Mostrando postagens com marcador histórias sem fim. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador histórias sem fim. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Perguntas (e uma Maldição)

De novo estou publicando provisoriamente. Lembrem que o resto da história está aqui.

-------------------------------

Ainda me lembro claramente da revolta que senti naquele momento, com os olhos antigos da velha observando o efeito que suas palavras tinham em mim. Ela terminou a história com um tom tão solene que eu decidi que ela só podia ser estúpida ou louca. Eu era uma criança que acrediatava no certo e no errado, e pra mim era uma coisa errada você contar uma história que não fizesse sentido. Que tipo de história era aquela, em que o herói deixa a donzela pra trás e depois a mata, e nem se sente mal? Na arrogância infinita que os meninos aventureiros tem, eu levantei a voz e exigi que ela pelo menos admitisse sua vergonha.

- Essa não é a história de Roder, sua velha louca! Achei que a senhora ia me contar uma versão nova e melhor porque a senhora é daqui, mas essa história é pior que as que a Lilinha, que tem três anos, conta! Não tem pé nem cabeça! Como que a Faelyn podia estar dentro da caverna, se ela tava esperando pelo herói por meses e anos?! Como que Faelyn podia ser o dragão, se o dragão tinha aprisionado Faelyn um primeiro lugar?! Como que...

Mas nessa hora a velha não estava mais séria e tinha começado a sorrir de um jeito maroto, um jeito mau, como se estivesse tirando sarro de mim, se divertindo como se eu tivesse caído direitinho em sua armadilha. Eu ainda tentei insistir mais um pouco mais, mas minha imaginação estava trabalhando mais rápido do que eu podia contê-la, e atribuindo sentido à história toda.

- Sabe o que que eu acho? Eu acho que você é Faelyn, e que você inventou essa história porque você queria ser a princesa que o Roder salvou, mas não foi, e ele matou o dragão e depois fugiu com uma outra princesa, uma princesa que não chamava Faelyn, e que era muito mais bonita e mais delicada e mais jovem que você, que é só uma velha coroca que nenhum herói gosta e que nem sabe contar história!

Eu estava revoltado e tinha perdido toda a delicadeza. Quando me dei conta do que havia dito, de quão gravemente eu havia insultado aquela senhora, aquela mulher apavorante que provavelmente também era uma bruxa, eu gelei, certo de que viria uma grande punição. O sorriso dela tinha diminuído, e eu senti que havia uma certa dose de desagrado naquele sorriso duro, que parecia forçado, e no jeito como os olhos verdes estavam fixados tão intensamente em mim. Eu estava com mêdo e queria procurar uma rota de fuga, queria escapar daquela mulher, mas também não podia desviar os olhos dela. E havia um pouco de orgulho ali também, porque eu não queria virar as costas para uma mulher tão baixa que podia destruir uma história nobre como a de Roder apenas por sua própria vaidade. Felizmente, antes que eu criasse coragem de fazer alguma coisa, ela tornou a falar:

- Você comete o mesmo erro de sempre, menino, mesmo depois que eu lhe avisei. O problema não está nas histórias, está nos ouvidos de garotinhos como você, que acham que só os que as avós deles contaram é verdade. Que acham que os heróis são grandes e apaixonados por lindas donzelas, que são frágeis e só querem ser resgatadas. Garotinhos como você nada sabem de dragões. Eu lhe dei uma história de grande poder, uma história que é verdadeira e fala sobre verdades, e você vai aprender o valor dela com o tempo. Essa história é sobre como Roder matou sua primeira donzela por ser apaixonado por dragões. Você encontrará, em sua vida, outras histórias que sua avó não poderia lhe contar, histórias que não são grandiosas e não falam sobre conquistas, e sim sobre derrotas. E você mesmo também viverá suas próprias histórias, e você entenderá que nem tudo é o que parece, e que nem sempre e fácil entender de que tipo de história você está participando...

A velha não estava mais sorrindo, só estava me olhando enquanto a sua voz melodiosa me enfeitiçava outra vez, e ela de novo parecia uma mulher jovem e bonita. Eu estava coberto de calafrios.

- Por exemplo, - ela continuou - a história do ogro que você matou. Será que ele era mesmo um monstro terrível raptor de donzelas? Ou será que monstro não é você, que entrou em sua casa e o agrediu, você, que começou, como Roder, querendo salvar donzelas, e que no final só tinha pensamentos para o sangue de monstro lhe cobrindo?!

Eu não podia mais me mexer, e tinha certeza agora de que ela era uma bruxa, que sabia tudo sobre mim e que ia me transformar em alguma coisa horrível, talvez um ogro. Conforme ela falava essas coisas, seu olhar ia ficando mais intenso e assustador, embora a voz continuasse calma e agradável. Mas, de uma hora para outra, ela estava vociferando, dizendo coisas que me perseguiriam pelo resto da vida.

- Você é amaldiçoado, Meranael! Você tem a maldição do matador de monstros e do contador de histórias, e você seguirá os passos dos grandes heróis, mas não os que você imagina, e sim os que eles realmente deram. Você enfrentará desafios, e conhecerá mais pessoas e lugares do que você espera conhecer, mas você terá sede pela verdade, e ela sempre escapará por entre seus dedos. Você contará muitas histórias, mas nenhuma história verdadeira jamais estará completa, e muitas vezes as histórias verdadeiras não farão sentido como você espera. Mas, enquando sua alma humana permanecer neste mundo, você não se desviará do seu caminho."

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Faelyn

O dragão surgiu de repente depois de uma curva, e assomava enorme, quase batendo em todas as paredes da imensa galeria. Era um dragão magnífico, de escamas verdes cobrindo as costelas e placas vermelhas por todo o dorso, brilhando intensamente mesmo na pouca luz da caverna. Suas garras eram do tamanho da espada de Roder, cinzentas e muito mais fortes do que a lâmina. Toda a couraça do dragão reluzia em tonalidades detalhadamente distintas, colorindo as paredes e o chão como um caleidoscópio. Seus chifres eram grandes como árvores, e seus olhos tinham a intensidade de um caçador. Era o dragão perfeito, o monstro de todas as lendas, o inimigo dos sonhos de Roder, Aquele era o dragão definitivo, o dragão com que ele sonhava quando sua irmã lhe contava histórias antes de dormir.
- Nahär! - gritou Roder o nome de seus ancestrais enquanto desembainhava a espada. O dragão levantou a cabeça num susto e se encolheu contra o fundo da galeria, contorcendo o longo pescoço escamoso para virar os olhos para o invasor. Roder, vendo aquela carne enorme se virando e movendo com estradalhaço, ergueu a espada que tinha matado cem ogros e se lançou em corrida para fincar sua lâmina entre as escamas da barriga do monstro. Mas não é tão fácil penetrar o couro de um dragão, e este, tentando espantar o incômodo cutucador, abriu a bocarra cheia de dentes pontudos e rugiu na cara de seu agressor. Mas Roder, em vez de de se assustar com os presas imensas e o rugido ensurdecedor se revigorou com eles e e, convencido de que aquele era o mais terrível e formidável monstro que um herói já enfrentara sem ser devorado, estendeu o braço e enfiou sua espada no fundo da enorme garganta. E o dragão caiu.

Como eu disse, o problema está sempre nos ouvintes. vejo que você me ouve com olhos arregalados e emoção renovada a cada frase, sem imaginar o que acontece a seguir. Também Roder acreditava estar vivendo a estória de sua vida, e nesse momento seu coração batia rápido e sua mente viava pelos cenários do triunfo e das canções dos menestréis. Mas nesse mesmo momento sua visão se desfez.

A bocarra do dragão caíra sobre o herói e o mantinha preso entre as presas e a espada, um dente enorme enfiado no braço desarmado. De repente o espeto dos dentes desapareceu e Roder se desequilibrou e caiu sentado no chão, atordoado mas sem largar a espada. Uma névoa com cor de dragão volteava e revolvia em torno dele, parecendo querer se reunir no centro da galeria logo à sua frente. Entretanto Roder via nitidamente através da névoa, que não tinha cheiro, e não havia vento. Era uma ilusão! Não havia dragão, mas seu braço estava ferido e a espada, suja de sangue. O herói ficou no chão, confuso e paralizado pela percepção de que estivera lutando contra um dragão de mentira. Entretanto, devia haver alguém, quem sabe um demônio ou um vil feiticeiro por trás dessa névoa, pois alguém raptara a donzela, alguém o chamar através da caverna, alguém causara o ferimento no seu braço, e mais - alguém deixara seu sangue sobre sua espada. Roder ficou de pé e avançou lentamente para onde a névoa começava a se compactar numa forma humana, determinado a garantir sua vitória contra quem fosse o vilão de sua história. Ele se postou altivo e ameaçador diante do homem que a névoa formava; mas o homem era na verdade Faelyn, caída e agonizante aos seus pés, numa poça de sangue que saía de sua garganta - e ele desfez a pose e tentou desesperado ajudá-la, mas a garota se esquivou dele apavorada, e seus últimos movimentos neste mundo foram para fugir de seu suposto salvador.

Imagino Roder tentando ajudar a garota, tentando entender onde ele tomara o caminho errado, como era possível que o dragão cruel se tornasse a dozela inocente. E principalmente, como a donzela fôra parar dentro da caverna se ela estava esperando por ele lá fora? Mas não, Roder não parou para pensar nessas coisas, porque era jovem e estava apenas em busca de monstros, não de respostas. A única pergunta que ele fez era onde encontraria o feiticeiro que trocara a vida da donzela pela do dragão, e o que teria que fazer para trazê-lo até o fio de sua espada. E, com seus sonhos de triunfo derramados com o sangue de Faelyn, ele foi buscar seu feiticeiro pelos túneis mais profundos na caverna, que levavam para longe desta cidade.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

A Estória do Herói

O problema são sempre os ouvidos que recebem a história. O problema nunca está na história em si. Por exemplo, Faelyn, quando você ouve o nome dela, imagina uma bela garota, não é, uma garota do campo, comum, mas especial o suficiente para receber a atenção de um dragão. Você ouve a história já sabendo o meio, o final e o começo; você já sabe que a donzela está em perigo, que ela será resgatada, que o jovem e magnífico herói virá para matar o dragão. É sempre assim, você ouve como a criança que espera somente a repetição, você assume uma porção de coisas que não deveria. Esse era o erro de Roder: todas as vezes que ia procurar um dragão, ele queria que houvesse uma luta, uma donzela para resgatar, um tesouro e a volta triunfante para a cidade. E ele queria tanto que fosse assim que até hoje suas histórias são contadas desse jeito, mas Roder se decepcionou, sim, um monte de vezes. É claro que na primeira dessas vezes, com a donzela Faelyn, ele não estava preparado, não conseguia ainda enxergar além do véu da estória para ver a verdade do que estava acontecendo, como não conseguimos ver a corrente brava que corre no fundo de um rio de superfície calma. Então Roder avançou pelos corredores da caverna, vendo sinais do dragão em cada mancha escura no caminho, em cada trio de lanhos alinhados nas paredes, em cada túnel desmoronado, em cada pedaço que equipamento abandonado em túnel ou qualquer coisa que parecesse poder ser sinal de presença humana. O herói vasculhou até os túneis mais profundos, e ali seus olhos afinal viram o que queriam ver.

domingo, 28 de março de 2010

O Viajante e o Cavalariço

— O que aconteceu? Por que ele não voltou para buscá-la? Como podia não haver um dragão na caverna? Então o que aprisionara Fælyn? —, perguntei ardentemente ansioso, mas nesse momento o véu mágico que nos envolve nas histórias... sim, este mesmo véu que te aprisiona agora... se ergueu suavemente e eu vi que minha narradora, por um instante uma garota ainda não adulta, envelhecia sob o meu olhar ingênuo e jovem, dez, vinte, cinqüenta, talvez cem anos num minuto. — Vá agora! —, disse ela, me dispensando com uma ameaça da mão incrivelmente velha. Eu fui; assustado, me virei e comecei a andar enquanto ela falava atrás de mim:
— A história é importante e antiga, e parece que não consigo contá-la toda de uma vez. Mas volte!, volte num dia bom, e eu lhe contarei a verdade sobre a história de Fælyn.
Nesse momento ela irrompeu em soluços que poderiam ser de uma criança. Não me virei nenhuma vez, por respeito, mas também por mêdo daquela súbita fragilidade. Dentro de mim fervilhavam incontáveis emoções, confusas e contraditórias, pois eu sabia que tinha presenciado uma coisa verdadeiramente poderosa. Eu estava arrepiado e minha pele tinha pequenos espasmos que muito mais tarde aprendi a associar com a verdadeira magia. Eu não sabia bem o que tinha acontecido, mas sabia que não esqueceria de nenhum instante daquele encontro.
Naquela noite convenci um cavalariço ainda mais jovem que eu a me deixar dormir numa baia vazia, e ele por hospitalidade dividiu comigo parte de seu jantar. Também foi a primeira vez que contei uma história para alguém que tinha interesse em algo mais que monstros e heróis. Eu mesmo mal acreditava nas minhas histórias, e eu estava lá; mas ele, o cavalariço, ouvia tudo com atenção e cuidado, percebendo minhas emoções em cada parte e respondendo quando achava importante. Foi incrível! Contei a ele tudo, desde a minha decisão de sair da vila, minha admiração apaixonada pelo Grande Herói, Jennie, Tia Ida, o Ogro, e enfim toda a minha viagem até Vilania e o encontro com a Velha. Contei cada detalhe insignificante que parecia ter importância, cada refeição, cada dúvida que me atormentou no caminho. Ele me completava contando coisas da sua vida, decisões difíceis que tivera que tomar, e explicou que virara cavalariço depois que seu primo, de quem herdara o serviço, tropeçara de mau jeito e batera a cabeça numa pedra dura. Quando eu terminei a história do ogro, ele me disse com um olhar muito sério:
— O que você fez foi impressionante, mas as histórias de ogro são comuns por aqui. Você devia falar com Horzt, o marceneiro. Antes de morar aqui, parece que ele foi um herói profissional e ganhou a vida matando monstros.
Conversamos a noite toda, sobre essas coisas e outras das quais esqueci. Eu e o cavalariço nos tornamos melhores amigos num instante, e só muito depois eu me arrependi de nunca ter perguntado seu nome.

No dia seguinte voltei à pedra e lá estava a velha, encolhida e encurvada como uma velha águia, ou como uma gárgula. Me aproximei relutante e perguntei se hoje era um dia bom.
— Todos os dias são bons para se contar uma história — ela respondeu, se desenroscando e e estendendo a mão para mim.
Fiquei assustado e confuso por um momento, mas depois segurei a mão, e ela me puxou para cima da pedra com uma força inesperada. Meu coração batia rápido de mêdo de estarmos tão próximos, eu sentia a aspereza de sua pele e o cheiro estranho, como o de coisas muito antigas e abandonadas, que vinha da velha. Mas ela, a depeito de mim, pôs as mãos nos meus ombros, aproximou nossos rostos e disse: "Escute bem."

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

O Primeiro Dragão de Roder - versão da Velha



Roder não era apenas um guerreiro corajoso, hábil e incansável. Ele também era jovem e bonito. Mal chegou à vila, todas as moças se apaixonaram por ele. Mas Roder não estava interessado em garotas; estava interessado em monstros. Queria a emoção da batalha e a aclamação de uma vitória! Assim, a única garota que chamou sua atenção foi a que conseguiu ser capturada pelo dragão das redondezas. Chamava-se Fælyn, tinha quinze anos e tudo o que sabia fazer era cantar e encantar os garotos, mas o que queria mesmo era ser resgatada por um grande herói. Roder veio assim que ouviu a história pela primeira vez. Trazia só sua espada e sua coragem. Entrou na caverna sozinho, e percorreu inúmeras câmaras antes de encontrar a câmara do tesouro, onde a donzela estava amarrada com correntes de ouro num trono cravejado de rubis. Roder não reparou nos rubis nem na beleza da garota, porque não tinha olhos capazes de enxergar belezas, mas viu uma donzela em perigo e jurou que iria salvá-la e punir seu raptor, o dragão. Primeiro quebrou as correntes de ouro, depois gritou pelos túneis da caverna clamando o desafio do dragão. O dragão não veio. Roder era paciente e esperou três dias na sala do tesouro, gritando e chamando. Não passaram fome porque entre os tesouros do dragão havia fruteiras que nunca se esvaziavam e taças que estavam sempre cheias, e dormiram bem sobre cobertores trançados com fios de ouro. Fælyn era uma moça astuta e durante todo o primeiro dia reuniu tesouros e provisões para sair da caverna e viver ricamente no mundo de fora. Dizia que iriam viver em um palácio imenso, viajariam em elefantes, teriam panteras e tigres num grande jardim, e todos os príncipes viriam jantar em seus banquetes. Como o herói ignorasse suas fantasias, a donzela perdeu o ânimo, deixou de acreditar na alegria do seu imenso sonho, e no segundo dia tentava atrai-lo para fora da caverna com outra proposta: se estabeleceriam numa vila nas montanhas, teriam terras para cultivar e protager, defenderiam a vila de ataques de monstros e dragões e seriam recompensados com o amor dos vilãos e com fartos banquetes. Roder, na sua obcessão pelo inimigo que não aparecia, não dava ouvidos às fantasias da donzela. No terceiro dia, Fælyn decidira que iria embora sozinha, com o ouro que pudesse carregar, e procuraria um homem mais sensato, junto ao qual pudesse comprar terrar, construir uma casa e viver em paz e conforto, rodeada de servos. Foi só quando já saía da imensa galeria que se deu conta de que o tesouro que realmente a atraía não era o ouro, nem as pedras preciosas, mas o homem destemido que viera resgatá-la. Então largou o ouro e as pedras e chamou-o outra vez, agora dizendo que iriam juntos resgatar donzelas e lutar contra monstros, que juntos salvariam vilas e reinos, que todo o mundo conheceria Roder o matador de dragões, que ela contaria como ele a salvara das garras do monstro cruel, e que ele ainda a salvaria muitas outras vezes. A isso Roder finalmente cedeu. A imagem dos muitos dragões que ainda ia enfrentar o fez esquecer momentaneamente o que não tinha enfrentado, e ele aceitou sair acompanhado da moça. Os dois estavam felizes com a perspectiva de sua vida futura. Saíram da caverna fazendo planos e discutindo rotas. Roder se animara com a visão de seu futuro, e agora contava incríveis histórias de todos os feitos que pretendia realizar. Porém, mal chegaram à vila, ouviu-se um urro bestial vindo da cova atrás deles.
O sonho de Roder e Fælyn não era tão forte quanto aquele urro.
— Voltarei para te buscar, — ele disse, e então mergulhou novamente na caverna.
Fælyn esperou por ele, aqui onde nós estamos, por dias, semanas, meses. O herói não voltou. As pessoas na cidade diziam que ele havia derrotado o dragão, e que partira para enfrentar outro. Mas algumas poucas pessoas, nesta vila ou em outras, inclusive a própria donzela, sabiam que isso era mentira. Algumas pessoas, notadamente a donzela, sabiam que naquela caverna não havia um dragão, não havia um Inimigo: havia apenas uma garota chamada Fælyn.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

A Velha da Pedra

Andei quatro dias para chegar a Vilania, e quando cheguei sentei na areia quante da praça principal e ali fiquei. Podia ver logo à frente a famosa pedreira onde Roder entrara para enfrentar o dragão, fechada agora pelos blocos de rocha que desabaram depois que o herói partiu. Conhecia tão bem aquelas pedras das histórias que encontrá-las frente a frente era como rever um amigo de quem se tem saudades. Levantei-me e andei em direção à pedreira, mas meu caminho foi interrompido por uma voz bonita mas cansada que vinha de uma velha em cima de uma pedra. "A caverna está fechada", disse a voz. Ela tinha cabelos prateados e muito longos, e vestia uma capa verde desbotada por cima de um vestido velho. Não estava olhando para mim, e sim para o horizonte. Seus olhos cinzentos pareciam estranhamente opacos. O rosto não era enrugado, mas era cheio de manchas. Senti uma imensa vontade de falar com ela. Não poderia ir à pedreira antes disso. Então eu disse a ela que já sabia que a caverna estaria fechada; que entretanto ainda queria ver o lugar onde o grande Roder havia matado um dragão.
Ela riu das minhas palavras. Riu sem olhar para mim, riu uma risada cheia, rude, velha, sem tirar os olhos do horizonte. "Está procurando no lugar errado", ela disse, com a voz melodiosa quase num sussurro. "Aqui nenhum dragão morreu", ela disse. "Vá embora", ela disse, jogando os cabelos sobre os ombros.
Eu queria ir em frente mas não conseguia me afastar daquela mulher. Enfeitiçado, me ofereci para contar-lhe a maior história de todas, a história dos sete dragões de Roder e da salvação do mundo. A mulher explodiu numa risada que a derrubou da pedra, e caiu graciosamente no chão diante de mim. Agora ela estava de pé, os olhos muito abertos olhando nos meus olhos, um sorriso brincando nos lábios, e naquele momento seu feitiço sobre mim a tornou a mulher mais bela que já existiu. E então ela disse:

"Não. Deixa que eu te conto a história do grande herói, menino."

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

História tradicional de matamento de ogro

um monstro enorme, feio, com tufos de pelos dispersos pelo corpo deformado, com garras nas mãos e nos pés, pele cinzenta e sem orelhas.Os irmãos de Jennie o haviam cercado, e tentavam atacá-lo com suas armas, mas o ogro respondia com patadas que lançavam longe os agressores. Quando cheguei vi o último forcado ser reduzido a pedaços pela fúria do ogro, que sacudia pelo meio da lâmina o facão tomado do irmão do meio. Os homens desarmados ora se encolhiam contra as paredes da caverna, ora avançavam tentando assustar o monstro com o fogo de suas tochas. O irmão mais velho, que tinha o machado, soltou um urro de coragem e correu para o ogro numa última investida louca. Nessa hora, eu comecei a enxergar as coisas muito claramente. Vi o ogro levantar sua mão enorme e agarrar o machado das mãos do irmão mais velho, vi o irmão mais velho levantado no ar e levando um soco do ogro que o grudava na parede do outro lado da caverna; vi o ogro rugindo vitorioso e devorando cada um dos cinco filhos do ferreiro Bart, deixando Jennie para a sobremesa. Vi tudo isso antes que acontecesse e tomei uma decisão que era quase um reflexo: saquei o bodoque do bolso e atirei na cabeça do ogro.
O ogro, já com a mão levantada para pegar o machado, levou a pedrada bem no buraco onde deveria estar a orelha, soltou um rugido de susto e dor, virando a cabeça, e soltou um urro ensurdecedor quando o machado do irmão mais velho esmigalhou os ossos do seu ombro esquerdo. Mas isso não foi suficiente: o monstro baixou a mão que estava levantada na cabeça do irmão de Jennie, e eu nem cheguei a vê-lo cair desacordado no chão, porque meu sangue gelou e e meu coração começou a bater tão rápido que doía: o ogro estava olhando diretamente para mim, e seu olhar era tão furioso que eu quase conseguia enxergar meu corpo sendo despedaçado na sua imaginação. Quando o primeiro músculo do imenso corpo cinzento do ogro começou a se mexer, minha mente perdeu o controle sobre meu corpo, e quando eu comecei a entender a situação, já estava longe dali, correndo muito mais rápido do que jamais correra na vida, completamente perdido dentro da caverna, e ainda ouvindo as passadas pesadas do monstro atrás de mim.
Corri como um louco até que o caminho se fechou à minha frente. O corredor acabava de repente numa parede de pedras que subia até uma abertura no teto. Tentei escalar a parede, mas a pedra em que me segurei soltou-se e eu caí no chão, com o ogro a poucos metros de mim. Nessa hora, encurralado, não senti mais nenhum mêdo, e de novo imagens muito claras passaram diante dos meus olhos: o ogro avançando, me pegando com suas mãos enormes e dividindo meu corpo ao meio com um puxão. Num instante desembainhei o facão de meu pai, o ogro abriu os braços para me agarrar, e enfiei a lâmina o mais fundo que podia na sua enorme barriga.
O ogro urrou e se afastou com a dor, quebrando a lâmina velha do facão com o movimento, me deixando com uma coisa quebrada e ensangüentada na mão. E quando o sangue do ogro esguichou do ferimento o me deixou completamente encharcado, eu esqueci completamente de quem eu havia sido, de meus pais, de Jennie, das machadadas que os irmãos de Jennie davam no monstro atordoado até que seus urros cessassem, dos meninos da comunidade, e até de nossas aventuras épicas, que eram o que consumia a maior parte dos meus esforços na vida. Fiquei ali parado, sem prestar atenção aos irmãos de Jennie, que corriam de um lado por outro procurando pela irmã, que não a encontravam, que recolhiam suas armas, que chutavam o corpo do ogro com raiva, que me pegavam nos ombros e me levavam para o acampamento lá fora e me punham sentado do lado do irmão mais velho desacordado. Eu tinha matado um ogro, eu era um herói, e naquela noite as únicas coisas reais do meu universo eram o sangue do ogro nas minhas roupas e o facão quebrado na minha mão.

Quando chegamos em casa, as pessoas começaram a comemorar nossa vitória, e fizeram uma festa mesmo depois que contamos que não havíamos encontrado Jennie. Logo descobrimos porquê: enquanto estávamos fora, Jennie voltara para casa, dizendo que havia apenas se perdido no bosque durante um passeio. Depois de alguns dias tudo voltou ao normal: o trabalho, as brincadeiras, as histórias, incluindo a minha nova história, que eu contava várias vezes por dia. Mas eu me sentia estranho. Agora nas brincadeiras os outros meninos sempre deixavam para mim o papel do herói, mas eu me cansava logo e ia fazer outras coisas. Logo contar minha história também perdeu a graça. Jennie era a que mais queria ouvir a história, sabendo que era para ser a história de seu resgate, e até propôs um final alternativo no qual ela estava mesmo prisioneira do ogro, e eu e seus irmãos a resgatávamos heroicamente. Mas eu não tinha mais vontade de conversar com ela. Então uma noite, Tia Ida contou uma história que eu já havia esquecido, a história da primeira aventura de Roder, na qual ele salvava uma princesa encantada das garras do ogro maligno de duas cabeças. Entendi aquilo como um sinal: o grande herói havia começado suas aventuras derrotando um ogro, assim como eu! Decidi que eu estava destinado a seguir os passos do meu ídolo. Naquela noite não consegui dormir — em vez disso, juntei todos os meus pertences e parti em direção à vila perto da qual Roder matara seu primeiro dragão.

domingo, 25 de janeiro de 2009

A História do garoto que queria ser herói

Para contar a história da minha voz, é preciso antes contar a história de como conheci o dragão Rolaf, ou seja, a história de como resolvi seguir os passos de Roder, o Grande Herói, quando eu era apenas um menino.
Eu nasci no campo, exatamente como aquela mulher. Acordava cedo para ajudar minhas irmãs no trabalho, e sempre que podia me juntava a outros meninos para explorar lugares perigosos, correr atrás de cachorros e brincar de heróis e vilões. Cresci vendo histórias desenhadas dos grandes cavaleiros matadores de monstros, e recriando nos bosques perto de casa as aventuras que Tia Ida, a irmã velha de meu pai, nos contava nas noites frias. As melhores histórias eram as do grande herói Roder, o fabuloso guerreiro que matara oito dragões e desaparecera dentro da caverna de um nono. Em todas as brincadeiras havia briga para ver quem seria Roder, e eu sempre brigava mais do que todos, porque queria ser um herói de verdade, e não apenas nas brincadeiras. Havia para mim uma única coisa que parecia tão importante quanto viver grandes aventuras e derrotar monstros terríveis — essa coisa era Jennie, a filha do ferreiro, por quem eu era tão apaixonado que até nas brincadeiras com os outros meninos eu sempre jurava lutar em honra dela. Eu lhe dava flores todos os dias e até já havia decidido nosso casamento, quando Jennie desapareceu misteriosamente numa noite sem lua.
Vivíamos numa comunidade muito pequena, e todos ficaram muito preocupados. As tias de Jennie convenceram todas as outras tias de que a garota fora raptada por raposas, em cujo caso seria preciso suborná-las com presentes para que a devolvessem. Os amigos do pai de Jennie, inclusive o meu pai, achavam mais provável que ela tivesse fugido com algum rapaz desconhecido que passara pela região recentemente. Porém a opinião que realmente importava era a dos irmãos de Jennie, e eles logo decidiram que isso era coisa do ogro que vivia no coração da floresta escura atrás da qual o sol sempre se punha. Organizaram-se para uma missão de salvamento sem demora, e eu, que não podia perder aquela aventura, juntei minhas coisas (uma camisa velha, o facão de meu pai, algumas frutas que mamãe deixara madurando num cesto, um estilingue) e fui escondido atrás deles. A caverna do ogro ficava bem mais longe do que eu imaginava. Enquanto os homens armavam barracas de acampamento, eu dormi no chão de folhas úmidas, coberto por galhos quebrados. A floresta era muito mais hostil que os bosques nos quais eu costumava brincar, e era muito difícil acompanhar os irmãos de Jennie sem que eles me percebessem. Depois de três dias chegamos a uma caverna enorme, uma abertura na terra que parecia uma boca aberta, e os irmãos de Jennie largaram suas trouxas, acenderam tochas e pegaram suas foices, machados, forcados e facões para atacar o monstro. Assim que eles entraram, peguei o facão e o bodoque e me esgueirei atrás deles.
A entrada da caverna era uma galeria enorme, que depois ia afinando e afundando e se enchendo de enormes estalagmites. Eu me escondia atrás delas, perto das paredes, para não ser percebido. Quando o corredor ficou muito estreito me deixei ficar para trás, mas em seguida o caminho se dividiu em vários, e eu não sabia mais por onde eles haviam seguido. Segui somente minha intuição, ou minha sorte, e me meti num corredorzinho estreito e sinuoso. Logo percebi que estava sozinho naquele caminho, e ja estava pensando em voltar quando ouvi um urro medonho, que fez todos os pêlos do meu corpo se arrepiarem, e entendi que eles haviam dado de cara com o ogro. Ouvi gritos, urros e barulho de coisas quebrando, e saí correndo na direção deles, para o fundo da caverna. O corredor ficava cada vez mais escuro e úmido, mas afinal eu vi o brilho das tochas dos irmãos de Jennie, e logo depois, vi o que eu esperava ver com o coração pulando e segurando a respiração:

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Uma História Sem Fim

Muito tempo atrás, num reino muito, muito distante, vivia uma linda princesa, tão bela quanto os raios dourados do sol nascente, ou quanto as flores noturnas, ou quanto as rosas recém desabrochadas cobertas de orvalho no início da primavera.
Todos os homens do reino vinham cortejá-la, e faziam campanhas em sua homenagem, e lutavam em torneios e duelos para decidir quem teria a honra de falar com ela. Porém nenhum homem jamais pediria sua mão, pois seu pai, o velho rei, muito velho e muito doente, jamais o permitiria. Ele dizia a sua filha: "Desconfie dos vencedores dos torneios! Desconfie dos muito belos, dos muito bravos, dos muito fortes. Nunca confie em um homem que não demonstrar nenhuma fraqueza."

O tempo passou e o velho rei morreu, não deixando herdeiros nem rainha. O reino foi tomado por nobres poderosos amigos do rei, e os jovens cavaleiros passaram a vir com cada vez mais freqüência cortejar a princesa. Em meio a suas ferozes disputas contavam histórias de lutas contra dragões, de vitórias sobre ogros comedores de virgens, de caçadas às bruxas disfarçadas de animais. A princesa ouvia as histórias e participava das festas, mas logo se recolhia com suas damas, lembrando do conselho do pai: "Desconfie dos matadores de dragões! Desconfie dos sempre vitoriosos, dos salvadores de vilas contra enchentes e tufões. Nunca peça a proteção de um homem que não lembrar de nenhuma derrota."

Um dia, porém, chegou na côrte um guerreiro com olhos vermelhos e um cavalo branco, que cantava com a voz dos anjos e sabia lutar como um demônio. Ele cantou suas histórias das vilas que salvara de enchentes, incêndios, tufões e maremotos. Contou de dragões que matara, de bruxas que enganara, de ogros que perseguira, de maravilhas que vira. E conforme cantava ia ficando cada vez mais jovens, até que ao final da noite não passava de um menino. A princesa, como que encantada, pediu que ele ficasse aquela noite, e que de manhã contasse mais sobre suas aventuras.

De manhã o rapaz se tornara novamente adulto. Conforme o pedido da princesa, contou outras histórias, sobre árvores donde nunca caem os frutos, sobre rios que correm para cima, castelos em cima das nuvens e moinhos que só giram quando não há vento algum. De noite, o rapaz se tornara novamente um menino, e de novo a princesa pediu para que não partisse. No terceiro dia, de manhã bem cedo, a princesa acordou o rapaz e pediu que a levasse consigo para conhecer as maravilhas do mundo.

Os primeiros dias foram de pura alegria! A princesa nunca saíra do castelo, e tudo lhe parecia fantástico: os campos, os camponeses, os regatos, as florestas, os moinhos, as rodas d'água, as estradas, as montanhas. De dia viajavam a passeio, apreciando cada instante, mas evitando encontrar com pessoas, com mêdo de serem reconhecidos. De noite, viajavam rápido, e o rapaz ia contando suas histórias sobre os lugares por onde passavam, e a cada palavra ia sempre ficando mais jovem.

Um dia, já bem longe do castelo, a princesa despertou e não encontrou o rapaz. Procurou-o por toda parte por um longo tempo, até que, à margem de um regato, ouviu uma voz angelical cantando uma canção tranqüila, que falava da paz dos campos e da alegria da colheita, e da passagem do tempo que fazia o verde desfazer-se no inverno para retornar com a primavera. Seguiu a voz e encontrou o rapaz, que cantava para uma mulher muito, muito velha, que parecia muito doente e que chorava silenciosamente. Quando a canção acabou, a velha abraçou o rapaz, em silêncio, e começou a andar, muito devagar, pela margem do rio. O rapaz explicou à princesa que a velha havia visto a aproximação da morte, e que seus filhos haviam partido em grandes aventuras e ela temia que não houvesse ninguém que pudesse olhar por suas filhas e por sua terra. O rapaz cantara uma música que ele ouvira em sua própria terra havia muitos anos, e que sempre devolvia às pessoas do campo a esperança e a fé. Ao ouvir isso, a princesa logo atalhou que a música era certamente mais animadora se era cantada por uma voz tão bela quanto a dele, e que ele deveria agredecer a sua própria mãe por um dom tão incrível.

"Na verdade", disse o rapaz, "este dom eu conquistei depois de adulto...", e, a pedido da princesa, ele começou a contar sua história.