segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

A penas

I

Segurei tua mão no dia em que teu pai morreu
Segurei tua alma
Abracei teu corpo
Choramos juntos um amor de vida inteira
Mas era morte
era morte
era morte e o sol
e o sol passando por sobre meu corpo diz que não há tempo longo demais
para cair a chuva
Vão passar mil anos
vão passar mil anos sem a gente aprender
vão se passar os mil anos e nós não teremos ouvido
cair uma gota de chuva
como se deve ouvir
Segurei tua mão no dia em que o amor morreu
Segurei tua alma
Abracei teu corpo
E choramos juntos.


II

Lá fora, amor
nasce um botão de camélia
branco como sacolinha de supermercado ainda dobrada do lado do caixa
macio como o revestimento daquela caríssima almofada de porquinho
compacto como um notebook de última geração
frágil como plástico bolha
— apesar de que nos sentimos mais tentados a protegê-lo que a destrui-lo,
e nisso nada se parece com plástico bolha — lá fora,
nasce um botão.

(preste atenção ao botão
como ele é firme e contido
veja que as flores abertas
as velhas camélias abertas
são frágeis, são velhas, são livres
preste bastante atenção
como ele é novo e elas, velhas,
as pontas das pétalas murchas, pintando
-se de marrom da cor de papel craft
sinta o perfume das velhas camélias abertas que a um mínimo toque se espalham no chão)


III

Um dia eu dancei uma valsa com você

Me lembro hoje
como se fosse
apenas uma pena a flutuar
Não era dia
não era noite
o tempo desistira de passar
Onde meus pés tocavam?
De onde vinha o som?
Me lembro hoje
como se fosse
apenas uma nota a ressoar
Não era casa
não era festa
o mundo nos deixou de rodear
Onde seus pés pisavam?

De onde vinha o som?

Me lembro hoje
como se fosse
apenas um amor para lembrar
pois quem daria o tom para afinar
os nossos corações desatinados?
De onde viria o som?


IV

Nós somos jovens ainda
mal nascemos
rastejando para os seios de mamãe
Mal nos conhecemos
Nós somos poucos ainda
e pequenos
mas sentimos às vezes que somos maiores que o mundo
e mudamos o mundo com a força dos nossos olhares
Nós somos jovens ainda
e estamos morrendo
a cada minuto de vida,
a cada palavra
morremos pra vida vivida
e pra vida sonhada nascemos
Através de tempos imensos
nós envelhecemos
crescemos em sabedoria
e conforme sonhamos, os sonhos se tornam verdades
Nós somos jovens ainda
mas não temos medo
ou o medo que temos é a lenha da nossa coragem
pois temos certezas do mundo e dos sonhos e idéias
a verdade do mundo está ao alcance da mão
Nós somos jovens ainda
e nós não tememos a escuridão.


V

Segurei tua mão no dia em que nos conhecemos
Estava tarde
A rua vazia
A noite escura
nunca mais esqueci do teu olhar
Trocamos algumas palavras
alguns olhares cúmplices
de alguns crimes minúsculos
umas risadas uníssonas de uma bobagem qualquer...
Segurei tua mão, tua pele
era quente na minha no dia em que nos conhecemos
e nunca esqueci do teu calor
Estava tarde
bem tarde
as ruas vazias
e eu conversei contigo através das barras
eu encontrei teus olhos de dentro da jaula
e tu? nem a jaula viste
apenas me ouviste
seguraste minha mão
tua mão
minha mão
tua mão dizendo: "Fica."


VI

Nós somos do mesmo sangue, tu e eu
E vivemos sob as mesmas leis
Nós somos qual árvore e solo
— tu me nutres e eu te protejo.
Nós vivemos com regras banais
nós comemos o mesmo que os outros
mas não somos apenas pessoas
numa multidão de pessoas
nós somos qual árvore e solo
— te sustento e tu me seguras.
Às vezes me ocorre o amor
às vezes ocorre o sentir
Mas nós? nós não somos amantes
nós não somos pessoas assim
Nós somos do mesmo sangue, tu e eu
E vivemos sob as mesmas leis
Nós somos qual árvore e solo
— te dou vida, e tu me enriqueces.

Um comentário:

Yuri disse...

Alguns versos me lembraram o João Cabral de Melo Neto.

vida vivida, sabe?