quarta-feira, 10 de abril de 2013

As Gerações e os Anos

Hoje eu estava pensando em te ligar, aí comecei a me perguntar por quê, aí pensei em tudo o que a minha vida significa hoje e ontem e sempre, e porque tudo parece tão diferente.

Eu achava que eu não tinha sonhos porque os meus sonhos eram tão gigantescos que eu não conseguia ver como eles se relacionavam à realidade. Por isso nunca nenhum deles ficou mais próximo de ser tornar real.

Quando eu entrei no Design, em 2007, eu tinha 18 anos, era virgem, tinha um namoro monogâmico, tinha pavor de qualquer coisa envolvendo bancos e burocracia e conhecia umas três linhas de ônibus que eu não sabia direito onde passavam. Eu estava habituada a ser levada e buscada pelos meus pais, a fazer festinhas de videogame na casa dos meus amigos, a ficar desenhando durante a aula porque desenhar parecia importante, aula não, mas fora da aula eu assistia TV, escrevia no blog e inventava sonhos. Eu não sei se teve um bom motivo ou se foi só porque ela tinha carro e nós precisávamos de carona, mas a coisa mais próxima que eu tinha de uma amiga no Design era a Tarsila, que tinha a idade respeitável de 23 anos, tinha acabado de se formar em Direito, e era quase uma veterana ou uma irmã mais velha da turminha nerd que pegava carona com ela. Como eu estava descobrindo como ser nerd e estava empolgada com isso, eu tinha problemas com o fato de que ela era zero nerd. Hoje em dia isso me parece um pouco ridículo.

Eu lembrei da Tarsila porque ficou na cabeça uma vez que ela estava contando do peguete novo depois de anos de um namoro que tinha começado no Direito. Ela riu e disse: "É o cara que eu tô comendo! Vou falar isso sempre." Na época eu estava apenas começando a conhecer o mundo das pessoas que efetivamente conversa sobre sexo, e eu tinha acabado de descobrir a expressão "dar" aplicada a mulheres, e eu já a odiava. Eu tinha a opinião muito estrita de que era uma questão política parar de usar essa expressão. Então eu acho que fiquei feliz ouvindo a Tarsila dizer isso. O que me perturba é que eu fiquei feliz e surpresa. Pensando bem, eu provavelmente me daria melhor com a Tarsi se eu fosse um pouco menos criança.

Eu passei muito tempo no esforço de pôr a culpa de tudo no Design e nas pessoas da FAU e dizer que fazer essa faculdade foi um erro e que minha vida teria sido melhor sem esses anos tristes. Talvez eu esteja ficando velha e chegando naquela fase em que se começa a perdoar os erros do passado e admitir que "tudo tem um propósito"... Não, acho que Design não teve nenhum propósito, nem foi particularmente engrandecedor. Provavelmente eu teria sido menos infeliz se eu tivesse tido uma coragem de última hora e preenchido a ficha de inscrição para Oceano (eu estava com essa página do manual aberta, afinal). Mas ainda teria sido uma droga em muitos aspectos.

Quer dizer, minha passagem pelo Design não foi muito diferente do resto da minha vida. Eu era infeliz pra caralho no Design, mas eu era infeliz pra caralho na adolescência também. Eu me divertia com uns poucos amigos que viviam num mundo de fantasia. Eu só me divertia porque havia fantasia. E minha maior fantasia era que um dia a fantasia virasse realidade. Eu estava disposta a sofrer se fosse pra alcançar meus sonhos fantasiosos, quero dizer, se o caminho do herói aparecesse diante de mim como ele aparece para os heróis nos filmes... Durante o colegial eu sofria pra caralho com tudo, mas eu tirava uma alegria maior de estar sempre apaixonada, sempre tentando lidar com paixões avassaladoras e tentando conquistar alguém. Era difícil se preocupar com outra coisa, e ainda por cima eu tinha coragem de chorar no colo dos meus amigos. Só que quando eu saí da escola, eu tive toda essa expectativa de virar adulta, e não deixar as pessoas me diminuírem, e aprender a dirigir e a usar o banco e andar de ônibus e conhecer a cidade e fazer amigos sem ajuda de ninguém e, e, e. E é claro que além disso minhas aulas noturnas não me permitiam ver minha família nem meus amigos, de forma que eu fiquei sozinha, e aos poucos eu parei de ter amigos daquela forma que eu tinha no colegial. Ou talvez eu tenha decidido concientemente abandonar esses amigos, eu não me lembro. Eu me lembro que eu me obriguei a parar de fantasiar, porque eu precisava me tornar real, e eu me obriguei a parar de machucar as pessoas e a deixá-las sempre em dúvida. Mas no fundo o que eu me lembro mais nitidamente é que eu não confiava em ninguém, nessa época. E nenhuma dessas coisas parece ter relação com o Design.

Eu de vez em quando lembro de uma coisa que eu cantava, no auge do meu desespero por me dar conta de que eu não tinha nenhum amigo de verdade na faculdade. Era uma coisa assim:

"Don't take me back
Don't take me home
Let me stay here
a little longer
Don't take me back
To where I come from
Let me become
a little stronger
'Cause I know I can be what you want of me
I won't be lonely if only you let me be
Don't take me back
Don't take me home"


Eu odiava estar ali, é verdade. Eu era péssima naquilo e eu sabia. Eu não ia jamais cumprir o meu objetivo inicial de mudar o mundo com o Design. Meus amigos não tinham nada a ver comigo e não entendiam quem eu era. Mas, sei lá, hoje eu teria me dado bem com eles, eu acho. Hoje eu não preciso de gente que me entenda, ou se pá eu achei essas pessoas, e elas não estão no IME (talvez no CM, talvez). Eu continuo não tendo amigos na faculdade. Meus amigos de verdade da época continuam sendo pessoas incríveis, e eles teriam bastado se eu não tivesse me imposto que eu precisava ser capaz de fazer amigos incríveis onde quer que eu fosse. E se eu não tivesse me forçado a ser uma boa namorada e nunca mais machucar meu namorado (porque eu achava que eu devia isso a ele), eu poderia ter perseguido todas as minhas mil paixões da época com menos mêdo. Acho que qualquer curso que eu fizesse teria sido igualmente horrível nesse aspecto. E francamente, talvez qualquer curso me desse a mesma sensação de "eu não sou igual às outras pessoas daqui e eu não nasci pra fazer a mesma coisa que elas fazem". Na verdade, a única saída teria sido não ir pra faculdade, ir pra algum lugar onde as pessoas nem queiram ser tão iguais umas às outras. Não sei se existe um lugar abençoado assim.

Bateu uma saudade de algumas coisas da época do Design. Alguns amigos, algumas paixões. Eu me odiava, mas eu não odiava tudo. Eu queria ter, sei lá, aproveitado melhor. Bebido mais. Tido menos mêdo. Beijado aquele menino que às vezes me tirava do desespêro me chamando pra brincar de pega-pega. Eu queria ter raspado o cabelo quando eu quis, e ter ido na balada gay. Eu queria ter dito alguma coisa, pra alguém. É engraçado como eu acho que se eu tivesse os amigos que eu tenho hoje, seria diferente. Mas será que eu confiaria neles? E eles em mim?

Se pá eu só queria que eu tivesse não parado de sonhar, apenas começado a de fato tornar meus sonhos realidade, custasse o que custasse.

Um comentário:

Hita disse...

nada te impede de voltar a sonhar, de raspar o cabelo, ou de prestar oceanografia. acho que a parte mais difícil, pelo menor pra mim, em crescer, é ter que assumidamente arcar com CONSEQUENCIAS. quando eu era pequena isso não existia. e agora há. é uma grande diferença.
talvez sonhar seja prever as melhores consequencias...