terça-feira, 9 de dezembro de 2008

O Carteiro

PS.: como eu não tenho realmente tempo para parar e escrever a continuação daquela história, resolvi enrolar meus leitores com uma coisa que escrevi muito, muito tempo atrás, quando eu tinha longos intervalos entre as aulas da manhã e as da tarde e ficava no CEI escrevendo poemas e prosas absurdas como esta que vocês lerão. Até seman que vem. Um abraço! ass.:mali



Todos os dias, antes do sol nascer, o portão do forte se abria e por ele saía o cavaleiro a galope, sorrindo para as pessoas que acordavam cedo, que não eram muitas, e entregando as cartas de todos os moradores da vila, enquanto recebia encomendas e mensagens para os moradores do campo. A última casa era a de Pedro, que acordava todos os dias muito cedo para habilmente atar a carroça ao cavalo sem que este tivesse de parar seu trote alegre. O cavaleiro então galopava pela estrada de terra que ligava as casas da vila às fazendas, despedindo-se alegremente dos amigos que deixava para trás. Lá chegando, era recebido por muitos fazendeiros que logo ocupavam-se em retirar e colocar encomendas, geralmente mercadoria, da carroça, aproveitando para cumprimentar o alegre cavaleiro, e as crianças tentavam acompanhar o cavalo até a casa de Maria. Lá Maria lhes dava pedaços de bolo, e ao cavaleiro um almoço simples, composto por um sanduíche e um cantil de suco. Sem parar o galope, o cavaleiro libertava-se da carroça e despedia-se das crianças e de Maria e partia para o campo aberto, onde todos os dias galopava alegremente por longas horas, esperançoso de avistar um outro cavaleiro chegando pela estrada que saía da floresta, trazendo notícias, encomendas, presentes e mensagens das terras distantes, sempre alegre e nunca desanimado. Mas o cavaleiro sempre sabia que ele não viria quando o sol estava alto no céu, começando o percurso que o guiava para o oeste, e então saía a galope em direção à casa de Maria, onde recebia um pedaço de bolo e um sorriso, e Pedro sempre estava lá para ajudá-lo com a carroça. E o cavaleiro voltava galopando e trotando por entre as fazendas e os fazendeiros, que recebiam o que lhes era destinado, sorrindo-lhe e despedindo-se. Todos os dias o cavaleiro voltava para a vila já quando estava entardecendo, e lhes entregava cartas e presentes vindos do campo, e já de noite o portão do forte voltava a se abrir, e por ele passava o cavaleiro a galope, que ia então para uma modesta pista coberta, e ali galopava, ininterruptamente, embora homem e cavalo dormissem, durante a noite toda. E quando o mensageiro das terras outras vinha, em dias alegres onde o sol sempre brilhava, os dois galopavam pelo campo aberto até o fim da tarde, e contavam suas histórias, suas piadas; trocavam notícias e risadas, e corriam ao vento, apostando corrida, por horas a fio, sem poderem superar um ao outro. Até que enfim os dois saíam em alegre trote pela vila, entregando suas cartas e presentes, espalhando seus sorrisos e notícias, e já era noite quando o portão de ferro do forte abria-se para sua passagem. E os cavaleiros dirigiam-se à pista ainda trocando idéias, e pela primeira vez em seu dia o mensageiro parava e descansava, observando admirado o companheiro que ainda corria, invencível e inesgotável, para sempre...

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Parte da minha conversa com o Squick:

Eu digo que isso é possível porque simplesmente me parece possível. Tem seus limites, claro que tem, mas discordo de quem diz que "se é amor, não é livre" (você teve essa matéria com a Gilda?). O problema é achar alguém que também queira esse tipo de liberdade. Alguém que não queira o banal, o estável, mas o livre e leve e louco. Não sei se nessa hora você vai usar a palavra "namoro", mas, se você estiver apaixonado, se você quiser ver aquela pessoa todos os dias, e ao mesmo tempo não quiser morar junto com ela, acho que não vai ter outra palavra, vai? Acho que é possível, sim, desde que não haja ciúmes demais, desde que não haja possessividade demais, desde que seja uma relação de confiança absoluta, dessas em que aquela pessoa é a pessoa para todas as horas, acho que é possível. E também desde que quando houverem coisas que o outro não queria fazer, isso seja normal e legal, e que hajam outras pessoas com quem fazer essas coisas se for o caso, e que essas pessoas sejam igualmente importantes, e que não haja carência suficiente para impedir que os dois vivam suas próprias vidas.
Mas acho que o mais importante, mesmo, é que as duas pessoas se queiram o mesmo tanto. Se um quer muito mais do que o outro, sempre vai ter insatisfação e infelicidade. O que quer mais vai se sentir inseguro e abandonado, porque o que quer menos vai se encher o saco de ficar tanto tempo junto, e ninguém vai estar realmente confortável com a situação.

Por isso ficar é bacana! As pessoas que não são adeptas do ficar têm vários preconceitos, mas acho super bacana você ter certeza de que o outro também só está procurando um one night stand, uma coisa divertida e sem compromissos, em que ninguém fica construindo e projetando expectativas sobre ninguém! Você tem essa garantia de que o outro te quer da mesma forma que você o quer. Ou pelo menos são esses os termos do contrato (sim, todas as relações humanas passam por um contracto). Mas há que se ter cuidado pra não fazer isso com tudo, e achar que amor não existe, que expectativas não existem, que você pode fingir que tudo sempre pode ser "qualquer coisa", que não há compromissos, que ninguém nunca vai se ferir, que ninguém nunca vai te querer mais do que você espera, que ninguém nunca vai esperar por você.
Acho que a parte mais difícil das relações humanas é tentar lidar com as assimetrias e os desequilíbrios. Por exemplo, quando você se apaixona por alguém que te considera só uma pessoa legal. Ou quando alguém se apaixona por você, e você não quer se afastar porque a pessoa é mó legal, mas também não quer se aproximar, porque você não pode fingir que gosta dela desse jeito tanto assim. Ou quando você se apaixona mas não quer namorar, e a pessoa se interessa por você e você sabe que se ficar com ela vai acabar namorando. Já passou por uma situação dessas? É uma droga, não recomendo.

O pior de tudo é quando a única solução é ficar sozinho. Porque, você sabe, ninguém quer ficar sozinho. As pessoas ficam sozinhas quando acham que as outras opções não valem a dor de cabeça. Quando encontram algo (alguém) que as faz se sentirem bem, não conseguem (e em geral não querem) evitar. Ou pelo menos no meu universo de pesquisa é assim: eu passei por isso, você também, e consigo pensar em mais uma porção de exemplos. Mesmo que não seja a pessoa perfeita, mesmo que seja só por diversão, mesmo que seja sem aquele amor de verdade que move montanhas and all that jazz. Ninguém fica sozinho quando pode estar com alguém legal. Não, péra, fica sim: fica sozinho sim, se estiver apaixonado por outra pessoa. Mas cabe uma notação aqui: ficar apaixonado não pode ser considerado realmente ficar sozinho.

domingo, 30 de novembro de 2008

de fato eu não sei (ainda) contar histórias direito. Eu cometi um erro na primeira parte, e tive que alterar o final. Não ficou muito bom, mas acho que... bem, talvez algum dia eu consiga algo melhor. Obrigada.

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Uma História Sem Fim

Muito tempo atrás, num reino muito, muito distante, vivia uma linda princesa, tão bela quanto os raios dourados do sol nascente, ou quanto as flores noturnas, ou quanto as rosas recém desabrochadas cobertas de orvalho no início da primavera.
Todos os homens do reino vinham cortejá-la, e faziam campanhas em sua homenagem, e lutavam em torneios e duelos para decidir quem teria a honra de falar com ela. Porém nenhum homem jamais pediria sua mão, pois seu pai, o velho rei, muito velho e muito doente, jamais o permitiria. Ele dizia a sua filha: "Desconfie dos vencedores dos torneios! Desconfie dos muito belos, dos muito bravos, dos muito fortes. Nunca confie em um homem que não demonstrar nenhuma fraqueza."

O tempo passou e o velho rei morreu, não deixando herdeiros nem rainha. O reino foi tomado por nobres poderosos amigos do rei, e os jovens cavaleiros passaram a vir com cada vez mais freqüência cortejar a princesa. Em meio a suas ferozes disputas contavam histórias de lutas contra dragões, de vitórias sobre ogros comedores de virgens, de caçadas às bruxas disfarçadas de animais. A princesa ouvia as histórias e participava das festas, mas logo se recolhia com suas damas, lembrando do conselho do pai: "Desconfie dos matadores de dragões! Desconfie dos sempre vitoriosos, dos salvadores de vilas contra enchentes e tufões. Nunca peça a proteção de um homem que não lembrar de nenhuma derrota."

Um dia, porém, chegou na côrte um guerreiro com olhos vermelhos e um cavalo branco, que cantava com a voz dos anjos e sabia lutar como um demônio. Ele cantou suas histórias das vilas que salvara de enchentes, incêndios, tufões e maremotos. Contou de dragões que matara, de bruxas que enganara, de ogros que perseguira, de maravilhas que vira. E conforme cantava ia ficando cada vez mais jovens, até que ao final da noite não passava de um menino. A princesa, como que encantada, pediu que ele ficasse aquela noite, e que de manhã contasse mais sobre suas aventuras.

De manhã o rapaz se tornara novamente adulto. Conforme o pedido da princesa, contou outras histórias, sobre árvores donde nunca caem os frutos, sobre rios que correm para cima, castelos em cima das nuvens e moinhos que só giram quando não há vento algum. De noite, o rapaz se tornara novamente um menino, e de novo a princesa pediu para que não partisse. No terceiro dia, de manhã bem cedo, a princesa acordou o rapaz e pediu que a levasse consigo para conhecer as maravilhas do mundo.

Os primeiros dias foram de pura alegria! A princesa nunca saíra do castelo, e tudo lhe parecia fantástico: os campos, os camponeses, os regatos, as florestas, os moinhos, as rodas d'água, as estradas, as montanhas. De dia viajavam a passeio, apreciando cada instante, mas evitando encontrar com pessoas, com mêdo de serem reconhecidos. De noite, viajavam rápido, e o rapaz ia contando suas histórias sobre os lugares por onde passavam, e a cada palavra ia sempre ficando mais jovem.

Um dia, já bem longe do castelo, a princesa despertou e não encontrou o rapaz. Procurou-o por toda parte por um longo tempo, até que, à margem de um regato, ouviu uma voz angelical cantando uma canção tranqüila, que falava da paz dos campos e da alegria da colheita, e da passagem do tempo que fazia o verde desfazer-se no inverno para retornar com a primavera. Seguiu a voz e encontrou o rapaz, que cantava para uma mulher muito, muito velha, que parecia muito doente e que chorava silenciosamente. Quando a canção acabou, a velha abraçou o rapaz, em silêncio, e começou a andar, muito devagar, pela margem do rio. O rapaz explicou à princesa que a velha havia visto a aproximação da morte, e que seus filhos haviam partido em grandes aventuras e ela temia que não houvesse ninguém que pudesse olhar por suas filhas e por sua terra. O rapaz cantara uma música que ele ouvira em sua própria terra havia muitos anos, e que sempre devolvia às pessoas do campo a esperança e a fé. Ao ouvir isso, a princesa logo atalhou que a música era certamente mais animadora se era cantada por uma voz tão bela quanto a dele, e que ele deveria agredecer a sua própria mãe por um dom tão incrível.

"Na verdade", disse o rapaz, "este dom eu conquistei depois de adulto...", e, a pedido da princesa, ele começou a contar sua história.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Reencontro

Aos meus melhores amigos.


O tempo, em minhas mãos, é uma serpente alada. Ela me leva e me mostra o fim do universo. Eu sou apenas criança.
Já fui grande, depois pequena — hoje sou deusa.
Já fui guerreira, estudante, artista — hoje sou mulher.
Já fui adulta, adolescente, velha — hoje sou, enfim, criança.

Como esperei por isso! Por ser jovem e ser eu! Como lutei contra mim!

Pois não estou mais num poço. Os poços se desfizeram como se nunca houvessem existido. Agora o mundo se torna infinito. Agora o universo se dissolve! Como sonhei com isso.

Chegamos ao fim e ao começo, onde todas as portas se abrem. Os demônios que me perseguiram até aqui, os demônios param e olham. Nada é o mesmo, e as metáforas lentamente perdem seu sentido. Sólido se torna líqüido e líqüido se torna luz! Eu enfim abandono e retorno, com um único passo, ao meu lugar de origem dentro de mim. Os cervos levantam suas cabeças e olham. Os dragões levantam as pálpebras e olham. Balthazar levanta a ponta de seu chapéu. O Róque levanta uma pena de sua asa. O Sonho infla suas velas negras. O mundo pára e recomeça. Não pensemos mais em poços. Eu sou, outra vez, o vento. Voltemos a cantar como quando éramos crianças. Tudo o que um dia nos feriu, agora é só um espinho caído no chão da vida. Sob nossas pegadas. Nós, não.

Não sei explicar o canto que enche meu peito. O que fiz, o que houve para que eu perdesse o mêdo. Não sou mais eu, somos todos. O universo parece mais alegre. O universo nasce ao meu redor. Estou tudo de novo. Tudo sempre. Infinito.
Cheguei a pensar em muros, em reviver velhas dores, mas tudo perde o sentido. Não há mais muros, nem cercas, nem qualquer um desses objetos metaforicamente limitantes. Estamos livres? Ou éramos livres desde o primeiro instante?

Não sei, mas eu também me sinto como a terra. Também me sinto velha e verdadeira. Parece que não sei nada, e tudo está ao alcance das mãos. O universo urra como uma besta, e eu urro de volta em resposta ao desafio. Sempre achei que eu ia viver pra sempre, mas agora suspeito que também possa viver feliz.

Vamos viver uma grande aventura?!


,
amor,
Marina.

terça-feira, 8 de abril de 2008

Despedida

"Seus olhares se encontraram através da superfície da água, que era como um espelho..."


Preciso parar. Desistir. Abandonar.
Preciso enfrentar a verdade e a solidão, se pá.
Mas aqui é como um poço muito profundo que eu cavo, cavo e não chega a lugar nenhum. E continuo cavando. Cavo quando estou feliz para que a água se torne mais funda. Cavo quando a água se esvai para procurar água. Quando cavo às vezes encontro água e às vezes permito que a água se esvaia. Fico sozinha às vezes. no fundo do poço, pensando.
Às vezes olho para cima, e é pior. Vejo tudo de baixo. As camadas de terra que atravessei. Detesto sentir e lembrar tudo aquilo, que antes era tão importante e agora é tão vazio. Não estou mais nas profundezas. Não há água no fundo do poço. Quero me distanciar de tudo aquilo e continuo cavando. Quero encontrar água e nela mergulhar.
O mundo aqui é úmido e escuro. Continuo cavando para baixo mas não percebo se me desvio, se sem querer estou cavando mais para a direita ou para a esquerda. Não tenho consciência do caminho que percorri, e de nada adianta.
Grito às vezes. Mas não consigo ouvir a resposta. Quando encontro algo enterrado, jogo-o para fora do poço, para mostrar aos que estão lá em cima, ou deveriam estar. Mas imagino que não haja ninguém lá em cima (talvez todos estejam dentro de seus próprios poços) porque os objetos curiosos se acumulam ao redor da abertura formando uma muralha de abandono ao meu redor.

Quero sair. Quero sair. Tento escalar as paredes, mas dói terrivelmente voltar pelo caminho que percorri. O cheiro das camadas de terra que um dia escavei me dá náuseas, e sempre acabo caindo de volta no fundo do poço. E quando caio o desespero me invade e preciso cavar, preciso cavar, e quanto mais cavo, mais fundo fico, mais longe. Não sei para onde estou indo, e a escuridão é cada vez maior. O pedaço de céu que consigo enxergar é cada vez mais estreito, e às vezes, à noite, chego a duvidar de sua existência. Quero sair, quero escapar; mas nenhum caminho é possível.

Preciso parar.
Preciso esquecer.
Quem sabe se eu fechar os olhos e realmente acreditar que nada disto existe;
quem sabe se eu realmente abandonar essa existência e parar de acreditar em tudo que aprisiona e que dá mêdo;
quem sabe? Talvez seja possível escapar.
Talvez todo o cenário desapareça: a terra úmida, com suas camadas; o poço onde não há mais água; as pilhas de coisas lá fora que pareciam legais, mas a que ninguém deu bola, e que se tornaram paredes também. Se tudo desaparecer, talvez eu alcance aquele pedacinho de céu que consigo enxergar aqui de baixo.

Preciso abandonar.

quinta-feira, 3 de abril de 2008

Não sei você

mas eu cansei de ser só eu
cansei de não saber seu nome
e de onde vem


Não sei, você,
parece que acha às vezes que é tudo muito fácil,
coisa que adoro e odeio.
Você, não sei, parece
que acha que eu sou pra sempre
que não tem perigo nenhum
Você, talvez, não vê
Há perigo em todas as ruas
detrás das esquinas há monstros
E eu, a manhã me devora,
e eu, amanhã; amanhã...
É que o mundo é uma reta, porém
o mundo dá voltas.
Nãe sei, você,
sei lá, parece
que acha que entende as coisas
mas sabe que não sabe nada
e quando não sabe, talvez, parece que finje
então parece que quando quer saber, ignora
Os monstros não devem ser ignorados;
e há perigo em todas as ruas,
como você sabe...
Há coisas que sobre as quais não poderemos passar.
Não sei, parece
sabe?
Você, quando não sabe a resposta
age como se não houvesse resposta
age como se já tivesse a resposta
Age como se não houvesse pergunta
e eu, amanhã, amanhã...
Sem querer, vou embora.
Amanhã amanheço, e você?
Sem você, vou embora
e você me segura e me diz
sem querer...
sem querer?

Sem querer te devoro e te expulso e te choro e não quero!
Já cansei.
Essa dança.
Já dancei; e et cetera.
Você, não sei, parece que sempre espera algo diferente; será?
Parece que acha às vezes que é tudo proposital.
Você é a voz do mundo, não faça
não, por favor, não faça o papel do mundo
nesta peça de você e eu
Não seja a cara do mundo
Não faça parte do mundo
O mundo é feito de ruas
perigosas.

Tudo bem com você? Onde dói?

sábado, 29 de março de 2008

...

The devils, they burn inside of us... are we ever gonna com back down?

O Espectro do meu Sonho em Mim

Apavorado acordo em treva...


E ontem foi um dia longo e estranho. E hoje, não sei, sinto algo que se parece muito com culpa. Não fiz nada de errado, então por quê?

Apavorado em treva acordo o mar,
sonâmbulo, patético e sem fim,
e há um manto em luz de prata a lhe velar.
Esse é o espectro do meu sonho em mim.

Ontem esperei o intervalo fora da aula, querendo dormir. E fui acolhida por funcionários preocupados. E dormi ao invés de astudar francês. E passei boa parte da tarde pelos cantos. Mas isso esqueci. Tudo isso esqueci.
Ontem discuti minha idéia de jogo com o Charles, que foi honesto de uma forma gostosa e doída. Ele me acompanhou enquanto eu fazia um trabalho, e depois se despediu, com um beijo. Mas isso eu deixei para trás. Tudo isso ficou para trás.
Ontem não me manifestei durante a aula. Ouvi e fiz um comentário, mas de certa forma me escondi. Mas isso não prendeu-me ao chão. Nada disso me prendeu ao chão.
Ontem a música tocou e fiquei indo e voltando, indecisa, procurando, evitando amigos com outros amigos e cantando baixinho a música que me fascinava. E quando a Tarsila chegou, usei seu celular para pedir permissão para ir a um bar, para o qual fui no carro dela, e onde não paguei nem uma cerveja. Será que foi isso que me aprisionou?

Não. Suspeito;
o não-pagar já se tornou rotina,
e não estou dizendo que maus costumes não doam dobrado,
mas de qualquer forma eu vou pagar,
e o que estou sentindo;



O que estou sentindo não é real.



Meu deus (eu nem acredito mais em Deus), ontem eu devo ter ficado muito bêbada para justificar o tanto de absurdos que pensei.
Não os que falei. Só o que pensei.

Sou o mar! sou o mar!...


Suspeito que essa sensação estranha, esse sentimento que parece culpa (mas por quê?), bem, suspeito que não tenha vindo do bar, mas do sonho.

Não sei porque um sonho me faria me sentir culpada, mas sinto que há algo maior nesse sonho
que não consigo pegar...
Haviam muitas mesas de jantar... Logo ao lado meu irmão jogava um jogo de video-game muito divertido num telão, e nós assistíamos. Meu primo Max havia vindo numa barraca e eu como não tinha onde dormir ia dormir com ele na barraca. Ele me abraçava protetoramente, e eu tentava dormir no colo dele enquanto assistíamos o Marco jogar videogame. Nas mesas de jantar estava toda a família — tios, tias, tias-avós, filhos de tias-avós, meus pais, minha irmã (ou será que ela assistia o videogame conosco, encostada na parede mais distante?), minhas primas Giulia e Carol, Meus primos mais velhos, minha avó Celma... Vovó sorria mais jovem do que eu me lembrava, e me dava alguma coisa (ela sempre me dava alguma coisa... este casaco verde-limão... este anel de brilhante... aquela ameixa preta que nunca parei de comer.) e minha tia ria enquanto contava alguma coisa de sua vida. Estava tudo certo, mas eu não sentava na mesa com todos eles (acho que só adultos sentavam na mesa) e eu tentava dormir, rolando para fora do abraço do meu primo (incrível que ele não deixe de ser meu primo, depois de tantos anos), eu tentava dormir longe, haviam três colchões e eu trouxera roupa de cama, eu tentava dormir para não pensar, haviam três colchões de ar como o que eu comprei a caminho do bife, eu... Talita me acordou, e eu estava pensando.

Demorei alguns segundos para interromper o raciocínio de sonho. Sentia uma forte vontade de ver meu primo (não nos vemos há vários anos). O sol entrava pela janela, e havia trabalho a fazer. Pensei na noite anterior, no bar, no sabor da cerveja, nas pessoas que conheci, nas pessoas com quem muito conversei, em como me diverti — mas não parecia nem um pouco divertido. Me arrastei então pela casa, meio sonho, meio gente; havia trabalho a fazer e a diversão de ontem desapareceu do meu peito, dando lugar a esse sentimento esquisito, parecido com culpa.

Quando a gente sonha, a gente tem consciência?

sexta-feira, 28 de março de 2008

Como ser aprendiz

"Aquilo que em mim sente está pensando" - Fernando Pessoa

Aprender é difícil. Aprender é delicioso, como criar. Freud falava em orgasmo e criação, mas os árabes falavam de comer, dormir, amar e conhecer. Intuo que os árabes sejam significativamente mais sábios que Freud. Intuo, aliás, que Freud não seja tão sábio assim.

Aprender é em parte confiar. Difícil é confiar. Confiar implica respeitar, e respeito implica reconhecimento. Conhecer de novo, à procura do conhecimento real. Respeitar não significa admirar incondicionalmente ou de forma acrítica. Respeitar não é estimar. Não é possível respeitar alguém pondo-o num pedestal. Respeitar implica, acima de tudo, reconhecer.

Confiança implica conhecimento. Confiar em alguém é saber do que essa pessoa é capaz. Confiança tem como pré-requisito o respeito. Respeitar, quase sempre, requer ser respeitado.

Estou falando tudo isso por causa da aula de hoje, e de tudo o que veio antes dela. Por causa do Agnaldo falando do Miguilim e ficando todo arrepiado. Ele estava a menos de um metro de mim e eu vi claramente os pêlos do seu antebraço se eriçando enquanto seus olhos brilhavam falando de Miguilim pondo os óculos. É tão difícil, sabe? encontrar alguém tão apaixonado, alguém... tão deslumbrado, tentando (vê-se) abrir mais e mais os olhos para ver aquilo a que a razão não basta.
É por causa disso (principalmente) que gosto do Agnaldo. Gosto de tê-lo como meu professor. Admiro sua clareza de pensamento, sua eloqüência, mas acima de tudo sua admiração perante os grandes artistas. Sua exaltação. Se eu tivesse ainda quinze anos, me permitiria apaixonar-me por ele. Percebo isso talvez porque não tenho mais quinze anos.

Ele não me admira. Ele não me ajuda nem me elogia. Ele não me superestima nem me subestima, e nisso está a maior parte do meu respeito por ele, como professor. Descobri que não consigo gostar demais de ninguém que, sem me conhecer a fundo, goste demais de mim. Isso é desrespeito. Respeito é procurar ver realmente. Respeito é decoro, é tratar as coisas como são, já que estávamos (lembra?) falando de hybris. Embora eu perceba que o professor provavelmente não sabe meu nome, fico feliz, talvez tolamente, por ele me tratar pelo que sou, sem erros. Respeitar é trilhar o próprio caminho, e não o dos outros.

quarta-feira, 26 de março de 2008

Delusion

Uma revoada de pombas brancas voa sobre nós através da névoa.


Angels and Devils
Dishwalla




This is the last time
that I'm ever gonna come her tonight
This is the last time -
É impossível não sentir dor. É impossível não temer. Será igualmente impossível não sentir amor?
- I will fall
into a place that fails us all -
Tenho pensado tanto, e tanto querido, que mal me sobra tempo para amar. O mêdo inclusive sobrepuja o querer amar. O medo e a preocupação. Hoje até me peguei querendo pensar que não estou à procura de amigos e conseguindo apenas segui-los através do ar cada vez mais grosso. É como se eu não quisesse mais. Amo-os, e é tudo. Me peguei pensando também que não acredito em quase nada do que fazemos de design gráfico. E que nunca serei uma boa designer. Mas talvez. Maybe this is the last time I will fall into that place that fails us all
- Inside



Well, I can see the pain in you
And I can see the love in you
but fighting all the demons will take time
Por dentro coleções de corpos,
Máscaras vazias.
Que se erguem por vontade ou necromancia
Que sorriem por alegria ou por maldição.
It will take time


Meu Deus.
E eu nem acredito mais em Deus. Assim, desse jeito. Não sei. Fé, comunhão, todas essas coisas. O futuro está aí, nós estamos em outro lugar. Como você disse, antes do começo. Como eu imaginei, morrendo e renascendo, lutando pelo melhor útero, mas nem tanto assim. Porque derrotar nossos demônios leva tanto tempo, que parece não valer a pena. But I can see the pain in you.
The angels they burn inside for us
Fiquei imaginando coisas, deliciadamente.
Haveriam bibliotecas e fazendas, e não seria preciso lutar para subir de nível.
Humanos seriam desequilibrados, e haveriam raças secretas.
Seria possível escrever livros, revelando segredos.
E romances, é claro, dariam experiência.
Afinal, o que seria de mim sem romances? O que seria de nós?
Are we ever
Are we ever gonna learn to fly?
Romances, como sonhos, são muito mais importantes para o aprendizado do que é reconhecido. Nós é que... desconfiamos demais da realidade. Nós é que não temos fé em nossos mestres. Nós é que queremos matar nossos pais.
Mas depois nossos pais deixam de ser nossos pais eles ainda são nossos mestres, nossos amigos, nossa responsabilidade. O problema é que nós dificilmente deixamos de ser seus filhos. And I can see the love in you.
The devils they burn inside of us
Are we ever gonna come back down -
Por dentro, sempre por dentro;
quando na verdade o que aflige é o que está por fora, e que é tão forte que fere
que fere com um punhal
dentro nossos corações...

Tremem..
- come around?


Imaginei caminhos a serem seguidos, bons e maus, fáceis e difíceis, absurdos e sensatos.
Imaginei mestres e aprendizes. Mães e nascimentos. Órfãos. Vidas. Números.
Imaginei um coração jogável, como eu sempre quis, maior e mais ambicioso do que um simples jogo. Baseado como sempre na eternidade versus a satisfação imediata. Os dias seriam horas e anos, bem, seriam anos. Apenas muito, muito longos. E o tempo seria contado em meses, como se todos fossem sempre, sempre bebês.
I'm always gonna worry about the things that could make us cold...


E vou imaginar mais, imaginar com mais vontade e mais fervor, dar mais voltas no vazio e chegar cada vez mais longe na minha obcessão que agora parece tão criminosamente infrutífera. Porque imaginar é vencer. Imaginar é não sucumbir. Imaginar é reter (em forma líqüida) aquilo que o mêdo e a responsabilidade tentam arrancar de mim como se fosse, talvez, contraproducente.
This is the last time
Imaginar é descer para a terra e inevitavelmente ascender, não aos céus, mas ao Universo; ascender e compreender como um Deus com um microscópio, que a árvore vem da flor, que a pele é uma malha de células; que as moléculas vêm dos átomos, que são mundos feitos de quarks, e que nada disso passa de um intrincado sistema de energia-matéria, que, sendo uma, são Tudo.
That I'm ever gonna give in tonight
Imaginar, talvez... é escapar.
Are there angels or devils crawling here?
E se for possível não se render, e viver a partir daquilo que também dá sentido à vida? E se for possível fazer desse mundo um mundo em que não apenas eu viva? E se um dia tudo o que foi desperdício se tornar aprendizado, e tudo o que foi aprendizado se tornar desperdício?
I just wanna know what blurs and what is clear -
E se?
- to see!

terça-feira, 25 de março de 2008

À vida, porque viver non necesse.

...the lines drawn on your hand...


Hoje estendi meu feriado para ir ao aniversário do meu primo de um ano. O primeiro aniversário. Primeiro de toda uma vida. Para mim ainda é estranho, quatro anos depois de o Ennzo nascer, ainda é estranho ter primos tão pequenos.

Mamãe não entende a estranheza porque para ela a vida foi uma grande constante. Não para mim. Passei tempo demais sem notar que as pessoas mudavam. Passei tempo demais sem me dar conta. Mas agora vejo claramente; agora o véu se afasta e o tempo me encara nos olhos, sem sorrir, mas também sem rosnar. Agora é a hora de nascer de novo; agora é hora de crescer. Tenho agora consciência, como nunca tive, das gerações. Agora uma nova geração de crianças nasce e cresce, e elas criam suas personalidades, e riem e choram, e aprendem, e em breve Ennzo e Bruno se tornarão rapazes, e terão suas brigas de irmãos, suas disputas, suas alianças. Eles crescerão e aprenderão aquilo que aprendemos, e outras coisas além. Eles terão melhores amigos e namoradas. Eles irão ao cinema e aprenderão a beber. Agora eu entendo, como não podia entender quando me apresentaram aquele bebê gordinho, três anos atrás. Alice aprenderá a engatinhar e balbuciará o que poderão ser palavras. Ela se apoiará nas coisas e nas pessoas para ficar de pé, e ficará feliz quando conseguir. Talvez essa seja a metáfora da vida do Homem. Nós nos apoiaremos nas coisas e nos outros para ficarmos de pé, e só estaremos felizes quando conseguirmos imitá-los.

Mas não é só isso. Minha irmã também crescerá, sairá de casa, se casará. Ela terá filhos que também aprenderão a andar, e seus filhos serão tão diferentes uns dos outros quanto nós somos diferentes; quanto Mamãe é diferente de seus irmãos; quanto Vovó é diferente de suas irmãs. Os velhos morrerão, talvez, e os jovens sofrerão (porque jovens sempre sofrem), e os adultos lutarão para serem o que sempre foram. E novas crianças nascerão, e suas risadas nos farão sorrir aquele sorriso exagerado, e as histórias delas serão contadas anos depois... Agora eu entendo.
Entendo que presente se criará através do passado, que se tornará dor e delícia nas nossas presentes lembranças. O grande sonho de criar uma família de muitas gerações, em que a história de antes precede a história de hoje, e todas são uma só e todas são importantes, se realizará. Será possível então lembrar daquilo que foi antes. Tudo aquilo que dói agora, também, se tornará parte da história. O mundo, pitoresco e completo, se realizará.


É esse o sentimento.

The journey, it mirrors... the journey, it mirrors...

É esse o sentimento!

...the lines drawn on your hand...

quinta-feira, 6 de março de 2008

Le Démon de Minuit

"Os dois me queriam, e eu, por pura loucura, fiz um sorteio."


Por dentro vidas vazias,
Máscaras quebradas.

Queria apenas dizer que hoje lendo um livro
O livre de Hervé Bazin chamado O Demônio da Meia-Noite
tive de recorrer ao dicionário para entender uma das muitas metáforas (muitos diriam que são excessivas)
afinal como forçar-se a lembrar com clareza o que representam os signos montante e jusante?

Estou perdendo de novo a noção dos dias e de novo as coisas começam a parecer difíceis.
Mas tenho fé em alguma coisa.
Não sei bem. Procuro ter fé. Tenho a boca sêca.

Percebi hoje que minto pra mim com a perfeita consciência de que estou mentindo. Sei o quanto é ridículo, mas me compreendo, assim. Para que possa finjir para os outros. Covardia, talvez; mas quem realmente teria coragem de existir plenamente no mundo, diante da sociedade? O tipo de covardia que inclusive se esconde e se justifica. Às vezes murmuro para mim mesma, sem nenhum motivo, sem saber se é real ou mentira: não quero finjir. Não vou finjir que estou à vontade, que me sinto tranqüila, aceita, segura. Não vou finjir que tenho interesse em que e em quem não me interessa. Será? Não tornaria tudo ainda mais duro, esta decisão ao mesmo tempo valente e pateticamente covarde? Não tornaria mais duro finjir, eventualmente, que não me interesso, quando me interesso por que a que não interessa meu interesse?

Estou perdendo a noção das coisas, esquecendo o que eu já sabia. Sinto que tudo o que sei é inútil, que o que deveria saber, não sei. Tenho preguiça das coisas e uma ânsia curiosa por me exaurir. Estou preocupada com meus limites físicos, mas o que mais me desespera é sentir minhas limitações intelectuais. Percebo agora que o peso da farsa que eu carrego há tanto tempo apenas aumenta com o passar dos anos. Por dentro, às vezes odeio todos aqueles que me admiraram um dia, e que mal me conhecem. Às vezes sem querer sinto uma raiva que envolve as imagens de todos os personagens da minha meta-infância. Sinto raiva da minha capacidade de escrever sobre isso. Não quero desabafar. Quero sair.

sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

Across the Universe

Olho para Sebastian, correndo atrás de mim com seu brinquedo pingando baba. Será que algum dia poderei amá-lo?



Encarava o monstro diante de mim. Ele não era feio. Não era mau. Só era velho e forte e irascível. Eu encarei o monstro, mas por pouco tempo. Depois, saí correndo. Saí correndo e me perguntei por que quisera encará-lo afinal. Saí correndo e me escondi nas sombras. Mas ele veio atrás de mim.

Às vezes, pra ser sincera, gosto de pedalar até a exaustão, e depois pedalar de volta, apenas para ficar tão cansada que isso se torne a única coisa que importa. Você me perguntou o que faz sentido, e isso é uma coisa que faz sentido: descansar, quando se está cansado.

Hoje quando Flor veio pedir meu colo, reparei que sua testa estava, na parte que deveria ser branca, rubra. Quis cuidar dela, mas ela não deixou. Ela está certa. Limpar a ferida agora faria pouca diferença. Há muitas outras feridas debaixo do pêlo. Eu quero proteger minha gata, mas não sei o que posso fazer.

Você entende?

Outra vez, eu encarei o monstro, lutei contra ele, sacrifiquei tudo o que podia sacrificar para dominá-lo. E quando o vi ferido, caído no chão, me afastei, cansada; voltei ao meu mundo sacrifeito. Acreditando-o victo, o mostro meu inimigo. Ai.
Me envergonha, até, crê-lo meu inimigo. Mas lutei, lutei e então parti. Mas não estava ele morto. E quando saí de meu catre, o monstro exibiu as presas; o monstro me abocanhou. Só por magia não sucumbi. Desde então, não ouso encará-lo, mais.

Também gosto de acumular tarefas e de executá-las todas no mesmo dia, de preferência emendando-as sem pausas. Hoje, por exemplo, foi assim, apesar de minha tarefa #1 ter sido adiada para amanhã e de eu ter me exaurido completamente durante a tarefa #3, o que me fez desistir da tarefa #4, que de qualquer forma ia ser bastante complicada.
Acho que o objetivo disso é não ir para casa, e não ter que esperar. Se eu passar o dia inteiro fora de casa, fazendo coisas, não vou desperdiçar nenhum minuto do meu dia. E vou viver esse dia como eu quiser, livre, independente. Estar a céu aberto também me deixa mais forte. Isso, e estar longe.

Em geral, o que mais facilmente faz sentido são as coisas simples: o mêdo, a fome, o calor do sol, o cheiro do mato. Há também coisas menos simples, mas indiscutíveis... como a ternura que desperta um bichano adormecido, ou o amor de um cão pelo seu dono. Há coisas essenciais, como respirar, como sentir a si mesmo... sentir o outro também. Há coisas revigorantes, como enxergar uma imensa paisagem, como ver o horizonte. Há as que dominam nossos sonhos, nossos desejos, nossas nossos objetivos, antes e depois de as experimentarmos... para mim, coisas como velejar e cavalgar. E há coisas fundamentais, como trabalhar. Work hard, work worth doing.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

A campina

Um sussurro, apenas; mas um sussurro sincero.



Era noite. Lua e estrelas sobre um vazio aéreo. Um bimotor cruzava o céu lentamente, e era com os ouvidos muito abertos que ela escutava o ressonar do monstro no horizonte. A paisagens era vazia. Uma grande campina no meio de lugar nenhum. Os antigos haviam chamado aquilo de Ass'marin, e ela usava a palavra imensidão. Os antigos haviam morrido, haviam sido enterrados, e ela usava a palavra Perdição. Para honrá-los, talvez. E ao longe o tambor abafado dos cascos de um velho cavalo.

Era noite. Muito longe era possível ouvir o rumor das ondas como uma respiração. Uma rajada de leões emboscando uma única presa, chamada O Mundo. Um vento perdido varria a distância e trazia-lhe o cheiro do sal. Se ouvisse com muita atenção, talvez, um marinheiro gritando. Uma gaivota. O vento, incessante, espalhava um cheiro de relva, que estava em todo lugar. Havia um buraco amassado no mato onde ela estava. Sinal de uma manada que passara talvez a tarde ali. Uma manada de búfalos vira o Sol se pôr.

O campo era imenso, tanto que parecia um segredo. Deviam haver predadores terríveis à espreita na relva. Presas e garras esperando dar uso a um estômago vago. Haveriam também cavernas, árvores, riachos, escondidos bem como os leões para que o olho incauto não os notasse? Haveriam rochas, e até colinas? O vento ondulava a relva, talvez ajudando a esconder o mistério do umbigo do mundo.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

Another book ends


" Highway 66 is the main migrant road. 66 - the long concrete path across the
country, waving gently up and down the map, from Mississippi to Bakersfield.
66 is the path of people in flight, refugees from dust and shrinking land, from
the thunders of tractors and shrinking ownership, from the desert's slow
northward invasion, from the twisting winds that howl up out of Texas, from
the floods that bring no richness to the land and steal what little richness is
there. From all of these the people are in flight, and they come into 66 from
the tributary side roads, from the wagon tracks and the rutted country roads.
66 is the mother road, the road of flight. "

John Steinbeck


Hoje terminei, alguns anos depois, o livro As Vinhas da Ira. E é tão estranho. O final é tão estranho. Como se fosse uma estranha desistência do escritor. Como se fosse um filme que acaba com um tiro no escuro. Assim:
uma mão se ergue, com uma arma na mão. Você vê a mão, a arma (um revólver, e você que entende de armas reconhece o modelo e o calibre), um pedaço do pulso e da manga da camisa. E a imagem se apaga enquanto você ouve o estampido. E então começam os créditos. Você não sabe de quem é a mão (todos usam a mesma camisa), você não sabe quem pegou a arma, quem levou o tiro. Você não sabe nada, e é um filme policial. O policial e o bandido se encontram finalmente, e esse final indefinido. Você desiste e se aquieta. E lembra da história e sorri e pensa que o final talvez não importe tanto assim. No final, o indivíduo se dilui no coletivo. A família se desmancha. Quase completamente.

Preserve your memories.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

Assumiçãozinha

Eu adoro olhar pro meu blog. Eu entro nele todos os dias, e fico olhando, meio esperando que eu ache um comentário novo, meio só olhando mesmo, pras cores. Acho que talvez eu tenha chegado bem perto do template definitivo...

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

Prologues

Time it was and what a time it was it was,
A time of innocence a time of confidences.

Long ago it must be, I have a photograph
Preserve your memories, they're all that's left you



Escrevo aqui, e não ali, porque aqui não são necessárias imagens. E não é possível imaginar o que há por dentro.

Por dentro sonhos.
Por dentro vozes.
Aqui sonho tantos sentidos que me esvanece o sentido de estar num sonho.
E você (você sabe quando estou pensando em você?)
é tudo um risco imenso, o de acreditar em mentiras.
O de não se ferir com elas.
E a minha fascinação por lâminas...

Baby.
Baby você é uma lâmina.
Baby you're a dagger and I'm flesh (esperando ser dilacerada)
Baby I can tell, there's nothing left but flesh; why don't you cut me open?
Cut my eyes wide open.

Por dentro vidas sem vida,
coleções de máscaras.
Por dentro alucinações.
O passado bate à porta e você não o reconhece.
Seus amigos estão muito longe, e você não os reconhece.
Eles têm outros nomes, novas alcunhas, novos apostos, e apostam novas moedas em novas esperanças. Por dentro.
E também por fora.
Nas lembranças é que nos encontramos novamente e tudo está como deixamos;
quando saímos do apartamento que compartilhávamos deixamos as almofadas no chão, a cama desfeita e o nosso cheiro no ar. E uns pratos sujos em cima da pia. Uma torta no forno. Assim:
— Faz apenas duas horas que você partiu e a casa já está à sua espera.
Mas no nosso caso parece que fazem anos. O passado sempre parece ter acabado alguns anos atrás.

Tudo isso é apenas uma forma de dizer. O risco de acreditar em mentiras.
Acho que nós poderíamos parar de modificar o passado. Parece que quando voltei ao velho apartamento a colcha estava rasgada e as almofadas faziam as vezes de travesseiro, na cama meticulosamente arrumada. O sofá estava voltado para a janela coberta de teias de aranha. Alguém levou a tevê. E com ela os óculos de um gato. Os pratos e travessas foram lavados e guardados molhados num armário trancado.
Tudo isso para tentar expressar.
E é impossível expressar. A imaginação não chega tão longe. As possibilidades são limitadas. Há coisas a pensar e sentir, coisas que independem do passado. Coisas que se baseiam na história que está escrita por dentro. Os registros externos não significam quase nada.

Acho que não.
Desde aquele momento, muito tempo atrás.
Acho que não faz diferença agora o que acontece depois. Não há necessariamente uma história. Agora, independente do que acontecer, por muito tempo ainda, eu pensarei em você deste jeito. Eu posso não conseguir lembrar por que mesmo que te amo, mas vou continuar te amando. É ridículo assim. Mas você vai retribuir o meu amor de alguma forma. Nem sei se você sabe como ele nasceu e cresceu. Não preciso saber com certeza. Nesse caso (e no nosso caso) não há risco de haverem mentiras. Ou verdades. Ou qualquer coisa.

Talvez seja essa a solução: simplesmente não procurar o passado.
Se eu deixá-lo de lado, não terei que correr o risco.
E não importa mesmo. Eu não sinto nada. O que está assim tão distante não tem nunhuma importância agora. Não para mim, pelo menos. Eu não sou o que sou por causa de qualquer coisa que aconteceu comigo quando eu tinha quatro anos, então por que com você seria diferente? Não, eu já era assim. E depois me tornei o que já era. Porque a Capitu já estava dentro da Capitu de Matacavalos. E a pergunta, a pergunta que eu queria fazer é anterior a tudo isso, a tudo o que vocês sabem sobre mim (bom, quase todos vocês).

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Sometimes is just an empty shell.

domingo, 27 de janeiro de 2008

At times

Uma pequena tradução
Eu sei que traduções nunca são perfeitas, mas eu me esforcei, ao menos um pouco...



There are times,
while I observe you
There are times while I follow you
When you live without me
And without knowing me
Sometimes
while I admire you
While I admire your life I ask
— I always ask, and why? —
I ask if you are
if you breathe, if...
You cry? You live?          At times?
                                                                 Your soul?
I call for you
but it is with no voice
There are times while I think you
When you exist in me
And without knowing me          you feed me
while I pursue you
(while I devour you)
I call for you
but I want you not to hear me
and At times
to appear
But it is with the silenced voice
There are times while I dream you
When you cease to exist
without perceiving me
Sometimes
while I admire you
While your existence I ask



Your soul?

sábado, 26 de janeiro de 2008

Just keep talking

no silêncio, quando nem o eco responde — keep talking...



Às vezes,
enquanto te observo
Às vezes enquanto te sigo
Quando convives sem mim
E sem me saberes
Às vezes
enquanto te admiro
Enquanto admiro tua vida pergunto
— pergunto sempre, e por quê? —
pergunto se és
se respiras, se...
Se choras? Se vives?          Às vezes?
                                                                        Tua alma?
Te chamo
mas é com a voz muda
Às vezes enquanto te penso
Quando existes em mim
E sem me saberes                   me alimentas
enquanto te persigo
(enquanto te devoro)
Te chamo
mas quero que não me ouças
e Às vezes
aparecer
Mas é com a voz calada
Às vezes enquanto te sonho
Quando deixas de existir
sem me perceberes
Às vezes
enquanto te admiro
Enquanto a tua existência pergunto



Tua alma?

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

Pequeno Glossário Temático
dos termos desta lôba.

Em ordem de aparição.



1- Tipo de moradia rústica, especialmente comum entre as de animais de pequeno porte, que consiste em um buraco ou túnel, com ou sem ramificações ou galerias, escavado pelo próprio residente. Como a toca é escavada na medida certa para o residente, ela costuma ser uma ótima defesa contra animais maiores. Obs.: embora lobos e cães sejam eficientes em escavar tocas em caso de necessidade, duvido muito que esse seja seu estilo favorito de moradia, em geral.
1- Canídeo selvagem do gênero feminino, conhecido por sua ferocidade, inteligência e adptabilidade. Costumam formar casais para a vida inteira e são reconhecidamente fiéis à família. Em geral têm hábitos noturnos.
1- A ausência (relativa) de som. *Segundo o dicionário Aurélio, 2- "interrupção de correspondência epistolar", 3- "Sigilo, segredo", 4- "interj. para mandar calar ou impor sossego", 5- "Taciturnidade". 6- A versão sonora das trevas. 7- Espaço ou situação em que o sentido da audição é desprezado.
1- Integrante de uma organização militar. 2- Personagem que se define ou destaca por sua experiência bélica ou militar.
1- A ausência (relativa) de luz. *Segundo o adicionário Aurélio, 2- "misterioso, escuso, suspeito", 3- "falta de luz; pouco claro; sombrio; tenebroso", 4- "Escuridão", 5- "Que se distingüe mal; que não tem sonoridade; surdo", 6- "lugar sombrio, recôndito". 7- Espaço ou situação em que o sentido da visão é desprezado. 8- A versão luminosa das trevas.

sábado, 12 de janeiro de 2008

O ser imenso abriu apenas um olho, e quase sem se mexer examinou cuidadosamente o que via.

Be yourself, no matter what they say


Eu preciso falar sobre aquelas meninas. Preciso falar sobre elas assim como preciso falar sobre o João Dante mas não ainda. Preciso falar porque algo acontece e é algo diferente de tudo o que aconteceu antes. Antes era apenas um sonho, agora... Digo que o dragão acorda de um breve sono, olha ao redor e decide que o Filho do Cão está por aqui. Ele se deita novamente e adormece, adormece aguardando o tempo (que virá) quando houverem mais dragões e quando eles puderem crescer e se multiplicar. Mas então algo acontece. Algo como um ligeiro tremor, uma vibração que suas grossas escamas mal percebem. "Ainda levará anos para que eu possa fazer uma armadura", disse-me o dragão do sonho; mas agora ele olha ao redor, até um pouco assustado, e pergunta: você acha que o futuro já chegou?

Elas tinham nomes como Mônica, Bárbara, Fernanda. Eram pequenas, como convém a pequenas meninas, pequenas como estas. Com os pratos brancos. Eram o futuro. Mariana, Bianca, Luna. Eram fortes, e apaixonadas. E deveriam aprender. E seriam o futuro. Eram três, e não sabíamos bem como encontrá-las. E teriam nomes como os nossos. E nos sucederiam. Isso na história. Mas um dia sonhei com estar conversando com três meninas e o Rafa, ou seria o Ugo? E um dia vi a cena do sonho e levei um susto (ninguém percebeu). E foi como se fossem elas mesmo. Não exatamente elas, mas alguma coisa parecida. O futuro já chegou? eu me perguntei, assustada. Tão rápido, com tanta antecedência?

Depois se tornaram meninas de verdade, deste mundo e não do outro. Mas eu olharia para elas em dúvida mais algumas vezes, por mais algum tempo. E então elas começaram a falar, como filhotes de dragão que finalmente se dão conta de seus poderes (dentro de mim, é claro. elas mesmas provavelmente já conheciam seus poderes). E alguma coisa me assustou. Naquelas meninas que não eram, pensando bem, tão pequenas. Alguma coisa entre dizer yuri-monitor e falar sobre mim em um de seus posts. Como dragões adolescentes que de repente assustam a todos com seus poderes. Como correntes, de algo maior do que ferro. E velhos jogos da verdade (perdi o Jogo) em que falamos de Amor, e de Deus, e eram a mesma coisa, no final das contas. E ler aquelas palavras foi como estar de novo com quinze anos, sofrendo uma paixão difícil, tendo sonhos acusadores, pensando em beijos proibidos, e descobrindo formas de ter amigos que eu não conhecia, e me fortalencendo cada vez mais, e abraçando, e sonhando. E eu olhei nos olhos daquele dragão jovem e falei, claramente:

— Eu achei que não existiam dragõas mães nesta era. Mesmo diante de ti, não posso acreditar que existas.
— A dragõa-mãe me carrega desde as eras antigas. Dragões mais nascerão — respondeu meu amigo, dulcíssimo. — Dragões cobrirão os céus, pois a dragõa-mãe ainda vive.
— E teu pai, meu amigo, ainda existe?
— Meu pai é o mesmo que o teu. Ele dorme no fundo dos mares; ele caça ao pé das montanhas. Mas as eras tiraram sua força.
— E os dragões que dormem escondidos?
— Nós os encontraremos, irmã. O meu cheiro os despertará, pois trago ainda o cheiro do berço. Nós os despertaremos, irmã, e os levaremos à mãe. Nós renasceremos, irmã.

Uma mudança extremamente sutil no odor da caverna foi o que despertou, por um instante, o dragão seu mestre.

What the hell am I doing here?
Do I belong here?


Quando você foi embora, deu um sorriso amarelo e eu quis despistar você. Você é um idiota, mas eu ainda te amo. E sempre vou te amar. Mesmo que você nunca voltedessa viagem curta que você foi fazer, eu sempre vou te amar. O amor não acaba nunca, o que é bom, ruim, desesperador. E quando apagam-se as luzes, é o cheiro dele (ou dele?) que ainda me alucina, por mais que eu tente escapar. Estou presa, presa pelo amor nunca acabar. E o desejo, aquele desejo proibido que hoje eu sei ocultar (e até controlar). Minha melhor amiga do ginásio, que recentemente eu joguei pra classificação "conhecido" nos amigos do orkut, me disse uma vez que a gente nunca deixa de gostar de um cara bonito. Mas a beleza não é bem a questão, não é? Não é exatamente isso. É o seu cheiro, que contamina quase a casa inteira, que me faz sentir coisas que me deixam ansiosa, me dão nojo e fazem meu coração bater mais cauteloso.

Ultimamente tenho sentido muito ciúmes, sabe?

Comecei este post o coração disparado, agitado, mal sei porquê. São aquelas meninas, sabe? Roubando de mim com os olhos de um bandido meu passado e meu sonho encardido. Quanta suavidade neste punhado de pó. A chave para entender é a curiosidade, e eu quero ceder a ela. Você tem um cachorro? Gosta de Terry Pratchet? Às vezes fica hipnotizada pelo céu? Você quer chorar e quer poder não chorar, quando algo no peito sente de uma maneira errada, mas quase deliciosa? Você quer amar mas tem amor demais no coração? Você transborda sem querer, e se contém quase o tempo todo, para que nas outras palavras não te reconheçam?
O Curioso perguntou pelo Artur e lembrei de quando o Tu era assim bem como eu (oculto) palavras traduzindo mais do que conheciam dele. E como tenho orgulho dele! Como tenho orgulho e como admiro esse homem! Será que todos podem crescer assim? Será que eu também terei orgulho de mim? Será que um dia não terei mais inveja? ("se eu fosse um pecado", lembra?) E como isso acontece? E é bom?

I don't care if hurts,
I wanna have control
I want a perfect body,
I want a perfect soul


Mas não quero falar agora das minhas fraquezas.

sábado, 22 de dezembro de 2007

Apenas um pensamento...

...desses que não adormecem nunca.


Ultimamente postar neste blog tem me feito me sentir meio ridícula. Como se isso fosse me ajudar a perder seu respeito. É tão devastador, sentir sempre que você está milhares de anos na minha frente... E o pior é pensar que eu até preferia que você nem lesse estas palavras, ou que, se as lesse, não entendesse. Mas, ao mesmo tempo, é tão desanimador pensar que você pode não me entender... Como se isso fosse me ajudar a perder meu respeito por você.

O que provavelmente tornaria minha vida mais fácil, mas mais vazia. Mas eu queria... sim, eu queria me livrar desse poder que você tem sobre mim. Eu queria dizer que meu reino é tão grande quanto o seu. E, em algum lugar no fundo, eu acho que é mesmo.

No silêncio barulhento da cidade, eu me pergunto no que você está pensando.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

Os Espíritos que Calam

Profet, said I, bird of evil!


De todos os meus mêdos, de todos os meus sonhos,
foste sempre o mais terrível, o mais medonho.
Tivestes tantos poderes,
causastes tantas desgraças,
que toda vez que te via
eu (criança) estremecia.

E era duro o segredo: dizer que não mais queria,
dizer que não te esperava, dizer que tu não roubavas
as noites em que eu dormia. Dizer que não eras nada,
mas eras todo o meu reino — tu eras o meu segredo, meu demônio companheiro.

Se eu tive muitos triunfos, foi pelo teu desafio;
Mas perdi minhas vitórias, e por fim me derrotaste.
Não foi sonho nem desejo, não foi sorte, não miragem.
Com todos os meus sonhos e desejos,
o que venceu foi a realidade.
Te tornaste um espantalho, como os demônios tão vil.
E sem querer me obrigaste
a fugir do teu poder, a me esconder na verdade.
De todos os meus sonhos e desejos, te tornaste o mais voraz e o mais vazio.

Espantalho dos meus mêdos,
deixe em paz os meus segredos.

Espantalho de demônios,
não espante mais meus sonhos;

Meus sonhos são como corvos, são pensamentos que falam
e, de todos os meus mortos, são demônios que não calam.
Espantalho dos desejos, me permita ressonhar os que se espantaram.


..................



Estou sentindo uma tremenda dificuldade (maior que a normal) para concluir meus poemas, ultimamente. Sinto que não estou produzindo nada que presta, por causa disso. (É só olhar o que eu postei no meu fotolog — imenso, mas dispensável a partir da quarta estrofe). Mas enfim.

(PS.: o corretor de texto do Mozilla sublinhou "fotolog" e eu cliquei para adicionar ao dicionário (adoro essa frase). Ele estava sugerindo como correção "patologia", "ontologia", "grafologia", "fotolito", "mitologia", e mais algumas palavras que eu nunca vou usar na minha vida...)

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

Eu tenho uma pergunta:

Quem ainda lê este blog?

porque eu tenho me esforçado até para escrever coisas legais, e me sinto frustrada de não receber quase nada de feedback mesmo assim...

terça-feira, 11 de dezembro de 2007

Trivialidades - Magic and Might

Apenas alguns fatos da vida.


Ontem, depois de algumas horas tentando jogar Magic com o Ugo e o Di (!!! Agora eu até sei o que é "virar" uma carta! XDDD), quando eles foram embora, eu (muito sonolenta e cansada) fui fazer algumas palavras cruzadas. Para minha própria surpresa, eu consegui terminar uma Direta que estava por terminar havia meses! Então... Eu fui encontrar minha mãe, que estava assistindo TV, e acabei ficando pra ver um Lei&Ordem Criminal Intent, e logo depois começou um filme... e é claro que eu não pretendia ver o filme, mas a Talita chegou e disse que queria ver aquele filme havia muito tempo, e ele parecia legal mesmo, então... bom, eu acabei assistindo o filme inteiro. Depois eu quis fazer mais algumas palavras cruzadas, mas a Sem-Diagonal estava muito difícil e a próxima Direta também.... resumindo a história, eu capotei de roupa mesmo, e fui acordada no dia seguinte por meu pai, que passou para apagar a luz. Era quase meio-dia.

Ontem eu fui assistir Beowulf com meu maninho, e gostei bastante do filme ^^. Só achei que o final deveria ser mais conclusivo. Esse negócio de deixar o final duvidoso (do tipo "o espectador escolhe o que ele acha que aconteceu") algumas poucas vezes é uma boa idéia (no Tropa de Elite, por exemplo, funcionou), mas em alguns casos é uma bobagem. Acho que o diretor tem que tomar um pouco mais de partido. Mas isso não importa, porque o filme é muito legal. Especialmente a música do começo; queria ter prestado mais atenção nela.

Paragens Internas: a procura das saídas

I want you to notice
when I'm not around


Você chegou aqui por acaso, por isso não sabe onde está.
Mas saberá.
O mar lamberá suas pernas, e você chorará com a cor do pôr-do-sol. As nuvens envolverão seus passos, e a relva sussurrará o caminho. Não demorará muito, talvez apenas sua vida inteira. Talvez um caminho se abra e você corra por ele, e chegue imediatamente ao portal que leva para fora. Ou talvez nenhum barco jamais chegue neste porto, e nunca saiamos daqui. Eu e você não temos nenhum poder. Eu e você somos apenas brinquedos, convictos de que as palavras que falamos saem mesmo de nossas gargantas de pelúcia ou madeira. Você, porém, é melhor do que eu. Você conhece o mundo lá fora. Você pode intuir que existe algo de real além deste universo.
Estamos longe agora, mas logo estaremos perto. É preciso querer, é claro, e ser capaz de sentir sinceramente. O mar, você vê, não esteve sempre aqui. Ele costumava ser muito distante, apenas uma paisagem no horizonte, aonde chegávamos através de um caminho secreto. Esta região estava então coberta pela floresta densa, e mais adiante começava uma deslumbrante planície. Com o tempo a floresta recuou, se desfez em pequenas matas, e o nível do mar subiu, cobrindo toda a planície e parte da terra seca. Isso foi antes dos primeiros portos, antes que o Sonho inflasse pela primeira vez suas velas negras. Você não é daqui, por isso não sabe. Eu sei, porque não existo lá fora.
Na verdade, mesmo que você tenha chegado até aqui pelo mar, só é possível sair através do Segundo Mirante. Para chegar até lá, talvez nos arrisquemos muito, e talvez criemos muita turbulência. Nada disso tem importância. Quando atravessarmos a floresta maldita e batermos às portas do castelo vazio, só aí saberemos se será possível escapar. Escapar, por mais fascinante que seja este mundo, é absolutamente necessário; por outro lado, a terra, as águas e as florestas, e até mesmo o ar, não podem suportar que qualquer um de nós desapareça! O mundo inteiro estará contra nós, enquanto procuramos a saída. Apenas quando desistirmos seremos bem-vindos. Eu, por exemplo, já havia desistido, e por isso pude aproveitar muitos séculos ou segundos de uma vida tranqüila. Você, porém, não pode se submeter a essa existência. Se fizer isso, você deixará de existir.
Na verdade, existe outro caminho pelo qual se pode chegar ao lado de fora. Dizem que há uma porta na parede de um poço dentro da menor galeria da caverna mais escura que há no paredão da Fenda entre o deserto e o pântano; bastante perto da morada do Grande Urso. Porém, eu jamais aconselharia alguém a procurar essa porta. Existem inúmeros caminhos para se chegar ao Segundo Mirante, e nenhum deles é mágico; mas há apenas dois caminhos não-mágicos para a Porta na Parede do Poço, e ambos são extremamente perigosos. Para chegar à pequena galeria onde está o poço, você precisa descer o paredão da Fenda, encontrar a entrada da caverna escura, atravessar galerias imensas, pontes decadentes e túneis serpenteantes, e finalmente nadar através de um fosso subterrâneo com uma correnteza terrível — e mesmo se chegar ao outro lado, haverão milhares de pequenas galerias, e você terá que procurar, no escuro, até encontrar a certa. A vantagem é que a galeria do Poço é a única iluminada: há um buraco no teto na caverna, por onde passaria uma pessoa. Essa é a segunda entrada; e é tão terrível quanto a primeira! Não apenas a queda é enorme, como o buraco é guardado por criaturas monstruosas: lobos-esqueleto com chifres sangrentos e língua de cobra, aranhas e formigas do tamanho de um homem cobertas com escamas de dragão, coelhos e tartarugas do tamanho de aranhas com as mandíbulas cheias de veneno, e outras feras que não sou capaz de descrever. Dizem, porém...

...dizem que as feras guardiãs temem, ou respeitam, os espíritos malignos e maliciosos, e que se chegar uma pessoa acompanhada desses espíritos, elas lhe darão livre passagem. Por isso, a galeria do Poço está cheia de uma energia maligna, dos espíritos que são deixados para trás pelas pessoas que atravessaram a Porta. Você acabou de chegar, por isso não sabe o que isso significa.
Mas saberá.

sábado, 8 de dezembro de 2007

Esconderijo

Para aqueles que nunca irão entender.



Cubra seu coração de mêdo
Cubra seu coração de mêdo
e descubra...
Se descubra...


Estou tentando entender o que não estou fazendo, o que não vejo, não sinto, não entendo. Eu não estou sequer me esforçando. Eu não sei para que lado devo olhar agora. É tão terrível assim? ficar com mêdo? não ter a menor idéia do que fazer em seguida?

Não deixe o bicho papão te pegar
Não deixe a noite cair
Pode ser que o Papai venha aqui te ninar
Se você não conseguir dormir...


Se há uma pergunta, essa pergunta não é o silêncio, essa pergunta não é a solidão, não é sequer o desamparo. Ou será o desamparo? Será que a pergunta não é somente o desespero absoluto, a desorientação, a falta absoluta de parâmetros, de tato?

Cubra seu coração de mêdo,
Enterre-o num punhado de pó
Deixe-o crescer em segredo
e o descubra quando estiver só...


Às vezes eu tenho raiva do mundo, mas não tenho como poder ter raiva do mundo, o mundo deveria é rir de mim. E eu olho ao redor de mim tentando imaginar quem é que deveria não rir de mim. Eu já não estou oferecendo nada, eu já não tenho mais o que oferecer. Estou pedindo ajuda e ninguém pode me ajudar (vocês sabem). Às vezes quando chega a sexta-feira tenho uma raiva que me faz me sentir criança outra vez... E me sinto absolutamente estúpida, porque, porra, é só uma coisa da vida, uma coisa que todos enfrentam todos os dias, isso de ter que fazer sacrifícios, de não fazer aquilo que se quer fazer, isso de ter mais coisas pra fazer do que parece possível...

Descubra o que há pra se perder
Descubra se há algo a se ganhar
Se você apenas se esconder
sua vida nunca vai mudar...


Acho que há algo mais (uma força, uma energia, uma coragem) que costumava haver na minha vida e que hoje eu não consigo encontrar. Hoje eu estou apenas apavorada, perdida, sem entender nada do que está acontecendo, presa a uma vida inconclusiva por... por uma coisa que talvez seja justamente a coisa mais importante...

Cubra seu coração de mêdo
Cubra-se de pavor...
Se afogue nesse banal enredo
e descubra...


Acho que a vida sempre foi muito fácil — sempre foi algo que eu podia desligar quando me enchesse o saco, e religar depois. Mesmo os escritos, os desenhos, os planos, grandes e pequenos: eu sempre desisti quando chegava na parte difícil... Nunca tive fé o suficiente na minha capacidade de terminar, de passar para a próxima fase. Ainda se fosse um problema matemático ou um jogo de vídeo-game, em que há sempre uma garantia de que existe uma resposta simples... (os problemas da escola eu em geral terminava, mesmo que fossem muito difíceis. dos vídeo-games eu cansava mais rápido...)





É muito difícil terminar a maratona por último.
Também é muito difícil realizar qualquer coisa para ninguém.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

E quando acordo, o tempo já passou...

(lá em casa tem um poço, mas a água é muito limpa)


O dia cresce dentro de mim. Nascem no dia olhos, braços, orelhas, pés, rabo, barriga, coluna vertebral e um pequeno sol vermelho, matinal, meio achatado nos pólos. O dia brinca comigo dentro de mim, devorando os espíritos fracos e puxando e esticando os fortes. O dia me cria fome e me faz crescer e querer coisas absurdas. Eu o vou atravessando, leve, grande, rindo, o dia me carrega na sua carruagem apolínea sob um grande arco invisível no céu encantadoramente azul. O dia me transforma. Eis que finalmente o sol, luminoso e redondo, surge perante os meus olhos, e eu apaixonada grito (o silêncio é um grito de quem não pode gritar) meu amor ao dia.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

Todos os dias, quase sem querer

É determinação, fuga do dever ou vício, isto que me traz de volta, sempre, às (pequenas) letras?


Claramente a manhã se infiltra entre as cobertas. Meu corpo me acorda suave um segundo antes do despertador. O dia escorre por minha testa, por entre meus olhos, por meu nariz, por sobre meus lábios (eu sinto seu gosto); o dia morno e vivo em milhões de pequenos corações escorre por meu queixo, desce meu pescoço, (percorrendo), escorre por meu peito, entre meus seios (doloridos, com o peso do sono), se espalha por minha barriga (se empoça — se apossa? — em minha barriga) , entra por meu umbigo, invade meu útero e (quiçá?) me engravida.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

Paixão rouba nossos sonhos

minha vida é um mundo de mentiras muito bem contadas. não poder nunca contar a verdade é o meu segredo. acreditar nas mentiras é o meu segredo. não ter segredos é o meu segredo. devorar-te se me decifrares é o meu segredo.


Nos teus olhos eu vou, lentamente, encontrar minha perdição.

Eu queria saber se te feri. Queria saber se me perdôas. Queria me desculpar por minha força bruta, por minha fraqueza (queria desculpar-me por minha franqueza).
Não percebes que me machuco quando dizes coisas assim? Não percebes minha careta, minha falsa-indiferença, não notas que desvio o olhar e não ouso correr atrás de ti? Não notas que por dentro quero chorar (mil coisas) e sinto-me tão perdida e? Não está claro que quando tenho sono viro só instintos e paro de pensar?

Ontem tantos arrependimentos... (fúteis)...

Discurso:


Não só eu falo as coisas importantes todos os dias (e não só com palavras). Também não posso falar a todos aquilo que poderia falar individualmente.
A vida não é tranqüila assim para alguém que um dia estendeu a mão, e teve roubado o braço. Porque minhas palavras são meu coração: se eu lhes estender meu coração, alguns entre vocês o comerão — sem hesitar o agarrarão com as mãos viradas em garras e — e me deixarão perdidamente só, sem coração. Meu coração é meu grande companheiro.

Baile:


Oh, sim, eu gosto de dançar. E gosto (muito!) de ver os outros dançando. Especialmente quando são meu pai e minha mãe, ligeiramente altos e muito (muito!) alegres, dançando juntos e chamando todo o resto das pessoas pra dançar. Eu gosto de dançar. Eu gosto muito de dançar. Eu queria (queria mesmo) saber dançar com você.

sexta-feira, 30 de novembro de 2007

gatonajanela.img

Nada, não. Isto tudo é só sua imaginação...



Minha gata está sentada em cima de uns livros na frente da janela, olhando pra baixo e miando agudo para algo que eu não tenho a menor idéia do que pode ser. Eu sei que ela ouve quando eu rôo o unha do indicador (que está 0,3mm maior do que eu consigo suportar) porque ela vira a orelha direita na minha direção e me manda um meio-olhar de soslaio (isso é uma redundância?). Nas cinco ou seis árvores que vejo atrás do muro branco além da minha janela, os milhares de galhos pequenos e folhudos que nasceram para compôr a majestosa exuberância do verão balançam suavemente com o vento. O azul do céu está tão claro que parece branco, e ofusca um pouco minha visão dos galhos.

Está tarde, e eu não cumpri meu dever.

Está tarde, e eu cumpri meu dever, mas não sei a que ele se presta.

Está tarde demais para correr atrás dos furos que assustam no começo do meu currículo. Estou apaixonada, quero tudo muito, e o segundo pedaço do bolo talvez eu tenha que dividir em dois. Eu gosto de mim, mas é muito difícil acreditar naquilo que faço e não faço.

Eu fui trabalhar para anestesiar a frustração de não trabalhar no meu atual emprego-faculdade. E quando chega o fim de semana estou sempre pensando odeio-sexta-feira. : "é que às vezes os ícones ficam em cima uns dos outros, aí eu não encontro...". -- esse foi o primeiro dia.



Minha gata está se debruçando para fora da janela, e eu vejo seu coração batendo rápido rápido. Nos olhos arregalados os músculos-íris relaxam fazendo as pupilas virarem uns filetinhos pretos; e os pelos logo atrás das costelas balançam conforme sua respiração se acelera.



Ninguém pode prever o que acontece depois a desilusão toma conta. Nem mesmo os elefantes.



Ouve um dia em que eu amanheci no chão de pedra do quintal da minha casa. Logo depois meus dois cachorros vieram me cobrir de baba de cachorro, sujeira de pêlo de cachorro e amor pegajoso de cachorro.

segunda-feira, 26 de novembro de 2007

Carta de Amor

Em Alana, as histórias são escritas nos troncos das árvores e na superfície das pedras. É o velho de túnica azul que grava cada uma das letras, toda vez que chega à cidade. Assim que termina de gravar, ele parte outra vez para a Montanha do Marco de Ouro, onde espera encontrar a nascente mágica da Água das Histórias, que lhe permitirá contar todas as histórias que quiser. Entretanto, ele nunca chega à montanha, muito menos ao Marco de Ouro, e nunca chegou sequer a ouvir de longe o ruído de um regato onde desaguasse qualquer fio de água que viesse da nascente que procura! É que no caminho, o velho sempre acaba encontrando alguém que lhe conta uma história nova, intrigante e cheia de ensinamentos, e quando o velho a ouve é tomado por uma imensa necessidade de voltar a Alana e contá-la a todos os seus habitantes. Ele num instante dá meia volta, e enquanto anda vai contando a história a todos que encontra no caminho, e mesmo de si para si, recomeçando da primeira palavra assim que a termina, repetindo-a sempre como a um mantra ou uma prece, para não esquecê-la ou para espalhá-la por todo o caminho, como uma bênção.


Assim, quando chega a Alana o velho já não tem voz para contar a história a ninguém; mas a sabe de cor, palavra por palavra, e sua vontade de contá-la é ainda maior do que antes. É por isso que o velho mune-se de talhadeira ou faca e grava, nas pedras e nas árvores, cada letra da história que aprendeu — história que não vem da puríssima Água das Histórias, e que não foi sequer procurada; mas que foi ouvida ao acaso, ao redor de uma fogueira no campo, ou à mesa, na hora da ceia, ou num abrigo de chuva, ou sobre um carro de bois... ou mesmo numa estrada, da boca dum viajor que se cansa do silêncio dos seus próprios passos.

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

Procura-se

Estou procurando alguns livros e filmes que provavelmente emprestamos para alguém e esse alguém nunca mais devolveu. O problema é que emprestamos muitas coisas por aqui e depois de um tempo acabamos esquecendo quem está com o quê. Os itens perdidos que estou procurando atualmente são:

Livro Harry Potter e o Cálice de Fogo (o quarto da série)

Livro O Rei do Inverno da coleção 'Crônicas de Artur' de Bernard Cornwell -- com a Lori

Filmes (VHS) Hook - a Volta do Capitão Gancho e Peter Pan(desenho animado) ambos da Disney e talvez em fitas gravadas (tenho motivos para crer que alguém está com os dois)

Se você tiver um exemplar de algum desses em casa e não tiver certeza absoluta de que ele pertence a você, por favor dê uma conferida. Esses são livros caros e eu não quero ter que comprar de novo...
Aliás, se alguém aí estiver com qualquer coisa minha, de meus irmãos ou da "Casa dos Salles", por favor avise; Estou tentando inventariar tudo o que é nosso e que não está conosco.

E se algum amigo meu ler isto e lembrar de alguma coisa que está faltando na própria casa, pergunte se não está conosco, que nós também pegamos muita coisa emprestado e nem sempre lembramos de devolver.

Muito Obrigada;
Marina

domingo, 14 de outubro de 2007

A Morte de uma História, a Lenda de Black Bellamy e a Mulher dos Ossos - parte 3a

Este texto ainda é dedicado ao Ugo, embora eu tenha recusado seu convite, hoje. Acho que como o Ugo não está dentro do meu mundo interior, eu teria que caminhar, atravessando florestas e montanhas, até as fronteiras dele (até a minha superfície) para conseguir encontrá-lo, e isso me deixa terrivelmente cansada. As pessoas acham que na mente as informações são independentes, e que é possível pular de uma para outra automaticamente; mas a verdade é que toda vez eu percorro um confuso e difícil caminho de um ponto da mente a outro. Acho que é por isso que as vezes eu preciso ficar sozinha, em casa, parada num único sentimento de familiaridade. Me limitando às pequenas distâncias. Caminhando devagar. Descansando.

Peço desculpas por ter me escondido atrás da desculpa mentirosa de um trabalho. Falta-me às vezes, sabe? um pouco de coragem...



Foi preciso que eu me perguntasse, quando cresci, de onde vinha cada coisa. É preciso que se saiba (que se entenda) quais são nossas influências, como se cria nossa bagagem cultural. Existe pouca coisa que se cria por si própria. É preciso saber quem nos criou.
A primeira vez que me fiz essa pergunta, queria saber que tipo de animal eu era. A Lôba que eu queria ser, era uma lôba das lendas romanas? Era o Akela do filme do Mowgli? Era Caninos Brancos, ou Buck? Acho, sem muita certeza, que meu ídolo afinal era o próprio filhote de homem; e era também a pantera negra, Bagheera, e era a Mãe Lôba, que se chama Raksha. Reli o livro várias vezes procurando às cegas por mim. Vivi outras coisas depois, e outras coisas me fascinaram, mas nada foi tão forte, tão violento, e seguro.
Depois, perguntei de onde vêm os dragões. Estava absolutamente apaixonada por eles, e não conseguia entender a vida de outra forma. Mas achava estranha a presença deles em mim. Não sabia por que eu podia pensar em dragões. Levei muito tempo para lembrar dos filmes e contos de fada, e notei que os primeiros dragões que eu conhecera não tinham nada de fascinante. Mas talvez o fascínio estivesse oculto, pairando, esperando apenas o momento certo de se revelar. E despertou nos meus anos de ginásio, na espada de Lancelote, na peça que Bilbo prega em Smaug, no céu de Fantasia, em Nêmesis, Terry Pratchet, Nárnia, Holy Avenger, talvez até Harry Potter. E, talvez principalmente, jogos de fantasia, cujos cenários baseiam-se assustadoramente nas criaturas da Terra-Média. Lembro-me inclusive da primeira vez em que me deparei com um romance cujo assunto central eram dragões! Aquele formigamento na barriga, como se eu estivesse diante de um tesouro, como se aquela paixão pelos dragões fosse algo só meu, algo secreto, e o livro fosse um segundo segredo para saciar o primeiro! Como posso não ter notado que o mundo inteiro sofre a mesma doença?

Agora, me pergunto: e os piratas?

Consigo pensar no Capitão Gancho e em Simbad, o marujo. E no Corsário Negro, protagonista de um livro de aventura do qual eu só li a versão infantil (ou seja, resumida em menos de trinta páginas, com letras grandes). Todos têm lá a sua importância na minha própria história. Os piratas, naturalmente, me ensinaram coisas terríveis sobre a vida, coisas como a crueldade infantil, encarnada em Peter Pan, e como a resignação. Mas nem por isso deixei de associar a eles um certo senso de liberdade e independência necessários. Lembro da primeira vez em que me deparei com um autêntico romance de pirataria, em livro velho, cor de madeira, chamado Captain Blood. Mas justamente na parte em que o Sr. Peter Blood virava um pirata (e passava a se Pedro Sangue, o que eu achava muito divertido), perdi o interesse no livro e o larguei. Depois disso, só fui redespertar meu fascínio com Piratas do Caribe. E depois, One Piece. Apesar do entusiasmo inicial que essas duas obras me causaram, aos poucos (com as seqüências e o desenvolvimento das sagas) elas foram amortecendo em mim o que eu procurava. Aos poucos foi como um tiro no peito que se demorou anos para sentir. Aos poucos os piratas dentro de mim morreram, ou passaram a nunca ter existido. Eu fechei os olhos para eles, continuei gostando daquele sonho bobo de piratas, e só. Aos poucos eles se tornaram uma brincadeira de criança com os amigos. E só.
Com Black Sam Bellamy não foi assim.

Quando li O Lobo do Mar, eu estava procurando um livro sobre lobos e sobre piratas ao mesmo tempo. Sinto que esse livro não existe; mas aquela história me fez esquecer de ambos e me focar no Mar, que existe, e nos homens que navegam nele. O mesmo me causou A Volta ao Mundo em um Doze-Pés, com a diferença de que era uma história verídica, o que a tornava muito mais interessante (embora não tão... edificante, por assim dizer). Mesmo assim, não cheguei a procurar outras livros do gênero — simplesmente não tive interesse. Encontrei O Príncipe Pirata meio por acaso, porque minha irmã me havia mandado lê-lo muito tempo antes, e eu achei que o livro podia ser sobre um homem que era ao mesmo tempo príncipe e pirata (numa mistura de Corsário Negro com Robin Hood que a minha mente criou por conta própria). Mas o que encontrei foi um relato simpático da busca de um homem pelo navio de seus sonhos: a Whydah, a maior (e última) embarcação do pirata Black Sam Bellamy.


nota: este texto está incompleto, é claro. Eu realmente gostaria de terminá-lo de uma vez e acabar logo com isso, mas está meio difícil. Mais tarde eu termino, provavalmente também apagando algumas partes. Mas... mais tarde.

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

A Morte de uma História, a Lenda de Black Bellamy e a Mulher dos Ossos - parte 2

Este texto ainda é dedicado ao Ugo, embora talvez não pareça. É que eu achava que o Ugo não existia nas minha paisagens internas (o que quero dizer é que não há uma metáfora associada a ele — ele é ele mesmo), mas agora vejo que um rapaz distinto se aproxima da costa e procura pelo horizonte seu futuro navio... Mas essa é uma história para ser contada outro dia...



Eu não sei exatamente o quê no texto do Ugo simplesmente disparou algo em mim. Relendo várias e várias vezes aquele texto, não consigo reencontrar a certeza e a clareza com que os ideais dos piratas de Black Sam Bellamy afloraram na minha mente, e a necessidade de contar sua história que se infiltrou determinantemente em mim. Acho que nada disso teria acontecido se minutos antes eu não estivesse lendo aquele livro; se naquele livro não estivesse escrita aquela singela palavra, se não estivessem transcritas aquelas histórias simbólicas, eu não estaria, certamente, escrevendo isto aqui.

Clarissa Estés, a autora do livro, diz que onde quer que ela fosse, ouvindo e buscando lendas e vivências, essas histórias, de pessoas que se dedicam aos ossos, que ressucitam os mortos, ou de uma mulher que é uma loba que é uma mulher, a perseguiam. La Huesera, a Mulher dos Ossos, é uma velha que percorre os desertos recolhendo ossos que podem se desfazer na areia. Ela mora em uma caverna cujo chão está coberto de ossos de lagartos, cobras e pássaros, mas o que a velha mais procura são ossos de lobos. Quando ela finalmente reúne um esqueleto completo de um lobo, e arruma cuidadosamente cada pequeno osso numa escultura no chão da caverna, ela senta-se diante dos ossos e pensa na canção que irá cantar. Quando a canção se revela para ela, então, ela estende suas mãos sobre os ossos, e começa a cantar, e conforme ela canta os ossos se levantam e se cobrem de carne.
Ela canta mais, e a carne se cobre de pele e os pêlos se levantam. Ela canta mais e mais forte, e a criatura-lobo levanta a cabeça e sua cauda ganha uma bela curva para cima. Ela continua a cantar, e a criatura-lobo começa a respirar. Ela canta mais e mais, e o lobo abre os olhos e dispara para fora da caverna, correndo pelo deserto com os pêlos brilhando sob o luar. Então, alguma coisa na noite, talvez um raio de luz que a lua cheia lança em seus olhos, talvez um resto de vento que levanta a poeira no seu caminho, ou as gotas da água de uma lagoa que voam sob seus passos, arrebata a criatura-lobo, e ela se transforma numa mulher, que corre nua pelo deserto, rindo e uivando para a noite. Eu gosto de imaginar que isso acontece exatamente no momento em que soa a última nota da canção da velha, na caverna.

O fato de a Mulher dos Ossos ser também chamada de La Loba me acorda para a idéia de que a velha e a mulher-lôba são na verdade a mesma coisa: algum dia a Mulher que Corre será velha, gorda e circunspecta, e andará pelos desertos recolhendo ossos de seus irmãos lobos. Ela dará vida e juventude a velhos ossos, repentindo o ritual ancestral de infinitas mulheres antes dela, que são, afinal, a mesma. Essa visão do conto, bastante diferente da discutida no livro, é uma repetição de uma história pessoal que a autora havia contado na introdução — um sonho seu, no qual ela contava suas histórias de pé sobre os ombros de uma mulher muito velha, que por sua vez estava de pé nos ombros de outra ainda mais velha, e assim por diante. Mulheres que Correm com os Lobos é um livro sobre a necessidade de se resgatar em todas as mulheres sua força instintiva e intuitiva, sua força criativa, sua liberdade, sua conciência, etc; entretanto, o que realmente me pegou foi essa idéia de continuidade, essa força das histórias, e a palavra "cantadora", contadora de histórias, que é como a autora (que eu tenho vontade de chamar de "narradora" e "protagonista") descreve a si mesma. Naquele instante me vieram à mente todas as pessoas na minha vida que haviam me contado histórias, fosse para ensinar, fosse para acalmar, ou simplesmente para divertir; me veio à mente a imagem de minha vó contando histórias para os netos na sua grande cama de casal.



Sabe, minha vó morreu quando eu tinha dezesseis anos. Dezesseis anos parece muito tempo para se conhecer alguém, mas a verdade é que nos últimos anos, quando eu finalmente tinha maturidade suficiente para enxergar as pessoas como pessoas (embora não completamente dissociadas de seu caráter simbólico), quase não vi minha vó. Assim, no dia em que ela morreu, demorei muito tempo para entender por quem, exatamente, eu estava chorando. Lembro que chorei primeiro pelos meus pais e tios, que haviam perdido sua mãe; depois, chorei pela avó que era minha, que contava histórias, que tinha uma voz doce, que errava os nomes, que servia almoços gostosos, que nos levava a lugares diferentes, que me ensinou a jogar xadrez, que eu amava; e só no fim, depois de aprender sobre ela inúmeras coisas que eu nunca tinha pensado, é que comecei a chorar pela pessoa que minha avó era: a mulher grande, forte, amorosa, amada por todos, a que ia em frente sem se embaraçar com seus próprios erros, a professora, a psicóloga, a que vencia os jogos de buraco, que ensinava os netos antigos joguinhos de lógica, que queria nos levar para o pantanal, que assistia filmes na sessão da tarde e aprendia com eles, e aprendia com tudo.
De certa forma, ler esse livro que minha avó leu, que foi importante para ela, é iniciar uma jornada à procura dela, de quem ela era, do que ela buscava. Enquanto leio, estou, mesmo sem querer, imaginando o que ela pensou quando leu aquilo, o que ela sentiu. Será que ela encontrou sua Luz del Abyss, será que mergulhou no Río Abajo Río? Qual será a história que mais a emocionou? Será que ela também se sentia na obrigação de contar histórias para nós, de nos ensinar coisas através delas? Será que ela se inspirou com esse livro, ou será que ele apenas reforçou o que instintivamente ela já buscava? Será que ela viveu a Loba dentro dela até o fim dos seus dias? Será que foi isso que lhe deu coragem, até o fim? para viver seu amor, para mudar sua vida, para ser "completamente feliz", como ela me disse? Para aceitar a morte? Para estender, ou segurar, a mão no momento certo? Será que minha avó foi verdadeiramente forte? Será que ela também desviou os olhos, e não quis olhar para as cavernas mais escuras do seu ser? Será que um dia ela teve muito, mas muito mêdo? Será que ela olhava para cima à procura do céu completamente azul?

Enquanto leio, enquanto escrevo, enquanto penso e sonho, olho para baixo e vejo que estou pisando nos ombros de minha avó. Mas ela quase não sente meu peso; ela poderia agüentar todos os netos em uma só asa, e sabe-se lá o que mais, na outra. Minha avó é uma enorme águia, um pássaro grande como o Róque (o mesmo Róque que olho passar voando da janela de minha torre, gato) mas com um olhar doce, arredondado, e não pontiagudo como o das aves de rapina. Ela é grande e protetora como uma mamãe galinha, com todos os pintinhos ao redor; mas seu olhar também não é assustado como o da galinha e o dos passarinhos. Também não é um olhar reflexivo e misterioso como o das corujas. É um olhar cálido, familiar. É um olhar como o de uma mãe. É algo que me faz procurar por ela, agora, tanto tempo depois. Finalmente.

sexta-feira, 28 de setembro de 2007

A Morte de uma História, a Lenda de Black Bellamy e a Mulher dos Ossos - parte 1

Este texto é dedicado ao meu maninho Ugo.



Foi uma sucessão de coisas, naturalmente. Quando eu era pequena, vovó reunia os netos para contar fábulas e contos de fadas que ensinavam pequenos segredos da vida. Quando viajávamos, minha prima inventava histórias alegres balançando na rede da varanda. Quando minha prima parou de contar histórias, achei que deveria assumir seu papel, inventando aventuras de pequenos animais para minhas primas menores. Mesmo quando minhas primas pararam de ouvir minhas histórias, ou eu deixei de querer que ouvissem, meus amigos-irmãos da escola às vezes pediam que eu lhes narrasse alguma coisa; e eu tentava contar-lhes as mesmas passagens fantásticas que vivia a contar para mim mesma. Mais tarde, quando nós nos afastamos, me reaproximei das histórias inventando-as em conjunto com meu atual namorado. Porém, quando, sexta-feira passada, meu maninho pediu que eu contasse uma história, me embaralhei, insegura, e comecei a contar uma história errada, e acabei me calando sem contar coisa alguma. Mas cheguei em casa ligeiramente envergonhada, e durante este última semana não paro de pensar nisso.

Sobre muitas coisas, é preciso dizer que os últimos poucos anos têm sido anos de nascimentos e mortes. Nascimentos e mortes, naturalmente, são indicativos de alguma mudança profunda no funcionamento das coisas. Como, digamos, rituais coletivos de amadurecimento. Não é possível esquecer que todas as árvores paulistanas nas quais subi e sobre as quais sonhei foram impiedosamente desfiguradas. Também paisagens internas, metafóricas, dentro de mim foram esquecidas ou transformadas, perdendo parte de suas características sem que houvesse com isso esclarecimento do seu significado. Em outras palavras, está se tornando cada vez mais difícil discernir a verdade.

E, afinal, quero falar do evento determinante que me trouxe até aqui neste momento.

Há mais ou menos dois dias, eu terminei de ler o último volume da famosíssma coleção das aventuras de Harry Potter. Deixando de lado minhas impressões específicas sobre esse livro (podemos discutir isso depois, né??), ler a última frase da última página do epílogo do último livro foi um choque muito grande, maior do que simplesmente acabar de ler uma história que passou anos se infiltrando nos meus pensamentos, nas minhas referências, na minha visão do mundo, por que foi um final surpreendentemente conclusivo (deixando de lado a incompletude das informações oferecidas pelo epílogo). Foi um daqueles finais que acendem, em uma pessoa como eu, o fogo e o ímpeto de buscar mais, criar mais, ler e compreender e continuar a história, e torná-la completa e infinita, e fundi-la a outras, e criar outras, e explodir e recriar como um peixe mil-bocas todo o universo imaginário que fervilha em algum lugar no fundo de nós. Levei horas assistindo o clarear do céu incapaz de adormecer; e quando adormeci, sonhei com mundos mágicos, e com ler novas e velhas histórias fantásticas; e quando acordei ainda estava passando e repassando em pensamento cada cena do livro, e recorri a ele várias vezes para tirar alguma dúvida, e resisti à vontade de ler de novo a coleção inteira, e não consegui sequer pensar em começar algum outro livro; e assim foi até o dia seguinte (ontem). Ontem foi um dia meio confuso, e lembro que antes de sair de casa, na hora do almoço, olhei para o livro e senti uma leve repulsa, como se estivesse olhando um cadáver ("dead body", no original). Finalmente, lá pelo final da tarde, enquanto Charles passava rapidamente de um site a outro no meu computador, olhei de soslaio para a estante de livros, por cima do cadáver de Harry Potter (que se tornara um ponto para o qual eu simplesmente parara de olhar), e vi, com um fulgor criativo já despertando no peito, um livro me chamar, com voz suave.

Algo chamara minha atenção quando eu lera as anotações de uma velha entrevista com minha avó. Vovó Celma era formada em diversos cursos de psicologia, e invadira diversas palestras pagas na sua inocência e vontade irrefreável de aprender mais e mais. Ela vinha de uma boa escola de Caratinga e de um infância acompanhando com um livro a Hora da Tia Chiquinha, programa educativo da rádio mineira. Seu pai ensinava os passarinhos a cantar. Quando perguntei quais filmes e livros haviam sido importante para ela, ela falara de O Nome da Rosa, Filhos do Paraíso, Sidarta, A Vida é Bela, O Sol é para Todos, Capitães da Areia, Memórias de um Médico e... ah, e ali está, o livro que sorria para mim da estante, o livro que uivava para mim, que eu distraidamente recebera de mamãe havia meses sem lembrar que, anos antes, vovó já me falara sobre ele, quando lembrava dos poucos livros, entre os muitos que já lera, que a haviam marcado profundamente. Mulheres que Correm com os Lobos.

sexta-feira, 14 de setembro de 2007

Vamos Fugir?

É a vontade terrível de perseguir o que realmente vale a pena. Uma vela se inflando no meio do mar. Uma vela surgindo por trás de uma ilha; uma praia surgindo por trás de uma ilha. Vontade terrível de esvaziar os bolsos, de descobrir o que é que me prende à esta fraqueza e impotência. Me disseram uma vez que eu tinha o poder para conquistar o mundo... Eu não sorri. Será que não acreditei?
Fiz planos, sabe?
Sairia todos os dias, até um dia não poder voltar. O tipo de coisa que não se planeja, se faz. Minha falta de portifólio me incomoda, mas eu não penso em reclamar. Penso naquele trampo que não fui garimpar. Pensar me perturba. Às vezes sento na cama e leio, leio até que seja tarde demais. O objetivo é justamente cometer erros, para que eu me declare estúpida mais tarde. Não é realmente estupidez. Não é sequer preguiça. É pura e simples falta de interesse. Às vezes me imagino terminando a faculdade e acho engraçado, absurdo, até. Depois tento imaginar o que vai acontecer de verdade. E me assusto. Não sei se o que me assusta mais é a possibilidade de o absurdo se concretizar, ou o fato de eu não ter a menor idéia de o que mais poderia acontecer. Acho que toda essa questão de nunca ter realmente pensado no futuro está pegando agora. Crescer às vezes pode ser parecido com amnésia.

Minha pergunta atual é quanto vale a minha bicicleta. Se eu sair em viagem com ela, e no meio do caminho me encher o saco, por quanto posso vendê-la para algum desconhecido no cominho? É uma pergunta idiota, mas fico pensando nela por bastante tempo. Nunca tive muita referência das coisas. Por enquanto, pelo menos, sobrevivo me aproveitando das opiniões dos outros. Por exemplo, quando me perguntam se eu bebo, digo que meus amigos não bebem. Depois peço um gole da sua cerveja. Penso comigo mesmo de que não vale a pena se enfiar na fila pra conseguir uma só pra mim. Afinal, eu quase nunca bebo. Mas as pessoas olham para mim com uma cara estranha, como se me considerassem ainda menor do que já sou. Ou será que eu é que não percebo como sou pequena? Olhar para o azul do céu já não resolve nada, e está ficando cada vez mais difícil encontrar o que eu sou. Eu decidi o que quero, e é muito maior do que eu imaginava: quero viver de modo a me orgulhar de mim, e que quando eu tiver filhos ou netos eu tenha histórias boas para lhes contar. Uma delas será a de meu bisavô, que se tornou famoso numa cidadezinha ensinando passarinhos a cantar (ou ao menos foi isso que minha avó me contou). Também posso contar histórias da minha família e de meus amigos. Mas eu quero mais que isso: Quero realmente conhecer.

Acho que vivi muito menos do que pretendia... Eu sonhava, quando menor, poder dizer aos mais velhos que eu era mais jovem mas vivera mais; porém agora sinto que vivi muito menos do que muitas pessoas mais jovens. Os obstáculos no caminho -- principalmente minha mãe -- me fizeram abandonar as coisas simples, e eu nunca cheguei a arriscar-me nas grandes empreitadas. Agora me sinto velha demais para me transformar em qualquer coisa que eu queira, como se fosse uma massinha boa que foi guardada por tempo demais, à espera de algo que merecesse seu uso, e endureceu. Como um vestido de casamento de quem nunca encontrou seu par.
Sobre as massinhas velhas, admito que ainda podem ser usadas: com um pouco de fogo se pode amolecê-las, para então rapidamente modulá-las antes que endureçam outra vez. Também os vestidos velhos podem ser usados, também os idosos se casam -- embora eu me pergunte se o casamento de um idoso é tão valioso quanto o de um jovem. Penso naqueles tempo e lugares em que uma moça de vinte anos teria dificuldade em arranjar marido; mas hoje em dia, é claro, tudo é possível. Também é possível sorrir e não temer o futuro; mas também é possível perder-se diante do futuro. Às vezes paro e pergunto, Meu Deus, o que está acontecendo? Algumas respostas são muito difíceis de achar. Outras estão bem debaixo dos nossos olhos, tão óbvias que temos vergonha de olhar para elas. Penso no pássaro Róque sobrevoando um navio de velas negras que nunca existiu. Penso em todas as vezes em que temos mêdo de coisas que não deveriam, segundo a lógica vigente, existir.

Acabei de distraindo com uma pequena formiga que passeou pela tela, às vezes se confundindo com as letras deste texto. Me veio à cabeça Mário Quintana: "Para quê? se por ali já havia passado todo o frêmito e o mistério da vida...". Vou seguir a sabedoria do poeta. Parece que nada me resta a dizer.