segunda-feira, 17 de maio de 2010

De sobre o mirante

(a noite é uma criança distraída)

Eu achei que chegaria um dia que não seria assim tão incrível e aí eu ficaria muito decepcionada e até meio depressiva. Eu achei que ia ser horrível. Mas não foi assim. Foi só meio confuso. Eu acordei um dia sem grandes ambições. Eu acordei e queria escrever, cantar, almoçar com o Basílio e a Néia, jogar RPG talvez. Mentira, eu sabia que eu não conseguiria jogar. Mas eu queria ver meus amigos. Eu queria tentar. Então o dia escorreu assim, eu o tempo todo distraída, meio alheia, tanta coisa pra sentir atrasado, tanta coisa tenta pra pensar.

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Eu cheguei em casa, tirei a corrente do pescoço e tentei voltar para o mundo de antes, mas não podia, porque nem eu nem o rio éramos os mesmos. Eu tomei um banho longo e me joguei na cama e dormi, sem querer querendo, dormi pra tentar entender, pra tentar sincronizar meu corpo com o mundo de agora-aqui, e dormi sabendo que estava perdendo a noite perdendo tudo, e fui acordada com:

— Vamos assistir Carmina Burana na Luz em vinte-e-cinco minutos, você vem?
— Eu tô em casa, me deixa ir que eu corro como o vento pra tentar chegar a tempo.

Tudo deu errado mas eu cheguei a duas músicas e meia do final. Eu me emocionei com os últimos "venus..." a quinze metros do palco, eu me mantive lá contra os desejos dos meus que estavam tão mais longe. Eu andei pela multidão e os rostos das pessoas que ouviam eram de glória: olhos fechados, vários lábios cantando. Hoje o jornal dizia que foi uma apresentação pífia. Algumas músicas sobrevivem a qualquer coisa. E no final eu larguei todas as coisas para abrir os braços. Eu cantei também. Nada disso importa. E a partir daí foi uma noite como qualquer outra.

Eu olhei pra você e meu pensamento se contorceu numa careta, porque se só ouvir o seu nome já me distrai tanto do mundo, que dirá caminhar ao seu lado?

Teve um momento em que o Poru estava assustando as pessoas (não o culpem, a idéia foi minha) de um jeito muito simpático, e eu acho que eu causei a maior quantidade de mêdo num desconhecido na minha vida. É que aquela menina era muito linda. Talvez ela nem fosse perfeita, ela era tão delicada, não era gostosa, não emanava poder como as pessoas de quem eu geralmente gosto, ela... ela parecia uma flor, um lírio branco iluminado por um único raio de luar.

"Quando me tocas eu me transformo
Como uma flor que se abre
Como uma flor eu me abro
Para o calor do teu toque"

Ela tinha a pele clara e os traços delicados, cabelos escuros curtos meio ondulados emoldurando o rosto. Eu fui falar com o Poru e olhei para ela e disse "nossa". E eu começava a falar com o Poru mas meu olhar ficava se voltando para ela, e eu queria muito parar e conversar com ela, descobrir quem ela era, como eu poderia vê-la mais vezes (num pedestal), e ao mesmo tempo eu precisava dizer para o Poro que estávamos indo embora, beber cerveja com o Sacha (o que no final não fizemos ¬¬), dar tchau para os amigos do David, e em certo momento eu virei para ela e disse:

"Uau, como você é linda."

...

Se vocês tivessem visto o olhar dela, vocês entenderiam melhor porque naquela hora eu me senti um monstro. Um ogro raptor de donzelas. Eu tive mêdo de mim mesma. E aí fomos embora.

E depois conversamos bastante, e tudo meio enevoado, tudo tão bonito, tantas pessoas que... mas eu não digo nada, eu estou tão em silêncio. Assistimos Deixa ela entrar e foi tão emocionante quando a música antes. Um filme lindo. E depois fomos pra casa, e dormimos juntos, conversando sobre as coisas que precisávamos mudar, sobre nossos erros, sobre nosso amor, sobre os estudos, sobre acordar no dia seguinte, sobre xkcd, sobre i love the whole world (the future is pretty cool).

Então eu acordei pensando em como expressar, não pensando em viver ainda mais coisas incríveis e perfeitas. E ao longo do dia o mêdo foi ficando cada vez mais forte, o mêdo de não poder falar, o mêdo de estar tudo o que importa apenas um pouco além do limite das conversas razoáveis. Eu lembrei o olhar nos olhos deles quando eu falei da minha sexta-feira, eu lembrei de vários olhares de muitos tempos antes e depois. Eu fiquei com mêdo. Eu voltei pra casa depois do jogo e tentei escrever, mas tudo o que eu queria dizer não podia ser dito, e a minha pilha de rascunhos no blogger ficava cada vez maior. Mas eu não podia dizer.

Que dizer do que eu sinto por você? Do que não é desejo, não é amor, não é paixão, não é um interesse fútil? Que dizer do que nem eu entendo? Como eu posso te querer sem te querer? E como passar por cima do mêdo?
Que dizer do meu desejo por você, completamente despropositado?
Que dizer dos meus sonhos, dos meus mêdos, completamente errados?

Na calma, eu também pensei em você. Eu achei que chegaria um dia que seria perfeitamente normal e que eu odiaria isso. Mas não. Chegou um dia em que eu estava tão repleta de uma sensação de glória que nada mais parecia me importar. Como eu queria poder expressar! E tudo era tão silêncio. Eu parei e pensei em como eu me sentira feliz, como eu queria poder expressar essa alegria irrestrita, essa alegria devastadora, que me fez saltirar e rir e cantar e dançar ao redor de você. Como eu tenho que lhe agradecer pela alegria que me preencheu completamente, como eu nunca esperava ficar tão feliz! Depois disso nada mais importa, meu dia estava vazio, meu dia era um raio de sol o mais importante é o agora, mas eu vou viver o resto da minha vida lembrando desse mar, sabendo que por sua causa eu fui feliz, sabendo a importância de todas as outras pessoas que me trouxeram até aqui, eu estava sorrindo sem conseguir lidar direito com esse foco de luz que nasceu no meu peito, essa torre iluminada de marfim que brilha, que desvela praias e falésias, flores, tiés-sangue, que está vazia agora mas que prepara uma festa, e é tudo por você, meu companheiro de viagem, meu bardo, muito obrigada!

Eu quero criar um novo nome para um tipo de relacionamento. Não vai se chamar conquistadores de mundo. Estou em dúvida entre Companheiros de Caça e Companheiros de Viagem. Eu quero virar com você, viajar e caçar com você. Essa é a minha luz, a minha alegria, o meu farol. Ugo, teu barco (o Sonho) vai se guiar também por esse farol. Quando nós navegarmos juntos, nós nos reuniremos nessa torre. É a primeira construção em muito tempo que não está cinzenta e abandonada. Não há demônios aqui! Nós nos guiaremos por sua luz. Daqui a cem anos, se eu me lembrar desse dia, eu ainda terei luz para guiar minha jornada.

Isso tudo me assusta.

Me assusta porque não posso chamar a todos para virem comigo se eu não puder convidá-los para a festa. Eu quero chamar vocês, que eu amo, que me apóiam sempre. Senão, quem virá para a festa. Eu sei: senão, virão todos os demônios para a festa. E ali eles vagarão sem destino, ali eles tomarão conta de mais uma construção que eu abandonarei. Meu farol! Minha torre de luz! Não! Eu vou dar um jeito. Eu vou criar coragem e quebrar todas as barreiras. Pelo amor. Por mim. Por sempre.

Eu vou falar a verdade.

Mas não agora.

Maybe

I promissed to be your best friend
And always speak the truth
I promissed to love you, to hold you, to be with you
And to live all the craziest things with you
And I promissed I'd be there
And maybe I even said I'd be yours
And maybe for a while I was
Because I was in love
Because I wasn't in love
But you knew it wouldn't be for long
Because you knew me

I promissed you would know me
And that I'd be true to you
My heart would be open
I wouldn't change for you
And maybe I even gave the impression that I would hold on to you
And maybe I even let slip that I adored you
But maybe you knew all along
That it was true
Only because I was in love
Because I wasn't in love
And, I don't know how to think of this,
I don't want to fear
But now I know that I was yours
And maybe I am his.

Maybe I am his
Even when I'm not with him
When I look at you and I wonder
Will you look inside my eyes?
Maybe I am his
When at night I'm feeling lonely
And I wonder
Who'll be next to change my life

And maybe I am his
Every day a little more maddly
And every day a little more wildly
As I stray further into this freedom
And maybe I am his
Every day a little more
As I dive deeper into this dream-world

And when we talk
I am afraid to speak
It all seems so strange
We all seem so weak

Maybe I am yours
Everyday a little less maddly
And everyday a little less wildly
As I stray further away from here
Maybe I am yours
Everyday a little less
As I dive deeper into the real world

And when we talk
I am afraid to hear
It all seems so null
And I don't wanna fear

And maybe I am his
Every day a little more maddly
And every day a little more wildly
As I stray further into this freedom
And maybe I am his
Every day a little more
As I dive deeper into this dream-world

But

...

...

...

When morning comes
I wake up by your side
I know you loved me as no one loved me
I know you saved my life
I know you made me strong and fierce
I know you made me smile
And if I know you as no one does
I'm afraid of what you might feel
When you see I'm slipping away from you
You wonder how long I'll be here for you
I wonder what here is real
I love you!
I whisper, it's all I know
My heart wants to keep you from all the evil
I'll be by your side when you face the world
But I wonder if this is real

You can't come with me in this journey, no.
I'm no longer a damzel
You have given me strenght, I know
Now I'm no longer in danger

I love you!
I whisper, it's all I know
My heart wants to keep you from all the evil
I'll be by your side when you face the world
But now you can't walk with me.

Te ver.

Te ver é uma tortura, é uma delícia.
Cada instante perto de você é tão terrível!
Às vezes eu fecho os olhos e finjo que você não está aqui
Porque eu sei que no instante seguinte isso será verdade
E eu tenho mêdo do que será de mim então.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

...

eu decidi tentar de novo



A gente devia parar de perder tempo
De se perder
De se perder um no outro, de se perder nos espelhos
De se perder nos desejos que são refletidos
A gente devia parar de se distrair
Se distrair com imagens de amor, de felicidade, de carinhos
Se distrair com reflexos, com metáforas, com a sintaxe
Com a forma das coisas, com a nossa forma
A gente não está aqui pra esquecer
E se a gente quiser a gente pode esquecer tudo
A gente devia parar de se deixar levar pelo nada-tudo das coisas
E procurar aquilo que viemos pegar em primeiro lugar

Você lembra? Muito tempo atrás?
Quando (...)
Quando nós fizemos aquelas promessas que nós nunca cumprimos?

Nós não íamos conquistar o mundo?

E entretanto, tudo se perdeu
No amor
No desejo
Até na amizade tudo se perdeu
Tudo são distrações, por mais que doces
A gente não veio aqui pra isso
Você sabe disso
A gente veio aqui para poder ir além
A gente se uniu para poder ir junto
O que a gente quer
É

A gente quer mais da vida
O que a gente quer é viver com todas as forças
O que a gente quer é não ter limites
Não se sentir limitado
É ir sempre além
Não é?

O que eu quero
É a libertação.

O que eu faço?

O que eu faço?

Eu ligo pra você, eu peço uma noite louca no capricho?

Eu fico em casa passando a vida a limpo?

Eu ligo e chamo prum programa em cima da hora, vamos aê, badalar a noite?

Eu vou ouvir?

Eu vou cantar?

Eu deito no sofá e me aqueço sob o cobertor?

Eu amo?

Eu mordo?

Eu vou te ouvir tocar, eu te chamo pra me distrair da minha própria vida?

Eu cedo?

Eu me encurralo?

Eu digo sim?

Eu digo que te amo e que vou ficar contigo pra sempre e esqueço de tudo o mais?

Eu continuo a ouvir essa música até saber todas as nuances de cor?

Eu faço a coisa certa?

Eu me pergunto o que é certo?

Eu ligo pra você e espero que o som da tua voz responda todas as minhas perguntas?

Eu digo não pra todas as melhores coisas com mêdo de perder uma delas?

Eu tomo uma decisão sem pensar?

Eu me pergunto o que eu quero?

Eu mudo de idéia e ligo pra outra pessoa não-relacionada?

Ou eu...

but I... I never felt so much alive than tonight... hurdled in the tranches, gazing on the battlefield...

Eu...

Eu queria que hoje tivesse sido um dia tão incrível quanto ontem, anteontem, domingo, sábado, sexta, quinta, quarta ou terça. Eu queria que estivesse tão claro pra mim agora quanto estava antes qual é o meu maior poder, a melhor força para conquistar o mundo.

Agora nada está claro.

Eu não fui cantar e eu queria cantar e eu cantei e ninguém me ouviu.

E eu discuti com meus pais e nada pareceu importante.

E agora eu não consigo decidir o que fazer da minha vida.

Há coisas que eu quero e coisas que eu não quero e não sei como equilibrar as coisas.

Será que...

Ai.

E se eu só fechasse os olhos e fizesse o que me desse mais vontade?

terça-feira, 11 de maio de 2010

O Livro das Decisões

Eu parei para pensar no que acabei de escrever, de como eu não estou sentindo mêdo. Mêdo foi quase tudo o que eu consegui sentir por três anos da minha vida, e de repente eu não sinto mais — ou pelo menos não é mais o mais importante.

Acho que parte da minha libertação vem de ter descoberto alguma espécie de ordem nas minhas paixões acadêmicas. Eu descobri que gosto de matemática e programação acima de todas as outras áreas, e que amo a linguagem, e que amo as histórias, e que logo depois vem biologia com certa ênfase em ecologia (que convenientemente é a parte mais matemática da biologia), e que adoro arte e design e me empolgo demais com educação, e que a química e a física (a única ciência de verdade, é claro) são fascinantes e essenciais mas já estão meio em segundo plano. Eu... eu me sinto insegura escrevendo isso, com receio de que seja puro arrebatamento, com mêdo de que ano que vem minhas novas prioridades desapareçam e que eu volte a desejar tudo o que eu não posso ter... Mas vou pular de cabeça nessa paixão, vou meter a cara e me perder nessa paixão, vou persegui-la até não poder mais enxergar.

Hoje tomei algumas decisões.

1. Em primeiro lugar, decidi que vou aprender a cantar, porque eu não quero nunca mais destruir uma música linda com minha voz desafinada.

2. Em segundo lugar, decidi que vou viver tudo o que eu tiver vontade e que esteja em meu poder — que vou viver loucamente e agarrar todas as coisas que eu sempre quis fazer e nunca fiz, e que não vou poupar minhas forças nem ter dó de mim.

3. Em terceiro lugar, que quero estudar intensamente enquanto eu agüentar, e porque tenho vontade de estudar computação até não ter mais nada pra aprender (lol) eu vou ir o mais fundo que eu puder na esperança de que eu nunca mais precise voltar pra pegar ar, e eu vou me arriscar a me afogar, porque eu sinto prazer na seriedade.

4. Em quarto lugar, que eu não vou ter mêdo de fazer o que me parece certo e que eu não vou tentar parecer nerd ou não-nerd de acordo com o grupo e que eu não vou me acovardar diante da burocracia e que eu vou perseguir o que eu quero porque é possível.

5. Em quinto lugar, que eu não vou ser tímida o suficiente para não perguntar o que meus amigos mais experientes podem me ensinar, mas que também vou ter sangue-frio o suficiente para ir caçar as respostas por mim mesma.

6. Em sexto lugar, que eu vou me tornar o que eu quero ser, e que eu vou viajar para Minas.

Meus alunos (lol) do design vieram me perguntar por que o programa não tava funcionando e eu me senti muito boba de não conseguir ajudar. Mas é que pra mim também não faz sentido.

Eu realmente preciso me esforçar mais para me tornar uma pessoa foda.

Good hunting all!

De me tornar quem eu devo ser

Aconteceram muitas coisas.

Têm acontecido muitas coisas e toda vez eu penso que tenho tanto a dizer que nunca conseguirei contar tudo. Estou tentando me ater ao essencial.

Hoje eu estava no banheiro da fau e parou do meu lado uma menina. Ela vestia um casaco muito parecido com aquele azul pesado que eu usei sempre que podia desde que o ganhei, em algum momento do meu ginásio, até o segundo colegial, e que continuei usando bastante embora menos até que o perdi no meu primeiro ano de faculdade. A maior parte das minha lembranças envolvendo esse casaco são de olhos e narizes molhando as mangas de choro, de vontade de se esconder, de mêdo de nunca ser ninguém, de só se sentir feliz com o vento da noite. E ela usava o mesmo cabelo escorrido de tão comprido que eu usava no primeiro colegial. Nossas semelhanças acabavam aí, mas as lembranças continuaram vindo, e ela parecia ter uns dezoito anos (ou até menos) e eu me olhei no espelho e me dei conta do quão dessemelhante eu estava daquela garota de cabelos compridos vestindo um enorme casaco azul sujo de lágrimas e coriza. Eu olhei nos meus olhos e vi confiança, e eu vi que eu conquistei uma parte muito grande de todas as coisas que eu almejava seis, sete anos atrás.

Às vezes quando eu vejo pessoas mais novas que eu eu penso se elas são um pouco como eu era quando tinha a idade delas. Não consigo ver a semelhança, e sempre me pergunto se é só porque nem as outras pessoas da minha idade pareciam tão perdidas quanto eu ou se é só que todos nós sabemos esconder bem demais o nosso sofrimento.

Naquela hora eu olhei no espelho e me dei conta de que eu nunca mais tinha mêdo de não ser uma pessoa bonita, que era um dos meus grandes mêdos. Eu estou me vestindo melhor, é claro, estou mais feminina, encontrei cortes de cabelo melhores etc. Naquela época eu tinha mêdo de nunca me adequar a uma situação, de sempre me destacar por não estar tão bonita ou não ser tão delicada quanto as outras meninas. Ainda não tenho a capacidade de me arrumar que por exemplo a Camilla tem. Mas não consigo mais usar maquiagem e me sinto bem com isso, com a certeza de que sou mais bonita sem. Com a certeza de que sou bonita. Com me olhar no espelho e de vez em quando (ok, bem de vez em quando) soltar um genuíno "nossa!". às vezes eu me sinto insegura em relação à minha aparência, e nessas horas eu páro, fecho os olhos e lembro de um homem. É simples assim. É impossível me sentir feia quando eu tive os olhos certos em cima de mim. É tudo de que preciso para poder ignorar as regras de beleza das mulheres.

E além disso eu não tenho mais tanto mêdo de não fazer os amigos certos. Eu aprendi a aceitar essas coisas, sim, e aprendi a valorizar muito mais os amigos que tenho, mas também aprendi a juntar a coragem de ir atrás das pessoas que me interessam, de querê-las intensamente e dar um jeito de me comunicar com elas. Também aprendi a ter a paciência verdadeira de um caçador, de esperar às vezes anos sem desanimar. Quando sua vida não está restrita a um espaço de três anos, tudo parece tão mais possível.

Eu também não tenho mais mêdo de nunca me tornar adulta. Acho que isso é porque eu sou adulta. Eu me considerei adulta quando tirei meu título de eleitor (apesar de eu nunca ter votado). Eu me tornei adulta e decidi pegar a vida nas mãos de verdade, e não apenas prometer que faria isso. Eu decidi buscar o melhor jeito de fazer as coisas e não deixar os outros decidirem por mim. E experimentar! E não ter mêdo de errar, e admitir que eu sou jovem e inexperiente, e que há muitas pessoas muitos menores que eu que podem me ensinar muitas coisas, mas para quem eu posso ensinar também, e que não há pessoa interessante com a qual não possa haver troca.

E eu me acho uma pessoa interessante! Mesmo quando tenho mêdo, de novo, eu lembro de umas conversas, e me reconforto ao saber que algumas pessoas realmente gostam não só de mim mas do que eu sou. E isso me permite ficar ao lado de pessoas assustadoras e passar por todo tipo de situação apavorante, porque eu sei que mesmo que eu não consiga conquistar a todos eu ainda tenho muito o que conquistar, e eu não preciso ter pressa, até porque, como bem disse o btco, se uma oportunidade é imperdível eu não preciso me preocupar em não perdê-la — e as pessoas certas virão, na hora certa. Mesmo quando eu perco algo, há tanto que eu ganho. Mesmo quando erro, tenho acertos do outro lado.

Então eu acho que é isso que é vencer, é isso que é ter coragem recompensada. Eu posso agora enxergar o mundo. Eu posso agora viver intensamente.

Eu nem preciso tanto mais viver pra sempre.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Obcessão

Eu guardo todas as lembranças de você com o meior cuidado, organizadas, sempre ao meu alcance. Não são só as lembranças das conversas, dos olhares, das vezes em que realmente estivemos juntos; são também lembranças de conversas com outras pessoas sobre você, e de coisas que eu pensei sobre você, e até mesmo as imagens de algumas pessoas parecidas com você. É incrível como mais gente se parece com você do que com qualquer outra pessoa. E ainda assim nenhuma delas é você, nenhuma delas causa em mim o mesmo que eu sinto em relação à você. Penso que talvez tudo o que eu sinto seja só porque pude apenas te provar, e talvez eu tenha o mesmo desejo de alguém que deu uma mordida pequena num doce perfeito que não podia comer. E como essa pessoa eu anseio por me fartar desse gosto, eu anseio pela sensação de encher a boca com o seu sabor.
Às vezes eu passo perto da sua casa e eu sempre tenho uma esperança fútil de que você esteja saindo ou chegando e que a gente possa se esbarrar. Eu até cheguei a te ver uma ou duas vezes, acho que você acenou pra mim uma vez, mas nenhuma vez, nem por um instante, eu enxerguei aquele você de verdade, aquele por-dentro que é o que eu quero saber, e saborear, de você. Acho que é tão fácil lembrar de cada palavra sua porque foram tão poucas e porque tão quase nunca eram verdadeiras. Se eu pude enxergar o seu mêdo, o seu vacilo, a sua coragem, eu ainda não consegui enxergar aquilo que faz de você o que é, que é o que eu quero. Por mais fundo que eu tenha olhado nos seus olhos você ainda não me mostrou o fundo deles, ou o que há por trás... E talvez eu também não tenha tido coragem de ir tão fundo.

Mas é que eu não esperava que nosso tempo fosse ser tão curto e atribulado, eu achei que um dia eu poderia te rever e que você estaria lá, mas você nunca esteve. Eu não esperava que mesmo que eu te visse outra vez eu nunca mais conseguisse enxergar você. Ou que só em um momento, fulgaz e maravilhoso, eu conseguisse sentir o que havia de coração em você — e que nesse momento o tempo tivesse acabado, e eu sequer pudesse te perguntar, Você pode sentir meu cheiro agora? Eu não esperava que fosse tão difícil. E agora, eu simplesmente não sei como sair disso.

Você é a presa que eu não posso desistir de caçar, você é o dragão impossível para a parte de mim que é Roder. Já se passaram tantos meses e eu ainda estremeço à mais fútil menção do seu nome. Mas o que estremece? É o desejo sempre forte que tenho que conhecer você? Ou é o segredo daquilo de você que eu já conheço, e que mal se combina com o que sempre se fala a seu respeito? Será que é simplesmente uma questão de intimidade, até uma certa possessividade? Porque você não é meu, e eu acho (ou temo) que nunca será meu, mas o que eu tenho de você é tão meu e tão forte que eu às vezes tenho mêdo de que mesmo se eu chegasse a conhecê-lo ainda assim eu não ficaria satisfeita. Mas será que o que eu vi nos seus olhos é mesmo tão distante do que você é? Será que o que tenho de você não é nem um pouco de você de verdade?

Quem é você?! A pergunta se agita como uma fera dentro de mim, a pergunta não ousa sair em público, mas cresce como uma onda que um dia vai quebrar e eu vou te assolar e te engolir e te levar pro fundo das minhas águas. Eu penso em você, mas não é só a fome, não é com olhos de lôba que eu penso em você, eu penso como uma criança que vê uma coisa muito muito bonita. Eu quero saber do que você é feito. Eu quero saber até onde você vai. E por que eu não consigo simplesmente assumir que você nunca fará parte da minha vida e me conformar com isso.

E um dia eu estava conversando com um amigo, eu estava juntando toda a minha coragem para explicar pra ele, para pedir ajuda, por favor, e ele riu de mim e eu encolhi como uma coisa que diminui nas sombras. Foram as palavras que ele usou, a forma como desprezou minha, minha... obcessão seria a palavra certa, se não soasse tão doente. Eu quero você, mas não como eu quero ter algumas coisas, eu não quero te ter. Eu quero desvendar você. Porque toda vez que eu ouço seu nome você me parece mais e mais interessante. Você é aquilo com o que sonho sem sonhar, aquele sabor desconhecido que eu anseio por provar. Eu quero provar sua alma. Eu quero mais que uma noite, uma aventura, eu quero realmente conhecer você. Eu quero me acostumar com você. Eu quero que você se acostume comigo, que você baixe a guarda. Eu quero cativar você, milímetro a milímetro, até você um dia ter vontade de me chamar pra fazer algo banal, como arrumar o quarto ou fazer bolinhos. Eu quero um dia saber que posso te chamar pra qualquer coisa, sem mêdo do que os outros podem pensar, sem mêdo do que você pode pensar. Isso não é uma coisa da qual se rir. É muito verdadeiro. O que eu vejo em você não é apenas a minha loucura. Você é de verdade.

domingo, 9 de maio de 2010

De escrever enquanto se ouve música

Estou um pouco frustrada porque eu comecei a escrever um dos textos que eu pretendia enviar para o Márcio e eu estava ouvindo Carmina Burana e virou algo completamente diferente. Talvez até tenha ficado melhor, mas ao mesmo tempo não era o que eu queria, eu Não queria que a música dominasse o texto e roubasse a cena. Estou um pouco desapontada. Eu queria compor uns sussurros, uns sorrisos e passeios, mas de fato acabei compondo uma épica, um discurso inflamado, um vôo de falcão em vez do vôo de passarinho que eu pretendia.

Preciso tomar mais cuidado com o que eu ouço enquanto escrevo. Por mais que eu me esforce, a música sempre acaba sendo tão ou provavelmente mais importante que o tema sobre o qual eu queria falar. Felizmente desta vez as duas coisas estavam relacionadas. Também acho que esse é o tipo de texto que eu Não deveria publicar levianamente, o tipo de texto que talvez fale de algumas coisas que deveriam ser segredos. Mas não tenho certeza. Não entendo muito de segredos.

Do som que sai dos teus lábios

(carmina burana)

Então eu abro os olhos e meus olhos se enchem de música. Aí está você: nesse som, nesse verde que enche meus olhos quando eu vejo a paz que me invade quando eu ouço esta melodia, estas vozes. Neste momento, eu te amo. Neste momento eu sou o que eu quero, um cavaleiro voando sobre os campos, nada me pára, nada me contém, há coisas que eu salto e há coisas sob as quais me abaixo, mas nada se interpõe à minha vista do céu, porque neste momento eu sou livre, e neste momento eu alcanço o que você quis me dar. Eu alço vôo e o mundo é realmente tão grande!, como você disse... Uma guerra uma poesia se desenrola debaixo de mim. E de repente há silêncio. Acabou uma música.
Você concordou que dizer eu-te-amo era muito complicado e eu tive que me explicar: o que estou dizendo é: (eu te amo é:)

É que você chegou a mim
E num instante você viveu em mim
E sem perceber você entendeu uma parte de mim
Você estendeu a mim a sua chama
Você alegrou meu coração e mudou minha vida
E agora...
E agora eu te dou um passe
Para que entre e saia livremente dessa terra
Um passe-livre por meu coração.

E agora é esta a paisagem dentro de mim: há tapetes vermelhos dentro de um castelo, uma fortaleza, que assoma no topo de uma encosta, eu eu sou o pássaro que circunda a torre mais alta, e eu sou o homem que entra com passos pesados na sala do trono. Tudo é um sonho e tudo se desfaz. A música muda e as faces dos homens mudam. Tudo é energia, um tambor que bate regendo o coração dos homens. E eu estou aqui, eu sou as paredes e os cascos dos navios, eu sou o couro dos tambores, eu estou aqui tentando sentir e entender, procurando a resposta, procurando através dessa música, procurando a lembrança do som que saiu dos teus lábios. Eu procuro (e eu sei que é em vão) o som da tua voz através das trombetas, o som da tua voz cantando pra mim, a lembrança de você olhando nos meus olhos. Tudo é tão suave, e tão pesado, e entretanto de repente eu sou uma pomba, eu vôo sem destino, meus olhos são lágrimas, minha boca é um gosto passado, eu sou um anjo perdido procurando a resposta, procurando o sentido do som que saiu dos teus lábios.

Quem eu sou? Você me pergunta e eu sou a sua pergunta. Mas agora não importa. Quando sair de mim, deixe aberta a porta -- há muito lá fora que eu quero convidar a entrar; há muito no mundo que eu quero habitar, mas que também quero que me habite. Eu devo ser a terra e o viajante (eu devo ser a estrada e o violeiro) e eu devo ser a fonte e o sedento, e eu quero ser bem boi como berrante. Me guia e eu te guio! Eu sou o céu e a estrela. Eu não ouço as palavras desta música, mas pra mim é como o céu cantando, eu ouço a voz dos astros e eu flutuo entre eles. E eu ouço a voz da vala das estrelas. E eu lembro da sua história, e eu tento imaginar a beleza -- como será acenderem-se as estrelas?

Então as estrelas disparam e o mundo vira uma torrente uma avalanche, eu páro no meio da música, olho ao redor, suspiro, respiro fundo e me pergunto: onde estou? Esta é a minha casa, hoje é dia das mães. Mas não significa nada. Minha alma não entende nada de casas e calendários. E eu não entendo nada de música. Eu sou um joguete nas mãos dessa melodia. Finalmente eu lembro da tua voz, a tua voz cantando, a tua voz dizendo declamando com tom grave a thousand kisses deep. Mas eu devo te ouvir, cada canção, cada palavra, e enxergar cada emoção que teu olhar transparece. Eu rio. Porque te leio tão fácil e mesmo assim desconheço. Quem você é? Eu pergunto e eu sou a minha pergunta. Mas só por muito pouco tempo. Num instante eu pisco como uma estrela e eu sou outra coisa, eu sou uma outra vida. Minha alma é uma coisa dispersa, um vento, uma torrente que se divide e volta a se unir. Eu rio, porque eu sou leve agora. Agora eu não posso te ouvir, mas sei o que você fala. Porque através dessa música é você que fala, e é você no meio do mundo de vozes que é o universo. Eu ouço tudo, mas muito pouco eu entendo. E como quero entender! Por isso continuo buscando, eu estou buscando a pergunta, e eu busco todas as coisas através das vozes de todas as bocas.

E como a tua boca me morde, eu enxergo no clarão da dor o grito de todas as coisas. A tua voz nem existe agora, só existe esse terror, esse rosnado. Meu coração dispara e meu sangue urra, no fogo do teu veneno e na explosão dum sors salutis -- e de repente minha alma é fogo, meu mundo é fera, meu sangue é fúria e eu devoro o mundo e nada mais é anjo nada mais é água nada mais é calmaria porque tudo é pura loucura! Eu me levanto contra o frio da noite eu sou o Sol, invicto e irremovível, iluminando e queimando as retinas de todas as coisas eu sou a Luz cuspida de teus lábios eu sou o teu sangue e meu peito cresce num rosnado-desejo que fagocita o mundo e num instante eu sou completamente um tudo demoníaco -- e então minha alma voa.



Do alto do vôo da minha alma eu estou ouvindo palmas, e isso quer dizer que a música acabou. Mas eu me sinto leve, a música me liberta, eu fecho os olhos e a noite me carrega para onde eu quero estar, onde a música é nectar, onde a tua voz existe dentro de mim, no ímpeto de um raio e na candura de uma vela. Eu abro os olhos e você está me olhando, mas já não são olhos de fera. Então eu abro os olhos e estou aqui novamente, e eu estou sozinha.

Eu apoio o rosto nas mãos, e meus olhos são lágrimas, e meu coração ressona e tudo é silêncio através dos pequenos barulhos do dia. Eu caio em mim. Eu olho para o céu, e eu estou buscando a pergunta que eu sei que não existe, e eu queria ser o ar para poder me encher desses sons que saem de todos os lábios.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Sobre outro assunto:

Eu... meu, eu sinto que estou começando a economizar temas bons pra poder escrever. Isso me deixa muito confusa. Não sei bem o que estou fazendo.

Uma coisa que eu preciso dizer:

A gente devia parar de perder tempo
De se perder
De se perder um no outro, de se perder nos espelhos
De se perder nos desejos que são refletidos
A gente devia parar de se distrair
Se distrair com imagens de amor, de felicidade, de carinhos
Se distrair com reflexos, com metáforas, com a sintaxe
Com a forma das coisas, com a nossa forma
A gente não está aqui pra esquecer
E se a gente quiser a gente pode esquecer tudo
A gente devia parar de se deixar levar pelo nada-tudo das coisas
E procurar aquilo que viemos pegar em primeiro lugar

Você lembra? Muito tempo atrás?
Quando (...) ?

Droga, cheguei num ponto da coisa em que eu não tenho coragem de publicar.
Mal aí pela broxada súbita.

Até.

Hoje

Hoje saindo da usp eu passei na frente da Praça e percebi que eu não queria ir embora. Não tem nada pra mim em casa, tem tudo aqui. Estas flores, e árvores, e tudo o mais. Não, tem essa liberdade. Aqui. Então eu engoli isso tudo e quando cheguei na marginal tinha um puta trânsito, mas desta vez eu achei o rádio e pus uma música alta e abri os vidros e tudo parecia bem. Hoje o Adilson me ensinou coisas na saída da provinha, pediu pros alunos corrigirem alguns erros, e ele parecia tão feliz de não estar apenas avaliando mas também aproveitando pra ensinar! E hoje eu voltei pra casa cantando e cheguei em casa e pus pra tocar aquele cd da Pink e tudo parecia tão alegre! E eu li umas piadas de placas na internet e eu vi meus gatos se espreguiçando no sol, e eu escrevi sobre Minas, e eu li coisas muito lindas, e eu pensei como tem dias em que tudo parece estar no lugar certo, mesmo que a sua vida esteja ficando totalmente louca e seus amigos estejam cheios de problemas e você tenha batido o carro ontem e ainda tenha que ir ao cursinho pra ficar lendo o Silmarilion enquanto uns palhaços te ajudam a decorar umas fórmulas.

Eu estou feliz =)

Ou isso ou ainda estou sob influência do bom humor do Poru ontem ^^

Dormir entre pedras e um monte de coisas

Então eu pensei: quero ir pra Minas,
mas não quero ir com você.

Não quero ir com você nem com ninguém.
Não, porque quando eu for a Minas eu não vou estar procurando amor,
nem alegria
nem viagem nem liberdade
(nem liberdade!)
eu vou estar procurando outra coisa
que é um pedaço de mim que eu deixei lá muito tempo atrás

Se eu for a Minas, eu encontrarei meus dentes? Eu encontrarei meus pés que se distraíram e quiseram andar sozinhos por todas as infinitas colinas até o horizonte?
Se eu for a Minas, eu encontrarei meus olhos que não conseguiram parar de olhar? Meus pulmões que se inflaram com o ar e flutuaram pra sempre, como fogos-fátuos?

E quero ir e eu quero ter meus sapatos de andar e andar.

Eu queria ir sozinha, para atravessar o deserto de mim e encontrar a essência da solidão debaixo do sol e entre as árvores. Eu queria ir e pegar uma insolação, e me jogar na água de um córrego pra me ser água, pra me fundir com a água. E no final da noite, logo antes do amanhecer, eu estaria dormindo aninhada entre pedras que nascem do solo. Eu queria ir... pra me perder. Pra me perder completamente, todas as referências. Se fosse pra voltar, eu cairia de novo na estrada. Mas não. Eu queria ir e reaprender a falar, e falar as sete línguas dos pássaros. E a pedra e o buriti, que só os mineiros sabem. Eu iria e me tornaria outra, mas me tornaria eu. Eu fecharia os olhos para ver melhor. Eu abriria os olhos para absorver tudo o que existisse.

Minha alma não cabe dentro de ti, não com tua alma já lá. Mas minha alma... minha alma por essas colinas que eu nunca mais vi, por essas pedras que nascem do chão, por essas florestas! Minha alma não cabe dentro de mim também! Mesmo que eu não tenha outra alma! Minha alma se derrete e derrama pelos campos, minha alma voa e envolve-devora as vacas e os animais que vivem ali. Minha alma vira uma preá e corre dentro de si, minha alma vira um jacaré e descansa na sua própria margem, e minha alma é um rio para poder correr por cima e por baixo da terra, e minha alma é pedra, é ouro, é quartzo é serpente e minha alma cresce e de repente é o mundo e uma ave gigante passando com garras sobre nós.

Mas tudo isso é um sonho porque eu estou sozinha.
E tudo isso é um sonho porque eu não estou sozinha.

Então eu quero ir pra Minas, então eu vou como tiver de ser, e se tiver de ser com você, será, e se tiver que ser de outro jeito, pode ser também. Mas eu quero parar para subir nas árvores e eu quero esquecer da própria viagem. E não chegar a lugar algum, e me surpreender com haver lá pessoas. Eu não vou ser eu lá, eu vou ser uma turista, sentindo o cheiro da terra e tentando se reconhecer. Eu vou botar a terra na boca e perguntar se tem gosto de mim. E eu vou andar devagar, e te mostrar exatamente porque cada passo vai me fazer morrer, e cada toque vai me renascer.

Mas toda vez que eu puder, eu vou te deixar. Se você puder ficar só. E eu vou andar e andar e você nem vai existir. Porque você pode me guiar por uma estrada, mas você não pode me perder por ela. E eu, quando eu vir o que eu vejo, eu irei... E voltarei depois, falando de coisas que você entende-não-entende: falando de árvores, de montanhas, da Perdição, do Vorácito! E encherei você de todas as coisas que são eu-mundo, que são eu e que são o mundo e você ficará me olhando, sem entender e entendendo, sem me conhecer e conhecendo, e sem saber exatamente o que eu sou e onde termina e começa o que é o tudo.

Eu vou ser isso.

E nós vamos saber, com uma troca de olhares, se isso foi certo.

terça-feira, 4 de maio de 2010

Paragens Internas - resumo dos capítulos anteriores - o primeiro dia e a primeira noite

Isto aqui costumava ser uma grande floresta. Ia até onde a vista alcança e mais além. Esta parte juntava com aqueles bosques escuros ali distantes, e do outro lado corria até mergulhar no que agora são charcos, perto do desfiladeiro. E antes disso havia uma grande planície, uma campina sempre verde e viva dos quais poucos ainda se lembram bem. Eu mesmo nasci nos últimos dias daquela campina, no último verão glorioso antes de tudo se transformar. Mas daquele tempo eu me lembro que era inteiramente habitado pelo ruflar das asas de infinitos pássaros, e que tudo era cheio de luz. Tudo era tão vivo! O campo se cobria de flores diferentes a cada estação, e eram de todas as cores e atraíam todos os bichos. Este lugar era como um jardim imenso que se estendia do Mar do Oeste até os confins do infinito do outro lado, e era habitado por espíritos livres que mudavam de forma e viajavam em infindas brincadeiras. Naquela era o Tempo não existia, e os espíritos que nasciam logo amadureciam e voltavam a ser crianças, apenas pelo prazer da mudança. Tudo o que vivia aqui era dotado de asas, embora alguns optassem por viver nas águas e outros preferissem correr sob ou sobre a terra.
Então veio a Grande Morte, quando um tremor abalou a terra e os mares recuaram, inundando toda a parte de trás do mundo, onde viviam as coisas mais selvagens. E aqui, a terra secou e endureceu, e todos os seres morreram ou fugiram para aguardar debaixo da proteção das montanhas. O Sol estancou no céu, e a Lua ficou parada a iluminar o lado de trás do mundo; e foi aí também que o Tempo começou. E por um tempo infinito vivemos na sombra e esperamos sem que nada mudasse além das nossas formas, pois enquanto esperamos nossas asas se despedaçaram em dor e e nossos dedos se transformaram em garras, e não podíamos mais tocar músicas alegres, apenas entoar lamentos sem palavras. Lá fora, não havia nenhum vento sobre a terra ressecada, e o único movimento era o de um tímido rio vermelho que escorria lentamente na superfície da terra, nascido dentro de uma montanha e que desaguava no Mundo de Fora através da saída do Poço. Então, quando o mêdo da morte começava a se apoderar de nós, entrou no mundo um espírito sem idade, o único herói verdadeiro de nossa história, a quem chamamos Rin, que na língüa de então significava fio, como o de uma lâmina, mas que também quer dizer aquele que é, ou o que pertence. E Rin também foi chamado de o Salvador. e de Espírito-Criança, mas o nome pelo qual todos os que vieram depois se lembram dele é Rin Rad, pois Rad significa tigre e era pelos tigres, de todas as criaturas que vieram depois, que Rin tinha maior respeito. E assim que chegou ao mundo Rin desceu aos os mais profundos subterrâneos e também andou até os mais distantes mares, e neles nadou e conheceu as coisas selvagens, mas logo voltou, porque no mar não havia dor, e Rin não podia abandonar a dor da terra assolada pela Grande Morte. Munido desse amor pela alegria das coisas, e da água do mar onde se banhara, Rin Rad subiu o Rio de Sangue até a sua nascente, e ali, de alguma forma que ainda não conhecemos, nosso herói transformou todo o sangue em lágrimas, e deu às lágrimas o poder de criar e curar, e fez a água correr para que tudo o que houvesse no mundo se enchesse de vida.
Então o sol se desprendeu no Céu e conseguiu finalmente concluir seu longo crespúsculo. O período que se seguiu foi chamado por nós de A Grande Noite. A terra toda se cobriu de plantas que cresceram selvagenmente em uma enorme floresta, e todas as criaturas que andam e correm saíram de seus esconderijos para habitá-la. E como a vida da floresta viesse da água do mar que Rin colhera, as coisas que nasceram ali eram ferozes como os habitantes de Atrás. Naquele tempo não haviam estrelas, então, para que tivéssemos alguma luz, Rin Rad plantou suas próprias sementes no solo à margem do Rio de Sangue, e ali cresceram árvores cujos frutos eram gemas luminosas de todos os matizes. O mundo se enchera de alegria pela libertação da terra, mas as criaturas que o habitavam não possuíam mais asas e viviam mudando entre formas sombrias, mesmo que coloridas, que rastejavam e se enroscavam ao redor das árvores das luzes, já que somente elas tinham algo da delicadeza e da vivacidade que existiam no mundo antes da Grande Morte. Então Rin Rad cantou para a terra e a terra respondeu ao seu canto e criou os Caçadores, que nasceram para ser os habitantes de direito da nova floresta, e entre estes Rin chamou os Tigres, os Lobos, os Ursos e as Panteras e entregou a cada família um fruto de uma das árvores, e mandou que eles se espalhassem e dividissem as terras como lhes aprazisse, e que protegessem suas gemas e cuidassem para que elas não perdessem o brilho. Assim as luzes se espalharam e espalharam sua magia por todas as partes, e os seres que mudavam de forma se espalharam atrás delas, e muitos deles se disfarçaram de caçadores para permanecerem próximos a um fruto, e muitos outros se transformaram em animais pequenos para que pudessem se infiltrar nas tocas dos caçadores, mas nenhum deles jamais teve um fruto em seu poder, e por isso seu pesar pela perda da luz de antes nunca arrefeceu.
E com o tempo os habitantes do mundo se acostumaram com a nova floresta, e muitos deles começaram a se colorir com as cores das gemas das árvores e a criar novas formas, e afinal um grupo deles decidiu tomar uma área nos limites da floresta e transformá-la numa grande campina, onde os espíritos antigos criaram novas formas, baseadas nas formas que usavam antes da Grande Morte, mas voltadas para o brilho colorido que emanava da floresta, em lugar do sol. E, vendo as dificuldades dos espíritos da campina, a Leoa pediu a Rin uma de suas pedras, e Rin fez uma árvore nova, que dava frutos brancos e mais brilhantes que os outros, e a Leoa levou seus frutos para a campina e alí criou seu território, onde sempre havia tranqüilidade e paz. E nesse campina também ressurgiram a Queni e a Quemi, os Pássaros de Fogo e de Cor, que decidiram voltar para a floresta quando tiveram suficiente confiança em suas asas, e então ajudaram a nascer novas aves entre os Caçadores, das quais as primeiras foram a Coruja e o Gavião. E assim a Floresta cresceu e ganhou forma e vida, e seus habitantes se multiplicaram e se transformaram para ficarem mais graciosos e mais ferozes, e se aprimoraram caçando e guerreando mas também cantando à margem do Rio de Sangue em homenagem a Rin Rad e às luzes das árvores. Eles também cantavam ocasionalmente em nome da Senhora, que partira durante a Grande Morte e que desde então não fora vista, e conta-se que foi de tanto eles chamarem seu nome que em dado momento ela retornou.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Me ouve:

Eu queria saber por que eu falo tão pouco com você. Quer dizer, eu falo muito, eu falo até mais do que com muita gente, eu discuto coisas que só com você, mas às vezes eu sinto que você confia em mim e eu não mereço, que você confia em mim e eu não consigo confiar assim em você, eu queria saber o que é que faz isso, ou talvez eu esteja enganada e você também esteja escondendo muita coisa de mim, mas eu sei, eu ainda sei, eu me limito pra não precisar revelar, você revela pra não precisar se limitar, eu sempre acho que você está certa e eu estou errada.

Eu te amo, eu queria dizer, e eu confiaria a minha vida a você, mas será que você saberia o que fazer com ela? É o que eu pergunto. Por que eu não posso simplesmente ir até você e contar tudo, me abrir — você entenderia, ou pelo menos acho que você entenderia que mesmo quando eu estivesse errada não seria sem um bom motivo. Eu me pergunto por que eu não posso contar a ninguém, por que dói, por que eu me sinto tão sozinha quando estou tentando viver a vida normalmente e nada no meu universo parece se encaixar tão bem quanto você faz parecer.

E eu sei que você é tão frágil quanto eu, mas você não é tão selvagem, você não deve estar tão fora do mundo quanto eu me sinto agora, quando tudo gira, você pelo menos tem o seu trabalho, você parece ter alguma mínima idéia; eu não sei, eu sei o que eu estou fazendo, mas eu não sei mais por que, eu não sei por que eu não me atiro contra as coisas, eu quero ser uma força da natureza, eu quero ter aquele tipo de poder que faz com que você veja as coisas, mas no momento eu não tenho nada, só essa vontade louca, e uma necessidade absurda de pedir ajuda, mas eu nem sei, eu nunca soube por onde começar. E por que eu não consigo ir até você e te pedir ajuda? Por que eu não consigo simplesmente me abrir e chorar e gritar e pedir por favor pra me mostrar aonde eu estou fazendo certo?

Eu não sei, eu acho — hoje quando veio aquela história da mancha de óleo no golfo do México eu entrei num desespêro tão grande que eu quis explodir, e depois uma impotência tão grande que eu quis me esconder, e eu acho que você entende, eu quero acreditar que você entende porque às vezes eu me encolho e fico muda e não consigo falar nada, porque às vezes eu danço sozinha, porque às vezes eu durmo pra não ter que pensar e depois eu acho muito difícil acordar porque parece que a minha vida é só uma coisinha insignificante num mundo onde coisas horríveis acontecem. E tem dias, como hoje, em que eu estou só tentando esquecer, tentando me distrair, porque hoje eu não tenho aquelas pessoas (aqueles) que fazem todas as coisas nas quais eu em geral penso parecerem menos avassaladoras, e hoje eu só consegui pensar que talvez eu seja dependente de estar encantada por uma pá de gentes e quando nenhuma dessas gentes está na cidade por mais que eu esteja com gente que eu amo muito e que eu adoro todas as coisas difíceis se tornam mais difíceis e todas as coisas fáceis parecem meio difíceis também.

E eu penso por que eu não disse isso, por que eu só me encolhi e fui escrever e resolvi dormir (dormir pra esquecer) por que quando eu estava bebendo eu estava pensando quem sabe se eu beber, eu estava pensando em ficar um pouco menos consciente, enquanto a gente discutia casamento eu ria porque eu por um lado estava feliz por outro lado não havia nada, havia um nada, um vazio imenso, uma quantidade muito grande de mêdos entre eu e você.

Eu não sei como começar; eu deveria falar antes das coisas que eu amo, de Minas, das Árvores, do sol, do Mar, do vôo da coruja, das capivaras e preás, do vento quando eu abro os braços descendo uma ladeira de bicicleta, do vento no rosto quando eu estou no topo do mundo, do vento antes da tempestade, das Pedras que são o mais próximo que eu fui de Deus, do vento que infla as velas, de andar de moto, do cheiro dos pêlos dos gatos, dos olhos dos cavalos e das cabras, do pôr do sol, de Minas, da minha alma? E será que daí devo passar ao que me apavora, às mortes aos milhares de criaturas diversas, da devastação, da possibilidade de um dia não haverem mais árvores centenárias? Eu não sei se vocês entendem, como eu sei que você entende, o que eu senti hoje de manhã quando falamos sobre o petróleo, o que eu sinto toda vez quando eu vejo um pequeno pássaro ferido. Não é tanto a dor da dor do pássaro, que já é imensa, é também a dor de saber que não posso fazer nada, que ele vai morrer e eu não sei sequer o seu nome, o que ele come, onde ele vive. Aliás, o que eu senti quando eu vi Avatar e eu vi aquela árvore Father Tree desabando e eu me encolhi na poltrona; eu não queria ver aquilo, eu não queria sentir aquilo, aquela dor sem tamanho, não importa se é ficção, eu sou dessas pessoas que choram; aliás, eu acho que é isso, essa dor avassaladora que eu sinto quando eu sou o Barbárvore e eu vejo a planície desolada e o único som que pode descrever a minha dor é o urro assolado de dentro do meu corpo de árvore, é o urro assolado da ira de todas as florestas do mundo — eu sou aquele urro. "Tudo tem seu valor, e cada um contribui para o valor dos outros. Mas os kelvar podem fugir ou se defender, ao passo que os olvar que crescem, não. E, entre estes, prezo mais as árvores.

Às vezes eu acho que daqui a cinqüenta anos eu ainda vou estar me perguntando porque eu não fui estudar bichinhos e plantinhas. E às vezes eu odeio esse pensamento.

A pergunta mais importante é se tudo o que temos em comum (inclusive essa dor das coisas que temos em comum) é base suficiente pra eu conseguir te explicar as minhas outras dores. Te explicar o meu nervoso e aquelas coisas que eu só falo aos pedaços para alguns poucos homens com quem minha alma por acaso se encontra. Aquelas coisas sobre as quais eu não vou falar, porque é fácil falar de árvores mas não é fácil falar daquelas coisas que não têm tanto a ver com árvores. Aquelas coisas que...

Mas não. Não, chega!

quinta-feira, 29 de abril de 2010

A Day in The Life

Acordo em algum momento entre as seis e as dez, corro pra aula, saio da aula e vou programar, paro pro almoço e volto a programar, faço uma pausa as seis da tarde quando meu corpo doi, volto pra sala da rede, minha vida e isso, penso em voce, canto uma musica, sinto fome, estou sozinha, estou contigo, estou buscando alguma coisa alem, estou pensando, estou lendo.

terça-feira, 27 de abril de 2010

Eu quero.

Eu quero dizer alguma coisa.

Não sei bem o quê.

Que eu me arrependo dos meus erros?

Que eu não aguentaria o tranco de um curso realmente fodido?

Que eu me sinto indigna de todas as esperanças que eu tive pra mim mesma?

Que eu sinto raiva dos meus erros idiotas do passado?

Não.

Nada disso expressa.

Eu queria é merecer a sua amizade.

Chamar a sua atenção.

Eu queria saber quem você é, sabe?

Às vezes acontece de a gente se sentir muito mal com algo que a gente fez no passado porque nossa visão de mundo muda.

Eu queria ter prestado mais atenção em algumas pessoas.

Você tem algo dentro de você, algo que me chama a atenção.

Eu queria chegar mais perto e olhar o que é.

Eu queria saber no que você pensa quando ninguém está te julgando.

Acho que eu devia estar fazendo EP agora também.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Poema de Amor para o Meu Melhor Amigo.

Eu nunca escrevi um poema de amor para o Diogo. Isso sempre me incomodou um pouco. Eu escrevi tantos quatorze mil poemas para Yuri, Artur, Charles, Carlos, Miguel, Pedro, Bruno, Luís, Gabi, Bia, Victor, outro Bruno, Camilla, Ana, e provavelmente outros dos quais eu não me lembro... (pensando bem, eu nunca escrevi um poema pro Ugo também).

Eu escrevo sempre tanto, mas o Diogo só esteve em dois poemas meus: um sobre os sonhos (o sonho que eu tive com ele foi o mais direto, o "como a realidade") e um... um que eu escrevi quando eu não queria namorar de jeito nenhum, mas cara, como ele me atraía, à revelia das minhas decisões... O poema é estúpido demais pra postar aqui, neste contesto, mas o refrão dele era "You're just another man".

Então... eu me esforcei pra caramba e consegui escrever isso aqui:

Eu, que derivo por sobre águas fulvas
Me distraindo com lembranças turvas
Retorno à vida ao percorrer tuas curvas
Que a tua pele é qual tirar as luvas

E ao te tocar, eu encontro teus calos
Devo feri-los ou devo poupá-lo?
Verei o fogo atrás desse anteparo
Se eu te tocar, arrancarei o halo?

Isso não parece ser para o Diogo, apesar de eu saber que essa foi a minha idéia original. Eu não sei no que estava pensando quando escrevi isso... (tá, mentira, é óbvio no que eu estava pensando)... Mas eu vou fingir que isso não importa. Eu vou fingir que tudo bem, e terminar o poema, quase um ano depois. Assim:

Mas há tanta ternura em teu sorriso
Que quando eu ouço o timbre do teu riso
Não posso mais conter minha loucura:

De te agarrar com um abraço forte
E devagar, numa pequena morte
Dilacerar-te na fome que cura

...

É isso.
Acho que não é muito sutil, né?
Estou um pouco embaraçada, então vou deixá-los a sós e... Bom, é isso, eu vou embora.

Coisas que eu absolutamente não entendo

Este é um post sobre coisas que estào erradas. Coisas com as quais eu discordo. Eu estou querendo falar isto há muito tempo.

Garotas que querem "dar"

Em primeiro lugar, eu tenho que dizer que eu não entendo gente que diz que quer dar pra alguém. Eu entendo falar que quer transar, que quer comer, que quer pegar; até que quer fuder. Mas DAR? Dar o quê, aliás? Toda vez que alguém diz isso, fica parecendo que você considera seu corpo um bem material, um objeto que você oferece e espera que o cara aceite. O pior é quando uma mina diz "eu daria pra ele". Sério mesmo? Você não acha que fica parecendo que você está ali com a buceta nas mãos esperando que o cara te note e venha te provar como num buffet? Você não se sente uma coisa de se comer quando você diz isso? Você não acha que você está só se oferecendo, enquanto deixa para o cara a função de escolher que garota ele acha mais apetitosa? Quando você diz que quer dar pra alguém, você está dizendo que quer se oferecer para o prazer daquela pessoa.
Mas pô, gente, sexo não é sobre ficar se vendendo para que a pessoa de quem você gosta (não estou nem falando de amor) sinta prazer. Sexo não é sobre alcançar o preço mais alto no leilão dos corpos. Sexo é o tipo de coisa que só faz sentido quando se conquista junto. É o tipo de prazer que vem do devorar mútuo, do querer engolir o outro por todas as partes do corpo. Como alguém pode querer ser passivo, ser comido?
Abstratamente eu até vejo uma explicação, mas não consigo entender de verdade qual o sentido de se comprazer em se submeter a outra pessoa, de se permitir ser usado; como isso pode ser bom?

Aliás, antes que a discussão comece, quero acrescentar que eu percebo que minha revolta não se estende muito convictamente ao mesmo comportamento por parte dos homens gays. Eu me pergunto se é só o meu feminismo que não me permite aceitar a mulher submissa, enquanto o homem submisso ainda me parece suficientemente viril. Aliás um homem que quer ser dominado ainda é só um homem; uma mulher que quer ser domada me parece menos que uma mulher. Como eu detesto meus preconceitos! Como me causa nojo tudo o que eu penso sobre as diferenças entre os sexos no sexo! Preciso me livrar disso, mas não sei como. Me ajudam?

Mas não quero me livrar da minha repulsa inicial: não acho que as pessoas deveriam ficar se dando por aí como num buffet.

Namoros cheios de ciúmes

A segunda coisa que eu não entendo é esse negócio de namoro. Eu já fiz parte de alguns e mesmo assim não entendi. No final do meu segundo namoro eu tinha chegado à conclusão de que não queria mais namorar. Puta trampo isso de ficar se sacrificando, se contendo, tentando agradar, se submetendo aos prazeres do seu amor. Amor não deveria ser uma aventura a dois? Não deveria ser uma coisa espontânea, que debocha das convenções?

No final do meu segundo namoro eu queria passar uns quatro anos sem namorar porque já tinha passado quase cinco anos tentando administrar esse negócio de gostar de vários caras e só poder ficar com um (aliás não só caras). Eu tinha namorado quase sem pausa pelos quase quatro anos antes e eu entendia muito bem como aquilo funcionava: como namoro era bom, como era bom confiar, como era bom ter ele só pra mim, como na verdade ele nunca era só pra mim, como eu queria outras coisas, mas evitava chegar perto da tentação pra não me queimar demais e acabar cedendo, como a culpa me dilacerava mesmo eu sendo plenamente fiel (por fora), como perto nunca era perto demais mas freqüentemente longe também não era longe demais. Como era incrivelmente doloroso tudo isso, ficar atando o amor a essas coisas tão desnecessárias! Por que a opção não podia ser minha?! Por que a opção de ser fiel não era inteiramente minha?

Quanta coisa a gente faz por mêdo quando ama alguém e acha que tem que seguir um monte de regras só por causa disso. Não entendo esse namoro baseado em regras que supõe-se proteger o amor mas no fundo só o acorrentam. Prefiro esse namoro mais descansado que tenho com o Di: esse que tem poucas regras, na verdade só uma: de ser sincero, de confiar, de falar tudo e de, se um dia não der mais, avisar antes. Nunca trair, não com o coração. Não ter mêdo. É tão fácil não ter ciúmes. É só confiar em si mesmo. Por tanto tempo eu me condenei por nunca conseguir dar aos homens que eu amo a confiança de eu realmente os amo mais que tudo, mas: às vezes é só uma questão de você ser meu melhor amigo. Abra os braços, eu vou te dar tudo o que eu tenho. Eu vou te dar todo o meu coração, mas escuta, não tem só você dentro dele. Eu amo demais. Não patològicamente demais, mas com certeza demais para as suas ridículas convenções sociais, seus mêdos. E distraidamente demais. Hoje (hoje agora) eu não tenho nenhuma culpa, pelo menos não em relação a meu namorado.

Teve um dia (é importante citar) que eu estava num banco com vários amigos e um cara de quem eu gostava demais, desses que fazem seu coração derreter completamente. E eu estava conversando com ele, derretida, e o Diogo chegou e... Olha, naquela semana eu queria nem mais estar com ele, eu achava que tinha passado, que era só uma pequena paixão, mas quando eu o vi, eu entendi tudo, eu pulei para os braços dele e olhei de volta para o cara, mirei "desculpa", naquele dia eu entendi o que eu estava fazendo, o que eu podia ser se eu conseguisse olhar para o lado certo. Eu abracei o Diogo e eu poderia afogá-lo de amor, e eu entendi quão maravilhoso é não ter regras, não ter culpa, saber que eu não ia me distrair e deixar ele de lado porque cada segundo que eu passasse com outro cara ia ser um segundo a menos pra passar com ele, e eu queria todos os meus segundos. Eu sabia que ia ter tempo e que eventualmente eu ia estar numa festa ou numa viagem e que eu ia querer outras coisas, e que talvez acontecesse um dia de eu querer passar uns dias longe dele, mas eu soube naquela hora, com uma alegria que quase me afogou, que dali em diante a minha felicidade era responsabilidade minha, e que eu podia não ter que me obrigar a nada: porque se eu não tivesse mêdo, ele também não teria, e cada segundo em que a gente estivesse separado seria pra viver algo que nos tornaria maiores depois. Eu nunca tinha sentido tanta liberdade, tanta responsabilidade. Eu nunca achei que eu ia me sentir plenamente feliz por me conter, por sacrificar algumas opções boas. Simplesmente saber que os meus motivos para isso não eram idiotas foi... UAU!

Sabe, neste blog eu estou sempre convidando vocês a olharem o mundo pelos meus olhos. Então agora vejam isto:

E se não existissem regras, e todas as decisões certas que você tomou fossem plenamente de sua responsabilidade? E se não houvesse uma burocracia pra você xingar, e toda vez que você cometesse um erro você pudesse se prometer acertar da próxima vez?
É assim que eu me sinto com ele. Eu me sinto feliz, e absolutamente confortável, e quando eu venho confessar alguma coisa pra ele, não é porque eu estou tentando ser fiel, mas porque ele é o meu melhor amigo.

sábado, 24 de abril de 2010

Uma Puta Semana Dahora

Se eu olhar com olhos otimistas, foi sim. Pra começar o fim de semana foi incrível! Eu não sentia tanto prazer em wakear fazia muito tempo! E eu rio pra caramba com Friends tb. E é bastante tranqüilo passar um fim de semana em Ibiúna com o Ugo. Até conseguimos encontrar algumas explicações pra gente se dar tão bem. Uma ou duas, talvez não o suficiente.

Depois eu realmente me diverti domingo. Não sabia que tv de madrugada podia ser tão divertido. Eu teria ficado louca sem aquilo. E... Bem, há tanta coisa pra se dizer. Mas eu quero falar só das melhores coisas!

Eu consegui a matrícula em Estrutura de Dados, e, embora eu tenha perdido uma prova dessa matéria, isso me faz instensamente feliz. Não é possível que eu não consiga fazer esses tipo 12 créditos a que me propus. Eu vou dar um jeito. Eu estou mais confiante do que nunca estive.

E já falei de como a festa da Ixa foi o máximo?! A cara dela quando a gente pulou e gritou "Surpresa! Jogo! Êêêê!" Hahahahaha! Conversamos sobre mil coisas e foi tudo muito divertido, eu não me lembrava de como aquele grupo de pessoas podia ser legal (técnicamente, foi a primeira vez que aquela configuração específica de pessoas se reuniu). Eu só queria ter estado com menos sono.

Teve um momento nessa festa em que eu olhei ao redor e percebi o quão intensamente eu amava aquelas pessoas. Não como quando eu me apaixonei por cada uma delas, quando eu passava o dia pensando nelas e pensando em formas de nos aproximarmos. Dessa vez foi aquele amor que só deseja o bem ao próximo, que deseja que possamos rir juntos mais vezes. Eu queria sentir isso por todo mundo. Pra mim é isso que é ter um amigo.

Então eu fui até a Ixa e a abracei. Eu precisava que ela soubesse que eu gosto dela de verdade de verdade. Que eu queria que ela sentisse de verdade o quanto a gente queria dar de aniversário pra ela a felicidade de ter bons amigos.

Mesmo que semana retrasada eu quisesse xingar e dizer porra larga do meu pé, eu quero sair com outras pessoas de vez em quando, quando eu escolho encontrar essas pessoas eu escolho de verdade. Eu me diverti infinito.

Quinta teve muita coisa boa, eu estava já me sentindo bem pior mas consegui notícias boas que me fizeram pular de alegria, resolvi uns problemas que estavam consumindo toda a minha energia, e além disso o almoço com o Tássio foi legal — eu sempre me surpreendo com as coisas que temos em comum, e as diferenças gritantes do outro lado.

Ele me lembrou de uma outra alegria de escrever: essa que as palavras nos dão quando escolhem trabalhar com a gente para criar algo bonito. Eu lembrei de como eu queria escrever livros infantis e livros de poemas para celebrar a beleza das palavras.

Havia uma árvore incrível em cima de mim.

Também foi um dia de mudança e descoberta.

Finalmente, assistimos Dr. Horrible SingAlong Blog e demos umas risadas. A aula de Estatística, com meu professor gaúcho fantástico, não foi nada ruim também.

— Fatorial de menos-um é que nem gaúcho viado: não existe! Agora deixa eu pegar esse rosa macho... Não é qualquer rosa, não... pra escrever a conclusão...

E outra coisa também: estou começando a me entender com a minha Lôba. Por enquanto só o que consigo é alternar uma agressividade intensa com uma calma quanse depressiva, mas em um ou outro momento eu consigo algo mais... Algo como a Criadora.

Preciso me estender mais nesse assunto.
Quem sabe em outro post.

Dormir ou escrever?

Eu quero desabafar, eu acho.

Mas desabafar o quê?

Não estou sofrendo de amor, não estou brigando com ninguém.

Eu sei lá.

Eu queria estar lá fora, bebendo num bar com uns amigos, mas não.

Eu não poderia movimentar tantas peças pra depois ficar me contorcendo num canto, me sentindo enjoada e cansada.

Não sei como não bati o carro (aliás acho que quase bati o carro).

Não sei como me deixaram dirigir.

Olho pras coisas e não entendo nada.

Se pá a vida passa muito depressa e eu me distraio com uma borboleta e quando me dou conta perdi o fio da meada.

Estranho como a vida passa depressa e toda vez que algo novo acontece eu sinto como se cada vez menos fosse a minha vida.

Mas de que me importa de quem é esta vida? Eu estou vivendo, as coisas acontecem, as coisas mudam, é só isso.

Pequenas chaves estão mudando do impossível para o possível, com freqüência.

Algumas coisas mudam de importância.

Qual será a próxima surpresa?

Às vezes eu me surpreendo tanto com uma coisa que acontece que não consigo lembrar direito do que aconteceu a menos que eu pare pra pensar.

A sensação é essa: se isso não aconteceu, então como eu posso ter essas lembranças?

Ou então (depois de um tempo) aquilo vira tão natural que tudo o que acontecia antes parece bizarro.

Você se lembra de mamãe vestindo suas meias? Eu sim. Eu lembro.

Talvez os dias anteriores tenham sido tão bizarros que este dia relativamente normal me pareceu totalmente estranho.

Ou talvez tenha sido um dia estranho mesmo, dada toda a espera, a fome, meu corpo se recusando a fazer o que deveria, o Alex indo com a gente pro CM, o Dr. Horrible, a minha inesperada disposição para romper a sutileza, etc.

Se: e se?

Eu não sei, eu não quero ter mêdo, mas sempre tem alguma coisa.

Eu queria que as coisas de repente estalassem e começassem a fazer sentido.

Tudo parece tão certo e tão errado.

Eu deito na cama e vem aquele monte de dúvidas (que a gente tem quando trabalha como artista)

Talvez hoje tenha sido um dia estranho, ou talvez o dia tenha sido normal e eu tenha me cansado dessa normalidade. Tudo pode ser tão mais inexplicável. Tudo pode desaparecer. É fácil.

Não foi um dia ruim, tive momentos adoráveis, até me diverti. Mas sei lá. Alguns momentos foram mais incríveis que outros, mas alguns foram bem pouco interessantes.

Eu fiz tudo errado? Eu dei valor às coisas erradas? Eu me distraí?

Quem sou eu?

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Isso doeu.

Eu não faço isso só por mim. Eu faço isso porque eu acredito. Pelo menos essa parte de mim não é hipócrita. Eu dei o que tinha que dar, eu pedi o que tinha que pedir. O resto são impossibilidades.

Alguns sonhos morrem antes de voar.

Quando o Jesus perguntou se eu trocaria minha vida pela de outra pessoa eu pensei "Sim! Eu poderia ser tão mais feliz se eu fosse outra pessoa!"; mas então eu pensei melhor e pensei que não. Isso é errado. Eu poderia talvez ser mais feliz, mas eu não quero ser feliz, eu quero ser eu. Se eu não for eu, ninguém mais será. Ninguém vai escrever meus livros, ninguém vai entoar meus uivos. Ninguém vai tocar minhas ávores e brincar com meu gato como eu brinco. Ninguém vai terminar os meus poemas. Ninguém vai se emocionar quando lê o nome de Raksha, ninguém vai abraçar os meus amigos exatamente da mesma forma que eu. Eu não faço isso pelo prazer, eu faço pela liberdade.

Eu quero saber qual é a essência da vida, e eu sei que não é abaixar a cabeça; eu sei que existe mais entre o tudo e o nada do que o que podemos ver quando ficamos parados. Eu...

Eu admito que sem sempre quero dizer o que digo. Mas minha alma está aqui; eu me esforço ao máximo para dizer o que me vai pela alma.

Eu não posso sempre ser boa, mas eu me esforço muito para retribuir a confiança que algumas pessoas têm em mim. Eu me esforço para estar à altura das pessoas que esperam algo de mim.

Eu também faço isso com uma paixão de explorador. Eu quero singrar os mares, conhecer novos povos. Estou disposta a largar algumas coisas por causa disso.

Mas, é claro: não estou disposta a abrir mão de amar.

É tudo uma questão de olhada no mundo.

terça-feira, 20 de abril de 2010

Livro Um: Fera

"I was a wolfness in those dead days
and I thought only of mates and preys"



Eu não sei se é muito decente eu falar sobre o que aconteceu comigo nos últimos dias. Eu poderia guardar tudo pra mim, me contentar em escrever num diário, e quem sabe daqui a cinqüenta anos confessar para meus filhos que um dia eu me tornei uma fera...
É claro que eu não vou fazer isso. Eu nunca fiz. Pra mim, minha imagem pública não é tão importante quanto a comunicação. Mamãe talvez dissesse que eu poderia falar dessas coisas com meus amigos mais íntimos, mas será que eu teria coragem? Meus amigos mais íntimos são tão íntimos assim? Hell, há coisas que eu não consigo contar para pessoa alguma, não sem muito muito esforço. Ultimamente não tenho contado tudo nem ao Di, que era meu melhor amigo. É que há coisas dentro de mim que me deixam meio nervosa. Bom, ao assunto:

Descobri muitas coisas novas sobre mim estes dias. Por exemplo, descobri que eu não sou racional. Nada do que faço é derivado de uma conclusão racional. O máximo de racionalidade que eu consigo manter é: já que meus instintos estão pedindo tão intensamente por isso, o mais sensato é obedecer. Eu preciso de emoções, de intuições, para me dizer para onde ir. O pensamento define apenas o como.

Descobri também que eu posso ser outra coisa. Uma coisa que sente com os dentes, não com os olhos. Uma coisa que quer com os dentes, não com o estômago. Uma coisa que vê através de cheiros, que não vê céu, só carne. Uma coisa que tem olhos voltados para a frente para melhor perseguir a presa.

É incrível como de repente todas as coisas perderam a importância. Eu esqueci a prova de terça, eu esqueci o EP pra semana que vem. Eu esqueci a matéria que eu queria fazer e até a necessidade de subir em árvores — essa sim é a parte mais assustadora.

No domingo eu ainda conseguia querer desesperadamente velejar. No domingo à noite, nem o vento importava.

Eu fui uma lôba por quatro dias
Mordi o silêncio e cacei sozinha
Larguei minha mente e o meu dever

Meu celular também sempre escreve "quero te ter". Eu não escrevi nada nesses dias que não quisesse dizer quero te ter. Eu mordi o ar e engoli saliva tentando conter minha fome. Eu arreganhei os dentes quando você se aproximou... Eu rosnei, num anúncio, quando soube que te teria.

I was a wolfness again one day
I felt alive when I scented "prey"
My preys were trying to hunt me too...
But I'm no kill — I'm not for you

Este texto parece louco, mas não tão louco quanto eu me senti! Eu era uma fera! A god of old! They spoke of me, all tales told! Eu que me preocupo tanto com o céu e o chão, eu andei de cabeça erguida, sempre olhando e procurando, sempre à caça.

My claws were keen to cut
My teeth were keen to kill
And all the creatures great and small
Were subject to my will

Eu te assustei quando rosnei pra você? É o que eu me pergunto? Minhas lembranças estão um pouco confusa, porque toda a minha mente estava concentrada em um ponto só. Eu nunca soube que seria obcessiva. Eu me assustei com a minha fúria. Como todos os meus pensamentos continham as palavras Caça, Fome, Corpo, Dentes. Ah, é, estou falando sobre Sexo. É claro que é só por isso que eu não deveria estar escrevendo isto aqui. Não é educado falar tão abertamente sobre sexo. Mas como não falar?

As outras coisas da vida foram perdendo gradativamente a impôrtância. Primeiro desapareceu tudo o que era inteiramente intelectual, como os estudos. Em Ibiúna eu já estava plenamente dedicada às emoções físicas: ousei mais do que nunca no wakeboard e senti arrepios de alegria quando me agachei na prancha e pus a mão na água que passava rápida ao meu redor. Dirigi a lancha como um homem dirigindo um carro foda. Senti o peso da moto embaixo de mim. Bebi uma cuba livre e me assustei com o gosto do álcool, subitamente muito consciente do quanto eu precisava me controlar. Dancei. Sequer me incomodei com as insinuações dos mais velhos sobre nós. Eu estava cedendo cada vez mais aos instintos, e a qualquer momento qualquer coisa podia ser verdade. Olhando pra trás, é incrível como eu estava me comportando bem.

Quando cheguei em casa a consciência da minha obcessão já era dolorosa. Aquilo tinha me afligido a semana inteira, mas de repente era uma necessidade. Eu precisava sair, eu precisava de ar puro. Meus pensamentos não eram sobre isso, meus pensamentos maquinavam armadilhas, procuravam a melhor forma de te atrair, de te enganar, de te aprisionar entre minhas garras. Eu precisava de algo que me distraísse, de risadas, de álcool, de pessoas. Duas forças lutaram dentro de mim: uma queria amigos, e outra queria presas.

Segunda foi ainda pior porque eu encontrei pessoas com as quais eu queria construir uma amizade. Eu estava me sentindo mal, talvez de fome, de sono (eu não conseguira dormir mais de cinco horas), da consciência de que teria que usar aparelho por um tempo, e principalmente da fúria que ainda queimava, faminta, dentro de mim. O mundo parecia tão frio! Quase não ouvi a aula, tão concentrada que estava em me manter longe do homem ao meu lado. A pior parte de mim não conseguia apreciar a vida se não estivesse caçando. Me impressionei com meus comentários mau-humorados; fugi no meio da segunda aula, fui encontrar o Bruno. No fundo, eu ia pedir ajuda pra ele. Mas não sei se não seria só uma ajuda na minha caçada.

Foi uma noite boa, eu acho, que acabou muito cedo. Se... (...)

Então na terça eu tive um lampejo de lucidez e lembrei do Diogo. Não, eu não tinha esquecido do meu namorado. Eu só tinha esquecido, como acontece com freqüência, de como ele me faz bem. Aquilo estava indo longe demais e eu precisava de um pouco de paz. Eu precisava conseguir lembrar das minhas prioridades. Então eu (...) o encontrei no CM e o abracei forte. Sempre me surpreendo com o efeito dele sobre mim. Senti a febre baixar, senti a fome se acalmando conforme eu o apertava, me encolhia no abraço dele, me deixava proteger. Lembrei das coisas que eu tinha esquecido, começando pelo amor. Eu precisava dele. O abraço de qualquer outro homem (eu acho) me deixaria apenas mais faminta. O beijo de qualquer outro homem apenas atiçaria minha voracidade. O abraço dele me deixou lúcida. O beijo dele começou a me saciar. Eu pedi pra ele me obrigar a ir embora ou eu não iria nunca.

A pessoa que eu poderia ser se eu decidisse ficar solteira me fascina e me assusta. Uma parte muito grande me mim se deliciou com todos os meus pensamentos e ações lupinas. Quando eu me afastei do Diogo, senti um alívio tremendo por poder controlar que tipo de coisa eu ia fazer. Por poder achar as árvores bonitas, por poder me interessar pelos meus estudos. No final do dia, eu me assustei com tudo o que eu tinha protelado quando minha mente estava voltada para a caça. Mas também senti falta: o poder que amanava dos meus impulsos... Mesmo a ferocidade que eu desenvolvera...

Eu não sabia que eu tinha isso em mim: essa coisa em mim que age não por amor, mas por fome; não com carinho, mas com fúria. Eu já havia sentido em mim uma fera que está sempre agitada, mas... mas nunca imaginei que ela pudesse ser tão violenta. Não sabia que ia ser tão difícil contê-la. E uma parte de mim, uma parte daquele lado negro de mim, se pergunta se eu deveria ter mesmo me contido. Outra parte acha que eu nem tentei conter, na maior parte do tempo. Que eu só estava com mêdo demais para ceder.

...agora, alguns daqueles meus impulsos me parecem simplesmente idiotas.

Acho que eu devia tentar encontrar uma forma de associar esses meus dois lados. A auto-confiança, objetividade e inteligência da lôba com a temperança, tranqüilidade e abertura da humana? Mas, de alguma forma, eu suspeito que a lôba em mim não aceite ser domada. Eu não sei até que ponto para conseguir sua força eu precisaria... alimentá-la.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Gather weary travellers,

I have a tale to tell: it might just save your lives but only if you listen well, for there before the breakers, and just around the way, there's a sign that says "Beware the beast of pirate's bay"

Well, don't you sail and don't you row
And certainly don't you swim!
For if you are uncarefull you'll end up inside of him
He'll eat you up and spit you out — you better stay away...

Heed the sign that says "Beware
The beast of pirate's bay!"

Quando.

Eram passos escuros
Como se eram sombras
Haviam dentes
Havia dentição
e mordedura

Eram os olhos rubros
Era outra era
Agora
Havia fome vera, engolidora

Quando eu

Não se era então
Dever, devorar
Não se pensava então
O que não se pensa não se come

Comer, mastigar

Era.

Havia riso.
Era tudo muito doce e muito

Preso

Era tudo vôo, mas.

Mas:
Onde não há caça não há presa
Onde não há presa não há terra
Onde não há terra não se explora
Onde não se explora não se.

Tudo vôo só céu.

Acho

Um beijo
Havia presas, sangue dos lábios
Um sonho é como ser tudo
Ter-poder
tudo.

Quando.
Um rosnado de fome
De vitória
De raiva antecipação
Fulva
Ígnea.

"Esta é a minha presa."

Quando:
Próximo
Concienciosamente
Toca
Um...

R

domingo, 18 de abril de 2010

Desejos horrivelmente objetivos

Ontem eu estava conversando com o Ugo sobre como eu basicamente uso minha inteligência a serviço de metas estipuladas pelas minhas emoções e intuições. Inclusive, se eu não consigo sentir qual a opção certa eu tendo a não fazer nenhuma opção. É terrível. Em geral eu faço muita bobagem porque meus desejos são incrivelmente confusos e contraditórios e eu ora vou para um lado, ora para o outro. Ultimamente tenho sofrido de um outro mal:

Meus desejos estão se tornando terrivelmente objetivos. Eles não se contradizem mais, na verdade eles sequer se interagem. Estão virando obcessões, daquelas bem feias. Há coisas nas quais eu não consigo parar de pensar. Coisas e pessoas. E há limitações por todos os lados que não me permitem descobrir como saciar esses desejos, nem como me livrar deles.

Me sinto uma idiota. E uma idiota sem muita dignidade, inclusive. Daqui a pouco vou perder toda a discrição também.

Que merda. Preciso de uns amigos, umas amigas, talvez uma caipirinha, umas risadas.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

caralho, eu escrevi muito mais do que eu pretendia.

Estar apaixonado

Lembro de uma vez estar sentada no colo do meu namorado, os braços dele à minha volta, e de olhar o cara por quem eu estava apaixonada bem na minha frente. Lembro de pensar que eu só precisava me esticar um pouco, me mover um nada, eu estenderia a mão e tocaria nele. Apenas tocar nele seria um ato mágico, era como se as coisas dependessem apenas disso, e as peças se encaixariam perfeitamente no momento em que eu tocasse nele e ele olhasse nos meus olhos.

Vocês não podem se lembrar disso, vocês não estavam lá. Mesmo meu namorado na época não estava lá, não, você não fazia parte daquela história, você não sabia o que estava acontecendo, você era uma parte do cenário (talvez ele fosse também), e essa era uma história que só existia para mim. Mas era uma bela história.

Pensando bem, havia alguma coisa entre nós, acho que era uma fogueira; sim, era uma fogueira: lembro de pensar que era só isso, me soltar do abraço do meu amor, atravessar o fogo e chegar até ele. Lembro claramente da sensação que me dava pensar que ele estava tão perto que podia chegar a ele num segundo, antes que ninguém percebesse. A sensação de liberdade.

Sabe aquela cena de desenho animado em que a câmera está em primeira pessoa e essa primeira pessoa estica a mão em direção a algo, então percebe que está fora de alcance e dobra ligeiramente o braço e os dedos? Eu fiz exatamente isso. No instante exato eu desisti do meu plano, engoli minha paixão. Tentei me convencer dos meus ideais nobres, de que eu tinha um namorado e não podia magoá-lo, de que eu não podia traí-lo, etc — na verdade acho que eu só não queria fazer um escândalo. Naquela hora eu já tinha admitido para mim mesma que o queria, que não podia negar isso: já tinha sussurrado para mim mesma o nome dele em voz alta. Acho que pensei no que as pessoas iam pensar: no que meus amigos iam dizer, eles que sempre tinham tanto a acusar. Mas pior ainda foi pensar nos amigos dele, aqueles que eu não conhecia o suficiente pra entender, e talvez... sim, sem dúvida eu tinha mêdo do que ele diria. E se o toque não fosse tão mágico quanto eu imaginava?

Entretanto mesmo se não o toquei naquela hora, mesmo se a dúvida me amarrou ao meu lugar, eu ainda o desejei, mesmo nos braços do meu amor. Eu seguia seus passos, meus olhos como uma sombra. Lembro de passar a manhã toda olhando para ele, na esperança de que ele me desse um sorriso. Lembro com clareza cada sorriso e como toda vez eu achava que isso era um sinal de que ele gostava de mim, para em seguida me repreender por alimentar esperanças. Lembro mais intensamente ainda dos sonhos, e de acordar desapontada por ele não estar mais ali, trabalhando ao meu lado, conversando ou às vezes só me olhando: eu tinha sonhos que eram só uma longa troca de olhares. Eu lembro de fazer um desenho dele, de escrever poemas sobre ele. Eu lembro de como a voz dele me fazia tremer, de como o cheiro dele me deixava completamente inútil. Tudo isso durou apenas uns poucos meses, mas foram muitos dias de doçura flutuante alternada com dúvidas atrozes.

Algumas vezes na minha vida eu me perguntei se eu era uma má pessoa por eu ter ido tão longe na minha fantasia. Talvez eu seja até certo ponto uma felina cujas garras lanham o coração dos homens, mas se eu espalhei muita dor, também espalhei prazer. E acho que aqueles que se sentem capazes de condenar meus pensamentos naquele momento são as que não entendem a beleza inebriante de se estar apaixonado. Quando eu lembro dessas coisas, eu sei que eu sofri muito, e que houve muita dor ao meu redor, mas eu escolho lembrar das coisas boas, daquela leveza que havia em meu coração mesmo quando o remorso, a indecisão e as faltas todas me faziam arrastar os pés no chão, cabisbaixa.

A paixão é uma loucura. A paixão é uma corrente libertadora, pois faz todas as outras coisas parecerem sem importância. Eu lembro de perder aulas e esquecer de fazer trabalhos finais porque não conseguia me concentrar em mais nada. Às vezes era a dor, outras era a euforia que me distraía. Como era bom seguir com os olhos os movimentos dele com os olhos, apenas por ver seu corpo se mexendo! A paixão faz tudo parecer passageiro e sem importância. É muito difícil lembrar das outras coisas da vida quando aquela pessoa está ali, consumindo todos os seus pensamentos. Quando você está triste, sempre espera que ele lhe conforte; quando está feliz, quer dar essa alegria a ele. A vida não precisa de um sentido se você está apaixonado. Até a dor, no auge do sofrimento amoroso, não precisa de razão: tudo faz sentido para quem está apaixonado. As peças fundamentais da minha vida se encaixaram quando o Charles disse: "eu não acho mais que estar apaixonado é uma coisa ruim". Se eu pudesse mostrar a todas as pessoas essa mesma coisa, por mais infinito doloroso que fosse todo o processo, isso me faria sentir que eu ganhei o jogo da vida (...!).

Talvez... talvez tenha havido mais do que o que eu consigo expressar aqui. Eu provavelmente poderia fazer um conjunto de contos água-com-açúcar chamado "Minha histórias de amor". Há tanta doçura para lembrar: os primeiros beijos, uns finais de tarde.. As histórias parecem mais doces quando vistas fora de contexto — acho que meus sentimentos sempre estiveram descontextualizados. Dentro do contexto, elas ficam mais... interessantes, mas aí não funcionariam mais como um livro de contos; talvez como um romance, mas não tão adorável e mais cheio de aporrinhações. É claro que eu prefiro lembrar dos contos: a chuva na pele, o toque das mãos, o amor. Alguns contos são infantis, outros são mais adultos. Alguns englobam apenas um final de tarde, outros se esticam até a manhã seguinte, outros se espalham por semanas de segredo e delícia. Você pode até dizer, se quiser, que quase todos os contos, se se estendessem na história real, acabariam em raiva ou dor. Talvez. Mas quem se importa? Eu estava lá, eu vi, eu chorei também. Hoje eu sinto saudade dos dias bons. Eu penso às vezes nos maus, mas não importa. Mesmo nos nossos piores momentos, havia um sentido ali, se construindo. Espero que aqueles que viveram os outros vários lados das minhas histórias também consigam perceber pelo menos isso: que mesmo nos piores momentos havia um sentido ali. Daqui a cinqüenta anos, eu vou olhar todas as minhas sacanagens e pensar, "ah, que se dane! Pelo menos eu vivi. Pelo menos eu segui meu coração. Pelo menos nós vivemos isso intensamente, da melhor forma que pudemos." Eu quero que mais pessoas no mundo consigam sentir isso também: que mesmo depois do desespero, ainda resta a alegria daquele momento perfeito.

Um momento em que tenho pensado muito ultimamente aconteceu num dia seguinte. Ele, que tinha insistido tanto na casualidade, na falta de amor, aproveitou um momento em que os outros estavam dormindo e me deu um abraço, entre gracejos sarcásticos. Eu não olhei em seus olhos. Eu senti seu cheiro. Eu pensei em tudo o que ele dissera e me lembro de ter pensado que pelo menos aquela frieza toda era falsa. Pelo menos isso. Foi um bom abraço.

terça-feira, 13 de abril de 2010

Contatos no Blogger

Este foi um fim de semana muito divertido. Encontrei gente de quem eu sentia saudades. Tive conversas interessantes. Queria que mais fins de semana fossem assim. Bem, talvez não todos, porque tive pouquíssimo tempo com a família, e tive que dividir esse tempo com alguns amigos, que me pareceram insatisfeitos com a situação. Mas vou falar sbre isso depois.

Uma coisa que eu achei engraçado foi a curiosidade recíproca de vocês dois. Na sexta encontrei o Rafael e ele me perguntou algumas vezes quem era esse tal de Peçanha Leitão, e no sábado o Márcio perguntou, com praticamente o mesmo tom de voz, quem era essa tal de Rafael F. Estando aqui no nosso ponto de encontro comum, me sinto meio ridícula. É ridícula toda a apresentação de conhecidos; me sinto numa festa formal. Mas é interessante, socialmente, eu acho. E de forma alguma inútil.

Eu não soube descrever os dois, como eu saberia descrever minha pequena blogcomunidade? Este é o Yuri, fomos inseparáveis no colegial e agora que nos falamos menos só consigo entender o que ele fala se for com as emoções. Este é o Ugo, nos conhecemos desde que ele (ok, e eu) era um pirralho e nos tornamos algo como irmãos nos últimos tempos, mas eu ainda tenho dificuldade pra entender o que ele pensa, apesar de que vale a pena discutir com ele. Este é o Bruno, um dos meus amigos mais próximos, ele é genial, imprevisível e freqüentemente muito engraçado, mas está sempre tendendo para pensamentos sérios e negros demais. Este é o Márcio,... você precisa conversar com ele pra saber, é claro; ele faz mais coisas do que me parece possível, insere ora gracejos ora discussões sociológicas em tudo e obviamente dá muito valor ao seu senso estético. Este é o Dobz, ele é um mistério pra mim, mas é um bom amigo, é inteligente pacas e tudo o que ele se dá ao trabalho de publicar é interessante. Esta é Talita, ela é minha irmã, alguns dos meus amigos têm um pouco de mêdo dela, ela defende ferrenhamente suas convicções quando não está em dúvida, e é a pessoa com quem tenho mais em comum. Este é o Charles, vivi coisas incríveis com ele desde que nos conhecemos há uns sete anos, ele é às vezes meu escritor favorito, na última vez em que o entendi ele perseguia sonhos como Liberdade, Conhecimento, Verdade, Amor, mas não temos nos falado tanto assim. Esta é a Denise, ela gosta de leituras incrivelmente poéticas, mistura poesia e realidade, e foi uma das que foi uma girlfriend pra mim quando eu estava realmente precisando, sem que ela soubesse. Este é o Laerte: eu não o conheço, na verdade, e também não entendo as tiras dele.

Eu escrevi isso tudo e não tenho vontade de apagar mas ainda me sinto meio ridícula. O que são as pessoas. Como descrevê-las? Eu poderia passar horas falando sobre cada pessoa, cada lembrança que tenho dela, cada opinião que tenho sobre ela, cada coisa que ela criou e que já saiu de suas mãos. No final, eu acabo respondendo coisas vagas como "Ah, ele é meu amigo... nos conhecemos em tal lugar, em tal ano... ele faz tal curso e gosta de tal coisa... e tal..." É bastante frustrante. Você sabe que é uma mentira, mas não pode evitar. Como dizer a verdade, sem dizer mais que o necessário? Como fazer a verdade caber em algumas palavras? Isso entra naquela discussão sobre se poderiam haver Nomes Verdadeiros para as pessoas. O que é mais importante? Com certeza não fiz o melhor que pude com essas descrições. Talvez meus amigos inclusive se sintam diminuídos. Mas como explicar, em poucas linhas, como o Yuri mudou minha visão do mundo, do amar, da música, da poesia, da Verdade? Como explicar em claras palavras minha complexa opinião sobre a personalidade do Márcio, que já passou por tantos extremos contrários? Como ser sucinto e sutil, quando se fala de coisas que tem a ver com a alma, de coisas que se eu páro para pensar eu dificilmente entendo, como a amizade, como o gostar? Como descrever uma pessoa, se não se consegue compreender nem questionar o que ela está fazendo ao seu lado? Qualquer descrição puramente objetiva que eu fizesse seria idiota, e provavelmente deixaria de lado o melhor e o mais importante. Por outro lado, uma descrição verdadeira seria pessoal demais, e por isso mesmo seria, sob outro ponto de vista, uma inverdade.

Por outro lado, se eu fosse explicar porque eu leio o que vocês escrevem, provavelmente os fatores pessoais teriam tanta importância quanto os que se aplicariam a outras pessoas. Acho que me interessar pelo que você se interessa em publicar está relacionado com me interessar por quem você é, por que toda escrita é de si para o papel e porque todo leitor quando lê, lê a si mesmo (eu percebo claramente os pontos fracos dessa argumentação, mas não quero entrar neles. mó pregui)

domingo, 11 de abril de 2010

Designer

Hoje eu li o blog da minha irmã e resolvi deixar um comentário. É meio engraçado como mesmo que não nos encontremos ou conversemos tanto assim sinto que nós duas estamos sempre em sincronia. Vivemos coisas diferentes, tomamos decisões diferentes, mas eu quase sempre me identifico muito com o que ela pensa. É meio difícil isso de estar tão próxima de alguém que tem uma vida diferente. Acho que é difícil não querer às vezes estar na pele dela. É claro que sinto esse tipo de coisa em relação a todas as pessoas que admiro, mas é mais freqüente neste caso.

Bom, quando eu fui deixar o comentário eu comecei a chorar. Assim, lágrimas começaram a correr pelo meu rosto, o que eu poderia fazer. O que eu queria dizer era bem simples: eu queria sentir isso também. Eu sinto às vezes. Esse prazer de ser designer. Depois me sinto mal por isso. Porque não. Não mesmo.

O Gil, monitor de computação no Design, fez arquitetura e depois virou programador e agora é designer de software. Eu queria fazer isso. Essa formação que permite que você seja qualquer coisa. Eu quero ser qualquer coisa. Eu quero poder escolher. Deixar a vida me levar, seguir as correntes dos impulsos. Ter sempre em mente o projeto, as pessoas, perseguir a solução.

Eu sinto dor porque eu odeio o curso que eu tentei fazer pra entrar nesse caminho-não-caminho. Eu sofri lá. Eu chorei. Eu não quero mais pensar nisso, a Ixa disse "larga o design e põe uma pedra em cima", eu quero pôr uma pedra em cima e não pensar nisso, dói demais. Não quero lembrar do quanto isso me machuca. Dos piores anos da minha vida, ou pelo menos da última década. Da minha fraqueza. De todas as frustrações, os fracassos, os trabalhos que eu queria jogar no lixo ao invés de entregar, das apresentações que me fizeram me encolher de vergonha. Da inveja. De como se eu tivesse feito outra coisa eu talvez já estivesse me formando, de como eu vou demorar vários anos pra chegar perto de me formar. De como eu falhei em quase todas as matérias de projeto. Botar uma pedra em cima. Disso tudo eu não quero lembrar.

Mas uma parte de mim, a que se recusa a desistir, não quer esquecer. Eu quero lembrar de cada dor, de cada derrota, e me obrigar a ser mais forte por cada uma delas. E cada sonho: eu quero nunca esquecer minha paixão pelo design finlandês, nunca esquecer que ano passado eu tinha planos incríveis para um tcc, e nunca esquecer do que eu aprendi. Principalmente, a conclusão de que design é tudo. Design é o que faz sentido. Design é projeto. É o que separa os homens dos animais. O que quer que seja que eu faça no futuro, provavelmente vai ser um tipo de design, ou vai estar totalmente envolto em design.

Me incomoda muito que eu não esteja mais num curso voltado para o projeto. Que eu saiba que aquele não é o meu lugar. Que eu queira mais da vida que ser forçada a fazer tudo o que eu não sei. Me incomoda que eu tenha falhado nesse aspecto.

Mas quem sabe? Talvez um dia eu possa voltar, menos frágil, menos despreparada, e terminar aquele projeto que comecei.

terça-feira, 6 de abril de 2010

Ovo de Páscoa

CHOCOLATE AO LEITE EM FORMA DE OVO COM
RECHEIO DE GANACHE DE CHOCOLATE AO LEITE
BELGA E RECHEIO DE GANACHE AMARGO BELGA
RECHEADO COM CHOCOLATE AO LEITE
EM FORMA DE BOMBOM COM RECHEIO
AO LEITE BELGA E AMARGO BELGA

Juro que é isso que está escrito na caixa do meu ovo de páscoa. Eu tiraria uma foto se pudesse. Não sei se é poesia concreta ou se é um daqueles exercícios de gramática: ponha a pontuação e as vírgulas.

Cada vez mais acho que as pessoas entenderam errado como funciona essa história de se comunicar através da linguagem...

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Ir?

A característica que mais me assusta em minha família é esse mêdo constante de ir em frente, de terminar, de mudar. Adoramos comer coisas, mas nunca chegamos a ver o fim delas. Nunca concluímos nada. Na verdade muitas vezes nem embarcamos nos nossos projetos. Projetos, projetos, execuções à parte, a casa está vez mais afogada neles. Tanta coisa pra fazer.

(olha, meu firefox est´a corrigindo meu texto em português de portugal)

Eu tenho essa projeto de um dia me formar no segundo grau. É um projeto que me dá muito mêdo. Tudo o que eu faço na faculdade eu faço com o coração na mão. Cada pequeno requerimento. Às vezes eu choro, de raiva ou de mêdo. Eu brigo com meus amigos, com meu namorado, é sempre assim. O que me irrita neles é que eles não estão nervosos com essas coisas que me fazem passar mal. Às vezes eu me encolho num corredor escuro e rezo pra ninguém passar por lá, pra ninguém ver a minha miséria. Eu não pertenço a lugar nenhum, eu não pertenço a ninguém. Não peço a ninguém que me adore, só peço que não me odeie. Quer dizer, menos os meus amigos. Meus amigos eu quero que me amem.

No momento meu mêdo maior (está finalmente se tornando maior do que o mêdo de ser uma incompetente nata) é o de estar indo na direção errada. Eu digo pra todo mundo que quero ir estudar computação, programação corre nas minhas veias, quase nada é tão lindo quanto um código limpo e otimizado ou um circuito impresso bem projetado, eu imagino coisas, minha imaginação é tão bela! Porém...

Porém é claro que há mais lindo, há em todas as partes. Por mais que eu me emocione com a idéia de um projeto moderno, bem século 21, integrar a vida da gente com a tecnologia, transformar o universo numa coisa só, ainda assim não é o que mais me emociona.

Você sabe o que mais me emociona.

A textura das árvores ("abraça a árvore", eles riem)

O barulho das ondas quebrando nas pedras ("tome cuidado", eles pedem)

Às vezes me vêm essa convicção súbita de estar na face de Deus, sabe? Quando ouço ou vejo ou cheiro uma coisa, uma magia que existe nas coisas que existem desde sempre e ainda assim surgiram neste instante (como as ondas)

Entretanto me ocorre que a computação também nunca será mais importante que um cheiro de homem, e isso não me incomoda (estou divagando...)

Me aflige que isso seja o que eu amo, o que me empolga, mas que não seja importante. Será que eu posso mesmo entrar em encontro com as pessoas apenas afinando-as ao mundo contemporâneo? E será que isso importa tanto quanto saber que São Paulo é habitada por cobras? Será que eu terei tanto prazer em aprender qualquer coisa como eu tenho em observar as capivaras do Pinheiros? Será que qualquer emoção que a faculdade me ofereça será tão forte quanto o desejo que eu tenho de protegê-las?

É isso que me aflige quando eu deixo minha mente vagar... Porque eu sei que se eu mergulhar em outra coisa agora, vai ter que ser pra valer. E eu sei que vai ser terrível, horrível, nervoso, se eu me desapaixonar.

É como correr de olhos fechados!