quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

E o que isso tem a ver com sustentabilidade?

Seguimento do trabalho, explicando a relação com o tema.

Sustentabilidade é um princípio que só faz sentido se aplicado ao modo de vida. Não se pode fazer uma coisa de modo sustentável, porque essa uma coisa só foi possível por causa das muitas outras coisas que fizemos antes, e se essas coisas foram feitas sem nenhuma preocupação com a sustentabilidade, então a nossa uma ação sustentável não é sustentável coisa nenhuma. Sustentabilidade é o princípio de viver e fazer as coisas de forma que possamos continuar vivendo e fazendo no futuro — por isso é que tanto nossas matérias primas como o destino de nosso lixo devem ser do tipo que se renova. Mas mesmo que tivéssemos uma fonte de matéria prima e um destino para o lixo que fossem inesgotáveis, ainda não poderíamos garantir que essa seria uma solução sustentável, Teríamos que garantir também que nossa ocupação do espaço é sustentável, e que nossa produção de barulho e bagunça e que nossos gastos energéticos são sustentáveis. Teríamos que ter relações sustentáveis com todas as outras coisas, vivas e inertes, do mundo. Na verdade, teríamos que conseguir enxergar o mundo em seu todo e em todos os seus detalhes para garantir que não estamos tornando o mundo menos sustentável. Na verdade, como fazemos parte do mundo, teríamos que garantir que o mundo fosse sustentável, e para isso teríamos que compensar todas as ações insustentáveis de todas as outras coisas no mundo; teríamos que garantir que inclusive todas as outras espécies estão se comportando de maneira sustentável. E mesmo que esse absurdo fosse possível ainda descobriríamos que apesar de todo o esforço o mundo não se sustentaria para sempre, porque alguma hora o sol vai se apagar ou a terra sairá de órbita ou, pensando mais longe, o crescimento inevitável da entropia levará a um universo sem grandes variações de energia, e portanto sem vida.
Então o que é a sustentabilidade? Por um lado, a sustentabilidade é o princípio do esforço que fazemos para continuar vivendo pelo máximo de tempo possível. Por outro lado, é o esforço que fazemos para manter as coisas mais ou menos do jeito que estão — quer dizer, evitar que espécies se extinguam, preservar os eco-sistemas que já existem, etc. Evitar que coisas como o trânsito, as impermeabilização do solo, o gasto energético e as emissões de poluentes cresçam é um princípio sustentável. Na verdade, evitar que as coisas mudem é uma idéia sustentável — poderíamos proteger o mundo se pudéssemos estagnar completamente o crescimento populacional, o crescimento econômico e todo tipo de movimento — mas não queremos apenas viver para sempre, ou viver sempre no mesmo mundo, queremos também continuar a sonhar, a construir, a progredir. Dessa oposição surge uma questão que é mais ou menos esta: como podemos fazer tudo o que queremos sem com isso causar a destruição do mundo? Essa questão tem duas sub-questões que são fundamentais: o que nós realmente queremos, e o que é, e como funciona, o mundo. Precisamos saber o que queremos, é claro, para que possamos decidir do que abrir mão para conseguir aquilo que queremos; e precisamos saber o que é e como funciona o mundo para saber diferenciar o que vai destruí-lo do que vai apenas alterá-lo. É importante entender que o mundo vai mudar, está mudando, e que o máximo que podemos fazer é tentar direcionar a mudança para alguma situação que nos agrade. Para saber que situações nos agradarão, é claro, precisamos entender como elas funcionam, suas implicações climáticas e biológicas, seus efeitos sobre as populações que interagem conosco e sobre nós mesmos. Para saber que mudanças levarão a uma situação que nos agrade, também precisamos entender como as mudanças acontecem e de que elas dependem. Por último, para que tudo isso faça sentido, precisamos conhecer a nós mesmos, qual o nosso papel nesse sistema, qual a nossa posição no mundo. Precisamos entender quem somos, onde estamos, o que fazemos e qual é a nossa relação com o meio ambiente. Por isso, em vez de falar sobre energia, poluição, matéria prima e descarte, escolhi parar para pensar nessas questões mais fundamentais, em compreender como as coisas funcionam.

2 comentários:

Tito Peçanha Leitão disse...

gosto bastante desse estilo retórco que busca ir levando os argumentos até as últimas consequências até chegar em algum absurdo ou em algum limite.
tem uma técnica de demonstração de teoremas na matemáticas que funciona assim, não lembro o nome. Tipo, você prova que se partir do pressuposto contrário ao teorema você chega numa absurdo (tipo 0=1).

Tito Peçanha Leitão disse...

de uma forma ou de outra fiquei pensando que clastres tratou de um problema semelhante quando estudou a sociedade primitiva.

ele percebeu que essa só funciona pela negação de todas as formas de inovacão, o que ele chama de "sociedade contra a história". isso está ligado ao fato de elas serem sociedades contra o estado e da inovação ser justamente o fundamento do poder coercitivo.
putz, é difícil explicar isso em 5 linhas...
tipo, se um índio ganha um machado de metal que corta 5 vezes mais rápido que uma machado de pedra ele não vai cortar 5 vezes mais madera, vai simplesmente descansar 5 vezes mais e manter a mesma relação com o ecossistema e a produção, entende?

enfim, a contradição é entre sustentabilidade e inovacão, preservação e história, e não entre meio ambiente e humanidade.