quadrinho de oz andando pelas ruas do centro, de boas]
[quadrinhos com falas, representando as cenas]
- bom dia, a senhora já foi atendida?
- me apresenta pra sua amiga!
- você é veterana...
- ela é aluna...
- a senhorita...

[quadro]
Não é uma mágica que a florzinha faz. É o contrário.
<continua imagens de oz na rua>
A minha mágica é que se quebra

[quadro]
Normalmente eu ando na rua disfarçado de eu mesmo. Uma máscara frágil, ou um feitiço de revelação. 
<acho que aqui seria legal ter uma imagem bem cisnormativa, sem peitos>

[quadro]
As crianças sempre vêem o meu eu verdadeiro.
<imagem de eu com casaco élfico e criancinha gritando algo como "oi menino"! Outras imagens semelhantes talvez'>

[quadro]
<não sei como ilustrar esse quadro, talvez algo focado em detalhezinhos>

Mas basta

Uma sugestão

Uma

Florzinha

[quadro]
<imagem análoga àquela cisnormativa, mas dessa vez realçando seios, quadril e afins. Seria legal essas duas imagens serem desenhos num estilo diferente>

--- tenho alternativas para o final
--- alternative 1
[quadro]
<em preto>
Hoje vão me chamar de mulher.

--- alternativa 2
[quadro]
<chegando em casa, com a blusinha>

[quadro]
<tirando a blusinha>

[quadro]
<se jogando no sofá, corta na barriga, análogo ao começo>

--- alternativa 3
[quadro]
<outra imagem sem peitos, corpo masculizado, com a mesma roupa, olhando pra baixo em olhar crítico>

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Estranhamente conforme eu fui escrevendo isso a imagem foi se transformando na imagem do leão sem juba que representa o homem trans no quadrinho "sashalioness". Talvez eu possa usar essa representação de leão no final, acho bacana o estranhamento.
Outra idéia que me ocorreu foi colocar um quadrinho com amigos usando linguagens apropriadas e tals, mas não consegui encaixar.

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Disforia é quando tem um dragão saindo do nosso peito e devorando as almas das pessoas imortais à nossa volta?

O jantar está servido e eu só tenho olhos olhos olhos

Minhas mãos afagam meu coração tem pêlos.

Por que os senhores atiraram suas palavras frias contra mim?

O branco gelo engole minhas panturrilhas

Eu não sou gay, eu não sou viado, eu não sou sapatão, eu não sou mulher
Suas raposinhas são demais pra mim
Cale a sua boca seu menino lindo femme fofo, tão jovem tão... Eu nunca poderia usar raposinhas assim
Eu acho seu vestido lindo em você, não em mim
Eu não sou você, eu não sou dos seus
Eu não sou bofinho, eu jamais serei

Eu não sou bi, eu não sou gay, eu não sou "heterossexual" eu nem sei o que são essas coisas

Às vezes eu sinto tesão olhando o céu, o mar, o tronco de uma árvore, os pelos de um cachorrinho
Eu nem sei do que vocês estão falando

--- Parece que nós somos a minoria aqui, né?
--- Ahn... "nós"? Quem somos nós?

Quem somos "nós"? Nós o quê? Quando você diz "nós", o que é que você vê em mim? Quem eu sou? Quem eu sou? Eu arranco seu coração com as tripas seu coração com os dentes mas é o meu coração e é você quem arranca
Eu quero meter as garras em algum pedaço muito violento de você
Sua boca
Seus olhos

Eu sentei de frente para eles e elas e roí todas as minhas unhas

Eu preciso saber, eu preciso saber
Deixa eu me recompôr, deixa eu me recompôr

No meu sonho minha mãe sabia.
No meu sonho minha mãe sabia.
No meu sonho minha mãe sabia.
No meu sonho minha mãe sabia.
No meu sonho minha mãe sabia.
Ela sabia. Eu contei. Ela sabia sim.
Ela achava que tudo bem.
Ela aceitava naturalmente.
Ela não fazia nenhuma objeção.
Nenhum "é só uma fase"
Nenhum "eu também já senti isso mas"
Nenhum "mas"
Nenhuma objeção.
Cada letra que eu escrevo e eu escrevo letra por letra me faz me sentir um pouco menos dragão demônio violência assassinado dentes
No meu sonho ela achava tudo bem.
Catarse-desabafo.
No meu sonho tava tudo bem.
Só é importante pra mim.

Hoje eu encontrei duas velhinhas que me cederam lugar na mesa delas que tinha menos espaço que todas as outras mesas mas elas eram duas velhinhas muito gente-boas e uma delas tinha problemas nos rins e por isso uma artérias ligada numa veia que fazia um zunido como uma máquinha e eu disse que o meu nome era Marina porque elas eram velhinhas e velhinhas são como se fossem famílias e eu quero família como se fosse família minha família não precisa se envolver com a minha identidade sexualidade e toda a verdade da minha vida e minha família pode me chamar pelo meu nome de família que minha mãe me deu mas eu também não

não quero me esconder.

e mas

Hoje eu encontrei um garoto e ele me perguntou qual era o meu nome pra saber se ele já tinha ouvido falar de mim e eu disse "

meu nome costumava ser Marina

"

E eu digo sempre assim, costumava ser, por favor não me chamem mais por esse nome, a menos que você seja tipo família, ou alguém que já me conheceu com esse nome antes como se fosse família mas pessoas novas simplesmente não podem me chamar assim.

"marina"

As pessoas ficam me perguntando "qual seu nome de verdade" e eu tenho vontade de dar respostas atravessadas mas eu nunca dou.

Uma vez aconteceu de:

--- Meu nome é Oz (e estendi a mão)
--- Mas esse é seu nome de verdade?
--- Bem... meus pais me chamam de Marina. Mas só meus pais, eu prefiro que me chame de Oz.
--- Muito prazer, Marina.

E eu aqui remoendo essa raiva, como se fosse invisível essa gressão medida, deliberada, eu quero mais é mandar você... Mas minha voz se cala porque todos os insultos são errados, eu quero é cagar no seu Deus, cuspir em você, derrubar seu Deus como você sem dúvida derruba o meu. Um dragão que nasce da minha garganta mas não consegue sair e se volta pra dentro devorando as minhas entranhas eu te odeio eu te odeio mas violência gera mais violência mas eu te odeio tanto eu quero tanto que você morra.

Malditos peitos e florzinhas nessa camisa linda que são só o suficiente pra vocês não aceitarem quando eu digo que EU NÃO SOU CIS, pare de me tratar como se fosse minimamente razoável me tratar como você não trataria o seu bróder pára de me tratar como se eu achasse minimamente razoável esse ridículo tratamente diferencial nos seus ridículos gêneros definidos socialmente por ridículas diferenças de uma biologia social que não passa de uma imposição sobre as verdades pessoas das vivências pessoais não acadêmicas de pessoas reais, como se fosse necessário ter um diploma e falar "português correto" e concordar com pelo menos uma escola de autores consagrados e de preferência mortos pra ser capaz de dizer uma coisa que seja verdade e não seja uma tautologia.

Tire as mãos do meu corpo, tire a sua bocas do meu corpo; Tire a sua língua nojenta de dois mil anos de cultura ocidental normatizante generificada impositiva do meu corpo vivo, real, animal, feito da mesma madeira dessa terra fértil que você esterilizaria se pudesse controlar, porque no fundo você não consegue aceitar um mundo que não possa ser contido pela sua cultura científica dentro dessa estrutura de poder intelectual, bom newsflash seu babaca, isso não é ciência, ciência não é saber explicar apenas o que você se digna a ver, ciência é saber aceitar mesmo a magia, o milagre, o absurdo, e explicar mesmo isso, e nunca rejeitar uma coisa que foi de fato observada. Mas meu corpo não é seu objeto de estudo, meu corpo é o meu corpo, meu corpo existe e é real e eu quero mais é que você suma daqui com seus olhos estúpidos que só conseguem me enxergar através do que a sua cultura generista é capaz de identificar no corpo que você só consegue explicar através dos seus ridículos livros de psicosóciobiologia que são só uma faceta, uma redução do real, e induzem ao erro na sua simplicidade. Você diria que a luz do sol está caindo na terra, atraída pela gravidade? Uma única teoria não explica tudo. Mas eu sei que a questão aqui não é científica, é política.

Tire seus olhos desavisados e desconhecidos e normatizados do meu corpo.

Desabafo.
Tautologia.
Catarse.

Hoje o menino me pergunto "E qual é o seu nome hoje?" e eu respondi "Oz. No facebook tá Ozzer". Mas era o menino que estava lá, que tinha ido atráz, um que tinha se disposto minimamenta e entender. Eles são tão raros.

Disforia é quando a gente sente raiva por umas coisas estúpidas tipo não acreditarem quando a gente fala o próprio nome? É quando a gente sente monstros invisíveis devorando todas as partes do nosso corpo por causa de um simples olhar, um jeito de falar, ou perguntar, ou sugerir?

Eu me sinto cansado. Eu mal nasci e já me sinto cansado. Get your act together, Ozzer, stop fooling around.

É assim que a gente se sente? Quando a máscara cai e as pessoas enchergam através de nós, não o que somos de verdade mas os pedaços nus que nos compões e que entretando não nos definem, e são sempore menos que nós? Quando a performance falha e as pessoas enchergam não o que somos mas o que falhamos em ser? Quando o personagem se desmonta e se desmancha numa pilha de entranhas e ossos no chão, um sem sentido, um desconstruído, quando enchergam aquém de nós, e deixamos de ser um todo coeso para sermos um não-ser, uma máquina-monstro-carne que anda e fala apenas por desígnio de um acaso biológico? Quando deixamos de ser um indivíduo para nos tornarmos uma peça num sistema cistêmico onde o que somos é determinado meramente pelas propriedades físicas que apresentados nas mentes proto-científicas de nossos pares que disparam seus olhares contra nos? É assim que a gente se sente, quando se deixa de existir?

(Also, por que bofinhos depilam as pernas?)