terça-feira, 4 de agosto de 2009

A Morte (II)

(ou: a morte dos ritos)



Se fosse Jack, e não eu, naquele dia, teria ficado provavelmente louco e destruído tudo o que seus braços humanos pudessem. Se fosse a Lôhba, não eu, teria engolido o cemitério inteiro com o poder dos diamantes que purificam. Adulta, a Lôba teria convocado as plantas a consumirem toda aquela parte da cidade. Esse era o poder que eu mais queria ter.

Mas não era um personagem, porque não era ficção; mas era tão incrível quanto se fosse. Apenas mais estúpido. Menos significado.

Em São Paulo, quando uma pessoa morre, chamam-se os familiares e os familiares chamam os amigos. Todos se encontram no lugar da morte, vestindo as roupas de sempre, e falando coisas triviais como se fosse um dia trivial. O corpo é lavado e vestido por membros da comunidade que se dedicam a isso ou pelos familiares mais próximos. Vestem-no com suas roupas favoritas ou com roupas de festa, como a criar um personagem no qual fixar a imagem do morto. Escolhem um caixão entre os vários produzidos por outros membros dedicados da comunidade. Deitam o corpo, vestido e perfumado, dentro dele, e o cobrem com flores e véus, e o rodeiam com conjuntos enormes de flores com faixas onde estão pintadas as frases tradicionais. Alguns se despedem do morto beijando sua testa, outros o evitam. Põe-se a tampa no caixão e se a lacra com sete chaves, para evitar que algum dia seja aberta. Acredita-se que o morto está ali naquele corpo, que deve dormir seu sono eterno junto à sua família, e que deve dormir lacrado, trancado, cimentado, sob a terra. Guardemos os mortos. Temamos os mortos. Um grupo de pedreiros carrega o caixão sobre um veículo primitivo de rodas e tubos de ferro, pelas ruas da cidade miniatura, entre as plaquetas de bronze, entre caixas de pedra, até a que tem o nome da sua família. Abrem uma porta minúscula na caixa de pedra. Um pedreiro desce, joga para fora as ferramentas, recebe dos outros o caixão, eincaixa-o numa prateleira, pega de volta a colher-de-pedreiro, recebe uma porção de cimento, uma porção de tijolos. Outro pedreiro entra, juntos os dois controem uma parede entre o morto e os parentes junto aos quais ele deve permanecer. Conversam enquanto trabalham, sobre o trabalho, o cimento, a chuva. Quando terminam, devolvem para o túmulo as caixas onde estão os ossos da família. Saem e fecham a porta. Cumprimentam os familiares e vão embora. Apenas mais um dia de trabalho.

Existe um velho mito Ibo segundo o qual o Grande Espírito, Chuku, manda o cachorro dizer aos homens como reviver os que morrem. Porém o cachorro se distrai pelo caminho, e Chuku envia então o carneiro para passar a mensagem. O carneiro diz aos homens para enterrar os mortos, e é isso que os homens fazem. Mas o carneiro havia confundido a mensagem. Quando o cachorro chega, diz que o corpo de um homem morto deve ser deitado sobre a terra e coberto com cinzas, e então ele reviverá. Os homens não acreditam porque acreditaram no carneiro. E assim os homens conhecem a morte.
Nunca entendi porque os Ibo, que conheciam a lenda, não espalharam a mensagem verdadeira do cachorro, por que continuaram enterrando seus mortos e não os cobriram com cinzas. De modo geral nunca entendi a idéia de sepultar os mortos, de guardá-los sob a terra. Uma grande cidade de mortos. Pra mim é um grande mistério.

Por via das dúvidas, quando eu morrer, não me enterrem. Não guardem meu corpo - se quiserem, destruam-no.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

A Morte (I)

(ou: descobri que odeio cemitérios)



Na região de Canzara os ritos fúnebres sempre foram levados muito a sério. Quando uma pessoa morre, parece que até o ar muda subitamente de cheiro. A notícia se espalha como sementeira alada, corre no vento, e todos os que ficam sabendo vestem imediatamente o manto amarelo de couriú, que em um dia se alaranja, em dois se avermelha, em três se amarronza, em quatro anegra. Assim os campos de Canzara vão se colorindo gradualmente, de dentro pra fora, e ao mesmo tempo de dentro pra fora vão perdendo a cor.
Durante uma semana cada pessoa age de acordo com as regras do couriú: os que vestem o manto amarelo lavam a casa, as roupas e os cabelos, não podem comer e também não podem falar; os de manto laranja comem pão-de-frango e folha de canhacheira lambida no fogo de vela (é o dia favorito de todos), passam o dia cantando ou rezando, e dependendo da lua têm que cortar os cabelos; os de vermelho pintam o corpo, saem de casa com lanças e só podem comer o que puderem matar; os de marrom quebram suas lanças e se alimentam de cascas de árvores, raízes, folhas e flores, se houverem; os de negro se banham na lama e voltam para casa, onde, depois do último canto, voltam às suas vidas normais. Poucos dias depois o couriú se desprende do manto e só aí as pessoas param de usá-lo. Dizem que é o sinal de que o mundo pode continuar como era antes.
As cores do couriú regem também a preparação do corpo. Os mais próximos do morto clamam para si, através dos versos tradicionais, os deveres para com o corpo. Quando é necessário, o resto da comunidade executa as regras do couriú no lugar dessas pessoas, que têm deveres diferentes. No dia amarelo, é preciso lavar o corpo e preparar a madeira para o caixão. A madeira precisa ser de três árvores diferentes, escolhidas pela primeira pessoa. No dia laranja, usando velas laranjas, deve-se queimar os cabelos e todos os pêlos do morto e preparar as tintas para o caixão. As tintas também devem ser feitas com três pigmentos diferentes, escolhidos por uma segunda pessoa. No dia vermelho, enquanto todos os outros deixam suas casas, os preparadores pintam cada milímetro de pele do corpo e constroem o caixão com todos os cuidados. No dia marrom, ainda mais sozinhos, os preparadores terminam os detalhes finais do caixão, cobrem-no de pinturas, forram-no com terra, põe o corpo dentro dele e o fecham com sete fechos. Depois limpam a bagunça, a si mesmos, uns aos outros. Esperam sozinhos pela chegada dos outros. Choram, talvez.
No dia negro todos voltam para a cerimônia da morte. Voltam cobertos de lama, vestindo mantos negros, famintos e ferozes. Nos outros lugares esse é um dia tranquilo em que tudo volta ao normal assim que a lama se dissolve na água do banho, mas, aqui, onde um homem morreu, é um dia muito estranho. Das sombras das casas surge um grupo de homens (?) vestidos de preto com máscaras pretas de feras. Não se vê nenhuma parte de seus corpos, e ninguém se aproxima por causa do mêdo e do cheiro de morte. Ninguém diz nada: eles levantam o caixão pintado e carregam-no até um lugar vazio decidido por eles, enquanto os outros seguem, silenciosos. Pousam o caixão no chão. Tiram de dentro do manto armas colossais --- machado, facão, picareta, foice, martelo, enxada, forjados, polidos e afiados para serem grandes, negros e brutais. Com um guincho de fúria o primeiro machado desce sobre o caixão dividindo-o no meio, seguido pelo urro da picaretada, pelo estrondo do martelo que lança pedaços de madeira sobre os demais; a comunidade urra, recua, se excita e se assusta, as lâminas sobem e descem, as feras gritam e rugem e saltam sobre o corpo enquanto despedaçam-no com sua fúria, o camunidade grita e canta os cantos de morte, de liberdade, de mêdo, a carne, a terra e a madeira voam, a fúria e a morte voam, os ossos se partem junto com as tábuas, e quando acaba as feras rugem levantando as armas e a comunidade pula sobre os restos (carne osso madeira terra tinta) e os agarra, os disputa, cada um ansioso por enterrar um pedaço, o maior, mais fundo.

De repente a comunidade se dispersa. Banho, comida, a vida segue em frente. As feras já desapareceram faz tempo. As pessoas estão cansadas. A terra mexida e novamente vazia (ao menos na superfície) ficará abandonada até que couriú se desprenda das nossas roupas. Então, tudo será como sempre foi.

sábado, 25 de julho de 2009

Mood

I don't know what I am for



All around me are familiar faces
Worn out places - worn out faces
Bright and early for their daily races
Going nowhere - going nowhere
And their tears are filling up their glasses
No expression - no expression
Hide my head I want to drown my sorrow
No tommorow - no tommorow

And I find it kind of funny
I find it kind of sad
The dreams in which I'm dying
Are the best I've ever had
I find it hard to tell you
'Cos I find it hard to take
When people run in circles
It's a very, very Mad World

Children waiting for the day they feel good
Happy Birthday - Happy Birthday
Made to feel the way that every child should
Sit and listen - sit and listen
Went to school and I was very nervous
No one knew me - no one knew me
Hello teacher tell me what's my lesson
Look right through me - look right through me

And I find it kind of funny
I find it kind of sad
The dreams in which I'm dying
Are the best I've ever had
I find it hard to tell you
'Cos I find it hard to take
When people run in circles
It's a very, very Mad World

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Eu sou uma pessoa constante

Eu estou aplicando os marcadores do blogger aos meus posts antigos. Queria fazer isso faz tempo, mas sempre soube (ainda sei) que dá um trabalho do capeta, por isso não tinha feito ainda. Criei muitos marcadores, mas não foram exatamente suficientes porque nem tudo pode ser classificado, e tal. Além disso havia coisas que eu não queria agrupar, como todos os posts depressivos, imagina?

Enfim, um dos posts era esse resultado de quiz sobre mim:


You rank up there with your seduction skills, though you might not know it.
That's because you're a natural at seduction. You don't realize your power!
The root of your natural seduction power: your innocence and optimism.

You're the type of person who happily plays around and creates a unique little world.
Little do you know that your personal paradise is so appealing that it sucks people in.
You find joy in everything - so is it any surprise that people find joy in you?

You bring back the inner child in everyone you meet with your sincere and spontaneous ways.
Your childlike (but not childish) behavior also inspires others to care for you.
As a result, those who you befriend and date tend to be incredibly loyal to you.


Três anos depois, ainda acho que essa resposta tem tudo pra ser verdadeira. É claro, eu teria que perguntar pra eles pra saber a verdade ^^

Enfim, como será que eu vou marcar este post?

domingo, 19 de julho de 2009

Manual do Minotauro - Missão




A vida é linda, não é, Laerte?

E os desejos confusos

(porque, foda-se o mundo, I get off on being completely sincere)



Então a vontade de transar com todos os caras do mundo passou. Não sei explicar como, nem porque. Foi suave. Foi de repente, você passou por trás de mim e eu senti o seu cheiro, e dali a pouco tudo o que eu queria era dormir nos seus braços. Eu abracei você e pedi pra você ficar, e dessa vez era você, só você, e mais ninguém poderia me abraçar naquela hora, ninguém mais tem o seu cheiro, o seu calor, o seu carinho. É isso que eu quero dizer quando digo que eu te amo.

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Least I Could Do


Questões de cunho moral e filosófico

"Desde muy temprano se sufre, pero sólo desde cierta edad se aprovecha." - Alfonso Reyes, Tertúlia de Madrid, III



Há um ditado que diz que "mais vale um pássaro na mão do que dois voando", outro que diz que "quem não arrisca não petisca", outro que diz que "tudo está bem quando acaba bem" e outro que diz que "de boas intenções o inferno está cheio". Cresci ouvindo essas coisas, muito bem usadas, muito bem argumentadas, e acho que a meu modo sigo as duas primeiras mas não as duas últimas.

Recentemente corri um risco para evitar ter apenas pássaros voando, e posso dizer de certa forma que tudo acabou bem, mas essa resposta não é suficiente para minha filosofia. Não consigo avaliar precisamente se foram boas ou más minhas intenções, para não mencionar os métodos. Não sei dizer se foram os fins que justificaram os meios, ou se foram os meios que justificaram os fins. Se esta é uma história a que bem e mal talvez não se apliquem, então as duas coisas são verdadeiras. Dá na mesma se tanto os meios como os fins foram por um lado bons por outro maus. Assim a questão só se propõe justamente porque, na questão de um risco cuja validade é questionável, a ceitação final desse risco depende inteiramente do resoltado (que pode ser tanto petisco quando desgraça); como podemos tomar decisões razoáveis quando há uma questão assim em aberto?

É como a questão do House, que toma decisões sem antes confirmar suas teorias e faz todo tipo de coisa que pode "matar ou salvar". House é respeitado, embora não pela comunidade médica em geral, apenas porque está sempre certo. Se um dos seus palpites estiver errado, e ele matar uma pessoa, sua carreira, sua ideologia, sua vida vai por água abaixo? Será que a Cuddy, que sempre apoia suas loucuras, embora com limites, conseguiria perdoá-lo se ele matasse um paciente com um tratamento errado? O House pode tomar decisões potencialmente más porque ele é foda, mas e o resto de nós, pessoas reais? Será que seguir nossas intuições é o suficiente para fazer a coisa certa? Ou será que, tentando seguir uma ideologia perigosa, nos tornaremos eventualmente os vilões?

Se eu faço uma coisa que pode ser imperdoável, e por acaso essa coisa não tem conseqüência negativas, não seria moralmente correto que de qualquer forma eu não fosse perdoada?

Por outro lado, se eu faço uma coisa que pode ser a salvação, e por azar essa coisa só tem conseqüência negativas, seria moral que eu fosse condenada?

Talvez fosse mais justo se, nessas situações em que os resultados determinam a validade de uma ação, os julgamentos fossem baseados nas informações que o ator tinha antes de atuar; afinal, se duas pessoas fazem a mesma coisa, e uma destrói a cidade enquanto outra salva um ônibus escolar, as duas são igualmente boas ou más. Não?

O problema, que é o mesmo problema que existe para o ator, é como avaliar as possíveis conseqüência dos seus atos. Muitos, como eu, escolhem a partir de sonhos e intuições. Como colocar essas coisas na balaça?

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Sonhos

"Não te preocupes com sonhos: pois o espírito do homem julga ver no sono como verdade o que deseja em estado de vigília." - Dionísio Catão, Dísticos



Quando sonhei com você, foi como o sol
me iluminando e me aquecendo dentro do dia
foi como a chuva grossa do verão
levantando o cheiro da grama e enchendo meu peito de vida
(por que é que a chuva me faz tão feroz, tão alegre?
por que a chuva me traz de volta a infância?
por que a chuva me torna loba, me torna vento, me torna deusa?)
como se eu chegasse naquela cabana da floresta onde eu sonhei morar
no coração da floresta que é como o seu coração
onde eu tenho uma cama, uma faca e a fonte da vida
foi como "para sempre"
foi como estar em casa
foi como ter um amigo
foi como um abraço.

Quando eu sonhei com você, foi como um pecado
fervendo meu sangue e gelando meus dedos famintos
Foi como uma guerra travada num ermo, num túmulo
sob a noite cerrada, num descampado
um cavaleiro negro, um animal negro, contra a lua minguante
seus olhos eram segredo; seus olhos brilhavam.
Foi como uma espada vertendo sangue do meu peito
um inimigo, um demônio dentro do meu peito
dizendo "foda-se o mundo, eu só quero você"

Quando eu sonhei com você, foi como uma estrada
que subia uma montanha imensa e que eu percorri
(porque vovó dizia que sua estrada contorna a montanha
minha estrada percorre a montanha e outra montanha
não há só um pico, só uma luz: há a Perdição;
o caminho para o topo é o caminhar: há só o Infinito)
No topo, no cume encontrei um fantasma brilhante de mim
ou um espírito que faltava dentro do meu próprio espírito
ou um espectro do reflexo
do reflexo do reflexo de mim
Foi como ser devorado por um urso mau
e como ser abraçado por um golem gigante
Foi como a Imensidão
e como um coração imenso batendo por mim
foi como violar minha própria castidade
foi como amar a terra, foi como DEUS.
foi como tornar-me humana a partir do barro.
foi como tornar-me Outra.
foi como o incesto.

Quando eu sonhei com você, foi como a paisagem
que vem antes e cria a linha do horizonte
foi como nascer de novo, num mundo mudado
Foi como o prazer de caminhar sobre a lama que passa entre meus dedos dos pés
foi como a brisa e o vento que carregam meus espíritos
apenas soprando bem, muito bem
foi como o prazer de descer uma ladeira de bicicleta sem segurar o guidão
Foi como a liberdade.

Quando eu sonhei com você, foi como uma mensagem
Aquela mensagem do velho da taverna
"adentre a caverna e liberte a donzela das garras do dragão
e não se esqueça de trazes seis cabeças de orcs"
Sim, foi bastante como um video-game
Foi como uma missão, um desafio, um sentido de vida
Foi como uma certeza no futuro
Cada vez mais, a cada você, foi amadurecer.
Foi como rir com você e ser seu amigo.
Foi como adorar você.

Quando eu sonhei com você, foi como a realidade
ou como se o sonho fosse a realidade
De repente verdade era mentira e mentira era verdade
Foi como se a realidade fosse um espectro do sonho
e a loucura fosse sã e a sanidade, loucura
Foi como um sonho
Foi como chegar ao horizonte
foi como o impossível
Foi como a verdade
fazer a verdade tornar-se o que a verdade é
(ou concretizar o mundo das idéias
para não idealizar o mundo concreto)

Quando eu sonhei com você, foi como uma resposta
dizendo "foda-se tudo, eu só quero saber!
a resposta para todas as coisas, todas as perguntas
eu quero me tornar o que eu quero ser"
Foi como baixar as cortinas, sair do teatro
Foi como deixar os enigmas e sair para a vida
Foi como cuspir na cara da esfinge
ou devorar a esfinge
e cuspir os ossos da esfinge no mundo ignorante
Foi como montar um cavalo descontrolado
foi como subir no alto do pédrão e me jogar de lá
(e por mais que me assuste o pédrão e a dor lá em baixo
e por mais que me aflija esse mêdo que tenho dos saltos
e por mais que nunca eu salte sem saber como será o fim do salto
esse sonho, certamente, foi um salto)
Foi como um amigo, um demônio, voando com meus espíritos
dizendo "foda-se tudo porque eu quero você"

Again?

Just because I'm losing
Doesn't mean I'm lost
Doesn't mean I'll stop



Sobre a história anterior: eu escrevo só porque você lê.

PS para o Charles.:

Quando os velhos de Alanraia morrem, são enterrados num imenso mausoléu subterrâneo sem caixões. Buracos nas sarjetas permitem que entrem nesse mausoléu água, sol e pessoas distraídas. O mausoléu assim se torna um grande jardim subterrâneo, cheio de plantas escuras, fungos e outras criaturas. O solo de Alanraia, construída sobre esse campo imenso, é o que há de mais sagrado para os Alanreses. Os jovens de Alanraia, quando morrem, são queimados até que só reste o pó, e o pó é soprado sobre um bando de pássaros migratórios, para que seja levado para outra parte do mundo.

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Fazendo Matrícula (2)

Finalmente recebi a resposta do meu professor de MAC para a pergunta "e aí, o que eu faço agora?"

A resposta foi a seguinte:
Sobre outras disciplinas para continuar estudando programação. A continuação natural seria fazer as disciplinas de laboratório de programação (são duas, com nomes com terminação I e II). Elas são disciplinas interessantes pois focam em ferramentas de programação e também na confecção de projetos maiores e não apenas pequenos EPs isolados. São as disciplinas de programação feitas pelos alunos do segundo ano de computação no IME.

Deixem eu contextualizar essa matéria "Laboratório de Programação I": semestre passado eu queria fazer coisas muito legais e me inscrevi nela, mas não peguei, e na minha ingenuidade não fiz requerimento nem nada disso. Teria sido legal porque eu teria feito junto com o Nando, mas isso não vem ao caso. Semestre que vem essa disciplina não existe. É o que acontece quando você consegue ser idiota por uma ano e meio, e não só um ano, e acaba fazendo as matérias todas nos semestres errados. Pelo menos eu conheci o Paulo, que é um cara legal, e tive a mesma matéria que o Diogo, mas, bem, acho que nada disso compensa. Estou bastante irritada. E não quero ficar pra trás de jeito nenhum.

Então: eu mandei um e-mail pro cara responsável pela matéria perguntando se é sussa eu fazer Lab 2 sem ter feito Lab 1. Espero que sim. Uma pena é que decidir fazer essa matéria não muda nada nas minhas dúvidas e inseguranças; só deixa claro que eu não vou fazer Cálculo II.

O que é uma pena. Era a única matéria que eu tinha certeza que ia ser legal.

PS.: pensando bem, ela também deixa claro que eu não vou fazer MecFlu, pelo menos não de manhã. Mas isso acho que eu já sabia...

Fazendo matrícula...

É muito difícil. Talves o difícil seja conseguir especificar exatamente o que eu quero. O que eu quero da vida, do futuro, da faculdade, de mim. A minha maior dúvida atual é entre Álgebra Linear para Computação e Introdução à Manufatura Mecânica. A primeira me daria uma grande chance de fazer Computação Gráfica no futuro, me tornaria mais habilidosa para uma porção de coisas, e é a única das matérias de álgebra linear que não têm pré-requisitos ; todas as outras requerem que eu tenha feito geometria analítica ou vetores e geometria, e nenhuma dessas matérias está disponível. A segunda me ensinaria sobre processos de produção, supostamente me daria grandes conhecimentos e habilidades úteis para o projeto de produtos. De certa forma, é como se eu estivesse fazendo uma escolha entre o mundo real e o virtual. Mas apenas de certa forma.

Escolher AlgeLin também me impediria de fazer várias outras matérias, como Cálculo II (eu achei que faria sentido fazer a seqüência de uma matéria que eu gostei de fazer) e Microprocessadores e Controle Digital, que é sobre sontrole de sistemas dinâmicos.

O que mais me irrita nessa questão toda é que eu vou ter que ralar e correr atrás de um monte de coisas se eu quiser ter a menor chance de fazer qualquer coisa. Eu não sei se dá pra quebrar requisitos. Eu não sei quantos requerimentos e recursos de requerimentos eu vou ter que fazer. Por isso, eu tenho que tomar uma decisão definitiva. Eu preciso ter certeza. E eu não sei de onde tirar essa certeza.

Não seria mais fácil se estudar fosse como em jogos de computador, em que novas opções vão aparecendo à medida que você vai conseguindo os requisitos para elas, e em que você sempre pode conseguir mais níveis naquilo que você gosta até chegar ao nível máximo?

Outra dúvida minha é fazer ou não Laboratório de Desenho e Cor, na ECA. Eu acho que é o tipo de coisa que me fazria mais feliz, mais tranqüila, mesmo se fosse difícil. Mas para isso eu teria que desistir de Cálculo II, Análise de Algoritmos e Arquitetura de Computadores. Acho que neste caso a dúvida é: eu quero ser feliz ou eu quero ser foda? (a propósito, se eu decidir fazer Cálculo II, as escolhas subitamente se tornam muito simples).

O problema é que eu não tenho nenhuma garantia de que eu vou ser feliz ou foda. Eu não sei o que eu vou aprender. Eu não sei o quanto eu vou sofrer com essas coisas. Eu tenho duas diretrizes básicas: eu quero ter aulas à tarde, eu quero ter aulas das quais eu goste, e eu quero chegar mais perto de descobrir um caminho que eu possa seguir. No fundo, não é tão ruim. É só extremamente confuso. E eu me sinto extremamente insegura.

Eu também tenho vontade de fazer aquele curso de C# que custa R$500,00 e vai tomar duas semanas das minhas férias. Eu não sei o que fazer, na verdade. Eu quero programar. Eu quero alguém que me aponte um caminho, que diga, vai por aqui, por aqui há coisas legais. Eu sinto que eu vou ficar pra sempre na faculdade. Meus amigos estão fazendo várias coisas, iniciação científica, trabalho na área, projetos diversos, e eu, bem, eu estou patinando, sem saber que tipo de vida eu posso levar.

Me parece tarde demais para coisas tão fúteis quanto "férias".

segunda-feira, 6 de julho de 2009

domingo, 5 de julho de 2009

Esquecer

Porque vivia em Alanraia, sempre soubera que um dia ficaria velho e precisaria partir. Quando a idade certa chegou, deixou suas coisas e foi. A partir daquele dia não teria mais nome. Seria um peregrino cuja terra prometida era também o ponto de partida. Trinta anos na estrada. Em Alanraia fora general e senador, e respeitado por todos os conterrâneos. Começara como chefe de guarda na periferia da cidade e ganhara uma tropeta após capturar todos os bandidos da região próxima. Trabalhara por um ano capturando bandidos em terra antes de começar a lidar com os piratas. Comprara do capitão do porto seus primeiro navio por uma picanha, quinhentos luares e cinco barris de cerveja. Três meses depois, já conhecido até em outros mares, conseguira seu segundo navio, sem picanha, mil e duzentos luares. Armou uma arapuca para os bandidos das águas que lhe valeu sua própria frota com cinco galeões e os melhores canhões da cidade. Seus homens o amavam porque alguns estavam com ele desde o início e porque ele sempre exigia deles exatamente o melhor que poderiam lhe dar. Em cinco anos, comandando quarenta navios, capturara Scarânia, antiga Levante, cobrira suas leoas de piche e lhe rebatizara Alanteni(o Pátio). Nessa batalha, aquela cujos detalhes se tornariam parte de todos os seus sonhos até o fim de sua vida, nessa batalha perfeita fora ferido na perna e conseqüentemente afastado dos seus serviços. Em Alanraia nenhum soldado ficava afastado de casa por mais de seis meses, mas dois anos inteiros na cidade era mais que qualquer marujo poderia esperar. A fama ou a confiança lhe dera assim que pisara em terra a cadeira de senador. Como senador fora justo, mas não fizera nenhuma proposta. Ou talvez seria melhor dizer que nos dois anos em que servira à cidade como senador, não fizera nenhuma lei, nenhuma reforma, mas julgara as propostas dos outros e os argumentos que ouvia com coragem e justiça, sem nunca perder de vista o benefício total à cidade. Porém, mal a perna se recuperara totalmente, já estava de novo nos mares, reformando as regras da marinha, se livrando de novos piratas; além disso recapturara Levante e desta vez dera-lhe o nome de Alanfera(a Morte). Partindo de Alanfera acuara os defensores da cidade, capturara o capitão B. Leão e o trocara por 34 prisioneiros de guerra num opressivo acordo de rendição. Fizera de Anlanfera sua base, e vivera nela por cinco anos, estendendo um exército sobre a terra como havia estendido um sobre o mar. Passava em Alanraia apenas uma semana por ano, em duas viagens apressadas, para abraçar suas filhas e beijar sua terra vermelha pedindo a bênção dos seus. Em Alanfera era sempre revoltas e carnavais, festas e rebeliões. A pantera de piche porém já nem era mais chamada de leoa. Seu exército continuava vencendo batalhas. Sua cidade tinha muito do que se orgulhar. E esse foi o fim da história.

Porque sempre vivera por Alanraia, sempre soubera o dia em que ficaria velho e teria de partir. Quando esse dia chegou, como chegava para todos, saudou seus companheiros na cidade, abraçou todos o que respeitava, caminhou pelos pátios nos quais brincara em criança, e embarcou num veleiro branco para Alanfera. Seus coronéis fizeram-lhe uma homenagem, seus soldados por toda a cidade se perfilavam à sua passagem. Numa última reunião de conselho apontou seu sucessor no posto e fizeram uma festa. Então tudo acabou. Saiu da festa sem uniforme, vestido como um dos civis daquela cidade que era tão diferente do que queria que fosse. Nenhum soldado raso ou oficial sequer olhou para ele. A partir daquele dia estava morto; não tinha nome, não tinha patente, ninguém o conhecia. Quando caminhou até o porto, era como se fosse um fantasma. Quando o veleiro branco estendeu suas velas, era como se fosse invisível. A parte mais difícil de morrer era esquecer da vida que chamara de sua. Enquanto o veleiro branco seguia o vento que não sabia para onde ia, tentava esquecer de todas as suas batalhas. Só estaria realmente livre quando não houvessem mais pronomes possessivos. Temia perder a noção do tempo, temia esquecer também de onde viera e para onde ia; o veleiro branco não tinha biruta mas tinha um relógio que marcava o tempo ao contrário e uma bússola que não apontava para o norte. E seguia para o mar do esquecimento, que também se chamava o mar da memória.
Dali a trinta anos chegaria a Alanraia apenas um peregrino. Ele diria que viera seguindo uma bússola louca e um relógio que marcaria zero. Ele contaria sonhos estranhos, histórias antigas cujos heróis pareceriam não ter nome. Ele contaria para as crianças assustadas de uma cidade que se chamava Morte, e que talvez existisse, em algum lugar. A maior parte de suas histórias seria maravilhosa, coisa de terras estranhas, de mundos estranhos, coisas que as pessoas da cidade mal poderiam imaginar.
Os peregrinos, os velhos, são bem recebidos em Alanraia. Eles recebem casa, comida, e o direito de andar livremente por onde quiserem. São consultados por todos os cidadãos em busca de conselhos ou presságios. Além disso, nunca deixam a cidade. Se tornam parte dela, como as ruas e as casas. Quando são questionados a respeito de sua vida pregressa, respondem quase sempre que acabaram de nascer.

Pronome pessoal possessivo de primeira pessoa

Um dia Liane perguntou para Zacharias o que mais lhe fazia saudade de sua antiga vida no rancho. Zacharias não parou para pensar, nem por um instante.
"Sinto falta de Lúcia, de nossa casa, de nossos filhos. Sinto falta do pôr do sol atrás da colina e de Turo, o pônei que demos para Alina quando ela fez seis anos. Sinto falta de sentar com Lúcia na varanda e conversar olhando para a lua."
A isso, Liane teve que perguntar:
"Você seria mais feliz se nunca tivéssemos partido? Se tivéssemos continuado no rancho até o fim?"
Não. A resposta era sempre não. Mesmo em seu coração não havia redenção para todos os erros da sua vida pregressa. Não havia escapatória para o fim que lhes era reservado. Viveriam ali até que fossem encontrados. Então partiriam, quem sabe mudando de nome, quem sabe com outras pessoas... o futuro que ele enxergava era uma repetição do passado, porque o fim lhe parecia sempre o mais certo. Mas não era isso que ele diria a Liane.
"Sinto falta de Lúcia, mas apenas porque não a vejo há anos. Se a visse agora, quem será que me olharia através dos olhos dela? Quem falaria através da sua boca? Se eu estivesse lá, nós não estaríamos aqui. Se eu estivesse no passado, não existiria o presente. Se tívessemos ficado no rancho, não haveria estas pedras, estas colinas; nós não poderíamos assistir ao nascer do sol atrás da velha árvore. As pedras do passado nunca vão criar limo; as nossas, é possível amar. Eu não te deixaria se encontrasse minha mulher e meus filhos, querida. Eles são boas pessoas, e eu os amo, mas não são mais meus. Aquela não é mais a minha vida; está é."



Às vezes eu me pergunto o que queremos dizer quando dizemos "minha vida". A vida é minha mesmo? Tenho algum poder sobre ela? Ela faz parte de mim? Ela define alguma coisa em mim? Eu defino alguma coisa nela? Será que sou eu a parte mais importante dessa vida, ou será que o protagonista é outro? Será que sou apenas a câmera, o diretor, o ator, tentando criar alguma coisa maior para chamar de "meu filme"? Será que através dos meus olhos acontecem coisas? Será que meu olhar cria significado?

Será que tenho qualquer poder sobre o que eu vivo?

sábado, 20 de junho de 2009

Design e Semiótica

Vocês se importam se eu pensar em voz alta um pouco? É que eu me organizo melhor quando escrevo, e não quero sair do computador e ir efetivamente trabalhar, então pensei em escrever aqui mesmo. Tudo bem?

Tenho que fazer um trabalho de semiótica sobre qualquer objeto de design. Ou seja, qualquer coisa feita por um designer, ou que poderia ter sido feito por um. Ou seja, virtualmente qualquer coisa.

As pessoas não entendem o que é o campo do design. Ontem o Bruno se impressionou quando eu disse que design é muito amplo (eu estava tentando explicar que é possível gostar das matérias do design sem realmente querer ser designer). A verdade é que o designer não tem um campo muito definido. Um designer pode trabalhar com qualquer coisa. Trabalhar com pesquisadores (cientistas) é um pouco difícil, mas não completamente impossível. O mais fácil é trabalhar com empresas, artistas, publicitários, criadores, engenheiros, indústria, internet ou meios de comunicação, mas existem inúmeras possibilidades.

O característico do design não é o campo, mas o método. Podemos trabalhar em qualquer campo. Há restrições: o método do designer é um método de projeto. Ele até funciona para outras coisas, mas não é o ideal. Existem coisas que um designer não pode fazer. É claro que não há quem possa fazer tudo. Mas um designer poderia solucionar problemas em qualquer situação. Um designer poderia projetar qualquer produto. Se for possível ensinar a ele como as coisas funcionam, então ele é capaz de fazer seu trabalho. Obviamente, nem sempre é possível ensinar a ele como as coisas funcionam.

Outra limitação, embora nem de longe tão sólida, é que o designer é treinado para projetar para seres humanos. Não que ele saiba as medidas e proporções ideais de cor (o designer a princípio não sabe nada), mas ele está acostumado com os seres humanos, com a forma como aprendem, com as fórmulas da gestalt, com sua noção de estilo e beleza, com a forma como respondem a suas perguntas. No curso que eu faço, metade do trabalho é sempre pesquisa. Pesquisa envolve encontrar as opiniões, os tamanhos, a legislação, os desejos e as dificuldades relevantes. O designer iria ficar confuso ao projetar para máquinas. O designer iria parecer maluco ao projetar para bichos (eu acho que eu adoraria trabalhar para bichos). (nota.: isso é questionável porque as pessoas que fazem casas, coleiras e brinquedos para animais são designers... mas ainda acho que esse é um campo de baixa qualidade, e que a pesquisa feita é meio porca)

Olhem ao redor. Assumindo que vocês estejam dentro de uma casa ou na faculdade, posso dizer sem muito mêdo que quase tudo o que vocês vêem foi feito por um designer. O que não foi, foi feito por um artesão, por vocês mesmos ou pela natureza. Pode ser que as pessoas que fizeram esses objetos não se considerassem designers, e sim artistas, ou editores, ou engenheiros, ou arquitetos, ou apenas uma pessoa com um trabalho a fazer. Mas, a partir do momento em que se puseram a fazer o projeto de um abjeto, identidade ou composição gráfica, com a preocupação real de tornar a sua interação com o usuário ou sua comunicação o mais azeitada e eficiente e até mesmo agradável possível, então ele é um designer. (obs.: a gente costuma dizer que projetos que não levam em conta o usuário são "projetos de engenheiro". isso não é um preconceito, é só uma definição, já que o engenheiro não é treinado para lidar com o usuário, e sim com o mecanismo — é por isso que tantos polis vêm fazer fau-poli!)

Acho que uma das coisas que mais me incomoda no meu curso é que não nos tornamos realmente aptos a estudar qualquer campo em que queiramos trabalhar. Uma das coisas que aprendi com meu curso é que antes de fazer um projeto é preciso se tornar especialista na área correspondente. Por exemplo: para projetar uma lâmpada, eu preciso estudar iluminação. Para fazer um projeto para cegos, eu preciso entender a vida dos cegos. Para projetar carros, eu preciso entender como funciona um carro, como funciona a aerodinâmica, como o material se deforma em uma colisão. Em muitos casos é possível aprender em alguns meses o duficiente para se fazer um bom projeto. Em alguns casos, como no do carro, é necessária necessàriamente a associação com um engenheiro, mas para que haja boa comunicação com o engenheiro também é preciso entender a engenharia. No curso de arquitetura, assim como em alguns cursos de design gráfico ou desenho industrial mais especializados, existe a preocupação de ensinar ao graduando as técnicas, as características dos materiais, a matemática e a física de tudo com que esses cursos propõe que o seu graduado trabalhe. Não com muita profundidade, talvez, em direção à engenharia, mas o suficiente para que o projeto não saia absurdo demais. O meu curso não ensina isso, porque não seria possível ensinar todas as técnicas específicas de cada uma das áreas nas quais eles esperam que nós trabalhemos. Nós aprendemos uma coisinha aqui, outra ali, apenas para que não sejamos totalmente ignorantes. E o resto é por nossa conta.

Meu problema com essa estratégia é que sempre nos falta, a princípio, uma área comum de entendimento com profissionais de outras áreas. Eu gostaria que meu curso tivesse, embora numa proporção menos... absoluta, uma proposta que encontrei no curso do Diogo: a de criar uma linguagem que abranja diversas áreas do conhecimento.

(Me incomoda no curso do diogo que eles achem que estão estudando todas as áreas do conhecimento quando na verdade estão estudando apenas física, química, matemática, computação e um pouco de biologia, e me incomoda ainda mais a defesa que fazem à essa acusação porque dá a entender que o que estudam no ciclo básico é apenas o mais difícil -- e é mesmo, é o tipo de coisa que não se pode tentar explicar aos amigos como eu tento explicar a vocês o que é design, o que é semiótica, o que eu estou pensando, mas, veja bem, isso me incomoda ainda mais, porque de qualquer forma eu não posso sonhar em fazer vocês entenderem exatamente qual é a do Peirce ou a do Max Bill, e eu imagino que seria ainda mais difícil para o Yuri ou o Ugo explicarem o que estão estudando, e entretanto existe alguém que acha que é possível estudar até mesmo as sciências humanas partindo de uma base puramente científica!)

Acho que terminei o que eu queria dizer sobre design. Aproveitando o ensejo, eu queria tentar dar uma leve noção do que é semiótica. E já que estou usando bastante esse termo, o que é gestalt.

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Pensando bem, vou primeiro verificar se não estou dizendo nenhuma bobagem. Me digam, aliás, se isso realmente interessa. Até logo, amigos.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Como uma parede atrás de uma porta aberta

Quase todos os dias Zacharias encontra uma porta nova em sua casa. Uma porta ou um canto novo. Ou um risco no vidro da janela. Ele passa pela porte e se impressiona muito com as coisas lá dentro. Não com a mesa, com o computador ou com a estante de livros. Ele se impressiona com aquele bloco de pedra que é um pouco menor do que os outros, deixando uma linha de cimento um pouco mais grossa. Ele passa horas admirando uma mordida de rato na base do pé da cadeira. Quando fecha uma porta que permanece sempre aberta, sempre se assusta com a parede que de repente existe. Quando Ilina lhe perguntou se ele gostava mais da sua casa no rancho, ele respondeu rapidamente:
— Como, se, no rancho, atrás das portas não há nenhuma parede!


Hoje durante a aula de cálculo eu súbito levei um susto ao perceber algo completamente inesperado. O que eu percebi é que eu estava acordada. Mais que isso, eu estivera acordada desde o começo da aula. Eu não ficara sequer com sono! Eu não fora para a cama especialmente cedo (na verdade, ficara assistindo TV até a uma da manhã) nem dormira mais do que o normal (na verdade, sexta-feira eu tenho a aula mais cedo da semana, e eu acordara às sete da manhã), nem tomara o mate com guaraná que muitas vezes me permitiu assistir à primeira metade da aula. O dia fora como qualquer outro dia, entretanto em qualquer outro dia eu teria dormido na aula pelo menos até as nove horas, enquanto hoje às nove da manhã eu olhava no relógio e me assustava com o fato de que eu estava completamente desperta.

Nos outros dias também eu estaria extremamente mau-humorada e pensaria para mim várias vezes em como eu detesto a minha vida; hoje, essa frase parecia absurda, e nada mais me incomodava, e eu estava entendendo a matéria, e tudo parecia bom e feliz. Além disso, quando eu saí de casa eu não estava atrasada, ou com preguiça de pegar a bicicleta, e enquanto eu pedalava para a Física eu sentia dores horríveis nas pernas e o buraco na minha boca latejava, mas eu não me sentia miserável por ter que agüentar as dores e os incômodos e seguir em frente com as minhas missões impossíveis. E quando eu voltava para casa eu lembrei das coisas que eu costumo pensar enquanto faço aquele mesmo caminho, e em como eu costumo andar devagar, e tive vontade de rir de mim e pedalar mais rápido apesar da dor e me tornar mais forte e fazer o melhor caminho possível. E acho que foi mais ou menos aí que eu entendi o significado da palavra "estresse".

Sim, a vida é dura, a vida é um inferno, e às vezes parece que não importa o quanto nós queiramos sorrir nós ainda somos obrigados a fazer cara séria e meter a cara naquilo que depois de um tempo nós passamos a odiar. Às vezes tudo dá errado e o tempo é muito curto e a gente perde todas as esperanças de fazer a coisa certa e nossas responsabilidades nos afogam e nos parece impossível cumprir todas as obrigações e satisfazer todas as expectativas. Sim, às vezes nós somos fracos, e tolos, e incapazes, e sacrificamos tudo o que não é urgente e indispensável para cumprir nossas metas que nunca sabemos se um dia poderemos conquistar. E em todos os momentos em que tentamos descansar, sentimos pressa, e ânsia e culpa por não estarmos nos esforçando para fazer o que não teremos tempo para fazer depois. E tudo é muito justificável, e tudo faz muito sentido, e nós gostaríamos de poder investir toda a nossa energia em cada coisa que fazemos. Pelo menos a minha vida é assim.

Mas isso não é motivo para se transformar num escravo de si mesmo. A culpa na verdade só existe porque além de tudo nós sentimos raiva e frustração e não conseguimos fazer tudo o que queremos, e por tudo isso nos sentimos péssimos mesmo achando que estamos fazendo a coisa certa. Esse não é um bom jeito de se viver.

O jeito bom de se viver é se esforçar
em primeiro lugar pra ser feliz
e em segundo lugar para ser capaz.

Resposta ao texto do Rafael (O Aleph, 18/06/09)

Uma parte de mim quer voltar à velha discussão da mitologia moderna sobre a racionalidade não-humana... Mas outra, a maior parte, está quase completamente comprada por essa idéia de que a racionalidade humana nasce no arbítrio. É uma idéia tão bem acabada por princípio! Porque é da necessidade de se tomar uma decisão que nasce a dúvida e a racionalização da situação e seguinte raciocínio que leva a uma solução (ou a mais dúvidas).

Queria muito saber quais foram as tuas perguntas! Assim talvez pudesse ter uma vaga idéia de a que se refere a última afirmação do artista. Já passei por discussões qie me deixaram completamente convencida, mas apenas por algumas horas, até que eu voltasse a pensar no assunto e não conseguisse lembrar de forma alguma o que me convencera. No meu caso foi perturbador porque até hoje discordo daquela idéia, mas como fui convencida dela por algum tempo me pergunto se não é minha ignorância que me impede de ver que ela está, sim, certa. O esquecimento é um demônio particularmente cruel, não?

Sobre as formas da natureza: não, elas não têm nenhuma relação direta e necessária com a racionalidade humana. Na verdade a maior parte das coisas não está necessariamente relacionada, e ainda assim, na nossa mente, se relaciona. Talvez não seja uma questão de gestalt, porque por exemplo a proporção áurea é uma abstração e um ideal de beleza aparentemente arbitrário que entretanto é encontrado nas conchas de diversos animais. Mas, enquanto não encontramos uma explicação perfeita para a beleza do número fi (que talvez seja justamente a sua presença na natureza), podemos aceitar a forma como nossa racionalidade encontra espelhos de idéias em coisas, enxergando imagens como esquemas e manchas como figuras. O artista olha para todas as formas da natureza, e em muitas delas não vê significado; quando consegue encaixar um pouco de significado em um trecho de uma forma, imediatamente estende o encaixe como pode e propõe a si mesmo o significado possível daquele encaixe. O artista vislumbra uma metáfora e se pergunta: será que é uma metáfora minimamente válida? E, ao pensar nisso, ele relaciona signos, cria novos signos, com novos significados, e assim ele aprende algo sobre o mundo. (ou isso, ou eu tenho que me desvincular um pouco da semiótica...)


PS.: vocês acham que eu estou explicando demais o que eu digo?

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Eu recebi inúmeros textos a respeito da greve e afins hoje, como acontece todos os dias desde terça-feira, mas esse de alguma forma eu me senti compelida a publicar. Acho que foi o contraste com o texto anterior, que xingava o Antônio Cândido e Marilena Chauí de todas as formas possíveis sem nenhum respeito por ninguém, e pra falar a verdade naquele site todos os comentários eram tão agressivos que eu comecei a me sentir agredida pessoalmente, só porque eu não concordo com ele. Eu também não concordo com este texto, na verdade. Só acho que foi mais bem articulado que os outros, que fala menos merda. Mas acho que essa questão das assembléias é meio complicada.



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MARCELO COELHO

Sombras sobre a USP
Se as "minorias radicais" conduzem o processo, onde estão as maiorias moderadas?

UM GRUPO de provocadores ameaça a ordem e o Estado de Direito. Impossível negociar com extremistas desse tipo, dado o irrealismo de suas reivindicações. Para preservar a paz da comunidade e o império da Lei, a saída é a intervenção de uma força militar.
Esse raciocínio pode ser aplicado, sem grande irrealismo, à crise vivida na Universidade de São Paulo. De fato, há minorias radicais. Tudo indica que é impossível negociar com elas. De fato, a ordem deve ser preservada. Tudo indica que o patrimônio público precisava ser defendido de invasões e quebra-quebras.
Só que a fraseologia não difere muito da que justificou o golpe militar de 1964.
Aquela época tinha seus extremistas, dispostos, por exemplo, a fazer a reforma agrária "na lei ou na marra". Eram, certamente, minoritários na população. Havia uma ordem a ser preservada, e uma legalidade para a qual os movimentos de massa não conferiam grande importância. Só uma intervenção militar daria conta da "baderna".
É triste ver pessoas de belo currículo democrático, notoriamente perseguidas pelo regime militar, apoiando a ocupação da USP pela PM. Sem dúvida, a polícia age agora com autorização judicial e o golpe de 1964 foi, afinal, um golpe.
Do ponto de vista político, entretanto, as situações se assemelham. Como em 1964, muitos "democratas" agora acham que é preciso reprimir pela força as "minorias radicais", contando com o aparato militar para defender a ordem, contra a "baderna".
Este artigo -prometo- será imparcial. Não vejo valor em alguns argumentos do lado contrário. É muita abstração condenar a presença da PM porque a universidade é um local "de pensamento, não de violência", "de ideias, não de barbárie".
A USP é isso, mas não é um jardim peripatético: é também um lugar de trabalho, onde pessoas ganham salário, reclamam, fazem greves, piquetes e invasões.
Piquetes e invasões não são atos isentos de violência, e palavras de ordem não costumam ser obras-primas de reflexão e de pesquisa. De resto, há uma diferença óbvia entre intervenções armadas que se dedicam a sufocar o pensamento e a liberdade de cátedra, e as que se encarregam de reprimir militantes sindicais.
Convocar a PM foi um erro. Só serviu para acirrar, e não pacificar, os ânimos na USP. A retirada da PM é o primeiro passo para a superação da crise.
O problema é saber por que se chegou a esse ponto -em que pessoas respeitáveis acabam achando que "só a PM resolve essa baderna". Quando acontece isso, um sistema de representação e de poder se revela disfuncional. A política deixa de funcionar e a força prevalece.
Se "minorias radicais" conduzem o processo, cabe perguntar onde estão as maiorias moderadas. Deveriam estar presentes nas assembleias (e piquetes) que decidem mobilizações em nome de todos.
Nada mais alienado do que condenar o fato de uma assembleia "de gatos pingados" ter decidido uma greve quando não se participa dela.
Estivesse presente nas assembleias, a "maioria ordeira" da USP negaria legitimidade aos movimentos de reivindicação. Em última análise, prefere delegar a defesa da ordem à PM.
Diante de dezenas de ativistas enraivecidos, quatro policiais (que não são "a repressão", mas têm nome, estado civil e endereço) foram cercados e humilhados moralmente. Quando chegou o reforço, professores, funcionários e estudantes (que têm nome, estado civil e endereço) foram atacados com gás e balas de borracha.
Tudo se desumaniza, porque está em jogo uma contradição estrutural. Temos uma máquina burocrática -a da reitoria e seus órgãos ossificados de decisão- contra uma máquina sindical -que segue a lógica da mobilização de massas.
Acontece que as massas são imaginárias (reduzem-se a uma minoria) e que a estrutura de poder na USP, supostamente defensora da lei e da ordem, é tudo menos democrática. Quando ninguém representa ninguém, ou representa mal, não há negociação humana possível, e a violência prevalece.
O mesmo dilema levou a crises violentas no sistema político brasileiro, tempos atrás. Minorias "extremistas" se iludem com a omissão da maioria "ordeira", que não se dá ao trabalho de mobilizar-se pela "ordem" e pela "moderação". Afinal, tem as tropas a seu dispor.

coelhofsp@uol.com.br

Bom, então...

Eu li um blog que nasceu hoje e fiquei um pouco envergonhada com o meu. Mais que isso, eu vi meu próprio blog muito tempo atrás e fiquei envergonhada com o meu presente. Além disso, hoje um cara me mandou um e-mail dizendo que a existência de pessoas como eu, meu amigos, meus colegas e o retso de nós, é bastante medíocre. E eu me sinto medíocre. E isso me dá raiva. A gente precisa passar pelos momentos chatos para chegar ao fim das coisas. Eu não estou feliz com viver assim, mas eu tenho uma fé inabalável no futuro.

Mas eu admito que preferia ter continuado seis meses atrás.

Por outro lado, eu nunca estive tão apaixonada.

domingo, 14 de junho de 2009

Eu não acho.

Eu não acho que as pessoas estejam sempre tentando esmagar os outros. As pessoas também se diminuem para os outros subirem em cima, e também estendem suas mãos para os outros, e também se sacrificam pelos outros. As pessoas não são essencialmente competitivas; isso é só um aspecto. Algumas pessoas precisam pisar nos outros a cada oportunidade, e muitas acham que pisar no outro ajuda o outro a querer se revoltar, mas eu não sei se isso é realmente bom, eu me pergunto se não seria melhor abraçar o outro e ir caminhando com ele. Não precisamos sempre exigir em todos as qualidades que nós achamos necessárias. Algumas pessoas são de um jeito, outras são de outro. Você escolheu ser forte e gostosão e ter opiniões sobre tudo e estar acima de todo mundo, mas, embora eu ache que todos nós queiramos em algum nível ser perfeitos, eu não sinto a vontade específica de ser melhor que você, ou melhor que o Márcio, ou que o Henrique, ou que o Zézinho ou Luisinho. Eu me sinto feliz com o poder próprio que cada um tem, com as características únicas que não são forças nem fraquezas. Dá pra pensar que eu simplesmente desisti de perseguir o poder por achar que eu nunca ia alcançá-lo, e isso provavelmente é verdade, mas acho também que toda a perseguição do poder é um nome errado, é uma forma errada de ver e pensar a vida. A gente não precisa ser melhor ou pior do que ninguém. A gente só precisa impressionar a si mesmo.

No mundo em que eu vivo, é sim reconfortante achar defeitos nas pessoas quando você está se sentindo um lixo, porque isso faz você ser um pouco mais conivente, um pouco mais lasso na sua avaliação, você permite mais erros e isso faz com que seja mais fácil alcançar os seus parâmetros, mas também é libertador encontrar qualidades nas pessoas, porque isso não apenas te dá esperança, isso também faz o seu mundo melhor, isso permite aliás que você encontre outras qualidades, muitas vezes não são boas ou ruins, são apenas qualidades, o tipo de coisa que te faz feliz por ser você independente de quem você seja, porque mesmo se você não tivesse nenhuma habilidade, não fosse gostosão e não soubesse nada, você ainda teria sua personalidade, suas particularidades, e sempre seria no mínimo interessante.

Existem muitas pessoas por aí que quando verem sua guarda aberta vão te dar um abraço, vão te proteger, vão entrar cortesmente no seu espaço pessoal e saudar os animais fantásticos que vivem no sua alma. Eu particularmente não me orgulho de nenhum dos momentos em que eu pisei em alguém que estava com o coração aberto. Eu me orgulho das vezes em que eu abracei o coração de alguém, em que eu me arrisquei por alguém, em que eu fui legal com alguém só porque era uma pessoa. Eu nunca me sinto bem por deixar alguém desconfortável (embora em alguns casos seja muito engraçado). Inclusive, Ugo, foi você que me mostrou que nem sempre é bom lutar contra as esquisitices das pessoas.

sábado, 13 de junho de 2009

Naturalmente, outro texto egocêntrico e emo.

Eu tenho mêdo de não ser forte o suficiente, Di. Eu tenho mêdo de não conseguir chegar no final do semestre. Eu sei que é mentira que tudo sempre dá certo no final, a menos que a gente se recuse a reconhecer que é o final até que alguma coisa dê certo. Eu não quero saber nada disso. Eu quero não ter mêdo de nada, eu quero não saber nenhuma das coisas que deixam a gente com mêdo, eu quero achar que eu posso ser mais forte que todo mundo, eu quero ter poderes. Eu tenho mêdo de ser uma pessoa muito fraca ao lado de uma pessoa muito forte. Eu estou cansada de ouvir gente me rebaixando, me insultando, estou cansada de ouvir que eu sou relapsa, que eu sou irresponsável, que eu sou preguiçosa, sim, eu sei que eu fui idiota e infantil nos últimos dois anos, mas agora eu quero ser mais forte, e é tão difícil quando todo mundo fica me lembrando das minhas derrotas, porra! Sim, eu sei, eu não conheço nada de música, eu vivi embaixo de uma pedra, eu quero jogar uma pedra em quem me diz isso, eu sei que eu sou ignorante, eu sei que a única coisa que eu sei direito é amar, e falar talvez, e que a maior parte das coisas que me importam importam só pra mim, e que ninguém deveria ter o direito de formar minha opinião a respeito de mim mesma, mas é tão difícil acreditar nisso quando tudo o que eu tenho são as pessoas, quando no fundo eu joguei fora meus mundos inventados pra ter alguma chance no mundo real, eu sacrifiquei tanta coisa para poder viver com as pessoas reais, e parece que o mundo cobra que eu sacrifique ainda mais, que eu sacrifique tudo, meus sonhos, meus ideais, minha personalidade, o que eu mais detesto é gente como o Ugo dizendo que nada dá certo se eu for tão idealista quanto eu sou, e eu tenho vontades de abrir a cabeça dele com uma pedra, e é muito difícil lidar com eu ter muita raiva de um meu melhor amigo, sabe? Eu estou cansada de ouvir que eu sou uma pessoa incrível mas que eu preciso ser menos eu pra poder ser feliz. Eu não quero isso, eu quero seguir em frente, eu quero vencer, porque eu tenho aquela característa dos Sims "loser", eu sempre fui ruim em quase tudo em que os termos vitória e derrota se aplicam, eu cresci perdendo todas as partidas de todos os jogos, menos quando eu tinha muita sorte, e muitas vezes meu irmão jogava mal de propósito para eu ganhar, mas eu desenvolvi essa indiferença em relação à vitória, eu não quero ser o centro do universo, e eu queria criar um personagem de RPG cujo objetivo de vida fosse ajudar as pessoas, ele teria habilidades diversas mas não seria especialmente bom em nada, não teria exatamente uma postura política, não teria tendência, ele só ajudaria quem estivesse perto dele, e embora eu tenha sim uma moral acho que foi o mais próximo de um personagem que me representasse que eu consegui chegar. Eu não quero mais ser a protagonista, eu só quero ser parte de uma boa história, mas eu quero ser respeitável, e eu sei que pra ser respeitável você tem que ter algumas vitórias, por isso eu quero sim ser forte (e eu ainda tenho resquícios da eu Lôba de antes, que não tem mêdo de nada, diz sempre a verdade e tem poder potencialmente ilimitado) e sim eu sou competitiva nos jogos nos quais eu tenho um mínimo de habilidade (quer dizer, Smash), mas eu prezo mais o estilo que o poder, eu nunca me divirto realmente se eu ganhar demais, eu me acostumei a pensar em mim como uma pessoa que não tem talento pra nada (especialmente depois que eu descobri que eu não desenho nem escrevo tão bem assim - porque eram essas habilidades que as pessoas viam em mim quando eu era pequena). Às vezes eu penso que eu devia fazer como o Ugo e dizer foda-se pra tudo isso e passar a dizer que eu sou foda em tudo e que eu sou o máximo mesmo nas coisas que eu nem sei fazer até que eu me torne realmente bom naquilo, mas me irrita tanto quando o Ugo faz isso! Eu não quero ser uma pessoa agressiva, eu quero ser uma pessoa gentil. As pessoas que eu mais admiro hoje em dia são o Bruno, o Jesus, o SuperFlautas, que são pessoas gentis que nunca pisam nos outros. Eu tenho vontade de proteger o Bruno quando todo mundo pisa nele e ele detesta isso mas continua sendo legal com todo mundo. Eu não sei se eu sei ainda do que eu estou falando. O que eu estou falando é que o meu ideal de pessoa não é mais o Wolverine super forte, super selvagem e super fodão, e sim (oh fuck não temos personagens em comum pra isto) um Usopp, o cara que não é super foda mas fica lá até o fim, seguindo seus princípios, ajudando seus amigos, lutando no meio de coisas feitas para pessoas bem mais fortes que eles. Do que eu estou falando? Eu não sei, aliás, eu não vou mandar mais este e-mail pra você, eu vou, sei lá, publicar no blog, porque isso não tem mais a ver com você, tem a ver com outras coisas, coisas que não são tão importantes, coisas que talvez sejam apenas conflitos internos entre o que eu já fui, o que pensei ser, o que me disseram que eu era e o que eu talvez seja.

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Um texto sem nenhuma validade política, mais inda inevitavelmente moral

E agora? A gente vai pra casa? A gente pára por aqui mesmo? A gente senta e chora? A gente se bate, se debate, se espanca dentro da nossa própria casa?

Pra mim, o fim do mundo é isto aqui.

De um lado, minha casa está caindo aos pedaços, meus gatos estão velhos e doentes e nervosos sujando e destruindo tudo. As pessoas começaram a morrer e não pararam. Existe fim pra isso?

De outro, eu vou pra faculdade ouvindo absurdos e mentiras, acreditar em quem? Eu acho tudo ridículo, greves e policiais, eu entendo o que estão fazendo, mas é porque não consigo enxergar instituições, só consigo enxergar pessoas, e parece que estão todos apavorados.

Não temos tempo pra nada, não temos direito a nada, nós fazemos nossas escolhas sabendo de antemão que sempre estarão erradas. Não podemos parar de estudar, não podemos deixar de sonhar, não podemos deixar a casa cair, não podemos abandonar a família, não podemos parar de lutar por um mundo melhor, não podemos deixar de ver os amigos, não podemos nos perder no meio de todas as dificuldades e atribulações da vida.

Inevitavelmente haverão mais derrotas do que vitórias?

Será que a gente enlouqueceu ou quem enlouqueceu fui eu?

domingo, 31 de maio de 2009

Para a seção "A vida imita..."

Então eu comecei a pensar em tentar virar uma loremaster. Tudo o que eu preciso é de muitos ranks em knowledge, aprender a fazer alguns itens e desenvolver muitas habilidades de dedução e chute. É claro que é um pouco degradante para alguém que acredita fortemente no poder da verdade e do conhecimento verdadeiro, mas talvez eu possa chegar lá por caminhos menos, bem, sujos. Acho que saber praticamente qualquer coisa é simplesmente válido.

Eu não me incomodaria de me tornar uma velha dessas que sabem tudo e estão sempre contando histórias. Eu posso viver para sempre se for pra viver assim. Eu posso perseguir histórias e criar histórias e dominar o mundo, quer dizer, influenciar os outros a acreditarem no que eu acredito e continuar aprendendo loucamente sempre. Talvez essa seja uma espécie em extinção, mas eu não acharia chato ser assim.

Ou acharia? Eu me pergunto isso sempre, se seria chato demais me dedicar tanto assim ao conhecimento, se eu não deveria deixar isso para personagens baseados em Int em vez de tomar isso como minha responsabilidade, já que, por mais que poucas coisas me deixem tão feliz quanto aprender, eu não sei se eu poderia ser feliz se aprender fosse a coisa mais importante.

Ontem quando o Kim começou a falar sobre biblioteconomia eu lembrei que eu queria fazer esse curso porque achei que ia ser um curso de passar muito tempo em bibliotecas, mas acabei desistindo porque isso parecia idiota e eu imaginei que devia ser alguma outra coisa, mas agora que eu descobri que realmente é um curso de passar muito tempo dentro da biblioteca, aprendendo muito sobre todas as coisas sobre as quais se escrevem livros, eu comecei a considerar se teria sido mais legal se eu tivesse mesmo ido fazer esse curso.

Eu não sei. Não consigo enxergar com clareza nenhuma das possibilidades. Por enquanto me parece lógico continuar onde estou, onde tenho amigos, embora não consiga me aproximar deles (talvez eu mesma não me permita uma aproximação?), onde aprendo coisas interessantes, embora sinta que não me serão úteis senão da forma que qualquer coisa no mundo é útil (exceto, talvez, O Jogo), onde tenho desafios, que embora não me deliciem ainda assim me levam a diversos limites, e onde estou aprendendo a ser forte, embora talvez à custa da inocência, da tranqüilidade e de alguns sonhos. O importante é conseguir segurar com muita força os sonhos e não permitir que nada derrube minha determinação. Mas, por enquanto, não consigo ver como sair deste campo de batalha sem estar efetivamente fugindo com o rabo entre as pernas. É muito importante que eu possa olhar nos olhos das pessoas que me insultarão no futuro.

Não sei, às vezes eu me sinto meio ridícula... Mas como eu entendo porque eu penso e ajo assim, eu começo a achar ridículo me achar ridícula. Às vezes eu só queria ser uma bárbara no meio da savana, só pra extravasar.

quinta-feira, 28 de maio de 2009

E essas coisas

Eu me pergunto o que estou fazendo aqui. Esperando o próximo fim de semana, a próxima aventura trivial num mundo extremamente mágico; o próximo beijo. Quem sabe se fechar os olhos haverão dragões. Os dragões estão todos mortos neste mundo. Mas quem sabe, se eu andar e andar e andar, eu consiga chegar num lugar onde há dragões. Balanço a cabeça e me concentro na próxima tarefa. Mas minha mente cheia de perguntas não se concentra em nada. Os dragões estão mortos neste mundo, e sinto tremenda saudade de haverem dragões.
E sigo: tento lembrar quem eu era, ter qualquer lembrança, qualquer vislumbre, mas a lida te endurece e rareia o cabelo e avermelha a pele e antes que tomemos conta estamos velhos — velhos como macaco velho, sabidos, antigos e maus. Se passar tempo demais, pode acontecer, morremos. Se passar tempo demais viramos poeira por dentro. Agora mesmo estou cuspindo fuligem. Agora mesmo estou procurando ajuda, e não vejo ninguém.
Deve ser assim que os velhos se sentem, sozinhos, quando todos os seus amigos estão mortos ou senis. Deve ser assim que se sentem rodeados por crianças que sabem tudo e por um mundo que não compreendem. Como um estrangeiro, como um prisioneiro, sonhando de noite e de dia com aquela casa enorme da sua infância. Eu também tenho uma casa enorme na minha infância. E eu sinto tanta saudade daquela casa...
Parece que todos os meus amigos estão mortos, só que quem foi embora fui eu. Eu não vejo casa vazia, eu não vejo casa nenhuma. As coisas que eu faço, as tarefas, as perquisas, eu sou como aquele empregado que detesta seu trabalho e trabalha pra sobreviver. Eu nunca sei por onde começar, cada vez mais eu não entendo nada, eu procuro, eu preciso de ajuda, estou cansada de estar sempre sozinha. Mas quem sabe não estamos sempre sozinhos o tempo todo, e apenas eu não perceba porque eu sou eu e vejo apenas através de meus próprios olhos. Estou tão cansada de nada nunca dar certo.
Estou como que lutando uma guerra em terra estranha, não posso voltar enquanto não vencermos, não posso abandonar essa batalha; morrer seria mais honroso; quero voltar para casa, nunca mais estive em casa, sinto falta de tudo lá, e lá sempre haverá dragões... Como tenho mêdo! Tenho mêdo de não poder voltar, tenho mêdo de lutar para sempre; e se a guerra nunca acabar? As pessoas aqui são estranhas, mas aos poucos vou fazendo amigos. Aos poucos, muito, muito devagar, eles vão entendendo que sou ao mesmo tempo como eles e completamente diferente. Aos poucos também vou pegando a manha deste modo de vida, quando não estou gritando de desespero no meu quarto, vou entendendo as sutilezas e as belezas desta terra, e vou me tornando eles, mais e mais. Quando voltar para casa quem sabe eu terei habilidades úteis para emprestar aos meus conterrâneos. Ou será que ao voltar para casa, minha mudança terá sido tamanha que mesmo lá serei apenas diferente?
Olho para trás, o caminho de casa não existe, eu haverei de andar por léguas sem fim em busca desse lugar sagrado, eu andarei o mundo à procura de mim. É preciso que o tempo dure pra sempre para que eu possa encontrar meu lugar. De onde eu venho, existem pessoas que vivem para sempre. Assim eu poderia ver tudo, encontrar tudo, eu quero conhecer tudo e estar em todos os lugares. De onde eu venho, é esse o sonho de todas as crianças. As crianças crescem para viver assim.
Aqui, não, aqui somos todos guerreiros, não posso me distrair com bobagens porque ainda tenho muito o que aprender para poder lutar bem. Essa guerra é a minha vida. Aos poucos vou começando a entender que a vida é assim mesmo, que é aqui que vivemos, que é isto o que fazemos; aos poucos vou esquecendo de anotar o caminho de casa, aos poucos vou me afastando mais e mais e mais. Depois daqui, para onde será que eu vou? O mundo é imenso, e eu não tenho mais casa, eu devo percorrer o mundo inteiro, é isso que eu sou.
Eu sinto que estou perdendo tempo. Acho que estou atrasada. Vejo meus colegas fazendo projetos, pesquisas, participando de concursos, trabalhando. Eu não posso fazer nada disso, eu me dedico inteiramente a esta guerra. Esta guerra é a minha vida. Contra quem estamos lutando? Pelo quê estamos lutando? Eu não pergunto nada, apenas sigo as ordens. Eu não posso desistir da minha batalha. Mesmo se eu nunca vencer, continuarei lutando, continuarei tentando, até que seja o fim de tudo. De nós. Mas se eu não viver para sempre, enquanto eu estou nesta guerra eu estou para sempre morta. Tenho medo de um dia estar velha e cometer suicídio. Tenho medo de um dia ficar inconsciente.
Outra coisa de que tenho mêdo é de nunca encontrar o caminho de casa...

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Olhos brancos

Naceu num verão de Stellacranei um filhote pálido como os demais, de pelo negro como os demais, e com os mesmos caninos pontudo — mas cego. Falar, falava, mas nunca coisas compreensíveis. O velho Cedro Sábio suspirava que o menino tinha boca-de-estrela, e só podia falar aos poetas. As crianças ouviam, mas tinham mêdo. Os adultos queriam que ele ficasse quieto.
Chamaram-lhe Olhos Brancos e o deixaram na escuridão da floresta. Ele voltava sempre mas era menos homem e mais animal. Jangada Seca, pai de vinte-e-cinco mas que nunca pegara uma caça, lhe dava um pedaço de carne para dividir com o cachorro. O menino aceitava e murmurava uma prece que fazia Jangada Seca apertar os olhos e os dentes de desagrado. As crianças, se viam Olhos Brancos, cuspiam e batiam os calcanhares no chão para evitar mau-agouro. O menino se sumia na floresta, mas amanhecia no dia seguinte nos braços da estátua central do Grande Jah — dormindo em seus braços imensos, fundido à pedra anciã. E acordava rugindo um épico: palavras longas demais, belas demais, que doíam nos corações de todos os Coyotes de Stellacranei. Arma Cega, guerreira feroz e filha da mesma mãe de Olhos Brancos, atiçava o irmão com uma lança e o expulsava da praça com gritos e hissados ferozes, querendo verter-lhe o sangue. Os Coyotes não conhecem a paz, por isso ferem tudo o que desconhecem.
O único que tocou a mão de Olhos Brancos foi Folha Morta, menino de voz aguda, olhos vermelhos, pele escurecida pela doença de sua mãe. Folha Morta era exímio caçador mas também era um pária: se tocasse com suas garras qualquer um dos outros, seria desmembrado pela tribo. Folha Morta tomou o menino pela mão e o levou até além do coração da floresta e lhe apontou o caminho, mas não podía segui-lo.
— Pela margem sempre, lá o Deus., ele disse (para os Coyotes, Deus era tudo o que não podiam pegar, morder ou arranhar). Folha Morta não podia partir mas mandou com o menino seu único amigo, um homem estranho que não tinha garras, não tinha caninos e tinha a pele escura. Além disso, Olmo Tolo não falava.
Olhos Brancos respondeu numa frase só; disse que se os aéreos soprassem uma raíz, não haveria floresta, haveria flores. Depois disso partiram.
Para Olmo Tolo o mundo era uma sinfonia e para Olhos Brancos o mundo era um caleidoscópio. Nenhum dos dois poderia olhar o horizonte sem ferir os olhos. Andaram até uma cidade onde não havia lei nem nome, e mesmo quando acorrentados dentro de uma jaula seus corações ainda estavam completamente encantados. O menino devorava o pão seco que lhe jogavam e o homem o abraçava quando chegava a manhã, pedindo que lhe sussurrase uma história. Foram jogados um dia numa grande arena, e continuaram abraçados. Para Olhos Brancos, o mundo poderia ser um incrível vento luminoso. Quando ele abriu a boca, era o que queria falar. Queria falar do mundo, esse grande vento luminoso.



Os habitantes de Maxímia não eram surdos como os Coyotes. Eles ouviram as palavras de Olhos Brancos, eles vislumbraram a alma de Olhos Brancos. Um a um os habitantes de Maxímia, confusos e emocionados, levantaram-se dos seus lugares. A princípio para lhe atirar bobagens, para reclamar que não estavam entendendo nada — mas depois, cada vez mais, embevecidos, como que dominados pelas palavras fluidas, pela sonoridade, pela potência da canção de Olhos Brancos, pela perfeição de suas metáforas, pela beleza de suas construções — e tudo fluía como castelos de areia, como cartas, como um vento que vira um palácio, como aquilo que os Coyotes chamavam de Deus.

Quando terminou, Olhos Brancos abriu os olhos. Para Olhos Brancos, o mundo era incrivelmente belo.

terça-feira, 19 de maio de 2009

Cuspe

Para desvelar e descalar o mundo, o mundo que ainda é escória, (não - escória é a raiva do mundo) para desmistificar o mundo, cuspo, sem som, minha impiedade, meu nojo dessa existência imunda.

Para esquecer: uma história.

quinta-feira, 30 de abril de 2009

Danger

Eu me sinto irritada. Simplesmente irritada. Eu não tenho vontade de fazer nada. Eu quero brincar e dormir. A luz do sol me compele a fazer muitas coisas alegres, como catar limões e brincar com os gatos. Mais uma vez eu ajo irresponsavelmente. Por que não posso colocar brincar com os gatos entre minhas responsabilidades? Por que não ganho créditos por escrever no blog?

Preciso abandonar umas responsabilidades. Vou desencanar de ler aquele texto. Vou comprar todos os textos de história e guardá-los em casa, para referência. Vou fazer uns desenhos e uns filmes, mas não tenho a menor vontade. Estou com mêdo de não saber por onde começar. Eu tenho mêdo de tudo.

Acho que vou reler os textos e tentar começar mesmo assim. Eu queria fazer um bom semestre para variar. Eu me sinto angustiada por todas as coisas que não posso fazer. Eu estou com raiva.

Chega. Vou tirar a sexta-feira pra... Não; vou fazer esses filmes na sexta. Vou? Estou com muito mêdo. De não saber fazer nada. Droga de filmes. Tem dias que me dá vontade de gritar.

Talvez algum dia a gente possa, sabe? passar o dia inteiro perdendo tempo...

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Minha mãe e um orc.

O Diogo e o Ugo vieram me contar as histórias do jogo de RPG de sábado, algo sobre uma clériga de Lena, um orc bárbaro, um elfo perdido e um pseudo dragão contra um mago malvado. Bem. Aí contaram a parte em que o dragãozinho tentava tirar a concentração do mago, e ele gritava umas coisas tipo:

"Imagina um orc pelado! Agora imagina sua mãe pelada! Imagina um orc comendo sua mãe pelada!"

Estou dizendo isso tudo porque depois de ouvir isso algumas vezes foi umpossível não visualizar (mas sem muitos detalhes — uma mãe genérica com mais ou menos o mesmo tipo físico da minha e um orc genérico com cara de orc genérico fazendo sexo), mas eu meio que não tive nenhuma repulsa particular pelo pensamento, nenhuma esperada resposta emocional capaz de realmente me tirar do sério com uma imagem dessas. Por um lado, isso me pareceu normal, afinal, imagens não têm nada de especial e a gente não deveria mesmo ficar muito impressionados com as coisas que a nossa imaginação produz, seja o que for. Por outro lado, achei o fato de essa ser uma imagem que teoricamente deveria me causar qualquer coisa, e o fato de não ter causado nada, meio curioso, e resolvi elaborar uma explicação. A minha explicação é a seguinte:

Em primeiro lugar, eu até entendo a dificuldade de imaginar que os pais sejam seres humanos e façam sexo, mas eu não tenho essa dificuldade. Pra começar porque meus pais não dão a menor abertura para idealizações infantis — já faz anos que eles nos tratam como adultos exatamente no mesmo nível deles, inclusive pedindo conselhos (e inclusive muitas vezes só nós filhos conseguimos manter calma suficiente para resolver algumas questões familiares); depois, porque meus pais falam de antigos namorados, dos nossos namorados, de sexo e do que eles pensam sobre todas essas questões sem grandes tabus, sabe? mas sem entrar em detalhes, também, porque no fundo ninguém quer fazer o papel de melhor amigo com os pais enquanto isso puder ser evitado. É uma questão de manter as funções separadas. E em segundo lugar, sexo é uma coisa natural, bacana e que em geral traz mais bem do que mal, e na real acho que todos deveríamos fazê-lo. Apesar de eu não gostar de pornografia eu não acho que sexo seja uma coisa nojenta. (*na verdade, eu só acho nojento mesmo coisas que não combinam: por exemplo, boca e bile não devem ser combinadas. definitivamente.)

Por outro lado, eu também não imagino orcs como bichos nojentos. Desde que houve a reversão dos conceitos de bem e mal, e se abriu a possibilidade de considerar qualquer criatura como fundamentalmente neutra, ou como uma possibilidade biologicamente plausível, os monstros clássicos se tornaram menos monstruosos para virarem apenas criaturas um pouco grande, um pouco feias, um pouco más, mas não conceitualmente horrendas como eram antes. O que quero dizer é que o orc não é intrìnsecamente feio. Ele só é um orc. Eu imagino o orc como um homem grande, gordo, muito musculoso, de pele preta ou cinza (a menos, é claro, que eu passe muito tempo jogando warcraft...), como aqueles grandes porcos de criadouro, com uma fuça meio estranha, narinas maiores que o normal, uns dentes de javali e orelhas de porco apontando para cima. No geral, um porcão bípede, mas não necessariamente feio. Até porque os porcos não são feios, eles só são porcos. E eu convivi com homens musculosos minha vida inteira (eles não são especialmente raros) e sei que eles podem ser bonitos. É só olhar pros super-heróis da DC. Ou pra um vilão. De qualquer forma, eles estão por aí. Então, se pra mim o orc é só um homem grande, ele pode ser legal também. Eu não imagino um Uruk-hai, nem uma criatura diabólica, eu imagino um homem-porco. Acho que um orc tem até potencial para ser sexy. Por isso, também não tenho problemas pra imaginar um orc fazendo sexo.

Cheguei a pensar que talvez, como isso dos pais tem a ver com complexo de Édipo e tal, eu deveria pensar pelo lado de "meu pai e uma orca"... Bem, não sei, ainda não é o tipo de coisa que me deixaria perturbada, ainda mais se fosse uma orca bonitinha.

Estou dizendo isso porque o orc é uma criatura típicamente masculina, ele é meio que o estereótipo do homem sem características femininas, o bruto que aparece nas histórias pra beber, quebrar cadeiras, urras, cheirar mal, e usar sua força para estuprar mocinhas descuidadas. Ok, não quero ofender os homens, mas estou dizendo que ele é uma criatura sem leveza, sem suavidade, sem delicadeza, sem sentimentalismos. Ele só tem características 'masculinas', as características mais brutas, dos homens que não querem ser chamados de viados, do machismo violento. Nada a ver com o "homem moderno", o "homem sentimental", que tenta encontrar equilíbrio entre razão e emoção. Não, o orc é um homem duro, sem palavras doces, que acha que emoção é coisa de donzela e de poeta. E que não respeita ninguém, quer dizer, só respeita o orc mais forte.

E a orc fêmea seria o quê? A mulher do orc? Mas a mulher do homem forte pode ser tanto a dona de casa com fibras de aço fazedora de filhos quanto a gostosona destruída. A mulher do orc ou é um orc ela mesma, ou é um nada. Mas tentemos imaginar o orc não como conceito, mas como espécie possível: o homem musculoso, de cor esquisita e com nariz de porco, só isso. A mulher-porca é uma imagem usada sempre para personagens feias, gordas de seios caídos que se vestem de modo a ressaltar seus defeitos, têm cabelo desgrenhado, são sujas e dentuças (com exceção da super-pig, é claro). Mas imaginemos uma porca limpa, uma porca asseada, bonitinha. Não é adorável? Agora imagine um orc sorrindo e uma orc mulher-porca sorrindo de volta, e nós temos um lindo casal monstruoso! Oh yes! E eles vão formar uma linda família numa linda casinha na Improbable Island até que um herói venha derrubar sua porta, cortar suas gargandas com uma motosserra e roubar todos os seus bens. Mas isso é outra história.

Aflição

De tempos em tempos acontece um desses momentos jogados fora. Tento me concentrar mas só consigo pensar em balança em frente, sem sentido, sem motivação. São dias completamente perdidos, desperdiçados, ofendendo a clara noção de valores que diz: "você tem que ser mais!"

Eu tenho que ser mais, é? Mais do que quem? Melhor do que o quê? Para formar que tipo de inequação M > V*f(d) ? Eu tenho que ser melhor? Que ser forte e conseguir tudo para dar os louros do meu suor àqueles que merecem meu esforço? Fazer sacrifícios da alma, domar minhas vontades, meus espíritos, para seguir as regras de um jogo que dura a vida? Eu tenho que superar esse dias e ir além da mediocridade, da inutilidade, da pessoa sem grandes conquistas? Eu tenho que cumprir metas e promessas para merecer o meu lugar no mundo?

Hoje foi um dia desperdiçado e não sei se devo sentir raiva ou culpa. Eu não sou uma pessoa pequena, apenas uma pessoa dispersa. Vou tirar o pc da tomada, sim, em breve, vou trancar os vícios num armário e dar um tempo, e dedicar os dias a esse ideal maior da funcionalidade. E tudo vai girar em torno de um objetivo. Mas será o meu objetivo? Como num jogo de video-game, precisamos fazer todo tipo de missão idiota para conseguir crescer o personagem. O que estou fazendo agora não passa de uma quest?

E por que cada vez mais se me revela a falta de sentido? Por que até a linguagem se vai desconstruindo? Por que se torna impossúvel efetivamente comunicar, se não através de guinchos primitivos? Por que não nos podemos mais compreender?

terça-feira, 28 de abril de 2009

Comentário à filosofia do Yuri.

Eu vou me distanciando lentamente de mim (como me vejo) e de vez enquando preciso me retomar. É tipo um update. Aliás essa talvez seja a única importância do passado: a noção de si (e do resto). O presente é meio que o indefinido, aquele instante em que você se pergunta o que diabos você está fazendo esperando na fila do médico se na verdade tudo pode ser nada, você pode ser um caracol no próximo instante, as pessoas podem ser sua imaginação, podem ser robôs, podem ser qualquer coisa, e você pode não ter nenhuma semelhança com elas, porque você se vê através dos seus olhos e as vê de frente através do mundo, do ar, do vidro. Então, você se mantém distraído dessas estranhas possibilidades, fingindo que tudo é assim mesmo e que a realidade é o que é e não o que pode ser, você faz isso mantendo as suas noções baseadas no passado e não no presente, porque o presente, fora do passado, é a sensação do absurdo. O futuro é o que realmente importa (o futuro, claramente, também é sempre futuro do pretérito, porque o presente não tem futuro, o presente é e ponto, o presente é absoluto e o futuro é relativo ao passado, e quando algo acontece o futuro é congelado e quando algo vira memória o futuro é atualizado), porque é só no futuro que poderemos ser de qualquer maneira produtiva. Então... a grande questão é o que é o EU de verdade. Alguns diriam que é o conceito de eu, ou seja, o passado. Outros diriam que é o ideal de eu, ou seja, o futuro. E alguns falariam de essência e aí teríamos que resolver aquele problema complexo do presente.

O mundo, o mundo, sempre a mesma história...

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Sonho

I

De estar num seu abraço
Quente e confiável
De estar entre seus braços
confortada
pelo teu calor amável
Sério e companheiro
Do que antes inconsolável
apartada

II

Apenas meus pensamentos é que são vis;
meu coração é fulvo.
É que em malvados momentos, ou infantis,
meu mundo fica rubro;
Não temas que estes lamentos não são ardis:
apenas meus pensamentos é que são vis
e se sem ressentimentos nos encontrarmos
verás pelos sentimentos que nós trocarmos
que o coração é fulvo.

III

Por estar ao seu lado
Como conversamos simplesmente
Como trocamos idéias verdades sementes
Por estar ao seu lado
Como é fácil existir tão plenamente
Como evitamos segredos maldades serpentes
Por olhar em seus olhos
Como devo consentir em ser somente
Como aceitar as correias os atos as lentes
Por olhar em seus olhos
Como caminharmos sempre em frente?
Como agüentar o vazio a saudade e a nascente
Por sentir sua alma
Como?

terça-feira, 21 de abril de 2009

II

Há ainda muita coisa, bem, esperando para fazer sentido.
Algumas coisas cansam e desistem depois de um tempo.
Algumas coisas crescem e coçam e incomodam terrivelmente depois de um tempo.
Algumas coisas dão um tempo e acabam aparecendo anos depois.

Outras se resolvem.
Rápido.
Como um homem com sede que simplesmente bebe água.
Simples.
Como dar uma volta pra esticar as pernas.
Lógico.
Como um exercício de matemática.
Como acender a luz quando começa a ficar escuro.
Como a gravidade.

Sem uma grande e confusa variedade de opções.

Coisas doces

Quando cheguei em casa ontem à noite (por volta de uma da manhã) os filhotes estavam especialmente carentes. Eles me seguiram até o quarto e eu os pus para fora. Eles voltaram, e o Ugo os assustou para fora. Quando levamos o computador para o carro, eles nos seguiram até a porta e eu os mandei de volta para dentro. Quando fui dormir, os pequenos se esgueiraram atrás de mim pela fresta da porta. Como meu coração não é exatamente de pedra, eu tive que ir brincar com eles. Caindo de sono, deitei no sofá e deixei eles brincarem com minha mão no chão. Afastei Fumaça do meu sapato algumas vezes antes de adormecer. Quando acordei, os dois estavam aninhados no sofá ao meu lado.

Acho que nunca me senti tão próxima de uma mãe. Eles só queriam se sentir seguros e aquecidos como na barriga de sua mãe gata. Passei horas dormindo mal e acordando a toda hora, quase caindo do sofá (que não é tão confortável assim...), totalmente cativada pelas duas coisinhas pretas. Finalmente, às cinco da manhã não agüentei mais o sono e as cores nas costas que começavam a surgir, e deixei os gatinhos dormindo para ir para minha própria cama. Quando acordei, a primeira coisa que quis fazer foi brincar com eles. Hoje Penumbra (é esse o nome que quero dar para ela) deitou no meu colo durante o café da manhã.

Acho que estou completamente apaixonada.

domingo, 12 de abril de 2009

Sobre mim

Agora há pouco eu meio que estava relendo uns posts antigos do meu blog. A princípio pra ver se tinha qualquer poema que prestasse aqui. E também para verificar umas alterações de layout. É confuso tentar manter os posts coloridos quando se muda as cores do layout.


Eu acho estranho ler esses textos antigos. Estranhos pra caramba.
Acho triste ler os de 2007, 2008, porque nunca sei do que eles estão falando, e, quando sei, não é coisa boa.
Acho perturbador ler os de 2006, porque eles são dolorosos, apaixonados, cheios de cilpa e segredos, de pecados, de tentativas de libertação e afinal de uma liberdade insegura. Mas eu me identifico com essa pessoa de 2006. Acho que ela se parece muito comigo.
Acho confuso demais ler um texto de 2005... confuso mas delicioso, porque no início de 2005 eu já estava apaixonada por todos os garotos e você pode ver nos textos como eu me sentia em relação a cada um deles... e também porque, incrivelmente, apesar disso eu estava completamente feliz. Mais pro meio do ano, as coisas estão mais difíceis e os textos estão repletos de emoção e aventura, conforme os conflitos (a respeito de garotos, mainly) vão se fazendo representar por cenas épicas de cavaleiros, monstros, demônios, anjos, criaturas místicas, batalhas, animais selvagens, gatos, pégasos. Ou pelo menos eu consigo ler isso, hehehe. 2006 tem um pouco disso também. Mas não me identifico muito com a infantilidade, o cansaço e o desespero que transparecem nesses textos. Mesmo então, suspeito que eu estivesse me divertindo mais do que podia demonstrar (não que eu mentisse nos posts — mas eu em geral escrevia apenas quando movida por sentimentos exageradamente intensos).

Mas o mais estranho é ler textos de 2004. Os textos de 2004 não têm uma unidade clara. Como muita, mas muita coisa mesmo aconteceu nesse ano, a impressão que dá é que a autora era esquizofrênica (obs.: don't sue me, squick). A parte mais estranha é ler os textos de amor (que são a maioria, por razões óbvias: eu tinha quinze anos nessa época). Eu tinha quinze anos e estava vivendo o meu primeiro amor de verdade. E tudo o mais girava em torno disso. Nada mais tinha a menor importância. Eu estava louca e me sentia já metade de dois (diferente de um), e me lembro realmente de agir como metade de dois, aliás, eu me lembro de tudo, todos os momentos, todos os carinhos, as partes confusas, as partes boas, tudo. Para mim não faz o menor sentido.

Não consigo me identificar com aquela pessoa. Pra mim parece estranho ter sentido aquelas coisas por aquelas pessoas. Quer dizer -- eu ainda adoro o Yuri e até hoje acho ele um gato (:þ -- mas ele é mesmo), mas me parece meio surreal a gente ter vivido juntos todas aquelas maluquices, aquelas viagens, aqueles erros óbvios, aquelas idéias doidas, que hoje em dia eu nem sonharia ter. Parece tão estranho ter sido tão infantil! Eu não me lembro de ser assim, nem antes, nem depois. Acho que só naquele primeiro ano de amor e loucura foi assim, mesmo. Depois ficou difícil demais pra tanta inocência. E antes também. Mas... acho que era bom. Muito bom. Até porque eu dizia em meus escritos que eu vivia em dor e escuridão antes de "te conhecer". Essa é a parte mais estranha de se ler. Estranha porque eu parte eu sei que é verdade, e emparte eu sei que é mentira. Estranha também porque eu me sinto assim hoje em dia, eu tenho vontade de usar exatamente as mesmas palavras, mas tudo, absolutamente tudo, parece diferente — inclusive as partes iguais.

Eu meio que não consigo evitar ler todas essas coisas como um complexo e sujo relato da minha viagem por uma porção de homens (pelo menos oito — mas posso contar uns dezessete (#%*) se for realmente precisa) até chegar à libertação. Posso até dar nomes para eles:

o Primeiro Mestre
o Namorado
o Grande Mestre
o Parceiro
o Inalcansável
o Colega-Modelo
o Encontro Casual
o Amigo

Ok, agora que eu escrevi isso eu me sinto muito idiota por ter escrito isso. Mas ainda faz muito sentido. Eu poderia preencher as lacunas com

o garoto da escola
o absurdo
o amigo irmão
o beijo sem importância
os amigos-do-amigo (2)
o abraço sem compromisso
o que ganhou uma chance
o vizinho

Mas seria difícil tirar o sentido disso
Não sei porque eu faço essas coisas
Porque eu penso sobre isso
Mas é que pra mim o sentido é muito importante
Eu só estou tentando encontrar um sentido.

sexta-feira, 10 de abril de 2009

Entre outras coisas — quem devemos proteger?

Eu estou afim de escrever, ultimamente. Só isso. Não vou escrever nada terrível. Mas vou pensar sobre isso. Porque preciso parar de ter medo de tudo. Porque preciso parar de proteger as pessoas.

Vocês já sentiram a emoção única de proteger alguém? A emoção ainda mais única que a de ser protegido? Já deram seu agasalho a alguém numa noite fria, ou seguraram as mãos de alguém que tentava subir numa pedra ou num tronco? Já se jogaram entre alguém e algum objeto que poderia ferir-lhe? Já serviram de apoio para alguém? Já deram colo para um amigo que estava fraco, triste ou desesperado? Já abriram espaço na cama para alguém que não conseguia dormir? Já tentaram devolver a razão a pessoas que se machucavam? Já transmitiram segurança a quem sofrera um acidente? Já aceitaram sofrer para que outra pessoa não sofresse? Já sentiram o cólo ou o ombro molhado de lágrimas?

Acho que não há nada tão doce quanto proteger alguém. Lembro muito claramente do momento em que uma pessoa que amo se machucou, de como corri até ele sem mêdo nenhum além do de que ele estivesse ferido de verdade, de como tive que ser forte para segurá-lo enquanto estávamos ambos muito assustados. Lembro-me também de outro amigo que me confiou todas as suas dores, e de como sacrifiquei muitos momentos tranquilos para poder estar ao lado dele, partilhar suas dores e entender suas lágrimas. Por fim, resguardo um momento sagrado em que uma pessoa muito doce e muito forte revelou ter mêdos, e chorou me pedindo um ombro, quando era sempre eu a pessoa que entrava em desespero.

Não há nada como se sentir necessário. Quando alguém ao nosso lado é frágil, nos tornamos imediatamente mais fortes para proteger esse alguém. Quando esse alguém tem mêdo, criamos coragem. Quando esse alguém se desespera, encontramos razões para sorrir. E mesmo que estejamos caídos e desanimados, se esse alguém cair ao nosso lado, nos ergueremos com nova força e coragem, apenas para estendermos a mão. Essa pessoa não é necessariamente mais importante que nós mesmos — é que a fraqueza dela dá um sentido à nossa força. É difícil proteger a si mesmo; o mais fácil é proteger o outro. Para proteger o outro, podemos ir muito além de nossos limites, pois não estamos preocupados em guardar um resto de nós que ainda esteja aqui quando o perigo acabar. Se é para proteger o outro, não precisamos poupar a nós mesmos; nenhum luxo e nenhum vício são necessários.

E é claro que, em geral, quando protegemos alguém lhe trazemos algum benefício. As pessoas não são sempre fortes, e muitas vezes precisam ser protegidas. Os animais, as plantas e mesmo a terra precisam ser protegidos. E mesmo as máquinas. Por outro lado, essa também é uma atitude egoísta: se você protege alguém, está impedindo que ele proteja a si mesmo — está roubando-lhe o poder de proteger a si mesmo. Quando protejo meu amigo, imponho a ele a fraqueza que deve ter para que faça sentido que eu o proteja. Eu vou impedir que meu amigo se torne mais forte e dispense a minha proteção simplesmente porque eu preciso do sentido de dever e funcionalidade que obtenho ao protegê-lo? Talvez eu não faça isso de propósito, mas, de qualquer forma, o próprio ato de me colocar entre ele e a ameaça impede que ele entre em contato com um desafio que poderia deixá-lo mais forte. E, ao mesmo tempo, conquanto me sinto mais forte por enfrentar os mêdos de um amigo fraco, quando enfrento mêdos que ele poderia enfrentar sozinho, não estou só mimando meu amigo, como também perdendo meu tempo. Ajudar quam não precisa da minha ajuda não me fará verdadeiramente feliz: os desafios não evoluirão e se tornarão fúteis com o tempo, e minha relação com meu amigo será tomada por essa futilidade, de modo que ninguém aprende nada, ninguém ganha nada, e na pior das hipóteses eu ainda perco um amigo.

De fato, eu não consigo agüentar alguém que precise de ajuda o tempo todo. Não posso respeitar verdadeiramente alguém que nunca vence nenhuma batalha contra seus próprios demônios. A pessoa precisa ter significado em si própria para que haja significado no protegê-la. Ninguém quer ficar de babá de uma pessoa desinteressante. Nós damos tudo de nós por alguém porque sabemos que aquele alguém nos dará algum retorno, como, por exemplo, nos ensinar alguma coisa, nos ajudar de alguma forma, ou ser uma pessoa legal. Não há sentido nenhum em proteger uma pessoa que não acrescenta nada à nossa vida. Eu ganharia mais com essa pessoa se pudesse observá-la se debatendo. Da mesma forma que lutamos contra nossos mêdos agora para abrirmos nossas possibilidades para o futuro, queremos lutar para que outras pessoas possam fazer grandes coisas em seus próprios futuros.

Mas, no extremo oposto, é difícil conviver com alguém que está sempre por cima. Poucas coisas são tão difíceis — acredite, eu sei — quanto conviver com uma pessoa que nunca chora, nunca se desespera, está sempre numa boa. É claro que viver com uma pessoa forte nos inspira a ficar mais fortes também! O problema é quando essa pessoa é tão forte que ela se torna inalcançável. Até porque, se você nunca pode proteger essa pessoa, você acaba se sentindo desnecessário... e, se você não é necessário, por que você está aqui?. A reação mais natural é ir embora. Ou isso, ou você se submete a essa pessoa, e rasteja atrás dela como um cachorrinho, pedindo atenção, alimento e instruções. (* é claro que existem outras formas ser necessário... acho que a mais óbvia é estar sempre ensinando coisas novas a essa pessoa)

O problema maior é sempre o desequilíbrio e o erro. As pessoas precisam ser protegidas, e também precisam proteger, mas apenas na medida certa. Não faz sentido proteger alguém que poderia se resolver sozinho. As pessoas se sentem realmente frustradas quando não conseguem proteger a si mesmas, pois estão sempre sendo protegidas. E justamente essas pessoas terão mais diciculdade de arranjar a própria força — e será especialmente difícil resistir ao impulso de protegê-las. Porém, nessas horas o mais importante é ser capaz de manter a frieza e observar a pessoa lutar por si mesma. Sem contar que muitas vezes, quando achamos que estamos protegendo alguém, percebemos que estamos protegendo-a de coisas inofensivas, e às vezes até benéficas. De novo, é nessas horar que é mais difícil mater a calma, avaliar a situação e fazer a coisa certa.

É de extrema importância que não cumpramos missões inúteis.

terça-feira, 7 de abril de 2009

Descoberta da Maturidade

Este post começou como um comentário no blog do Brunok. Portanto, ele é a motivação para ei pensar nestas coisas deste jeito.



Li uma vez uma frase que era assim: nunca deixe de brilhar, pois o seu brilho inspirará outros brilhos. Quer dizer, você nunca deve temer ser melhor, você nunca pode temer ofuscar os outros, porque embora os outros possam sim ficar incomodados, eles ainda desejarão ser pessoas melhores, para brilhar mais.

Achei que podia escrever essa frase aqui. Mas acho que só brilhar não é suficiente (a menos que você queira ser uma freira). Acho que você deve ajudar os outros a se livrarem da sujeira que tolda seu brilho também. Você me entende?

Ultimamente eu só tenho repetido duas frases para mim mesma todos os dias: "Eu tenho que ser mais forte do que as dificuldades" e "Eu não vou ceder ao mêdo". Às vezes parece que fazemos coisas que não compensam, que nos machucam, que só nos causam mal. Pois é justamente nessas horas que temos que reunir toda a nossa coragem, lembrar dos motivos que temos para fazer aquelas coisas, e encontrar a força para sacrificar coisas importantes para nós para conseguirmos cumprir nossas metas.

Eu estou apavorada. Não sei se conseguirei vencer os obstáculos e também não sei se, quando conseguir cumprir meus objetivos, eles valerão todos os sacrifícios. Mas é preciso ter fé. É preciso avançar em meio à solidão, ao desespero, à falta de sentido das coisas que fazemos, em meio à insegurança, às dúvidas e a vontade de jogar tudo pro alto, e ter a coragem de fazer o que viemos fazer.

Um pistoleiro diria que precisamos lembrar das faces de nossos pais.

Um rei das feras diria que precisamos lembrar quem nós somos.

E você?

É nas horas em que o ego caiu embaixo do sofá que precisamos ter força pra levantar o sofá.

Uma pantera negra diria que voltaremos sempre para a nossa alcatéia.

Nós precisamos ser fortes. Nós precisamos ser aquilo que viemos ser. Nós precisamos persistir na vontade de sermos aquilo que queremos ser. Nós precisamos ser fortes.

Uma música que continuo precisando cantar para resistir ao desespero:


Don't take me back
Don't take me home
Let me stay here a little longer
Don't make me feel
like I don't belong
Let me become a little stronger
'Cause I know I can be what you want from me
I might be frightened but I am still fighting
And I know I can do what you want me to
I won't be lonely if only you'll let me stay...
Don't take me back
Don't take me back

sexta-feira, 13 de março de 2009

Sim

Sim, há muita coisa perdida
deixada de lado, esquecida
camuflada sob as nuvens de poeira

Sim, há muita coisa escondida
escorregada junto com os lençóis
permanecida entre a cama e a parede
esmagada entre o colchão e a cabeçeira

Muita coisa quebrada, caduca, casca carcomida
Muita coisa encurralada, ultrapassada
Há muita coisa perdida

Sim, há muita coisa velha
Que já saiu de moda,
que está fora da roda,
que pertence à estação passada

que já não faz sentido
que vem de um outro tempo
Há muito anacronismo que resiste

Sim, há muita coisa morta
Muitos esqueletos no fundo de armários
ali entre as meias e as luvas
esperando pelo século passado

Há muita coisa dormindo
Muita coisa que um dia despertará
para nos observar no nosso sono

Sim, há muita coisa estranha
que não serve à nossa forma, ao nosso jeito
que a gente não sabe pra quê que serve
nem o que é, nem como usar

Há muita coisa sobrando
Há muita coisa faltando
Há muita coisa no lugar errado

Sim, há muita coisa perdida
Muita coisa que perdeu a mágica
e muita coisa que virou sonho
e muita coisa que simplesmente sumiu.