terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Outra leitura

Pensando bem, acho que o que nos leva a separar e dividir tanto as coisas não é a megalomania de querer controlar tudo, e sim a megalomania de tentar entender tudo. Ou talvez os dois.

Por que tem que haver diferença entre o que se deve fazer e o que se deve fazer? Por que a humanidade não pode fazer parte da natureza? Por que tem que haver divisão entre as ciências?

Não conseguimos entrar em acordo com o mundo. Uma hora é ele que nos agride, outra nós é que o agredimos. Mas será que não é assim mesmo? Nos limites da nossa capacidade de ver o mundo está a possibilidade de que sejamos apenas uma espécie animal, e também a possibilidade de que não seja necessário compreender o mundo em absoluto. Por que exigimos isso de nós mesmos?

Não consigo avançar no raciocínio, e isso está me deixando louca. Como vou Escrever um texto sobre isso?

No início eu queria apenas explicar que a separaçào entre as coisas, mesmo a própria divisão conceitual, gera um exagero de custos e danos para nós mesmos, para o meio ambiente, para nossa cultura. Mas não consigo parar de me perguntar por que isso acontece. Eu preciso parar pra pensar mas eu não tenho tempo.

Mas de fato a secessão gera custos, não? Porque como achamos que as coisas são diferentes, temos que criar modos diferentes de lidar com elas. Acho que é esse o coração do meu argumento. Não é como se estivéssemos tentando nos livrar das coisas que não nos são diretamente úteis, na verdade, estamos tentado colocá-las no que consideramos seus devidos lugares. Crescemos ouvindo de nossos pais que existe uma hora e um lugar para cada coisa. Mas colocar cada coisa em seu lugar significa que cada coisa tem que ser tratada de forma diferente. Assim, da mesma forma que não podemos ter um macaco de estimação, porque ele é um animal selvagem e não doméstico, não podemos ter plantas selvagens nas nossas praças nem hortas em nossos telhados?(*)

5. Cidade - Você já passou pela experiência de morar num bairro residencial, que não tem padarias nem supermercados? A organização urbana desta cidade funciona assim: há um lugar para se morar, um lugar para se consumir, um lugar para se produzir e um lugar para se trabalhar em escritórios. Se a sua empresa precisa de um prédio de escritórios e de uma fábrica, eles podem ficar a vários quilômetros de distância um do outro. Num bairro residencial, você pode ter que dirigir por dezenas de minutos ou pegar mais de um ônibus para ir ao trabalho ou comprar suprimentos para suas necessidades básicas. Isso significa gasto de dinheiro, tempo e combustível, aumento de stress, do trânsito, e da emissão de poluentes. Isso poderia ser facilmente resolvido se lotes de diferentes funções fossem dispostos próximos um ao outro, por exemplo, se houvessem padarias em todos os bairros residenciais.

A questão das fábricas é complicada porque elas produzem muita poluição e muito barulho, o que quer dizer que nada vai se dar bem perto delas. A solução usual é agrupá-las todas num lugar e deixar os funcionários, as famílias dos funcionários e tudo o mais que tiver tido o azar de viver perto dali sofrerem as conseqüências sozinhos. A idéia claramente é a de que podemos resolver o problema isolando ele e pondo um monte de espaço vazio, ou pelo menos espaço desvalorizado, em volta. Acreditamos que podemos fazer qualquer tipo de agressão se ela tiver espaço para se dispersar antes de atingir o ambiente em volta. Mas, se for assim, os industriais não deveriam ter que comprar toda a terra afetada em volta deles, já que estão assumindo responsabilidade pela poluição dela? Será que não faria mais sentido garantir que eles fizessem pouco barulho e pouca sujeira, da mesma forma que o comércio e a moradia?

Aliás, por que não podemos ter macacos de estimação? O que torna os cachorros, gatos, jabutis, pequenos roedores e passarinhos tão diferentes dos outros animais? Alguns animais não são adotados por famílias simplesmente proque são fortes e perigosos demais como onças e lobos. Outros porque são muito grandes, como elefantes e vacas. Mas outros simplesmente são considerados selvagens, e isso é motivo suficiente para que você não possa ter um em casa. Sabe, em alguns casos não tem nada a ver com o que é melhor para quem. É só a idéia que fazemos de qual é o lugar certo de cada coisa. Por exemplo, aqui em casa de tempos em tempos surgem mariposas de quinze a vinte centímetros de envergadura, e toda vez que elas surgem, fico paralisada, sem saber o que fazer com ela. Estou no meio de São Paulo, eu penso, não deveria haver mariposas desse tamanho! Também não deveria haver uma população de capivaras vivendo muito bem obrigado nas margens do Pinheiros. E aí? Nós lidamos com gatos e cachorros ora como se fossem animais adoráveis ora como pragas, mas ficamos apenas confusos com a existência de outros animais grandes na cidade. Eles estão em toda parte à nossa volta, pássaros de todo tipo, corujas, capivaras, ratos grandes e pequenos, insetos de todos os tamanhos, sapos, aranhas, esquilos, micos, mas na maior parte do tempo não os vemos, e quando os vemos é com aquela relutância de quem não pode compreender a existência dessas criaturas "selvagens" na nossa cidade. É claro, esperamos que eles fiquem restritos a parques, jardins, bosques, áreas abandonadas. Mas, da mesma forma que o barulho das fábricas, esses animais fazem parte da cidade. Porque a cidade, ao contrário do que dizemos, não é um reduto da civilização separado da "natureza". Nós não somos nada diferente deles. A cidade é parte do mundo, é também "natureza".

(*) Em Hong Kong, o problema da alimentação foi enfrentado com hortas nos telhados dos prédios. Foi uma solução muito eficiente, especialmente na parte de transporte, mas que parece inconcebível para a maior parte das pessoas no mundo.

2 comentários:

Utak disse...

Agora que você voltou pro template normal, posso comentar. é horrível saber que o comentário vai ser apagado...

Tito Peçanha Leitão disse...

o comentário que eu tinha feito foi apagado.
:(

mas o que eu queria dizer é que pretendo dar a minha visão (ou a minha "resposta") a cada uma das interrogações que você fez nesse post e no anterior parecido.
Farei um post de resposta no meu blog, me aguarde.

agora estou extra ocupado com os trabalhos finais, mas me dedicarei a isso mais no final da semana.

;)