(ou: a morte dos ritos)
Se fosse Jack, e não eu, naquele dia, teria ficado provavelmente louco e destruído tudo o que seus braços humanos pudessem. Se fosse a Lôhba, não eu, teria engolido o cemitério inteiro com o poder dos diamantes que purificam. Adulta, a Lôba teria convocado as plantas a consumirem toda aquela parte da cidade. Esse era o poder que eu mais queria ter.
Mas não era um personagem, porque não era ficção; mas era tão incrível quanto se fosse. Apenas mais estúpido. Menos significado.
Em São Paulo, quando uma pessoa morre, chamam-se os familiares e os familiares chamam os amigos. Todos se encontram no lugar da morte, vestindo as roupas de sempre, e falando coisas triviais como se fosse um dia trivial. O corpo é lavado e vestido por membros da comunidade que se dedicam a isso ou pelos familiares mais próximos. Vestem-no com suas roupas favoritas ou com roupas de festa, como a criar um personagem no qual fixar a imagem do morto. Escolhem um caixão entre os vários produzidos por outros membros dedicados da comunidade. Deitam o corpo, vestido e perfumado, dentro dele, e o cobrem com flores e véus, e o rodeiam com conjuntos enormes de flores com faixas onde estão pintadas as frases tradicionais. Alguns se despedem do morto beijando sua testa, outros o evitam. Põe-se a tampa no caixão e se a lacra com sete chaves, para evitar que algum dia seja aberta. Acredita-se que o morto está ali naquele corpo, que deve dormir seu sono eterno junto à sua família, e que deve dormir lacrado, trancado, cimentado, sob a terra. Guardemos os mortos. Temamos os mortos. Um grupo de pedreiros carrega o caixão sobre um veículo primitivo de rodas e tubos de ferro, pelas ruas da cidade miniatura, entre as plaquetas de bronze, entre caixas de pedra, até a que tem o nome da sua família. Abrem uma porta minúscula na caixa de pedra. Um pedreiro desce, joga para fora as ferramentas, recebe dos outros o caixão, eincaixa-o numa prateleira, pega de volta a colher-de-pedreiro, recebe uma porção de cimento, uma porção de tijolos. Outro pedreiro entra, juntos os dois controem uma parede entre o morto e os parentes junto aos quais ele deve permanecer. Conversam enquanto trabalham, sobre o trabalho, o cimento, a chuva. Quando terminam, devolvem para o túmulo as caixas onde estão os ossos da família. Saem e fecham a porta. Cumprimentam os familiares e vão embora. Apenas mais um dia de trabalho.
Existe um velho mito Ibo segundo o qual o Grande Espírito, Chuku, manda o cachorro dizer aos homens como reviver os que morrem. Porém o cachorro se distrai pelo caminho, e Chuku envia então o carneiro para passar a mensagem. O carneiro diz aos homens para enterrar os mortos, e é isso que os homens fazem. Mas o carneiro havia confundido a mensagem. Quando o cachorro chega, diz que o corpo de um homem morto deve ser deitado sobre a terra e coberto com cinzas, e então ele reviverá. Os homens não acreditam porque acreditaram no carneiro. E assim os homens conhecem a morte.
Nunca entendi porque os Ibo, que conheciam a lenda, não espalharam a mensagem verdadeira do cachorro, por que continuaram enterrando seus mortos e não os cobriram com cinzas. De modo geral nunca entendi a idéia de sepultar os mortos, de guardá-los sob a terra. Uma grande cidade de mortos. Pra mim é um grande mistério.
Por via das dúvidas, quando eu morrer, não me enterrem. Não guardem meu corpo - se quiserem, destruam-no.


