I like the eyes of you
When you beckon
I feel the tastes of you
When you kiss
I taste the mouths of you
When you touch
I bite the skins off you
When you scream
Eu me sinto cheia de energia e calor
Foda-se que eu passei os últimos dois dias doente e que estou começando a ficar gripada
Eu me sinto uma lôba de novo, e foda-se tudo o mais
Eu quero dançar
Eu quero voar
Eu quero caçar todas as minhas presas
I am the night wolf
Hear me howl
Hear me snarl
Make me purr
I smell the yearns of you
When you
palavra por palavra, procuro chegar, devagar, ao lugar de La Loba.
"O silêncio", disse o griot,"só é escuro no começo..."
terça-feira, 21 de agosto de 2012
sábado, 7 de julho de 2012
On Making Friends Who Live In Different Continents
Now you're probably just getting into the cab
Maybe I should have walked you there
Maybe I should have told you that I already love you
Maybe someday we'll meet again
I'm gonna miss you even when I go back home
When I go back to my life, to my fights, to my friends
I don't know how long that feeling lasts
Right now it feels like everything's forever
So let's go for another pichet,
Have another pivo
Let's go for the next bar, for the next club, for the next park
Maybe someday I'll drink with you again
I'm gonna miss the way you can't say my name
The way you sometimes speak our swearwords right
I'm gonna miss your crazy stories and world views
And your crappy english and your crappy french
And all those sounds I can't pronunciate
And how you make czech sound like the Black Tongue
Most of all that crow-qwork city name, Prague
I'm gonna miss all the Yeah, so's and the For sure!'s
Maybe I can start using those at home
I'm gonna miss the way sometimes you said Well, so, so, ok, so, generally...
And then you used that word 'bout every time you spoke
Let's have another pichet
Have another biére
Raise that glass for Math, this year
Um brinde a Été à Montréal,
Let's say santé, na zdraví, skål!
So, maybe one day we'll meet again
I'll go to your land or you to mine
We'll drink and bike-ride and play football
We'll club 'till morning and perhaps hike
We'll go pub-crawling and gastro-touring
We'll exchange stories and learn new words
We'll watch the sun rise and watch it set
If it happens that we meet again
Have a safe trip home and a great end of summer, guys.
Maybe I should have walked you there
Maybe I should have told you that I already love you
Maybe someday we'll meet again
I'm gonna miss you even when I go back home
When I go back to my life, to my fights, to my friends
I don't know how long that feeling lasts
Right now it feels like everything's forever
So let's go for another pichet,
Have another pivo
Let's go for the next bar, for the next club, for the next park
Maybe someday I'll drink with you again
I'm gonna miss the way you can't say my name
The way you sometimes speak our swearwords right
I'm gonna miss your crazy stories and world views
And your crappy english and your crappy french
And all those sounds I can't pronunciate
And how you make czech sound like the Black Tongue
Most of all that crow-qwork city name, Prague
I'm gonna miss all the Yeah, so's and the For sure!'s
Maybe I can start using those at home
I'm gonna miss the way sometimes you said Well, so, so, ok, so, generally...
And then you used that word 'bout every time you spoke
Let's have another pichet
Have another biére
Raise that glass for Math, this year
Um brinde a Été à Montréal,
Let's say santé, na zdraví, skål!
So, maybe one day we'll meet again
I'll go to your land or you to mine
We'll drink and bike-ride and play football
We'll club 'till morning and perhaps hike
We'll go pub-crawling and gastro-touring
We'll exchange stories and learn new words
We'll watch the sun rise and watch it set
If it happens that we meet again
Have a safe trip home and a great end of summer, guys.
terça-feira, 26 de junho de 2012
A Lagoa de Cristal
(one of my oldests daydreams was this of a cleansing magic. it could heal body and mind, clean air and earth and water, and make everything good and full of beauty)
---
E de repente estavam numa clareira, e as árvores estavam coloridas com reflexos inconstantes de água clara. A lagoa parecia apenas uma lagoa comum, e, como acontece com as lagoas comuns, a vegetação era mais vistosa e mais verde bem perto da água. Dava pra ver as pedras arredondadas brilhando no lugar onde a lagoa escoava num rio raso, mas o rio que a alimentava estava do outro lado, meio longe e escondido na mata. "Não parece muito impressionante", pensou Marin, e pôs um pé dentro da água.
O pé queimou como se pisasse em fogo, e ela pulou para trás de reflexo, assustada, as patas ardendo e o coração disparado. Rafael pulou junto, de susto; os dois meninos olharam pra ela preocupados.
-- A água às vezes arde enquanto cura. -- disse Rind, enquanto Marin recusava ajuda pra levantar. -- A gente tem que entrar devagar, por isso e porque precisa estar calmo pra não... pra não esquecer o que significa estar bem.
-- O que quer dizer? -- perguntou Rafa, com os dois pés dentro da lagoa, -- Está fazendo cócegas, mas é gostoso. -- ele fechou os olhos e foi andando lentamente pra dentro da água. Esse era o lugar certo pra fazer isso, Rind tinha dito, porque a lagoa ali era rasa e ia afundando lentamente. Mas havia também uma trilha para cima da pedra que ficava na parte mais profunda da lagoa, de onde alguém menos cauteloso poderia pular, ou ser jogado. Rind tinha dito que se você fosse jogado na Lagoa, corria o risco de se dissolver na água, ou virar um unlak ou um cardume de peixes. Marin não acreditava em unlaks ou em gente virando água e peixe. Ela tinha visto o homem-cavalo e o lobo que corria pelas nuvens, mas esses eram outros tipos de mágica. Rind tinha dito que depois da Lagoa ela ia ser tão forte quanto o Unicórnio. Que os homens-cavalo batizavam todas as suas crianças nessa água pra receber a bênção dos Guardiões, que eles sempre nos guardem. Mas a Lagoa ardia nos seus pés, enquanto Rafael entrava nela tranqüilamente, de olhos fechados. Não era justo. Tudo era sempre mais fácil para os meninos! Mas por um instante Marin viu Rafael fazer uma careta ao dar um passo. Talvez ele estivesse só fingindo, e aí era ainda pior. Ela não podia deixar ele ser mais corajoso que ela. Tudo era sempre mais fácil para um menino, mas ela era melhor que ele, ela fazia as coisas mais difíceis.
Rind gritou -- Marin, não corr --- mas ela estava correndo e tropeçando e caindo na água, tchi-bum, e a lagoa era funda o bastante pra ela de repente estar no fundo, e tudo era claro, cegante de claro, e doía e ardía, queimava como entrar numa banheira de gelo.
Marin de repente queria sair dali, não queria sentir mais dor. Ela era uma mulher, diziam que mulheres sentem menos dor, ela nunca tinha sentido tanta dor assim, nem naquela vez jogando bola - mas era impossível pensar em jogar bola, ela queria gritar, queria que tivesse menos luz, até a água dentro da sua boca ardia na sua língua, no céu da boca, como uma pasta de dente ardida demais. Em algum livro tinha um homem que ficava ferido e desmaiava de dor, será que ela ia desmaiar de dor?
E então talvez ela estivesse desmaiando, porque a dor passou, e então vieram as sensações estranhas. As sensações estranhas eram de calor e frio ao mesmo tempo, de molhado mas ressecado, e havia um vento extremamente forte que ameaçava levá-la pelos ares. Seus olhos estavam cegos, então só restava sentir. Marin sentiu que estava numa floresta, com cheiro de chuva e mato e o cheiro do pêlo do lôbo branco na sua pele, na sua bôca, junto com a sensação da fôrça que vinha nas suas quatro patas, e cheio daquele som das árvores chacoalhadas pela ventania -- depois sentiu que ondas batiam forte nas suas pernas por todos os lados, e um vento louco jogava água e areia na sua cara, e a balançava como uma árvore -- depois que água corria por ima dela como se ela fosse uma sarjeta, ou o leito de um rio caudaloso, mas rodas e patas corriam por ela, e ela se sentia vibrar como um tambor -- de repente ela se sentiu seca e forte como um cavalo, com cheiro de estábulo de fazenda, e vontade de correr pelo mundo -- e por um momento todas as sensações ficaram muito confusas quando ela começou a correr simultaneamente em todas as direções, e ela lembrou de quando ela ficava na varanda de um apartamento olhando os carros passando e querendo ser o Vento.
Então o Vento voltou a ser uma pessoa, que pôs as patas muito confusas no fundo da lagoa. Agora ela conseguia ver tudo muito claramente, e por um momento sentiu se sentiu maravilhosa - tudo estava no lugar, e ela podia se mexer como quisesse, e respirar debaixo d'água, e ser qualquer coisa! Seu corpo mudava de forma e tudo mudava de cor, e parecia que sua mente também estava se mexendo. Mas aos poucos a alegria foi mudando para desespêro, porque seus dentes pareciam moles e soltos mudando de forma sem parar no lugar, e suas mão de repente não pareciam mais mãos de nada que ela conhecesse, e sua pele ficava mudando de textura e até seus pêlos não ficavam de um jeito só. Rind tinha dito pra tomar cuidado, que era importante ser você mesmo no final. Marin não queria virar uma unlak ou um cardume. Nem mesmo queria ser o Vento. Era tão estranho não ser ninguém desse jeito, e ela tinha tanta coisa que ela era. Marin decidiu que estar bem era ser você mesmo. E então ela teve braços de menina e pernas de menina, e barriga de menina, e olhos de menina que viam muito bem debaixo d'água, e tentou lembrar como era ter dentes de menina, e como era ficar de pé, e respirar, e como eram seus cabelos, e seus pés, e suas outras patas. No fim, ela estava bastante parecida consigo mesma, e se sentindo leve, porque não tinha lembrado de devolver o cansaço, a fome e outros desconfortos de menina.
O fundo da lagoa era azul e bonito e cheio de peixes que Marin queria perseguir e tentar pegar. Mas meninas não respiravam debaixo d'água, e logo ela estava se desesperando e procurando voltar à superfície, à superfície, onde haveria ar!
Quando saiu da Lagoa, arfando e pingando água brilhante, que agora parecia um pouco assustadora, Marin encontrou Rafael, saindo da Lagoa rindo e brincando com a água.
-- Foi incível, Rind! Eu fui um pássaro e uma cobra, e nadei como uma tartaruga e voei como um falcão! Eu fui de todas as cores e de todas as formas, e eu sinto como se fosse pra ser assim mesmo, eu vou ser tudo, eu vou me tornar tudo o que eu quiser! Você não se sente assim, Marin? É tão incrível! Eu vou voar além das nuvens! E você, Marin, o que você foi?
Marin olhou para Rafa seriamente, pensando em como ele estava levando aquilo como se tivesse sido uma brincadeira deliciosa, como tomar sorvete e ir no parque de diversões. Mas, pensando bem, ela se sentia bem, agora que tinha acabado. Era como se ela tivesse se afogado e voltado à vida de uma vez só, mas agora estava tudo bem. Seu corpo inteiro ainda ardia um pouco, mas era um ardor leve, que um vendedor de pasta de dente chamaria de "refrescância". Só restava um pouco de estranheza, de não ter muita certeza de se ela ainda era a mesma pessoa de antes. Ou talvez ela fosse, e tudo aquilo tivesse sido só um sonho.
-- Marin? O que você foi?
-- O que mais, Rafa? Eu fui um lôbo.
---
E de repente estavam numa clareira, e as árvores estavam coloridas com reflexos inconstantes de água clara. A lagoa parecia apenas uma lagoa comum, e, como acontece com as lagoas comuns, a vegetação era mais vistosa e mais verde bem perto da água. Dava pra ver as pedras arredondadas brilhando no lugar onde a lagoa escoava num rio raso, mas o rio que a alimentava estava do outro lado, meio longe e escondido na mata. "Não parece muito impressionante", pensou Marin, e pôs um pé dentro da água.
O pé queimou como se pisasse em fogo, e ela pulou para trás de reflexo, assustada, as patas ardendo e o coração disparado. Rafael pulou junto, de susto; os dois meninos olharam pra ela preocupados.
-- A água às vezes arde enquanto cura. -- disse Rind, enquanto Marin recusava ajuda pra levantar. -- A gente tem que entrar devagar, por isso e porque precisa estar calmo pra não... pra não esquecer o que significa estar bem.
-- O que quer dizer? -- perguntou Rafa, com os dois pés dentro da lagoa, -- Está fazendo cócegas, mas é gostoso. -- ele fechou os olhos e foi andando lentamente pra dentro da água. Esse era o lugar certo pra fazer isso, Rind tinha dito, porque a lagoa ali era rasa e ia afundando lentamente. Mas havia também uma trilha para cima da pedra que ficava na parte mais profunda da lagoa, de onde alguém menos cauteloso poderia pular, ou ser jogado. Rind tinha dito que se você fosse jogado na Lagoa, corria o risco de se dissolver na água, ou virar um unlak ou um cardume de peixes. Marin não acreditava em unlaks ou em gente virando água e peixe. Ela tinha visto o homem-cavalo e o lobo que corria pelas nuvens, mas esses eram outros tipos de mágica. Rind tinha dito que depois da Lagoa ela ia ser tão forte quanto o Unicórnio. Que os homens-cavalo batizavam todas as suas crianças nessa água pra receber a bênção dos Guardiões, que eles sempre nos guardem. Mas a Lagoa ardia nos seus pés, enquanto Rafael entrava nela tranqüilamente, de olhos fechados. Não era justo. Tudo era sempre mais fácil para os meninos! Mas por um instante Marin viu Rafael fazer uma careta ao dar um passo. Talvez ele estivesse só fingindo, e aí era ainda pior. Ela não podia deixar ele ser mais corajoso que ela. Tudo era sempre mais fácil para um menino, mas ela era melhor que ele, ela fazia as coisas mais difíceis.
Rind gritou -- Marin, não corr --- mas ela estava correndo e tropeçando e caindo na água, tchi-bum, e a lagoa era funda o bastante pra ela de repente estar no fundo, e tudo era claro, cegante de claro, e doía e ardía, queimava como entrar numa banheira de gelo.
Marin de repente queria sair dali, não queria sentir mais dor. Ela era uma mulher, diziam que mulheres sentem menos dor, ela nunca tinha sentido tanta dor assim, nem naquela vez jogando bola - mas era impossível pensar em jogar bola, ela queria gritar, queria que tivesse menos luz, até a água dentro da sua boca ardia na sua língua, no céu da boca, como uma pasta de dente ardida demais. Em algum livro tinha um homem que ficava ferido e desmaiava de dor, será que ela ia desmaiar de dor?
E então talvez ela estivesse desmaiando, porque a dor passou, e então vieram as sensações estranhas. As sensações estranhas eram de calor e frio ao mesmo tempo, de molhado mas ressecado, e havia um vento extremamente forte que ameaçava levá-la pelos ares. Seus olhos estavam cegos, então só restava sentir. Marin sentiu que estava numa floresta, com cheiro de chuva e mato e o cheiro do pêlo do lôbo branco na sua pele, na sua bôca, junto com a sensação da fôrça que vinha nas suas quatro patas, e cheio daquele som das árvores chacoalhadas pela ventania -- depois sentiu que ondas batiam forte nas suas pernas por todos os lados, e um vento louco jogava água e areia na sua cara, e a balançava como uma árvore -- depois que água corria por ima dela como se ela fosse uma sarjeta, ou o leito de um rio caudaloso, mas rodas e patas corriam por ela, e ela se sentia vibrar como um tambor -- de repente ela se sentiu seca e forte como um cavalo, com cheiro de estábulo de fazenda, e vontade de correr pelo mundo -- e por um momento todas as sensações ficaram muito confusas quando ela começou a correr simultaneamente em todas as direções, e ela lembrou de quando ela ficava na varanda de um apartamento olhando os carros passando e querendo ser o Vento.
Então o Vento voltou a ser uma pessoa, que pôs as patas muito confusas no fundo da lagoa. Agora ela conseguia ver tudo muito claramente, e por um momento sentiu se sentiu maravilhosa - tudo estava no lugar, e ela podia se mexer como quisesse, e respirar debaixo d'água, e ser qualquer coisa! Seu corpo mudava de forma e tudo mudava de cor, e parecia que sua mente também estava se mexendo. Mas aos poucos a alegria foi mudando para desespêro, porque seus dentes pareciam moles e soltos mudando de forma sem parar no lugar, e suas mão de repente não pareciam mais mãos de nada que ela conhecesse, e sua pele ficava mudando de textura e até seus pêlos não ficavam de um jeito só. Rind tinha dito pra tomar cuidado, que era importante ser você mesmo no final. Marin não queria virar uma unlak ou um cardume. Nem mesmo queria ser o Vento. Era tão estranho não ser ninguém desse jeito, e ela tinha tanta coisa que ela era. Marin decidiu que estar bem era ser você mesmo. E então ela teve braços de menina e pernas de menina, e barriga de menina, e olhos de menina que viam muito bem debaixo d'água, e tentou lembrar como era ter dentes de menina, e como era ficar de pé, e respirar, e como eram seus cabelos, e seus pés, e suas outras patas. No fim, ela estava bastante parecida consigo mesma, e se sentindo leve, porque não tinha lembrado de devolver o cansaço, a fome e outros desconfortos de menina.
O fundo da lagoa era azul e bonito e cheio de peixes que Marin queria perseguir e tentar pegar. Mas meninas não respiravam debaixo d'água, e logo ela estava se desesperando e procurando voltar à superfície, à superfície, onde haveria ar!
Quando saiu da Lagoa, arfando e pingando água brilhante, que agora parecia um pouco assustadora, Marin encontrou Rafael, saindo da Lagoa rindo e brincando com a água.
-- Foi incível, Rind! Eu fui um pássaro e uma cobra, e nadei como uma tartaruga e voei como um falcão! Eu fui de todas as cores e de todas as formas, e eu sinto como se fosse pra ser assim mesmo, eu vou ser tudo, eu vou me tornar tudo o que eu quiser! Você não se sente assim, Marin? É tão incrível! Eu vou voar além das nuvens! E você, Marin, o que você foi?
Marin olhou para Rafa seriamente, pensando em como ele estava levando aquilo como se tivesse sido uma brincadeira deliciosa, como tomar sorvete e ir no parque de diversões. Mas, pensando bem, ela se sentia bem, agora que tinha acabado. Era como se ela tivesse se afogado e voltado à vida de uma vez só, mas agora estava tudo bem. Seu corpo inteiro ainda ardia um pouco, mas era um ardor leve, que um vendedor de pasta de dente chamaria de "refrescância". Só restava um pouco de estranheza, de não ter muita certeza de se ela ainda era a mesma pessoa de antes. Ou talvez ela fosse, e tudo aquilo tivesse sido só um sonho.
-- Marin? O que você foi?
-- O que mais, Rafa? Eu fui um lôbo.
quinta-feira, 24 de maio de 2012
Alarara/En Passant
"Somos do mesmo sangue, tu e eu"
Um dia eu acreditei nessas palavras
Mas o tempo passou e tudo mudou tanto
Será que todo mundo se sente como um extraterreste?
Quando eu era pequena, várias das minhas estórias começavam com ir para outro mundo. No outro mundo, eu era uma rainha, uma princesa, uma guerreira, uma heroína (ou talvez vocês fossem entender melhor se eu dissesse um Rei, um Príncipe, um Guerreiro, um Herói). Eu era descendente do Povo Antigo, escolhida pelos Guardiães, meu Destino era proteger o meu lugar, where I belonged.
Or do I belong there still?
Com o tempo, eu comecei a entender que se eu descendia dos Grandes Reis, só podia ser através de meus pais. Eu não poderia abdicar da veracidade da minha família, então meus irmãos, meus primos e às vezes até gente adulta começaram a aparecer nas minhas aventuras. Meus irmãos vinham para o Mundo comigo, eles eram grandes Líderes, tinham conhecimentos e habilidades que eu não tinha, e eram valorosos rivais, aliados ou inimigos. Mas fatalmente, dado alguns anos no Mundo, eles acabavam voltando para o mundo real, ou eles se envolviam com os seus próprios problemas, e eu acabava ficando só com os meus amigos de Lá, vivendo aquelas aventuras muito pessoais, construindo uma história e uma família que...
Depois, resolvi voltar para o mundo d'Aqui, mas sei lá... Eu quiz trazer meus amigos comigo, mas não sabia como apresentá-los à galera. E como explicar para minha mãe que eu ainda a amava, mesmo depois de todos aqueles anos? E como explicar que eu não era a mesma pessoa que havia saído daqui? Como explicar o que eu era? E quem eu era afinal?
Meus irmãos entenderam algumas coisas, e eu com muito esforço de ambas as partes consegui explicar uma ou outra coisa a alguns homens apaixonados (ao longo dos anos). Mas eles se afastaram (enfim, nós nos afastamos) e, bom, tantas vezes foi tão difícil traduzir as palavras de Veraki, Hatsi e Zaty para a língüa dos humanos...
Enfim...
No fundo, eu voltei para casa e tentei lutar a luta pequena (ränaki), a lida de manter a casa (honaki?) e viver a vida (maaki?). Afinal, a outra eu estava tendo um filho, e ensinando crianças. E tal. E eu estava determinada a conviver com pessoas, pra variar.
"Somos do mesmo sangue, tu e eu."
Mas nós não somos nem do mesmo mundo! No fundo, eu fui criada meio em Ziget, e eu sou meio Zaty. Por dentro, por dentro, por dentro.
Será que todo mundo se sente um extraterrestre? Será que cada pessoa veio de outro planeta? Ou será que sou só eu?
Eu estou começando a esquecer as minhas palavras... E me dói isso, eu entendo a dor de quem não pertence a lugar algum.
Será que todo mundo se sente um extraterrestre?
Um dia eu acreditei nessas palavras
Mas o tempo passou e tudo mudou tanto
Será que todo mundo se sente como um extraterreste?
Quando eu era pequena, várias das minhas estórias começavam com ir para outro mundo. No outro mundo, eu era uma rainha, uma princesa, uma guerreira, uma heroína (ou talvez vocês fossem entender melhor se eu dissesse um Rei, um Príncipe, um Guerreiro, um Herói). Eu era descendente do Povo Antigo, escolhida pelos Guardiães, meu Destino era proteger o meu lugar, where I belonged.
Or do I belong there still?
Com o tempo, eu comecei a entender que se eu descendia dos Grandes Reis, só podia ser através de meus pais. Eu não poderia abdicar da veracidade da minha família, então meus irmãos, meus primos e às vezes até gente adulta começaram a aparecer nas minhas aventuras. Meus irmãos vinham para o Mundo comigo, eles eram grandes Líderes, tinham conhecimentos e habilidades que eu não tinha, e eram valorosos rivais, aliados ou inimigos. Mas fatalmente, dado alguns anos no Mundo, eles acabavam voltando para o mundo real, ou eles se envolviam com os seus próprios problemas, e eu acabava ficando só com os meus amigos de Lá, vivendo aquelas aventuras muito pessoais, construindo uma história e uma família que...
Depois, resolvi voltar para o mundo d'Aqui, mas sei lá... Eu quiz trazer meus amigos comigo, mas não sabia como apresentá-los à galera. E como explicar para minha mãe que eu ainda a amava, mesmo depois de todos aqueles anos? E como explicar que eu não era a mesma pessoa que havia saído daqui? Como explicar o que eu era? E quem eu era afinal?
Meus irmãos entenderam algumas coisas, e eu com muito esforço de ambas as partes consegui explicar uma ou outra coisa a alguns homens apaixonados (ao longo dos anos). Mas eles se afastaram (enfim, nós nos afastamos) e, bom, tantas vezes foi tão difícil traduzir as palavras de Veraki, Hatsi e Zaty para a língüa dos humanos...
Enfim...
No fundo, eu voltei para casa e tentei lutar a luta pequena (ränaki), a lida de manter a casa (honaki?) e viver a vida (maaki?). Afinal, a outra eu estava tendo um filho, e ensinando crianças. E tal. E eu estava determinada a conviver com pessoas, pra variar.
"Somos do mesmo sangue, tu e eu."
Mas nós não somos nem do mesmo mundo! No fundo, eu fui criada meio em Ziget, e eu sou meio Zaty. Por dentro, por dentro, por dentro.
Será que todo mundo se sente um extraterrestre? Será que cada pessoa veio de outro planeta? Ou será que sou só eu?
Eu estou começando a esquecer as minhas palavras... E me dói isso, eu entendo a dor de quem não pertence a lugar algum.
Será que todo mundo se sente um extraterrestre?
quarta-feira, 9 de maio de 2012
Oises.
So then,
we'd better stop.
But I can't stop... I can't stop...
Descobri ontem que eu gosto muito de ler em voz alta. Gosto especialmente de quando eu leio alguma coisa e você ri. Ou quando eu desperto em você alguma emoção. Ou quando você fica bem quieto esperando a próxima frase. Ou quando seus olhos se perdem sobre mim.
Descobri ontem que minha vida é razoávelmente cheia pra caralho. Que eu tenho um casaco bonito. Que eu sinto sua falta.
Eu estou sempre reclamando da falta de tempo, mas é tão mentira! Porque quando sobre tempo, eu me irrito muito mais. Então, um brinde à falta de tempo! Vamos celebrar nossas vidas cheias de conflitos e desafios, vamos celebrar nossas ambições e nossos sonhos e nossa necessidade de estar sempre no meio da tempestade, provando nosso valor.
Sköl!
we'd better stop.
But I can't stop... I can't stop...
Descobri ontem que eu gosto muito de ler em voz alta. Gosto especialmente de quando eu leio alguma coisa e você ri. Ou quando eu desperto em você alguma emoção. Ou quando você fica bem quieto esperando a próxima frase. Ou quando seus olhos se perdem sobre mim.
Descobri ontem que minha vida é razoávelmente cheia pra caralho. Que eu tenho um casaco bonito. Que eu sinto sua falta.
Eu estou sempre reclamando da falta de tempo, mas é tão mentira! Porque quando sobre tempo, eu me irrito muito mais. Então, um brinde à falta de tempo! Vamos celebrar nossas vidas cheias de conflitos e desafios, vamos celebrar nossas ambições e nossos sonhos e nossa necessidade de estar sempre no meio da tempestade, provando nosso valor.
Sköl!
sábado, 21 de abril de 2012
Shut down
Nada prende a minha atenção
Eu quero aprender, mas não quero usar a internet
Eu quero viver, mas não quero destruir
I don't wanna be a part of it
eu quero fazer parte de um mundo que nunca mais vai existir
Eu quero aprender, mas não quero usar a internet
Eu quero viver, mas não quero destruir
I don't wanna be a part of it
eu quero fazer parte de um mundo que nunca mais vai existir
domingo, 15 de abril de 2012
Dentro de mim
Um dia eu disse "Chega" e "Vá-se embora". Fechei os olhos e mandei você parar de me fazer sofrer. Você foi embora. E eu não te amo mais.
Está tão vazio aqui. É verdade que minto, porque eu te amo pra sempre, mas eu não sinto mais dor como também não sinto a elação e o júbilo. Porque mesmo sem ter teu amor eu ainda tinha o meu amor por ti me elevando acima dos mortais. E através do meu amor desmesurado, cada sorriso e palavra que me jogavas me colocava num pódio de ouro, e o teu prazer em estar comigo me elevava acima dos gigantes.
Eu sinto falta de você dentro de mim, me enchendo de sonhos e pesadelos, me dando belas imagens com as quais sonhar. Eu sinto falta de ficar tonto com o seu cheiro, de ligar pra você no meio da noite porque ninguém mais parecia capaz de me tirar do fundo do meu poço. Eu sinto saudades do nervoso de te ver online e não conseguir decidir o que escrever na mensagem de texto. Eu sinto falta da certeza de que eu poderia te fazer infinitamente feliz.
Está tão vazio aqui. É verdade que minto, porque eu te amo pra sempre, mas eu não sinto mais dor como também não sinto a elação e o júbilo. Porque mesmo sem ter teu amor eu ainda tinha o meu amor por ti me elevando acima dos mortais. E através do meu amor desmesurado, cada sorriso e palavra que me jogavas me colocava num pódio de ouro, e o teu prazer em estar comigo me elevava acima dos gigantes.
Eu sinto falta de você dentro de mim, me enchendo de sonhos e pesadelos, me dando belas imagens com as quais sonhar. Eu sinto falta de ficar tonto com o seu cheiro, de ligar pra você no meio da noite porque ninguém mais parecia capaz de me tirar do fundo do meu poço. Eu sinto saudades do nervoso de te ver online e não conseguir decidir o que escrever na mensagem de texto. Eu sinto falta da certeza de que eu poderia te fazer infinitamente feliz.
segunda-feira, 26 de março de 2012
Sentimental
Eu falo com você e percebo
o quanto eu menti pra você
Eu queria ter dito a verdade
Eu queria ter dito a verdade
Eu queria ter dito todas as coisas estúpidas em que eu acreditei
Eu queria ter dito as coisas que pareciam verdade porque eu te queria
Eu queria ter confessado que talvez eu estivesse falando bobagem
Eu queria ter dito a verdade
Eu queria ter tido coragem
Mas eu fiquei em silêncio, e agora tudo passou,
passou.
Eu falo com você e sinto
uma camaradagem tranqüila com você
Por baixo da minha vergonha por ter mentido
Por baixo da minha vergonha de ter escondido
Milhões de verdades como raios de sol no solstício de verão iluminando tudo
Milhões de verdades bonitas que eu podia te oferecer mas não ofereci porque eu tinha mêdo de apenas te ofender
por que eu tinha mêdo de receber um não.
Agora, o que eu posso te dar? Nada, tudo já passou.
Você não precisa mais do que eu tinha a te oferecer
E eu deixei passar
E eu deixei passar
Eu queria ter te mostrado que existia uma cura para a dor
Eu queria ter corrido o risco, e queria ter apostado
Que mesmo se fosse horrível, mesmo se
Mesmo se eu fosse depois me sentir jogada aos teus pés
Eu queria ter apostado na sua benevolência
Em me amar pelo menos um pouco de forma que
Eu não precisasse ter vergonha de estar me arrastando aos seus pés
Eu queria ter te ajudado
Eu queria ter te salvado
Eu queria ter revelado as verdades que eu via em você
Eu queria ter te mostrado a beleza de olhar pra você
Eu queria ter te estendido a mão quando você estava afundando e...
Eu estendi uma mão muito tímida pra você
Porque você era em todo caso tão gigantemente superior que eu, bem...
Eu estendi uma mão tímida pra você
E você ainda me agradece
Eu acho que ainda te amo, embora agora seja diferente
Agora eu não tenho mais tanto mêdo
Em baixo da minha vergonha de ter te contado mentiras
Eu queria ter dito a verdade
Eu queria ter te ajudado
Eu queria ter te oferecido o que eu tinha a oferecer
Eu queria ter me exposto
Eu queria ter tido coragem de me oferecer
No fim, só me resta aquela arte fraca, aquela prova da minha vergonha de não ter coragem de me arriscar pra te ajudar a sair de um mundo mau
...
Mas você saiu sem mim.
o quanto eu menti pra você
Eu queria ter dito a verdade
Eu queria ter dito a verdade
Eu queria ter dito todas as coisas estúpidas em que eu acreditei
Eu queria ter dito as coisas que pareciam verdade porque eu te queria
Eu queria ter confessado que talvez eu estivesse falando bobagem
Eu queria ter dito a verdade
Eu queria ter tido coragem
Mas eu fiquei em silêncio, e agora tudo passou,
passou.
Eu falo com você e sinto
uma camaradagem tranqüila com você
Por baixo da minha vergonha por ter mentido
Por baixo da minha vergonha de ter escondido
Milhões de verdades como raios de sol no solstício de verão iluminando tudo
Milhões de verdades bonitas que eu podia te oferecer mas não ofereci porque eu tinha mêdo de apenas te ofender
por que eu tinha mêdo de receber um não.
Agora, o que eu posso te dar? Nada, tudo já passou.
Você não precisa mais do que eu tinha a te oferecer
E eu deixei passar
E eu deixei passar
Eu queria ter te mostrado que existia uma cura para a dor
Eu queria ter corrido o risco, e queria ter apostado
Que mesmo se fosse horrível, mesmo se
Mesmo se eu fosse depois me sentir jogada aos teus pés
Eu queria ter apostado na sua benevolência
Em me amar pelo menos um pouco de forma que
Eu não precisasse ter vergonha de estar me arrastando aos seus pés
Eu queria ter te ajudado
Eu queria ter te salvado
Eu queria ter revelado as verdades que eu via em você
Eu queria ter te mostrado a beleza de olhar pra você
Eu queria ter te estendido a mão quando você estava afundando e...
Eu estendi uma mão muito tímida pra você
Porque você era em todo caso tão gigantemente superior que eu, bem...
Eu estendi uma mão tímida pra você
E você ainda me agradece
Eu acho que ainda te amo, embora agora seja diferente
Agora eu não tenho mais tanto mêdo
Em baixo da minha vergonha de ter te contado mentiras
Eu queria ter dito a verdade
Eu queria ter te ajudado
Eu queria ter te oferecido o que eu tinha a oferecer
Eu queria ter me exposto
Eu queria ter tido coragem de me oferecer
No fim, só me resta aquela arte fraca, aquela prova da minha vergonha de não ter coragem de me arriscar pra te ajudar a sair de um mundo mau
...
Mas você saiu sem mim.
domingo, 25 de março de 2012
En Passant nº3
Eu vejo você sorrindo com palavras
(através de listas de Cálculo)
Eu sinto você limpando as minhas lágrimas com palavras
(através da minha frustação com a graduação)
Eu ouço você se enfurecendo com palavras
(através de um livro do Cálculo)
Eu quero você jogando video-game comigo, com muitas palavras
(no meu sonho, eu estudo porque preciso aprender)
Ah, como eu quero jogar tudo pro alto e rir com você, com palavras.
(através de listas de Cálculo)
Eu sinto você limpando as minhas lágrimas com palavras
(através da minha frustação com a graduação)
Eu ouço você se enfurecendo com palavras
(através de um livro do Cálculo)
Eu quero você jogando video-game comigo, com muitas palavras
(no meu sonho, eu estudo porque preciso aprender)
Ah, como eu quero jogar tudo pro alto e rir com você, com palavras.
quinta-feira, 22 de março de 2012
En passant nº 2
De perto nos poros sinto saudade de um mar que se apega à pele
De perto dentro das minhas narinas guardo o cheiro dele
De perto minha garganta se aperta sem motivo aparente
De perto, o cheiro das folhas e o gosto da terra que sinto através dos poros
Bem perto, o calor do sol e o seu sorriso me chamam para mais um dia dentro do mundo
De perto dentro das minhas narinas guardo o cheiro dele
De perto minha garganta se aperta sem motivo aparente
De perto, o cheiro das folhas e o gosto da terra que sinto através dos poros
Bem perto, o calor do sol e o seu sorriso me chamam para mais um dia dentro do mundo
quarta-feira, 21 de março de 2012
Rápido, en passant!
Teus olhos através do vidro através do vidro,
(eu sei, é acrílico)
no lugar que é teu e não é meu, mas é
meu para estar na altura de te olhar nos olhos
meu para tomar o teu café e comer o teu doce
Teus olhos meio que me recebendo, eu sem expectativas.
Eu gosto de você.
(eu sei, é acrílico)
no lugar que é teu e não é meu, mas é
meu para estar na altura de te olhar nos olhos
meu para tomar o teu café e comer o teu doce
Teus olhos meio que me recebendo, eu sem expectativas.
Eu gosto de você.
segunda-feira, 19 de março de 2012
Comentários
Pra falar a verdade, eu não gosto muito de ler os comentários do meu blog. Controversamente, eu adoro que as pessoas comentem no meu blog. Por mais que metade das vezes eu ache desagradável ler o que vocês escrevem, eu sempre quero saber o que vocês estão pensando. Muitas vezes eu vou ignorar o que li, mas vou prestar atenção, e vou ficar feliz por ter te conhecido um pouco melhor, por ter te provocado uma reação.
Em geral eu me incomodo porque eu escrevo coisas muito pessoais, eu escrevo sobre coisas muito pessoais, e algumas delas são desagradáveis, e quase sempre uma ou duas pessoas colocam comentários sugerindo cursos de ação para resolver o meu problema. Eu nunca fico feliz com esses cursos de ação.
Às vezes a questão é simplesmente que se me parecesse possível tomar esse curso de ação, eu estaria tomando-o, e não escrevendo no blog. É que às vezes as sugestões das pessoas são coisas óbvias, ou coisas em que eu já pensei. Eu não sei bem o que dizer desses casos. Sempre me parece que se eu disser "eu já pensei nisso, não adianta", eu só vou estar sendo chata e rejeitando conselhos amigos.
Às vezes a questão é que o conselho não faz o menor sentido, porque você não entendeu o meu problema. Isso me deixa com raiva quando é alguém próximo, que deveria conseguir me entender, mas também me deixa um pouco triste porque eu não consegui me expressar. Meus amigos estão sempre reclamando que eu sou obscura e que não dá pra entender meus posts. A sensação que eu tenho é de que eu estou falando outra língüa. No fundo, eu tenho que admitir que eu escrevo esses posts muito pessoais para mim mesma, e não para vocês. Eu continuo postando eles no blog porque vocês ficam me dizendo que eles são bonitos, e que fazem vocês pensarem, e eu tenho vontade de ouvir alguém dizer que entende, que também passa ou passou por isso, que não é fácil mesmo, mas que tem solução (mas vocês quase nunca respondem isso, o que me desespera). Mas no fundo o que eu deveria escrever no blog são os posts de discussão e os de estórias, não os muito pessoais. Ninguém parece entender quando eu estou falando de mim mesma, porque, sabe, aquela parte da minha mente que eu revelo aqui foi criada num mundo paralelo, e nenhum de vocês conhece as referências. Eu sempre tive um pouco de vergonha de contar a verdadeira história, também.
Como em geral os comentários são de gente calma e superior ao problema, vendo soluções simples e fáceis, às vezes me dá a impressão de que sou só eu que tenho essas loucuras. E isso é o pior. Eu queria ser uma pessoa calma, estável, confiante, uma líder e uma companheira, mas eu sempre perco tempo demais da minha vida me afundando em desesperos inúteis. Vocês todos não são assim. Vocês têm as Respostas Fáceis. Vocês acreditam que têm as soluções, ou que têm a forma de se chegar às soluções. E eu admito que não quero seguir a maior parte dos seus conselhos. Eu não os ignoro; eu arquivo, seleciono os melhores pedaçõs, quando há, tento até me convencer a experimentar algumas partes que me parecem imbecis. É muito difícil acreditar nas idéias dos outros.
Eu tenho plena consciência de que eu faço a mesma coisa quando os outros estão em apuros. A fragilidade do outro convoca uma força na gente, uma segurança, de repente a gente enxerga tudo com clareza e sabe exatamente onde está o problema. A fraqueza do outro faz a gente se sentir forte e capaz, faz a gente se sentir bem. Eu detesto essa característica nossa de parar de sentir dor apenas porque a pessoa ao lado está sentindo mais dor do que a gente. Como se ser forte fosse ajudar a diminuir a dor dela. Como se manter a calma fosse acalmá-la. Quando eu estou nervosa, tudo o que eu não quero ao meu redor é gente calma. Eu quero gente capaz de gritar comigo e me tirar do sério. Eu passo tempo demais da minha vida me contendo, não querendo revelar minhas fraquezas.
Aí eu venho aqui e revelo, e todas essas pessoas legais que eu gostaria que me admirassem conhecem todos os meus defeitos. Eu devia calar a boca, eu devia começar a mentir pra vocês, a mostrar a minha face mais bela, a mostrar como eu posso ser forte e competente e mais capaz do que vocês imaginam. Eu queria dirigir até a sua casa e te chamar pra entrar no carro e te levar até um lugar fantástico que eu conheço como a palma da minha mão. Mas isso tudo seria se esconder, e por mais que eu te queira, eu não sei se ainda te quereria se você acreditasse na minha máscara e eu não tivesse vergonha de me mascarar. Eu tenho fraquezas, muitas, eu admito. Mas eu não tenho vergonha de quem eu sou. Eu não me sinto culpada por quem eu sou. Eu sinto até um pouquinho de orgulho, às vezes.
De qualquer forma, pessoas, obrigada. Por favor continuem a comentar.
E comentando os últimos dois comentários (no post abaixo):
Ugo, pensando bem, eu sempre chamo as pessoas pra sair. Eu sou razoavelmente extrovertida quando as pessoas não são assustadoras =P. Eu evito chamar pra sair homens muito seguros de si e muito interessados em mim. Esses eu só chamo pra conhecer meus amigos. Meu amigos são mais ou menos receptivos, mas nem sempre rola. Com certa freqüência eu acho que meus amigos estão olhando pro novo babaca que eu conheci na esquina e desaprovando. Às vezes eu me pergunto se esse critério é bom o suficiente, já que é tão preconceituoso, e tal. O problema é que... não sei, não me sinto segura pra conversar com um um homem desconhecido num lugar público, se eu estiver sozinha. Isso me perturba.
Hita, eu... eu entendo que ficar no círculo de amigos é opressivo. Aí eu vou pras bordas do círculo e descubro que a galera da borda conhece um monte de gente diferente. Os amigos dos amigos dos meus amigos dão gente bastante diferente, bastante libertadora. Às vezes é bom. Eu não me sinto confortável no meio de gente muito diferente de mim, e a maior parte das pessoas é, é claro. Eu não tenho essa manha de sair falando merda pra todo mundo e se rolar, rolou, senão, não. Às vezes eu faço isso, mas, sei lá, não é o meu comum. Não é assim que eu sou, eu gosto de ouvir as pessoas. Às vezes meus amigos fazem amizade com umas pessoas chatíssimas! Eu não consigo me abrir pra gente de quem eu não gosto. Às vezes eu conheço uma pessoa e imediatamente estou falando de tudo o que importa com ela; mas tem que rolar um clima. Tem gente que nem abre espaço pra esse clima rolar, e a gente fica com a sensação de que nem conhece a pessoa... Mas nada disso tem a ver com a pessoa ser amiga ou não, se pá. É que... sim, eu me sinto estranhamente excluída quando as pessoas estão falando de coisas que indiretamente me ofendem, mas eu não chego a ter vontade de confrontar as pessoas com essas coisas pelas quais elas passam sem notar. Isso seria tão pentelho. Tão mala. E talvez eu não queira parecer tão sensível. Mas eventualmente, se não houver um jeito natural de falar das coisas, eu talvez me desinteresse por aquelas pessoas, se elas não forem apaixonantes. Talvez eu precise me apaixonar eplas pessoas para confiar nelas. Talvez eu só consiga acreditar no que os meus sentimentos gritam pra mim num volume que sempre será ouvido.
Em geral eu me incomodo porque eu escrevo coisas muito pessoais, eu escrevo sobre coisas muito pessoais, e algumas delas são desagradáveis, e quase sempre uma ou duas pessoas colocam comentários sugerindo cursos de ação para resolver o meu problema. Eu nunca fico feliz com esses cursos de ação.
Às vezes a questão é simplesmente que se me parecesse possível tomar esse curso de ação, eu estaria tomando-o, e não escrevendo no blog. É que às vezes as sugestões das pessoas são coisas óbvias, ou coisas em que eu já pensei. Eu não sei bem o que dizer desses casos. Sempre me parece que se eu disser "eu já pensei nisso, não adianta", eu só vou estar sendo chata e rejeitando conselhos amigos.
Às vezes a questão é que o conselho não faz o menor sentido, porque você não entendeu o meu problema. Isso me deixa com raiva quando é alguém próximo, que deveria conseguir me entender, mas também me deixa um pouco triste porque eu não consegui me expressar. Meus amigos estão sempre reclamando que eu sou obscura e que não dá pra entender meus posts. A sensação que eu tenho é de que eu estou falando outra língüa. No fundo, eu tenho que admitir que eu escrevo esses posts muito pessoais para mim mesma, e não para vocês. Eu continuo postando eles no blog porque vocês ficam me dizendo que eles são bonitos, e que fazem vocês pensarem, e eu tenho vontade de ouvir alguém dizer que entende, que também passa ou passou por isso, que não é fácil mesmo, mas que tem solução (mas vocês quase nunca respondem isso, o que me desespera). Mas no fundo o que eu deveria escrever no blog são os posts de discussão e os de estórias, não os muito pessoais. Ninguém parece entender quando eu estou falando de mim mesma, porque, sabe, aquela parte da minha mente que eu revelo aqui foi criada num mundo paralelo, e nenhum de vocês conhece as referências. Eu sempre tive um pouco de vergonha de contar a verdadeira história, também.
Como em geral os comentários são de gente calma e superior ao problema, vendo soluções simples e fáceis, às vezes me dá a impressão de que sou só eu que tenho essas loucuras. E isso é o pior. Eu queria ser uma pessoa calma, estável, confiante, uma líder e uma companheira, mas eu sempre perco tempo demais da minha vida me afundando em desesperos inúteis. Vocês todos não são assim. Vocês têm as Respostas Fáceis. Vocês acreditam que têm as soluções, ou que têm a forma de se chegar às soluções. E eu admito que não quero seguir a maior parte dos seus conselhos. Eu não os ignoro; eu arquivo, seleciono os melhores pedaçõs, quando há, tento até me convencer a experimentar algumas partes que me parecem imbecis. É muito difícil acreditar nas idéias dos outros.
Eu tenho plena consciência de que eu faço a mesma coisa quando os outros estão em apuros. A fragilidade do outro convoca uma força na gente, uma segurança, de repente a gente enxerga tudo com clareza e sabe exatamente onde está o problema. A fraqueza do outro faz a gente se sentir forte e capaz, faz a gente se sentir bem. Eu detesto essa característica nossa de parar de sentir dor apenas porque a pessoa ao lado está sentindo mais dor do que a gente. Como se ser forte fosse ajudar a diminuir a dor dela. Como se manter a calma fosse acalmá-la. Quando eu estou nervosa, tudo o que eu não quero ao meu redor é gente calma. Eu quero gente capaz de gritar comigo e me tirar do sério. Eu passo tempo demais da minha vida me contendo, não querendo revelar minhas fraquezas.
Aí eu venho aqui e revelo, e todas essas pessoas legais que eu gostaria que me admirassem conhecem todos os meus defeitos. Eu devia calar a boca, eu devia começar a mentir pra vocês, a mostrar a minha face mais bela, a mostrar como eu posso ser forte e competente e mais capaz do que vocês imaginam. Eu queria dirigir até a sua casa e te chamar pra entrar no carro e te levar até um lugar fantástico que eu conheço como a palma da minha mão. Mas isso tudo seria se esconder, e por mais que eu te queira, eu não sei se ainda te quereria se você acreditasse na minha máscara e eu não tivesse vergonha de me mascarar. Eu tenho fraquezas, muitas, eu admito. Mas eu não tenho vergonha de quem eu sou. Eu não me sinto culpada por quem eu sou. Eu sinto até um pouquinho de orgulho, às vezes.
De qualquer forma, pessoas, obrigada. Por favor continuem a comentar.
E comentando os últimos dois comentários (no post abaixo):
Ugo, pensando bem, eu sempre chamo as pessoas pra sair. Eu sou razoavelmente extrovertida quando as pessoas não são assustadoras =P. Eu evito chamar pra sair homens muito seguros de si e muito interessados em mim. Esses eu só chamo pra conhecer meus amigos. Meu amigos são mais ou menos receptivos, mas nem sempre rola. Com certa freqüência eu acho que meus amigos estão olhando pro novo babaca que eu conheci na esquina e desaprovando. Às vezes eu me pergunto se esse critério é bom o suficiente, já que é tão preconceituoso, e tal. O problema é que... não sei, não me sinto segura pra conversar com um um homem desconhecido num lugar público, se eu estiver sozinha. Isso me perturba.
Hita, eu... eu entendo que ficar no círculo de amigos é opressivo. Aí eu vou pras bordas do círculo e descubro que a galera da borda conhece um monte de gente diferente. Os amigos dos amigos dos meus amigos dão gente bastante diferente, bastante libertadora. Às vezes é bom. Eu não me sinto confortável no meio de gente muito diferente de mim, e a maior parte das pessoas é, é claro. Eu não tenho essa manha de sair falando merda pra todo mundo e se rolar, rolou, senão, não. Às vezes eu faço isso, mas, sei lá, não é o meu comum. Não é assim que eu sou, eu gosto de ouvir as pessoas. Às vezes meus amigos fazem amizade com umas pessoas chatíssimas! Eu não consigo me abrir pra gente de quem eu não gosto. Às vezes eu conheço uma pessoa e imediatamente estou falando de tudo o que importa com ela; mas tem que rolar um clima. Tem gente que nem abre espaço pra esse clima rolar, e a gente fica com a sensação de que nem conhece a pessoa... Mas nada disso tem a ver com a pessoa ser amiga ou não, se pá. É que... sim, eu me sinto estranhamente excluída quando as pessoas estão falando de coisas que indiretamente me ofendem, mas eu não chego a ter vontade de confrontar as pessoas com essas coisas pelas quais elas passam sem notar. Isso seria tão pentelho. Tão mala. E talvez eu não queira parecer tão sensível. Mas eventualmente, se não houver um jeito natural de falar das coisas, eu talvez me desinteresse por aquelas pessoas, se elas não forem apaixonantes. Talvez eu precise me apaixonar eplas pessoas para confiar nelas. Talvez eu só consiga acreditar no que os meus sentimentos gritam pra mim num volume que sempre será ouvido.
segunda-feira, 12 de março de 2012
Reavaliando
Como eu achei que deveria fazer, estou aqui para comentar no post de ontem. Pra dizer que exagerei, que não é bem assim. Que na verdade, já aconteceu uma vez de eu conhecer um cara no ponto de ônibus e confiar que eu podia sair com ele. Ele era da minha idade, tinha estudado junto com meus amigos e estudava junto com outros meus amigos. Ele tinha aquele jeito familiar, seguro. Até hoje ainda o encontro e falo com ele. Tem gente que conheci a vida toda e de quem fujo, mas ele, mal o conheço e confio, sei que é gente do bem.
O problema todo é que meu mêdo não é apenas psicológico, não é apenas emocional. É que eu não consigo me convencer de que é só emocional. Se o perigo não existisse, eu ia me obrigar a encarar. Eu sempre me obrigo a encarar mêdo ididotas pelo menos uma vez. Eu me obrigo quando acho que é importante vencer o mêdo. Mas eu acho perigoso andar na rua sozinha à noite, eu acho perigoso confiar demais em homem desconhecido, e é isso. Eu acabo andando sozinha na rua, porque acho perigoso mas não tenho medo. Se eu tivesse mêdo, achando perigoso, eu nunca conseguiria enfrentar o mêdo. Do mesmo jeito que não se enfrenta mêdo de leão. Do mesmo jeito que ninguém tenta curar leophobia.
É verdade, eu sou insegura. Mas eu enfrento minha insegurança, e aos poucos, com resiliência, eu consigo vencê-la ou contorná-la. Eu me sentia oprimida na empresa que eu trabalhava, mas eu ainda falava a verdade. Quando a galera no bar começou a falar sobre como todo mundo trai e todo mundo tem que trair mesmo, mas que se pegar o outro traindo não pode ficar quieto, eu consegui dizer que isso não fazia sentido pra mim, que eu preferia ter um namoro aberto, que eu tinha um namoro aberto, e era bem mais legal. Eu consegui dizer uma coisa que pra eles era inimaginável, e que eu achei que ia soar mal naquela roda, porque não era perigoso de verdade, era só assustador. Eu não soltei os leões em cima deles dizendo que eles eram um bando de falsos que só tinham relacionamentos para se encaixar na sociedade, e que ninguém com um mínimo de coerência e respeito próprio aceitaria namorar com um deles sabendo o quanto toda aquela farsa é cínica. Não é uma obrigação moral questionar as vidas absurdas das pessoas. Eu não acho que eu poderia mudar as vidas deles com minhas palavras esboçadas, inseguras, com mêdo de virar raiva de inconformação. Mas eu defendi a minha opção de vida. Não era perigoso.
É verdade que eu sou medrosa e tenho pavor do que pode acontecer comigo se eu revelar algumas coisas em alguns grupos sociais. É verdade que freqüentemente eu escondo o que acontece comigo porque as pessoas ao meu redor me falariam coisas que me fariam me sentir mal. E eu vejo como tudo isso é um desfavor para a sociedade como um todo, porque se eu me revelasse, as pessoas começariam a aceitar, pelo menos, que existe uma possibilidade de que eu realmente acredite nessas coisas, e, se mais gente falasse a mesma coisa, eventualmente todo mundo começaria a aceitar que essas coisas são possíveis de se pensar, e eventualmente as pessoas não teriam mais vontade de falar coisas que me fazem me sentir mal. E nesse sentido eu admito que minha insegurança é um problema. Mas eu luto, pequenamente. Cada dia um pouco. Com o tempo, eu vou ganhando coragem de olhar pros esqueletos no armário com frieza, e aos poucos eu vou mostrando eles pras pessoas. Eu sou insegura, mas já fui muito mais. Eu demorei 20 anos pra reunir a coragem de contar pra alguém que já não soubesse o motivo de eu ter feito terapia quando eu tinha 4 anos. Agora eu não tenho mais mêdo de contar. Eu não sei mais se importa de verdade. Esse virou pó; próximo esqueleto!
Ao mesmo tempo, quando eu era criança, eu não tinha mêdo de morrer, não tinha mêdo de bicho nem de queda nem de dor nem de ficar perdida nem de me afogar nem de passar frio nem de ficar doente nem de me queimar. Eu achava que não tinha mêdo de nada. Hoje em dia tenho mêdo de morrer de câncer, e de ficar velha. Tenho mêdo de falhar na vida, de ficar doente, de ficar sem dinheiro. Tenho mêdo de ser ridícula, de ser estúpida, de estar no grupo dos que menos contribuem, de ser irritante, de atrapalhar. Tenho mêdo de fazer com que as pessoas não gostem de mim. Talvez quase tudo o que eu faça seja motivado pelo mêdo de que um dia as pessoas percebam que eu não sou tudo isso que elas parecem achar. Que na verdade, por dentro, eu sou irresponsável, eu sou preguiçosa, eu sou mimada, eu não sei fazer nada, eu nunca aprendi a tomar conta de mim mesma, o tempo está passando e eu não estou realizando nada. Eu sou um fracasso. Hoje eu acho que eu tenho mêdo de tudo.
Eu ainda não tenho mêdo de queda nem de dor nem de fome nem de ficar perdida nem de me afogar nem de passar frio nem de me queimar. Mas agora eu tenho um pouco de mêdo de motos e de ônibus e de caminhão, e de ser atropelada, e de ser assaltada, e de quebrar o pescoço, e ser sequestrada, e de ser fisicamente forçada a fazer coisas que eu não quero, e de levar tiro de arma de fogo. Contaram muita história de terror pra mim a vida toda, e eu acreditei em algumas delas. E eu admito que tenho um pouco de mêdo de cair, quando estou escalando. Mas se tenho uma corda de segurança, eu venço o mêdo e sigo em frente enquanto minhas pernas tremem. Eu não sou uma covarde, quando eu sei que não preciso ser.
E pensando bem, eu deveria botar mais fé na minha capacidade de avaliar os perigos. Eu não acho mesmo que eu devo ir na casa de um cara que me chama pra casa dele quando eu ainda não confio nele direito. Se o cara faz uma coisa dessas, ou ele é perigoso ou ele é muito tapado. E se pá se ele não ganhou a minha confiança ainda, ele nunca vai ganhar. Não é necessariamente culpa minha, pô.
Eu também acho que eu devia voltar pro aikidô. Esse negócio de saber se defender aumenta violentamente a sua auto-confiança ao conviver com homens. Você deixa de se preocupar com se o cara é capaz de te machucar fisicamente pra se preocupar só com se ele é capaz de te machucar com uma arma (ou com outros caras) e as chances são muito menores. Embora, eu deva dizer, eu não seja capaz de avaliar se alguém é capaz de cometer esse tipo de atrocidade que envolve várias pessoas. Vocês podem dizer que eu estou sendo paranóica, se quiserem. Não é muito difícil me convencer de que o mundo é melhor do que o que me ensinaram a acreditar (mas, curioso, ninguém tentou até agora).
Acho que o que eu quis dizer com aquele parágrafo sobre tudo o que pode ser horrível ao se ir na casa de um cara, é que numa situação dessas, existe um improvável resultado bom, um improbabilíssimo resultado horrível, e muitos resultados ruins que são bastante prováveis. Mas se eu tivesse certeza que é só uma coisa moral, contra a qual eu posso aprender a lutar, eu arranjava a força. Não tenho certeza, eu tenho mêdo.
Eu tenho mêdo de que, tendo que lutar pelos meus direitos, na hora em que eu perdesse o controle e, na minha insegurança, começasse a chorar, ele veria a minha fraqueza e daria um jeito de se aproveitar dela do pior jeito.
Então aí está, pra você que duvidou até agora: meu verdadeiro mêdo é ter que mostrar meu lado mais fraco para pessoas que vão usá-lo contra mim, e acabar comigo por dentro.
... Será que eu assumo como predicado que uma pessoa qualquer, com probabilidade um, me odeia? Mas sim, acho que é essa a sensação que eu tenho sobre o mundo: que as pessoas quaisquer, de modo geral, não têm nenhum amor ao que eu sou por dentro. E pessoas sem amor só sabem ser horríveis. Elas nem sabem como não ser.
....... Mas, essa violência à alma, não é, também, a coisa mais assustadora a respeito de um estupro? E, nesse caso, não é essencialmente o mesmo mêdo? Eu sou uma pessoa fraca e indefesa. Eu sou uma garota pequena e fraca. Eu não sou nada como os meus sonhos, forte e invencível. Qualquer um pode me subjugar. Qualquer um pode pôr as garras na minha alma e me fazer me sentir suja e horrível por algum tempo. Não é a mesma coisa?
Depois dessa longa reflexão, estou me perguntando se eu deveria enfrentar meu mê... mas, pensando bem, e se o perigo for real?! Ah. Merda, não chegamos a lugar algum.
O problema todo é que meu mêdo não é apenas psicológico, não é apenas emocional. É que eu não consigo me convencer de que é só emocional. Se o perigo não existisse, eu ia me obrigar a encarar. Eu sempre me obrigo a encarar mêdo ididotas pelo menos uma vez. Eu me obrigo quando acho que é importante vencer o mêdo. Mas eu acho perigoso andar na rua sozinha à noite, eu acho perigoso confiar demais em homem desconhecido, e é isso. Eu acabo andando sozinha na rua, porque acho perigoso mas não tenho medo. Se eu tivesse mêdo, achando perigoso, eu nunca conseguiria enfrentar o mêdo. Do mesmo jeito que não se enfrenta mêdo de leão. Do mesmo jeito que ninguém tenta curar leophobia.
É verdade, eu sou insegura. Mas eu enfrento minha insegurança, e aos poucos, com resiliência, eu consigo vencê-la ou contorná-la. Eu me sentia oprimida na empresa que eu trabalhava, mas eu ainda falava a verdade. Quando a galera no bar começou a falar sobre como todo mundo trai e todo mundo tem que trair mesmo, mas que se pegar o outro traindo não pode ficar quieto, eu consegui dizer que isso não fazia sentido pra mim, que eu preferia ter um namoro aberto, que eu tinha um namoro aberto, e era bem mais legal. Eu consegui dizer uma coisa que pra eles era inimaginável, e que eu achei que ia soar mal naquela roda, porque não era perigoso de verdade, era só assustador. Eu não soltei os leões em cima deles dizendo que eles eram um bando de falsos que só tinham relacionamentos para se encaixar na sociedade, e que ninguém com um mínimo de coerência e respeito próprio aceitaria namorar com um deles sabendo o quanto toda aquela farsa é cínica. Não é uma obrigação moral questionar as vidas absurdas das pessoas. Eu não acho que eu poderia mudar as vidas deles com minhas palavras esboçadas, inseguras, com mêdo de virar raiva de inconformação. Mas eu defendi a minha opção de vida. Não era perigoso.
É verdade que eu sou medrosa e tenho pavor do que pode acontecer comigo se eu revelar algumas coisas em alguns grupos sociais. É verdade que freqüentemente eu escondo o que acontece comigo porque as pessoas ao meu redor me falariam coisas que me fariam me sentir mal. E eu vejo como tudo isso é um desfavor para a sociedade como um todo, porque se eu me revelasse, as pessoas começariam a aceitar, pelo menos, que existe uma possibilidade de que eu realmente acredite nessas coisas, e, se mais gente falasse a mesma coisa, eventualmente todo mundo começaria a aceitar que essas coisas são possíveis de se pensar, e eventualmente as pessoas não teriam mais vontade de falar coisas que me fazem me sentir mal. E nesse sentido eu admito que minha insegurança é um problema. Mas eu luto, pequenamente. Cada dia um pouco. Com o tempo, eu vou ganhando coragem de olhar pros esqueletos no armário com frieza, e aos poucos eu vou mostrando eles pras pessoas. Eu sou insegura, mas já fui muito mais. Eu demorei 20 anos pra reunir a coragem de contar pra alguém que já não soubesse o motivo de eu ter feito terapia quando eu tinha 4 anos. Agora eu não tenho mais mêdo de contar. Eu não sei mais se importa de verdade. Esse virou pó; próximo esqueleto!
Ao mesmo tempo, quando eu era criança, eu não tinha mêdo de morrer, não tinha mêdo de bicho nem de queda nem de dor nem de ficar perdida nem de me afogar nem de passar frio nem de ficar doente nem de me queimar. Eu achava que não tinha mêdo de nada. Hoje em dia tenho mêdo de morrer de câncer, e de ficar velha. Tenho mêdo de falhar na vida, de ficar doente, de ficar sem dinheiro. Tenho mêdo de ser ridícula, de ser estúpida, de estar no grupo dos que menos contribuem, de ser irritante, de atrapalhar. Tenho mêdo de fazer com que as pessoas não gostem de mim. Talvez quase tudo o que eu faça seja motivado pelo mêdo de que um dia as pessoas percebam que eu não sou tudo isso que elas parecem achar. Que na verdade, por dentro, eu sou irresponsável, eu sou preguiçosa, eu sou mimada, eu não sei fazer nada, eu nunca aprendi a tomar conta de mim mesma, o tempo está passando e eu não estou realizando nada. Eu sou um fracasso. Hoje eu acho que eu tenho mêdo de tudo.
Eu ainda não tenho mêdo de queda nem de dor nem de fome nem de ficar perdida nem de me afogar nem de passar frio nem de me queimar. Mas agora eu tenho um pouco de mêdo de motos e de ônibus e de caminhão, e de ser atropelada, e de ser assaltada, e de quebrar o pescoço, e ser sequestrada, e de ser fisicamente forçada a fazer coisas que eu não quero, e de levar tiro de arma de fogo. Contaram muita história de terror pra mim a vida toda, e eu acreditei em algumas delas. E eu admito que tenho um pouco de mêdo de cair, quando estou escalando. Mas se tenho uma corda de segurança, eu venço o mêdo e sigo em frente enquanto minhas pernas tremem. Eu não sou uma covarde, quando eu sei que não preciso ser.
E pensando bem, eu deveria botar mais fé na minha capacidade de avaliar os perigos. Eu não acho mesmo que eu devo ir na casa de um cara que me chama pra casa dele quando eu ainda não confio nele direito. Se o cara faz uma coisa dessas, ou ele é perigoso ou ele é muito tapado. E se pá se ele não ganhou a minha confiança ainda, ele nunca vai ganhar. Não é necessariamente culpa minha, pô.
Eu também acho que eu devia voltar pro aikidô. Esse negócio de saber se defender aumenta violentamente a sua auto-confiança ao conviver com homens. Você deixa de se preocupar com se o cara é capaz de te machucar fisicamente pra se preocupar só com se ele é capaz de te machucar com uma arma (ou com outros caras) e as chances são muito menores. Embora, eu deva dizer, eu não seja capaz de avaliar se alguém é capaz de cometer esse tipo de atrocidade que envolve várias pessoas. Vocês podem dizer que eu estou sendo paranóica, se quiserem. Não é muito difícil me convencer de que o mundo é melhor do que o que me ensinaram a acreditar (mas, curioso, ninguém tentou até agora).
Acho que o que eu quis dizer com aquele parágrafo sobre tudo o que pode ser horrível ao se ir na casa de um cara, é que numa situação dessas, existe um improvável resultado bom, um improbabilíssimo resultado horrível, e muitos resultados ruins que são bastante prováveis. Mas se eu tivesse certeza que é só uma coisa moral, contra a qual eu posso aprender a lutar, eu arranjava a força. Não tenho certeza, eu tenho mêdo.
Eu tenho mêdo de que, tendo que lutar pelos meus direitos, na hora em que eu perdesse o controle e, na minha insegurança, começasse a chorar, ele veria a minha fraqueza e daria um jeito de se aproveitar dela do pior jeito.
Então aí está, pra você que duvidou até agora: meu verdadeiro mêdo é ter que mostrar meu lado mais fraco para pessoas que vão usá-lo contra mim, e acabar comigo por dentro.
... Será que eu assumo como predicado que uma pessoa qualquer, com probabilidade um, me odeia? Mas sim, acho que é essa a sensação que eu tenho sobre o mundo: que as pessoas quaisquer, de modo geral, não têm nenhum amor ao que eu sou por dentro. E pessoas sem amor só sabem ser horríveis. Elas nem sabem como não ser.
....... Mas, essa violência à alma, não é, também, a coisa mais assustadora a respeito de um estupro? E, nesse caso, não é essencialmente o mesmo mêdo? Eu sou uma pessoa fraca e indefesa. Eu sou uma garota pequena e fraca. Eu não sou nada como os meus sonhos, forte e invencível. Qualquer um pode me subjugar. Qualquer um pode pôr as garras na minha alma e me fazer me sentir suja e horrível por algum tempo. Não é a mesma coisa?
Depois dessa longa reflexão, estou me perguntando se eu deveria enfrentar meu mê... mas, pensando bem, e se o perigo for real?! Ah. Merda, não chegamos a lugar algum.
domingo, 11 de março de 2012
Confissão do Dia: eu morro de mêdo de estupro.
E isso afeta a forma como eu ajo, penso, principalmente como eu me relaciono com homens. A chance de eu sair com um cara desconhecida é baixíssima, porque eu tenho mêdo. Eu sairia com uma mulher desconhecida, com uma chance um pouco maior. Eu até sairia com o tal cara, por pouco tempo, para um lugar movimentado e bem iluminado, onde teria muita gente ao nosso redor o tempo todo. Nada de cinema, nem mesmo jantar romântico. Sair de noite, só entre amigos. E eu não deixaria ele me pagar nada que não seja muito barato, porque tenho mêdo de que ele ache que está me comprando com dinheiro, e comece a exigir coisas de mim, e eu não quero ninguém sendo horrível comigo.
Eu acho que vou receber alguns comentários dizendo que eu não deveria agir assim, então me deixe explicar para essas pessoas: eu não gosto de me comportar assim, nem acho certo. Toda vez que eu percebo que estou agindo de certa forma apenas por mêdo, eu me sinto mal. Mas eu não mudo meu comportamento, porque o mêdo é real.
Eu não sei bem como cheguei a este tópico - eu estava andando pelos comentários sobre o Dia da Mulher que estão espalhados pela internet, e é claro que entrei em blogs de feministas, e tal e coisa. Dia da Mulher me deixa desconfortável, porque é um nome muito ruim. Não tem nada de especial em ser mulher, da mesma forma que não tem nada de especial em ser homem. E quando as pessoas dizem "feliz dia da mulher", elas não estão pensando em nada. Sério, em nada mesmo. É desconfortável. Talvez a melhor reação seja a sugerida pela Hug: responder com um "Feliz dia da Igualdade Entre os Sexos pra você também."
Bom, eu estava lendo essas coisas feministas e me lembrei de uma vez que eu tava saindo com um cara, fiquei com ele uma vez (numa praça de alimentação, à tarde, pelos critérios do primeiro parágrafo), achava ele legal, e aí teve uma semana em que ele me chamou pra jantar na casa dele e pra ir num show, ele pagando. Eu fiquei completamente apavorada, primeiro porque o show parecia que ia ser uns 300 reais (eu chequei no site), depois porque eu só conhecia o cara havia um mês, só tinha ficado com ele uma vez, e ele queria me levar pra casa! E se eu fosse pra casa dele, eu ia estar totalmente à mercê dele, e sabe-se lá o que ele ia querer de mim.
Toda vez que eu conto essa história pros meus amigos, eu digo que o cara me stalkeou, que ele era louco, eu faço ele parecer assustador o suficiente pra justificar o fato de eu ter cortado contato com ele o mais rápido possível. Às vezes eu ainda esbarro com ele na USP, e me esforço bastante pra evitar qualquer brecha pra ele vir falar comigo. Mas pensando bem, colocando as coisas em perspectiva, será que eu tinha tanta razão assim pra ficar apavorada? Ou é só que eu tenho mêdo de homens em geral?
Eu não acho que seja um mêdo totalmente injustificado, porque, embora eu não conheça ninguém que eu saiba que foi estuprado, eu tenho amigos que conhecem gente que que foi, e eu conheço bastante gente que já foi assediado de alguma forma, e, hey, eu já fui assediada, e bom, de modo geral as histórias que eu conheço não tem finais emocionantes em que os culpados são punidos e as vítimas são consoladas. Algumas, talvez a maioria delas, acabam com as vítimas se sentindo obrigadas a entender e perdoar e continuar amando os culpados até o fim das suas vidas; e ah, nunca confrontar ninguém, nunca contar pra ninguém, porque, sabe, não dá pra acabar com a reputação das pessoas desse jeito. Eu ouvi uma história (sobre uma amiga de uma amiga minha) em que a garota foi com uma turma na casa do cara e acabou se trancando num quarto pra se proteger dele, e ninguém mais mencionou o episódio por mais quatro anos, até a formatura, quando ele foi eleito orador da turma e uma das amigas da mulher, que estava lá no dia, ficou revoltada que alguém com esse background fosse eleito. A moral da história é que se ninguém conta nada, ninguém pode saber que ele tem esse background.
Então, sim, as histórias são reais e são horríveis e é muito difícil lidar com uma quando você fez parte dela, mesmo quando você racionalmente acredita que o cara não sabia o que estava fazendo e que você não deve ficar brava com ele (talvez principalmente nesse caso).
Mas não é só mêdo de assédio sexual, pra falar a verdade. Não é só mêdo de que o cara seja um criminoso, que ele vá te forçar a fazer coisas. Há também o mêdo de como ele vai te tratar. Eu tive uma conversa com uma amiga que eu admiro, na qual ela disse que às vezes queria ter feito sexo com menos gente, porque às vezes ela conhece um cara super legal, que se dá bem com ela em tudo, mas que, quando ouve O Número, começa a achar que ela é uma vadia e que ela não é boa o suficiente. Eu tentei convencê-la de que isso é só um sinal de que o cara na verdade não é uma pessoa legal, mas como fazer ela parar de se sentir mal, parar de sentir que ela não é boa? Eu, como muitas outras pessoas, simplesmente evito falar demais sobre mim, evito falar a verdade sobre mim e sobre o que eu acredito, quando estou com alguém que ainda não foi aprovado e carimbado como uma pessoa legal, digo, como uma pessoa respeitosa e que aceita que a gente seja o que a gente é. Então eu também tenho um pouco de mêdo de sair com gente que eu não conheço direito, porque sabe-se lá se o cara vai ser escroto e me fazer me sentir muito mal.
Por exemplo, esse cara que me chamou pra jantar, eu tive mêdo de ir na casa dele por vários motivos. Eu fiquei com mêdo de que ir na casa dele fosse ser interpretado com um sinal de que estávamos namorando... e eu nem me considerava como "ficando" com ele! Eu fiquei com mêdo de que se eu fosse na casa dele ele ia assumir que eu queria ficar com ele, e que se eu não me sentisse bem ali e mudasse de idéia, ele podia ficar puto. Ou pelo menos que a situação podia ficar muito constrangedora. E não estou nem falando ainda de sexo! E se eu tivesse vontade de beijar ele, mas não quisesse fazer sexo, e ele estivesse esperando por isso? Quer dizer, eu estaria na casa dele! Sem nada pra interromper ou distrair ou atrapalhar. Vai saber como ele ia interpretar, se eu aceitasse estar na casa dele. E se, por outro lado, o jantar fosse ótimo e o papo fluísse e no final eu quisesse fazer sexo? Será que isso não ia ser ainda pior? Será que ele ia me achar uma vadia, ou, por outro lado, será que ele ia achar que nós estávamos namorando?! (não, eu não sei o que me assusta mais). Enfim, eu sei que parece muita loucura, mas eu não exatamente me arrependo de ter fugido desse cara. Eu não conhecia ele bem o suficiente pra achar que ele não era um homem perigoso e que só ia me fazer mal. E ele mal me conhecia e já estava oferecendo pra me pagar um show e me chamando pra jantar na casa dele. Nós dois, sozinhos, de noite, num lugar estranho, sem ninguém ao redor pra me proteger. Acho que é uma situação assustadora mesmo. Sem contar que eu nunca teria coragem de contar pra ninguém de casa o que eu estaria fazendo.
A moral da história aqui é: quantas vezes eu já deixei de encontrar alguém, já deixei de chamar alguém pra sair, já deixei de me aproximar de alguém apenas por mêdo? Viver com essa redoma de mêdo em cima da gente faz com que a gente se limite, e só aceite rapazes "de boa família", ou o equivalente moderno que é ser amigo de algum amigo próximo. Eu só me sinto à vontade com gente que se dá bem com meus amigos, gente que ou eu apresentei pros amigos ou que me foi apresentada por eles. Eu só saio em encontro com alguém que acabei de conhecer se conheci esse alguém na casa de algum amigo, e olhe lá. Minhas opções são muito limitadas. Eu não pego homem em balada, a menos que seja conhecido. Eu não troco telefone, e quando eu troco eu não atendo depois. A única situação em que eu me libero pra me divertir, sem mêdo das conseqüências, é em festa lôca na minha casa ou na dos meus amigos. Mas mesmo assim, eu dificilmente pego homem a menos que seja amigo, e mesmo se fôr amigo só se o cara estiver exatamente no mesmo clima que eu. Os demais parecem todos muito assustadores. Parte do que eu quero dizer é que essa redoma de mêdo em cima da gente deve ser parte do que torna a vida sexual dos homens solteiros tão difícil.
Outra parte do que eu quero dizer é que isso tudo é opressor.
...
Eu fico me perguntando se da próxima vez que o Marcelo vier falar comigo eu não devia falar com ele e explicar porque eu fugi dele tão rapidamente... mas, nah, eu não teria coragem...
Pra falar a verdade, eu imagino que se eu não tivesse ficado tão assustada e se eu estivesse mais interessada nele, eu poderia ter proposto pra gente se encontrar em outro lugar. Eu poderia ter contornado a situação. Mas que tipo de cara te convida pra casa dele quando vocês mal se conhecem? Logo depois de você recusar ir no show? Enfim, eu fiquei assustada, e não pensei em alternativas. Não me arrependo, também. Só me incomodo com toda a situação, e o contexto. Só fico remoendo, como que essas coisas contecem comigo.
Eu acho que vou receber alguns comentários dizendo que eu não deveria agir assim, então me deixe explicar para essas pessoas: eu não gosto de me comportar assim, nem acho certo. Toda vez que eu percebo que estou agindo de certa forma apenas por mêdo, eu me sinto mal. Mas eu não mudo meu comportamento, porque o mêdo é real.
Eu não sei bem como cheguei a este tópico - eu estava andando pelos comentários sobre o Dia da Mulher que estão espalhados pela internet, e é claro que entrei em blogs de feministas, e tal e coisa. Dia da Mulher me deixa desconfortável, porque é um nome muito ruim. Não tem nada de especial em ser mulher, da mesma forma que não tem nada de especial em ser homem. E quando as pessoas dizem "feliz dia da mulher", elas não estão pensando em nada. Sério, em nada mesmo. É desconfortável. Talvez a melhor reação seja a sugerida pela Hug: responder com um "Feliz dia da Igualdade Entre os Sexos pra você também."
Bom, eu estava lendo essas coisas feministas e me lembrei de uma vez que eu tava saindo com um cara, fiquei com ele uma vez (numa praça de alimentação, à tarde, pelos critérios do primeiro parágrafo), achava ele legal, e aí teve uma semana em que ele me chamou pra jantar na casa dele e pra ir num show, ele pagando. Eu fiquei completamente apavorada, primeiro porque o show parecia que ia ser uns 300 reais (eu chequei no site), depois porque eu só conhecia o cara havia um mês, só tinha ficado com ele uma vez, e ele queria me levar pra casa! E se eu fosse pra casa dele, eu ia estar totalmente à mercê dele, e sabe-se lá o que ele ia querer de mim.
Toda vez que eu conto essa história pros meus amigos, eu digo que o cara me stalkeou, que ele era louco, eu faço ele parecer assustador o suficiente pra justificar o fato de eu ter cortado contato com ele o mais rápido possível. Às vezes eu ainda esbarro com ele na USP, e me esforço bastante pra evitar qualquer brecha pra ele vir falar comigo. Mas pensando bem, colocando as coisas em perspectiva, será que eu tinha tanta razão assim pra ficar apavorada? Ou é só que eu tenho mêdo de homens em geral?
Eu não acho que seja um mêdo totalmente injustificado, porque, embora eu não conheça ninguém que eu saiba que foi estuprado, eu tenho amigos que conhecem gente que que foi, e eu conheço bastante gente que já foi assediado de alguma forma, e, hey, eu já fui assediada, e bom, de modo geral as histórias que eu conheço não tem finais emocionantes em que os culpados são punidos e as vítimas são consoladas. Algumas, talvez a maioria delas, acabam com as vítimas se sentindo obrigadas a entender e perdoar e continuar amando os culpados até o fim das suas vidas; e ah, nunca confrontar ninguém, nunca contar pra ninguém, porque, sabe, não dá pra acabar com a reputação das pessoas desse jeito. Eu ouvi uma história (sobre uma amiga de uma amiga minha) em que a garota foi com uma turma na casa do cara e acabou se trancando num quarto pra se proteger dele, e ninguém mais mencionou o episódio por mais quatro anos, até a formatura, quando ele foi eleito orador da turma e uma das amigas da mulher, que estava lá no dia, ficou revoltada que alguém com esse background fosse eleito. A moral da história é que se ninguém conta nada, ninguém pode saber que ele tem esse background.
Então, sim, as histórias são reais e são horríveis e é muito difícil lidar com uma quando você fez parte dela, mesmo quando você racionalmente acredita que o cara não sabia o que estava fazendo e que você não deve ficar brava com ele (talvez principalmente nesse caso).
Mas não é só mêdo de assédio sexual, pra falar a verdade. Não é só mêdo de que o cara seja um criminoso, que ele vá te forçar a fazer coisas. Há também o mêdo de como ele vai te tratar. Eu tive uma conversa com uma amiga que eu admiro, na qual ela disse que às vezes queria ter feito sexo com menos gente, porque às vezes ela conhece um cara super legal, que se dá bem com ela em tudo, mas que, quando ouve O Número, começa a achar que ela é uma vadia e que ela não é boa o suficiente. Eu tentei convencê-la de que isso é só um sinal de que o cara na verdade não é uma pessoa legal, mas como fazer ela parar de se sentir mal, parar de sentir que ela não é boa? Eu, como muitas outras pessoas, simplesmente evito falar demais sobre mim, evito falar a verdade sobre mim e sobre o que eu acredito, quando estou com alguém que ainda não foi aprovado e carimbado como uma pessoa legal, digo, como uma pessoa respeitosa e que aceita que a gente seja o que a gente é. Então eu também tenho um pouco de mêdo de sair com gente que eu não conheço direito, porque sabe-se lá se o cara vai ser escroto e me fazer me sentir muito mal.
Por exemplo, esse cara que me chamou pra jantar, eu tive mêdo de ir na casa dele por vários motivos. Eu fiquei com mêdo de que ir na casa dele fosse ser interpretado com um sinal de que estávamos namorando... e eu nem me considerava como "ficando" com ele! Eu fiquei com mêdo de que se eu fosse na casa dele ele ia assumir que eu queria ficar com ele, e que se eu não me sentisse bem ali e mudasse de idéia, ele podia ficar puto. Ou pelo menos que a situação podia ficar muito constrangedora. E não estou nem falando ainda de sexo! E se eu tivesse vontade de beijar ele, mas não quisesse fazer sexo, e ele estivesse esperando por isso? Quer dizer, eu estaria na casa dele! Sem nada pra interromper ou distrair ou atrapalhar. Vai saber como ele ia interpretar, se eu aceitasse estar na casa dele. E se, por outro lado, o jantar fosse ótimo e o papo fluísse e no final eu quisesse fazer sexo? Será que isso não ia ser ainda pior? Será que ele ia me achar uma vadia, ou, por outro lado, será que ele ia achar que nós estávamos namorando?! (não, eu não sei o que me assusta mais). Enfim, eu sei que parece muita loucura, mas eu não exatamente me arrependo de ter fugido desse cara. Eu não conhecia ele bem o suficiente pra achar que ele não era um homem perigoso e que só ia me fazer mal. E ele mal me conhecia e já estava oferecendo pra me pagar um show e me chamando pra jantar na casa dele. Nós dois, sozinhos, de noite, num lugar estranho, sem ninguém ao redor pra me proteger. Acho que é uma situação assustadora mesmo. Sem contar que eu nunca teria coragem de contar pra ninguém de casa o que eu estaria fazendo.
A moral da história aqui é: quantas vezes eu já deixei de encontrar alguém, já deixei de chamar alguém pra sair, já deixei de me aproximar de alguém apenas por mêdo? Viver com essa redoma de mêdo em cima da gente faz com que a gente se limite, e só aceite rapazes "de boa família", ou o equivalente moderno que é ser amigo de algum amigo próximo. Eu só me sinto à vontade com gente que se dá bem com meus amigos, gente que ou eu apresentei pros amigos ou que me foi apresentada por eles. Eu só saio em encontro com alguém que acabei de conhecer se conheci esse alguém na casa de algum amigo, e olhe lá. Minhas opções são muito limitadas. Eu não pego homem em balada, a menos que seja conhecido. Eu não troco telefone, e quando eu troco eu não atendo depois. A única situação em que eu me libero pra me divertir, sem mêdo das conseqüências, é em festa lôca na minha casa ou na dos meus amigos. Mas mesmo assim, eu dificilmente pego homem a menos que seja amigo, e mesmo se fôr amigo só se o cara estiver exatamente no mesmo clima que eu. Os demais parecem todos muito assustadores. Parte do que eu quero dizer é que essa redoma de mêdo em cima da gente deve ser parte do que torna a vida sexual dos homens solteiros tão difícil.
Outra parte do que eu quero dizer é que isso tudo é opressor.
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Eu fico me perguntando se da próxima vez que o Marcelo vier falar comigo eu não devia falar com ele e explicar porque eu fugi dele tão rapidamente... mas, nah, eu não teria coragem...
Pra falar a verdade, eu imagino que se eu não tivesse ficado tão assustada e se eu estivesse mais interessada nele, eu poderia ter proposto pra gente se encontrar em outro lugar. Eu poderia ter contornado a situação. Mas que tipo de cara te convida pra casa dele quando vocês mal se conhecem? Logo depois de você recusar ir no show? Enfim, eu fiquei assustada, e não pensei em alternativas. Não me arrependo, também. Só me incomodo com toda a situação, e o contexto. Só fico remoendo, como que essas coisas contecem comigo.
segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012
Perguntas (e uma Maldição)
De novo estou publicando provisoriamente. Lembrem que o resto da história está aqui.
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Ainda me lembro claramente da revolta que senti naquele momento, com os olhos antigos da velha observando o efeito que suas palavras tinham em mim. Ela terminou a história com um tom tão solene que eu decidi que ela só podia ser estúpida ou louca. Eu era uma criança que acrediatava no certo e no errado, e pra mim era uma coisa errada você contar uma história que não fizesse sentido. Que tipo de história era aquela, em que o herói deixa a donzela pra trás e depois a mata, e nem se sente mal? Na arrogância infinita que os meninos aventureiros tem, eu levantei a voz e exigi que ela pelo menos admitisse sua vergonha.
- Essa não é a história de Roder, sua velha louca! Achei que a senhora ia me contar uma versão nova e melhor porque a senhora é daqui, mas essa história é pior que as que a Lilinha, que tem três anos, conta! Não tem pé nem cabeça! Como que a Faelyn podia estar dentro da caverna, se ela tava esperando pelo herói por meses e anos?! Como que Faelyn podia ser o dragão, se o dragão tinha aprisionado Faelyn um primeiro lugar?! Como que...
Mas nessa hora a velha não estava mais séria e tinha começado a sorrir de um jeito maroto, um jeito mau, como se estivesse tirando sarro de mim, se divertindo como se eu tivesse caído direitinho em sua armadilha. Eu ainda tentei insistir mais um pouco mais, mas minha imaginação estava trabalhando mais rápido do que eu podia contê-la, e atribuindo sentido à história toda.
- Sabe o que que eu acho? Eu acho que você é Faelyn, e que você inventou essa história porque você queria ser a princesa que o Roder salvou, mas não foi, e ele matou o dragão e depois fugiu com uma outra princesa, uma princesa que não chamava Faelyn, e que era muito mais bonita e mais delicada e mais jovem que você, que é só uma velha coroca que nenhum herói gosta e que nem sabe contar história!
Eu estava revoltado e tinha perdido toda a delicadeza. Quando me dei conta do que havia dito, de quão gravemente eu havia insultado aquela senhora, aquela mulher apavorante que provavelmente também era uma bruxa, eu gelei, certo de que viria uma grande punição. O sorriso dela tinha diminuído, e eu senti que havia uma certa dose de desagrado naquele sorriso duro, que parecia forçado, e no jeito como os olhos verdes estavam fixados tão intensamente em mim. Eu estava com mêdo e queria procurar uma rota de fuga, queria escapar daquela mulher, mas também não podia desviar os olhos dela. E havia um pouco de orgulho ali também, porque eu não queria virar as costas para uma mulher tão baixa que podia destruir uma história nobre como a de Roder apenas por sua própria vaidade. Felizmente, antes que eu criasse coragem de fazer alguma coisa, ela tornou a falar:
- Você comete o mesmo erro de sempre, menino, mesmo depois que eu lhe avisei. O problema não está nas histórias, está nos ouvidos de garotinhos como você, que acham que só os que as avós deles contaram é verdade. Que acham que os heróis são grandes e apaixonados por lindas donzelas, que são frágeis e só querem ser resgatadas. Garotinhos como você nada sabem de dragões. Eu lhe dei uma história de grande poder, uma história que é verdadeira e fala sobre verdades, e você vai aprender o valor dela com o tempo. Essa história é sobre como Roder matou sua primeira donzela por ser apaixonado por dragões. Você encontrará, em sua vida, outras histórias que sua avó não poderia lhe contar, histórias que não são grandiosas e não falam sobre conquistas, e sim sobre derrotas. E você mesmo também viverá suas próprias histórias, e você entenderá que nem tudo é o que parece, e que nem sempre e fácil entender de que tipo de história você está participando...
A velha não estava mais sorrindo, só estava me olhando enquanto a sua voz melodiosa me enfeitiçava outra vez, e ela de novo parecia uma mulher jovem e bonita. Eu estava coberto de calafrios.
- Por exemplo, - ela continuou - a história do ogro que você matou. Será que ele era mesmo um monstro terrível raptor de donzelas? Ou será que monstro não é você, que entrou em sua casa e o agrediu, você, que começou, como Roder, querendo salvar donzelas, e que no final só tinha pensamentos para o sangue de monstro lhe cobrindo?!
Eu não podia mais me mexer, e tinha certeza agora de que ela era uma bruxa, que sabia tudo sobre mim e que ia me transformar em alguma coisa horrível, talvez um ogro. Conforme ela falava essas coisas, seu olhar ia ficando mais intenso e assustador, embora a voz continuasse calma e agradável. Mas, de uma hora para outra, ela estava vociferando, dizendo coisas que me perseguiriam pelo resto da vida.
- Você é amaldiçoado, Meranael! Você tem a maldição do matador de monstros e do contador de histórias, e você seguirá os passos dos grandes heróis, mas não os que você imagina, e sim os que eles realmente deram. Você enfrentará desafios, e conhecerá mais pessoas e lugares do que você espera conhecer, mas você terá sede pela verdade, e ela sempre escapará por entre seus dedos. Você contará muitas histórias, mas nenhuma história verdadeira jamais estará completa, e muitas vezes as histórias verdadeiras não farão sentido como você espera. Mas, enquando sua alma humana permanecer neste mundo, você não se desviará do seu caminho."
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Ainda me lembro claramente da revolta que senti naquele momento, com os olhos antigos da velha observando o efeito que suas palavras tinham em mim. Ela terminou a história com um tom tão solene que eu decidi que ela só podia ser estúpida ou louca. Eu era uma criança que acrediatava no certo e no errado, e pra mim era uma coisa errada você contar uma história que não fizesse sentido. Que tipo de história era aquela, em que o herói deixa a donzela pra trás e depois a mata, e nem se sente mal? Na arrogância infinita que os meninos aventureiros tem, eu levantei a voz e exigi que ela pelo menos admitisse sua vergonha.
- Essa não é a história de Roder, sua velha louca! Achei que a senhora ia me contar uma versão nova e melhor porque a senhora é daqui, mas essa história é pior que as que a Lilinha, que tem três anos, conta! Não tem pé nem cabeça! Como que a Faelyn podia estar dentro da caverna, se ela tava esperando pelo herói por meses e anos?! Como que Faelyn podia ser o dragão, se o dragão tinha aprisionado Faelyn um primeiro lugar?! Como que...
Mas nessa hora a velha não estava mais séria e tinha começado a sorrir de um jeito maroto, um jeito mau, como se estivesse tirando sarro de mim, se divertindo como se eu tivesse caído direitinho em sua armadilha. Eu ainda tentei insistir mais um pouco mais, mas minha imaginação estava trabalhando mais rápido do que eu podia contê-la, e atribuindo sentido à história toda.
- Sabe o que que eu acho? Eu acho que você é Faelyn, e que você inventou essa história porque você queria ser a princesa que o Roder salvou, mas não foi, e ele matou o dragão e depois fugiu com uma outra princesa, uma princesa que não chamava Faelyn, e que era muito mais bonita e mais delicada e mais jovem que você, que é só uma velha coroca que nenhum herói gosta e que nem sabe contar história!
Eu estava revoltado e tinha perdido toda a delicadeza. Quando me dei conta do que havia dito, de quão gravemente eu havia insultado aquela senhora, aquela mulher apavorante que provavelmente também era uma bruxa, eu gelei, certo de que viria uma grande punição. O sorriso dela tinha diminuído, e eu senti que havia uma certa dose de desagrado naquele sorriso duro, que parecia forçado, e no jeito como os olhos verdes estavam fixados tão intensamente em mim. Eu estava com mêdo e queria procurar uma rota de fuga, queria escapar daquela mulher, mas também não podia desviar os olhos dela. E havia um pouco de orgulho ali também, porque eu não queria virar as costas para uma mulher tão baixa que podia destruir uma história nobre como a de Roder apenas por sua própria vaidade. Felizmente, antes que eu criasse coragem de fazer alguma coisa, ela tornou a falar:
- Você comete o mesmo erro de sempre, menino, mesmo depois que eu lhe avisei. O problema não está nas histórias, está nos ouvidos de garotinhos como você, que acham que só os que as avós deles contaram é verdade. Que acham que os heróis são grandes e apaixonados por lindas donzelas, que são frágeis e só querem ser resgatadas. Garotinhos como você nada sabem de dragões. Eu lhe dei uma história de grande poder, uma história que é verdadeira e fala sobre verdades, e você vai aprender o valor dela com o tempo. Essa história é sobre como Roder matou sua primeira donzela por ser apaixonado por dragões. Você encontrará, em sua vida, outras histórias que sua avó não poderia lhe contar, histórias que não são grandiosas e não falam sobre conquistas, e sim sobre derrotas. E você mesmo também viverá suas próprias histórias, e você entenderá que nem tudo é o que parece, e que nem sempre e fácil entender de que tipo de história você está participando...
A velha não estava mais sorrindo, só estava me olhando enquanto a sua voz melodiosa me enfeitiçava outra vez, e ela de novo parecia uma mulher jovem e bonita. Eu estava coberto de calafrios.
- Por exemplo, - ela continuou - a história do ogro que você matou. Será que ele era mesmo um monstro terrível raptor de donzelas? Ou será que monstro não é você, que entrou em sua casa e o agrediu, você, que começou, como Roder, querendo salvar donzelas, e que no final só tinha pensamentos para o sangue de monstro lhe cobrindo?!
Eu não podia mais me mexer, e tinha certeza agora de que ela era uma bruxa, que sabia tudo sobre mim e que ia me transformar em alguma coisa horrível, talvez um ogro. Conforme ela falava essas coisas, seu olhar ia ficando mais intenso e assustador, embora a voz continuasse calma e agradável. Mas, de uma hora para outra, ela estava vociferando, dizendo coisas que me perseguiriam pelo resto da vida.
- Você é amaldiçoado, Meranael! Você tem a maldição do matador de monstros e do contador de histórias, e você seguirá os passos dos grandes heróis, mas não os que você imagina, e sim os que eles realmente deram. Você enfrentará desafios, e conhecerá mais pessoas e lugares do que você espera conhecer, mas você terá sede pela verdade, e ela sempre escapará por entre seus dedos. Você contará muitas histórias, mas nenhuma história verdadeira jamais estará completa, e muitas vezes as histórias verdadeiras não farão sentido como você espera. Mas, enquando sua alma humana permanecer neste mundo, você não se desviará do seu caminho."
sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012
Puta merda.
Eu não sei porque, eu só me sinto ofendida. Não sei bem o quê. A presença de você me ofende. A palavra, o gesto, a existência. De tudo, se pá. Era pra ser mais bonito, o sonho ainda é bonito, meus olhos na realidade vêem tudo desagradável. Mesmo o que é lindo, tudo parece que me exclui. Eu tenho o que nunca mais tivera: raiva. E eu não quero ter raiva.
Eu quero ser controlada e calma e saber o que fazer na hora certa. Eu quero andar com você. Eu quero ser respeitada, eu quero me respeitar. Eu quero merecer, mas talvez no fundo eu não me ache merecedora. É muito difícil.
Eu lembro do dia em que você me empurrou para frente e me deu a oportunidade de ser o líder do bando. Eu queria agradecer a você. Eu não sabia o que fazer naquela hora, mas agora eu quero saber. Eu não quero ser aquela pessoa que não consegue tomar decisões por conta própria, eu não quero ser apenas uma observadora. Agora eu quero ser.
Eu quero ser controlada e calma e saber o que fazer na hora certa. Eu quero andar com você. Eu quero ser respeitada, eu quero me respeitar. Eu quero merecer, mas talvez no fundo eu não me ache merecedora. É muito difícil.
Eu lembro do dia em que você me empurrou para frente e me deu a oportunidade de ser o líder do bando. Eu queria agradecer a você. Eu não sabia o que fazer naquela hora, mas agora eu quero saber. Eu não quero ser aquela pessoa que não consegue tomar decisões por conta própria, eu não quero ser apenas uma observadora. Agora eu quero ser.
segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012
Manhã em Raéa
Na cidade de Raéa tudo era tão bonito! As praças estavam cobertas de lírios e as torres dos palácios se erguiam claras e majestosas em direção ao céu azul e límpido lá em cima. Em Raéa nunca chovia, nunca ficava nublado, talvez porque a cidade estava acima da maioria das nuvens, no topo dos picos fantásticos que o povo comum chamava de Heaven. É claro que o nome original do lugar era Haven, mas quem discordaria do nome que o povo dava, quer dizer, haveria um lugar mais próximo de se chamar de Céu? Os enormes pássaros de Raéa se agitavam e cantavam para despertar a cidade. Os habitantes de Raéa, como qualquer povo de boa fé, veneravam a Quemi, o Pássaro das Cores, e a Quehy, a Fênix de Luz. Exemplares jovens das duas espécies saltitavam aqui e ali, colorindo e iluminando o ar em que dançavam; mas o pássaro mais presente da cidade era o que eles chamavam de Alma dos Ventos, uma ave imponente que parecia nunca parar de crescer e que viajava distância inacreditável para fazer seus ninhos nas torres dos palácios. E, como era bem cedo, os parapeitos das janelas estavam apinhados de Almas das Manhãs, os menores pássaros de Raéa (ainda um pouco maiores que um sabiá de peito laranja), que tinham penas macias como as plumas de um bebê e que se reuniam ao nascer do sol para se aquecer, conversar com seus irmãos em trinados baixos e graves e entoar adoráveis cantigas de acordar. Não havia melhor forma de acordar que o amanhecer de Raéa! O sol entrava por todas as janelas e fazia brilhar as torres imaculadamente brancas. As casas baixas, feitas de blocos mais rudes das pedras claras das montanhas, estavam cobertas de flores delicadas que se abriam ao toque do sol. Cada porta, esculpida na mais nobre madeira jovem que crescia timidamente abaixo das nuvens, se abria, e cada janela, apenas para deixar o vento entrar. Logo todos estariam despertos, e a cidade estaria cantando com o prazer de um novo dia. Era por essas manhãs que Lyserh vivia. Ele adorava saltar para a rua e sentir o ar correndo por sua pele enquanto abrandava a queda. O azul do céu e o branco brilhante das casas e das flores o preenchia , como o calor do sol. Ele cumprimentava os pássaros ao caminhar pela praça. Era sua vez de ser feliz. Era tudo o que tinha na vida.
Neste dia, Ly também estava feliz porque ia conseguir uma coisa a mais, uma coisa a mais a que se agarrar nos momentos em que a luz parecia distante. Ele não tinha a menor dúvida de que a partir de então ele seria feliz! Ali, em Raéa, onde cada dia era perfeito, ali ele ia encontrar seu lugar do lado direito de Deus. Era impossível parar de sorrir. Ali ele ia encontrar aquilo que daria sentido à sua vida.
Ele atravessou mais algumas praças cobertas de lírios, e algumas ruas estreitas e floridas, saltitando de pedra em pedra e cantarolando para acompanhar as Almas. Antigamente ele costumava pensar com freqüência em como seria, depois da morte, é claro, ser um pássaro e passar seus dias planando e chilreando por aí; mas hoje esse pensamento sequer lhe ocorreu -- a vida parecia tão bela assim do jeito que estava! Era difícil pensar em coisas tristes ou mesmo coisas imperfeitas neste dia alegre.
Uma sombra passou por sua cabeça; a sombra do pórtico que separava seu bairro, cheio de jardins, do centro de Raéa, onde as construções altas de pedra antiga e acinzentada deixavam todo o espaço fresco e sombreado. A rua em frente era longa, estreita e cheias de portas dos dois lados, numa parede de sobrados interrompida a cada dezena de metros por vielas laterais. Mais adiante, a rua se inclinava em direção ao cume da cidade, e os topos das construções da região mais alta apareciam por trás dos telhados dos sobrados.
Lysere pôr os pés no chão e correu pelos próximos quarteirões, ansioso agora que podia enxergar a ponta do prédio ao qual se dirigia. As ruas estreitas e sinuosas do centro estavam apenas acordando, e o menino, que conhecia Raéa com a planta dos pés, corria através das primeiras barracas montadas nos mercados, e cortava caminho por dentro das galerias que acabaram de abrir, e se enfiava em ruelas esmagadas entre casarões para atravessar pracinhas nos fundos dos quarteirões. Em Raéa, conforme se chegava mais perto do cume, mais as construções tinham ornamentos e torres e balaustradas, e mais eram feitas de pedras coloridas e inclusive mais escuras, e aqui algumas delas tinham também gárgulas pretas sobre os balaústres, beirais e cumeeiras, com formato de dragão mostrando os dentes, e mais para cima ainda haveria gárgulas de pedra clara, com formato de grifo ou de águia, e nos pés e nas costas das gárgulas as Almas das Manhãs faziam seus ninhos, equilibrados.
Mas a rua que Lysere procurava era uma curta e um pouco mais larga, escondida no meio das ruas amontoadas do centro, ainda na região onde as gárgulas eram pretas e as construções eram de pedra cinza mais escura que em todo o resto da cidade. Para chegar nessa rua era preciso passar por galerias e vielas e caminhos que nem todos conheciam, e ela estava fora de todas as rotas da vias grandes, e por isso era muito vazia e tranqüila, e a essa hora da manhã parecia deserta. Essa era a rua dos mestres do conhecimento, que viviam reclusos com seus discípulos em suas torres estreitas. Cada torre era cercada por um muro baixo, com portões vazados e ornamentados que davam para a rua, e muitas delas tinham jardins ou sacadas, onde às vezes era possível ver um aprendiz dormitando, lendo ou apreciando a manhã. Algumas das torres eram apenas prédinhos quadrados de três ou quatro andares, outras eram circulares e iam afinando nos andares mais altos; algumas delas tinham portões grandes no andar térreo, outras tinham portas pequenas de madeira, e algumas ainda tinham apenas uma escada exterior que levava a uma porta-balcão no meio do segundo-andar. Muitas delas tinham os andares superiores feitos de pedra branca, como as casas das periferias da cidade. A Rua dos Mestres era uma das mais antigas da cidade, e quando Liserh corria por ela ele sentia o cheiro das madeiras e pedras escuras e das trepadeiras que cobriam todos os muros e quase fechavam as grandes janelas, e sentia o olhar das gárgulas monstruosas vigiando-o em seu caminho, o mêdo que toda criança tinha daquela parte da cidade se somando ao nervosismo pelo que ia acontecer com ele hoje. Quando chegou ao seu destino, Liserh parou para recuperar o fôlego e a calma, querendo parecer controlado e respeitável ao entrar.
Era apenas por um acaso histórico que a pena de Raéa do Braço do Grande Anjo, a força militar de elite que servia à defesa de Heaven, tinha sua sede na Rua dos Pensamentes. O prédio da sede se destacava de longe porque suas paredes eram impecavelmente brancas, livres de trepadeiras, ao invés de ter gárgulas negras e assustadoras espalhadas pelos beirais, tinha um único Grifo branco e dourado alçando vôo de cima da grande janela do terceiro andar, sobre um telhado ornamentado apenas com telhas em forma de penas. O terreno era maior do que os outros da rua, e o portão era mais alto, e o próprio prédio era mais largo, e embora não fosse um dos mais altos, ele se destacava por seu uma construção inteiriça, diferente das outras torres que tinham pedaços construídos em época diferentes. Desde a primeira vez em que vira aquele prédio, Liserh sentira que ele era especial, e quando aprendera na escola que aquela era a sede do Braço do Grande Anjo, se tornara seu sonho um dia ser chamado para entrar naquele lugar.
(estou publicando provisóriamente, deixem comentários)
Neste dia, Ly também estava feliz porque ia conseguir uma coisa a mais, uma coisa a mais a que se agarrar nos momentos em que a luz parecia distante. Ele não tinha a menor dúvida de que a partir de então ele seria feliz! Ali, em Raéa, onde cada dia era perfeito, ali ele ia encontrar seu lugar do lado direito de Deus. Era impossível parar de sorrir. Ali ele ia encontrar aquilo que daria sentido à sua vida.
Ele atravessou mais algumas praças cobertas de lírios, e algumas ruas estreitas e floridas, saltitando de pedra em pedra e cantarolando para acompanhar as Almas. Antigamente ele costumava pensar com freqüência em como seria, depois da morte, é claro, ser um pássaro e passar seus dias planando e chilreando por aí; mas hoje esse pensamento sequer lhe ocorreu -- a vida parecia tão bela assim do jeito que estava! Era difícil pensar em coisas tristes ou mesmo coisas imperfeitas neste dia alegre.
Uma sombra passou por sua cabeça; a sombra do pórtico que separava seu bairro, cheio de jardins, do centro de Raéa, onde as construções altas de pedra antiga e acinzentada deixavam todo o espaço fresco e sombreado. A rua em frente era longa, estreita e cheias de portas dos dois lados, numa parede de sobrados interrompida a cada dezena de metros por vielas laterais. Mais adiante, a rua se inclinava em direção ao cume da cidade, e os topos das construções da região mais alta apareciam por trás dos telhados dos sobrados.
Lysere pôr os pés no chão e correu pelos próximos quarteirões, ansioso agora que podia enxergar a ponta do prédio ao qual se dirigia. As ruas estreitas e sinuosas do centro estavam apenas acordando, e o menino, que conhecia Raéa com a planta dos pés, corria através das primeiras barracas montadas nos mercados, e cortava caminho por dentro das galerias que acabaram de abrir, e se enfiava em ruelas esmagadas entre casarões para atravessar pracinhas nos fundos dos quarteirões. Em Raéa, conforme se chegava mais perto do cume, mais as construções tinham ornamentos e torres e balaustradas, e mais eram feitas de pedras coloridas e inclusive mais escuras, e aqui algumas delas tinham também gárgulas pretas sobre os balaústres, beirais e cumeeiras, com formato de dragão mostrando os dentes, e mais para cima ainda haveria gárgulas de pedra clara, com formato de grifo ou de águia, e nos pés e nas costas das gárgulas as Almas das Manhãs faziam seus ninhos, equilibrados.
Mas a rua que Lysere procurava era uma curta e um pouco mais larga, escondida no meio das ruas amontoadas do centro, ainda na região onde as gárgulas eram pretas e as construções eram de pedra cinza mais escura que em todo o resto da cidade. Para chegar nessa rua era preciso passar por galerias e vielas e caminhos que nem todos conheciam, e ela estava fora de todas as rotas da vias grandes, e por isso era muito vazia e tranqüila, e a essa hora da manhã parecia deserta. Essa era a rua dos mestres do conhecimento, que viviam reclusos com seus discípulos em suas torres estreitas. Cada torre era cercada por um muro baixo, com portões vazados e ornamentados que davam para a rua, e muitas delas tinham jardins ou sacadas, onde às vezes era possível ver um aprendiz dormitando, lendo ou apreciando a manhã. Algumas das torres eram apenas prédinhos quadrados de três ou quatro andares, outras eram circulares e iam afinando nos andares mais altos; algumas delas tinham portões grandes no andar térreo, outras tinham portas pequenas de madeira, e algumas ainda tinham apenas uma escada exterior que levava a uma porta-balcão no meio do segundo-andar. Muitas delas tinham os andares superiores feitos de pedra branca, como as casas das periferias da cidade. A Rua dos Mestres era uma das mais antigas da cidade, e quando Liserh corria por ela ele sentia o cheiro das madeiras e pedras escuras e das trepadeiras que cobriam todos os muros e quase fechavam as grandes janelas, e sentia o olhar das gárgulas monstruosas vigiando-o em seu caminho, o mêdo que toda criança tinha daquela parte da cidade se somando ao nervosismo pelo que ia acontecer com ele hoje. Quando chegou ao seu destino, Liserh parou para recuperar o fôlego e a calma, querendo parecer controlado e respeitável ao entrar.
Era apenas por um acaso histórico que a pena de Raéa do Braço do Grande Anjo, a força militar de elite que servia à defesa de Heaven, tinha sua sede na Rua dos Pensamentes. O prédio da sede se destacava de longe porque suas paredes eram impecavelmente brancas, livres de trepadeiras, ao invés de ter gárgulas negras e assustadoras espalhadas pelos beirais, tinha um único Grifo branco e dourado alçando vôo de cima da grande janela do terceiro andar, sobre um telhado ornamentado apenas com telhas em forma de penas. O terreno era maior do que os outros da rua, e o portão era mais alto, e o próprio prédio era mais largo, e embora não fosse um dos mais altos, ele se destacava por seu uma construção inteiriça, diferente das outras torres que tinham pedaços construídos em época diferentes. Desde a primeira vez em que vira aquele prédio, Liserh sentira que ele era especial, e quando aprendera na escola que aquela era a sede do Braço do Grande Anjo, se tornara seu sonho um dia ser chamado para entrar naquele lugar.
(estou publicando provisóriamente, deixem comentários)
quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012
Explanação
Yeah, ok, eu vou explicar what was that all about.
Hoje tivemos uma reunião pra discutir o que vamos fazer com a nova casa, o que comprar, quanto vamos gastar, yatta yatta yatta. E eu meio que fui convencida de que meus gastos regulares vão subir consideravelmente, e eu ainda não estou convencida de que vou conseguir ganhar o dinheiro necessário, e isso me assusta. É claro que tem outras coisas envolvidas, mêdo de mudar de vida, mêdo de sair de casa, a dor de abandonar coisas familiares, a insegurança perante o futuro, etc etc. Mas a questão objetiva que mais me apavora é que eu simplesmente não sei se eu consigo grana suficiente.
Quer dizer, eu planejo conseguir bolsas de IC e monitoria, eu planejo conseguir dar aulas particulares, mas tudo isso é tão inseguro, é tanta coisa que eu nunca consegui antes e que eu não sei se eu estou simplesmente sonhando alto demais de novo... Meu mêdo é de ser obrigada a arranjar emprego, o que me obrigaria a deixar a faculdade meio em segundo plano. No fundo, meus irmãos estão empregados, meu namorado está formado, e eu me sinto a caçula, dando passos maiores do que o razoável para acompanhar o andar de gente mais velha, mais estabelecida, mais confiante. Eu estou apavorada, e eu não sei como encarar esse mêdo. Eu não sinto que exista nenhuma boa opção, eu não me sinto capaz de fazer o que é preciso, eu não acho que nada vai dar certo só porque tem que dar, de alguma forma. Eu não acho que as coisas vão se acertar.
Eu estou apavorada, e eu sei que a solução seria eu ser forte e eficiente e mostrar serviço e conquistar as coisas certas, mas eu estou tão assustada e confusa que só está mais difícil do que nunca fazer a coisa certa. E eu nunca fui boa nisso de qualquer forma. Eu sempre fui ligeiramente incompetente. E eu sinto que de repente eu não vou ter mais espaço pra isso, e que eu não vou mais conseguir acompanhar. Que eu vou simplesmente parar de conseguir bancar as coisas. Que pra mim vai ser consideravelmente mais difícil que pros outros, e que talvez eu acabe desistindo. Você não é tudo o que eu preciso, e eu não sei se eu tenho o que eu preciso pra sobreviver.
Eu estou apavorada, e eu não sei ainda se esse pavor é fundamentado.
Hoje tivemos uma reunião pra discutir o que vamos fazer com a nova casa, o que comprar, quanto vamos gastar, yatta yatta yatta. E eu meio que fui convencida de que meus gastos regulares vão subir consideravelmente, e eu ainda não estou convencida de que vou conseguir ganhar o dinheiro necessário, e isso me assusta. É claro que tem outras coisas envolvidas, mêdo de mudar de vida, mêdo de sair de casa, a dor de abandonar coisas familiares, a insegurança perante o futuro, etc etc. Mas a questão objetiva que mais me apavora é que eu simplesmente não sei se eu consigo grana suficiente.
Quer dizer, eu planejo conseguir bolsas de IC e monitoria, eu planejo conseguir dar aulas particulares, mas tudo isso é tão inseguro, é tanta coisa que eu nunca consegui antes e que eu não sei se eu estou simplesmente sonhando alto demais de novo... Meu mêdo é de ser obrigada a arranjar emprego, o que me obrigaria a deixar a faculdade meio em segundo plano. No fundo, meus irmãos estão empregados, meu namorado está formado, e eu me sinto a caçula, dando passos maiores do que o razoável para acompanhar o andar de gente mais velha, mais estabelecida, mais confiante. Eu estou apavorada, e eu não sei como encarar esse mêdo. Eu não sinto que exista nenhuma boa opção, eu não me sinto capaz de fazer o que é preciso, eu não acho que nada vai dar certo só porque tem que dar, de alguma forma. Eu não acho que as coisas vão se acertar.
Eu estou apavorada, e eu sei que a solução seria eu ser forte e eficiente e mostrar serviço e conquistar as coisas certas, mas eu estou tão assustada e confusa que só está mais difícil do que nunca fazer a coisa certa. E eu nunca fui boa nisso de qualquer forma. Eu sempre fui ligeiramente incompetente. E eu sinto que de repente eu não vou ter mais espaço pra isso, e que eu não vou mais conseguir acompanhar. Que eu vou simplesmente parar de conseguir bancar as coisas. Que pra mim vai ser consideravelmente mais difícil que pros outros, e que talvez eu acabe desistindo. Você não é tudo o que eu preciso, e eu não sei se eu tenho o que eu preciso pra sobreviver.
Eu estou apavorada, e eu não sei ainda se esse pavor é fundamentado.
terça-feira, 31 de janeiro de 2012
Fear
Take me with you when you face the world
When the world begin to fall apart
Take me with you to the darkness's heart
Take me to the end of all I know
When the voice of hope become a whisper
When the horror overtake the land
Take me with you, guide me by the hand
Through the path of firestorm and blister
Take me through the tempest and the cold
Take me with you when you leave your shelter
When the wings of dream lose all their feathers
Lead me through the nightmares that unfold
Take me with when you face our doom
Through the thunders of the unforeseen
Leave me there, where all the fears begin
Make me watch the reckless future bloom
When the world begin to fall apart
Take me with you to the darkness's heart
Take me to the end of all I know
When the voice of hope become a whisper
When the horror overtake the land
Take me with you, guide me by the hand
Through the path of firestorm and blister
Take me through the tempest and the cold
Take me with you when you leave your shelter
When the wings of dream lose all their feathers
Lead me through the nightmares that unfold
Take me with when you face our doom
Through the thunders of the unforeseen
Leave me there, where all the fears begin
Make me watch the reckless future bloom
Essa coisa de ter amigos
Tenho lido o blog da Hita, porque parece que ele está sendo muito intenso ultimamente. Acho impressionante como seu blog é diferente de todos os outros, garota. Você fala com todas as palavras, você briga, expõe, não tem mêdo de mostrar a realidade como ela é. Algo que eu nunca poderia fazer. E eu já sou muito mais expositora que algumas pessoas, como a Cacau, ou o Brunok. Eu relevo sentimento, mas você dá nome aos bois. E você fala diretamente com seus leitores, enquanto eu me recuso a direcionar, eu deixo as pessoas se perguntando.
Quando eu voltei do curso de verão, a primeira coisa que vi foi seu blog. Estava rolando uma comoção, a Hita reclamando que seus amigos não tinham entendido que ela precisava de ajuda, os amigos se sentindo injustiçados porque eles não conseguiam ver como entender. Isso sempre acontece, né, nossos amigos nunca são exatamente tão bons quanto a gente quer. Eles nunca nos conhecem de verdade, tão profundamente quanto a gente gostaria. E eles nos decepcionam quando a gente mais precisa de ajuda, porque quando a gente mais precisa de ajuda é justamente quando a gente menos consegue pedir ajuda.
Provérbio chinês: "Ofereça ajuda quando seu amigos menos merece, porque é nessa hora que ele mais precisa". Amizade é uma coisa complicada. A gente é ruim em pedir ajuda.
Pra falar a verdade, eu acho que com meu Gato, consegui chegar muito perto de ter alguém que me entende, alguém que está comigo o tempo todo e que me enxerga. Mas mesmo ele não percebe quando eu estou realmente mal. Tem dias em que eu simplesmente falo que eu tô mal. Outras vezes eu não consigo. Eu me esforço muito, e hoje em dia eu até consigo pedir colo na maior parte das vezes em que é necessário, mas às vezes só o colo de certa pessoa vai resolver, e quem é essa pessoa varia muito, não é necessariamente uma das pessoas mais próximas de mim. Eu me esforcei muito e consegui conquistar uma vaga compreensão de como pedir colo quando é necessário, mas nem sempre funciona. E meus amigos não têm a menor chance de descobrir isso por mim. Eles não são capazes de enxergar através da minha carapaça, e acho que nunca vão ser. Alguns até conseguem perceber quando precisam ficar quietos. O foda é que freqüentemente os que percebem melhor também são os menos capazes de ajudar. Não sei bem por quê.
Acho que foi importante pra mim ter tido um namorado totalmente tapado, que nem percebeu quando eu estava infeliz e deprimida. Quando eu me dei conta disso, eu comecei a me esforçar pra falar mais o que eu sinto, e pra não guardar tanto pra mim as coisas que eu acho que podem machucar. Pra falar a verdade, provavelmente também foi importante ter estado deprimida e precisando de ajuda o tempo todo. Acho que foi importante também ter namorado um cara mais racional e direto, com quem eu me sentia à vontade mas que tinha dificuldade de entender o que eu sentia a menos que eu falasse claramente. Eu me forcei a aprender a falar as coisas em língüa de humano para que ele pudesse me ajudar, e com o tempo isso realmente funcionou. Mas no final eu prefiro o cara com quem eu me sinto à vontade pra me comunicar por ganidos, porque it doesn't come naturally. Falar ainda é um pouco difícil pra mim. Quando eu tô realmente mal, eu não consigo me expressar verbalmente.
E a gente quer muito, sempre, que os nossos amigos nos entendam. Que alguém nos entenda, porra, não pode ser tão difícil. Não é possível que eu seja um monstro, não é possível que eu seja incompreensível. Mas perguntava a Clarice, "sou um monstro, ou isto é ser uma pessoa?". Eu cheguei à conclusão de que eu sou um monstro. Tão poucas pessoas são realmente parecidas comigo. Com o tempo eu meio que me conformei e parei de esperar que qualquer um me entendesse. Eu decidi que eu não me importava, que foda-se, eu vou ser isto que eu quero ser, e você sejam o que vocês quiserem, e eu não vou nem tentar ser parecida com um ser humano. Eu vou ter pernas peludas e usar saia, eu vou uivar no meio da tarde, eu vou subir em árvores de vestido, eu vou ser bissexual, eu vou estudar matemática e biologia e computação depois de ter feito design, eu vou gostar de cerveja e de balada e de karaokê e de jogos de mesa e de correr no parque e andar de bicicleta, eu vou rosnar e gritar e rugir e morder e deixar roxos e passar halls e ganir e conversar por miados e ouvir folk e rolar na terra e me molhar inteira na água de chuva de sampa e gostar de cheiro de bosta de cavalo e de corpo de gente e de pêlo de gato e me atrair por gente velha ou feia ou andrógina e não sentir vergonha de ser uma combinação estranha. Talvez você tenha nojinho de mim, mas não é realmente justo. Eu não sou suja. Eu não sou sem noção. Eu só avalio os prós e os contras, e tomo decisões, como todo mundo. Os meus prós só são um pouco diferentes dos seus. E eu confio bastante no poder purificador de um banho no final do dia.
Ninguém é parecido de verdade comigo, então eu me apego às pequenas coisas. Você rosna, e eu te amo por isso. Você curte matemática, então vamos bater muito papo. Você tem questões parecidas com as minhas, então vamos tentar nos ajudar. Eu passei muito tempo procurando por alguém como eu, mas eu não acredito mais nisso. I'll take what I can get, e ficar contente. E se ninguém é parecido comigo, como eu posso esperar que alguém entenda?
Acho que eu divergi um pouco do meu assunto inicial, que era a discussão no blog da Hita. As pessoas se sentiram muito ofendidas com a idéia de que elas tentaram ajudar, mas não conseguiram, e ainda levaram bronca por isso. Eu não saquei muito porque ficar ofendido. Sim, é chato quando você tenta ajudar e leva patada, mas péraí, as pessoas quando estão mal sempre têm esse direito fundamental de ficarem decepcionadas com a inabilidade dos amigos de ajudar. Quero dizer, quem nunca? Talvez seja meu hábito achar sempre que eu poderia ter feito melhor, que se eu fosse melhor, tudo teria sido melhor. Eu sou meio egocêntrica nesse sentido. Eu acredito de verdade que eu poderia ser mais perceptiva e mais capaz de ajudar. Eu fico muito triste com não conseguir atravessar a carapaça de alguém. E também, eu não acredito muito nessa história de dar bronca de volta. Péra, deixa eu recomeçar este raciocínio:
A Hita tem esse blog no qual ela escreve o que ela pensa, sem meias-palavras. Ela escreve o que ela sente, na lata, por inteiro. De vez em quando, como todo mundo, ela desabafa. De vez em quando, como todo mundo, ela está puta com seus amigos porque eles não foram bons o suficiente (pelo menos me parece que todo mundo deve ser assim). Ok, vamos conceder, nenhum amigo é perfeito, e você poderia ter dito na cara deles que eles estavam falhando. Ou na nossa cara, enfim. Mas a pessoas frequentemente são ruins em falar as coisas na hora certa, aí elas guardam pra elas e depois desabafam. É assim que é. Eu não entendi muito bem por que, nesse contexto, alguém se ofenderia. Mas, pensando bem, acho que possivelmente você mesma, Hita, se ofenderia se falassem isso pra você. Mas ninguém é realmente um amigo tão bom quanto seria ideal. Eu pelo menos nunca tive um amigo que conseguisse me ajudar de verdade nos piores momentos. Que percebesse quando eu preciso de ajuda de verdade. É nessas horas que a gente fica mais recluso e difícil de entender. E eu sei que não sou capaz de entender as outras pessoas nessas horas, e isso me dói. Mas eu também tenho raiva dos meus amigos porque eles não são bons o suficiente; talvez por isso eu não consiga me ofender. Mas depois passa, eu não posso ficar muito tempo com raiva de alguém só porque essa pessoa não me entendeu quando eu fui enigmática. Só aquela desilusão fica, aquela decepção de perceber que as piores coisas a gente acaba enfrentando sozinho.
Aquela decepção de perceber que as piores coisas a gente acaba enfrentando sozinho, sim. A gente se sente muito solitário.
Sabe o quê, eu ainda espero ter amigos nos momentos difíceis. Eu vou até eles e falo "tô carente, me dá um abraço". Ou eu só pulo na piscina e choro sozinha. Mais freqüentemente, eu peço mais algumas cervejas e tento me distrair. Ou eu saio correndo e deixo todo mundo preocupado. Eu acho meio chato que eles não saibam como me ajudar, e às vezes, se alguém fala a coisa errada, eu nunca mais volto a confiar. Mas eu ainda espero, um pouquinho. Alguém que beba comigo, que cante comigo, que corra comigo. De vez em quando. Cada pessoa tem uma habilidade especial. Que jogue video-game. É tão difícil, e não tem ninguém que seja bom o tempo todo. Tem algumas pessoas que parecem que são ruins em tudo, e entretanto são ótimos amigos pros momentos felizes. No fundo eu uso as pessoas, a habilidade de cada uma, quando eu consigo identificar o que eu preciso. Mas é uma habilidade que eu demorei pra adquirir. Apenas dois anos atrás eu ficava chorando e pedindo ajuda pras pessoas erradas, e me decepcionando com a inabilidade delas.
Acho que saber passar pelos momentos defíceis é muito, muito mais fácil quando a sua vida é feliz. Quando você está desanimado e desesperado com a vida, você acaba sendo incompetente em sair da fossa também. Ou talvez seja uma questão de amadurecimento. Mas é preciso ter muito desprendimento, e muita desconfiança. Pra mim essa foi uma habilidade nascida da desilusão. Bom, disso, e do amor também, de ter mais amigos do que eu consigo aproveitar, de ter pessoas muito diferentes em quem eu consigo confiar, de estar apaixonada por algumas delas. Mas principalmente saber as falhas das pessoas. Às vezes os defeitos são o que fazem um amigo melhor nas horas ruins. Principalmente os defeitos te fazem saber o que contar e o que não contar para uma pessoa, e quando contar com ela, e quando não. No fundo as pessoas não sabem o que você precisa, elas só sabem o que elas conhecem, e às vezes elas não precisam entender o que você precisa pra te ajudar. Na verdade, acho que elas não tem como saber. Por isso acho que a pior parte a gente faz sozinho, que é a parte de descobrir o que vai nos fazer melhor. Se ao menos a gente soubesse, seria fácil pedir ajuda. Mas a gente não sabe, e ninguém sabe. Por isso eu acabo pedindo mais umas cervejas, tentando perder a timidez e agir por instindo. Por isso eu rolo na terra molhada e me molho na chuva. Nenhum de vocês entende o que está acontecendo, mas talvez se eu fizer o que meus instintos mandam, eu consiga expressar, ou me ajudar. Talvez.
Existe uma coisa que acontece quando a vida vai engrenando, que é que as coisas vão ficando mais fáceis de aguentar. Você consegue achar motivação pra seguir em frente, mesmo quando tudo parece ruim e escuro. Você tem um senso de identidade, abstrato mas presente, em senso de objetivo ao qual recorrer. Às vezes parece que tudo vai colapsar, mas aí você descobre um livro novo, ou um teorema novo, ou uma pessoa nova, ou uma bebida nova, ou seu professor vem te perguntar se você quer trabalhar com ele, ou você se apaixona, ou um jogo novo, ou um curso de verão, ou alguma coisa. Você cria uma rede de segurança, que cria novas linhas pra te segurar. Aos poucos você começa a confiar que sempre vai ter alguma coisa nova, que você nunca vai cair. Aí, mesmo quando você está caindo, você consegue manter a calma. Você já passou por isso antes, e sempre conseguiu voltar.
Quando eu voltei do curso de verão, a primeira coisa que vi foi seu blog. Estava rolando uma comoção, a Hita reclamando que seus amigos não tinham entendido que ela precisava de ajuda, os amigos se sentindo injustiçados porque eles não conseguiam ver como entender. Isso sempre acontece, né, nossos amigos nunca são exatamente tão bons quanto a gente quer. Eles nunca nos conhecem de verdade, tão profundamente quanto a gente gostaria. E eles nos decepcionam quando a gente mais precisa de ajuda, porque quando a gente mais precisa de ajuda é justamente quando a gente menos consegue pedir ajuda.
Provérbio chinês: "Ofereça ajuda quando seu amigos menos merece, porque é nessa hora que ele mais precisa". Amizade é uma coisa complicada. A gente é ruim em pedir ajuda.
Pra falar a verdade, eu acho que com meu Gato, consegui chegar muito perto de ter alguém que me entende, alguém que está comigo o tempo todo e que me enxerga. Mas mesmo ele não percebe quando eu estou realmente mal. Tem dias em que eu simplesmente falo que eu tô mal. Outras vezes eu não consigo. Eu me esforço muito, e hoje em dia eu até consigo pedir colo na maior parte das vezes em que é necessário, mas às vezes só o colo de certa pessoa vai resolver, e quem é essa pessoa varia muito, não é necessariamente uma das pessoas mais próximas de mim. Eu me esforcei muito e consegui conquistar uma vaga compreensão de como pedir colo quando é necessário, mas nem sempre funciona. E meus amigos não têm a menor chance de descobrir isso por mim. Eles não são capazes de enxergar através da minha carapaça, e acho que nunca vão ser. Alguns até conseguem perceber quando precisam ficar quietos. O foda é que freqüentemente os que percebem melhor também são os menos capazes de ajudar. Não sei bem por quê.
Acho que foi importante pra mim ter tido um namorado totalmente tapado, que nem percebeu quando eu estava infeliz e deprimida. Quando eu me dei conta disso, eu comecei a me esforçar pra falar mais o que eu sinto, e pra não guardar tanto pra mim as coisas que eu acho que podem machucar. Pra falar a verdade, provavelmente também foi importante ter estado deprimida e precisando de ajuda o tempo todo. Acho que foi importante também ter namorado um cara mais racional e direto, com quem eu me sentia à vontade mas que tinha dificuldade de entender o que eu sentia a menos que eu falasse claramente. Eu me forcei a aprender a falar as coisas em língüa de humano para que ele pudesse me ajudar, e com o tempo isso realmente funcionou. Mas no final eu prefiro o cara com quem eu me sinto à vontade pra me comunicar por ganidos, porque it doesn't come naturally. Falar ainda é um pouco difícil pra mim. Quando eu tô realmente mal, eu não consigo me expressar verbalmente.
E a gente quer muito, sempre, que os nossos amigos nos entendam. Que alguém nos entenda, porra, não pode ser tão difícil. Não é possível que eu seja um monstro, não é possível que eu seja incompreensível. Mas perguntava a Clarice, "sou um monstro, ou isto é ser uma pessoa?". Eu cheguei à conclusão de que eu sou um monstro. Tão poucas pessoas são realmente parecidas comigo. Com o tempo eu meio que me conformei e parei de esperar que qualquer um me entendesse. Eu decidi que eu não me importava, que foda-se, eu vou ser isto que eu quero ser, e você sejam o que vocês quiserem, e eu não vou nem tentar ser parecida com um ser humano. Eu vou ter pernas peludas e usar saia, eu vou uivar no meio da tarde, eu vou subir em árvores de vestido, eu vou ser bissexual, eu vou estudar matemática e biologia e computação depois de ter feito design, eu vou gostar de cerveja e de balada e de karaokê e de jogos de mesa e de correr no parque e andar de bicicleta, eu vou rosnar e gritar e rugir e morder e deixar roxos e passar halls e ganir e conversar por miados e ouvir folk e rolar na terra e me molhar inteira na água de chuva de sampa e gostar de cheiro de bosta de cavalo e de corpo de gente e de pêlo de gato e me atrair por gente velha ou feia ou andrógina e não sentir vergonha de ser uma combinação estranha. Talvez você tenha nojinho de mim, mas não é realmente justo. Eu não sou suja. Eu não sou sem noção. Eu só avalio os prós e os contras, e tomo decisões, como todo mundo. Os meus prós só são um pouco diferentes dos seus. E eu confio bastante no poder purificador de um banho no final do dia.
Ninguém é parecido de verdade comigo, então eu me apego às pequenas coisas. Você rosna, e eu te amo por isso. Você curte matemática, então vamos bater muito papo. Você tem questões parecidas com as minhas, então vamos tentar nos ajudar. Eu passei muito tempo procurando por alguém como eu, mas eu não acredito mais nisso. I'll take what I can get, e ficar contente. E se ninguém é parecido comigo, como eu posso esperar que alguém entenda?
Acho que eu divergi um pouco do meu assunto inicial, que era a discussão no blog da Hita. As pessoas se sentiram muito ofendidas com a idéia de que elas tentaram ajudar, mas não conseguiram, e ainda levaram bronca por isso. Eu não saquei muito porque ficar ofendido. Sim, é chato quando você tenta ajudar e leva patada, mas péraí, as pessoas quando estão mal sempre têm esse direito fundamental de ficarem decepcionadas com a inabilidade dos amigos de ajudar. Quero dizer, quem nunca? Talvez seja meu hábito achar sempre que eu poderia ter feito melhor, que se eu fosse melhor, tudo teria sido melhor. Eu sou meio egocêntrica nesse sentido. Eu acredito de verdade que eu poderia ser mais perceptiva e mais capaz de ajudar. Eu fico muito triste com não conseguir atravessar a carapaça de alguém. E também, eu não acredito muito nessa história de dar bronca de volta. Péra, deixa eu recomeçar este raciocínio:
A Hita tem esse blog no qual ela escreve o que ela pensa, sem meias-palavras. Ela escreve o que ela sente, na lata, por inteiro. De vez em quando, como todo mundo, ela desabafa. De vez em quando, como todo mundo, ela está puta com seus amigos porque eles não foram bons o suficiente (pelo menos me parece que todo mundo deve ser assim). Ok, vamos conceder, nenhum amigo é perfeito, e você poderia ter dito na cara deles que eles estavam falhando. Ou na nossa cara, enfim. Mas a pessoas frequentemente são ruins em falar as coisas na hora certa, aí elas guardam pra elas e depois desabafam. É assim que é. Eu não entendi muito bem por que, nesse contexto, alguém se ofenderia. Mas, pensando bem, acho que possivelmente você mesma, Hita, se ofenderia se falassem isso pra você. Mas ninguém é realmente um amigo tão bom quanto seria ideal. Eu pelo menos nunca tive um amigo que conseguisse me ajudar de verdade nos piores momentos. Que percebesse quando eu preciso de ajuda de verdade. É nessas horas que a gente fica mais recluso e difícil de entender. E eu sei que não sou capaz de entender as outras pessoas nessas horas, e isso me dói. Mas eu também tenho raiva dos meus amigos porque eles não são bons o suficiente; talvez por isso eu não consiga me ofender. Mas depois passa, eu não posso ficar muito tempo com raiva de alguém só porque essa pessoa não me entendeu quando eu fui enigmática. Só aquela desilusão fica, aquela decepção de perceber que as piores coisas a gente acaba enfrentando sozinho.
Aquela decepção de perceber que as piores coisas a gente acaba enfrentando sozinho, sim. A gente se sente muito solitário.
Sabe o quê, eu ainda espero ter amigos nos momentos difíceis. Eu vou até eles e falo "tô carente, me dá um abraço". Ou eu só pulo na piscina e choro sozinha. Mais freqüentemente, eu peço mais algumas cervejas e tento me distrair. Ou eu saio correndo e deixo todo mundo preocupado. Eu acho meio chato que eles não saibam como me ajudar, e às vezes, se alguém fala a coisa errada, eu nunca mais volto a confiar. Mas eu ainda espero, um pouquinho. Alguém que beba comigo, que cante comigo, que corra comigo. De vez em quando. Cada pessoa tem uma habilidade especial. Que jogue video-game. É tão difícil, e não tem ninguém que seja bom o tempo todo. Tem algumas pessoas que parecem que são ruins em tudo, e entretanto são ótimos amigos pros momentos felizes. No fundo eu uso as pessoas, a habilidade de cada uma, quando eu consigo identificar o que eu preciso. Mas é uma habilidade que eu demorei pra adquirir. Apenas dois anos atrás eu ficava chorando e pedindo ajuda pras pessoas erradas, e me decepcionando com a inabilidade delas.
Acho que saber passar pelos momentos defíceis é muito, muito mais fácil quando a sua vida é feliz. Quando você está desanimado e desesperado com a vida, você acaba sendo incompetente em sair da fossa também. Ou talvez seja uma questão de amadurecimento. Mas é preciso ter muito desprendimento, e muita desconfiança. Pra mim essa foi uma habilidade nascida da desilusão. Bom, disso, e do amor também, de ter mais amigos do que eu consigo aproveitar, de ter pessoas muito diferentes em quem eu consigo confiar, de estar apaixonada por algumas delas. Mas principalmente saber as falhas das pessoas. Às vezes os defeitos são o que fazem um amigo melhor nas horas ruins. Principalmente os defeitos te fazem saber o que contar e o que não contar para uma pessoa, e quando contar com ela, e quando não. No fundo as pessoas não sabem o que você precisa, elas só sabem o que elas conhecem, e às vezes elas não precisam entender o que você precisa pra te ajudar. Na verdade, acho que elas não tem como saber. Por isso acho que a pior parte a gente faz sozinho, que é a parte de descobrir o que vai nos fazer melhor. Se ao menos a gente soubesse, seria fácil pedir ajuda. Mas a gente não sabe, e ninguém sabe. Por isso eu acabo pedindo mais umas cervejas, tentando perder a timidez e agir por instindo. Por isso eu rolo na terra molhada e me molho na chuva. Nenhum de vocês entende o que está acontecendo, mas talvez se eu fizer o que meus instintos mandam, eu consiga expressar, ou me ajudar. Talvez.
Existe uma coisa que acontece quando a vida vai engrenando, que é que as coisas vão ficando mais fáceis de aguentar. Você consegue achar motivação pra seguir em frente, mesmo quando tudo parece ruim e escuro. Você tem um senso de identidade, abstrato mas presente, em senso de objetivo ao qual recorrer. Às vezes parece que tudo vai colapsar, mas aí você descobre um livro novo, ou um teorema novo, ou uma pessoa nova, ou uma bebida nova, ou seu professor vem te perguntar se você quer trabalhar com ele, ou você se apaixona, ou um jogo novo, ou um curso de verão, ou alguma coisa. Você cria uma rede de segurança, que cria novas linhas pra te segurar. Aos poucos você começa a confiar que sempre vai ter alguma coisa nova, que você nunca vai cair. Aí, mesmo quando você está caindo, você consegue manter a calma. Você já passou por isso antes, e sempre conseguiu voltar.
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