sexta-feira, 18 de junho de 2010

Pout Pourri do meu mês de Junho

Algumas das coisas aqui eu pensei faz algum tempo. Outras são bastante recentes.

Dança


Me disseram que o princípio do tango é que o homem está sempre tentando pisar nos pés da moça, e que a moça está sempre escapando por muito pouco. É assim entre eu e você. Quando você fala de mim, eu evito falar de você. Quando você se aproxima, eu me afasto. Você vem em minha direção e eu fujo. Mas se você pára, eu volto, e te dou minhas mãos e engato numa nova dança. Nós dançamos sem nos tocar, como numa capoeira. Eu dou um chute e encontro sempre o ar porque você se abaixa. Tudo para disfarçar que na verdade é uma luta. Tudo para que ninguém saiba o que realmente estamos fazendo. Se você dá um passo para um lugar, eu dou um passo para fora. Se você diz uma palavra eu não posso mais dizê-la. Se você canta uma música, eu não posso mais dizer o quanto ela é importante pra mim. Como num jogo de gô, dividindo o tabuleiro, alguns segredos são seus, outros são meus, e os que são nossos não são sequer mencionados. Porque se de repente nós formos vistos cantando a mesma música, sonhando o mesmo sonhos, olhando pra mesma ilha, então aí todos vão entender do que estamos falando, e vai ficar tão claro! E então, acho que nós dois seremos menos nossos, e mais do mundo. E como eu poderia dividir este nós com o mundo?

Eu-você


Hoje eu me dei conta de que eu sou cada vez mais você. Eu estava no sarau, conversando sussamente, e aí eu ri. Foi o seu riso. Eu balancei a cabeça e era um movimento seu. Eu andei com os seus passos e repeti os seus trejeitos e todos os meus movimentos eram movimentos seus. E todos os meus pensamentos eram palavras suas e todas as minhas lembranças eram com os seus olhos e quando eu olhar nos olhos de alguém será cada vez mais o nosso olhar, nos olhos, sempre, para sempre.

Menina-serpente


O assunto da poligamia pega fundo, ok, mas o assunto da mulher cruel pega mais forte. Se pá assim como a gente não discute anarquismo com a Lô a gente também não devia falar de relacionamentos comigo. A gente homens (mas eu nunca falo disso com mulheres, na real). A situação é a seguinte, está acontecendo agora mesmo milhares de vezes ao redor do mundo: o garoto gosta muito da menina, mas não tem coragem de falar com ela. Talvez ele ache que ela é confusa. Talvez ele ache que falar é muito agressivo e esteja tentando ser sutil. Talvez ele já saiba que ela sabe e ache que é a vez dela de agir. Em todo caso, ele não se revela, e ela sabe dos sentimentos dele mas não faz nada a respeito. Por que isso é cruel? A questão é que é muito confortável (será?) para a menina ter um cara que gosta dela, por isso ela não quer se livrar dele. Ao mesmo tempo, ela não quer, ou acha que não pode, dar o que ele quer, por isso não o aceita. Por um lado eu entendo que isso seja cruel. Por outro lado, eu sei que eu fiz isso algumas vezes, e faria de novo, porque se a menina é folgada o garoto também é covarde, e no fundo talvez a garota também seja só covarde, ou esteja muito confusa, ou ache que se o garoto realmente quiser se livrar dessa situação, hey, é só ele falar com ela, entender a situação, e se for o caso ir embora. Se pá a questão é que eu sempre me identifico com a história, mas eu sei que não é o mesmo caso. Porque no meu caso a garota não está confortável. Nunca é confortável fazer alguém que você ama sofrer.

Mordida


Eu te quero! Eu te amo! Eu penso em você o tempo todo, o dia todo, eu penso em você quando estou com ele, eu penso em você quando estou em casa*, eu passo o dia todo pensando em te chamar, depois eu desisto e volto pra minha vida de sempre. Mas você é parte da minha vida e eu me pergunto até quando eu vou conseguir te ver e não te abraçar, te ter e não te apertar, olhar nos teus olhos e não dizer que te ouvir é uma das melhores coisas do meu mundo. Como eu posso te querer tanto e entretanto... E entretanto... Entretanto... É que há tanta coisa pra tentar entender...

* eu juro que estava pensando na usp quando escrevi esta palavra... o que isso quer dizer?

Amar


Você entrou tão rápida e intensamente na minha vida, e ontem eu estava falando desses amigos que são tão próximos que eu não hesito e não preciso pensar pra dizer que amo, e sem pensar eu coloquei você no meio dos quatro óbvios de sempre. Logo depois do Bruno, acho que é simbólico.

Nessa hora, o assunto era esta história que eu vou contar:
Estávamos conversando sobre você. Eu sei que os dois estavam falando mais porque eles gostam de você e porque queriam, sei lá, te ajudar ou te proteger, ou quem sabe porque eles gostam de mim e, eu nunca entendo essas conversas que rolam entre os homens, e eu nunca entendo o que eles esperam de mim, enfim, eles estavam falando sobre você e eu senti uma coisa muito forte, que eu não consegui expressar porque parecia errado, como eu podia estar pensando aquilo mas, mas eu pensei parem de falar assim dele, eu quis dizer eu gosto demais desse cara pra vocês falarem assim levianamente dele, eu quis dizer isso mas não consegui, eu quis dizer não falem dele como se fosse só seu amigo, eu quis dizer mas não consegui entender, qual é o problema de um cara ser seu amigo, qual é o problema de falar dele, qual é o meu problema.

Lôba


E talvez pensando agora o que eu quisesse dizer fosse "parem de falar assim de mim". Porque eu não quero ninguém se pondo entre eu e as pessoas de quem eu gosto, não me importa se quem se interpõe é minha irmã, meu namorado, meu melhor amigo, meu amantes, não me importa se quem se interpõe é alguém que eu venero que eu amo em quem eu confio a minha alma, eu não quero ninguém pondo os dedos no meu território, na minha alcatéia, na minha caçada. Não quero ninguém me protegendo, me pondo limites, me fazendo exigências. Aceito avisos, alertas, até mesmo pedidos, especialmente pedidos de cuidado, de delicadeza, nunca porém pedidos de segredo ou de mentira. Eu quero ter relações diretas, íntimas e intensas com as pessoas. E intensamente verdadeiras. Tipo falar a verdade e levar tapa na cara, é isso que eu quero fazer. Seguir meu coração etc. Correr o risco de me machucar. Talvez até mesmo correr o risco de te machucar.

E:


Tudo o que eu vou te perguntar é: você quebra?
E você tem coragem suficiente para assumir a responsabilidade pelo que você sente?

2 comentários:

Marcio Zamboni disse...

adoro seus interlocutores indefinidos.
São intrigantes e perigosos.
Além de permitirem situar sua escrita em uma turbulenta fronteira entre um diário íntimo, uma crônica e uma potencial ficção.
não entendo bem os limites entre os gêneros, então se é para dizer besteira eu diria de uma vez que sua escrita tem algo de "devir-ficção".
ela parece caminhar para a ficção sem se desconectar com o diário íntimo.

Cacau =^.^= disse...

Garota, eu ia dizer que o Eu-você é emocionante, e Amar, Loba, E. tambem são.
Mas prefiro falar a verdade, Você é emocionante.