segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Véus

nos acostumamos a nos olhar atravez de véus
o véu do berço
do amor
da noite
das mentiras

um dia estamos tão atravessados
que não conseguimos mais arrancar os véus da carne
a gaze embebida em sangue coagula
coagula o olhar

arrancar o véu e ficar em carne viva

carne viva

quinta-feira, 22 de junho de 2017

Teias de Aranha

Houve um tempo em que todas as tuas palavras grudavam na minha mente como teias de aranha.

Hoje as teias de aranhas em minha mente são memórias de outras pessoas, com outras palavras. Das tuas palavras resta somente esta frase, esta questão. Me disseste, um dia, triste, depois de uma briga e uma confissão, ainda sem perdão: que nunca imaginaras que eu também pudesse ter sofrido.

Nunca

Meu sofrimento, como de vidro
transparente
meu sofrimento, solitário, escondido
no fundo do armário da cozinha, atrás das xícaras de louça para ocasiões especiais
empilhado como copos de vidro sem nem um pedaço de guardanapo entre eles
e quando tento desempilhar, estão grudados a vácuo
pelo peso do tempo
mesmo as coisas leves, se deixadas paradas por anos, afundam como se pesadas
e deixam uma marca
e machucam

mesmo nosso próprio corpo, se parado, machuca a si mesmo.

quarta-feira, 17 de maio de 2017

A Mulher e a Vítima

Não é à toa que vítima é uma palavra feminina,
eu penso,
toda vez que ouço essas histórias de violência

Enquanto isso um menino é morto espancado
pelo pai
por gostar de fazer coisas - femininas -
como lavar louça -

Enquanto isso uma mulher é levada a réu
violadas todas as ordens de restrição
desamparada
recebeu o ex-marido em casa
a tiros.

--

No meu corpo
as identidades da Mulher e da Vítima
se desafiam
cada uma convicta
se ser a outra.

--

Estrada.
Falam um homem e uma mulher
- nenhum de nós hétero
todos brancos -
sobre uma história de violência que vimos na escola

Ela
fala de trauma
era muito nova
a cena, muito forte
- um grupo de homens violenta uma dona de casa -
Ela sendo mulher
imediatamente se pôs no lugar da vítima
Segura na poltrona e - violada.
- A Espectadora
Passa pelo corpo dela
a violência
de todos os homens do mundo
por todas as mulheres -

Ele
era bastante novo
para nunca ter realmente questionado
a natureza (sua) da violência.
Ele sendo homem
questiona
se colocando no lugar do monstro.
- O Espectador -
"Um ótimo filme", ele diz,
"Todos deveriam ver."
- pelo corpo dele a violência
de todos os homens
- potencial -

Meu corpo,
nem dele nem dela,
Mistura, confunde
as duas experiências
- completa -
meu corpo era velho
precoce
peludo, já
chapéuzinho dentro de lobo
- Vítima - me identifiquei imediatamente com a mulher
, mas
justamente porque arde
visto também a pele e as presas do monstro.

--

Me apavora
imaginar que antes ainda eu
(poderia)
- antes de ter me tornado -
ter nascido vítima
(quão mais assustador)
me tornado mulher através das histórias

Mas é justamente porque dói
que aprecio as histórias violentas.
Com olhos de lobo assisto
a violência
e com boca de lobo pergunto
- é possível domesticar um monstro?
Com nariz de lobo procuro
pessoas
minhas iguais
são as que sangram.

--

Não é à toa que vítima é uma palavra feminina
Nós homens somos Barba-Azul, Fera, Lobo, Rei-pai ausente e Príncipe Encantado
lutando contra o monstro que somos nós
Nós mulheres somos chapéuzinho, branca de neve, e as esposas do Barba-Azul,
e Bela
assistindo a luta dos homens-monstro
Nós sobrevivemos dos restos deles
transformando-os
ou transformando-nos neles
, mas, para nós, homens, não há essa saída
(essa releitura)
nos monstrificamos e esperamos
uma mulher que nos humanize
que nos redima
e dê sua vida por (para) nós
- Não,
a saída é morrer
ao final de um filme de caubói
monstro até o fim.

- antes morto que feminino -

, mas,
a nós mulheres resta mortalha
ou morte
enterrada em vidro, ou debaixo de casa
derretida por fogo, ou por água
ou casada com o Rei ou o Barba-Azul.

sábado, 13 de maio de 2017

A Mulher e a Vítima (primeira versão, sem cortes)

Não é à toa que vítima é uma palavra feminina,
eu penso,
quando uma mulher é estuprada pelo pai

Enquanto isso um menino é morto espancado
pelo pai
por gostar de fazer coisas - femininas -
- lavar louça -

Não é à toa que vítima é uma palavra feminina,
eu penso,
quando uma mulher é morta pelo marido

Enquanto isso uma mulher é levada a réu
violadas todas as ordens de restrição
desamparada
recebeu o ex-marido em casa
a tiros.

--

No meu corpo
as identidades da Mulher e da Vítima
se desafiam
cada uma convicta
se ser a outra.

--

Estrada.
Falam um homem e uma mulher
- nenhum de nós hétero
todos brancos -
sobre uma história de violência que todos assistimos na escola

Ela
fala de trauma
era muito nova
e a cena, muito forte
- um grupo de homens violenta uma dona de casa -
Ela sendo mulher
imediatamente se pôs no lugar da vítima
Segura na poltrona e - violada.
- A Espectadora
Passa pelo corpo dela
a violência
de todos os homens do mundo
por todas as mulheres -

Ele
era bastante novo
para nunca ter realmente questionado
a natureza (sua) da violência.
Ele sendo homem
questiona
se colocando no lugar do monstro.
- O Espectador -
"Um ótimo filme", ele diz,
"Todos deveriam ver."
- pelo corpo dele / a violência
de todos os homens
- potencial -

Meu corpo,
que não é dele nem dela,
Mistura, confunde
as duas experiências
- completa
meu corpo era velho
precoce
peludo
(chapéuzinho dentro de lobo)
- Vítima - me identifiquei imediatamente com a mulher
, mas
justamente porque arde
visto também a pele e as presas do monstro.

--

Me apavora
imaginar que antes ainda eu
(poderia)
- antes de ter me tornado -
ter nascido vítima
(quão mais assustador)
me tornado mulher através das histórias

Mas é justamente porque dói
que aprecio as histórias violentas.
Com olhos de lobo assisto
a violência
e com boca de lobo pergunto
se é possível domesticar um -
a violência
Com nariz de lobo procuro
pessoas
minhas iguais
são as que sangram.

--

Não é à toa que vítima é uma palavra feminina
Nós homens somos Barba-Azul, Fera, Lobo, Rei-pai ausente e Príncipe Encantado
lutando contra o monstro que somos nós
Nós mulheres somos chapéuzinho, branca de neve, e as esposas do Barba-Azul,
e Bela
assistindo a luta dos homens-monstro
Nós sobrevivemos dos restos deles
transformando-os
ou transformando-nos neles
, mas, para nós, homens, não há essa saída
nos monstrificamos e esperamos
uma mulher que nos humanize
que nos redima
e dê sua vida por (para) nós
- Não,
a saída é morrer
ao final de um filme de caubói
monstro até o fim
- antes morto que feminificado -
carregado por valquírias

, mas,
morto o herói
a nós mulheres resta a mortalha
ou a morte
enterrada em vidro, ou debaixo de casa
derretida por fogo, ou por água
ou casada
com Rei ou Barba-Azul.

sábado, 11 de março de 2017

Fofo

É estranho pra mim me sentir tão bem com você.

Quando eu te conheci, eu me apaixonei instantaneamente. Quando foi isso eu não sei bem. Talvez quando eu ouvi seu nome a primeira vez tenha havido uma chance de eu deixar pra lá, de eu esquecer esse nome em seguida, apenas um apelido um pouco incomum, um pouco mais velho e mais nerd que o habitual. Talvez quando eu te achei na festa tenha tido uma chance de eu esquecer seu rosto em seguida, de você ter sido só um cara aí, uma pessoa aí, sem importância. Mas quando a gente conversou pela primeira vez já não tinha mais nenhuma chance de eu deixar pra lá. E a primeira vez da qual você se lembra, eu só lembro o quão despeoporcionalmente intensos eram meus sentimentos naquela noites, aquela insegurança confusa, aquela minha inexperiência toda, a sua inesperada surpresa quando eu encostei em você. Sua sobrancelha nos meus lábios, macia.

E você não deu a mínima. Minha paixão intensa e despropositada batia na sua calma, na sua preguiça, na sua inconstância que se misturava com o meu pânico. Eu às vezes fugia, o mêdo de me expôr me dominando, e às vezes me expunha demais, esquecendo o mêdo, mas o efeito dessas minhas ondas em você era sempre passageiro, às vezes um arroubo de carinho ou de tesão, mas nunca o suficiente, nunca por tempo suficiente, quando em mim o sentimento era constante, e absurdo, beirando ao ridículo.

Eu conheci um lado de mim que eu desconhecia, desesperado, impaciente, violento e fraco. Eu disse coisas que eu não me imaginei dizendo. Eu perdi o pé e me deixei levar... Até que eu me assustei tanto que decidi fincar os pés e cortar completamente minhas expectativas. 

domingo, 18 de setembro de 2016

Você se acha bonita?

Há dias que a coisa toda vem abaixo.
Normalmente não falamos disso, evitamos o assunto, falamos do tempo, do dia, das plantas que floriram esta semana, das palavras que o bebê está ensaiando falar, do futuro, de dinheiro, do (ex?) marido que não reconhece o valor do seu trabalho, do filho que acabou de se mudar.

Evitamos. Eu eu evito, se me perguntam desconverso, quem, eu? Meu nome? Me chame como quiser, como sempre, "Mali" está bom, finja que nem me viu por dentro, finja que me desconhece, que não vê, através dos olhos, a hesitação, a desfaçatez, a desconexão, que não vê através dos dedos a desidentidade, finja que somos todos nossos nomes, nossas infâncias, vamos continuar jogando os Jogos que jogávamos dez, quinze anos atrás.

Um amigo meu dizia que ele sequer existia antes de chegar ao colegial. Eu achava estranho. Até que, às vezes me ocorre, anos mais tarde, dizer que eu nem existia antes de decidir entrar na segunda faculdade. Mas não digo.
Seria um pouco cruel dizer que eu passei a existir depois de afastar de você.

E seguimos na mentira, uma mentira nova desta vez, feita de suposições sistêmicas, de meias-verdades, de faltar intimidade e confiança ou haver excesso de intimidade pra contar aquelas coisas que podem acabar com uma amizade. As relações seguem em suspenso, com a respiração presa, enquanto dentro de mim se desenrola toda uma ladainha. Tão difícil confiar; e não, os anos não tornaram mais fácil.

Um dia desses minha mãe perguntou, com tom muito sério, muito preocupada. Fálavamos de beleza, de corpo, de mulheres e de ser mulher e de como tudo isso é muito complicado.
Deixe-me abrir um parênteses: minha mãe é daquelas que faz dietas o tempo todo, e de tempos em tempos me acusa de estar demasiado "magra" ou muito "gorda", e sempre tenta me convencer a mudar a dieta, a comer mais carne, a fazer mais exercícios. Ainda assim, minha mãe se preocupa, decerto, com minha saúde mental, com minha auto-confiança, com minha auto-estima. É uma boa mãe, no geral -- nunca vou terminar de agradecer tudo o que ela fez por mim, desde os sacrifícios até o modelo de pessoa que ela foi, que ela é pra mim. Fecha parênteses.

Minha mãe muito precupada muito consternada, num dia em que eu estava mais ou menos de mal com a vida (ou de tpm talvez) e ela falando -- não lembro do quê -- me pergunta: "Você se acha bonita, Marina?"
E desde então tenho revolvido na cabeça essa pergunta, mastigando, digerindo, quebrando nas partes componentes pra poder decidir lentamente a resposta

você se
acha
bonita
Marina

Bonita. Me percorre pela cabeça todas as definições de beleza que uma pessoa pode alcançar. Eu não sou como a luz atravessando as folhas novas de uma ficus na primavera. Ou como o céu emoldurando uma ilha coberta de mata atlântica nativa verdejante. Eu não sou como as pedras empilhadas na beirada do rio, nem eu sou a asa iridescente de uma borboleta. Bonita, essa pessoa. Marina.

Me ocorre que pouco me diz que ela queira saber o que eu acho sobre a beleza dessa pessoa chamada Marina. Que se ela tivesse me perguntado objetivamente, "Marina é bonita?" eu teria respondido, objetivamente, "sim".

Bonita. Marina essa pessoa cuja identidade está uns 50% baseada na idéia de ser bonita. Não bonita porque não tenha nenhum outro valor, nem bonita porque seja modelo de passarela. Mas porque na adolescência, quando se formam as identidades frágeis, Marina fez amizades sempre com os garotos que se apaixonavam, ou um dia se apaixonariam, por ela. Bonita porque todas as suas relações começavam assim, e porque tantas delas se desnaturavam justamente por causa disso. Bonita porque ela detestava depilar perna, e nunca usava maquiagem, mas nas festas de quinze anos usava longo e tudo o mais e dançava a noite toda com garotos que chamava de seus. Bonita porque o homem que passou por ela na rua disse que sim, porque o rapaz mais velho que morava na praia mandou um bilhete pra poder falar a sós com ela à noite, e ela só tinha quatorze anos, mas foi assim mesmo, porque não tinha nem muita certeza se era permitido se recusar sem mais a ir num primeiro encontro.

Bonita sem dúvida, porque quando ela decidiu relaxar das estúpidas convenções sociais e trocar de camisa de costas para os amigos, os amigos moços ficaram de olhos fixos e vidrados e deixaram bem claro que agora era hora de ela se ajeitar nas convenções sociais. Ou porque depois do colegial desenvolveu um mêdo nervoso de interagir com meninos porque quando menos ela esperava eles se apaixonavam por ela e tornavam tudo muito complicado. Bonita porque seu próprio primo se apaixonou por ela e veio questionar porque ela não lhe dava uma chance, porque o rapaz que mestrava rpg para o grupo de escoteiros ficou tão obcecado que a única opção que lhe restou foi [mentir] que ela nunca jamais teria nenhum interesse nele.

Bonita talvez com uma certa resistência, porque evitava usar vestidos e blusinhas justas, porque usava uma jeans largona e uns moletons e umas malhas de velha e umas luvas de mendigo, mas justamente por isso, justamente porque isso nem adiantava, porque ainda assim não conseguia evitar os olhares e os corações dos garotos, especialmente os muito próximos, os muito queridos; porque a maior parte do seu sofrimento de amor vinha de se apaixonarem por ela todos ao mesmo tempo, e os amores dela que não eram correspondidos eram por serem os homens muito velhos ou muito distantes ou muito gays [ou por se apaixonar, sem compreender nominalmente, por pessoas que não se encaixariam na sua presumida heterossexualidade], ou por pessoas inacessíveis de dentro dos seus longos e encadeados relacionamentos monogâmicos. E ainda mais bonita quando se desmonogamizou e se confrontou com todas as suas ilusões e tantas das suas inseguranças, e passou a usar saia curta e blusa justa e cortar o cabelo apenas pra atrair os olhares dos outros. Bonita agora com certeza porque não saberia mais não ser antes de tudo Bonita. Bonita comprando vestidos, experimentando saltos, cortando o cabelo curtinho porque lhe desesperava não ser bonita o bastante pra atrair as meninas, bonita até o último instante, com esforço, cancelando um date porque as pernas não estavam perfeitamente depiladas, gastando horas escolhendo o sutiã que dá a forma perfeita dos seios com a blusa certa, abandonando a aula de dança para não ficar com músculos demais na barriga, parando pra perguntar no meio do sexo se sua cara de gozo era bonita. Sim.

Mas Marina não é como o Mar, que vem e vai e se estende até onde a vista alcança, interminável. Eu abandonei tudo isso, as saias, os sutiãs, os romances impulsivos e os encontros casuais. Não foi exatamente o gênero que eu abandonei - até porque esse me persegue, entranhado nos ossos, nos trejeitos defensivos e no timbre da voz. O que abandonei foi o esforço, foi aquela motivação autoflagelante de horas e suor e sangue pra construir uma persona da qual eu nem gostava. Marina, essa é a verdade, Marina não se acha bonita, não se acha capaz, não se ama. Marina sobrevive integralmente do amor que recebe dos outros. Mas ela não é sequer capaz de corresponder a esse amor, com seu coração volúvel, nômade. Ela deixa atrás de si um rastro de corações partidos, e se desfaz em culpa. Tudo o que Marina pode oferecer é a intensidade, o romance. Quando isso pára de dar resultados, ou quando ela começa a se sentir velha demais, ela silenciosamente morre.

Que me importa o que eu acho da minha beleza? Minha beleza nunca foi realmente minha. Quando criança, as sessões de "embelezamento" nada mais eram que sessões de tortura. Com catorze anos, tudo o que eu queria era raspar a cabeça. Consegui força pra fazer esse experimento apenas dez anos depois. Deixar os pêlos crescerem, fazer piercings na orelha, raspar o cabelo com máquina zero, e depois pintar; experimentos, um por um, sondando as reações, principalmente de minha mãe. Lentamente, e sem sequer perceber, tornando esses pequenos símbolos os pilares da minha identidade.

Quando uso calças, hoje sinto que estou amordaçando minhas pernas. Não é que ache minhas pernas bonitas; é mais que eu não consigo mais existir socialmente sem esse símbolo exagerado de auto-expressão. Eu preciso saber, quando entro num ambiente, que todos ali saberão que eu uso pernas peludas. Mas isso não é o bastante, então eu uso também camisetas largas, bermudas masculinas, e cortes de cabelo um tanto desconjuntados feitos em casa. Eu não sou bonito, quer dizer, não me importa mais tanto ser bonito, não quero nem preciso seduzir ninguém; o que me importa é ser imediatamente fora dos padrões, imediatamente não-feminino. Mas na verdade, acho que também eu não consigo mais me achar bonito.

Nem feio. Porque belezza essa coisa que vem sempre de fora, dos olhos dos outros. E os olhos dos outros já me dizem tanta coisa que machuca, me não me é, que já me divorciei do olhar dos outros mesmo quando olho no espelho. Antes olhava no espelho e via o olhar dos outros; hoje olho no espelho e me pergunto, desesperadamente, "como é que não me vêem assim: como eu sou?!"

Através do espelho é que vejo meu corpo, nem bonito nem feio, nem gordo nem magro, nem masculino nem feminino; meu. Mas apenas através do espelho, e talvez um pouco através do viver, do tato, quando não sinto aquela dor nos peitos me lembrando que eles estão aqui, quando não me atrapalham, quando não sinto meu corpo fraco, mole, torto. Sempre quis ter pernas finas e nunca tive pernas finas. Antes eu morria de inveja de minha irmã, e também de meu irmão; agora não restou espaço para inveja, agora sinto apenas um vazio esquisito, porque não compreendo mais; minha irmã era rosa e meu irmão azul, e eu pegava sempre a toalha amarela.

Mas nas fotos, nos vídeos, nem reconheço meu corpo. Me dá um mêdo de que meu corpo nas fotos seja que nem o retrato de Dorian Gray, ficando velho e deformado e feio enquanto seu corpo de verdade permance jovem e forte. Eu me sinto assim, jovem e belo até que me mostram uma foto minha, e tenho uma voz linda até ouví-la numa gradvação, e aí fico me perguntando como meus amigos conseguem conviver comigo, com minha voz horrível, com minha coluna corcunda, com os ferros nos meus dentes, com meu cabelo desajustado, com minhas piadas ruins, e minha atitude de que sei tudo mas não ligo pra nada, com sempre o meu mesmo sorriso falso e fofinho e essas bochechas e essas tetas gordas caídas.

Uma vez eu vi uma foto bonita minha, numa viagem, no topo do mundo. Por alguns segudos.

Mas, cada vez que vejo uma foto, ou, pior ainda, um vídeo, passo dias lutando contra o nojo do meu próprio corpo -- como posso ser assim se o que eu sinto de dentro é tão melhor, mais fluido, mais forte, mais equilibrado, mais bonito?

Talvez por isso minha mãe tenha me perguntado. Porque ela viu nos meus olhos eu olhando aquela foto e pensando "que pessoa feia eu sou. Nem a fofura do meu sobrinho consegue me fazer ter vontade de olhar pra isso."

...

Uma vez eu vi uma foto minha que até achei bonita. Era eu com ele no colo, depois da minha defesa, dando o maior sorriso que eu já dei em toda a minha vida.

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

De falar palavras

às vezes parece que palavras significam coisas, mas é ilusório.
palavras menos significam, mais sugerem, lembram, parecem.
palavras significam tanto quanto cores, imagens, metáforas.
em certo sentido, todas palavra é uma figura poética
escrever é, sempre, poetar.

assim principalmente palavras mais puramente metafóricas, como, ilustremente, amor.
amor em si não é signo propriamente dito, é mais uma evocação vaga de umas associações, é uma palavra como se fosse um cheiro.
amor em si não é coisa que se denomine tanto quanto coisa que se associe vagamente com uma sensação
sentir amor é antes de tudo um chute: sente-se uma coisa, e pensa-se "deve ser isso o amor, talvez"
também assim solidão, coragem, felicidade, tristeza, ódio, frustação, tédio
nenhuma têm em si uma definição, é mais um reconhecimento vago, "deve ser isso aquilo que chamam de tédio".

por isso assim é difícil pra mim dizer o que significa "eu te amo"
ou "estou triste"
ou "sou feliz".

também assim atração física, amizado, sensualidade, desejo
sente-se antes que exista palavra, e fala-se antes que se entenda o que se fala
e assim falamos meramente através de metáforas
também as tentativas de definir são vagas e vãs e isso se aplica especialmente a identidades, a orientações, a gênero

por isso me ocorre que quando me diz "eu te amo" eu me pergunto "??????" e é uma pergunta assim sem palavras só interrogações o que diabos querem dizer essas três pequenas palavras-metáforas
eu
te
amor

amor pra mim é como uma sensação de ter imensamente maior do que eu e tão pequenamente tão pequenas coisas como aquilo que a gente sente quando uma pequena pessoa um projeto de gente nos abraça espontaneamente e aquele minúsculos lábios ensaiam um projeto de beijo
caramba mas amor é aquilo que me dá quando eu vejo uma fenda na rua uma muda nascendo brotando em câmera lenta, quando num vislumbre se vê toda a imensidão do tempo, o passado geracional e o futuro mais longe ainda, quando as árvores três-andáreas forem plântulinhas e as sementes forem o início de uma nova floresta
amor é aquilo que dá quando uma estátua envelhecida coberta de musgo e uma pedra que poderia estar ali a centenas de anos, com um nome cravado difícil de ler, e umas datas
aquilo que dá quando um cânion muito profundo cortado por uma queda dágua
e um cristal imenso largado no chão porque ninguém roubaria um cristal assim, tão deliberadamente transformado em paralelepípedo de cercar flores.

amor como quando eu recebo uma mensagem sua e me ocorre largar todos os planos inclusive comer e dormir, só pra te ver por talvez cinco minutos (mesmo que eu me controle e decida manter os tais planos)
ou como quando eu penso em você e ao mesmo tempo parece que estou pensando em todos os livros que eu já li ou quis escrever porque de alguma forma eu associei você com toda essa parte imensa da minha vida.
amor como quando eu acordo e não consigo entender porque você não está do meu lado, ou como quando eu te encontro e de repente todos os meus planos vão por água abaixo porque eu preciso mesmo contar todo o meu dia pra você.

também assim quando eu vejo o sol através da janela do ônibus e entra uma pessoa e senta do meu lado e eu penso em tudo o que eu não sei sobre aquela pessoa completa que tem toda uma vida longe de mim
Ou como quando eu ouço um sotaque da minha cidade e me pergunto até que ponto essa voz fala com as mesmas gírias que eu, e vive a mesma vida, uma cópia da minha vida.
também assim terror, pequenez, e grandeza.
amor é menos uma palavra, e mais uma coisa vaga, que é tanto gente quanto árvore e pedra e ar.

por isso tanto mêdo de dizer que também te amo e você pensar em coisas puramente humanas como beijo e sexo e espero que não mas quem sabe fidelidade
mêdo de eu dizer eu te amo e você me amar de volta ou não me amar de volta, mêdo de me dizer eu te amo e eu não amar de volta ou amar de volta
por isso tanto mêdo de tocar e todas aquelas obrigações de limites e desejos e fetiches e um monte de coisa que não cabe em uma palavra mas finge-se que cabe
por isso tanto mêdo de cair num abismo onde gente fica mais importante que o cheiro da areia quente
e o macio de uma casca de árvore
um ronronar

amor quem sabe pela cor de uma libélula
ou pelo colorido de um pôster dos anos oitenta
ou por um figurino do david bowie no auge da sua glamroquisse.

amor também porque se mistura com nojo, nojo fundamentalmente de tudo que se mistura com tudo o que se mistura com amor principalmente esse amor que se confunde com gente mas que não se permite misturar com amor porque uncanny valley ou porque tabu
amor também quando sinto aquela coisa bizarra quando vejo uma cena num filme e de repente a vida parece mais inensa e cheia de possibilidades e eu não entendo porque não quero chamar essa potencialidade tods de fetiche mas também não vejo outra saída

amor por coisas muito antigas, muito dolorosas, como vampiros, elfos, aliens solitários errantes.
amor por coisas perturbadoramente pequenas, como uma bacia de pedras que a água formou espontaneamente.

e afinal mêdo, talvez porque essa palavra que eu insisto em usar é menos uma palavra e mais uma invocação, e que eu insisto em usar nos momentos errados, como quando eu falo de pedras, aliens, gatos; mêdo de que essa palavra saia dos meus lábios e chegue em lugar nenhum porque assim que encontrou o ar virou uma outra coisa, uma coisa que tem outro contexto completamente.

mêdo porque eu te abraço e você tenta me beijar e menos ainda eu sei lidar com essa boca que não é minha e que eu não compreendo, e mêdo também quando eu penso em te beijar e percebo que eu não saberia o que fazer depois.

mêdo também porque a imensidão das coisas cabe num instante, e prolongá-las torna elas ainda mais imensas, ou muito irrelevantes, e porque os finais são sempre um tanto quanto menos emocionantes que os começos, e sempre sobra aquele gosto estranho na boca, de ter vivido algo e não se saber direito se já passou ou se ainda se tem 13 anos para sempre.

mêdo talvez porque a vida vai virando uma bizarra coleção de passados, e cada vez menos se é e mais se sente e se vê, até o ponto que eu viro de novo criança, do auto da minha auto-confiança, destruídos tantos estúpidos preconceitos.

mêdo de que te amar seja o primeiro passo para te deixar, daqui a muitos anos, para encontrar um futuro que eu desconheço e não consigo nem vislumbrar. Mêdo de que depois do amor sobre essa saudade que eu ainda sinto, e tanto, e que eu não posso mais. Mêdo de eu seja insuficiente, não porque eu não seja muito, demais, até, mas porque eu seja muito na direção errada, na direção que eu preciso conter e fingir que não é importante, e muito pouco talvez nessa direção que você parece imaginar que eu seja. Mêdo dessa projeção louca, do meu corpo me definir através dos outros, quando através das pedras e das árvores e do sol ele nada mais é que o meu corpo, capaz de me levar grandes distâncias.

Em certo sentido é mais fácil amar quando se ama errado, tudo, e demais. Amar românticamente pessoas de forma saudável é... chato, e duro, e perigoso.

Em certa medida eu lembro com asco a sensação de desespero de te querer e não poder te ter, e você rindo da minha cara por eu ser assim, tanto, e tão ingenuamente.

É mais fácil ser tudo isso quando se é em todas as direções
Assim também "amar", assim também "ser feliz".

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Reflexão desestruturada sobre a minha percepção das estruturas sociais

Eu queria aproveitar para registrar uma mudança de visão de mundo que está me ocorrendo.
Percebo que nos últimos anos minha visão de mundo tem mudado mais, e mais abruptamente, do que costumava ocorrer.
Atribuo a isso um processo de amadurecimento, diversificação de experiências e adentração em estruturas sociais que fazem parte que um mundo exterior que não estavam acessíveis para mim na minha adolescência resguardada (tenho um impulso de chamar esses espaços de espaços adultos, mas agora é evidente para mim que a maior parte das pessoas que os habitam (digamos, mais habitualmente) estão aqui desde a infância ou adolescência; e essa diferença é conseqüência de uma diferença de estruturas familiares associada a posicionamentos políticos e econômicos que eu também não era capaz de ver até recentemente).

Digo "adolescência resguardada" porque estudei durante doze anos em uma mesma escola onde as diversidades do mundo exterior pareciam não alcançar. Não estou falando apenas da diversidade de classes sociais, embora essa talvez seja a mais importante. Na época, eu identificava a diversidade interna que existia: alguns alunos eram mais estudiosos, alguns eram mais artísticos, alguns eram mais politizados, etc etc etc. Mas ao conversar com pessoas de outras escolas, percebo que o padrão era as diferenças se exacerbarem, e os alunos se dividirem em tribos de estilo e comportamento; enquanto na minha escola as diferenças eram amenizadas (nunca tivemos aquelas "tribos urbanas" que aparentemente houveram em São Paulo - emos, clubbers, góticos, punks, etc (se bem que eu apostaria que existam hipsters e outros tipos "alternativos"... mas de um jeito pacífico e sem conflitos)).

Eu sempre comento como até a sétima ou oitava série, eu tinha certeza de que todos os meus colegas eram brancos, muito embora alguns colegas muito próximos distintamente não o fossem. Eu sinto que havia um esforço institucional para que nos sentíssemos sempre coletivamente como um grupo da classe mais privilegiada possível. Afinal, nosso futuro era governar o país.

Meus colegas que estudaram comigo talvez não partilhem dessa impressão.

Minha família também não era incrivelmente dada às diversidades -- tínhamos poucos amigos, se muito próximos. Aliás, eu não conhecia ninguém que não fosse da escola ou da família. Minha família também tinha uma estrutura muito bem estabelecida: as crianças se organizavam em volta dos pais que se organizavam em volta das avós; as crianças mais velhas cuidavam (e às vezes comandavam) as mais novas. Quando minha avó materna morreu, minha mãe (a filha mais velha) tomou seu lugar como organizadora da família. Isso durou alguns anos antes de as coisas ficarem confusas.

Enfim, eu costumava ver as estruturas de poder (que termo chique né) como uma arquitetura sólida, como uma organização hierárquica (como a família e o governo). Mas nos últimos anos comecei a enxergá-las como um emaranhado confuso de relações conflituosas, onde cada fio é extremamente frágil e fadado a arrebentar, mas o nó é extremamente difícil de desfazer. Acho que parte disso vêm do contato com os movimentos sociais e com o anarquismo, mas parte disso vem também de descobrir que meus modelos da sociedade, a família e a escola, não eram tão universais quanto eu imaginava.

Durante algum tempo da vida eu acreditei na cascata das relações de poder. Acreditei naquela fábula do abuso de poder, na qual o homem é abusado pelo patrão, volta pra casa e bate na mulher, que por sua vez grita com a criança mais velha, que bate na criança menor, que chuta o cachorro, que termina destroçando um bicho de pelúcia. Mas eu descobri que podem haver famílias nas quais as crianças se unem pra resistir aos abusos dos pais, em vez de abusar umas às outras.

sábado, 27 de junho de 2015

Update

Estou aqui porque uma pessoa postou um comentário no meu último post, dizendo que gosta do que eu escrevo desde O Pato Está na Ratoeira. Gente. O Pato foi uma piada interna entre eu, Yuri e Artur, que virou um blog onde postávamos coisas esquisitas, que o Artur abandonou alguns anos depois de ir para Campinas porque afinal aquilo era parte de um passado compremetedor. Eu quase não escrevia nO Pato. Eu me lembro da gosmificação dos olhos, e de Deus morrendo na fila de espera do hospital público, e de pouco mais. Meu relacionamento com Artur e Yuri era uma coisa muito estranha e muito íntima... diferente de todos os relacionamentos que eu já tive eu acho. No final uma coisa que ficou no passado, como tudo o mais. Às vezes até bate uma saudade. Ou um vazio impreenchível.

O post no qual apareceu esse comentário era sobre Zuzu. Oliver. Meu sobrinho. Hoje Tali mandou uma foto e disse que Oli já pega objetos com as mãos, amassa e joga para longe. Eu fico me arrependendo de cada oportunidade de vê-los que eu perco (que são muitas).
Eu tenho tanta coisa pra fazer e quase não vejo minha irmã e meu sobrinho. Eu sonhei com eles noite passada, sonhei que morávamos todos num mesmo condomínio, e que chamávamos a família inteira pra uma festa na piscina (inteira quer dizer todas as primas e tias avós). Eu ficava brincando com Oli. Adoro brincar com Oli, segurar no colo, passear com ele, dar banho. Pessoa fofa.

Não conseguia lembrar que eu tinha postado neste blog no último ano. Li a postagem de baixo, e era sobre meu relacionamento com minha mãe, como ela evita falar sobre certos assuntos, como ela fica brava que eu sumo, como ela quer discutir gênero e sexualidade comigo mas ao mesmo tempo não quer(emos). Semana passada eu decidi contar pra ela que eu estava saindo com uma pessoa... com uma menina, meio que. Eu estava me sentindo mal de guardar segredo, sabendo que se fosse um homem eu talvez já tivesse contado antes. Seguiu uma conversa esquisita na qual minha mãe me falou que eu não era trans e mais um monte de coisas sobre gênero, porque de alguma forma ela conectou todos os assuntos como se eles fossem uma coisa só. Não, sério.

Ela disse que sabia que eu não era trans porque eu era muito feminina, e ela acrescentou que "eu não sei de onde você herdou essa feminilidade, porque não foi de mim". Aí eu falei pra ela que ela era muito mais feminina, mas ela falou que ela se achava super masculinizada e nada feminina. Eu falei que eu é que era masculinizade, e ela é que era feminina, que usava vestidos, e pintava as unhas, e se arrumava e gostava dessas coisas "de mulher", e inclusive ela estava me dizendo que usar vestido era uma delícia como se ela estivesse preocupada com o fato de eu não querer usar. Aí a gente ficou nesse "é você!", "não, é você!" por mais algumas iterações até a gente abandonar o assunto. Mas eu fiquei pensando que é engraçado que ela se veja como masculinizada e eu como feminina. Talez a questão seja que ela de fato quer ser mais feminina, que ela de fato gostaria disso, embora pra ela não seja muito natural, enquanto eu estou na situação oposta, porque isso que ela vê como "feminilidade" em mim é algo que está fora do meu controle, é algo que eu tento evitar mas não consigo, eu detesto o quanto eu me esforço pra ser macho e mesmo assim todo mundo me diz que eu sou fofa e delicada e feminina e blargblargblarg. Talvez a gente se incomode mais com aquilo que a gente não consegue controlar. Se bem que ultimamente eu tenho refletido sobre como eu não tenho também a coragem de deixar a fofura e delicadeza de lado. Elas são como muralhas altas, impedindo as pessoas de chegarem perto. São coisas seguras, coisas que no máximo vão levar as pessoas a me verem como um pouco boba e inferior e incompetente como acontece quando você é lida muito estereotipicamente como mulher, mas elas implicam pouco risco... Se eu tento me impôr, me colocar, deixar a "feminilidade" de lado, eu também tenho que me provar. Eu posso jogar no easy e nunca ganhar muitos pontos, ou eu poderia me arriscar a talvez ser completamente destruíde, mas com uma chance de ganhar um highscore, como algumas pessoas muito mais fodelantes do que eu fazem. Eu tenho mêdo demais. E toda vez que eu exponho meu lado menos fofinho, vem alguém e me destrói... até eu aprender que o que eu considero foda e sério e adulto em mim são coisas que outras pessoas (homens) consideram noob e infantil. Eu sou um garoto de treze anos. Deixa eu repetir isso porque é importante.

Eu sou um garoto de treze anos. Eu cansei desse jogo de ser fofinha e de pelúcia e de ajudar os outros com seus problemas impossíveis de resolver e etc. Mas eu não tenho nada mais. Eu não sei me impôr eu não passei a adolescência levando xingamento escroto dos meus amigos pra saber que isso é tudo na boa fé. Na real, eu passei a adolescência recebendo diminutivos pejorativos dos meus amigos, e me defendi guardando dentro de mim tudo o que era grande e perverso e... associando tudo isso a sexo eu acho.

Na verdade tudo isso é uma metáfora pra todas as minhas outras inseguranças. Eu vou parar por aqui porque eu já sei que falar sobre as minhas inseguranças não me ajuda em nada a diminuí-las e efetivamente só me faz me sentir mais idiota por estar "me expondo", como minha mãe disse.pas

quinta-feira, 5 de março de 2015

Hoje

Estou um pouco incoerente com tudo o que está acontecendo.
Eu só queria fazer um registro.

Hoje as contrações começaram. Minha irmã entrou em trabalho de parto. A pessoa mais importante da minha vida vai ter um filho. Eu queria estar lá com ela.

Eu acordei meio mal hoje, eu vim pra casa calculando se eu conseguia pegar o carro e dirigir por duas horas até lá, e pareceu má idéia arriscar, e me disseram que era melhor não ir. Mas eu quase não consegui me concentrar em mais nada na minha vida. Eu tentei trabalhar e cozinhar e ler quadrinhos e entrar na internet. Eu fiz um brigadeiro. Eu passei o dia num estado meio desconectado do universo. Minha irmã está parindo.

A criança está nascendo.

Pra mim não existe futuro, nos meus sonhos e devaneios eu nunca consegui imaginar este momento. Tudo vai mudar. Eu não
Sei lidar com mudança. Tudo
Vai mudar.

Isso não
Tem a ver comigo
Eu não
Tô lá
Eu só queria registrar esse sentimento
Aqui esperando

Eu quero
Ir pra lá
Conhecer a criança
Eu queria não tar doente
Eu quero ver

domingo, 1 de março de 2015

Vestido

Minha mãe me perguntou casualmente se eu não usava mais vestido. Em tom de confirmação.
Minha resposta foi prolixa.
Nãoeunãousomais quasenuncaquerdizer eutenhoalgunsaindaeutentousardevezemquandoeuvistoummasseilá pareceesquisito eunãogostomaseutenhoummonteaindaàsvezeseuponhouns praficaremcasamas eunãosaiocomelesachofeiomeachofeionãoseiexplicarsó nãocompbinamaiscomigoachoesquisito nadacontra

A verborragia tentando muito não soar simplesmente como repúdio a todos os símbolos de feminilidade, tentando evadir o machismo, tentado evitar chegar no cerne da questão, tentando impedir que a resposta seja pontuada com um

"
por
quê?

"

Minha mãe faz perguntas cada vez mais evasivas, evitando questionar, evitando. Às vezes dá indiretas. Uma vez ela me aconselhou a pensar muito sobre isso. Eu me dei conta: "ela sabe". Percebi então que não é que minha mãe não acredite em mim, mas que ela não confie em mim. Ela acredita que eu acredito em certas coisas ou que eu sinto certas coisas sobre mim, coisas sobre as quais não conversamos, a menos de perguntas evasivas e respostas prolixas, mas ela não acredita que eu possa de fato saber essas coisas sem a ajuda de um profissional.

Uma vez ela me aconselhou a pensar seriamente sobre "essas coisas". Eu mantive uma expressão neutra, enquanto avaliava se valia a penas dizer que eu já pensava sobre essas coisas, todo o tempo, todos os dias, e que se eu não falava sobre essas coisas com ela era porque ela não me dava abertura pra isso. As coisas ficam mais difíceis depois que a gente se abre, depois que a gente está vulnerável. E assim ela parece que sabe cada vez menos sobre mim, não por não ouvir, não por não enxergar, mas pelo meu silêncio deliberado, pelo meu silêncio pontual e específico, que é a única forma de proteger a dualidade da conclusão a que meus questionamentos sempre me levam. Porque me parece me minha mãe acredita que a dualidade é um estado transitório, um estado de dúvida e falta de auto-conhecimento, que há uma dialética, e que um dia haverá uma síntese, que eu deixarei de ser muitas coisas para ser uma, e que essa uma será sólida, e simples, e compreensível, e inquestionável. E não é só minha mãe. Parece que há uma expectativa generalizada ao meu redor de que algum dia as pessoas saibam extamanete quem elas são, e que quem elas são seja facilmente descritível em categorias, rótulos, gêneros, filiações.

Minha resposta a isso é simplesmente: não.




sábado, 14 de fevereiro de 2015

A Diminuta Rainha Dragão-Dourado

Havia uma floresta densa, escura, onde inúmeras orquídeas e cipós e bromélias coloridas cresciam sobre grossos troncos de árvores velhas, e jovens palmeiras atravessavam as copas em busca do sol. O solo era úmido e cheio de vida em constante transformação, folhas secas se desfazendo e plântulas brotando e raízes se estendendo e cobrindo o início dos muros antigos de um pequeno forte de pedra, quadrado e sólido e coberto de musgo desde o portão baixo até desgastadas almeias. Ali perto, num galho retorcido, perto de um ninho vazio, pousou a diminuta rainha que chamo de Dragoa-Dourada. Vinda escapada de uma família controladora num reino deconectado, a fada-feiticeira, nessa forma minúscula de inseto-fada, viajara em busca de conhecimento, poder e uma base de operações. A floresta de Galilud e o pequeno forte abandonado serviriam aos seus propósitos, cheia que era a floresta de plantas e bichos e coisas diversas e interessantes. Em poucas horas arrumou sua casa -- a princípio quase um acampamento, enquanto as maravilhas da floresta chamavam sua atenção e impediam que se concentrasse em fazer do forte um castelo. Passava dias fora perseguindo ora um rebanho de capivaras, ora uma correição, ou então tentando estimar até onde iam as raízes de determinada árvore enorme, habitada por certa espécie de vagalumes que às vezes pareciam segui-la, atraídos por sua magia que se assemelhava à deles; quando voltava, lembrava-se de súbito de suas obrigações reais, e se dedicava a inspecionar a estrutura das paredes de pedra, ou a reconstruir o portão apodrecido, ou a mobiliar o interior do forte para que finalmente parecesse um castelo digno da dona daquelas terras. Quando o forte finalmente começava a parecer com um castelo (bandeiras hasteadas, tapeçarias penduradas, lustre aceso, portão instalado), a Rainha também já havia explorado em todas as direções vários quilômetros ao redor de sua nova casa, e alguns meses haviam se passado. A Rainha começou a sentir falta de companhia, não o tipo de companhia que os ratos e as minhocas lhe faziam, mas companhia falante, com quem conversar sobre todas as suas descobertas. Sendo uma mulher de ação, a rainha convocou uma montaria e partiu em uma direção qualquer, procurando por sinais de gente.

Mais alguns meses depois, a rainha Dragão-Dourado reapareceu em suas terras acompanhada de um homem, que acontecia de ser anão e medir apenas um metro e doze centímetros, e que vinha com seu cavalo ser o esposo da rainha e o cuidador do castelo. Para uma melhor relação com seu marido, a Rainha passou a usar uma forma de maior tamanho, ficando inclusive vários centímetros maior do que ele (na verdade, ela era uma rainha bastante alta). Juntos eles passeavam pela floresta, conversando sobre as árvores e os bichos, discutindo as antigas descobertas da Rainha e as novas descobertas que o marido e os outros novos habitantes que iam chegando observavam, coisas que haviam escapado ao primeiro olhar. Também faziam jantares, luais e bailes, quando não se reuniam apenas para trocar histórias, que a Rainha adorava ouvir, pois lhe ensinavam sobre todo o mundo que ela ainda não visitara. Nenhum deles, porém, estudava a Magia, e aos poucos a Rainha decidiu que o que ela queria era conhecer os grandes magos e aprender do mundo todos os feitiços. A dificuldade era que, já naquela época, os magos todos eram muito desconfiados uns dos outros, e ciumentos de seus conhecimentos, e se recusavam a compartilhar o que aprendiam a menos que fossem ganhar qualquer coisa com isso. A Rainha tinha apenas seu reino pequeno, e na verdade nada a oferecer a nenhum mago poderoso. Ficou sabendo, porém, que num reino vizinho havia uma rainha muito, muito influente, jovem e rica, com grande potencial, que tinha o amor e o respeito de todos, e de alguma forma conseguira convencer alguns dos maiores magos a lhe mostrarem seus talentos. A rainha Dragão ficou empolgada, mas se desesperou ao ouvir que esse reino vizinho também abominava feitiços e feiticeiras e toda forma de fada ou bruxa como ela mesma. Sabendo-se incapaz de se passar como maga, e muito pouco nobre para acompanhar a outra rainha, a Rainha Dragão elaborou um plano engenhoso: enviaria seu marido em seu cavalo ao o rico reino vizinho para oferecer de presente à jovem rainha um belíssimo e muito delicado colar dourado, de um ouro que reluzia em uma gama de cores, e cuja forma sugeria um dragão com chifres pontudos e uma longa cauda. O ponto chave do plano era que o colar de dragão na verdade era a própria Rainha Dragão transformada em dragão, e depois em colar - e enquanto a outra rainha a usasse em seu pescoço, a Rainha Dragão poderia ouvir todas as conversas que ela tivesse, e poderia aprender tudo sobre o reino vizinho, e outros reinos além, e todas as magias que todos os magos lhes mostrassem, sem temer ser queimada por feitiçaria.

Assim, seu marido partiu, com um pequeno séquito, e chegou sem incidentes ao reino vizinho, onde ocorreu uma pequena festa para apresentar hospitalidade aos viajantes. Porém, enquanto as belezas do castelo eram apresentadas aos hóspedes, surgiu um batalhão de monstros voadores, inimigos vindos de um país mais além, recomeçando uma guerra em um momento de despreparo. Começou uma batalha. Os monstros atacaram justamente o rei, a rainha e seus nobres mais próximos, e eles se defenderam como puderam, mas seus soldados mais treinados estavam espalhados pelas muralhas, e não conseguiam chegar para ajudar, pois os inimigos soltavam bafos de fogo que mantinham todos à distância. Pois então no meio da batalha um grande clarão cegou a todos por um instante, e depois, um grande dragão, com escamas douradas que brilhavam em muitas cores, surgiu. O dragão, ou devo dizer, dragoa, rugiu e cuspiu fogo e desorganizou a tropa inimiga, fazendo com que os monstros se desesperassem e batessem em retirada. A dragoa fez que ia perseguir os monstros, cuspiu mais um jato de fogo dourado, e então mais um clarão colorido, e de repente surgiu na destrambelhada multidão de costesões, hóspedes e soldados uma hóspede nova, estrangeira, alta, que de repente estava vestida com roupas muito comuns e sorria meio desconfortável, tentando desviar a atenção e parecer tão comum que ninguém jamais a confundiria com uma feiticeira! No meio da confusão, ela conseguiu se disfarçar por um tempo, conversar com algumas pessoas, e conforme as coisas iam se organizando, até trocar cumprimentos desajeitados com a outra rainha, que ainda estava tentando entender o que se passara. Porém aos poucos o grupo de pessoas foi se dando conta de que a estranha mulher não estivera ali um segundo antes, e uma suspeita foi se alastrando. A sorte foi que a essa altura a Rainha Dragão já conseguira recompôr suas magias e reencontrar seu marido, e assim, sutilmente, ela passou por trás de algumas pessoas e -- desapareceu. E de novo seu marido tinha um presente para oferecer à sua anfitriã, quando ela se recompusesse. Dada a confusão e a vergonha que era ter seus hóspedes atacados, a rainha aceitou o presente com exagerada gratidão, prometendo nunca tirá-lo do pescoço, em nome de uma prolongada amizade entre os reinos. Assim o marido da rainha Dragão voltou para casa trazendo alguns presentes e transformado temporariamente no novo rei do castelo de Galilud, e como novo Rei ele cuidou do castelo, das pessoas, dos bichos, das bromélias e das árvores por vários bons anos (ainda que um pouco solitários em alguns momentos) enquanto sua Rainha presenciava encontros e cerimônias, viagens diplomáticas e visitas de lazer, e, ainda mais importante, conferências com magos de todos os lugares, que lhes mostravam segredos e maravilhas que nenhum outro mago na terra haveria de ver.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Livros debaixo dos livros

Li uma newsletter da Olivia Maia hoje, e eu devia estar escrevendo um e-mail pra ela, mas de qualquer forma que coisa boba imaginar que uma pessoa quer receber um e-mail comigo falando bobagens da minha cabeça e de como os pensamentos dela me impacaram (era pra ter um t ali entre o c e o a, mas não foi e acho que vai ficar assim mesmo, me empacaram), afinal eu sou só uma pessoinha meio boba que constantemente sente que não está conseguindo mergulhar num mar de histórias.

Ultimamente eu tenho lido pouco, e às vezes passado meses sem ler nada. Pra pessoas como eu (e, eu acho, Olivia), que meio que se construíram a partir de livros, isso é um pouco como... Passar dias e dias sem sair de casa, sem olhar pela janela. Você engana, vive, faz outras coisas, mas com o tempo começa a se sentir vazio por dentro, e percebe que naquela parte de você em que costumava haver uma floresta tropical de histórias e cenários e momentos e personagens, agora há uma seca brutal e quase que um deserto... Com o tempo a vida fica parecendo menos, e as palavras vão faltando, e as emoções ficam inacessíveis... 

O que me perturba é que ultimamente eu tenho evitado ler. Há livros e livros na minha estante que eu não li, e eu não pego nenhum deles. Eu leio webcomics, em momentos de cansaço ou tristeza ou quando o vazio fica muito grande eu leio um quadrinho inteiro de cabo a rabo, mas aí acaba e eu fico mordiscando as migalhas de webcomic que saem toda semana, e eu tenho que acompanhar uns vinte ao mesmo tempo pra conseguir sobreviver. Não tenho comprado quadrinhos porque é caro, e não tenho lido livros porque... Bom, muitas coisas.

Em parte porque eu sinto falta de ler em português, porque eu tenho lido demais em inglês e eu sinto que estou me expressando melhor em inglês que em português e quantas vezes eu fico tentando traduzir do inglês pro português alguma frase ou sentimento sem conseguir de verdade. Em parte porque eu não tenho mais saco pra livro mal traduzido, me dá umas ganas, incomoda, o livro tem que ser fenomenalmente bom pra eu conseguir continuar lendo. Em parte porque ás vezes eu começo a ler um livro e descubro o quanto ele é horrivelmente machista, e aí eu largo o livro no meio, e quão horrível é largar um livro no meio? Em parte é porque dos meus dezoito anos pra cá eu me esforcei mais e mais pra viver no mundo real e tentar impactar o mundo real e conviver com pessoas reais e fazer alguma diferença, sabe? E sabe o quê? Em algum lugar nos últimos anos eu comecei a me arrepender disso. Sério. No começo eu já questionava se tinha sido uma boa idéia, porque eu ainda não tinha ganhado nada e já estava perdendo muito. Depois por um tempo eu comecei a viver coisas incríveis que faziam tudo valer a pena. Mas depois de um tempo eu comecei a sentir mais e mais falta de quem eu era, e menos orgulho de quem eu sou. E eu comecei a passar por coisas estranhas como tédio e falta do que fazer, quando antes eu sempre teria coisas em que pensar e histórias para descobrir. E parte disso é que eu não tenho vontade sequer de ler livros... Não é que eu não leia livros, mas eu leio eles todos de uma vez e depois fico evitando ler livros porque "esse é um tempo que eu não tenho pra perder". Mas eu sinto um vazio brutal que vem diretamente de não estar lendo um livro... E ao mesmo tempo fica cada vez mais difícil escrever, desenhar e criar em geral.

Me ocorreu agora que também eu tenho quase que não assistido filmes e nem TV. Parece bobo, mas eu acho que talvez eu esteja sentindo os efeitos de não ter a oferta de séries e filmes, mesmo que bobos, histórias mesmo que bobas, todos os dias, o tempo todo. Em
Compensação, eu me regozijo com cada artigo bem escrito, científico ou jornalíslico, cada livro didático ou tutorial que me interessa. Eu tenho jogado pouco também, e dado cada vez mais importância aos jogos. Estou me agarrando às migalhas que me dou.

É isso, só.
Estou me sentindo bastante vazio por dentro, mas posso me obrigar a me alimentar melhor.

sábado, 27 de dezembro de 2014

Pilha de papéis

Estou tendo um acesso de filosofia adolescente, porque esta pilha de papéis está parecendo uma metáfora pra minha vida. Essa coisa no fundo da pilha, enterrada e inacessível, é meu diário da adolescência, cheio de histórias, reflexões, poemas, desenhos, viagens. Em cima estão listas de exercícios, cadernos de estudo, apostilas de cursinho, etc etc etc, simbolizando o tanto de conhecimento que eu tento obter e como eu sinto que aprendo tudo de forma rasa e desconeca, como num cursinho, e não como num livro aprofundado sobre o assunto. Eu sou uma apostila de cursinho, não um livro autoral que reúne todo o conhecimento novo e aprofundado num tema. Mais pra cima na pilha tem um bloco de papéis em branco, que simbolizam justamente a quantidade de papéis em branco que eu tenho, resultado de tentativas de preenchê-los com muitos projetos que eu demonstro não ser competente o bastante para realizar. Resumindo, eu tento cobrir a minha falta de profundidade com projetos novos que eu nunca consigo terminar a acabam se tornando mais provas da minha falta de aprofundamento; e no fim a coisa de que eu mais me orgulho são as minhas lembranças da adolescência, quando eu era capaz de mais profundidade, e de preencher folhas em branco. 

Este post em si apenas reitera o que estou falando.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Segregaçã Etária

Eu tava aqui pensando em como a segregação etária perpetrada pela escola é um problema. Deixe-me explicar.

Quando eu tava no colegial, eu tinha muites amigues, unides entre outras coisas por quão desajustades nós éramos à ordem social escolar. Algumes de nós tinham sofrido muito bullying na mesma escola. No colegial, quando começamos a nos envolver em romances adolescentes e outras situações novelescas, nossas inseguranças e imaturidades, misturadas com as nóias com que anos de exclusão social haviam nos imbuído, começaram a causar conflitos entre nós. Eu me lembro de um amigo que decidiu sabotar meu namoro com outro cara, por exemplo. Na época eu morri de raiva dele por que a atitude dele me fez tomar decisões erradas e sofrer. Muitas pessoas pareciam querer que eu fosse mais "puritana" ou sei lá. Vários dos nossos amigos estavam "no armário", ou saindo dele e ainda meio perdidos. Hoje em dia eu olho pra trás e penso que a pessoa que eu sou hoje teria lidado com tudo aquilo, dialogado, resolvido os problemas. Mas aí eu penso que eu hoje em dia não posso nem ajudar adolescentes a entender os problemas confusos nos quais eles se metem. Será que teria ajudado se na época nós pudéssemos ter tido amizade com pessoas mais velhas? As pessoas mais elhas na nossa vida eram sempre parentes e professores e colegas de trabalho dos nossos parentes -- boa parte eram que pessoas com quem eu não conversaria sobre nada pessoal, nem no passado, nem hoje. Nós estávamos constantemente inventando o mundo em que vivíamos, ou tentando sobreviver às complicadas hierarquias sociais da micro-sociedade adolescente da escola. Isso poderia até ser libertador, mas na prática a micro sociedade era tão hostil quanto nós esperávamos que o mundo lá fora fosse. Eu não sabia que eu ia conseguir me libertar das inúmeras correntes que me prendiam na escola. Eu não sabia que a vida ia ser maior e melhor e mais livre, e que eu ia concluir que não valia a pena ter nenhuma daquelas nóias, e que eu ia ter vergonha dos meus preconceitos bobos da adolescência. Eu não sabia que eu ia ter uma comunidade queer, não-mono, não-binarista de amigues que iam prezar pela miberdade e segurança de todo mundo. O mundo humano parecia desinteressante e limitado. Eu preferia a solidão à interação social. Naquela época, meu amigo fez uma piada, quando eu estava brincando com um pedaço de pau ele olhou pra mim e falou "você gosta de um pau, hem?" E eu tive que juntar 200% da minha força de vontade pra encarar de volta e falar "claro! Você não?".. Eu lembro porque foi extremamente significante. Hoje eu dia eu faço essas coisas sem nem pensar. Eu também lembro da minha primeira conversa sobre sexo, quando eu tinha 18 e fui numa viagem com amigues da minha irmã mais velha (todos e todas cis e hétero). Pensa só, no colegial eu tive que defender a minha honra e de meus namorados e amigos inúmeras vezes, mas eu nunca tinha tido uma conversa de verdade sobre sexo, na qual eu pudesse falar e perguntar e rir das piadas bobas e ouvir histórias boas e ruins e verdadeiras. Eu só tinha participado de piadas, zueiras, ofensas e bullying. Eu tinha vontade de conhecer outros tipos de pessoas, outros estilos de vida, mas eu só consegui isso depois de sair da escola. De fato, depois da escola todo mundo foi ficando mais seguro de si e se descobrindo e saindo dos armários todos. Demorou um tempo, mas aconteceu.

Quando eu penso na minha história de vida tudo parece meio surreal. Não sei se é só dissociação mesmo, porque eu passei tanto tempo sentindo que tudo era uma enganação, e porque eu dava tanta mais importância a histórias fictícias, ou porque falando objetivamente nada aconteceu, mas subjetivamente minha vida parecia um filme da Bridget Johnes. Acho que grande parte é porque nada bateu com o que era pra ser adolescência, com os relatos de adolescência que eu ouvi, tanto na época quanto depois. Eu ouvi relatos de adolescentes que tinham poucos amigos e odiavam todo mundo, e relatos de adolescentes que tinham vários amigos e iam em festas e bebiam escondido dos pais, e relatos de adolescentes que trepavam muito e passavam o dia na rua, mas nenhum relato era de adolescentes que não bebiam, não trepavam, não fumavam (essencialmente por moralismo barato, me parece), tinham infinitos amigos, gostavam de várias pessoas, inventavam histórias fofas e malucas e horríveis e não sabiam se comunicar direito com os outros adolescentes. Ainda fico me perguntando se não há adolescentes como nós na minha velha escola, perdidos e empolgados e se machucando uns aos outros por pura ignorância coletiva.

Enfim eu desviei um pouco do assunto original, mas eu acho que teria ajudado se nossas ofertas de amizade não fossem tão limitadas em faixa etária, se pudéssemos ter mais contato com pessoas mais novas e mais velhas com quem nos déssemos bem. Acho que teríamos ficado menos à mercê dos moralismos que os adultos da geração de nossos pais queriam que acreditássemos.

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Hoje

Ack

Blargh

Uck

Rosa

Dirgh

Mleck

Wok

Puff

Aaack


"Use o seu poder feminino"

Glaaagck

Muck

Sooork

Yuk

"Mesmo sendo menina"

...

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

I'm drunk and I had so much fun

Não sei se eu devia admitir que ficar comigo não é exatamente prova de ginosexualidade; que dos meus últimos quatro namorados, um namora com homem, um namorou com um homem trans, e outro é bi... E das minas que me pegaram uma disse que eu era um misto entre homem e mulher, e, sabe o quê? Acho dahora isso tudo.

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Quzstões sobre a caatinga

Quando fomos pro curso de probabilidade, num pequeno grupo de amigos, em outra cidade, nos organizamos mais ou menos numa república. Rapidamente, como acontece em repúblicas de amigos, desvolvemos uma unidade peculiar, hábitos próprios e piadas internas. Nos últimos dias decidimos que nossa apresentação final ia ficar melhor se incluíssemos uma seção piada sobre os membros do grupo, e nos vestíssemos com um uniforme. Encomendamos os uniformes, que eram essencialmente pijamas laranja-e-brancos com orelhinhas e coisas do gênero, feitos de tricô (aparentemente havia uma empresa na cidade que fazia tricô por encomenda, bastava mandar um desenho do padrão desejado que em menos de uma semana ficava pronto). Nossa apresentação ia incluir uma sessão de perguntas humorísticas sobre a especialidade de cada membro do grupo. No dia, montamos um projetos de slides na sala da república, e nossos professores, colegas, mães e amigas das mães sentaram em pufs e cadeiras de praias e talvez caideiras de balanço que havíamos pegado por aí. No fim da apresentação vieram as pergunas: uma pergunta sobre linhas de trem pro engenheiro, sobre resistência dos materias, sobre fissão nuclear pro físico, essas coisas. Decidiram que minha especialidade era biologia, e me fizeram a seguinte pergunta:

"Por que é que na caatinga o gato do mato, em vez de ser grande e fofo como a maior parte do felinos, tem aquela cara feia de bicho mau?"

(Não me lembro os termos exatos, mas acho que aproxima bem)

Me lembro que haviam me avisado que haveria ima pergunta sobre a caatinga, mas eu não aproveitara pra estudar o ecossistema. Eu nem sabia se na caatinga havia gatos do mato (aparentemente não só eles existem, como são absolutamente adoráveis e estão em extinção, como na verdade o eossistema inteiro: <a href:"http://www.pensamentoverde.com.br/meio-ambiente/fauna-brasileira-especies-em-extincao-na-caatinga/">olha só</a>). Então o que eu fiz? Enrolei pra caralho. Eu comecei a explicar que a caatinga sendo um ambiente desértico (??) não consegue sustentar predadores grandes como um leão fofo; aí decidi voltar pra base e explicar o conceito de produtividade primária, cadeia trófica, blablabla; aí me cortaram falando "mas a pergunta era sobre a cara feia do gato da caatinga!" Aí eu n sabia nada sobre esse gato, mas imaginei que ele devia parecer uma raposa, com umas sobrancelhas enormes, e comecei a delirar sobre as sobrancelhas enormes serem uma coisa que protege os olhos dele da poeira, e outras bobagens do gênero. Depois a Chris disse que tava gostando que eu tinha tentado explicar tudinho detalhadamente, a partir do começo; então eu voltei a falar de biomassa e fotossíntese e essas coisas todas.

Aí eu acordei.

terça-feira, 21 de outubro de 2014

Privilégio hétero e essas bostas

Eu acho meio estranho quando alguém pensa que eu tenho um relacionamento hétero. Eu até entendo de onde essa idéia vem, sabe, a gente faz umas coisas meio héteras tipo ir em eventos de família, inclusive na igreja, discute com parente reaça, ouve bosta heterossexista falada em tom amigável.

Passar como hétero é um privilégio meio bosta, porque as pessoas hétero tendem a achar que a gente é também e não têm aquela auto-contenção que é resevada para Os Outros. É mais ou menos como ser visto como um bróder pelos caras escrotinhos do colégio: por um lado eles não batem em você, por outro, eles falam pra você tudo o que eles não falariam pruma mina ou prum viado. Recentemente, na casa da minha própria irmã, um mala perguntou pra roda de amigos: "é namorada de quem?". A pergunta me soou tão desrespeitosa que eu fiquei sem reação. Por ser uma pessoa muito de esquerda ("radical" segundo minha mãe), eu nunca sei quando é socialmente viável ficar puta da vida com uma merda que alguém fala. Eu devo xingar quando alguém fala uma coisa machista? E quando alguém fala uma coisa reaça? E quando alguém propõe desmatar 25m2 de beira de rio?Quando que eu posso não aturar mais e mandar pro inferno? Então eu só não reajo. Eu sei que é pior ainda, mas eu morro de medo de errar e cair num vortex de briga de família. Aí depois desse cara fazer essa pergunta escrota, seguida de uma piada escrota, um tempo depois eu tirei um sarro de leve de uma piada besta que ele fez sobre parecer gay, e ele vira pra mim e aponta que minha roupa é super gay. Eu ri. Que bom que eu não pareço ht, né, imagina que pira? Mesmo meus amigos hétero em geral não são super fãs da indumentária heteronormativa.

Outra coisa que me vêm à mente é que é um relacionamento hétero que não envolve nenhuma pessoa hétero. Na verdade mesmo se alguém vier falar que ele é homem e eu sou mulher eu já vou olhar muito torto pra essa pessoa. Tira a sua obcessão com gênero do meu corpo, que nojo! 

Ultimamente eu tenho evitado sequer falar sobre sexo e gênero, porque, sabe, eu não quero ter que ficar noiando sobre o meu papel no mundo, a vida já tá bem foda só com os compromissos que eu escolhi ter. Mas às vezes essas coisas vêm à toa, e às vezes eu quero bater em cada homem que se recusa a apertar minha mão. Ugh.

Eu diria que eu tenho em muitos aspectos os privilégios de ser lide como uma pessoa cos. Mas no meu casp isso quer dizer que eu sou lido como uma mulher cis, e que as pessoas vão me tratar desse jeito. Com mulheres às vezes é mais de boa, às vezes menos, depende do quanto elas ligam pra gênero. Mas homem parece que liga sempre muito pra gênero. Inclusive homem trans. Parece que poder discrimiar as pessoas por gênero faz parte dos privilégios do macho. E eu tenho vontade de morrer toda vez que eu sinto que o macho tá me tratando como uma fêmea, e portanto um bocho estranho e inferior. Infelizmente eu sinto isso a partir de coisas muito pequenas. Alguns homens ficam realmente ofendidos se você tenta dar um aperto de mão, mas ao mesmo tempo você vê a importância que eles dão praquilo quando apertam a mão de outros homens. É como se eu me recusar a ser mulher como eles esperam fosse uma ofensa pessoal contra eles.

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

--- E pra quê eu preciso saber disso?

Então, tipo, esta semana eu tava dando aula e apareceu um exercício de vestibular que tinha umas funções logarítmicas deslocadas, com as assíntotas verticais em tracejado. Aí eu pensei "poutz, é melhor eu explicar pressas pessoas o que que é uma assíntota!"

Eu falei pra turma que eu ia explicar isso pra elas, e imediatamente a menina super dedicada que quer prestar poli me pergunta:

--- E pra quê eu preciso saber isso?

Hm.

Olha, eu entendo que com o vestibular se aproximando é normal a gente começar a ficar na pira de não querer estudar nada que não for ser imediatamente útil. Mas acho que a questão é mais profunda aqui, é uma questão que eu sinto mais forte, que é a questão de querer sempre justificar o aprendizado de matemática. Sempre. Quantas vezes eu já não ouvi gente reclamando que estudar essa ou aquela matéria de matemática era inútil, por que nunca ia usar aquilo na vida?

Imagina que eu estivesse dando aula de biologia, e eu começasse a falar sobre o ornitorrinco, e eu começasse a descrever como ele é, onde ele vive, que tipo de bicho ele é. Alguém na turma ia perguntar pra que saber do ornitorrinco ia servir? Ou imagina que eu começasse a falar de, sei lá, de quelíceras, que é essa parte do corpo das aranhas, sabe, que vários artrópodes têm, que elas usam por exemplo pra te picar. Alguém ia perguntar "mas pra quê que isso serve?". Ou imagina que eu desse aula de história, e eu quisesse explicar sobre relações de servidão, ou eu quisesse contar a história da Alsácia-Lorena. Ou mais ainda, imagina que eu desse aula de artes, e que eu quisesse explicar que existe essa cor, que chama azul.

Pra quê servem assíntotas? Sei lá, possívelmente pra nada, pra que serve azul? Assíntota é uma coisa que algumas funções têm; algumas funções têm comportamento assintótico, é algo que acontece, é interessante em alguns casos, é legal, funções assintóticas representam bem alguns tipos de idéias, por exemplo a idéia de se aproximar de um ponto de equilíbrio; sem contar que boa parte das funções mais comuns que tem são assintóticas. Pra que serve estudar assíntotas? Bom, em primeiro lugar, serve pra você ler a palavra "assíntota" em algum lugar e saber o que significa. Também serve pra você ver uma linha tracejada num gráfico e saber o que aquela linha é. Serve pra você identificar que aquela função super conhecida tem uma assíntota vertical no zero, e ver um gráfico de função com essa assíntota deslocada, e perceber que teve um deslocamento da função. Pra que serve saber o que é uma pata, uma orelha, um estômato? Pra que serve saber o que significa "antípoda"?

Eu fico pensando por um lado que matemática deve ser um saco absoluto pras pessoas, claro, que ninguém tem a menor vontade de estudar curvas, funções, transformações, derivadas, assíntotas, limites. Quando a minha professora de história começou a falar da história das termópilas, no colegial, ninguém interrompeu ela pra perguntar por quê ela achava que ela tinha que contar aquela história. Mas ao mesmo tempo isso é porque a história era interessante.

Por outro lado a gente devia mesmo parar o tempo todo e se perguntar "mas o que que eu tô fazendo aqui? Por que eu tô fazendo isso?"... Só que assim, é preciso se perguntar, mais do que "por quê aprender isso?", é preciso se perguntar "o que eu quero aprender?". Então eu não sei o que eu tenho que falar quando eu tô dando uma aula de cursinho e uma pessoa vem me perguntar o que eu tô fazendo ali. Eu penso: bom, eu tô tentando mostrar os comportamentos de funções pra vocês, pra fazer elas parecerem menos assustadoras, prelas fazerem um pouco mais de sentido, porque vocês vão precisar saber manipular essas coisas na prova que vocês vão fazer, e porque algumas de vocês vão inclusive usar um monte de funções ao longo da vida de vocês porque vocês vão estudar engenharia, física, essas coisas. Não é o sistema de ensino do qual eu gostaria de estar fazendo parte, e nem é o sistema de ensino que vocês querem, tb. Mas eu tava pensando que ultimamente o vestibular tem ficado cada vez mais dahora, cada vez mais misturando as disciplinas e fazendo perguntas inteligentes que exigem que a gente pare e pense e manipule os conhecimentos. E que o vestibular está mais dahora que o sistema de ensino das escolas. E que eu não tenho o menor saco pra dar uma aula enciclopedista, e nem eu acho que isso vai ajudar com porra nenhuma.

Além do mais, eu sou uma dessas pessoas que acha matemática uma das coisas mais lindas do mundo, e eu não ia conseguir mutilar completamente essa coisa que eu estudo.