quarta-feira, 9 de junho de 2010

Da natureza e do Nome

É interessantíssimo como as coisas mudam.

Eu sempre lembro de quando a Ana Bruner sugeriu que a gente descrevesse nossa Weltanschauung numa carta para nós mesmos dali a cinco anos. Não fiz e sempre me arrependi. De tempos em tempos penso nisso que penso que deveria escrever isso agora, mas nunca faço. Continuo escrevendo coisas menos relevantes neste espaço.

Das nossas aulas de filosofia do primeiro colegial guardo umas lembranças meio confusas, ora muito boas, ora muito ruins, e e percebo, com resignação, que muito daquilo eu aceitei sem grande reflexão e me cabia questionar, mesmo que não me fosse pedido — e muito daquilo que me pareceu profundo na época agora me parece meio insípido. Mas a lição verbal qe me pula à mente com mais freqüência, como um enigma não-respondido, ainda é a do côco podre:

— Imagine que um côco cai do coqueiro à beira do mar e mergulha na água. Se for um coco sadio, ele rapidamente volta à superfície sem sequer ter batido no fundo, por força de sua própria leveza que o expulsa da água. Entretanto, um côco apodrecido não tem o poder de flutuar, e uma vez que mergulha na água desce até o fundo e lá fica. O mergulho é a experiência negativa, e nós somos todos côcos. Por mais fundo que uma pessoa mergulhe, se ela não estiver podre, isto é, se não tiver renunciado à sua natureza, sempre poderá voltar para a superfície.

O que me pega é essa questão da natureza. Será que cada pessoa tem uma natureza, um propósito desconhecido de tornar-se si mesmo, como diz Demian? Será que cada pessoa tem um nome verdadeiro, que a descreve completamente e a partir do qual é possível compreender todas as suas atitudes?

Já levantei a questão do nome antes, e me surpreende com que leviandade meus amigos me mandam respostas para uma questão tão fundamental. Não me intriga a existência de um Deus, de fato, mas me intriga a nossa própria existência. Será que somos todos apenas partículas que se uniram por acaso, formando consciências sem significado que criaram arbitrariamente todo um universo de concepções que tenta explicar o que só existe a partir da nossa própria existência? Ou será que somos precedidos ou ao menos concomitantes a um mundo de idéias? O que é um conceito?

O que me aflige é que sem essa resposta não me parece possível distingüir se estamos indo para cima ou para baixo. Estaremos afundando como côcos podres ou voltando à superfície? Teremos asas para voar ou estas serão asas de cera fadadas a falharem a qualquer momento? Estamos voando ou caindo, mergulhando ou meramente afogando-nos? Isto que eu sinto é dor ou prazer? Estou morrendo ou isto é apenas começar a nascer? Sou um monstro, ou isto é ser uma pessoa? O que pode me fazer mal? O que pode me fazer bem? Será que alguma coisa na vida vale a pena?

O problema é que sem uma resposta não tenho um modelo segundo o qual conseguir enxergar o mundo. Eu vejo e sinto coisas, mas como saber se aquela núvem realmente anuncia tempestade, ou se ela será imediatamente varrida para longe? Não consigo dar significado ao que vejo, e assim é como se não visse nada. Tudo passa tão rápido, e na velocidade é ainda mais difícil enxergar, especialmente enxergar coisas sutis como a brisa, as folhas das árvores, as emoções contidas das pessoas.

A questão do sacrifício é fundamental. Tanto do que fazemos não nos traz prazer, entretando o fazemos, pensando num fruto futuro muitas vezes bastante distante. Mas diariamente vacilamos, sem saber se esse bem futuro é mesmo um bem, se ele vale a pena. E não temos como saber, porque não sabemos diferenciar bem de mal, porque não sabemos a que devemos dedicar nossas vidas, porque a cada instante nossas vontades mudam e nossos sonhos se tornam mais vagos e tantas vezes avessos ao que sonhávamos antes. Parece impossível realizar qualquer coisa sem se condenar a trabalhar naquilo em que já não se acredita ou sem, ao contrário, lançar-se sempre com toda a intensidade em trabalhos velozes, construídos vorazmente e que acabem logo, assim que acabar a paixão. Nesse caso, também, se não houver paixão não há viver, e corremos o risco de passarmos muito tempo mortos.

Enfim, comecei este escurso porque lembrei de uma revelação que me surpreendeu a respeito de mim mesma ultimamente. Uma dessas coisas que eu precisava ter gravado na minha carta para dali a cinco anos e que agora (bem, já passaram mais de cinco anos) meio que sumiu, e eu me sinto como se eu não fosse mais eu.

A vida toda tive a certeza de que teria filhos. Três, a menos que fosse rica, então mais. Ter filhos sempre me pareceu o certo, inqüestionavelmente certo, e não podia ser um filho único, e sempre me parecera que irmãos em dois brigam demais. Três eram o número perfeito, o número de ouro, e eu teria filhos lindos, e os ensinaria tudo o que fosse fundamental, e eles me surpreenderiam com sua individualidade, mas levariam adiante, com genialidade e graça, os valores do minha família. Até que, sem aviso, há algumas semanas, ouvi em mim mesma o pensamento: "é melhor então que eu não tenha filhos". Eu pensei que não seria bom ter filhos se eu não conseguisse ter uma família estruturada, algo como uma casa fixa, um marido, não demasiado distante das casas de meus irmãos, e se possível próximo aos meus primos, pais, tios. Mas naquele momento me pareceu possível que eu não conseguisse nenhuma dessas coisas em tempo hábil, e nesse caso eu preferiria não ter meus próprios filhos — embora ainda me restasse a opção de adotar, acabado o tempo hábil.

A verdade é que talvez mais importante que ter filhos seja ter amigos, alunos, pessoas cuja vida pode se transformar pelo meu toque, pessoas que eu posso influenciar, a quem eu posso revelar meus valores e torcer para que acreditem neles. O significado da família não se perdeu totalmente em mim, e eu ainda tenho a certeza de um dia ter sobrinhos, e não consigo conceber a vida afastada de minha família. Por outro lado, não sei mais se eu devo ter filhos, sangue do meu sangue, aquela coisa sagrada. Não sei o que estou disposta a sacrificar por isso. Existe muita coisa na minha vida que no momento me parece impensável sacrificar (e não estou falando dessas coisas típicas de gente que não tem grana e faz faculdade).

Se eu não conseguir encontrar a resposta para pelo menos uma das minhas perguntas, então não terá sentido ter filhos, para mais vidas de questionamento e passos no vazio na Perdição. Se eu me perder, não criarei um povo para vagar comigo. Mas é claro que nada posso dizer do futuro. Que sentido tem caminhar quando nada se enxerga? O sentido de talvez encontrar algo diferente, a que nunca chegaria se continuando parado. Entretanto... posso avançar tateando, não encontro a confiança para seguir com fé um caminho reto. Se não vejo nada, sinto apenas vagos cheiros... rastejo. A vida não tem nada para reafirmar nossa esperança, entretanto prosseguimos. O que devemos negar e o que devemos aceitar? Até que ponto eu devo me entregar?

4 comentários:

~~ disse...

Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria.

Talita Salles disse...

Aliás, a versão de Demian que vc tá lendo está certinha? Se sim, me empresta?

Eu tenho terror a descobrir meu próprio nome.

Bjo.

Tito Peçanha Leitão disse...

fiz uma resposta estranha a esse post no meu blog, da uma olhada.

Yuri disse...

Eu tô viciado: acho q o problema disso tudo é a nossa resistência em vencer o dualismo natureza-cultura, entre outros.