sexta-feira, 27 de abril de 2007

Então, né, design...

Para que vocês saibam algumas das preocupações que um pobre estudante de Design tem.



Então, a gente estuda Marx e Sartre, passa uma semana inteira lendo Argan; discute a Revolução Industrial, os operários (e os ludistas) e os capitalistas (e principalmente os desenhistas industriais); é obrigado a entender tudo que se fala sobre Ulm e Bauhaus (e um pouco sobre a FAU), sobre Art Nouveau e Art Déco, sobre o impressionismo e o romantismo, e sobre a arte contemporânea; estuda o poder da tipografia, a teoria das cores, a Gestalt; a gente vai a exposições, a imposições, a palestras, e vê filmes, e vê quadros, e vê livros; e tem aula de desenho geométrico, e faz inúmeros trabalhos com inúmeros materiais. Mas quando vai procurar estágio... Pois é,Design não é fácil...

segunda-feira, 23 de abril de 2007

A nossa geração

De novo, eu gostaria de fazer um post sobre o que vivi, e o que me assusta.


O que me assusta na "nossa geração" não é exatamente o despudor das pessoas de catorze anos de pegar dez pessoas numa festa e deixar toda a série saber; não é a quantidade de batidas de vodka que essas pessoas bebem, nem o volume de cigarros que fumam regularmente; não é a música que ouvimos, nem sequer a libidinosidade grosseira das danças que as acompanham (nos dias de hoje, o conceito de 'sensualidade' se esgarça. até porque não há mais sutileza.) O que realmente me assusta é que as pessoas mais cheias de princípios, as mais recatadas, perdem completamente a noção do pudor. Depois do primeiro beijo, vêm centenas de outros, de inúmeras pessoas diferentes. E meu amigo vai dar uns malhos com uma amiga, algo bem sem compromisso, e ele diz isso com a boca ainda molhada de um beijo de outra menina; ao mesmo tempo, as amigas têm raiva de uma rapariga (muito gente fina, por sinal) porque o garoto com quem ela está ficando acabou de terminar com a namorada, que ainda estava em prantos na sexta passada (ou seja, ontem). E a Gabi acha que sete meses não é tempo de namoro o suficiente para que sexo seja uma das bases da relação. Me desculpe, gatinha, mas o jeito como aquele menino que você adora passou a mão na bunda daquela loirinha vai muito contra esse seu idealismo. E quer saber? Você, e muita gente igual a você, está se esforçando para ser mais como ele. O que faz sentido, já que gente como ele existe por causa de gente como você. E vai além disso. É só olhar para elas, com seus decotes relaxados, suas poses séxys, pegando-se indiscriminadamente, é tudo carne, gente. O que será que pensam? Por que será que, para eles, tudo isso é natural? Será que só eu acho esquisito? Será que estou soando como uma velha retrógrada? Mas, pensando bem, acho que seria certo eu soar assim, já que a minha turma do santa não era assim, de modo geral. Até as meninas pegadoras eram meio castas... Ou será que é só pressão, mesmo, e que eles têm tanto mêdo uns dos outros como o resto de nós?

quinta-feira, 19 de abril de 2007

Fuga, Frustração e Fuga.

Will se debruçou sobre a amurada, admirando a paisagem. Entre seus olhos e o mar: duas gaivotas, marolas, sinais de paixes, e o Won-Tolla no canto do olho, içando as velas e ronronando para longe da poita. Uma brisa salgada jogava cabelos clareados pelo sol no rosto do menino. Will nem percebeu.
Passos. Suaves, mas perfeitamente audíveis sobre o sussurro marítimo. Um homem alto de cabelos negros curtos se aproximou sem qualquer encenação.
— Uma semana, William. —, disse ele.
Foi só isso. Tirou um cigarro do bolso da camisa azul e um isqueiro do bolso da calça. Pôs o cigarro na boca, as mãos em concha. Não abriu os olhos. O punho fechado de Will atingiu com força seu rosto desprevenido.
— Fuck you, Raven.
Foi tudo o que o jovem Will Grant conseguiu formular. Encarou por alguns instantes o homem estupefato, com olhos intensos que contiam algo pior do que o soco e o olhar. Depois apoiou-se outra vez na amurada, com o mesmo olhar fixado no horizonte. Entre seus olhos e o mar: cinco gaivotas, marolas, um barco pesqueiro, uma canoa; e o Won-Tolla, no centro da imagem, de velas içadas, se afastando suave da frota que sempre escoltara. Will levou a mão aos cabelos, tentou debalde prendê-los atrás das orelhas. Pouco compridos, volumosos demais. O homem atrás dele pôs o isqueiro no bolso, pegou o cigarro do chão, se levantou, guardou o cigarro no bolso, limpou com as mãos a camisa e a calça, arrumou o cabelo com as pontas dos dedos. Quando terminou, pegou outra vez o cigarro e o isqueiro, e pôs o cigarro na boca. Will, saiu andando em direção à proa. Andando primeiro, enquanto Raven guardava o isqueiro com pressa e tirava o cigarro da boca para perguntar aonde ele ia; depois, correndo, enquanto o homem tentava se aproximar. Por fim, em disparada irracional, por sobre cabos, âncoras, redes, por entre caixotes, por baixo de velas e escadas e cabos e roldanas de todos os tamanhos, sem destino ou direção; apenas queria correr, correr, fugir, e quando acabou o barco pulou tolamente para o cais, e sequer sentindo a dor da queda correu pelos píers, pelas docas, pela praia, por galpões; alcançou a cidade, percorreu ruas e ruelas, enfiou-se em becos, atravessou salas de visitas, cruzou praças, ilhas de avenidas, estacionamentos. Parou de correr quando pulou um muro sem calcular a altura e viu-se a rolar ladeira a baixo, passando ao seu lado árvores e bancos de uma praça notavelmente íngreme, até que parou num baque doloroso contra uma falsa seringueira, rodeada de grossas raízes. Seus olhos perderam o poder do foco, e os pensamentos foram ficando cada vez mais confusos. Sentiu uma dor aguda vinda de seu joelho direito, que derramava na terra rios de sangue. Seu pulmão parecia queimar, e era difícil respirar. O ritmo cardíaco foi baixando, e todo o corpo ficava mais insinsível. Entre ele e a morte, apenas: um par de gaivotas, um pingente de espada, uma tornozeleira; e o Won-Tolla, no centro de tudo, desaparecendo por trás da ponta do Farol.

segunda-feira, 16 de abril de 2007

"Does it hurt?"

...

Honestly, someday we have to learn to live beyond pain.
"No mundo atual está se investindo cinco vezes mais em remédios para virilidade masculina e silicone para mulheres do que na cura do Mal de Alzheimer.
Daqui a alguns anos, teremos velhas de peitos duros e velhos de pau duro, mas eles não se lembrarão para que servem."

Dráuzio Varella

terça-feira, 3 de abril de 2007

(baixinho): Socorro...

terça-feira, 27 de março de 2007

Faz muito frio na nasa

...E de repente todos os rostos se viram para saudar os olhos cheios de tristeza


às vezes, quando estou sozinha, vejo homens, moleques, passando, e acho que são você. Você é tão diferente, mas tão contido e confuso, e de repente qualquer não-movimento é o seu trejeito específico que faz seu tímido exuberante e incompreensível jeito de ser. Hoje, há poucos minutos, aconteceu assim: o rapaz passou, e tinha seu cabelo, seus olhos, até os pêlos no rosto (aqueles dos quai eu gosto e você detesta). And my heart skips beat every time I see you — aqui estou eu, sempre esperando que você surja do nada, que você me abrace e sorria e diga, vamos passear? Vamos olhar as estrelas? Vamos brincar de gato-selvagem? Quer ir ao cinema? Quer pedir esfiha? (eu sempre estou pronta pra dizer mais um "não", você sabe.) Quer ver meus desenhos? Quer contar da sua vida? Quer... Você, quando faz essa pergunta, arrepia às vezes meus pêlos da nuca. Divirto-me. Outras vezes me irrito, não gosto que você me peça para tomar as decisões. Onde vamos almoçar hoje? Quando você vai sair da aula? Por que estou escrevendo isto? Você nunca tem todas as respostas (adoro isso em você — mas também detesto, em certa medida).

Viver a vida pulando e pululando (os trens, e circulares, pelo menos) entre santo amaro e butantã está me deixando cansada. Não passo tempo nenhum na faculdade — sempre muito ocupada com trabalhos da faculdade. Queria às vezes não ter meu horário tão rígido, poder fazer aulas de italiano e francês, fazer natação, jogar bola no cepê, sair com os amigos, quiçá ir trabalhar. Estudar é esquisito, não se produz nada, só estudos, estudos-rascunhos, ensaios-estudos e rascunhos de ensaios. E ultimamente não tenho tido vontade de fazer nada de muito emocionante; sair para tomar cerveja ou sorvete no meio da tarde, aprender uma nova sobremesa, ler magás, assistir seriados, desenhar, ir ao médico, reclamar do braço que dói cinco dias depois de tirar sangue (agora parou de doer), observar as árvores, fotografar, atravessar a ponte em pleno pôr-do-sol (mesmo que isso signifique que etou atrasada para a aula) são coisas que me fazem muito feliz. Estou tranqüila agora, mesmo sabendo que não deveria estar, que tenho milhares de trabalhos para hoje à noite, para amanhã de manhã, para amanhã à noite, para sexta de manhã e para sexta à noite, estou tranqüila talvez porque não me importo, talvez porque só quero dormir e ler (e ler e dormir — e sonhar e aprender e deitar-me ao seu lado e rosnar-ronronar baixinho no seu ouvido). Talvez eu só preciso olhar para o tronco castanho e as folhas verdes e o céu azul e me deixar levar pela admiração da beleza que essas cores criam para que meu espírito seja completamente revigorado. Assim, não é sequer preciso levar a vida com responsabilidade e muito trabalho louco e duro. Talvez eu só não esteja interessada no que estou fazendo. Ou eu tenha muito muito muito mêdo de algum dia ter que assumir a responsabilidade. Acho que eu ainda não fui tão inconseqüente quanto gostaria de ter sido.
Tenho sentido muita saudade do meu velho eu, com seus mêdos e dores e intensos sofrimentos. E sonhos, também. Faz muita falta sonhar. Faz muita falta descansar e poder simplesmente jogar a culpa para o lado. É horrível não poder negligenciar nenhum dia da minha vida; não poder perder um pouco de tempo pra depois recuperar, é horrível. Onde está a liberdade? Eu nem sei o que estou fazendo aqui. Não sei o que são os inúmeros trabalhos que temos de fazer. Teria sido diferente se eu não tivesse perdido quase duas semanas de aula? Faria diferença se eu tivesse feito algum amigo aqui? Ou será que são apenas desculpas vazias, desculpas para eu fazer o que quero sem ter nem um motivo racional? Desculpas, talvez, para eu poder acordar junto com o resto da casa, tomar café com meus pais, almoçar com meus irmãos? Ou isso é uma desculpa também? afinal, ano passado eu não fazia nada disso, passava o dia todo no santa e amava aquele jeito de viver! Ainda quero passar os dias inteiros na faculdade, mas será que é possível? Será que algum dia eu vou ter amigos, jogos, atividades interessantes, que justifiquem minha estadia, que a façam agradável? Não sei. Não sei de nada. Não entendo este lugar, esta vida, o despertador tocando tocando milhares de vezes pedindo para eu acordar, e eu pensando droga droga droga não quero acordar tenho sono e ontem tive sono e por isso hoje tenho que terminar o trabalho antes de acordar.

Pensamento nada a ver: segundo a descrição das diferenças entre homens e mulheres que o Mavu (psor de imagem digital) fez hoje, meu namorado é quase uma mulher o.o. E eu sou quase homem, nos mesmo aspectos. Acho que precisamos dar uma olhada nisso.

segunda-feira, 19 de março de 2007

A Escrita Branca

Na verdade, escrever no escuro é libertador. Saber que só quem realmente quiser vai ler, que ninguém vai ler, dizer e ao mesmo tempo não dizer: escrever no escuro é a síntese do que sempre fiz, é a metáfora perfeita. Escrever no escuro é escrever para cegos, escrever de olhos fechados, dizendo coisas simples de uma forma que ninguém entenda. Morrer!Morrer não é nada. Morrer é terminar um ciclo, mudar de nome, apagarem-se as velhas cicatrizes, perderem-se as antigas tatuagens ("the tatoo says who you are!")... Morrer é afogar-se num rio corrente, é sobreviver ao bombardeio... Morrer é perpetuar-se, morrer é escapar da extinção e alcançar a eternidade... É o final de cada eu. E se quando morrermos, nossas almas se juntarem às almas de nossos genitores, de que fazemos parte? Se nossos descendentes tiverem em si um pouco de nós que os faz inteiramente nossos, que nos faz todos um? Morrer é romper o cordão umbilical, morrer é modificar a existência. Morrer é terminar uma dinastia sem assassinar o herdeiro. É desvincular a vida de sua determinação. É mudar de sobrenome. Um filho de rei que é adotado por camponeses. Morrer é nunca mais lembrar. O pior é ir na estrada Morrer! Morrer não é nada; é o final de cada eu! O pior é ir na estrada sepultando quem já morreu! Família significa nunca mais abandonar. Morrer é quebrar a Famiglia, é desexistir o passado. Será possível morrer enquanto se é vivo?Sepultando quem já morreu! Escrever no escuro é necessário, é absoluto. As luzes nào dizem nada, são ausentes de palavras. A Língüa se faz no escuro, entre gritos, gemidos, sussurros. O som não se vincula à imagem! A verdadeira língua é a dos cegos, que falam, que tocam-se. A Visão é o sentido da Razão, mas escrever nem sempre é racional. Sons, sons, sons. Morrer não é nada. É preciso que haja o escuro, a não-visão, para que haja a leitura. E depois da leitura a página em branco no fim do livro, continuando o fluxo virador de páginas, perpetuando a sensação da leitura e a necessidade da história, como reticências, ou como aquilo que as reticências representam — se ao final do livro houvesse dez páginas impecavelmente brancas, eu as leria, as dez. Em alguns livros eu gostaria que houvesse cem páginas em branco, que me permitissem ler o final da hiostória, a continuação da história, aquele universo sem limites e sem palavras de que se fazem as esperanças. A página em branco, delimita e completa o livro. É a página-reticente que termina a história, que escreve (sem tinta) um glamouroso FIM ao final de cada epopéia. Sem ela, o livro não teria nenhum sentido, seria como um pote sem tampa, um vinho em garrafa sem rolha, a ser consumido sem cerimônia, a ser deglutido, sem a espera, sem o ritual, sem o mergulho, posto que sem respiro. A página em branco é o espaço sagrado, o palco dos sonhos...

Canção de contemplação do mar por dias e dias

Diga que estou esperando
estou esperando 'cê passar por mim
Diga que estou enrolando
pensando que o mundo n'é tão grande assim
E espero mais
Espero mais
Espero esta solidão ter fim
Espero mais
Espero num cais infinito
você passar por mim

Ô, o mar escurece
o mar se enegrece se o sol desmaia
Ô, ô, o mar clareia
o mar se prateia se a aurora raia

Longe, além das estrelas
nadam sereias sobre as marolas
Marolas de longas esteiras
que deuses da areia formam na aurora

Diga que estou esperando
estou esperando 'cê me perceber
Diga que estou enrolando
pensando que o mundo está pra se perder
E espero mais
Espero mais
Espero a solidão me esquecer
Espero mais
Espero num cais no horizonte
Você me perceber

Ô, o mar escurece
o mar se enegrece se o sol desmaia
Ô, ô, o mar clareia
o mar se prateia se a aurora raia

Ô, o mar escurece
o mar se enegrece se o sol desmaia
Ô, ô, o mar clareia
o mar se prateia se a aurora raia

segunda-feira, 12 de março de 2007

Eu odeio este blog idiota.

Mesmo assim, eu posto e posto e escrevo e-mails e deixo mensagens na caixa postal e mando sms e telefono e posto no Pato e comento em outros blogs. Não posso negar: estou fazendo tudo isso só pra você prestar atenção em mim, só na esperança de um dia receber uma resposta, um comentário, ou um prêmio de pior comentário. Como eu sou idiota. ¬¬

domingo, 11 de março de 2007

I have a confession to make

(but it's not possible)


You know, the hard thing is, I never chose you. I never even wanted to get closer to you. When I met you, it was already determined that we were to be friends; and our mindless chit-chats were a proof of how much we mingled already. But back then I could hardly see you — and to be honest I couldn't care less. Those were years when I was happy to know my best friend's thought's before he said anything. Do you remember that? No, wait — you weren't there. You couldn't be.

I remember once I dreamt I was a bit older and could therefore be in your class. But that dream didn't bother me. Back then, dreaming about you was not something I could worry about. I hadn't yet discovered the most complicates and yet the most simple things in this our world: love, lust, trust, betryal, all that jazz. There was pain before, but pain was different. Pain was not something I'd like to feel. And it hurt so much...
But then we chatted, we ran, we danced, we played, and thrice I heard those words that still eventually haunt me — though the last time was just a dream. And I made you so many promisses in the end no one knows if they meant anything.

But then I denied this love, I said — let's pretend it's only lust — and perhaps it wasn't just pretending; one day grew apart, and one day we spoke again, and the friendship didn't last, you know? And one day you made me depend on you and now I just live without you: When I hear your voice denying everything I believe, boy, I wanna hurt you so bad, I want you to disappear, but then I just wanna hold you, and I hate you, but perhaps, I think, I love you. And you're such a fool, you're everything I'd never want for me, but still, I think, I love you.


...


...



Não, olha: eu nunca vou te entender. Nunca.

domingo, 4 de março de 2007

Qual a origem da consciência?

.... do you think we're doing our share..?


Nos últimos anos, tem feito sentido pensar no nosso terreno na Cajaíba como o lugar em que fazemos todas as coisas do melhor jeito. Catamos lixo da praia, evitamos queima, usamos energia solar, cuidamos da vegetação, enterramos lixo orgânico, fazemos fossas, plantamos árvores e ervas, gramamos a área deserta para evitar erosão. Aqui em casa, para não sermos totalmente hipócritas, criamos um belo jardim, separamos o lixo para reciclagem, plantamos temperos, damos frutas e água para os passarinhos, além de criar uma pequena variedade de animais domésticos. E até evitamos os agrotóxicos. Mesmo assim, olhar ao redor, pensar no mundo hoje, ouvir (ouvir!) os avisos insistentes dos cientistas ambientais sobre o futuro que estamos criando, tudo isso dói, profundamente. Será que você também ouvem, do fundo da consciência, uma voz incômoda dizendo que o que estamos fazendo não é nada próximo da nossa responsabilidade, das nossas possibilidades?
Hoje eu vi aquele filme do Al Gore, Uma Verdade Inconveniente, e quando acabou o filme eu estava distraidamente pensando em quanto papel eu tinha pra reciclar no meu quarto (pelo menos uma árvore pequena...), quando olhei ao redor e... sei lá, minha casa tem muita madeira. Muito tecido. Muito papel. Talvez seja natural se sentir culpado, quando se vive entre restos mortos de coisas vivas, quando na verdade nós nem fomos tão bons assim pra merecer tudo aquilo, tudo o que se perdeu para que nós tivéssemos uma casa, um telhado, uma cama, um sofá, uma prateleira, uma estante. Talvez seja natural, porque sabemos que um dia fomos parte disso tudo; um dia nós fomos como o pato e leão, como a samambaia e a bactéria, e de certa forma dói quando percebemos que muitos seres como esses, que já foram tão próximos de nós, têm que viver miseravelmente ou morrer e tornar-se objeto para que alguns de nós vivam com um pouco mais de conforto. Será? Ou estou tento uma visão romântica da humanidade? Penso agora naqueles carroceiros que exaurem seus cavalos durante o dia, num trabalho de recolher o lixo e jogá-lo por aí, ou de vender sucata para sucateiros, e ainda alugam o animal, exausto, durante à noite, sem dar-lhe água ou comida, sem o menor arrependimento. Talvez algumas pessoas simplesmente não percebam, não sintam que a vida tem um sentido, talvez elas não saibam que é preciso viver a vida da melhor maneira possível. Mas será que é possível dar sentido à vida das pessoas, o suficiente para que elas queiram responsabilizar-se por seus atos? Será que temos o poder de levá-las a se importar com seu impacto sobre o mundo? E fazê-las amar o mundo e querer o melhor para ele? Podemos ao menos tentar?
***

Desde que o homem se alimenta da natureza, tanto literal quanto metaforicamente, ele se sente culpado. Os povos primitivos caçadores contavam histórias de animais que ofereciam sua carne em sacrifício; mitos que justificavam e autorizavam a caçada. Se o homem moderno pode agredir outras espécies sem a permissão da natureza, é porque houve uma absurda emancipação do homem, que o torna tão distante do resto do mundo que ele não consegue mais enxergar a relação entre ele mesmo e qualquer coisa que aconteça fora dele. Na verdade, ele não deve conseguir entender nem a si próprio, seus anseios e mêdos mais instintivos. Ou, em outro caso, o homem está tão desesperado que sucumbe inevitavelmente ao egoísmo e ao imediatismo. De qualquer forma, é impossível imaginar que esse homem acredite e confie no que acontece no mundo, confie que a natureza vai produzir o que ele consome. Talvez o homem moderno realmente acredite que precisa fazer tudo com as próprias mãos.

sábado, 3 de março de 2007

Constatação

ou

Apologia da falta de justificativas


Não justifica. Na verdade, eu já não tento justificar mais nada — busco somente explicar, compreender o que faço. Palavreio apenas fulgazes vulgares constatações.

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2007

Carnaval

e outras coisas que me vieram à mente...



Ultimamente têm acontecido coisas estranhas. E na maior parte do tempo eu não tenho sido eu mesma. Aquele pessoal simpático do Senac, eu estava pensando, simplesmente corresponde perfeitamente à minha visão de mundo. Ao que eu quero que ele seja. E quando ando na rua, não penso em nada. Entre as árvores da USP, não me sinto em casa. Depois disso, acho que não me sinto nunca mais em casa. Estou só, me sinto só, my heart is not anywhere.

Quando volto de uma viagem, a princípio quero escrever exaustivamente, contar tudo o que vivi e aprendi, tudo o que foi engraçado, tudo o que foi imbecil, as brigas, as amizades redescobertas, as novidades, as diferenças. Mas passa a vontade e não quero mais pensar nisso. A viagem torna-se passado muito rápido; e ninguém vai escrever sobre o passado... (agora parece divertido que o único a postar sobre isso tenha sido o Charles).
Mas parece que essa viagem foi mesmo diferente. Passamos fome, nos perdemos, nos arriscamos, economizamos água, e isso só para falar dos primeiros dois dias. Experimentei dormir em uma cabine de proa da Julie, depois em uma cama grande, depois em metade dela, depois sobre alguns cobertores no chão da barraca e por fim um colchão de ar (sem contar o banco do ônibus), e acho que o pior foi o colchão de ar. Além disso, ainda me alegro ao lembrar da cara que o Cham fez quando acordei um dia e, absolutamente surpresa de vê-lo adormecido ao meu lado, dei-lhe um beijo na bochecha e me levantei. Subir o riozinho também foi uma coisa nova, e gratificante. Foi o momento em que me senti mais revigorada. Sem contar a vez em que amarramos as redes, e eu finalmente aprendi direito a dar lais de guia. E aquela hora em que jogamos frisbee de cima da árvore. E ver que o Ugo está desenhando cada vez melhor. E discutir filosofia, política, ética, sexualidade. E o futebol com caiçaras e turistas como nós. E o povoado que meu pai disse existir na Joatinga. Nossas conversas sobre barcos. Nossas mímicas. Nossas piadas. Aliás, ainda acho que os dinossauros foram uma grande invenção da humanidade. E que é estranho o sol ficar pra cima. E que a Lorena deveria poder dormir com o Chocolate ^^

domingo, 25 de fevereiro de 2007

Sussuros:


"Quero te contar um segredo....
Estou com mêdo do que há dentro de você."

Orvalho em Pontas de Folhas de Pinheiros

(você se lembra de como era estar apaixonado?)


Aime, et tu renaítras; fais-toi fleur pour éclore,
Après avoir souffert, il faut souffrir encore;
Il faut aimer sans cesse, après avoir aimé.
Hoje estava recolhendo crônicas minhas do site dos Anjos de Prata. Digo crônicas por falta de um nome que os reúna. De fato, acho que nunca escrevi uma crônica. Nem nunca tive qualquer interesse — a literatura jornalística é o extremo oposto do tipo de literatura que sei escrever.
O que me chamou a atenção na minha busca foi um texto de quatro anos atrás, que fala sobre a noite. Sobre como é preciso voltar para a noite, sobre como a noite também sente a minha falta.

...

... Como dói, tanto tempo de saparação...
Parece que com a gente não importa se foi bom ou ruim, é preciso voltar; viver, lembrar, sentir aqueles cheiros novamente. E mesmo que no presente eu sinta menos dores, parece até que é porque sinto tudo menos. Parece que por mais terrível que tenha sido o passado, ao menos ele foi terrível. E não entrar nessa penumbra; sexo, álcool, amigos que não se aceitam (ou não nos aceitam), faculdade, decisões importantes (e não só para nós mesmos), manter as aparências, sedução, namorados (nossos e dos outros), mêdos (também), dinheiro (dos outros), e aquele constante sentimento de impotência que é pior ainda agora que temos um pouco de poder sobre as coisas e as pessoas (ou, no mínimo, eles têm o poder de nos fazer exercer algum poder). E não consigo decidir o que me incomoda mais, talvez simplesmente porque tudo me incomoda muito.

O que eu quero, no fundo, é alguém que me ensine a viver. Quero passar as madrugadas, as manhãs e as tardes com você, e sair à noite em ruas iluminadas. Quero o mundo de novo, vê-lo por outros olhos, com novos rituais, novas liberdades. E um pouco de mim também, mas só as coisas boas ("mas não são todas boas?"...). Quero aprender a cozinhar, a dirigir e a sair pela cidade. Quero trabalhar. Estou honestamente cansada de tudo isso... Hoje de manhã quase fui até o escritória de mamãe perguntar quando íamos mudar de casa. Quando eu ia poder ter uma janela sem grades, que eu pudesse pular, na qual eu pudesse sentar. Quando haveria silêncio. No meio do caminho parei, sentei num carretel olhando a chuva. Acho que não quero mais morar aqui. Mesmo quando eu conseguir arrumar meu quarto, mesmo quando ele for reformado, sei que não chegará nem perto daquilo que eu quereria para mim. Sabe? Mal voltei de viagem e já estou pensando outra vez em como quero viajar. Amo São Paulo, mas quero mudar de quarto, de casa, de bairro. Quero esquecer as dúvidas, resolver meus problemas. Não estou preparada para ter novos problemas. Materialmente, acho que preciso passar minha vida a limpo ¬¬

terça-feira, 6 de fevereiro de 2007

Como não querer, e querer que não — como não?

Eu me pergunto, na verdade, se eu cometi um erro dando tanta trela à minha indecisão — ou se foi, ao contrário, a fortuna que me trouxe até aqui. Eu poderia ser como meus irmãos, fazer FAU, projetar, dar continuidade à dinastia faui, eu poderia me imaginar tardes sem fim subindo em árvores naquele campus matoso, confuso, selvagem (e belo). Mas não, não, acho que é difícil demais abdicar disso que só comecei a começar, quando as pessoas que conheci são fascinantes, quando os professores são bons, e o campus... ah, não é preciso falar do campus. Será que eu não conseguir abdicar desse luxo significa que eu sou fraca? Ou eu querer seguir minha vontade em uma situação que vai definir parte do meu futuro é uma demonstração de determinação e força? Será que meus dois irmãos estarem na FAU não é um motivo idiota pra eu querer fugir de lá? Será que a gratuidade da USP não é um motivo idiota para eu querer estudar lá? Você acha que alguns Macs, alguns estágios e algumas matérias interessantes (e talvez, em algum grau, um grande "A" montado na frente do prédio) justificam a grana e a luta por ela? E eu me pego distraidamente conjecturando absurdos, imaginando se é possível estudar de manhã e à noite e trabalhar à tarde. Acho que cansei de brigar com o dinheiro. Quero provar, pra mim mesma, talvez, que sou capaz de batalhar (por quê? por quê?) e até mesmo vencer. Que posso me dedicar, me esforçar, valer alguma coisa. Eu ter passado em 1o lugar, eu ter feito 73 pontos, eu saber o que é o sistema binário, nada disso justifica meu à-pampismo barato. No mundo capitalista, é preciso muita coragem pra não ser o melhor e ainda se sentir bem consigo. Não que eu goste desse mundo, mas — algum dia, eu gostaria de pensar que fiz o melhor que pude, e que pude muito. Quero valer o que você acha que eu posso valer.

sábado, 20 de janeiro de 2007

Exemplo

Pequeno conto de vestibular (o uso da terceira pessoa me faz me sentir menos ridícula, ok?)

Estranho isso de arte valer nota. Arte. Diziam arte sempre, em seus ouvidos. "És uma artista", diziam. Não dizia arte. Mas às vezes, quase nunca, sim. Ali, por exemplo, dadas as cirscunstâncias. Sou uma artista, pensava; pintava furiosamente, quando pensasse naquilo mais tarde pensaria que pintara com o corpo, com as mãos, ao contrário do que aconselhava Miró. Ou era Mondriant? "Arte", pensava, existe arte além de Miró ou Mondriant? Dar sentido a formas e ainda esperar ser entendido? Ou então sequer pretender ser entendido, ou ainda pretender ser incompreendido, como faziam boa parte dos artistas comtemporâneos; podia algo disso ser verdadeiro? arte, arte, e pensava no conceito de Arte como uma afronta pessoal, porque ela era a artista e o que ela fazia não era Arte. Mas pintava conclusivamente, um desenho objetivo, abstrato com elementos concretos, compreensível da mesma forma que o é uma narrativa desengajada. Mas se sentia orgulhosa, porque o desenho, embora desprovido de um significado direto, tinha sentido, e com alguma sorte os avaliadores perceberiam isso e lhe dariam alguma nota. Deixou o papel de lado e alegremente começou a segunda parte da tarefa, que envolveria dobras e colagens.
Enquanto planejava seu trabalho, olhou distraidamente para os lados, à procura de saber quão atrasada estava em relação aos outros condidatos, e de comparar seu desenho com os deles. Sorriu. A menina à sua esquerda fizera um lindo trabalho, desenhando ampliações coloridas, concêntricas, a intervalos regulares, das formas de base da proposta, dando a sensação de que as figuras haviam formado ondas sobre o papel. Era belo, sim, mas um pouco inócuo, um pouco estranho, fazer ondas a partir das letras cortadas — é que ondas poderiam ser feitas com qualquer coisa. Ela, a artista, ela aproveitara o que era próprio da figura de base (o corte) e pintara o que lhe parecia a conclusão lógica daquilo. Fazia sentido — mas, assim que olhou para o outro lado, percebeu que sentido não era o bastante. A menina à direita transformara cada uma daquelas formas cortadas em algo totalmente diferente, uma clave de sol, um instrumento musical, qualquer coisa bela, colorida e boa. Ela intervira na base, modificara, transformara a figura insensata e algo aflitiva em um conjunto animador e simpático. A menina do meio olhou para seu desenho rabiscado, envergonhada da passividade que ele revelava; pôs a folha no chão e tentou se concentrar na próxima proposta.

terça-feira, 9 de janeiro de 2007

Conclusão após a leitura de diversos blogs et cetera

Me parece que não restou mais nada. Diante de árvores frodosas, sou raízes apenas — e qu'é-de folhas? Enxergo na distância barcos e beijos carinhosos; enxergo num fundo d'olhos o que faz valer toda uma existência. Meus olhos porém cansaram-se de falar.
Me parece que já não resta nada. Será que traio minha existência, ou é minha existência que me trai? No que consiste minha natureza? Falo de mim porque é a única coisa no mundo que realmente conheço. Respeito, admirada, tantos outros que falam de tudo o mais. Até mesmo os invejo. Não tenho mais nada. Julgo que invejo neles a capacidade de ter qualquer coisa.
É que meu coração não fala mais, meu pensamento não sente. O que busco para oferecer-vos, meus pequenos deuses da verdade, é a essência das coisas, suas pequenezas; e não mais as encontro. Pequei? Então pequei pela mentira. Privei vossos ouvidos da verdade — mas foi porque minha verdade parece tão tola! Distraio-me de mim mesma, noto que não me conheceis. É uma pena. É uma pena que eu tenha de revelar-me agora, quando a mostrar já não tenho nada.
Existe em cada olhar um vago desespêro — desespêro que busco, aflita, como a razão de todas as outras coisas. Ou conseqüência. E nada encontro. Será tudo, como eu, pó, pronto a esfarinhar-se?

segunda-feira, 8 de janeiro de 2007

Just days in life...

É claro, eu devia fazer um post de volta a São Paulo, sobre a FUVEST ou sobre a Cajaíba ou sobre qualquer uma dessas coisinhas que vêm acontecendo e que cutucam minha alma. Será? Estou meio cansada pra fazer algo desse tipo. Estou a fim de fazer algo idiota, de jogar Porco com castigo de pinga. De subir em pedras, de me ferrar. E hoje aquele espelho quebrou e eu fiquei olhando, só... Dizem sete anos de azar mas o grande azar foi ter quebrado o espelho. O resto dá-se. E debaixo do vidro estava uma folha de jornal de outubro de 1964. Suplemento literário. Ainda não li, mas hei-de.

Hoje estou razoavelmente alegre. Talvez seja porque conversei com meu maninho, talvez porque peguei carona com os Strambi. Talvez seja até porque a Camila me chamou para a casa do Squick. Talvez seja porque eu dei um abraço na Aline e no Yuri. Estava com saudades do Ugo, da Aline e do Yuri. E também da Camila, embora eu ainda esteja apenas começando a conhecê-la. E fiquei feliz de encontrar o Nonô, o Lipão e a Marieta, que não os via havia algum tempo.

Tenho pensado muito sobre as pessoas, sobre o que representam e sobre suas atitudes, e como elas se relacionam. Não tenho tido vontade de fazer o que normalmente eu faria, isto é: sair com os amigos, rir à toa, fazer brincadeiras tolas. Estou cansada de tudo isso, e tenho vontade de ficar em casa, dormir cedo etc. Hoje de manhã ocupei-me fazendo um book fotográfico das minhas gatas — algumas das fotos saíram realmente bonitas. Eu gostaria de fazer um curso de fotografia ou algo assim.

O que mais me assusta é que tenho acordado naturalmente às seis da manhã. Simplesmente não sei como reagir a isso... ¬¬