terça-feira, 24 de novembro de 2009

Desânimo

Mas não é só isso. Quer dizer, não é só a frustração dos trabalhos que não dão mais prazer, das aulas em que não se faz nada nem se aprende, da rotina que gira em falso, que não significa nada, nem a dificuldade filha da puta de se ter amigos que no mínimo apareçam numa festa de aniversário (uma vez por ano, porra, com garantia de diversão), nem a resistência interna cada vez maior de se considerar uma designer que é cada vez mais parecida com dor, nem apenas também o horário noturno que que torna o sacrifício muito maior. É tudo isso, sempre foi, ainda é, mas eu sei agora que é algo mais, algo que vem não apenas da vontade de realizar os sonhos de infância mas também do outro lado, do lado que quer vencer, do lado que quer chegar ao fim de alguma coisa, que não agüenta mais estar alheio a tudo isso. Não é só isso — é que agora cada vez que eu vejo uma pessoa feliz com suas conquistas, uma pessoa se formando, uma pessoa fazendo iniciação, uma pessoa estudando ou trabalhando (na verdade, mesmo se a pessoa não estiver feliz) eu sinto uma dor no peito, um desejo de ser assim também, de estudar, de trabalhar, de ir em frente, de fazer grandes coisas.

Mas eu não posso ser assim na FAU. Eu não sei ser assim. Eu não posso trabalhar sozinha e eu também não tenho o pique para acompanhar o ritmo do resto da turma. Eu não posso vencer na FAU. Eu nunca vou vencer. Eu continuo me perguntando por que eu escolhi justamente um dos poucos cursos que ia me fazer me sentir amarrada ao mesmo tempo que ofereceria os maiores de todos os desafios. Não há como eu honestamente acreditar que eu vou conseguir me formar nesse curso. Mesmo se eu conseguisse fazer umas sete ou oito matérias por semestre (sem optativas) eu me formaria em no mínimo seis anos. Ou talvez o mínimo, contando os conflitos de horário e whatnot, já tenha chegado em sete. E aí, mesmo me esforçando ao máximo ou desistindo de todas as optativas, eu teria que pedir por favor pra comissão não me jubilar. Mas eu não quero mais me esforçar ao máximo para aprender quase nada, eu não quero ter que convencer a comissão de nada. Eu quero estudar mecânica, programação, didática, arte, história; eu quero conseguir tirar um sentido disso tudo. O design na verdade faz sentido. O que não faz sentido é este curso de design.

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PS.:
Meus sonhos de infância são:
. viver na selva
. ser um animal selvagem
. lutar muito bem
. construir brinquedos
. fazer brinquedos de controle remoto
. escrever livros
. fazer histórias em quadrinhos
. fazer jogos de videogame
. saber muitas coisas
. ensinar
. velejar
. viajar
. viver com muitos bichos e muitas plantas
. andar a cavalo
. jogar bola bem

Acho que o design é uma boa forma de amarrar tudo, sem problemas.
Bem, o problema é que eu não tenho nada pra amarrar.

4 comentários:

Utak disse...

Não sei má, não sei o que dizer.ja pensou em fazer pedagogia? computação?

Utak disse...

pior é q eu sei q vc ja pensou.... Não tem nenhum outro curso mais interessante que Design?
Do jeito que você fala, parece que Desing simpelsmente não é o que você quer.

Tito Peçanha Leitão disse...

Esse tipo de dúvida/confusão não acometem apenas pessoas do design.
Algumas pessoas parece que acham que por que eu estou fazendo uma iniciação minha carreira está perfeita. Mas a coisa é bem distante disso. Ajuda, é claro, mas cria outros problemas (acho que estágio é assim também).
A gente fica sempre se perguntando sobre o sentido e sobrea relevância do que a gente produz.

Bom, quanto a festas de aniversário, eu entendo bem o que você diz também. é inacreditável a resistência das pessoas de se encontarem, nem que seja 1 vez por ano! Anyway, não deixe você de vir na minha depois desse discurso (vc recebeu o imeil, certo?)

;)

Tito Peçanha Leitão disse...

ps: festas de aniversário deviam ser consideradas coisas sagradas.

anyway,seus sonho se infância são ótimos! fiquei com vontade de listar os meus...