Ontem participei de uma primeira roda de discussão que se propunha a ser a respeito de "não-monogamia" (se isso se concretizou ou não é outra discussão). Sinto, pessoalmente, que a discussão foi particularmente pouco organizada e confusa, de forma que nós não tínhamos controle a respeito de que assuntos nós abordaríamos ou não, e que nós falhamos no objetivo basal de entender os problemas que nós enfrentamos e de estabelecer uma comunicação entre nós, os não-monogâmicos, que pudesse levar à criação de um vocabulário comum, à união política ou a qualquer coisa mais que uma confraternização intelectual e troca de contatos --- não que essas coisas não sejam de grande importância. Eu decidi escrever este texto antes da próxima roda de discussão com o intuito de começar uma discussão formal, teórica, organizada. O mais importante deste texto provavelmente não serão as respostas e explicações que darei, mas as perguntas que sucitarão essas respostas. Sintam-se tods livres para oferecer suas próprias respostas.
P: Quem nós somos?
Nós somos pessoas que desejam ter experiências sexuais ou afetivas, mas que não querem viver relacionamentos monogâmicos. Eu irei me referir a nós como não-monogâmicos.
Existem vários termos associados à não-monogamia: relacionamentos abertos, amor livre, poliamor, poliafeto, relações livres, etc.. Porém, me parece que atualmente não há nenhum termo que agrade a todas as pessoas não-monogâmicas. Não vejo isso como um grande problema -- também não há um nome único para o movimento que atualmente se denomina "LGBTQ+", e nao acho que isso enfraqueça o movimento. O que acho é que somos muito diversos em experiências e reivindicações, e que devemos fazer um esforço consciente de nos unirmos apesar dessas diferenças. Por exemplo, existem pessoas entre nós que gostariam de se casar com uma ou mais pessoas, enquanto outros entre nós rejeitam completamente o conceito de casamento. Eu particularmente não acho que esse seja um bom motivo para uma cisão.
P: O que é monogamia?
Monogamia é uma característica de certas relações afetivas ou sexuais entre duas pessoas. Uma relação é monogâmica quando ambas as pessoas se comprometem a não se envolver romanticamente ou sexualmente com outras pessoas que não seu par monogâmico. Ou seja, existem aspectos da relação entre essas duas pessoas, aspectos emocionais e sexuais, que são exclusivos àquela relação. Em geral numa relação monogâmica os aspectos exclusivos mais importante são "se apaixonar" e "fazer sexo", sendo que é uma traição gravíssima se envolver dessas formas com outras pessoas.
Na verdade, relacionamentos monogâmicos são bastante diversos entre si, de acordo com o que as pessoas envolvidas encaram como "romântico" e "sexual" no próprio comportamento e no de seu par monogâmico, das razões pessoais pelas quais essas pessoas são monogâmicas e principalmente, a meu ver, da quantidade de ciúmes que as pessoas sentem.
P: Nós somos contra a monogamia?
Eu jamais apontaria para um outro casal e diria "você não pode ser monogâmico!", e imagino que a maior parte de nós não faria isso. Porém, acho que alguns de nós acreditam que relações monogâmicas são ruins em si, mesmo para as pessoas que escolhem deliberadamente se envolver nelas. Eu discordo dessa postura. Embora tenhamos críticas à construção social da monogamia e à mononormatividade, não acho que podemos julgar as razões pessoais pelas quais as pessoas escolhem a monogamia.
O argumento principal contra a monogamia é que ela é uma regra e uma imposição sobre outra pessoa, e que se a exclusividade é de fato feita por amor, ela não precisaria ser imposta como uma regra. Entretanto, muitos de nós vivem em relacionamentos que possuem regras, e eu acredito que essas regras são importantes para o relacionamento funcionar. Não cabe a mim aprovar ou desaprovar as regras escolhidas por outras pessoas para seus próprios relacionamentos.
Porém, me parece que na maior parte das relações monogâmicas, devido a uma idéia mononormativa de como funcionam as pessoas, exige-se uma "monogamia de sentimentos", quer dizer, a pessoa está proibida não apenas de se relacionar com outras, mas também de se interessar por elas, ou mesmo de olhar para elas. Esse tipo maluco de monogamia leva, a meu ver, inevitavelmente, ou a acessos de culpa e auto-flagelação, ou a mentiras e segredos entre o casal.
P: Por que as pessoas são monogâmicas?
É óbvio para a maior parte de nós que, em primeiro lugar, grande parte das pessoas é apenas "socialmente monogâmica", no sentido de que "traem" seus parceiros, e em segundo lugar, quase todas as pessoas são monogâmicas apenas porque é essa é a norma social (falarei do conceito de mononormatividade em seguida). Além disso, uma parte grande das pessoas opta por não ser monogâmica simplesmente se mantendo "solteira".
Por outro lado, quando confrontadas com pessoas não-monogâmicas, as pessoas monogâmicas quase sempre procuram justificar porque elas, pessoalmente, preferem viver em monogamia.
A bem da verdade, a maior parte dessas explicações soam absurdas e até mesmo ofensivas para nós --- por exemplo "sou monogâmicx porque quero amor de verdade" ou porque "se o relacionamento está bom e cheio de amor, a pessoa não precisa de mais ninguém". A conclusão é que essas pessoas "escolheram" ser monogâmicas por completa ignorância do que significa não ser monogâmico.
Outras pessoas dão explicações mais razoáveis. Algumas pessoas entram em relações monogâmicas apenas porque su parceire é monogâmicx e ela realmente não considera a monogamia um sacrifício. Outras pessoas sentem que a exclusividade torna seus momentos íntimos mais especiais. Muitas pessoas simplesmente não acreditam que uma relação não-monogâmica possa dar certo (o que eu também atribuo à nossa invisibilidade e à ignorância geral).
E, é claro, muitas pessoas são monogâmicas porque são extremamente ciumentas. A meu ver, o ciúmes é uma exacerbação de insegurança e mêdo que nada têm a ver com a outra pessoa, mas que são projetados na outra pessoa, como se ela fosse responsável pela sua insegurança. O ciúmes é um sentimento negativo e danoso para o relacionamento, e eu acho que qualquer pessoa ciumenta deveria se esforçar para resolver esse problema. A glorificação do ciúmes, na minha opinião, é a forma mais absurda e torpe de mononormatividade, porque se glorifica uma atitude de controle sobre a vida do outro. Além disso, algumas pessoas são monogâmicas porque elas sabem que é socialmente inaceitável não ter ciúmes e não exigir a "fidelidade" de su parceire, e assim essas pessoas exercem controle sobre a vida de parceire por pressão social.
P: O que é "mononormatividade"?
Eu imagino que essa palavra tenha surgido como uma referência à "heteronormatividade". Veja, a heteronormatividade é a norma que favorece casais cis heterossexuais. Casais cis heterossexuais podem se casar, não têm mêdo de sair em público, são representados em histórias, em todas as mídias, e de modo geral se espera que uma pessoa seja cis heterossexual desde o momento em que ela nasce. Ser cis heterossexual implica em uma série interminável de vantagens sociais, jurídicas e econômicas, especialmente para pessoas casadas. Da mesma forma, ser monogâmico implica em uma série parecida de vantagens em oposição a ser não-monogâmico. Em primeiro lugar, o casamento oferece muitas vantagens, e essas vantagens apenas estão disponíveis para pessoas monogâmicas. Além disso, trocar carícias com mais de uma pessoa em público é considerado uma "depravação", mais ou menos da mesma forma que o é trocar carícias com uma pessoa do mesmo sexo. A não-monogamia é retratada em histórias, mas quase sempre como uma situação de conflito, traição, instabilidade.
A mononormatividade também é expressa nas opiniões ignorantes da maior parte das pessoas a respeito de nós, quando as pessoas acreditam que apenas na monogamia existe amor, e que apenas a monogamia é uma forma correta e pura de se relacionar; e também na ignorância das pessoas em relação a seus próprios relacionamentos uma vez que, acreditando que uma pessoa não deve ser capaz de se interessar por mais outra, assume-se que quando um membro do casal se sente atraído por outra pessoa a relação está comprometida. E quando duas pessoas começam a se relacionar, elas quase sempre assumem que a outra é monogâmica. Mais grave ainda, a mononormatividade glorifica atitudes de imposição da monogamia e de controle da vida alheia, glorifica o ciúmes e justifica inclusive a agressão física (até mesmo assassinato) da pessoa que incorre em "traição" (muitas vezes mesmo que a suposta "traição" tenha ocorrido depois do término da relação). Finalmente, a mononormatividade condena todas as pessoas não-monogâmicas (exceto talvez homens cis heterossexuais), chamando-as de "vadias", e esse rótulo é muitas vezes usado para justificar agressões e crimes cometidos contra essas pessoas, apenas porque seu "valor como pessoa" é considerado menor do que o de uma pessoa monogâmica.
Evidentemente, a mononormatividade está intrinsecamente ligada à heteronormatividade e de modo geral ao machismo, de modo que ela é especialmente cruel com mulheres, cis ou trans, pessoas trans* de modo geral e gays/bis. De fato, muitas vezes é aceito e até esperado que homens cis heterossexuais se comportem pessoalmente de forma não-monogâmica. Mas vamos falar de machismo em outro tópico.
P: Por que nós dizemos que "somos" não-mono/poli/rli/etc?
Essencialmente, é porque nós não queremos, não conseguimos, não aturamos, não suportamos viver em situações de monogamia. A monogamia é opressora para nós. Nossas opções de como viver experiências afetivas e sexuais fazem parte da nossa identidade, da mesma forma que orientações sexuais.
Existem outras pessoas que consideramos que "são" monogâmicas, porque elas só aceitam relacionamentos monogâmicos. Existem também pessoas que aceitam ambos e que não "são" nem uma coisa nem outra.
P: Por que nossa movimentação é política e não apenas pessoal?
Porque nós vivemos num mundo que ora acredita que nós não existimos, ora que estamos fadados à infelicidade, ora que somos depravads e vadias. Porque se ficarmos calados e separados, não poderemos mudar esta situação. Porque o pessoal é político.
P: É um problema nossa movimentação ser contra alguma coisa em vez de a favor de algo?
Claro que não! Nós somos a favor do direito de viver com os mesmos privilégios que o resto da sociedade, mas nosso grupo provavelmente não existiria se não houvesse uma imposição social opressiva que nos exclui. Da mesma forma que o feminismo é contra o machismo e a misoginia e o movimento LGBTQ+ é contra (o machismo e) a homofobia e a heteronormatividade, nós também nos unimos contra algo que nos oprime. É tipo a ordem natural das coisas.:wq
palavra por palavra, procuro chegar, devagar, ao lugar de La Loba.
"O silêncio", disse o griot,"só é escuro no começo..."
terça-feira, 9 de julho de 2013
terça-feira, 4 de junho de 2013
Ser Homem
O quanto da minha vida foi determinado por eu ser mulher?
Sabe, esta é uma questão pra mim. O que eu seria se eu fosse homem? Essa questão não é fácil de responder. Mas, bem, olha o meu irmão. Ele é um cara legal, e talvez ele seja feminista (eu nunca conversei com ele a respeito disso), mas, é diferente. Tudo é diferente.
Eu às vezes me pego pensando em mim mesma como uma versão gender-bended do meu irmão. Eu acho que "se eu fosse homem", eu seria forte como ele, rápido e ágil como ele. Eu sempre tentei acompanhá-lo, eu sempre corri com ele como se fôssemos iguais. Meu irmão foi uma das pouquíssimas pessoas na minha vida que sempre me tratou como se eu fosse igual a ele, mesmo sendo menina. Eu tenho algumas dificuldades com meu irmão, mas isso eu devo a ele: ele nunca achou que eu ser menina fosse desculpa para não correr, não lutar, não subir em árvore, não fazer barra, não entrar no campeonato de video-game ou na competição de bebida. Meu irmão nunca me mandou parar, e sempre ficou realmente decepcionado quando eu deixava de fazer alguma dessas coisas com ele. Acho que é por isso que me perturba (e fere) tanto quando meu irmão me trata como menina ou mulher. Na maior parte do tempo, parece que nossa relação teria sido exatamente igual se eu fosse homem.
Entretanto, meu irmão é a exceção. O resto do mundo me tratou de formas muito diferentes apenas porque eu era menina (mesmo antes de isso fazer qualquer diferença razoável). Eu acho que nossa relação de irmãos teria sido muito diferente porque eu teria participado de eventos que eram proibidos pra mim --- viagens com meu tio machão e os primos, andar de lancha na tempestade, ou simplesmente fazer alguns exercícios ---, porque meus primos teriam visto a minha força em vez de ver apenas minha fofura, porque eu conseguiria acompenhar mais de perto as capacidades físicas do meu irmão, mesmo se eu não fosse tão forte quanto ele.
Talvez o mundo fosse menos contraditório se eu fosse um garoto. E menos ofensivo. Sabe, quando eu era pequena, eu não entendia que eu não era um menino, que eu era diferente do meu irmão --- até porque nós éramos iguais: minha mãe sempre contou a história das pessoas que passavam e perguntavam "são gêmeos ou gêmeas?". Eu gostava de jogar bola, de lutinha e de salvar o mundo, e minha irmã gostava disso também e nunca foi um problema. Mas eu entendia perfeitamente bem que quando um moleque dizia que alguma coisa era "de menina", que alguém fazia alguma coisa "como uma menina", ou que alguém era "uma menininha", isso era apenas uma ofensa. Chamar alguém de "menina" era sempre um insulto. Então eu não queria, de forma nenhuma, ser uma menina. Minha mãe não entendia isso, nem as tias e as professoras e os professores e as outras crianças, nenhuma delas podia ver que quando me chamavam de "menina", "mocinha", "garotinha", eu tomava aquilo como um insulto.
Enquanto as pessoas me vissem como uma menina, eu estava perdendo. Eu precisava ser forte. Eu precisava ser mais forte do que todos os meninos, pra mostrar que eu era um deles. Eu precisava não desistir nunca, porque desistir significava ser inferior para sempre. Na minha imaginação, eu era uma heroína, uma figura mítica que se transformava em lobos e panteras, que era a maior guerreira do mundo (eu tinha um amigo que era o Rei e um amigo que era um Mago, mas nenhum deles era tão forte quanto eu), que era a líder de um time de esportes marciais com bola, eu freqüentemente salvava meus amigos de perigos terríveis e ora salvava ora enfrentava os garotos por quem eu me interessava, e eu atravessava o mundo num cavalo tão rápido que ele cavalgava sobre as águas,e em algumas histórias eu tinha até uma contra-parte masculina. Minhas histórias eram cheios de personagens masculinos fortes e impressionante, mas todos eles me respeitavam porque eu era mais forte e experiente que eles.
Não ajudou em nada o fato de que, aos cinco anos, enquanto eu queria ser um dos meninos e estava fazendo de tudo para não ser "maricas" nem "menininha", enquanto minha irmã e minha prima faziam sugestões absurda de que eu, sendo uma "menina", estava apaixonada pelo meu amiguinho, enquanto os adultos me chamavam de "fofinha" e "gracinha" e "menina linda" sem nem suspeitar que o que eu queria mesmo era respeito (e, sério, não era difícil ver isso das atitudes que eu tinha), quando eu tinha cinco anos de idade um homem, um adulto retardado, funcionário na escola em que eu estava aprendendo a escrever e multiplicar por 10, me levou, talvez duas ou cinco vezes, para o quarto de brinquedos e me fez pôr a mão numa linguiça quente e suja que ele tinha no bolso.
Eu digo isso assim com todas as palavras porque foi isso que aconteceu. Talvez esse homem tenha me feito acariciar o pênis dele, ou pior. Outras mulheres que conheço talvez tenham histórias piores de abuso durante a infância. Eu me sinto mal por trazer um assunto "pesado" à tona num texto que deveria ser simplesmente sobre a criação de meninos e meninas --- mas, inevitavelmente, não sei exatamente quanto tempo depois, eu cheguei à conclusão de que aquilo aconteceu porque eu era menina. Não aconteceu com meus amigos, meus companheiros de viagens espaciais e aventuras na selva. Aconteceu com uma outra menina (não sei bem quando eu fiquei sabendo disso), uma que, para a minha sorte, gritou, deu o alarme, permitiu que a preocupação da minha mãe com meu comportamento nos levasse a um psicólogo e, com alguma ajuda de professora e avó e mãe (figuras maternas ou figuras femininas não sei), eu contasse o que aconteceu e digerisse de alguma forma toda a experiência. Qualquer religião que eu tivesse não tinha sequer uma tentativa de ajudar. Os livros, as histórias não falam de abusos com garotinhas. Eu fiz o que pude: me tornei um herói e um animal selvagem, uma força da natureza, uma guerreira, uma fera selvagem, assassina. O mundo das minhas histórias era cheio de sangue e violência. De alguma forma minha relação com o mundo exterior, nas minhas memórias, não mudou muito em caráter, apenas em intensidade, já que meu interesse em interagir com o mundo lá fora ficou muito menor, ainda mais depois que eu mudei de escola e perdi todos os amigos e professoras. No mundo lá fora eu tinha meninos que tiravam sarro de mim, professores que me insultavam, pais que tinham mêdo de que eu ficasse louca, e umas meninas que faziam "coisas de menina" e aparentemente achavam isso legal, o que para mim era totalmente incompreensível.
Na minha cabeça eu não era tanto uma menina quanto um animal selvagem --- acho digno de nota que o animal que eu escolhia era em geral um lobo ou uma pantera, que praticamente não tem dimorfismo sexual, ou uma leõa, que é um animal que caça e organiza o bando enquanto o macho é paparicado e embelezado. Eu era fã de Raksha, a Demônia, a mãe-loba do Mogli, porque ela enfrentava o Shere-Khan (e na minha cabeça ela é que tinha enfrentado cinco oponentes para escolher o macho que ela queria), e eu era fã de Buck, o canzarrão de Jack London que se tornava o líder de todos os lobos. Eu me esforçava para ser forte, eu subia nas árvores mais altas, eu corria, eu escalava todas as pedras e me metia no meio do mato sempre que eu podia, porque o mundo humano era feito para maricas, mas eu não era apenas uma criança, eu era uma fera, e eu tinha vivido mais do que os adultos podiam imaginar, e algum dia eles iam ser pegos de surpresa por mim. Eu ia provar que eu não era uma menina, que ninguém podia abusar de mim. Nessa época eu também odiava a única parte decididamente feminina do meu corpo, passava horas puxando e deformando meus lábios, não sei bem se tentando esconder a vagina ou se tentando modelar uma espécie de pênis com o que eu tinha à mão.
Enquanto isso nas aulas de educação física os professores não queriam que eu jogasse bola com os meninos, e eu era obrigada a jogar queimada ou brincar de elástico com as meninas, que para mim eram criaturas alienígenas. Pior que isso, nas aulas em que os meninos faziam flexão eu tinha que fazer "flexão de menina", algo que eu achava desagradável e humilhante. E "barra de menina", que sequer era um exercício para os braços, e sim uma prova de paciência: o desfio era ficar pendurado na barra, sem ter que se mexer, ou levantando os joelhos, pelo máximo de tempo. Naquela época, eu e mais algumas meninas conseguíamos fazer barras e flexões tão bem quanto alguns dos meninos; essas prova eram só uma espécie de humilhação e insulto especial. Depois de introjetar muito bem que fazer qualquer coisa "como uma menina" era uma vergonha, eu era obrigada a fazer esportes "como uma menina". Meus professores estavam me xingando na minha cara, e eu tinha que aceitar, calada, afinal, eu era, mesmo, "uma menina". Minha auto-confiança foi destruída, e eu passei a vida duvidando de tudo o que eu fazia, pensava e dizia.
Eu tinha pouquíssima experiência e empatia com meninas. Eu não mencionei nenhuma atividade "feminina" até agora porque para mim elas não existiam. Na verdade, nós brincávamos de casinha e boneca junto com comandos em ação, junto com meu irmão, e tinha também as coisas que minha prima trazia, por exemplo a brincadeira de desfile da "pakalolo" que fazíamos inventando formas de enrolar toalhas e lençóis, a brincadeira das fadas que vinham de outro mundo contar histórias (minha prima e minha irmã eram muito criativas), brincar de sereia, brincar de comida --- eu gostava dessas brincadeiras, mas por algum motivo eu não dava importância a elas. Acho que o fato de que nunca tinha meninos por perto quando brincávamos de pakalolo ajudava, pois eu podia baixar a guarda, e ao mesmo tempo eu lembro que se a brincadeira começava a derivar pra maquiagens e outras coisas mais "de menina", eu fugia.
Eu tinha amigas meninas na escola (eu não tinha amigos porque eu era incapaz de entender por que os meninos da escola me enchiam tanto o saco), mas pra falar a verdade eu não tinha amizades de verdade, na maior parte do tempo. A maior parte das meninas falava uma língüa que eu mal conseguia entender, até uns 12 anos de idade. Felizmente eu encontrei algumas meninas que se pareciam comigo, que detestavam coisas "de menina" e com quem eu podia jogar bola, andar de bike, e tentar, de alguma forma, procurar uma forma de lidar com toda a humilhação que era ser menina quando a coisa certa a se ser era claramente menino.
Assim, durante a pré-adolescência, quando eu estava começando a fazer amizade com garotos e gente tão deslocada quanto eu, nós descobrimos o paganismo, Brumas de Avalon, bruxas e toda uma mitologia na qual as mulheres eram o centro, na qual cada mulher era uma encarnação da Deusa. Encarar o feminino como divino ajudou muito a sobreviver à adolescência (assim como todas aquelas histórias de heroína e lobos e tudo o mais). E sobreviver à adolescência, previsivelmente, foi o tipo de desafio que requeria ajuda.
Na adolescência meu corpo começou a mostrar que eu era mulher através de peitos e pernas grossas, tudo o que eu nunca quis ter, não tanto porque era coisa de mulher mas mais porque minha irmã não tinha e eu queria ser igual a ela --- mas a mitologia da mulher-deusa me fez aceitar esse corpo como símbolo do meu poder, e cultivá-lo e amá-lo, e eu aos poucos parei de tentar me machucar. Simultaneamente, eu desenvolvi todos os pêlos do mundo, o que eu imediatamente achei o máximo porque me deixava mais parecida com um lôbo (além do mais, minha melhor amiga também era peluda). Por outro lado, eu parei de crescer, desenvolvi problemas do joelho e na coluna que me causavam dor toda vez que eu jogava bola, e rapidamente os meninos começaram a ficar mil vezes melhores que eu em tudo o que eu valorizava. Minhas "amigas" que gostavam de coisas de menina começaram a falar de garotos e romance, meus amigos começaram a se interessar por mim (o que eu detestava), e minha mãe decidiu que eu tinha que fazer todo tipo de coisa agora que eu era "mocinha".
Eu até me divertia com os vestidos de festa e maquiagem que uma amiga de mamãe fazia em mim para os casamentos e afins; mas logo depois começou a tortura de depilação, descoloração, desodorante feminino, e cada vez mais pessoas reclamando do jeito como eu me vestia, das roupas velhas, feias, furadas --- em pouco tempo eu entendi que eu não podia ter pêlos, nem cicatrizes, nem machucados nem furos nas roupas, porque tudo isso era coisa de homem, era coisa que era legal no meu irmão, mas em mim era feio. Mas, como eu disse antes, eu não conseguia entender do fundo do coração que eu era "menina" e que para mim "coisa de menina" era bom e que eu e meu irmão tínhamos que ser diferentes, eu queria as mesmas coisas que ele, eu queria ter cicatrizes legais, eu queria ser foda, eu queria me arriscar e me machucar e disputar a bola e rasgar os joelhos das calças porque isso tudo é sinal de que você tem garra. Então eu não só era chamada de "menina" como ainda levava bronca por fazer tudo o que merecia "respeito", e ainda por cima quando eu estava com meu irmão, que ainda era o cara que me tratava como igual, eu mal conseguia acompanhá-lo. E aos poucos até meus amigos nerds e esquisitos começaram a me dar uma lavada em todas as nossas corridas e lutinhas e what-not. Eu tive que começar a admitir que eu não era mais um dos garotos, e comecei a desejar ser. Meu irmão, nessa época, tinha um melhor amigo super bacana, e eles começaram a conhecer meninas também. Eu tinha uma relação estranha com o amigo do meu irmão, ora ele era como um irmão, ora eu achava que ele me via como uma mulher.
Um dia meu irmão me viu como mulher. Eu sei disso, mas eu nunca falei sobre isso com ninguém, muito menos com ele. Foi uma traição, e eu nunca perdoei meu irmão. Essa parte, essa traição, isso nunca teria acontecido se eu fosse um homem.
Toda essa história foi anos antes de eu realmente me assumir como feminista. Foi anos antes de eu me assumir como qualquer coisa. Foi antes do colegial. A partir dos catorze anos minha vida emocional foi tão intensa que todas as outras questões pareceram menos importantes no momento. O que eu notei foi uma resistência, da deusa-lôba dentro de mim, a me machucar depilando as pernas, a se disfarçar com maquiagens que eu não sabia aplicar e que deixavam ridícula. E uma miríade de sonhos e fantasias, que foram se tornando mais diversos, incluindo romance e sexo e até mesmo filhos (eventualmente netos). Mas eu queria amar e eu aos dezoito decidi fechar o teatro, cancelar todas as aventuras, e viver a "vida real". Depois disso passei mais uns bons dois anos continuando a cometer erros e crimes contra as leis da deusa-lôba, e mais uns três ou quatro numa jornada de auto-conhecimento, que me trouxeram até aqui, nua, sem deusa, sem lôba, sem herói, sem nada além do meu corpo e da minha história, e das minhas convicções políticas. Hoje em dia eu consigo usar vestidos e saias sem me sentir ridícula. Recentemente eu aprendi que posso ter pernas peludas e que posso sair sem sutiã. Eu ainda tenho dificuldades com algumas coisas bestas --- ainda não gosto de ser menina, de ser fofinha, de que me chamem pelo meu nome. Hoje em dia eu sei que eu não sou um homem, que eu jamais poderia ser homem. Por outro lado, eu não tenho mais a menor idéia do que significa ser mulher --- se eu aceitar que eu sou mulher, eu sinto que eu estou dissolvendo completamente o conceito de mulher. Ou talvez essa seja a forma de lidar com a raiva. Talvez eu só queira ser uma mulher masculina e pronto.
Voltando à pergunta: eu seria feminista se eu fosse homem? Bem, eu sei que eu sou feminista não exatamente porque eu sou mulher mas porque eu fui uma menina que queria em primeiro lugar ser um bicho, ou um garoto. Como seria a narrativa acima se eu tivesse nascido com um pintinho? Eu não teria a raiva, a insegurança, os insultos, a convicção de que o mundo estava sendo injusto comigo ao me taxar de menina... Eu acho que se eu tivesse nascido menino, eu teria me encaixado, vivido as aventuras, acompanhado os garotos. Eu não teria sofrido abuso, meu irmão e meus amigos nunca teriam deixado de me ver como um dos caras, eu não teria a pressão para entender o mundo das meninas, nem pra sofrer na mesa de depilação. Minhas calças teriam bolsos! Eu acho que se eu tivesse nascido menino eu simplesmente me sentiria mais encaixado no mundo, e teria menos motivação interna pra ser feminista.
É claro que eu poderia ser feminista mesmo assim. Mas sinto que todos os motivos pessoais que me levaram ao feminismo não estariam mais lá. Eu ainda seria feminista por motivos políticos, provavelmente, mas pra falar a verdade eu não sei se eu teria tanta convicção numa bandeira que não falasse com a minha história de vida (e talvez, também, eu fosse um garoto babaca e auto-centrado que não conseguiria ver a necessidade do feminismo). Talvez com os anos e o esclarecimento eu começasse a querer usar saia ou pintar o cabelo ou beijar garotos ou alguma outra coisa que me jogasse no feminismo. Talvez a história fosse totalmente diferente do que eu imagino. Mas tudo isso é irrelevante, porque esta é a minha história, não a de uma pessoa que nunca existiu. E esta é a minha história. Na minha história eu sou ora uma guerreira, ora uma lôba, ora uma deusa, e na minha história eu sou feminista porquê eu fui menina.
Fim.
Sabe, esta é uma questão pra mim. O que eu seria se eu fosse homem? Essa questão não é fácil de responder. Mas, bem, olha o meu irmão. Ele é um cara legal, e talvez ele seja feminista (eu nunca conversei com ele a respeito disso), mas, é diferente. Tudo é diferente.
Eu às vezes me pego pensando em mim mesma como uma versão gender-bended do meu irmão. Eu acho que "se eu fosse homem", eu seria forte como ele, rápido e ágil como ele. Eu sempre tentei acompanhá-lo, eu sempre corri com ele como se fôssemos iguais. Meu irmão foi uma das pouquíssimas pessoas na minha vida que sempre me tratou como se eu fosse igual a ele, mesmo sendo menina. Eu tenho algumas dificuldades com meu irmão, mas isso eu devo a ele: ele nunca achou que eu ser menina fosse desculpa para não correr, não lutar, não subir em árvore, não fazer barra, não entrar no campeonato de video-game ou na competição de bebida. Meu irmão nunca me mandou parar, e sempre ficou realmente decepcionado quando eu deixava de fazer alguma dessas coisas com ele. Acho que é por isso que me perturba (e fere) tanto quando meu irmão me trata como menina ou mulher. Na maior parte do tempo, parece que nossa relação teria sido exatamente igual se eu fosse homem.
Entretanto, meu irmão é a exceção. O resto do mundo me tratou de formas muito diferentes apenas porque eu era menina (mesmo antes de isso fazer qualquer diferença razoável). Eu acho que nossa relação de irmãos teria sido muito diferente porque eu teria participado de eventos que eram proibidos pra mim --- viagens com meu tio machão e os primos, andar de lancha na tempestade, ou simplesmente fazer alguns exercícios ---, porque meus primos teriam visto a minha força em vez de ver apenas minha fofura, porque eu conseguiria acompenhar mais de perto as capacidades físicas do meu irmão, mesmo se eu não fosse tão forte quanto ele.
Talvez o mundo fosse menos contraditório se eu fosse um garoto. E menos ofensivo. Sabe, quando eu era pequena, eu não entendia que eu não era um menino, que eu era diferente do meu irmão --- até porque nós éramos iguais: minha mãe sempre contou a história das pessoas que passavam e perguntavam "são gêmeos ou gêmeas?". Eu gostava de jogar bola, de lutinha e de salvar o mundo, e minha irmã gostava disso também e nunca foi um problema. Mas eu entendia perfeitamente bem que quando um moleque dizia que alguma coisa era "de menina", que alguém fazia alguma coisa "como uma menina", ou que alguém era "uma menininha", isso era apenas uma ofensa. Chamar alguém de "menina" era sempre um insulto. Então eu não queria, de forma nenhuma, ser uma menina. Minha mãe não entendia isso, nem as tias e as professoras e os professores e as outras crianças, nenhuma delas podia ver que quando me chamavam de "menina", "mocinha", "garotinha", eu tomava aquilo como um insulto.
Enquanto as pessoas me vissem como uma menina, eu estava perdendo. Eu precisava ser forte. Eu precisava ser mais forte do que todos os meninos, pra mostrar que eu era um deles. Eu precisava não desistir nunca, porque desistir significava ser inferior para sempre. Na minha imaginação, eu era uma heroína, uma figura mítica que se transformava em lobos e panteras, que era a maior guerreira do mundo (eu tinha um amigo que era o Rei e um amigo que era um Mago, mas nenhum deles era tão forte quanto eu), que era a líder de um time de esportes marciais com bola, eu freqüentemente salvava meus amigos de perigos terríveis e ora salvava ora enfrentava os garotos por quem eu me interessava, e eu atravessava o mundo num cavalo tão rápido que ele cavalgava sobre as águas,e em algumas histórias eu tinha até uma contra-parte masculina. Minhas histórias eram cheios de personagens masculinos fortes e impressionante, mas todos eles me respeitavam porque eu era mais forte e experiente que eles.
Não ajudou em nada o fato de que, aos cinco anos, enquanto eu queria ser um dos meninos e estava fazendo de tudo para não ser "maricas" nem "menininha", enquanto minha irmã e minha prima faziam sugestões absurda de que eu, sendo uma "menina", estava apaixonada pelo meu amiguinho, enquanto os adultos me chamavam de "fofinha" e "gracinha" e "menina linda" sem nem suspeitar que o que eu queria mesmo era respeito (e, sério, não era difícil ver isso das atitudes que eu tinha), quando eu tinha cinco anos de idade um homem, um adulto retardado, funcionário na escola em que eu estava aprendendo a escrever e multiplicar por 10, me levou, talvez duas ou cinco vezes, para o quarto de brinquedos e me fez pôr a mão numa linguiça quente e suja que ele tinha no bolso.
Eu digo isso assim com todas as palavras porque foi isso que aconteceu. Talvez esse homem tenha me feito acariciar o pênis dele, ou pior. Outras mulheres que conheço talvez tenham histórias piores de abuso durante a infância. Eu me sinto mal por trazer um assunto "pesado" à tona num texto que deveria ser simplesmente sobre a criação de meninos e meninas --- mas, inevitavelmente, não sei exatamente quanto tempo depois, eu cheguei à conclusão de que aquilo aconteceu porque eu era menina. Não aconteceu com meus amigos, meus companheiros de viagens espaciais e aventuras na selva. Aconteceu com uma outra menina (não sei bem quando eu fiquei sabendo disso), uma que, para a minha sorte, gritou, deu o alarme, permitiu que a preocupação da minha mãe com meu comportamento nos levasse a um psicólogo e, com alguma ajuda de professora e avó e mãe (figuras maternas ou figuras femininas não sei), eu contasse o que aconteceu e digerisse de alguma forma toda a experiência. Qualquer religião que eu tivesse não tinha sequer uma tentativa de ajudar. Os livros, as histórias não falam de abusos com garotinhas. Eu fiz o que pude: me tornei um herói e um animal selvagem, uma força da natureza, uma guerreira, uma fera selvagem, assassina. O mundo das minhas histórias era cheio de sangue e violência. De alguma forma minha relação com o mundo exterior, nas minhas memórias, não mudou muito em caráter, apenas em intensidade, já que meu interesse em interagir com o mundo lá fora ficou muito menor, ainda mais depois que eu mudei de escola e perdi todos os amigos e professoras. No mundo lá fora eu tinha meninos que tiravam sarro de mim, professores que me insultavam, pais que tinham mêdo de que eu ficasse louca, e umas meninas que faziam "coisas de menina" e aparentemente achavam isso legal, o que para mim era totalmente incompreensível.
Na minha cabeça eu não era tanto uma menina quanto um animal selvagem --- acho digno de nota que o animal que eu escolhia era em geral um lobo ou uma pantera, que praticamente não tem dimorfismo sexual, ou uma leõa, que é um animal que caça e organiza o bando enquanto o macho é paparicado e embelezado. Eu era fã de Raksha, a Demônia, a mãe-loba do Mogli, porque ela enfrentava o Shere-Khan (e na minha cabeça ela é que tinha enfrentado cinco oponentes para escolher o macho que ela queria), e eu era fã de Buck, o canzarrão de Jack London que se tornava o líder de todos os lobos. Eu me esforçava para ser forte, eu subia nas árvores mais altas, eu corria, eu escalava todas as pedras e me metia no meio do mato sempre que eu podia, porque o mundo humano era feito para maricas, mas eu não era apenas uma criança, eu era uma fera, e eu tinha vivido mais do que os adultos podiam imaginar, e algum dia eles iam ser pegos de surpresa por mim. Eu ia provar que eu não era uma menina, que ninguém podia abusar de mim. Nessa época eu também odiava a única parte decididamente feminina do meu corpo, passava horas puxando e deformando meus lábios, não sei bem se tentando esconder a vagina ou se tentando modelar uma espécie de pênis com o que eu tinha à mão.
Enquanto isso nas aulas de educação física os professores não queriam que eu jogasse bola com os meninos, e eu era obrigada a jogar queimada ou brincar de elástico com as meninas, que para mim eram criaturas alienígenas. Pior que isso, nas aulas em que os meninos faziam flexão eu tinha que fazer "flexão de menina", algo que eu achava desagradável e humilhante. E "barra de menina", que sequer era um exercício para os braços, e sim uma prova de paciência: o desfio era ficar pendurado na barra, sem ter que se mexer, ou levantando os joelhos, pelo máximo de tempo. Naquela época, eu e mais algumas meninas conseguíamos fazer barras e flexões tão bem quanto alguns dos meninos; essas prova eram só uma espécie de humilhação e insulto especial. Depois de introjetar muito bem que fazer qualquer coisa "como uma menina" era uma vergonha, eu era obrigada a fazer esportes "como uma menina". Meus professores estavam me xingando na minha cara, e eu tinha que aceitar, calada, afinal, eu era, mesmo, "uma menina". Minha auto-confiança foi destruída, e eu passei a vida duvidando de tudo o que eu fazia, pensava e dizia.
Eu tinha pouquíssima experiência e empatia com meninas. Eu não mencionei nenhuma atividade "feminina" até agora porque para mim elas não existiam. Na verdade, nós brincávamos de casinha e boneca junto com comandos em ação, junto com meu irmão, e tinha também as coisas que minha prima trazia, por exemplo a brincadeira de desfile da "pakalolo" que fazíamos inventando formas de enrolar toalhas e lençóis, a brincadeira das fadas que vinham de outro mundo contar histórias (minha prima e minha irmã eram muito criativas), brincar de sereia, brincar de comida --- eu gostava dessas brincadeiras, mas por algum motivo eu não dava importância a elas. Acho que o fato de que nunca tinha meninos por perto quando brincávamos de pakalolo ajudava, pois eu podia baixar a guarda, e ao mesmo tempo eu lembro que se a brincadeira começava a derivar pra maquiagens e outras coisas mais "de menina", eu fugia.
Eu tinha amigas meninas na escola (eu não tinha amigos porque eu era incapaz de entender por que os meninos da escola me enchiam tanto o saco), mas pra falar a verdade eu não tinha amizades de verdade, na maior parte do tempo. A maior parte das meninas falava uma língüa que eu mal conseguia entender, até uns 12 anos de idade. Felizmente eu encontrei algumas meninas que se pareciam comigo, que detestavam coisas "de menina" e com quem eu podia jogar bola, andar de bike, e tentar, de alguma forma, procurar uma forma de lidar com toda a humilhação que era ser menina quando a coisa certa a se ser era claramente menino.
Assim, durante a pré-adolescência, quando eu estava começando a fazer amizade com garotos e gente tão deslocada quanto eu, nós descobrimos o paganismo, Brumas de Avalon, bruxas e toda uma mitologia na qual as mulheres eram o centro, na qual cada mulher era uma encarnação da Deusa. Encarar o feminino como divino ajudou muito a sobreviver à adolescência (assim como todas aquelas histórias de heroína e lobos e tudo o mais). E sobreviver à adolescência, previsivelmente, foi o tipo de desafio que requeria ajuda.
Na adolescência meu corpo começou a mostrar que eu era mulher através de peitos e pernas grossas, tudo o que eu nunca quis ter, não tanto porque era coisa de mulher mas mais porque minha irmã não tinha e eu queria ser igual a ela --- mas a mitologia da mulher-deusa me fez aceitar esse corpo como símbolo do meu poder, e cultivá-lo e amá-lo, e eu aos poucos parei de tentar me machucar. Simultaneamente, eu desenvolvi todos os pêlos do mundo, o que eu imediatamente achei o máximo porque me deixava mais parecida com um lôbo (além do mais, minha melhor amiga também era peluda). Por outro lado, eu parei de crescer, desenvolvi problemas do joelho e na coluna que me causavam dor toda vez que eu jogava bola, e rapidamente os meninos começaram a ficar mil vezes melhores que eu em tudo o que eu valorizava. Minhas "amigas" que gostavam de coisas de menina começaram a falar de garotos e romance, meus amigos começaram a se interessar por mim (o que eu detestava), e minha mãe decidiu que eu tinha que fazer todo tipo de coisa agora que eu era "mocinha".
Eu até me divertia com os vestidos de festa e maquiagem que uma amiga de mamãe fazia em mim para os casamentos e afins; mas logo depois começou a tortura de depilação, descoloração, desodorante feminino, e cada vez mais pessoas reclamando do jeito como eu me vestia, das roupas velhas, feias, furadas --- em pouco tempo eu entendi que eu não podia ter pêlos, nem cicatrizes, nem machucados nem furos nas roupas, porque tudo isso era coisa de homem, era coisa que era legal no meu irmão, mas em mim era feio. Mas, como eu disse antes, eu não conseguia entender do fundo do coração que eu era "menina" e que para mim "coisa de menina" era bom e que eu e meu irmão tínhamos que ser diferentes, eu queria as mesmas coisas que ele, eu queria ter cicatrizes legais, eu queria ser foda, eu queria me arriscar e me machucar e disputar a bola e rasgar os joelhos das calças porque isso tudo é sinal de que você tem garra. Então eu não só era chamada de "menina" como ainda levava bronca por fazer tudo o que merecia "respeito", e ainda por cima quando eu estava com meu irmão, que ainda era o cara que me tratava como igual, eu mal conseguia acompanhá-lo. E aos poucos até meus amigos nerds e esquisitos começaram a me dar uma lavada em todas as nossas corridas e lutinhas e what-not. Eu tive que começar a admitir que eu não era mais um dos garotos, e comecei a desejar ser. Meu irmão, nessa época, tinha um melhor amigo super bacana, e eles começaram a conhecer meninas também. Eu tinha uma relação estranha com o amigo do meu irmão, ora ele era como um irmão, ora eu achava que ele me via como uma mulher.
Um dia meu irmão me viu como mulher. Eu sei disso, mas eu nunca falei sobre isso com ninguém, muito menos com ele. Foi uma traição, e eu nunca perdoei meu irmão. Essa parte, essa traição, isso nunca teria acontecido se eu fosse um homem.
Toda essa história foi anos antes de eu realmente me assumir como feminista. Foi anos antes de eu me assumir como qualquer coisa. Foi antes do colegial. A partir dos catorze anos minha vida emocional foi tão intensa que todas as outras questões pareceram menos importantes no momento. O que eu notei foi uma resistência, da deusa-lôba dentro de mim, a me machucar depilando as pernas, a se disfarçar com maquiagens que eu não sabia aplicar e que deixavam ridícula. E uma miríade de sonhos e fantasias, que foram se tornando mais diversos, incluindo romance e sexo e até mesmo filhos (eventualmente netos). Mas eu queria amar e eu aos dezoito decidi fechar o teatro, cancelar todas as aventuras, e viver a "vida real". Depois disso passei mais uns bons dois anos continuando a cometer erros e crimes contra as leis da deusa-lôba, e mais uns três ou quatro numa jornada de auto-conhecimento, que me trouxeram até aqui, nua, sem deusa, sem lôba, sem herói, sem nada além do meu corpo e da minha história, e das minhas convicções políticas. Hoje em dia eu consigo usar vestidos e saias sem me sentir ridícula. Recentemente eu aprendi que posso ter pernas peludas e que posso sair sem sutiã. Eu ainda tenho dificuldades com algumas coisas bestas --- ainda não gosto de ser menina, de ser fofinha, de que me chamem pelo meu nome. Hoje em dia eu sei que eu não sou um homem, que eu jamais poderia ser homem. Por outro lado, eu não tenho mais a menor idéia do que significa ser mulher --- se eu aceitar que eu sou mulher, eu sinto que eu estou dissolvendo completamente o conceito de mulher. Ou talvez essa seja a forma de lidar com a raiva. Talvez eu só queira ser uma mulher masculina e pronto.
Voltando à pergunta: eu seria feminista se eu fosse homem? Bem, eu sei que eu sou feminista não exatamente porque eu sou mulher mas porque eu fui uma menina que queria em primeiro lugar ser um bicho, ou um garoto. Como seria a narrativa acima se eu tivesse nascido com um pintinho? Eu não teria a raiva, a insegurança, os insultos, a convicção de que o mundo estava sendo injusto comigo ao me taxar de menina... Eu acho que se eu tivesse nascido menino, eu teria me encaixado, vivido as aventuras, acompanhado os garotos. Eu não teria sofrido abuso, meu irmão e meus amigos nunca teriam deixado de me ver como um dos caras, eu não teria a pressão para entender o mundo das meninas, nem pra sofrer na mesa de depilação. Minhas calças teriam bolsos! Eu acho que se eu tivesse nascido menino eu simplesmente me sentiria mais encaixado no mundo, e teria menos motivação interna pra ser feminista.
É claro que eu poderia ser feminista mesmo assim. Mas sinto que todos os motivos pessoais que me levaram ao feminismo não estariam mais lá. Eu ainda seria feminista por motivos políticos, provavelmente, mas pra falar a verdade eu não sei se eu teria tanta convicção numa bandeira que não falasse com a minha história de vida (e talvez, também, eu fosse um garoto babaca e auto-centrado que não conseguiria ver a necessidade do feminismo). Talvez com os anos e o esclarecimento eu começasse a querer usar saia ou pintar o cabelo ou beijar garotos ou alguma outra coisa que me jogasse no feminismo. Talvez a história fosse totalmente diferente do que eu imagino. Mas tudo isso é irrelevante, porque esta é a minha história, não a de uma pessoa que nunca existiu. E esta é a minha história. Na minha história eu sou ora uma guerreira, ora uma lôba, ora uma deusa, e na minha história eu sou feminista porquê eu fui menina.
Fim.
terça-feira, 14 de maio de 2013
Mulheres (Las Cantadoras)
Estou num grupo de mulheres. Existem mulheres de todos os tipos, mulheres casadas e solteiras, mulheres que se acham crianças e mulheres que se sentem adultas, mulheres que já fizeram muito sexo e mulheres que não fizeram quase nada, mulheres altas e baixas, gordas e magras, mulheres com têmpora raspada, mulheres com cabelos compridos, mulheres que nunca se masturbaram e mulheres que se fazem gozar todo dia, mulheres que têm tesão por homem ou por mulher ou por ambos ou por todo gênero de gente, mulheres que têm filhos, mulheres que têm mãe e pai, mulheres que tiveram namorad aos doze, mulheres que deram o primeiro beijo ao dezenove, mulheres que gostam de usar cinta-pau, mulheres que gostam de dominação, mulheres que nunca viram um vibrador, mulheres que não querem que o namorado veja o que elas escrevem, mulheres que preferiam não ser mulheres, mulheres que precisam lutar para serem mulheres, mulheres que... algumas mulheres tiveram experiências muito diferentes umas das outras, e algumas pessoas querem obter esse conhecimento secreto que se passa apenas entre as mulheres, porque no mundo lá fora existe mêdo. Então uma mulher pergunta se alguma de nós conhece alguém que já contou que já passou por alguma situação abusiva, violenta, se alguém conhece alguém que já foi abusada ou violada, fisicamente, ela diz. E o coro das mulheres responde (é quase, quase um únissono) "sim, muitas, (e em muitas das nossas vozes se ouve "eu também")".
Muitas. E contamos histórias. Algumas das mulheres contam suas próprias histórias, outras dizem que preferem não contar. Algumas de nós contam histórias de pessoas muito próximas, outras de pessoas que conhecemos apenas o suficiente para confiar. Algumas das mulheres das histórias são adultas, outras são adolescentes, outras são crianças. Algumas são nossas mães, algumas são nossas irmãs, algumas são nossas amigas. Algumas histórias aconteceram muito, muito tempo atrás, e algumas aconteceream faz pouco tempo, e muitas abriram feridas que ainda não conseguimos fechar. Algumas das mulheres dizem que ainda estão tentando lidar com isso. Algumas de nós tinham muitas histórias, outras tinham poucas. Algumas de nós eram virgens, algumas vezes era pra ser a primeira vez. Algumas vezes a história nunca foi contada para nenhum homem, e algumas vezes ela foi. Algumas vezes nós contamos para nossas famílias e amigos, e eles nos apoiaram e nos protegeram. Algumas vezes nós contamos e eles nos incriminaram, ou não deram importância, ou disseram que é nossa responsabilidade superar. Algumas vezes nós não dissemos nada, com mêdo de ser culpadas, com vergonha. Algumas vezes nós queríamos proteger o agressor. Algumas vezes nós contamos para a pessoa em quem confiávamos e ela quis proteger o agressor. Algumas vezes o agressor foi o namorado, o peguete, o homem com quem queríamos trepar naquela noite; outras vezes foi um desconhecido na rua, no bar ou bala; outras vezes foi um homem raivoso, um ex-marido ou ex-amigo; outras vezes ainda foram nossos irmãos, nossos pais, nossos primos, nossos padrastos. Alguns eram meninos, alguns eram velhos, alguns eram homens com deficiências mentais e outros eram homens perfeitamente normais. Algums eram homens em quem absolutamente não confiávamos, outros eram homens em quem confiávamos plenamente, até mesmo homens que amávamos. Algumas poucas vezes era uma mulher. Algumas vezes não conseguimos culpá-los, outras vezes os odiamos para sempre. Algumas vezes tivemos que pôr nossas mãos no corpo dele, algumas vezes ele pôs suas mãos no nosso corpo, algumas vezes ele invadiu nossos corpos e nos machucou e violentou e nos deixou nos sentindo humilhadas, fracas e sujas. Algumas vezes nós não sabemos direito, porque estávamos inconscientes. Algumas vezes nós lutamos, ou gritamos, ou choramos, e pedimos pra parar. Algumas vezes nós não fizemos nada, ou não podíamos fazer nada. Algumas vezes estávamos embriagadas, outras vezes fomos drogadas, outras vezes fomos forçadas, outras vezes estávamos dormindo, e algumas vezes éramos pequenas demais para entender ou resistir. Algumas vezes nós engravidamos e abortamos, e algumas vezes nós engravidamos e tivemos o filho. Algumas vezes demoramos meses ou anos para entender a violência, e em algumas histórias durantes esses meses ou anos e até depois nós continuamos a conviver com ele, como se nada houvesse acontecido. Algumas vezes nós continuamos do lado dele, até o fim, ainda estamos convivendo com alguns deles. Algumas vezes nós ouvimos pouco tempo depois histórias semelhantes envolvendo o mesmo homem e outras mulheres. Muitas vezes nós nos culpamos por não gritar mais, por não contar para todo mundo, por sermos fracas e vulneráveis, por não correr para a delegacia da mulher. Algumas vezes nós continuamos sentindo que não temos nenhuma opção. Algumas vezes nós contamos para as pessoas em quem confiávamos, e passamos a desconfiar de que ela era uma de nós. Algumas vezes nós sentimos que ninguém mais no mundo podia imaginar que nossa história pudesse ser real.
Nenhuma vez foi nossa culpa. Nenhuma vez nós quisemos isso. Nenhuma vez nós fizemos por merecer. Entretanto nós contamos nossas histórias, umas para as outras, e às vezes eu sinto que, apesar de todas as diferenças, de diferenças de forma, de situação, de intensidade e de conseqüências, nós contamos uma única história e nós somos todas uma coisa só. É nessas horas que eu me sinto mais próxima de ser mulher --- essa hora em que eu sei que eu não poderia ser um homem porque eu bebi da fonte das histórias das mulheres que os homens não ouvem, essa hora em que eu sinto raiva e impotência e frustração porque eu faço parte de uma história que se repete sempre e que quase nunca se ouve fora das alcovas mulheris, e que na verdade mesmo entre as mulheres quase nunca se ouve, porque no resto do tempo não somos quase nada, não somos uma unidade, tudo o que nos une é nossa separação, a mediação de nossas relações pelos homens que nos rodeiam, nossos pais, nossos maridos e namorados, a mediação de nossas relações com nossas mães pela estrutura familiar patriarcal, e a mediação ne nossas relações com nossas colegas pelas necessidades de galgar a hierarquia da familidade, auto-controle e mesmo de felicidade, já que somos todas mulheres modernas e bem-resolvidas. Mas na roda de histórias não somos bem-resolvidas, somos cheias de ódio, fraqueza e frustração. E contamos nossos segredos. Às vezes me parece que sobreviver à violência faz parte da nossa identidade de gênero, que somente conseguimos nos unir quando admitimos a violência que sofremos e admitimos que ela é de todas nós. E nessas horas eu não posso ser nada além de mulher.
Se eu tivesse tido a opção, eu não teria escolhido ser feminista -- eu teria escolhido ser homem. Mas eu não tive a opção. Eu fui forçada a ser mulher, e a única forma de sobreviver sendo mulher é entrar na roda de histórias das mulheres, e ser feminista.
Muitas. E contamos histórias. Algumas das mulheres contam suas próprias histórias, outras dizem que preferem não contar. Algumas de nós contam histórias de pessoas muito próximas, outras de pessoas que conhecemos apenas o suficiente para confiar. Algumas das mulheres das histórias são adultas, outras são adolescentes, outras são crianças. Algumas são nossas mães, algumas são nossas irmãs, algumas são nossas amigas. Algumas histórias aconteceram muito, muito tempo atrás, e algumas aconteceream faz pouco tempo, e muitas abriram feridas que ainda não conseguimos fechar. Algumas das mulheres dizem que ainda estão tentando lidar com isso. Algumas de nós tinham muitas histórias, outras tinham poucas. Algumas de nós eram virgens, algumas vezes era pra ser a primeira vez. Algumas vezes a história nunca foi contada para nenhum homem, e algumas vezes ela foi. Algumas vezes nós contamos para nossas famílias e amigos, e eles nos apoiaram e nos protegeram. Algumas vezes nós contamos e eles nos incriminaram, ou não deram importância, ou disseram que é nossa responsabilidade superar. Algumas vezes nós não dissemos nada, com mêdo de ser culpadas, com vergonha. Algumas vezes nós queríamos proteger o agressor. Algumas vezes nós contamos para a pessoa em quem confiávamos e ela quis proteger o agressor. Algumas vezes o agressor foi o namorado, o peguete, o homem com quem queríamos trepar naquela noite; outras vezes foi um desconhecido na rua, no bar ou bala; outras vezes foi um homem raivoso, um ex-marido ou ex-amigo; outras vezes ainda foram nossos irmãos, nossos pais, nossos primos, nossos padrastos. Alguns eram meninos, alguns eram velhos, alguns eram homens com deficiências mentais e outros eram homens perfeitamente normais. Algums eram homens em quem absolutamente não confiávamos, outros eram homens em quem confiávamos plenamente, até mesmo homens que amávamos. Algumas poucas vezes era uma mulher. Algumas vezes não conseguimos culpá-los, outras vezes os odiamos para sempre. Algumas vezes tivemos que pôr nossas mãos no corpo dele, algumas vezes ele pôs suas mãos no nosso corpo, algumas vezes ele invadiu nossos corpos e nos machucou e violentou e nos deixou nos sentindo humilhadas, fracas e sujas. Algumas vezes nós não sabemos direito, porque estávamos inconscientes. Algumas vezes nós lutamos, ou gritamos, ou choramos, e pedimos pra parar. Algumas vezes nós não fizemos nada, ou não podíamos fazer nada. Algumas vezes estávamos embriagadas, outras vezes fomos drogadas, outras vezes fomos forçadas, outras vezes estávamos dormindo, e algumas vezes éramos pequenas demais para entender ou resistir. Algumas vezes nós engravidamos e abortamos, e algumas vezes nós engravidamos e tivemos o filho. Algumas vezes demoramos meses ou anos para entender a violência, e em algumas histórias durantes esses meses ou anos e até depois nós continuamos a conviver com ele, como se nada houvesse acontecido. Algumas vezes nós continuamos do lado dele, até o fim, ainda estamos convivendo com alguns deles. Algumas vezes nós ouvimos pouco tempo depois histórias semelhantes envolvendo o mesmo homem e outras mulheres. Muitas vezes nós nos culpamos por não gritar mais, por não contar para todo mundo, por sermos fracas e vulneráveis, por não correr para a delegacia da mulher. Algumas vezes nós continuamos sentindo que não temos nenhuma opção. Algumas vezes nós contamos para as pessoas em quem confiávamos, e passamos a desconfiar de que ela era uma de nós. Algumas vezes nós sentimos que ninguém mais no mundo podia imaginar que nossa história pudesse ser real.
Nenhuma vez foi nossa culpa. Nenhuma vez nós quisemos isso. Nenhuma vez nós fizemos por merecer. Entretanto nós contamos nossas histórias, umas para as outras, e às vezes eu sinto que, apesar de todas as diferenças, de diferenças de forma, de situação, de intensidade e de conseqüências, nós contamos uma única história e nós somos todas uma coisa só. É nessas horas que eu me sinto mais próxima de ser mulher --- essa hora em que eu sei que eu não poderia ser um homem porque eu bebi da fonte das histórias das mulheres que os homens não ouvem, essa hora em que eu sinto raiva e impotência e frustração porque eu faço parte de uma história que se repete sempre e que quase nunca se ouve fora das alcovas mulheris, e que na verdade mesmo entre as mulheres quase nunca se ouve, porque no resto do tempo não somos quase nada, não somos uma unidade, tudo o que nos une é nossa separação, a mediação de nossas relações pelos homens que nos rodeiam, nossos pais, nossos maridos e namorados, a mediação de nossas relações com nossas mães pela estrutura familiar patriarcal, e a mediação ne nossas relações com nossas colegas pelas necessidades de galgar a hierarquia da familidade, auto-controle e mesmo de felicidade, já que somos todas mulheres modernas e bem-resolvidas. Mas na roda de histórias não somos bem-resolvidas, somos cheias de ódio, fraqueza e frustração. E contamos nossos segredos. Às vezes me parece que sobreviver à violência faz parte da nossa identidade de gênero, que somente conseguimos nos unir quando admitimos a violência que sofremos e admitimos que ela é de todas nós. E nessas horas eu não posso ser nada além de mulher.
Se eu tivesse tido a opção, eu não teria escolhido ser feminista -- eu teria escolhido ser homem. Mas eu não tive a opção. Eu fui forçada a ser mulher, e a única forma de sobreviver sendo mulher é entrar na roda de histórias das mulheres, e ser feminista.
quarta-feira, 10 de abril de 2013
As Gerações e os Anos
Hoje eu estava pensando em te ligar, aí comecei a me perguntar por quê, aí pensei em tudo o que a minha vida significa hoje e ontem e sempre, e porque tudo parece tão diferente.
Eu achava que eu não tinha sonhos porque os meus sonhos eram tão gigantescos que eu não conseguia ver como eles se relacionavam à realidade. Por isso nunca nenhum deles ficou mais próximo de ser tornar real.
Quando eu entrei no Design, em 2007, eu tinha 18 anos, era virgem, tinha um namoro monogâmico, tinha pavor de qualquer coisa envolvendo bancos e burocracia e conhecia umas três linhas de ônibus que eu não sabia direito onde passavam. Eu estava habituada a ser levada e buscada pelos meus pais, a fazer festinhas de videogame na casa dos meus amigos, a ficar desenhando durante a aula porque desenhar parecia importante, aula não, mas fora da aula eu assistia TV, escrevia no blog e inventava sonhos. Eu não sei se teve um bom motivo ou se foi só porque ela tinha carro e nós precisávamos de carona, mas a coisa mais próxima que eu tinha de uma amiga no Design era a Tarsila, que tinha a idade respeitável de 23 anos, tinha acabado de se formar em Direito, e era quase uma veterana ou uma irmã mais velha da turminha nerd que pegava carona com ela. Como eu estava descobrindo como ser nerd e estava empolgada com isso, eu tinha problemas com o fato de que ela era zero nerd. Hoje em dia isso me parece um pouco ridículo.
Eu lembrei da Tarsila porque ficou na cabeça uma vez que ela estava contando do peguete novo depois de anos de um namoro que tinha começado no Direito. Ela riu e disse: "É o cara que eu tô comendo! Vou falar isso sempre." Na época eu estava apenas começando a conhecer o mundo das pessoas que efetivamente conversa sobre sexo, e eu tinha acabado de descobrir a expressão "dar" aplicada a mulheres, e eu já a odiava. Eu tinha a opinião muito estrita de que era uma questão política parar de usar essa expressão. Então eu acho que fiquei feliz ouvindo a Tarsila dizer isso. O que me perturba é que eu fiquei feliz e surpresa. Pensando bem, eu provavelmente me daria melhor com a Tarsi se eu fosse um pouco menos criança.
Eu passei muito tempo no esforço de pôr a culpa de tudo no Design e nas pessoas da FAU e dizer que fazer essa faculdade foi um erro e que minha vida teria sido melhor sem esses anos tristes. Talvez eu esteja ficando velha e chegando naquela fase em que se começa a perdoar os erros do passado e admitir que "tudo tem um propósito"... Não, acho que Design não teve nenhum propósito, nem foi particularmente engrandecedor. Provavelmente eu teria sido menos infeliz se eu tivesse tido uma coragem de última hora e preenchido a ficha de inscrição para Oceano (eu estava com essa página do manual aberta, afinal). Mas ainda teria sido uma droga em muitos aspectos.
Quer dizer, minha passagem pelo Design não foi muito diferente do resto da minha vida. Eu era infeliz pra caralho no Design, mas eu era infeliz pra caralho na adolescência também. Eu me divertia com uns poucos amigos que viviam num mundo de fantasia. Eu só me divertia porque havia fantasia. E minha maior fantasia era que um dia a fantasia virasse realidade. Eu estava disposta a sofrer se fosse pra alcançar meus sonhos fantasiosos, quero dizer, se o caminho do herói aparecesse diante de mim como ele aparece para os heróis nos filmes... Durante o colegial eu sofria pra caralho com tudo, mas eu tirava uma alegria maior de estar sempre apaixonada, sempre tentando lidar com paixões avassaladoras e tentando conquistar alguém. Era difícil se preocupar com outra coisa, e ainda por cima eu tinha coragem de chorar no colo dos meus amigos. Só que quando eu saí da escola, eu tive toda essa expectativa de virar adulta, e não deixar as pessoas me diminuírem, e aprender a dirigir e a usar o banco e andar de ônibus e conhecer a cidade e fazer amigos sem ajuda de ninguém e, e, e. E é claro que além disso minhas aulas noturnas não me permitiam ver minha família nem meus amigos, de forma que eu fiquei sozinha, e aos poucos eu parei de ter amigos daquela forma que eu tinha no colegial. Ou talvez eu tenha decidido concientemente abandonar esses amigos, eu não me lembro. Eu me lembro que eu me obriguei a parar de fantasiar, porque eu precisava me tornar real, e eu me obriguei a parar de machucar as pessoas e a deixá-las sempre em dúvida. Mas no fundo o que eu me lembro mais nitidamente é que eu não confiava em ninguém, nessa época. E nenhuma dessas coisas parece ter relação com o Design.
Eu de vez em quando lembro de uma coisa que eu cantava, no auge do meu desespero por me dar conta de que eu não tinha nenhum amigo de verdade na faculdade. Era uma coisa assim:
"Don't take me back
Don't take me home
Let me stay here
a little longer
Don't take me back
To where I come from
Let me become
a little stronger
'Cause I know I can be what you want of me
I won't be lonely if only you let me be
Don't take me back
Don't take me home"
Eu odiava estar ali, é verdade. Eu era péssima naquilo e eu sabia. Eu não ia jamais cumprir o meu objetivo inicial de mudar o mundo com o Design. Meus amigos não tinham nada a ver comigo e não entendiam quem eu era. Mas, sei lá, hoje eu teria me dado bem com eles, eu acho. Hoje eu não preciso de gente que me entenda, ou se pá eu achei essas pessoas, e elas não estão no IME (talvez no CM, talvez). Eu continuo não tendo amigos na faculdade. Meus amigos de verdade da época continuam sendo pessoas incríveis, e eles teriam bastado se eu não tivesse me imposto que eu precisava ser capaz de fazer amigos incríveis onde quer que eu fosse. E se eu não tivesse me forçado a ser uma boa namorada e nunca mais machucar meu namorado (porque eu achava que eu devia isso a ele), eu poderia ter perseguido todas as minhas mil paixões da época com menos mêdo. Acho que qualquer curso que eu fizesse teria sido igualmente horrível nesse aspecto. E francamente, talvez qualquer curso me desse a mesma sensação de "eu não sou igual às outras pessoas daqui e eu não nasci pra fazer a mesma coisa que elas fazem". Na verdade, a única saída teria sido não ir pra faculdade, ir pra algum lugar onde as pessoas nem queiram ser tão iguais umas às outras. Não sei se existe um lugar abençoado assim.
Bateu uma saudade de algumas coisas da época do Design. Alguns amigos, algumas paixões. Eu me odiava, mas eu não odiava tudo. Eu queria ter, sei lá, aproveitado melhor. Bebido mais. Tido menos mêdo. Beijado aquele menino que às vezes me tirava do desespêro me chamando pra brincar de pega-pega. Eu queria ter raspado o cabelo quando eu quis, e ter ido na balada gay. Eu queria ter dito alguma coisa, pra alguém. É engraçado como eu acho que se eu tivesse os amigos que eu tenho hoje, seria diferente. Mas será que eu confiaria neles? E eles em mim?
Se pá eu só queria que eu tivesse não parado de sonhar, apenas começado a de fato tornar meus sonhos realidade, custasse o que custasse.
Eu achava que eu não tinha sonhos porque os meus sonhos eram tão gigantescos que eu não conseguia ver como eles se relacionavam à realidade. Por isso nunca nenhum deles ficou mais próximo de ser tornar real.
Quando eu entrei no Design, em 2007, eu tinha 18 anos, era virgem, tinha um namoro monogâmico, tinha pavor de qualquer coisa envolvendo bancos e burocracia e conhecia umas três linhas de ônibus que eu não sabia direito onde passavam. Eu estava habituada a ser levada e buscada pelos meus pais, a fazer festinhas de videogame na casa dos meus amigos, a ficar desenhando durante a aula porque desenhar parecia importante, aula não, mas fora da aula eu assistia TV, escrevia no blog e inventava sonhos. Eu não sei se teve um bom motivo ou se foi só porque ela tinha carro e nós precisávamos de carona, mas a coisa mais próxima que eu tinha de uma amiga no Design era a Tarsila, que tinha a idade respeitável de 23 anos, tinha acabado de se formar em Direito, e era quase uma veterana ou uma irmã mais velha da turminha nerd que pegava carona com ela. Como eu estava descobrindo como ser nerd e estava empolgada com isso, eu tinha problemas com o fato de que ela era zero nerd. Hoje em dia isso me parece um pouco ridículo.
Eu lembrei da Tarsila porque ficou na cabeça uma vez que ela estava contando do peguete novo depois de anos de um namoro que tinha começado no Direito. Ela riu e disse: "É o cara que eu tô comendo! Vou falar isso sempre." Na época eu estava apenas começando a conhecer o mundo das pessoas que efetivamente conversa sobre sexo, e eu tinha acabado de descobrir a expressão "dar" aplicada a mulheres, e eu já a odiava. Eu tinha a opinião muito estrita de que era uma questão política parar de usar essa expressão. Então eu acho que fiquei feliz ouvindo a Tarsila dizer isso. O que me perturba é que eu fiquei feliz e surpresa. Pensando bem, eu provavelmente me daria melhor com a Tarsi se eu fosse um pouco menos criança.
Eu passei muito tempo no esforço de pôr a culpa de tudo no Design e nas pessoas da FAU e dizer que fazer essa faculdade foi um erro e que minha vida teria sido melhor sem esses anos tristes. Talvez eu esteja ficando velha e chegando naquela fase em que se começa a perdoar os erros do passado e admitir que "tudo tem um propósito"... Não, acho que Design não teve nenhum propósito, nem foi particularmente engrandecedor. Provavelmente eu teria sido menos infeliz se eu tivesse tido uma coragem de última hora e preenchido a ficha de inscrição para Oceano (eu estava com essa página do manual aberta, afinal). Mas ainda teria sido uma droga em muitos aspectos.
Quer dizer, minha passagem pelo Design não foi muito diferente do resto da minha vida. Eu era infeliz pra caralho no Design, mas eu era infeliz pra caralho na adolescência também. Eu me divertia com uns poucos amigos que viviam num mundo de fantasia. Eu só me divertia porque havia fantasia. E minha maior fantasia era que um dia a fantasia virasse realidade. Eu estava disposta a sofrer se fosse pra alcançar meus sonhos fantasiosos, quero dizer, se o caminho do herói aparecesse diante de mim como ele aparece para os heróis nos filmes... Durante o colegial eu sofria pra caralho com tudo, mas eu tirava uma alegria maior de estar sempre apaixonada, sempre tentando lidar com paixões avassaladoras e tentando conquistar alguém. Era difícil se preocupar com outra coisa, e ainda por cima eu tinha coragem de chorar no colo dos meus amigos. Só que quando eu saí da escola, eu tive toda essa expectativa de virar adulta, e não deixar as pessoas me diminuírem, e aprender a dirigir e a usar o banco e andar de ônibus e conhecer a cidade e fazer amigos sem ajuda de ninguém e, e, e. E é claro que além disso minhas aulas noturnas não me permitiam ver minha família nem meus amigos, de forma que eu fiquei sozinha, e aos poucos eu parei de ter amigos daquela forma que eu tinha no colegial. Ou talvez eu tenha decidido concientemente abandonar esses amigos, eu não me lembro. Eu me lembro que eu me obriguei a parar de fantasiar, porque eu precisava me tornar real, e eu me obriguei a parar de machucar as pessoas e a deixá-las sempre em dúvida. Mas no fundo o que eu me lembro mais nitidamente é que eu não confiava em ninguém, nessa época. E nenhuma dessas coisas parece ter relação com o Design.
Eu de vez em quando lembro de uma coisa que eu cantava, no auge do meu desespero por me dar conta de que eu não tinha nenhum amigo de verdade na faculdade. Era uma coisa assim:
"Don't take me back
Don't take me home
Let me stay here
a little longer
Don't take me back
To where I come from
Let me become
a little stronger
'Cause I know I can be what you want of me
I won't be lonely if only you let me be
Don't take me back
Don't take me home"
Eu odiava estar ali, é verdade. Eu era péssima naquilo e eu sabia. Eu não ia jamais cumprir o meu objetivo inicial de mudar o mundo com o Design. Meus amigos não tinham nada a ver comigo e não entendiam quem eu era. Mas, sei lá, hoje eu teria me dado bem com eles, eu acho. Hoje eu não preciso de gente que me entenda, ou se pá eu achei essas pessoas, e elas não estão no IME (talvez no CM, talvez). Eu continuo não tendo amigos na faculdade. Meus amigos de verdade da época continuam sendo pessoas incríveis, e eles teriam bastado se eu não tivesse me imposto que eu precisava ser capaz de fazer amigos incríveis onde quer que eu fosse. E se eu não tivesse me forçado a ser uma boa namorada e nunca mais machucar meu namorado (porque eu achava que eu devia isso a ele), eu poderia ter perseguido todas as minhas mil paixões da época com menos mêdo. Acho que qualquer curso que eu fizesse teria sido igualmente horrível nesse aspecto. E francamente, talvez qualquer curso me desse a mesma sensação de "eu não sou igual às outras pessoas daqui e eu não nasci pra fazer a mesma coisa que elas fazem". Na verdade, a única saída teria sido não ir pra faculdade, ir pra algum lugar onde as pessoas nem queiram ser tão iguais umas às outras. Não sei se existe um lugar abençoado assim.
Bateu uma saudade de algumas coisas da época do Design. Alguns amigos, algumas paixões. Eu me odiava, mas eu não odiava tudo. Eu queria ter, sei lá, aproveitado melhor. Bebido mais. Tido menos mêdo. Beijado aquele menino que às vezes me tirava do desespêro me chamando pra brincar de pega-pega. Eu queria ter raspado o cabelo quando eu quis, e ter ido na balada gay. Eu queria ter dito alguma coisa, pra alguém. É engraçado como eu acho que se eu tivesse os amigos que eu tenho hoje, seria diferente. Mas será que eu confiaria neles? E eles em mim?
Se pá eu só queria que eu tivesse não parado de sonhar, apenas começado a de fato tornar meus sonhos realidade, custasse o que custasse.
terça-feira, 26 de março de 2013
Mow
Hoje a coisa mais adirável do mundo morreu.
Como eu estava dizendo prum amigo, a Gatinha foi um filhote fofo e uma gata masoquista que robronava quando a gente tropeçava nela ou quando a gente jogava ela pra cima.
Depois ela cresceu e dominou todas as gatas através de violência e agressividade. Impressionante como algo tão pequeno podia ter tanta ferocidade.
Mas no fim ela era a coisa mais adorável do mundo, a gata mais pequena a abraçável e com pêlos fofos e cheirosa e mordível e ainda brincalhona mesmo quando era claramente difícil pra ela se movimentar.
Eu queria ter percebido que ela tava mal há semanas, quando ela vomitou duas vezes no mesmo dia, ou quando o pêlo dela ficou mais escuro e mais oleosos do que jamais tinha ficado, ou pelo menos ontem mais cedo... Quando ela miou com voz de "estou morrendo"... Eu vou ser uma dona de gatas melhor no futuro. Se bem que agora eu mal consigo imaginar o futuro.
O mundo fica meio idiota, meio vazio, quando alguém que você ama e que você abraça todo dia morre.
E eu vou sentir uma puta falta de apertar esse pêlo fofo contra a minha cara :(
Como eu estava dizendo prum amigo, a Gatinha foi um filhote fofo e uma gata masoquista que robronava quando a gente tropeçava nela ou quando a gente jogava ela pra cima.
Depois ela cresceu e dominou todas as gatas através de violência e agressividade. Impressionante como algo tão pequeno podia ter tanta ferocidade.
Mas no fim ela era a coisa mais adorável do mundo, a gata mais pequena a abraçável e com pêlos fofos e cheirosa e mordível e ainda brincalhona mesmo quando era claramente difícil pra ela se movimentar.
Eu queria ter percebido que ela tava mal há semanas, quando ela vomitou duas vezes no mesmo dia, ou quando o pêlo dela ficou mais escuro e mais oleosos do que jamais tinha ficado, ou pelo menos ontem mais cedo... Quando ela miou com voz de "estou morrendo"... Eu vou ser uma dona de gatas melhor no futuro. Se bem que agora eu mal consigo imaginar o futuro.
O mundo fica meio idiota, meio vazio, quando alguém que você ama e que você abraça todo dia morre.
E eu vou sentir uma puta falta de apertar esse pêlo fofo contra a minha cara :(
terça-feira, 19 de março de 2013
Mulher Não Sabe Brincar
Mulher não sabe brincar.
Não dá pra brincar com mulher.
Mulher leva tudo à sério. Mulher é séria demais.
Mulher não entende que a graça está em ser escroto.
Mulher não entende que homem não pensa assim de verdade.
Mulher não sabe entrar na brincadeira.
Mulher bate forte demais.
Mulher não entende que não é pra machucar.
Mulher não entende que é pra xingar, não pra ofender.
Mulher acha que é sério.
Quando homem bate de brincadeira, mulher revida a sério.
Mulher não entende a brincadeira.
Mulher é violenta demais.
Mulher é nervosa demais.
Mulher é histérica demais.
O cara tava só falando, não tinha porque ela partir pra agressão física.
Não dá pra brincar com mulher.
Mulher leva tudo à sério. Mulher é séria demais.
Mulher não entende que a graça está em ser escroto.
Mulher não entende que homem não pensa assim de verdade.
Mulher não sabe entrar na brincadeira.
Mulher bate forte demais.
Mulher não entende que não é pra machucar.
Mulher não entende que é pra xingar, não pra ofender.
Mulher acha que é sério.
Quando homem bate de brincadeira, mulher revida a sério.
Mulher não entende a brincadeira.
Mulher é violenta demais.
Mulher é nervosa demais.
Mulher é histérica demais.
O cara tava só falando, não tinha porque ela partir pra agressão física.
segunda-feira, 18 de março de 2013
Heart's Desire?
Isto foi quinta ou sexta passada... Depois de você me dar um bolo, e de eu procurá-la para me consolar e de ela me procurar por sua causa. Depois de conversar com ela. Eu tive dois ou três sonhos com ela, cada um mais interessante que o anterior. No primeiro sonho, duas semanas atrás, logo depois de conhecê-la, eu decidia que eu não me interessava mais por homens, por causa dela. Neste sonho...
Era uma casa de praia ou algo assim. Havia várias garotas, amigas de amigos, que haviam me sido apresentadas naquele dia. Lindas (como as garotas que você me apresenta costumam ser, não?). Eu queria seduzi-las, queria tocá-las, todas ou uma de cada vez, enquanto nós estávamos sentadas no chão dessa espécie de cabana num sítio. Elas... não sei, talvez elas refutassem meus sinais. Ou talvez elas aceitassem-nos, mas levemente, sem compromisso, sem -- sem darem-se, entende? Frustrada, eu me afastei, alguém -- um homem, talvez ele, talvez você -- me chamou. Esse homem me chamou debaixo do batente da porta, um lugar escuro, entre a sala e a varanda, e, das sombras, me ofereceu algo para tomar -- um beijo, talvez -- e me disse: "Com isto, você vai sair deste sonho e sonhar com aquilo que você mais deseja." Eu sorvi (um beijo?) cheia de dúvidas, curiosa, queria mesmo descobrir meu maior desejo, mas será que essas coisas mágicas funcionam? Saí da cabana, lá fora fazia sol, era bonito, minha mãe e meus irmãos -- ainda meio crianças -- conversavam alegres e despreocupados ao redor de uma daquelas mesas de madeiras pesadas que meu avô (foi mesmo meu avô?) fez a partir de caixotões tirados de navios (ou era outra a história?). Ao lado de minha mãe, que vestia aquele vestido de flores rosas que ela ainda tem, estava meu primo, o Urso. Meu coração se apertou um pouco com a visão, saudades, compreensão, mas que sonho mais óbvio.. É claro que ao lado deles, sentada em cadeira de praia, usando biquíni desconjuntado de tecidos engruvinhados (um sutiã com um motivo complexo, verde escuro, uma calcinha preta, por exemplo) e um chapéu de palha, estava minha tia, jovem, magra, meio vermelha de sol e coberta de pintas, com o cabelo castanho comprido e ondulado, falando alguma coisa naquela voz dela -- aquela Voz que ela tinha. Do lado dela a Puca com cara de senhora, aquele cabelo comprido de Branca de Neve, um vestido longo sério e primaveril, nada parecida com a imagem que eu tenho de verdade dela. Que grande mágica, esta, eu pensava meio amargurada, enquanto iam aparecendo os outros personagens desta cena idílica, Max, Sé, Rita... Mêdo e saudade -- que previsível! -- virei a cara e fui na outra direção. O sonho atrás de mim silenciou, eu sabia que estava acordando, quando vi a moto na minha frente meu primeiro pensamento foi "Agora não, estou acordada, não vou mais conseguir descobrir meu maior desejo de verdade!"
Montei na moto -- uma moto grande para mim, com tinta metalizada, design agressivo e... e uma cestinha de bicicleta, dessa que nossas bikes tinham quando a gente era pequeno e ia passear em Santo Amaro, ficar dando voltas no campinho de futebol. Montei na minha moto linda e disparei, saltando da varanda, descendo a escada, atravessando um jardim suspeitamente parecido com o da minha avó morta, subindo uma ladeira que era mais um muro para sair no caminhozinho (que de fato existia na casa da minha avó) que ia levar a (a casinha de telhado em V onde dormia a empregada) o Castelo.
Eu ri comigo mesma agora que eu sabia que eu estava num sonho, e mais que isso, que eu era A Lôba, que meus poderes super-heróicos me permitiriam vencer qualquer desafio, salvar todos os meus amigos, e ser admirada, reconhecida e às vezes respeitosamente temida. O Caminho era reto, estreito e longo, dentro de uma Mata Atlântica escura, como numa trilha que fazemos por lugares bonitos e conservados. Por essa estrada passavam umas pessoas tristes, do lado direito, em fila única, mas afastadas em intervalos irregulares, porque caminhavam sozinhas. A pessoa logo à minha frente, eu vi quando decidi ultrapassá-la, era ela. Ela usava um capuz, mas por baixo do capuz eu vi seu cabelo tão loiro que brilhava como num quadro do Rembrant. Mas não era ela, ela. Ela estava triste, mas eu não. Eu sou invencível. Eu chamei-a para subir na moto comigo, trocamos algumas palavras, na minha frente, pelo lado esquerdo, vinha um caminhão pela outra mão. Urgi; ela subiu, de túnica mesmo, e disparamos, desviando das pobres pessoas que tinham que aguentar o caminho e o aperto do caminhão. Disparamos, e no final daquela trilha reta estava O Castelo, alto, cheio de torres imponentes, um castelo Disney só que negro, numa perspectiva estranha como num quadrinho, para ressaltar o portão enorme na frente (aliás, falando em portões, me lembre de contar a história do jogo dos Pôneis). Na frente do portão, estavam os Guardas, um vestindo uma armadura de placas lisas de madeira, e o outro usando uma armadura estranha, que tinha bolas ocas como seios no peito, e no cinturão tinha uma tora de madeira que queria significar um pênis gigante. Tive a impressão de que esse guarda tinha peitos, mas não achei que fosse uma mulher.
Estávamos numa casa de campo de algum tipo, com quartos de visita e armários vazios. Fomos lutando com os guardas, usando paus contra os bastões e a armadura deles, casa adentro. Eu e ela nos separamos, havia um terceiro homem, e ela estava lutando com ele enquanto eu lutava com os dois guardas -- uma luta estranha, ritual, que foi misturando danças sexuais envolvendo a estranha armadura-arma que ele usava, aquele pênis gigante ora servia como um bastão ou um porrete, ora como um pau. Até que o outro guarda, o do peito plano, apareceu gritando e fazendo um escarcéu, que eu era uma vadia, que queria roubar o homem dele (acho que então eram um casal gay), e querendo me bater, me matar, briguei com ele (eu sou invencível) enquanto o convencia de que não, seu maluco, é só uma dança-luta-ritual, não estamos fazendo sexo, puxa vida. Subjuguei o casal de guardas e fui procurar por ela, que estava tentando assassinar um homem, batendo nele e jogando coisas de vidro na cabeça dele. Tentamos impedi-la, eu e -- outro homem -- tentamos convencê-la de que ela não precisava matar, nós nem estávamos entendendo o que estava acontecendo. Ela jogou um aquário gigante na cabeça do moço desacordado, e a cabeça dele rolou pelo chão. Eu me desesperei por um momento, mas ela começou a chorar de novo, disse que era de mentira, o moço de verdade estava escondido (desacordado) debaixo da cama, ela nem coragem de matá-lo tinha, que merda ter tanto ódio e sequer conseguir dar o troco que merece.
E como costuma acontecer com os sonhos interessantes, esse também nem acabou, e eu acordei.
Era uma casa de praia ou algo assim. Havia várias garotas, amigas de amigos, que haviam me sido apresentadas naquele dia. Lindas (como as garotas que você me apresenta costumam ser, não?). Eu queria seduzi-las, queria tocá-las, todas ou uma de cada vez, enquanto nós estávamos sentadas no chão dessa espécie de cabana num sítio. Elas... não sei, talvez elas refutassem meus sinais. Ou talvez elas aceitassem-nos, mas levemente, sem compromisso, sem -- sem darem-se, entende? Frustrada, eu me afastei, alguém -- um homem, talvez ele, talvez você -- me chamou. Esse homem me chamou debaixo do batente da porta, um lugar escuro, entre a sala e a varanda, e, das sombras, me ofereceu algo para tomar -- um beijo, talvez -- e me disse: "Com isto, você vai sair deste sonho e sonhar com aquilo que você mais deseja." Eu sorvi (um beijo?) cheia de dúvidas, curiosa, queria mesmo descobrir meu maior desejo, mas será que essas coisas mágicas funcionam? Saí da cabana, lá fora fazia sol, era bonito, minha mãe e meus irmãos -- ainda meio crianças -- conversavam alegres e despreocupados ao redor de uma daquelas mesas de madeiras pesadas que meu avô (foi mesmo meu avô?) fez a partir de caixotões tirados de navios (ou era outra a história?). Ao lado de minha mãe, que vestia aquele vestido de flores rosas que ela ainda tem, estava meu primo, o Urso. Meu coração se apertou um pouco com a visão, saudades, compreensão, mas que sonho mais óbvio.. É claro que ao lado deles, sentada em cadeira de praia, usando biquíni desconjuntado de tecidos engruvinhados (um sutiã com um motivo complexo, verde escuro, uma calcinha preta, por exemplo) e um chapéu de palha, estava minha tia, jovem, magra, meio vermelha de sol e coberta de pintas, com o cabelo castanho comprido e ondulado, falando alguma coisa naquela voz dela -- aquela Voz que ela tinha. Do lado dela a Puca com cara de senhora, aquele cabelo comprido de Branca de Neve, um vestido longo sério e primaveril, nada parecida com a imagem que eu tenho de verdade dela. Que grande mágica, esta, eu pensava meio amargurada, enquanto iam aparecendo os outros personagens desta cena idílica, Max, Sé, Rita... Mêdo e saudade -- que previsível! -- virei a cara e fui na outra direção. O sonho atrás de mim silenciou, eu sabia que estava acordando, quando vi a moto na minha frente meu primeiro pensamento foi "Agora não, estou acordada, não vou mais conseguir descobrir meu maior desejo de verdade!"
Montei na moto -- uma moto grande para mim, com tinta metalizada, design agressivo e... e uma cestinha de bicicleta, dessa que nossas bikes tinham quando a gente era pequeno e ia passear em Santo Amaro, ficar dando voltas no campinho de futebol. Montei na minha moto linda e disparei, saltando da varanda, descendo a escada, atravessando um jardim suspeitamente parecido com o da minha avó morta, subindo uma ladeira que era mais um muro para sair no caminhozinho (que de fato existia na casa da minha avó) que ia levar a (a casinha de telhado em V onde dormia a empregada) o Castelo.
Eu ri comigo mesma agora que eu sabia que eu estava num sonho, e mais que isso, que eu era A Lôba, que meus poderes super-heróicos me permitiriam vencer qualquer desafio, salvar todos os meus amigos, e ser admirada, reconhecida e às vezes respeitosamente temida. O Caminho era reto, estreito e longo, dentro de uma Mata Atlântica escura, como numa trilha que fazemos por lugares bonitos e conservados. Por essa estrada passavam umas pessoas tristes, do lado direito, em fila única, mas afastadas em intervalos irregulares, porque caminhavam sozinhas. A pessoa logo à minha frente, eu vi quando decidi ultrapassá-la, era ela. Ela usava um capuz, mas por baixo do capuz eu vi seu cabelo tão loiro que brilhava como num quadro do Rembrant. Mas não era ela, ela. Ela estava triste, mas eu não. Eu sou invencível. Eu chamei-a para subir na moto comigo, trocamos algumas palavras, na minha frente, pelo lado esquerdo, vinha um caminhão pela outra mão. Urgi; ela subiu, de túnica mesmo, e disparamos, desviando das pobres pessoas que tinham que aguentar o caminho e o aperto do caminhão. Disparamos, e no final daquela trilha reta estava O Castelo, alto, cheio de torres imponentes, um castelo Disney só que negro, numa perspectiva estranha como num quadrinho, para ressaltar o portão enorme na frente (aliás, falando em portões, me lembre de contar a história do jogo dos Pôneis). Na frente do portão, estavam os Guardas, um vestindo uma armadura de placas lisas de madeira, e o outro usando uma armadura estranha, que tinha bolas ocas como seios no peito, e no cinturão tinha uma tora de madeira que queria significar um pênis gigante. Tive a impressão de que esse guarda tinha peitos, mas não achei que fosse uma mulher.
Estávamos numa casa de campo de algum tipo, com quartos de visita e armários vazios. Fomos lutando com os guardas, usando paus contra os bastões e a armadura deles, casa adentro. Eu e ela nos separamos, havia um terceiro homem, e ela estava lutando com ele enquanto eu lutava com os dois guardas -- uma luta estranha, ritual, que foi misturando danças sexuais envolvendo a estranha armadura-arma que ele usava, aquele pênis gigante ora servia como um bastão ou um porrete, ora como um pau. Até que o outro guarda, o do peito plano, apareceu gritando e fazendo um escarcéu, que eu era uma vadia, que queria roubar o homem dele (acho que então eram um casal gay), e querendo me bater, me matar, briguei com ele (eu sou invencível) enquanto o convencia de que não, seu maluco, é só uma dança-luta-ritual, não estamos fazendo sexo, puxa vida. Subjuguei o casal de guardas e fui procurar por ela, que estava tentando assassinar um homem, batendo nele e jogando coisas de vidro na cabeça dele. Tentamos impedi-la, eu e -- outro homem -- tentamos convencê-la de que ela não precisava matar, nós nem estávamos entendendo o que estava acontecendo. Ela jogou um aquário gigante na cabeça do moço desacordado, e a cabeça dele rolou pelo chão. Eu me desesperei por um momento, mas ela começou a chorar de novo, disse que era de mentira, o moço de verdade estava escondido (desacordado) debaixo da cama, ela nem coragem de matá-lo tinha, que merda ter tanto ódio e sequer conseguir dar o troco que merece.
E como costuma acontecer com os sonhos interessantes, esse também nem acabou, e eu acordei.
segunda-feira, 11 de março de 2013
Trecho de Conversa na fila do bandeijão
--- Sabe aquele livro, "Equações Diferenciais e Aplicações"?
--- --McFLYYYYY!!
--- ... Calma, cara, é a cafeína fazendo efeito, relaxa...
... o.O
--- --McFLYYYYY!!
--- ... Calma, cara, é a cafeína fazendo efeito, relaxa...
... o.O
sexta-feira, 8 de março de 2013
Cansei deste poema
Here have I waited, sweetened and sad
Gone is the poisonous tongue I once had
Gone is the fury and gone is the youth
And now I'm a creature of love, to booth
Oh, here sit I, humming, humbled and shy
I've lost that thunderous voice, my pride
You can't hear the hunger, the shuddering howl
The sound to which everything instantly bowed
Now you see me here, wrinkled and grey
My hide lost it's luster somewhen on the way
You can't hear the hunger, you can't see my claws
My fangs, they're hanging on a devil's walls
You hear me here, off-tune and coarse
I'm old and cursing my final course
You can't hear the hunger, you can't hear the pride
But hear my tale, my one last ride:
I was a wolfness in lives before
I hunted with the wolves of lore
By scent I tracked the stealthful prey
I killed by night; I slept by day
We were the Beasts, the kings of old!
We were in all the tales told
And as we strode on across the night
The men would sing about our might:
"Their claws are keen to cut
Their fangs are keen to kill
And all the creatures, great and small
Are subject to their will"
I was a devil in times long gone
The fiercest preys I would hunt alone
In pitch black nights, I was but a ghost
The Dead Moon's child, stronger than a host
A was a Might, a Queen of old!
A force of nature nothing could hold
And all the creatures, both man and beast
Were doomed to someday become my feast
My claws were made to cut
My fangs were made to kill
And all the creatures great and small
Were fearfull of my will
I was a huntress in those dead days
My thoughts were only for mates and preys
I'd howl and hunt for yet many nights
Before I fought that last fight of fights
I was a goddess, I knew no fear
The woods would freeze when I strolled near
But once, I woke up, sun was high
I heard a singing, it was but a sigh
A quiet whisper meant just for me
From some foul spirit I could not see
The voice was coming from nowhere near
And still I heard it ringing clear:
"I am the prey that you cannot kill
I am a prisioner of your will
I'll be your fangs when you miss the pounce
And when you fall I'll be free to bounce"
For many days after that I'd wake
As if under spells that I could not breake
I should find that devil or else go insane
So I went on seeking it's crazy bane
(Até aqui eu acho este poema pomposo e meio adolescente, mas ainda gostosinho. A partir daqui eu efetivamente desgosto dele)
Through my dreams I sought it, and through the land
I left behind my woods and my band
I had no roots now, as the breeze
But in my freedom, I'd often freeze
I'd stop to listen to the wild's song
And fear that the devil would sing along
Many days came that were silent ones
But all my peace in sleep was gone
Untill I woke up, the day was clear
I heard the voice that had made me know fear:
"I am the prey that you cannot kill
I am a prisioner of your will
In days of old I was kept in deep
But I've found freedom in your sleep"
So on I travelled across the woods
Stopping not even for drinks or food
And terrified of the thought of sleeping
For being awake was all that was keeping
That dreadful devil from getting free
And who could tell what he'd do to me?
He'd be my prey so I could not kill?
He was undermining my will
I was afraid, I, Great among great!
But I should hunt him, I should not wait
For the foul spirit to make me fall
For I was huntress of great and small!
My claws were meant to cut
My teeth were meant to kill
And even that mischievous ghoul
Was a prisioner of my will
I travelled to a house of ore
With golden gorgoiles at it's door
When I was younger, there lived a friend
Whom I had hoped could fight the fiend
I asked of Haali, the One Who Sees
A lucid dream in which I would be
The One of Power, as legends told
The Mother was, when she could all hold.
She said, "Be careful, for you will find
That is no power to hide behind;
The Might of All is trecherous might
It will turn dream into unending night
To avoid this fate, be always aware,
Chase not the songbird, follow no hare
And keep away from the Silent One."
She said no more, as she let me drink
A sip of wine from another dream
And then I was, and I was there
In dream that would become nightmare
And I had power to call her name
That spirit-voice that I had to tame
She came, she did, as a dancing dove,
And singing a song about her love
"His eyes are meant to glance
His hands are meant to touch
And if I gave my life for him
I wouldn't miss it much"
I stared at her, astounded
She stoped — a yard away
The air between us smelled of prey
And all my fears seemed unfounded
So I pounced — with might and grace
My fangs aimed for her blood
But away I landed with a thud
My eyes blinded by his face
His eyes were made of Sky
His mouth was made of Sea
And I wished I were a sailor so
He'd be surrounding me
He was standing by an ancient tree
We were all in some perfect prayrie
Suddenly: the land swirled into blue
And the trees merged into an endless pool
(O objetivo a partir daqui é que houvesse uma batalha de sonhos, a partir da qual a Loba se apaixonaria por esse moço,
e trocaria de lugar com a pombinha do sonho. Very well.)
He glanced at me - he did! - surprised
As all around us great waves rised
I dreamed us creatures of the sea
And he dived into the blue with me
We danced underneath the waves
And around the seimsisk forests
And I forgot all of my glory days
I had love - I forgot the rest!
He never spoke nor made a sound
But there was water all around
And I was blindly trusting him
- this creature from my dream.
But he had power (had I known!)
To call the one I had ran from
She came, she did, as a diving doe
And singing a song about her woe
"I was a wolfness once -- I was!
With might and hide and fangs and claws
But love destroys us -- yes, it does!
And it turned into hooves my paws
Now I can't hunt, and I can't howl
My pack must be long gone
I lived here with my Silent, now
You left me all alone"
At first I laughed at her
But I couldn't help but picture
And when I looked back at her
Well--
She rised - a wolf, a Beast!
And she looked at us - a Feast!
But she rised from off the sea
and she sang, just as she left me:
"You are the prey that I cannot kill
I am a prisioner of your will
You are my fang every time I pounce
And when I fall you can make me bounce"
I tried to feel horrified
As I slowly realized
That I had been left behind
And was trapped inside my mind
But I saw the Silent One
And I still longed for his touch
And if all my tale came undone
Well, I wouldn't miss it much
(bla bla blá)
"I am the prey you cannot kill
I am a prisioner of your will
I am your fang, though I cannot prey
I am a visitor here, today"
Gone is the poisonous tongue I once had
Gone is the fury and gone is the youth
And now I'm a creature of love, to booth
Oh, here sit I, humming, humbled and shy
I've lost that thunderous voice, my pride
You can't hear the hunger, the shuddering howl
The sound to which everything instantly bowed
Now you see me here, wrinkled and grey
My hide lost it's luster somewhen on the way
You can't hear the hunger, you can't see my claws
My fangs, they're hanging on a devil's walls
You hear me here, off-tune and coarse
I'm old and cursing my final course
You can't hear the hunger, you can't hear the pride
But hear my tale, my one last ride:
I was a wolfness in lives before
I hunted with the wolves of lore
By scent I tracked the stealthful prey
I killed by night; I slept by day
We were the Beasts, the kings of old!
We were in all the tales told
And as we strode on across the night
The men would sing about our might:
"Their claws are keen to cut
Their fangs are keen to kill
And all the creatures, great and small
Are subject to their will"
I was a devil in times long gone
The fiercest preys I would hunt alone
In pitch black nights, I was but a ghost
The Dead Moon's child, stronger than a host
A was a Might, a Queen of old!
A force of nature nothing could hold
And all the creatures, both man and beast
Were doomed to someday become my feast
My claws were made to cut
My fangs were made to kill
And all the creatures great and small
Were fearfull of my will
I was a huntress in those dead days
My thoughts were only for mates and preys
I'd howl and hunt for yet many nights
Before I fought that last fight of fights
I was a goddess, I knew no fear
The woods would freeze when I strolled near
But once, I woke up, sun was high
I heard a singing, it was but a sigh
A quiet whisper meant just for me
From some foul spirit I could not see
The voice was coming from nowhere near
And still I heard it ringing clear:
"I am the prey that you cannot kill
I am a prisioner of your will
I'll be your fangs when you miss the pounce
And when you fall I'll be free to bounce"
For many days after that I'd wake
As if under spells that I could not breake
I should find that devil or else go insane
So I went on seeking it's crazy bane
(Até aqui eu acho este poema pomposo e meio adolescente, mas ainda gostosinho. A partir daqui eu efetivamente desgosto dele)
Through my dreams I sought it, and through the land
I left behind my woods and my band
I had no roots now, as the breeze
But in my freedom, I'd often freeze
I'd stop to listen to the wild's song
And fear that the devil would sing along
Many days came that were silent ones
But all my peace in sleep was gone
Untill I woke up, the day was clear
I heard the voice that had made me know fear:
"I am the prey that you cannot kill
I am a prisioner of your will
In days of old I was kept in deep
But I've found freedom in your sleep"
So on I travelled across the woods
Stopping not even for drinks or food
And terrified of the thought of sleeping
For being awake was all that was keeping
That dreadful devil from getting free
And who could tell what he'd do to me?
He'd be my prey so I could not kill?
He was undermining my will
I was afraid, I, Great among great!
But I should hunt him, I should not wait
For the foul spirit to make me fall
For I was huntress of great and small!
My claws were meant to cut
My teeth were meant to kill
And even that mischievous ghoul
Was a prisioner of my will
I travelled to a house of ore
With golden gorgoiles at it's door
When I was younger, there lived a friend
Whom I had hoped could fight the fiend
I asked of Haali, the One Who Sees
A lucid dream in which I would be
The One of Power, as legends told
The Mother was, when she could all hold.
She said, "Be careful, for you will find
That is no power to hide behind;
The Might of All is trecherous might
It will turn dream into unending night
To avoid this fate, be always aware,
Chase not the songbird, follow no hare
And keep away from the Silent One."
She said no more, as she let me drink
A sip of wine from another dream
And then I was, and I was there
In dream that would become nightmare
And I had power to call her name
That spirit-voice that I had to tame
She came, she did, as a dancing dove,
And singing a song about her love
"His eyes are meant to glance
His hands are meant to touch
And if I gave my life for him
I wouldn't miss it much"
I stared at her, astounded
She stoped — a yard away
The air between us smelled of prey
And all my fears seemed unfounded
So I pounced — with might and grace
My fangs aimed for her blood
But away I landed with a thud
My eyes blinded by his face
His eyes were made of Sky
His mouth was made of Sea
And I wished I were a sailor so
He'd be surrounding me
He was standing by an ancient tree
We were all in some perfect prayrie
Suddenly: the land swirled into blue
And the trees merged into an endless pool
(O objetivo a partir daqui é que houvesse uma batalha de sonhos, a partir da qual a Loba se apaixonaria por esse moço,
e trocaria de lugar com a pombinha do sonho. Very well.)
He glanced at me - he did! - surprised
As all around us great waves rised
I dreamed us creatures of the sea
And he dived into the blue with me
We danced underneath the waves
And around the seimsisk forests
And I forgot all of my glory days
I had love - I forgot the rest!
He never spoke nor made a sound
But there was water all around
And I was blindly trusting him
- this creature from my dream.
But he had power (had I known!)
To call the one I had ran from
She came, she did, as a diving doe
And singing a song about her woe
"I was a wolfness once -- I was!
With might and hide and fangs and claws
But love destroys us -- yes, it does!
And it turned into hooves my paws
Now I can't hunt, and I can't howl
My pack must be long gone
I lived here with my Silent, now
You left me all alone"
At first I laughed at her
But I couldn't help but picture
And when I looked back at her
Well--
She rised - a wolf, a Beast!
And she looked at us - a Feast!
But she rised from off the sea
and she sang, just as she left me:
"You are the prey that I cannot kill
I am a prisioner of your will
You are my fang every time I pounce
And when I fall you can make me bounce"
I tried to feel horrified
As I slowly realized
That I had been left behind
And was trapped inside my mind
But I saw the Silent One
And I still longed for his touch
And if all my tale came undone
Well, I wouldn't miss it much
(bla bla blá)
"I am the prey you cannot kill
I am a prisioner of your will
I am your fang, though I cannot prey
I am a visitor here, today"
sábado, 23 de fevereiro de 2013
Testando LaTeX no blog
Tirei essa solução daqui por recomendação deste cara. Fiquei com um pouco de mêdo porque ele sugere que eu coloque este script em cada post, e eu coloquei ele num gadget, e eu não sei se existe alguma coisa no blogger que pode ficar louca pq algum pedaço de texto tem um $ mal colocado... Enfim, eu mudei as tags de abertura, agora tem que escrever 'tex' antes do $ para ativar o modo matemático. Still, tem algumas coisas que eu não sei fazer ele não interpretar.
Et voi-la:
Einstein's most famous equation is tex$E=mc^2$.
\[P(E) = {n \choose k} p^k (1-p)^{n-k}\]
Et voi-la:
Einstein's most famous equation is tex$E=mc^2$.
\[P(E) = {n \choose k} p^k (1-p)^{n-k}\]
quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013
Faísca e Tranqüilo
A primeira vez que você me cumprimentou com um beijo, eu fiquei um pouco confusa. Não éramos namoradas, nem tínhamos tanta intimidade! O seu beijo na minha boca foi só um oi, um comovai?, vocêéfofa, eugostodevocê!. Eu pensei na menina que eu tinha trazido comigo (e no jeito como uma mechinha de cabelo estava caindo pelo lado do rosto dela, seguinto o contorno do maxilar numa curva delicada) e me perguntei se ela ia entender a nossa intimidade. Mas estávamos conversando sobre poliamor, e eu pensei que era assim mesmo, não tinha muito como esconder. Abraçar você era gostoso, dava vontade de me enrolar em você e morder você carinhosamente. No final acho que te mordi com uma certa voracidade.
Ontem você deitou no meu colo e eu fiquei em dúvida se te agarrava ou te fazia um cafuné docinho. No fim, passadas as pequenas aflições, nós temos uma relação muito fácil, muito tranqüila. Você parecia estar fofinha e precisando de cafuné. Hoje eu me despedi de você com um beijo, e eu senti aquela coisa faiscante de que os livros de menina falam -- aquela descarga elétrica que nasce no beijo e se espalha como um choque.
... Eu acho que não me sinto mais desconfortável nem confusa.
Ontem você deitou no meu colo e eu fiquei em dúvida se te agarrava ou te fazia um cafuné docinho. No fim, passadas as pequenas aflições, nós temos uma relação muito fácil, muito tranqüila. Você parecia estar fofinha e precisando de cafuné. Hoje eu me despedi de você com um beijo, e eu senti aquela coisa faiscante de que os livros de menina falam -- aquela descarga elétrica que nasce no beijo e se espalha como um choque.
... Eu acho que não me sinto mais desconfortável nem confusa.
terça-feira, 12 de fevereiro de 2013
Medo
Tenho sentido mêdo
Tenho me escondido
Tenho sentido raiva
Tenho contido as lágrimas
Eu queria desabafar e dizer que toda a minha pose é só fachada
Eu queria desmoronar e dizer que eu sou sim a coisa fofa e meiga e doce
Eu queria me abandonar e te deixar me fazer carinho e me comer
Só que não.
Só que só a idéia me dá engulhos e me embrulha o estômago!
Eu quero te morder até ficar vermelho e eu sentir gosto de sangue
Eu quero te deixar marcado
Eu quero te fazer carinho e te mordiscar, mas recusar seu beijo
Eu preciso te dizer que eu acho que esta fachada está grudada à carne
E que está bem aqui
Às vezes eu me pego me perguntando quem eu sou
Eu sou uma criança que já viveu para sempre
Eu sou uma pessoa de coração partido
Lutando contra os próprios instintos
E quando mais eu me liberto mais eu preciso me acorrentar
Lutando contra os próprios sentimentos
Tentando evitar morder, evitar marcar,
Evitar machucar
Quanto mais dói mais eu me apego
Até que dói demais
Quanto mais dói mais tempo dura a marca
Eu sou sim fofa e meiga e doce
Eu sou cheia de amor quando eu confio
Mas às vezes eu confio demais
E quando eu decido parar de confiar eu tenho vontade de machucar
Eu me comporto como um cão numa matilha
Ponha-se no seu lugar
Eu não preciso provar nada pra ninguém
Todo mundo me ama, todo mundo me aceita
Eu não preciso provar nada pra vocês
Mas eu quero
Tenho me escondido
Tenho sentido raiva
Tenho contido as lágrimas
Eu queria desabafar e dizer que toda a minha pose é só fachada
Eu queria desmoronar e dizer que eu sou sim a coisa fofa e meiga e doce
Eu queria me abandonar e te deixar me fazer carinho e me comer
Só que não.
Só que só a idéia me dá engulhos e me embrulha o estômago!
Eu quero te morder até ficar vermelho e eu sentir gosto de sangue
Eu quero te deixar marcado
Eu quero te fazer carinho e te mordiscar, mas recusar seu beijo
Eu preciso te dizer que eu acho que esta fachada está grudada à carne
E que está bem aqui
Às vezes eu me pego me perguntando quem eu sou
Eu sou uma criança que já viveu para sempre
Eu sou uma pessoa de coração partido
Lutando contra os próprios instintos
E quando mais eu me liberto mais eu preciso me acorrentar
Lutando contra os próprios sentimentos
Tentando evitar morder, evitar marcar,
Evitar machucar
Quanto mais dói mais eu me apego
Até que dói demais
Quanto mais dói mais tempo dura a marca
Eu sou sim fofa e meiga e doce
Eu sou cheia de amor quando eu confio
Mas às vezes eu confio demais
E quando eu decido parar de confiar eu tenho vontade de machucar
Eu me comporto como um cão numa matilha
Ponha-se no seu lugar
Eu não preciso provar nada pra ninguém
Todo mundo me ama, todo mundo me aceita
Eu não preciso provar nada pra vocês
Mas eu quero
sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013
Bissexualidade
(baseado, sem pretensões de fidelidade, em coisas ditas em conversas reais ou imaginárias - às vezes mais de uma vez)
— = ---
— Acho que não dá pra uma pessoa ir na balada e querer pegar "qualquer um". Ou você está procurando homem, ou mulher. Mesmo um bissexual, tem dias que está hétero, dias que está gay.
— Mas você não é bissexual, nem conhece alguém que seja, certo?
— Não. Mas só não faz sentido! Querer ficar com mulher é totalmente diferente de querer ficar com homem!
— Eu fico irritada com essa gente que se diz bissexual. Não existe isso de gostar "tanto de homem quanto de mulher". Todo mundo tem uma preferência.
— Mas e as pessoas que de fato gostam de homem mas de vez em quando pegam mulher, por exemplo?
— Ah, mas isso não faz de você bissexual. Você gosta de homem, você é hétero, pegar mulher de vez em quando não muda isso. Quem diz que é bissexual tá querendo ficar em cima do muro, não quer admitir pra si mesmo e pros outros que tem uma orientação sim, ah, me poupe! Se admite, pô.
— Mas, péraí, só porque tem uma preferência então não...
— Péra, deixa eu entender, eu tô no meio de um monte de gente que se acha bissexual, né?
— Se você é gay mas fica insistindo em ter namoros hétero, você está negando os seus desejos homossexuais? Você prejudica a sua vida com isso?
— Bom, o estudo aponta a existência de alguns caras casados com mulher que tinham uma certa ereção com pornô de mulher, mas a reação era muito maior com pornô gay. Provavelmente eles eram gays enrustidos, que meio que "aprenderam" a se excitar com mulher pra se encaixarem na sociedade.
— Se você escolhe um lado e admite a sua, ham, a sua "monossexualidade", você está negando os seus desejos em relação ao outro sexo?
— Nenhum estudo encontrou bissexuais de verdade! As pessoas precisam parar de se enganar e fingir que existe um meio termo! Essa é uma falácia danosa para a nossa causa. É preciso que as pessoas entendam que homossexualidade é genético e definitivo, e que não existe cura nem meia cura. Viado é viado e fancha é fancha, ponto!
— Mas, pô, isso não é motivo pra ficar enchendo o saco dela e chamando ela de fanchona o tempo todo. Ela está meio na dúvida, deixa ela.
— Mas é claro que é motivo. É só olhar pra ela pra saber que ela é sapata, e essa história de ficar em dúvida é uma grande mentira. Ela precisa aceitar o que ela é.
— Mas e se eu não quiser aceitar o que eu sou? Como fica?
— Vai ver um psicólogo, vai.
— Quando você se descobriu gay?
— Ah, quando eu era pequeno eu já era gay. Eu achava que homem combinava com homem, e mulher com mulher.
— Eu descobri na faculdade. Passei anos me irritando com as pessoas que me chamavam de gay. Cheguei a brigar feio com uma amiga, depois a gente voltou a se falar quando eu saí do armário.
— Eu tinha uma namorada com quem eu me dava super bem e fazia um monte de sexo, mas um dia eu vi um cara gostoso e senti tesão... Hoje em dia eu nem tenho mais vontade de ficar com mulher, porque homem é tão melhor!
— Meu ex-namorado agora namora um homem.
— E como é pra você?
— Eu acho que não faz muita diferença, pra mim. É a vida pessoal dele, agora, e não muda nada do que aconteceu entre nós. Não explica nada.
— A ex-namorada da minha amiga está namorando um homem, também.
— Então ela não era gay, hem?
— Eu disse que ela era hétero! Mulher na adolescência faz umas experiências...
— Agora, a sua amiga, essa sim é sapatão, hem?
— É só olhar pra ela pra saber.
— É engraçado é que tem gente que não tem gaydar, né? Outro dia virou mó bochicho no escritório sobre a chefe, e eu disse de cara: "É que ela é lésbica, né?". Todo mundo tava super surpreso, todo mundo ficou "mas como você sabe???". Ah, vá.
— É engraçado que dá pra perceber mesmo quando a própria pessoa ainda não sabe.
— Eu me pergunto isso às vezes, se alguém olha pra você e diz que você é gay, isso quer dizer que você é mesmo? E se diz que você é hétero?
— Quando você começou a se considerar bi?
— Assim que eu parei pra pensar no assunto, uai. Eu era adolescente e eu gostava tanto de meninos quanto de meninas.
— Mas você gostava mesmo dos meninos tanto quanto das meninas? Você se apaixonava por meninos?
— Hmm, acho que eu só me apaixonei por meninas... Mas eu gostava bastante dos homens também. Não era a mesma coisa, mas nunca me ocorreu me considerar hétero.
— Mas você já teve experiência com homem?
— Já.
— E gostou?
— Foi muito bom.
— Eu já peguei homem, já dei o cu, foi bom, mas acho que eu não sou gay. Não tenho envolvimento emocional com homem.
— Eu gosto de ficar com mulher, mas eu sou bem hétero. Eu não entendo como você que gosta muito mais de pica do que eu ainda acha que é bi.
— É verdade, homem tem pica, mas, por outro lado, mulher tem peito!
— E cintura, não dá pra esquecer a cintura.
— Mas homem tem peito de homem. E barba. E mulher às vezes tem muita bochecha.
— Acho que eu não conseguiria ficar com uma mulher. Aquela vez que a gente quase fez um ménage, eu pensei "não, tem outra buceta aqui!"
— Você diz isso mas no dia seguinte pega uma mina e tem sonhos eróticos com outra. Aliás, eu só tenho sonhos eróticos com mulheres. Os seus sonhos definem a sua sexualidade?
— Outro dia eu tive um sonho super bizarro com você. Eu estava beijando você, mas você tinha um pinto!
— Você não está vendo, mas eu estava agora mesmo desenhando um pinto. Eu tinha certeza de que eu ia ter um pinto no seu sonho.
— Isso quer dizer que eu sou gay?
— Bom, você sente atração sexual por homens?
— Não. Mas e as pessoas que demoraram anos pra entender que eram gays?
— Você quer ser gay?
— Talvez eu precise ser gay.
— Se eu fosse gay eu ia ter muito mais felicidade sexual.
— Mas você acha os homens horrendos!
— Bom, por isso que eu queria ser gay, mas não sou. E eu não acho todos os homens horrendos. É só que eles são tão peludos... e grandes... e feios. Mas eu pegava o Justin Bieber, ele é quase uma menina. E bonitinha.
— Nossa, que machista!
— Machista por quê?
— Super machista essa atitude de "eu nunca ia pegar nenhum homem, e mesmo se eu pegasse um homem, tinha que ser um homem que é quase uma mulher"! É pura pose de machão.
— Mas eu só estou dizendo que o Justin Bieber não é feio...
— Ah, você só está atestando a sua masculinidade! Eu, se eu pegasse uma mulher, eu ia querer que fosse uma mulher de verdade, feminina, affe!
— Mas você não ia pegar uma mulher...
— Não, mas se eu pegasse, eu não ia pegar uma mulher que parece um homem só pra deixar claro que eu sou hétero.
— Então se eu gosto de mulheres masculinas eu sou gay?
— E se eu gosto de homens femininos? Os caras que gostam de travesti são hétero?
— Outro dia eu gamei numa mina que parecia muito com um cara que eu peguei um tempo atrás. Estou me sentindo culpada.
— Você sempre puxa pro pessoal!
— Bom, pra mim esse assunto é muito pessoal. Você acha que os meus sonhos definem a sua sexualidade?
— Por que você não define a sua sexualidade por com quem você faz sexo?
— Um garoto virgem de treze anos não pode ser gay?
— Não dá pra confiar na sexualidade de adolescentes, eles fazem experiências...
— Mas em que idade você pode começar a confiar?
— Eu fico meio assustado que isso tenha aparecido pra mim tão tarde. Sabe, eu não sou um adolescente. Todos os meus amigos que viraram gays ou bis se descobriram até uns 20 anos de idade. Será que eu estava reprimindo isso esse tempo todo?
— Bom, você sabe que eu não acredito muito em monossexualidade.
— Mãe, eu acho que eu sou bissexual.
— ...Por que você acha isso?
— Por que eu me sinto muito atraída por mulheres.
— Mas você já ficou com uma mulher?
— Já.
— Mas você nunca namorou uma mulher.
— ...Bom, eu sempre estive namorando com homens.
— Ah, filha, você é jovem, jovens fazem experiências. Quando eu era adolescente eu também me sentia muito atraída por mulheres, mas eu não sou "bissexual". Eu namorei com homens e casei com um homem, pronto!
— ...
— Eu queria ter tido essa sua confiança, de saber desde sempre que era assim mesmo.
— Mas deve ser mó legal ter essa revelação, "Oh, eu sou gay!". Imagina?
— E você?
— Eu sempre achei que eu sempre tinha sido confusa mesmo... Mas eu encontrei uns escritos antigos ontem. Parece que eu sempre tive grandes sonhos de casamento, e eu só pensava em homens. Homens altos de cabelos negros. Homens baixos, fortes e ruivos. Pra falar a verdade eu só sabia lidar com homens, desde que eu era pequena. Eu queria ser um homem, e eu até gostaria de ser um homem gay. E eu sempre me apaixonava por homens... Mas pensando bem, tinha aquela menina no colegial que tinha olhos dourados maravilhosos.... Um personagem meu, que era namorado da protagonista, tinha olhos dourados de águia como os dela. Ela chamava Júlia. Eu passava metade da aula olhando pra ela e pensando em como começar a conversa. Mas eu não chamava de amor.
— Mas você não era perdidamente apaixonada por aquele menino bonito?
— Sim, sim, por ele, por aquele outro, pelo meu melhor amigo que era apaixonado pelo meu irmão, e que chegou a achar que estava apaixonado por mim. No terceiro ano eu encontrei um garoto de olhos verdes maravilhoso, ficava o dia todo olhando pra ele e... pensando em como começar a conversa. Depois de alguns meses eu comecei a chamar de amor.
— E a Júlia?
— Encontrei ela outro dia, ela me tratou como uma amiga. Fiquei meio fascinada com o fato de que ela gostava de mim. Eu não fazia muitas amigas no colegial, me sentia incapaz de falar com mulheres. Me pergunto se o Pedro também me trataria como uma amiga.
— Você viu aquele novo estudo, com movimento de pupila?
— Ele não usa medição de engrossamento de pênis? Estou ouvindo.
— Inclusive mede mulheres também. Aí está a graça — ele meio que determinou que a maior parte das mulheres hétero têm reações a mulheres bonitas assim como a homens. E encontrou homens bissexuais também.
— Legal. Os bissexuais vão ficar felizes, mas os nossos amigos gays nem vão acreditar muito.
— Bom, é claro que nenhum desses estudo é muito confiável. Mas pelo menos a gente tem algo pra dizer.
— Como foi a conversa com a sua mãe afinal?
— Ela não acreditou. Foi bem menos assustador do que a conversa sobre namoro aberto, mas daquela vez ela foi tão legal, e dessa vez eu fiquei um pouco frustrada.
— Você quer ouvir como foi a minha conversa com a minha mãe? Qualquer uma das oito?
— Eu sei, eu sei, eu tenho a melhor mãe do mundo e eu não tenho um problema de verdade. É só que eu queria poder me sentir eu mesma, sabe?
— Mas você está negando a si mesma. Você quer ser algo que você não é.
— No começo eu achei que podia ser isso, porque eu queria muito ser bi, e porque eu queria fazer parte da comunidade gay (ou do que quer que eles se chamem agora, foda-se).
— Péra, você acha que pra fazer parte da luta você tem que ser gay?
— Eu acho que sim. Eu sei que não devia ser assim, mas é.
— Pô, então eu, que namoro um cara bissexual, não faço parte do movimento?
— Não é bem assim, não estou dizendo que não pode, da mesma forma que você pode ser homem e feminista, mas... mas os babacas vão sempre dizer que "as mulheres é que têm que lutar pelas mulheres", "os gays é que tem que lutar pelos gays", e tal. E agora estão me dizendo que bissexual não existe.
— É bom que bissexual exista, senão eu vou estar sendo enganada pelos últimos sete meses.
— Vontadezinha de arranjar uma namorada e levar ela pra casa. Só pra chocar minha mãe. Ou pra provar que é de verdade.
— ...Olha, mãe, não é só que eu me sinto atraída por mulheres. Eu sonho com mulheres. Eu me apaixono por elas. Você ia ter problemas se eu saísse com mulheres?
— Ah, Ma, você pode sair com quem você quiser. Você é jovem. Você se apaixona fácil. Mas você traz seu namorado pra casa, ele vira da família. Já se você trouxesse uma menina pra casa, uma namorada, ia ser um pouco estranho. Não é a mesma coisa, sabe?
— Ia ser estranho se eu trouxesse uma namorada? Mas estranho do que quando meu irmão traz as namoradas dele?
— Ah, Ma... Sabe, a gente sempre acha que vai conseguir lidar com essas coisas... Mas recentemente uma amiga próxima de mim descobriu que a filha era lésbica, e aí ela descobriu que não é tão fácil assim de lidar. É difícil pra gente.
— Você está falando daquela cuja filha é evidentemente gay?
— Ah, lembra, isso é segredo, não pode contar pra ninguém!
— Mas como você descobriu que era bissexual?
— Bom, eu estava no colegial, aqula história toda... Um dia minha amiga veio falar comigo, e o seio dela raspou no meu braço. Eu senti, como se diz? como se fosse uma descarga elétrica pelo corpo. Eu continuava apaixonada por aquele menino, mas depois disso eu fiquei algum tempo só conseguindo pensar em peitos.
— E foi assim, de repente, então?
— Não, não de verdade. Eu tinha acreditado que bissexual não existia. Eu comecei a me apaixonar por mulheres, a sonhar com mulheres, mas eu continuei acreditando que era hétero. Eu queria experimentar pegar mulheres, mas eu não podia me considerar bi sem nunca ter pego uma mulher. Um dia eu fui numa festa e as amigas do meu amigo me chamaram de sapata, e eu fiquei super feliz. Aí ele corrigiu eles, e eu fiquei meio brava. Mas eu me considerava hétero no fundo, não tinha coragem de reclamar. Um dia eu peguei uma mulher numa festa, mas não senti tesão nenhum. Eu estava apaixonada por uma amiga minha, obcecada e sofrendo, mas eu era hétero. Eu contei isso para um amigo e ele disse que eu devia estar projetando alguma coisa nela... Porque eu era hétero, e estava tão feliz com meu namorado. Aí um dia eu consegui sair num date com uma menina por quem eu tinha uma paixão, e foi o melhor primeiro beijo da minha vida. E mesmo assim meus amigos diziam que eu era hétero e eu meio que acreditava neles, porque eu só tinha beijado mulher duas vezes, porque eu namorava caras, porque eu nunca tinha transado com uma mulher. Então eu peguei todas as mulheres que eu consegui, o mais e o melhor que eu pude, e eu passei uma festa inteira pegando uma menina linda. Meu amigo me zuou dizendo que quando eu ficava bêbada eu virava lésbica, e eu concordei inteiramente. Mas no final daquela festa eu peguei um rapaz gostoso e gostei tanto disso que de novo eu concluí que eu era hétero. Aí eu fiquei muito confusa, peguei várias mulheres, transei com mulheres, decidi fazer o look fanchinha para atrair mulheres nos bares, mas no fundo eu achava que gostava mais de ficar com homens, e apesar de eu querer muito ser bi eu ainda acreditava que eu era hétero, no fundo. Uma hétero que por algum motivo se apaixonava por mulheres de vez em quando, mas que gostava muito de homem. Mas hétero.
— E quando isso mudou?
— Não tenho certeza. Talvez tenha sido porque eu conheci outros bissexuais. Ou porque eu descobri mulheres de quem eu gostava mais e homens de quem eu gostava menos. Ou eu parei de me importar. Na verdade... acho que o que pegou foi quando eu estava com uma mulher, e eu percebi que eu estava curtindo, estava confortável e sabia o que eu estava fazendo. Eu não estava só experimentando. Não era mais uma coisa nova pra mim. Só era bom.
— = ---
— Acho que não dá pra uma pessoa ir na balada e querer pegar "qualquer um". Ou você está procurando homem, ou mulher. Mesmo um bissexual, tem dias que está hétero, dias que está gay.
— Mas você não é bissexual, nem conhece alguém que seja, certo?
— Não. Mas só não faz sentido! Querer ficar com mulher é totalmente diferente de querer ficar com homem!
— Eu fico irritada com essa gente que se diz bissexual. Não existe isso de gostar "tanto de homem quanto de mulher". Todo mundo tem uma preferência.
— Mas e as pessoas que de fato gostam de homem mas de vez em quando pegam mulher, por exemplo?
— Ah, mas isso não faz de você bissexual. Você gosta de homem, você é hétero, pegar mulher de vez em quando não muda isso. Quem diz que é bissexual tá querendo ficar em cima do muro, não quer admitir pra si mesmo e pros outros que tem uma orientação sim, ah, me poupe! Se admite, pô.
— Mas, péraí, só porque tem uma preferência então não...
— Péra, deixa eu entender, eu tô no meio de um monte de gente que se acha bissexual, né?
— Se você é gay mas fica insistindo em ter namoros hétero, você está negando os seus desejos homossexuais? Você prejudica a sua vida com isso?
— Bom, o estudo aponta a existência de alguns caras casados com mulher que tinham uma certa ereção com pornô de mulher, mas a reação era muito maior com pornô gay. Provavelmente eles eram gays enrustidos, que meio que "aprenderam" a se excitar com mulher pra se encaixarem na sociedade.
— Se você escolhe um lado e admite a sua, ham, a sua "monossexualidade", você está negando os seus desejos em relação ao outro sexo?
— Nenhum estudo encontrou bissexuais de verdade! As pessoas precisam parar de se enganar e fingir que existe um meio termo! Essa é uma falácia danosa para a nossa causa. É preciso que as pessoas entendam que homossexualidade é genético e definitivo, e que não existe cura nem meia cura. Viado é viado e fancha é fancha, ponto!
— Mas, pô, isso não é motivo pra ficar enchendo o saco dela e chamando ela de fanchona o tempo todo. Ela está meio na dúvida, deixa ela.
— Mas é claro que é motivo. É só olhar pra ela pra saber que ela é sapata, e essa história de ficar em dúvida é uma grande mentira. Ela precisa aceitar o que ela é.
— Mas e se eu não quiser aceitar o que eu sou? Como fica?
— Vai ver um psicólogo, vai.
— Quando você se descobriu gay?
— Ah, quando eu era pequeno eu já era gay. Eu achava que homem combinava com homem, e mulher com mulher.
— Eu descobri na faculdade. Passei anos me irritando com as pessoas que me chamavam de gay. Cheguei a brigar feio com uma amiga, depois a gente voltou a se falar quando eu saí do armário.
— Eu tinha uma namorada com quem eu me dava super bem e fazia um monte de sexo, mas um dia eu vi um cara gostoso e senti tesão... Hoje em dia eu nem tenho mais vontade de ficar com mulher, porque homem é tão melhor!
— Meu ex-namorado agora namora um homem.
— E como é pra você?
— Eu acho que não faz muita diferença, pra mim. É a vida pessoal dele, agora, e não muda nada do que aconteceu entre nós. Não explica nada.
— A ex-namorada da minha amiga está namorando um homem, também.
— Então ela não era gay, hem?
— Eu disse que ela era hétero! Mulher na adolescência faz umas experiências...
— Agora, a sua amiga, essa sim é sapatão, hem?
— É só olhar pra ela pra saber.
— É engraçado é que tem gente que não tem gaydar, né? Outro dia virou mó bochicho no escritório sobre a chefe, e eu disse de cara: "É que ela é lésbica, né?". Todo mundo tava super surpreso, todo mundo ficou "mas como você sabe???". Ah, vá.
— É engraçado que dá pra perceber mesmo quando a própria pessoa ainda não sabe.
— Eu me pergunto isso às vezes, se alguém olha pra você e diz que você é gay, isso quer dizer que você é mesmo? E se diz que você é hétero?
— Quando você começou a se considerar bi?
— Assim que eu parei pra pensar no assunto, uai. Eu era adolescente e eu gostava tanto de meninos quanto de meninas.
— Mas você gostava mesmo dos meninos tanto quanto das meninas? Você se apaixonava por meninos?
— Hmm, acho que eu só me apaixonei por meninas... Mas eu gostava bastante dos homens também. Não era a mesma coisa, mas nunca me ocorreu me considerar hétero.
— Mas você já teve experiência com homem?
— Já.
— E gostou?
— Foi muito bom.
— Eu já peguei homem, já dei o cu, foi bom, mas acho que eu não sou gay. Não tenho envolvimento emocional com homem.
— Eu gosto de ficar com mulher, mas eu sou bem hétero. Eu não entendo como você que gosta muito mais de pica do que eu ainda acha que é bi.
— É verdade, homem tem pica, mas, por outro lado, mulher tem peito!
— E cintura, não dá pra esquecer a cintura.
— Mas homem tem peito de homem. E barba. E mulher às vezes tem muita bochecha.
— Acho que eu não conseguiria ficar com uma mulher. Aquela vez que a gente quase fez um ménage, eu pensei "não, tem outra buceta aqui!"
— Você diz isso mas no dia seguinte pega uma mina e tem sonhos eróticos com outra. Aliás, eu só tenho sonhos eróticos com mulheres. Os seus sonhos definem a sua sexualidade?
— Outro dia eu tive um sonho super bizarro com você. Eu estava beijando você, mas você tinha um pinto!
— Você não está vendo, mas eu estava agora mesmo desenhando um pinto. Eu tinha certeza de que eu ia ter um pinto no seu sonho.
— Isso quer dizer que eu sou gay?
— Bom, você sente atração sexual por homens?
— Não. Mas e as pessoas que demoraram anos pra entender que eram gays?
— Você quer ser gay?
— Talvez eu precise ser gay.
— Se eu fosse gay eu ia ter muito mais felicidade sexual.
— Mas você acha os homens horrendos!
— Bom, por isso que eu queria ser gay, mas não sou. E eu não acho todos os homens horrendos. É só que eles são tão peludos... e grandes... e feios. Mas eu pegava o Justin Bieber, ele é quase uma menina. E bonitinha.
— Nossa, que machista!
— Machista por quê?
— Super machista essa atitude de "eu nunca ia pegar nenhum homem, e mesmo se eu pegasse um homem, tinha que ser um homem que é quase uma mulher"! É pura pose de machão.
— Mas eu só estou dizendo que o Justin Bieber não é feio...
— Ah, você só está atestando a sua masculinidade! Eu, se eu pegasse uma mulher, eu ia querer que fosse uma mulher de verdade, feminina, affe!
— Mas você não ia pegar uma mulher...
— Não, mas se eu pegasse, eu não ia pegar uma mulher que parece um homem só pra deixar claro que eu sou hétero.
— Então se eu gosto de mulheres masculinas eu sou gay?
— E se eu gosto de homens femininos? Os caras que gostam de travesti são hétero?
— Outro dia eu gamei numa mina que parecia muito com um cara que eu peguei um tempo atrás. Estou me sentindo culpada.
— Você sempre puxa pro pessoal!
— Bom, pra mim esse assunto é muito pessoal. Você acha que os meus sonhos definem a sua sexualidade?
— Por que você não define a sua sexualidade por com quem você faz sexo?
— Um garoto virgem de treze anos não pode ser gay?
— Não dá pra confiar na sexualidade de adolescentes, eles fazem experiências...
— Mas em que idade você pode começar a confiar?
— Eu fico meio assustado que isso tenha aparecido pra mim tão tarde. Sabe, eu não sou um adolescente. Todos os meus amigos que viraram gays ou bis se descobriram até uns 20 anos de idade. Será que eu estava reprimindo isso esse tempo todo?
— Bom, você sabe que eu não acredito muito em monossexualidade.
— Mãe, eu acho que eu sou bissexual.
— ...Por que você acha isso?
— Por que eu me sinto muito atraída por mulheres.
— Mas você já ficou com uma mulher?
— Já.
— Mas você nunca namorou uma mulher.
— ...Bom, eu sempre estive namorando com homens.
— Ah, filha, você é jovem, jovens fazem experiências. Quando eu era adolescente eu também me sentia muito atraída por mulheres, mas eu não sou "bissexual". Eu namorei com homens e casei com um homem, pronto!
— ...
— Eu queria ter tido essa sua confiança, de saber desde sempre que era assim mesmo.
— Mas deve ser mó legal ter essa revelação, "Oh, eu sou gay!". Imagina?
— E você?
— Eu sempre achei que eu sempre tinha sido confusa mesmo... Mas eu encontrei uns escritos antigos ontem. Parece que eu sempre tive grandes sonhos de casamento, e eu só pensava em homens. Homens altos de cabelos negros. Homens baixos, fortes e ruivos. Pra falar a verdade eu só sabia lidar com homens, desde que eu era pequena. Eu queria ser um homem, e eu até gostaria de ser um homem gay. E eu sempre me apaixonava por homens... Mas pensando bem, tinha aquela menina no colegial que tinha olhos dourados maravilhosos.... Um personagem meu, que era namorado da protagonista, tinha olhos dourados de águia como os dela. Ela chamava Júlia. Eu passava metade da aula olhando pra ela e pensando em como começar a conversa. Mas eu não chamava de amor.
— Mas você não era perdidamente apaixonada por aquele menino bonito?
— Sim, sim, por ele, por aquele outro, pelo meu melhor amigo que era apaixonado pelo meu irmão, e que chegou a achar que estava apaixonado por mim. No terceiro ano eu encontrei um garoto de olhos verdes maravilhoso, ficava o dia todo olhando pra ele e... pensando em como começar a conversa. Depois de alguns meses eu comecei a chamar de amor.
— E a Júlia?
— Encontrei ela outro dia, ela me tratou como uma amiga. Fiquei meio fascinada com o fato de que ela gostava de mim. Eu não fazia muitas amigas no colegial, me sentia incapaz de falar com mulheres. Me pergunto se o Pedro também me trataria como uma amiga.
— Você viu aquele novo estudo, com movimento de pupila?
— Ele não usa medição de engrossamento de pênis? Estou ouvindo.
— Inclusive mede mulheres também. Aí está a graça — ele meio que determinou que a maior parte das mulheres hétero têm reações a mulheres bonitas assim como a homens. E encontrou homens bissexuais também.
— Legal. Os bissexuais vão ficar felizes, mas os nossos amigos gays nem vão acreditar muito.
— Bom, é claro que nenhum desses estudo é muito confiável. Mas pelo menos a gente tem algo pra dizer.
— Como foi a conversa com a sua mãe afinal?
— Ela não acreditou. Foi bem menos assustador do que a conversa sobre namoro aberto, mas daquela vez ela foi tão legal, e dessa vez eu fiquei um pouco frustrada.
— Você quer ouvir como foi a minha conversa com a minha mãe? Qualquer uma das oito?
— Eu sei, eu sei, eu tenho a melhor mãe do mundo e eu não tenho um problema de verdade. É só que eu queria poder me sentir eu mesma, sabe?
— Mas você está negando a si mesma. Você quer ser algo que você não é.
— No começo eu achei que podia ser isso, porque eu queria muito ser bi, e porque eu queria fazer parte da comunidade gay (ou do que quer que eles se chamem agora, foda-se).
— Péra, você acha que pra fazer parte da luta você tem que ser gay?
— Eu acho que sim. Eu sei que não devia ser assim, mas é.
— Pô, então eu, que namoro um cara bissexual, não faço parte do movimento?
— Não é bem assim, não estou dizendo que não pode, da mesma forma que você pode ser homem e feminista, mas... mas os babacas vão sempre dizer que "as mulheres é que têm que lutar pelas mulheres", "os gays é que tem que lutar pelos gays", e tal. E agora estão me dizendo que bissexual não existe.
— É bom que bissexual exista, senão eu vou estar sendo enganada pelos últimos sete meses.
— Vontadezinha de arranjar uma namorada e levar ela pra casa. Só pra chocar minha mãe. Ou pra provar que é de verdade.
— ...Olha, mãe, não é só que eu me sinto atraída por mulheres. Eu sonho com mulheres. Eu me apaixono por elas. Você ia ter problemas se eu saísse com mulheres?
— Ah, Ma, você pode sair com quem você quiser. Você é jovem. Você se apaixona fácil. Mas você traz seu namorado pra casa, ele vira da família. Já se você trouxesse uma menina pra casa, uma namorada, ia ser um pouco estranho. Não é a mesma coisa, sabe?
— Ia ser estranho se eu trouxesse uma namorada? Mas estranho do que quando meu irmão traz as namoradas dele?
— Ah, Ma... Sabe, a gente sempre acha que vai conseguir lidar com essas coisas... Mas recentemente uma amiga próxima de mim descobriu que a filha era lésbica, e aí ela descobriu que não é tão fácil assim de lidar. É difícil pra gente.
— Você está falando daquela cuja filha é evidentemente gay?
— Ah, lembra, isso é segredo, não pode contar pra ninguém!
— Mas como você descobriu que era bissexual?
— Bom, eu estava no colegial, aqula história toda... Um dia minha amiga veio falar comigo, e o seio dela raspou no meu braço. Eu senti, como se diz? como se fosse uma descarga elétrica pelo corpo. Eu continuava apaixonada por aquele menino, mas depois disso eu fiquei algum tempo só conseguindo pensar em peitos.
— E foi assim, de repente, então?
— Não, não de verdade. Eu tinha acreditado que bissexual não existia. Eu comecei a me apaixonar por mulheres, a sonhar com mulheres, mas eu continuei acreditando que era hétero. Eu queria experimentar pegar mulheres, mas eu não podia me considerar bi sem nunca ter pego uma mulher. Um dia eu fui numa festa e as amigas do meu amigo me chamaram de sapata, e eu fiquei super feliz. Aí ele corrigiu eles, e eu fiquei meio brava. Mas eu me considerava hétero no fundo, não tinha coragem de reclamar. Um dia eu peguei uma mulher numa festa, mas não senti tesão nenhum. Eu estava apaixonada por uma amiga minha, obcecada e sofrendo, mas eu era hétero. Eu contei isso para um amigo e ele disse que eu devia estar projetando alguma coisa nela... Porque eu era hétero, e estava tão feliz com meu namorado. Aí um dia eu consegui sair num date com uma menina por quem eu tinha uma paixão, e foi o melhor primeiro beijo da minha vida. E mesmo assim meus amigos diziam que eu era hétero e eu meio que acreditava neles, porque eu só tinha beijado mulher duas vezes, porque eu namorava caras, porque eu nunca tinha transado com uma mulher. Então eu peguei todas as mulheres que eu consegui, o mais e o melhor que eu pude, e eu passei uma festa inteira pegando uma menina linda. Meu amigo me zuou dizendo que quando eu ficava bêbada eu virava lésbica, e eu concordei inteiramente. Mas no final daquela festa eu peguei um rapaz gostoso e gostei tanto disso que de novo eu concluí que eu era hétero. Aí eu fiquei muito confusa, peguei várias mulheres, transei com mulheres, decidi fazer o look fanchinha para atrair mulheres nos bares, mas no fundo eu achava que gostava mais de ficar com homens, e apesar de eu querer muito ser bi eu ainda acreditava que eu era hétero, no fundo. Uma hétero que por algum motivo se apaixonava por mulheres de vez em quando, mas que gostava muito de homem. Mas hétero.
— E quando isso mudou?
— Não tenho certeza. Talvez tenha sido porque eu conheci outros bissexuais. Ou porque eu descobri mulheres de quem eu gostava mais e homens de quem eu gostava menos. Ou eu parei de me importar. Na verdade... acho que o que pegou foi quando eu estava com uma mulher, e eu percebi que eu estava curtindo, estava confortável e sabia o que eu estava fazendo. Eu não estava só experimentando. Não era mais uma coisa nova pra mim. Só era bom.
quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013
Aqui
("aqui, na escuridão que me cobre como um túmulo, eu conto esta história")
Achei que era apropriado começar com uma citação da peça de teatro (A Morte Trágica de Dois Amantes Muito Infelizes Que Morreram Um de Veneno e o Outro de Dor, Com Vários Incidentes, ou Romeu e Julieta) que nós apresentamos em 2004. Ah, 2004, quinze anos, estar apaixonada. Acho prazeroso estar apaixonada, e com quinze anos isso parecia natural, descomplicado, simples, até o momento em que eu me apaixonei por três pessoas ao mesmo tempo, um com namorada, um gay, um que morria de ciúmes do meu amor pelos outros dois. Vida difícil essa. Essa parte não mudou nada. No fim eu namorei o que tinha namorada, depois com o que não tinha, depois terminei com esse também e decidi não namorar nunca mais, mas meus planos foram impedidos pela existência mágica dos namoros abertos e pela minha incapacidade de não me apaixonar (infelizmente nunca namorei com o que era gay, acho que teria sido o mais feliz dos três namoros).
Ultimamente eu tenho achado tudo muito estranho, e quando eu fico pensativa eu sempre me volto para o passado. Hoje por exemplo sonhei que era colega de classe da Kiki, minha, ahm, melhor amiga de ginásio, uma líder natural forte e decidida e da qual eu nunca soube nenhum dos mêdos e desejos mais profundos. No meu sonho (como, na verdade, na realidade) eu era uma péssima aluna e ficava brincando com ela em vez de fazer a tarefa, e evidentemente quando eu ia fazer a tarefa era tarde demais. Por favor, seja mais explícito, sonho.
Nos últimos treze ou quatorze meses eu não tenho sabido direito quem eu sou. E ao mesmo tempo eu finalmente tenho entendido quem eu sou.
No começo foi confuso e doloroso, meus sentimentos me jogaram de um lado pro outro, eu senti ciúmes, ódio, repulsa, eu dei patadas no meu melhor amigo, eu quis sacanear meu irmão, eu me contive e fui fazer sexo com outra menina, mas logo depois eu já não queria mais seus beijos. Eu fui horrível, eu peço desculpas. Eu queria que eles parassem de ser tão homens, tão bonitos, eu super não sei lidar com gente que é competição mas não é presa. O foda dessa vida gay que eu tenho é que essas pessoas que são só competição são raras, e eu não aprendo a lidar. Fico me perguntando se ser hétero não é um sofrimento constante, competindo o tempo todo, tendo raiva e ciúmes. Eu lembro vagamente do quanto eu amava mais as meninas que queriam ficar com meus homens, just in case, acho que é uma defesa contra a guerra. Sisterhoods e brotherhoods, mas nunca uma siblinghood. Mas é muito mais fácil simplesmente chamá-las junto.
Este vai ser um daqueles textos dos quais eu me envergonho depois de uns meses, aposto.
Estou tomando café só pra conseguir escrever.
Enfim, competir com homens é muito difícil. Eu posso até ser mais bonita que o cara, mas, sabe, ele tem músculos, barba, pica. Não tem muito o que eu possa fazer contra uma pica. O que nos leva de volta ao assunto original do post (na minha cabeça) que é o fato de que eu realmente curto mina hétero. Não minazinha Pat, cabelo comprido e sombra, shortinho, bronzeado e luzes, mas mina macho, de coxa grossa, piercing, dessas que usa coturno com saia, tatuada, que anda de bike, que pega todo mundo, que dança rock pesado e veste sobretudo rasgado, que pinta o corpo, que é brother, que bebe, que manda, feminista, que entende das coisas que entende, que faz arte, que corta o próprio cabelo, que me pega. Mas essencialmente HT. Eu fico meio perdida com lésbicas (e aqui eu estou sendo reducionista, estou dividindo as pessoas entre as que pegam mais homem e as que pegam mais mulher). Pra falar a verdade às vezes eu vejo uma lésbica e penso "mas ela é lésbica, não vai querer ficar comigo". Acho que me perturba o fato de que mulher lésbica de fato gosta de mim como mulher. Mulher ht me pega como se eu fosse um cara, me faz me sentir um cara (enquanto eu elaboro este argumento eu estou de tênis de trilha e calça jeans, sem camisa, eu tenho cabelo curto, 1,58m, e me pergunto se eu sou mesmo diferente do meu irmão), especialmente quando elas parecem não saber muito bem o que fazer com uma mulher, mas ainda assim conseguem me pegar como, sei lá, como pessoa. Mulher lésbica às vezes é feminina demais, me perturba. Me deixa confusa. Me faz me sentir inexperiente, também, talvez isso seja um fator relevante. Talvez tudo seja uma ego-trip gigante. Mas.
Enfim, agora me desçam sua psicologia barata (ou cara, tanto faz).
Mulher que se dá bem com mulher sempre me deixa desconfortável, me faz me sentir menos mulher, menos homem também, menos tudo. Por que a vida é sempre uma competição idiota? Eu me sinto espremida no meio, não sou homem o suficiente pras hétero, não sou lésbica o suficiente pras lésbicas, de vez em quando rola, mas minha cabeça fica cheia de caraminholas. Eu visualizo a sua cara meio que rindo das minha dúvidas adolescentes. Mas você é homem, e eu não tenho grilo com homem, um homem como você não tem grilo, eu nem espero que você entenda por que eu penso essas bobagens.
Às vezes eu penso em mudar de sexo. Queria compartilhar isso aqui. Eu nunca vou fazer, eu acho, mas está constantemente na minha cabeça. Ao mesmo tempo eu não queria de verdade ser homem, ter toda essa auto-confiança excessiva ou esse excesso de auto-piedade que quase todos os homens que eu conheço têm. Eu sou mais bem resolvida que isso. Ainda assim, eu sinto prazer em fazer tudo o que eu puder pra ficar mais masculina. E no dia seguinte usar saia curta e brincos, pork; pork se eu fosse homem eu certamente iria me travestir, pork. Eu lembro de quando eu cortei o cabelo, vesti os brincos e por um momento me achei um transgender me travestindo (depois passou). Eu queria ser mais andrógina, assim como você, Lo. Eu achei tão incrível rolar com você e não saber quais de nós eram homens ou mulheres. Eu queria ter ficado nesse estágio, sentindo essa libertação fantástica. Da próxima vez, quem sabe. Eu não penso em você como um homem, not really. Eu só penso em você como você. Mrrrr.
Achei que era apropriado começar com uma citação da peça de teatro (A Morte Trágica de Dois Amantes Muito Infelizes Que Morreram Um de Veneno e o Outro de Dor, Com Vários Incidentes, ou Romeu e Julieta) que nós apresentamos em 2004. Ah, 2004, quinze anos, estar apaixonada. Acho prazeroso estar apaixonada, e com quinze anos isso parecia natural, descomplicado, simples, até o momento em que eu me apaixonei por três pessoas ao mesmo tempo, um com namorada, um gay, um que morria de ciúmes do meu amor pelos outros dois. Vida difícil essa. Essa parte não mudou nada. No fim eu namorei o que tinha namorada, depois com o que não tinha, depois terminei com esse também e decidi não namorar nunca mais, mas meus planos foram impedidos pela existência mágica dos namoros abertos e pela minha incapacidade de não me apaixonar (infelizmente nunca namorei com o que era gay, acho que teria sido o mais feliz dos três namoros).
Ultimamente eu tenho achado tudo muito estranho, e quando eu fico pensativa eu sempre me volto para o passado. Hoje por exemplo sonhei que era colega de classe da Kiki, minha, ahm, melhor amiga de ginásio, uma líder natural forte e decidida e da qual eu nunca soube nenhum dos mêdos e desejos mais profundos. No meu sonho (como, na verdade, na realidade) eu era uma péssima aluna e ficava brincando com ela em vez de fazer a tarefa, e evidentemente quando eu ia fazer a tarefa era tarde demais. Por favor, seja mais explícito, sonho.
Nos últimos treze ou quatorze meses eu não tenho sabido direito quem eu sou. E ao mesmo tempo eu finalmente tenho entendido quem eu sou.
No começo foi confuso e doloroso, meus sentimentos me jogaram de um lado pro outro, eu senti ciúmes, ódio, repulsa, eu dei patadas no meu melhor amigo, eu quis sacanear meu irmão, eu me contive e fui fazer sexo com outra menina, mas logo depois eu já não queria mais seus beijos. Eu fui horrível, eu peço desculpas. Eu queria que eles parassem de ser tão homens, tão bonitos, eu super não sei lidar com gente que é competição mas não é presa. O foda dessa vida gay que eu tenho é que essas pessoas que são só competição são raras, e eu não aprendo a lidar. Fico me perguntando se ser hétero não é um sofrimento constante, competindo o tempo todo, tendo raiva e ciúmes. Eu lembro vagamente do quanto eu amava mais as meninas que queriam ficar com meus homens, just in case, acho que é uma defesa contra a guerra. Sisterhoods e brotherhoods, mas nunca uma siblinghood. Mas é muito mais fácil simplesmente chamá-las junto.
Este vai ser um daqueles textos dos quais eu me envergonho depois de uns meses, aposto.
Estou tomando café só pra conseguir escrever.
Enfim, competir com homens é muito difícil. Eu posso até ser mais bonita que o cara, mas, sabe, ele tem músculos, barba, pica. Não tem muito o que eu possa fazer contra uma pica. O que nos leva de volta ao assunto original do post (na minha cabeça) que é o fato de que eu realmente curto mina hétero. Não minazinha Pat, cabelo comprido e sombra, shortinho, bronzeado e luzes, mas mina macho, de coxa grossa, piercing, dessas que usa coturno com saia, tatuada, que anda de bike, que pega todo mundo, que dança rock pesado e veste sobretudo rasgado, que pinta o corpo, que é brother, que bebe, que manda, feminista, que entende das coisas que entende, que faz arte, que corta o próprio cabelo, que me pega. Mas essencialmente HT. Eu fico meio perdida com lésbicas (e aqui eu estou sendo reducionista, estou dividindo as pessoas entre as que pegam mais homem e as que pegam mais mulher). Pra falar a verdade às vezes eu vejo uma lésbica e penso "mas ela é lésbica, não vai querer ficar comigo". Acho que me perturba o fato de que mulher lésbica de fato gosta de mim como mulher. Mulher ht me pega como se eu fosse um cara, me faz me sentir um cara (enquanto eu elaboro este argumento eu estou de tênis de trilha e calça jeans, sem camisa, eu tenho cabelo curto, 1,58m, e me pergunto se eu sou mesmo diferente do meu irmão), especialmente quando elas parecem não saber muito bem o que fazer com uma mulher, mas ainda assim conseguem me pegar como, sei lá, como pessoa. Mulher lésbica às vezes é feminina demais, me perturba. Me deixa confusa. Me faz me sentir inexperiente, também, talvez isso seja um fator relevante. Talvez tudo seja uma ego-trip gigante. Mas.
Enfim, agora me desçam sua psicologia barata (ou cara, tanto faz).
Mulher que se dá bem com mulher sempre me deixa desconfortável, me faz me sentir menos mulher, menos homem também, menos tudo. Por que a vida é sempre uma competição idiota? Eu me sinto espremida no meio, não sou homem o suficiente pras hétero, não sou lésbica o suficiente pras lésbicas, de vez em quando rola, mas minha cabeça fica cheia de caraminholas. Eu visualizo a sua cara meio que rindo das minha dúvidas adolescentes. Mas você é homem, e eu não tenho grilo com homem, um homem como você não tem grilo, eu nem espero que você entenda por que eu penso essas bobagens.
Às vezes eu penso em mudar de sexo. Queria compartilhar isso aqui. Eu nunca vou fazer, eu acho, mas está constantemente na minha cabeça. Ao mesmo tempo eu não queria de verdade ser homem, ter toda essa auto-confiança excessiva ou esse excesso de auto-piedade que quase todos os homens que eu conheço têm. Eu sou mais bem resolvida que isso. Ainda assim, eu sinto prazer em fazer tudo o que eu puder pra ficar mais masculina. E no dia seguinte usar saia curta e brincos, pork; pork se eu fosse homem eu certamente iria me travestir, pork. Eu lembro de quando eu cortei o cabelo, vesti os brincos e por um momento me achei um transgender me travestindo (depois passou). Eu queria ser mais andrógina, assim como você, Lo. Eu achei tão incrível rolar com você e não saber quais de nós eram homens ou mulheres. Eu queria ter ficado nesse estágio, sentindo essa libertação fantástica. Da próxima vez, quem sabe. Eu não penso em você como um homem, not really. Eu só penso em você como você. Mrrrr.
terça-feira, 22 de janeiro de 2013
Putaria e outras punhetarias
Eu aqui ouvindo The National e quase gozando nas calças.
Eu em geral paro de falar essas coisas uma ou duas semanas depois de encontrar você. Mas hoje tá foda. Eu passei o dia inteiro fechando os olhos e mordendo a língua, visualizando em vez seus dentes mordendo a sua língua, os lábios entreabertos, seus olhos fechando e o ar saindo numa leve lufada de dentro dessa boca. Putaqueopariu. Eu repito seus movimentos, os olhos fechando, o levantar ligeiramente o canto dos lábios, o morder a língua, eu lembro do seu olhar quando eu perguntei se você não gostava e rio tudo de novo, deliciada. Estranho como eu repito você como se repetir você fosse, sei lá, te imprimir na minha pele, a tua boca sobre a minha boca como uma tatuagem mascarada com silk. Assim mesmo. De preferência com nossas línguas se lambendo, bem devagarinho, minha lingua molhando seus lábios de saliva, e aquilo tudo o que acontece em volta disso. Eu aqui ouvindo The National e quase me apaixonando. A voz desse cara é um tesão. Canta desse jeito pra mim a qualquer momento que eu te amarro na parede e te fodo até você dizer chega. E verdade seja dita, eu sou capaz de te comer até você dizer chega. Eu sou capaz de muita coisa, quando parece preciso. E agora parece preciso parar de pensar em você... mas não agora-agora. Deixa eu saborear este momento mais um pouquinho.
Hoje passou uma garota no metrô e nós dois viramos a cabeça para olhá-la. Cabelo curto e loiro, baixinha e magrela, levando uma bicicleta, camiseta rasgada nos ombros, tatuagem, seios pequenos, puta vontade de roçar o nariz muito levemente nesses seios lindos e sentir o cheiro dela, colocar uma mão encaixada como uma meia-taça em volta de um seio delicado, colocar a mão no abdomen dela e abrir sua roupa como aquele filho da puta em Paprika; eu não devia estar pensando em sexo com uma garota que eu vi na rua, mas ela era tão não tão linda mas tão interessante e atraente de um jeito que dava vontade de chamá-la prum café, ou pruma balada, vontadezinha de não ter pudor nenhum nessas horas e só me aproximar da pessoa e falar que você parece ser o máximo, mas mêdo também, mêdo demais de ela não querer receber o meu olhar, de ela não querer falar comigo pork, dela estar pouco se fudendo para o que eu acho dela, porque ela não precisa de ninguém falando merda pra ela no metrô quando ela está atrasada com a bicicleta, e eu nem tinha tempo mesmo. É muito confuso pra mim, sempre foi, na minha ânsia louca de nunca ser um babaca, eu acabo sendo uma pessoa meio tímida. Aliás, falando em babacas, você ainda tem o contato daquele brother pra pedir pra apagar alguém sem estardalhaço? É que eu preciso urgentemente me livrar de um colega - nunca antes eu tinha conhecido alguém e imediatamente querido matar essa pessoa. Odeio lidar com gente escrota, fico sem jeito e acabo rindo e não fazendo nada, mas o que eu queria mesmo era amarrá-lo nu num buraco e fazer uma vibe meio negrinho do pastoreio, tem muita saúva por aqui acho que dá pra fazer um trabalho bem feito.
Chega de pensamento ruim, cansei.
Eu fecho os olhos e por um momento penso em dormir no seu ombro, que idéia idiota, não, mas parecia tão gostoso. Eu penso naquele beijo que você me deu na frente de todo mundo, aquilo foi doce, meio que dizendo pra mim "tudo sussa, tudo de boas, estamos entre amigos, eventualmente todo mundo vai saber que você me come", não, péra, acho que não era isso que você estava dizendo. Putaqueopariu, eu acho que eu evolui de biscate pra outright puta, mas você sentiu a mão dele no meu pescoço, aquela perna gostosa ao alcance da pata, saca do que eu tô falando? Não sei se você saca, você não sabe nem que quando você me beija desse jeito fofo isso significa imediatamente que ou eu tô te namorando ou eu só to enrolando um pouco pra achar o melhor momento pra trepar com você, porra. Possivelmente os dois. Pelo menos dessa vez todos nós sabemos do que nós estamos falando. Porra.
Eu queria falar mais sobre sexo, amor, trepadas com meus amigos com meus amigos. Eles falam mas eles são umas biscates solteiras e reputáveis, eu só sou essa coisa gostosinha que tem o suficiente pra todo mundo (sério, se tem alguma coisa que tem pra todo mundo, é essa menina). De vez em quando o tempo pára e eu percebo umas coisas idiotas, tipo que minha mão deve estar cheirando a buceta, e penso em sexo. De vez em quando alguma gostosa respira em mim e eu sinto aquele cheiro de boca de mulher e aí fica difícil, difícil mesmo. Às vezes eu só chego perto de você e sinto aquele cheiro que as pessoas soltam quando elas querem deixar a gente louco, e comigo funciona. Eu fico revivendo as coisas, distraidamente. Uns toques. O sol. Uma sensação. Um beijo no pescoço.
Em dúvida entre esquecer de você por duas semanas ou fazer o mais natural e obcecar com você. Obcessão mesmo, eu mordo o lábio e sai da boca um rosnado, eu jogo a cabeça pra trás, eu abro uma mensagem automática que vem com uma foto fofa sua dizendo que é um absurdo a gente não ter trepado pelo menos umas sete vezes (uma vez quando eu te conheci, duas na semana seguinte, uma vez quando eu te reencontrei, pelo menos três na semana passada). E você ainda duvida de mim, me provoca, me dá vontade de te mandar tomar no cu, de lamber seu pescoço quando você tá tentando dormir. E aqui estou eu lambendo seu pescoço e descrevendo a minha língua na sua pele enquanto você tenta dormir. Tentar atrapalhar seu sono é minha nova diversão, junto com todos esses fetiches que eu não sabia que eu tinha mas que você apontou e esclareceu. Você me fez me dar conta da minha vida de um jeito muito forte. Agora eu acho que eu tenho que lidar com isso, porra. Mas não agora, não agora. Agora é hora de sofrer e gemer mais um pouco.
Vou voltar pra cama agora e desistir de te esquecer.
Eu em geral paro de falar essas coisas uma ou duas semanas depois de encontrar você. Mas hoje tá foda. Eu passei o dia inteiro fechando os olhos e mordendo a língua, visualizando em vez seus dentes mordendo a sua língua, os lábios entreabertos, seus olhos fechando e o ar saindo numa leve lufada de dentro dessa boca. Putaqueopariu. Eu repito seus movimentos, os olhos fechando, o levantar ligeiramente o canto dos lábios, o morder a língua, eu lembro do seu olhar quando eu perguntei se você não gostava e rio tudo de novo, deliciada. Estranho como eu repito você como se repetir você fosse, sei lá, te imprimir na minha pele, a tua boca sobre a minha boca como uma tatuagem mascarada com silk. Assim mesmo. De preferência com nossas línguas se lambendo, bem devagarinho, minha lingua molhando seus lábios de saliva, e aquilo tudo o que acontece em volta disso. Eu aqui ouvindo The National e quase me apaixonando. A voz desse cara é um tesão. Canta desse jeito pra mim a qualquer momento que eu te amarro na parede e te fodo até você dizer chega. E verdade seja dita, eu sou capaz de te comer até você dizer chega. Eu sou capaz de muita coisa, quando parece preciso. E agora parece preciso parar de pensar em você... mas não agora-agora. Deixa eu saborear este momento mais um pouquinho.
Hoje passou uma garota no metrô e nós dois viramos a cabeça para olhá-la. Cabelo curto e loiro, baixinha e magrela, levando uma bicicleta, camiseta rasgada nos ombros, tatuagem, seios pequenos, puta vontade de roçar o nariz muito levemente nesses seios lindos e sentir o cheiro dela, colocar uma mão encaixada como uma meia-taça em volta de um seio delicado, colocar a mão no abdomen dela e abrir sua roupa como aquele filho da puta em Paprika; eu não devia estar pensando em sexo com uma garota que eu vi na rua, mas ela era tão não tão linda mas tão interessante e atraente de um jeito que dava vontade de chamá-la prum café, ou pruma balada, vontadezinha de não ter pudor nenhum nessas horas e só me aproximar da pessoa e falar que você parece ser o máximo, mas mêdo também, mêdo demais de ela não querer receber o meu olhar, de ela não querer falar comigo pork, dela estar pouco se fudendo para o que eu acho dela, porque ela não precisa de ninguém falando merda pra ela no metrô quando ela está atrasada com a bicicleta, e eu nem tinha tempo mesmo. É muito confuso pra mim, sempre foi, na minha ânsia louca de nunca ser um babaca, eu acabo sendo uma pessoa meio tímida. Aliás, falando em babacas, você ainda tem o contato daquele brother pra pedir pra apagar alguém sem estardalhaço? É que eu preciso urgentemente me livrar de um colega - nunca antes eu tinha conhecido alguém e imediatamente querido matar essa pessoa. Odeio lidar com gente escrota, fico sem jeito e acabo rindo e não fazendo nada, mas o que eu queria mesmo era amarrá-lo nu num buraco e fazer uma vibe meio negrinho do pastoreio, tem muita saúva por aqui acho que dá pra fazer um trabalho bem feito.
Chega de pensamento ruim, cansei.
Eu fecho os olhos e por um momento penso em dormir no seu ombro, que idéia idiota, não, mas parecia tão gostoso. Eu penso naquele beijo que você me deu na frente de todo mundo, aquilo foi doce, meio que dizendo pra mim "tudo sussa, tudo de boas, estamos entre amigos, eventualmente todo mundo vai saber que você me come", não, péra, acho que não era isso que você estava dizendo. Putaqueopariu, eu acho que eu evolui de biscate pra outright puta, mas você sentiu a mão dele no meu pescoço, aquela perna gostosa ao alcance da pata, saca do que eu tô falando? Não sei se você saca, você não sabe nem que quando você me beija desse jeito fofo isso significa imediatamente que ou eu tô te namorando ou eu só to enrolando um pouco pra achar o melhor momento pra trepar com você, porra. Possivelmente os dois. Pelo menos dessa vez todos nós sabemos do que nós estamos falando. Porra.
Eu queria falar mais sobre sexo, amor, trepadas com meus amigos com meus amigos. Eles falam mas eles são umas biscates solteiras e reputáveis, eu só sou essa coisa gostosinha que tem o suficiente pra todo mundo (sério, se tem alguma coisa que tem pra todo mundo, é essa menina). De vez em quando o tempo pára e eu percebo umas coisas idiotas, tipo que minha mão deve estar cheirando a buceta, e penso em sexo. De vez em quando alguma gostosa respira em mim e eu sinto aquele cheiro de boca de mulher e aí fica difícil, difícil mesmo. Às vezes eu só chego perto de você e sinto aquele cheiro que as pessoas soltam quando elas querem deixar a gente louco, e comigo funciona. Eu fico revivendo as coisas, distraidamente. Uns toques. O sol. Uma sensação. Um beijo no pescoço.
Em dúvida entre esquecer de você por duas semanas ou fazer o mais natural e obcecar com você. Obcessão mesmo, eu mordo o lábio e sai da boca um rosnado, eu jogo a cabeça pra trás, eu abro uma mensagem automática que vem com uma foto fofa sua dizendo que é um absurdo a gente não ter trepado pelo menos umas sete vezes (uma vez quando eu te conheci, duas na semana seguinte, uma vez quando eu te reencontrei, pelo menos três na semana passada). E você ainda duvida de mim, me provoca, me dá vontade de te mandar tomar no cu, de lamber seu pescoço quando você tá tentando dormir. E aqui estou eu lambendo seu pescoço e descrevendo a minha língua na sua pele enquanto você tenta dormir. Tentar atrapalhar seu sono é minha nova diversão, junto com todos esses fetiches que eu não sabia que eu tinha mas que você apontou e esclareceu. Você me fez me dar conta da minha vida de um jeito muito forte. Agora eu acho que eu tenho que lidar com isso, porra. Mas não agora, não agora. Agora é hora de sofrer e gemer mais um pouco.
Vou voltar pra cama agora e desistir de te esquecer.
domingo, 13 de janeiro de 2013
Sopas
Teste número dois: usando o Path input para conseguir escrever maias rápido! Será que vai darth certo? Eu terei que copiar este texto para pó lugar certo depois e tem essas propagandas horríveis quite ficam atrapalhando mas consigo escrever palavras s enormes como “propagandas” aqui portanto deve valer a pena.
Ok, copiado. Acho que valeu a pena para o blogger, mas talvez seja melhor simplesmente usar as duas mãos como estou fanzendo agora... Hmmm "propaganda" nao parece tão difícil com as duas mãos...
Vamos ver se eu ainda prefiro escrever com uma mão só. Parece cansativo, talvez seja melhor desencanar...
Ok, copiado. Acho que valeu a pena para o blogger, mas talvez seja melhor simplesmente usar as duas mãos como estou fanzendo agora... Hmmm "propaganda" nao parece tão difícil com as duas mãos...
Vamos ver se eu ainda prefiro escrever com uma mão só. Parece cansativo, talvez seja melhor desencanar...
Sapos
Eu instalei o aplicativo do blogger no meu celular, o que significa q assim que euaprender a digitar nesta porcariaia de teclado eu vou poder digitar um monte ... Testando...
quinta-feira, 20 de dezembro de 2012
Mar
E reiterando a minha dor
Eu me arrastei pela orla do mar
A areia arrranhando minhas pernas
E eu cheguei na outra pedra
Onde era quente, e macio e duro
Eu escalei a outra pedra
sentei e fiquei olhando o mar
O mar batendo duas ondas furiosas
O mar que não me alcançava mais
Eu me arrastei pela orla do mar
A areia arrranhando minhas pernas
E eu cheguei na outra pedra
Onde era quente, e macio e duro
Eu escalei a outra pedra
sentei e fiquei olhando o mar
O mar batendo duas ondas furiosas
O mar que não me alcançava mais
domingo, 30 de setembro de 2012
Life On Mars
Acho que estou chegando no meu limite outra vez
Acho que quero ir embora outra vez
Mandar esta porra à merda
Parar de fazer o que eu não quero fazer
E ir viver a vida
Eu quero ir pra festa, pular e dançar e beber e brincar
Eu quero perder todos os limites
Mas acho que eu quero acordar cedo amanhã.
Acordar cedo pra ir pra aula pra tirar notas boas pra ter uma carreira
But do I really care about that?
Well the show is a bore
I've read it ten times before
And I can't focus on
Esses dias eu estava lembrando daquele eu-nunca, de quando alguém perguntou quem da roda a gente já tinha querido pegar, e eu respondi, "uai, todos". E eu podia dizer isso porque eram todos meus amigos, porque não ia ser um problema, porque mesmo se um interpretasse como razão pra me passar um xaveco raso, eu só ia precisar mostrar desinteresse uma vez pro cara se tornar mais respeitoso. E ao mesmo tempo se rolasse um clima e eu pegasse alguém não ia dar nada errado. Alguns falarm de mim e eu ri e disse "Nossa, tem mais gente do que eu imaginava me querendo, eu devia estar aproveitando melhor essa vida". E de fato eu aproveitei um pouco melhor essas vidas depois daquele dia. A vida era boa então.
Recentemente eu me dei conta de que meu "grupo de amigos", ou o que as pessoas desse grupo chamam de meu grupo de amigos, não é mais composto pelos meus amigos, e eu não acho que numa roda hoje em dia eu me sentiria confortável em ser tão aberta e honesta. Também é verdade que tem gente no grupo que não me interessa minimamente, e eu acho isso estranho porque eu sou a pessoa que se interessa por todo mundo. Então life feel's weird.
A verdade é que eu estou de saco cheio dessa farsa, eu quero parar de sair com "o grupo" e voltar a sair com as pessoas. Eu tenho outros amigos e outras turmas, mas eu não quero mais me importar com turmas, eu só quero sair com meus amigos, e dizer foda-se completamente para quem eles acham que faz parte d"o grupo".
Eu quero sair com pessoas em quem eu confio. Com pessoas com quem eu quero conversar, com quem eu quero interajir. Eu quero poder fazer o que me der na telha e ser respeitada. Eu não quero acabar fazendo o que eu não quero e não fazendo o que eu quero e ter que dar desculpas de porque eu não quero fazer uma coisa. Eu não quero me sentir mal no dia seguinte.
Eu quero ter uma vida divertida e interessante.
.
Mas hoje foi um bom dia, de verdade. Hoje tinha pessoas legais e diversão e liberdade. Eu me perturbei um pouco com meus amigos julgando e tirando sarro de pessoas exatamente iguais à gente, mas essa foi a única coisa nã0-boa que aconteceu hoje.
Mas eu voltei pra casa pra fazer um trabalho que eu não quero fazer e que eu não entendi direito.
And the show is a bore
I've writ it ten times before
It's just been written once more
As I tell me to focus on
A vida não está sendo tão incrível quanto eu acho que deveria ser.
Acho que quero ir embora outra vez
Mandar esta porra à merda
Parar de fazer o que eu não quero fazer
E ir viver a vida
Eu quero ir pra festa, pular e dançar e beber e brincar
Eu quero perder todos os limites
Mas acho que eu quero acordar cedo amanhã.
Acordar cedo pra ir pra aula pra tirar notas boas pra ter uma carreira
But do I really care about that?
Well the show is a bore
I've read it ten times before
And I can't focus on
Esses dias eu estava lembrando daquele eu-nunca, de quando alguém perguntou quem da roda a gente já tinha querido pegar, e eu respondi, "uai, todos". E eu podia dizer isso porque eram todos meus amigos, porque não ia ser um problema, porque mesmo se um interpretasse como razão pra me passar um xaveco raso, eu só ia precisar mostrar desinteresse uma vez pro cara se tornar mais respeitoso. E ao mesmo tempo se rolasse um clima e eu pegasse alguém não ia dar nada errado. Alguns falarm de mim e eu ri e disse "Nossa, tem mais gente do que eu imaginava me querendo, eu devia estar aproveitando melhor essa vida". E de fato eu aproveitei um pouco melhor essas vidas depois daquele dia. A vida era boa então.
Recentemente eu me dei conta de que meu "grupo de amigos", ou o que as pessoas desse grupo chamam de meu grupo de amigos, não é mais composto pelos meus amigos, e eu não acho que numa roda hoje em dia eu me sentiria confortável em ser tão aberta e honesta. Também é verdade que tem gente no grupo que não me interessa minimamente, e eu acho isso estranho porque eu sou a pessoa que se interessa por todo mundo. Então life feel's weird.
A verdade é que eu estou de saco cheio dessa farsa, eu quero parar de sair com "o grupo" e voltar a sair com as pessoas. Eu tenho outros amigos e outras turmas, mas eu não quero mais me importar com turmas, eu só quero sair com meus amigos, e dizer foda-se completamente para quem eles acham que faz parte d"o grupo".
Eu quero sair com pessoas em quem eu confio. Com pessoas com quem eu quero conversar, com quem eu quero interajir. Eu quero poder fazer o que me der na telha e ser respeitada. Eu não quero acabar fazendo o que eu não quero e não fazendo o que eu quero e ter que dar desculpas de porque eu não quero fazer uma coisa. Eu não quero me sentir mal no dia seguinte.
Eu quero ter uma vida divertida e interessante.
.
Mas hoje foi um bom dia, de verdade. Hoje tinha pessoas legais e diversão e liberdade. Eu me perturbei um pouco com meus amigos julgando e tirando sarro de pessoas exatamente iguais à gente, mas essa foi a única coisa nã0-boa que aconteceu hoje.
Mas eu voltei pra casa pra fazer um trabalho que eu não quero fazer e que eu não entendi direito.
And the show is a bore
I've writ it ten times before
It's just been written once more
As I tell me to focus on
A vida não está sendo tão incrível quanto eu acho que deveria ser.
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