domingo, 4 de março de 2007

Qual a origem da consciência?

.... do you think we're doing our share..?


Nos últimos anos, tem feito sentido pensar no nosso terreno na Cajaíba como o lugar em que fazemos todas as coisas do melhor jeito. Catamos lixo da praia, evitamos queima, usamos energia solar, cuidamos da vegetação, enterramos lixo orgânico, fazemos fossas, plantamos árvores e ervas, gramamos a área deserta para evitar erosão. Aqui em casa, para não sermos totalmente hipócritas, criamos um belo jardim, separamos o lixo para reciclagem, plantamos temperos, damos frutas e água para os passarinhos, além de criar uma pequena variedade de animais domésticos. E até evitamos os agrotóxicos. Mesmo assim, olhar ao redor, pensar no mundo hoje, ouvir (ouvir!) os avisos insistentes dos cientistas ambientais sobre o futuro que estamos criando, tudo isso dói, profundamente. Será que você também ouvem, do fundo da consciência, uma voz incômoda dizendo que o que estamos fazendo não é nada próximo da nossa responsabilidade, das nossas possibilidades?
Hoje eu vi aquele filme do Al Gore, Uma Verdade Inconveniente, e quando acabou o filme eu estava distraidamente pensando em quanto papel eu tinha pra reciclar no meu quarto (pelo menos uma árvore pequena...), quando olhei ao redor e... sei lá, minha casa tem muita madeira. Muito tecido. Muito papel. Talvez seja natural se sentir culpado, quando se vive entre restos mortos de coisas vivas, quando na verdade nós nem fomos tão bons assim pra merecer tudo aquilo, tudo o que se perdeu para que nós tivéssemos uma casa, um telhado, uma cama, um sofá, uma prateleira, uma estante. Talvez seja natural, porque sabemos que um dia fomos parte disso tudo; um dia nós fomos como o pato e leão, como a samambaia e a bactéria, e de certa forma dói quando percebemos que muitos seres como esses, que já foram tão próximos de nós, têm que viver miseravelmente ou morrer e tornar-se objeto para que alguns de nós vivam com um pouco mais de conforto. Será? Ou estou tento uma visão romântica da humanidade? Penso agora naqueles carroceiros que exaurem seus cavalos durante o dia, num trabalho de recolher o lixo e jogá-lo por aí, ou de vender sucata para sucateiros, e ainda alugam o animal, exausto, durante à noite, sem dar-lhe água ou comida, sem o menor arrependimento. Talvez algumas pessoas simplesmente não percebam, não sintam que a vida tem um sentido, talvez elas não saibam que é preciso viver a vida da melhor maneira possível. Mas será que é possível dar sentido à vida das pessoas, o suficiente para que elas queiram responsabilizar-se por seus atos? Será que temos o poder de levá-las a se importar com seu impacto sobre o mundo? E fazê-las amar o mundo e querer o melhor para ele? Podemos ao menos tentar?
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Desde que o homem se alimenta da natureza, tanto literal quanto metaforicamente, ele se sente culpado. Os povos primitivos caçadores contavam histórias de animais que ofereciam sua carne em sacrifício; mitos que justificavam e autorizavam a caçada. Se o homem moderno pode agredir outras espécies sem a permissão da natureza, é porque houve uma absurda emancipação do homem, que o torna tão distante do resto do mundo que ele não consegue mais enxergar a relação entre ele mesmo e qualquer coisa que aconteça fora dele. Na verdade, ele não deve conseguir entender nem a si próprio, seus anseios e mêdos mais instintivos. Ou, em outro caso, o homem está tão desesperado que sucumbe inevitavelmente ao egoísmo e ao imediatismo. De qualquer forma, é impossível imaginar que esse homem acredite e confie no que acontece no mundo, confie que a natureza vai produzir o que ele consome. Talvez o homem moderno realmente acredite que precisa fazer tudo com as próprias mãos.

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