domingo, 23 de agosto de 2009

Nervoso

Eu fico nervosa porque não sei fazer algumas coisas. Muito nervosa. Meu /mundo está, não sei, chovendo em mim. Eu/ //olho ao redore, não sei , ão sei /o qu/e /fazer, e, que porra é essa de aparecerem barras em /tudo o que eu escrevo?

Por exemplo, eu gosto do Jack, meu personagem alegre, amigável e assassino do rpg, mas sinto cada vez mais que não tenho a força necessária para interpretá-lo. E de que adianta ter um bom personagem se não sei interpretá-lo? E de que adianta jogar se no fundo eu sempre me divirto mais com o que os outros fazem? Se nunca consigo realizar o que realmente quero? Se só depois percebo que deveria ter agido dessa ou daquela forma? Não me sinto uma jogadora de rpg, mais, não tenho vontade de fazer ficha. Me irrita isso. Hoje eu /estava pensando seriamente em começar a beber antes das sessões, para ver se eu começo a agir, não sei se melhor, mas pelo menos mais. Mas isso tudo é bem fútil . Não é?

Não sei como os outros blogueiros conseguem falar tanto de assuntos gerais se só os assuntos particulares me são sequer alcansáveis. Me pergunto coisas. As coisas que sei não me interessam. Talvez só o que me apavora me interesse. Tenho mêdo de perder o Jack, de transformá-lo num personagem vazio, sem futuro, que nunca muda.

E eu acho que eu nunca me irritaria com um personagem bom que fosse chato. Entende? Por ele ser bom. Se ele fosse ineteressante, eu ficaria interessada nele, e seria isso. Não me importa tanto o jogo. Me importa os personagens. Eu queria poder explorar mais esse lado dos personagens. Parece que num jogo de rpg o que importa mesmo é a história, não os personagens. Sei lá. Talvez eu nem goste de rpg, na verdade. Talvez eu só esteja aproveitando a mesa para ouvir algumas boas histórias. Se fosse para participar delas, eu faria tudo diferente.

Ou eu deveria fazer tudo diferente? Será que eu deveria fingir que estou numa história, jogando com meus próprios personagens? Será que deveria ser tão impulsiva e verdadeira quanto sou quando estou sozinha? Mesmo se isso me levasse à morte? Se eu adoro a morte, talvez fosse inclusive mais justo perder as estribeiras. Talvez fosse completamente justo eu correr grandes riscos.

Mas eu, jogadora, não adoro a morte.

Bem.

Talvez eu jogadora tenha que me render ao meu personagem.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

A Morte (liberdade)

"Nós tínhamos essa idéia, e mesmo depois de tudo continuo achando que a liberdade é o mais fundamental para a formação de qualquer pessoa, inclusive a liberdade de morrer, sem esse risco não somos senhores, mas escravos."

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

A Velha da Pedra

Andei quatro dias para chegar a Vilania, e quando cheguei sentei na areia quante da praça principal e ali fiquei. Podia ver logo à frente a famosa pedreira onde Roder entrara para enfrentar o dragão, fechada agora pelos blocos de rocha que desabaram depois que o herói partiu. Conhecia tão bem aquelas pedras das histórias que encontrá-las frente a frente era como rever um amigo de quem se tem saudades. Levantei-me e andei em direção à pedreira, mas meu caminho foi interrompido por uma voz bonita mas cansada que vinha de uma velha em cima de uma pedra. "A caverna está fechada", disse a voz. Ela tinha cabelos prateados e muito longos, e vestia uma capa verde desbotada por cima de um vestido velho. Não estava olhando para mim, e sim para o horizonte. Seus olhos cinzentos pareciam estranhamente opacos. O rosto não era enrugado, mas era cheio de manchas. Senti uma imensa vontade de falar com ela. Não poderia ir à pedreira antes disso. Então eu disse a ela que já sabia que a caverna estaria fechada; que entretanto ainda queria ver o lugar onde o grande Roder havia matado um dragão.
Ela riu das minhas palavras. Riu sem olhar para mim, riu uma risada cheia, rude, velha, sem tirar os olhos do horizonte. "Está procurando no lugar errado", ela disse, com a voz melodiosa quase num sussurro. "Aqui nenhum dragão morreu", ela disse. "Vá embora", ela disse, jogando os cabelos sobre os ombros.
Eu queria ir em frente mas não conseguia me afastar daquela mulher. Enfeitiçado, me ofereci para contar-lhe a maior história de todas, a história dos sete dragões de Roder e da salvação do mundo. A mulher explodiu numa risada que a derrubou da pedra, e caiu graciosamente no chão diante de mim. Agora ela estava de pé, os olhos muito abertos olhando nos meus olhos, um sorriso brincando nos lábios, e naquele momento seu feitiço sobre mim a tornou a mulher mais bela que já existiu. E então ela disse:

"Não. Deixa que eu te conto a história do grande herói, menino."

terça-feira, 4 de agosto de 2009

A Morte (II)

(ou: a morte dos ritos)



Se fosse Jack, e não eu, naquele dia, teria ficado provavelmente louco e destruído tudo o que seus braços humanos pudessem. Se fosse a Lôhba, não eu, teria engolido o cemitério inteiro com o poder dos diamantes que purificam. Adulta, a Lôba teria convocado as plantas a consumirem toda aquela parte da cidade. Esse era o poder que eu mais queria ter.

Mas não era um personagem, porque não era ficção; mas era tão incrível quanto se fosse. Apenas mais estúpido. Menos significado.

Em São Paulo, quando uma pessoa morre, chamam-se os familiares e os familiares chamam os amigos. Todos se encontram no lugar da morte, vestindo as roupas de sempre, e falando coisas triviais como se fosse um dia trivial. O corpo é lavado e vestido por membros da comunidade que se dedicam a isso ou pelos familiares mais próximos. Vestem-no com suas roupas favoritas ou com roupas de festa, como a criar um personagem no qual fixar a imagem do morto. Escolhem um caixão entre os vários produzidos por outros membros dedicados da comunidade. Deitam o corpo, vestido e perfumado, dentro dele, e o cobrem com flores e véus, e o rodeiam com conjuntos enormes de flores com faixas onde estão pintadas as frases tradicionais. Alguns se despedem do morto beijando sua testa, outros o evitam. Põe-se a tampa no caixão e se a lacra com sete chaves, para evitar que algum dia seja aberta. Acredita-se que o morto está ali naquele corpo, que deve dormir seu sono eterno junto à sua família, e que deve dormir lacrado, trancado, cimentado, sob a terra. Guardemos os mortos. Temamos os mortos. Um grupo de pedreiros carrega o caixão sobre um veículo primitivo de rodas e tubos de ferro, pelas ruas da cidade miniatura, entre as plaquetas de bronze, entre caixas de pedra, até a que tem o nome da sua família. Abrem uma porta minúscula na caixa de pedra. Um pedreiro desce, joga para fora as ferramentas, recebe dos outros o caixão, eincaixa-o numa prateleira, pega de volta a colher-de-pedreiro, recebe uma porção de cimento, uma porção de tijolos. Outro pedreiro entra, juntos os dois controem uma parede entre o morto e os parentes junto aos quais ele deve permanecer. Conversam enquanto trabalham, sobre o trabalho, o cimento, a chuva. Quando terminam, devolvem para o túmulo as caixas onde estão os ossos da família. Saem e fecham a porta. Cumprimentam os familiares e vão embora. Apenas mais um dia de trabalho.

Existe um velho mito Ibo segundo o qual o Grande Espírito, Chuku, manda o cachorro dizer aos homens como reviver os que morrem. Porém o cachorro se distrai pelo caminho, e Chuku envia então o carneiro para passar a mensagem. O carneiro diz aos homens para enterrar os mortos, e é isso que os homens fazem. Mas o carneiro havia confundido a mensagem. Quando o cachorro chega, diz que o corpo de um homem morto deve ser deitado sobre a terra e coberto com cinzas, e então ele reviverá. Os homens não acreditam porque acreditaram no carneiro. E assim os homens conhecem a morte.
Nunca entendi porque os Ibo, que conheciam a lenda, não espalharam a mensagem verdadeira do cachorro, por que continuaram enterrando seus mortos e não os cobriram com cinzas. De modo geral nunca entendi a idéia de sepultar os mortos, de guardá-los sob a terra. Uma grande cidade de mortos. Pra mim é um grande mistério.

Por via das dúvidas, quando eu morrer, não me enterrem. Não guardem meu corpo - se quiserem, destruam-no.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

A Morte (I)

(ou: descobri que odeio cemitérios)



Na região de Canzara os ritos fúnebres sempre foram levados muito a sério. Quando uma pessoa morre, parece que até o ar muda subitamente de cheiro. A notícia se espalha como sementeira alada, corre no vento, e todos os que ficam sabendo vestem imediatamente o manto amarelo de couriú, que em um dia se alaranja, em dois se avermelha, em três se amarronza, em quatro anegra. Assim os campos de Canzara vão se colorindo gradualmente, de dentro pra fora, e ao mesmo tempo de dentro pra fora vão perdendo a cor.
Durante uma semana cada pessoa age de acordo com as regras do couriú: os que vestem o manto amarelo lavam a casa, as roupas e os cabelos, não podem comer e também não podem falar; os de manto laranja comem pão-de-frango e folha de canhacheira lambida no fogo de vela (é o dia favorito de todos), passam o dia cantando ou rezando, e dependendo da lua têm que cortar os cabelos; os de vermelho pintam o corpo, saem de casa com lanças e só podem comer o que puderem matar; os de marrom quebram suas lanças e se alimentam de cascas de árvores, raízes, folhas e flores, se houverem; os de negro se banham na lama e voltam para casa, onde, depois do último canto, voltam às suas vidas normais. Poucos dias depois o couriú se desprende do manto e só aí as pessoas param de usá-lo. Dizem que é o sinal de que o mundo pode continuar como era antes.
As cores do couriú regem também a preparação do corpo. Os mais próximos do morto clamam para si, através dos versos tradicionais, os deveres para com o corpo. Quando é necessário, o resto da comunidade executa as regras do couriú no lugar dessas pessoas, que têm deveres diferentes. No dia amarelo, é preciso lavar o corpo e preparar a madeira para o caixão. A madeira precisa ser de três árvores diferentes, escolhidas pela primeira pessoa. No dia laranja, usando velas laranjas, deve-se queimar os cabelos e todos os pêlos do morto e preparar as tintas para o caixão. As tintas também devem ser feitas com três pigmentos diferentes, escolhidos por uma segunda pessoa. No dia vermelho, enquanto todos os outros deixam suas casas, os preparadores pintam cada milímetro de pele do corpo e constroem o caixão com todos os cuidados. No dia marrom, ainda mais sozinhos, os preparadores terminam os detalhes finais do caixão, cobrem-no de pinturas, forram-no com terra, põe o corpo dentro dele e o fecham com sete fechos. Depois limpam a bagunça, a si mesmos, uns aos outros. Esperam sozinhos pela chegada dos outros. Choram, talvez.
No dia negro todos voltam para a cerimônia da morte. Voltam cobertos de lama, vestindo mantos negros, famintos e ferozes. Nos outros lugares esse é um dia tranquilo em que tudo volta ao normal assim que a lama se dissolve na água do banho, mas, aqui, onde um homem morreu, é um dia muito estranho. Das sombras das casas surge um grupo de homens (?) vestidos de preto com máscaras pretas de feras. Não se vê nenhuma parte de seus corpos, e ninguém se aproxima por causa do mêdo e do cheiro de morte. Ninguém diz nada: eles levantam o caixão pintado e carregam-no até um lugar vazio decidido por eles, enquanto os outros seguem, silenciosos. Pousam o caixão no chão. Tiram de dentro do manto armas colossais --- machado, facão, picareta, foice, martelo, enxada, forjados, polidos e afiados para serem grandes, negros e brutais. Com um guincho de fúria o primeiro machado desce sobre o caixão dividindo-o no meio, seguido pelo urro da picaretada, pelo estrondo do martelo que lança pedaços de madeira sobre os demais; a comunidade urra, recua, se excita e se assusta, as lâminas sobem e descem, as feras gritam e rugem e saltam sobre o corpo enquanto despedaçam-no com sua fúria, o camunidade grita e canta os cantos de morte, de liberdade, de mêdo, a carne, a terra e a madeira voam, a fúria e a morte voam, os ossos se partem junto com as tábuas, e quando acaba as feras rugem levantando as armas e a comunidade pula sobre os restos (carne osso madeira terra tinta) e os agarra, os disputa, cada um ansioso por enterrar um pedaço, o maior, mais fundo.

De repente a comunidade se dispersa. Banho, comida, a vida segue em frente. As feras já desapareceram faz tempo. As pessoas estão cansadas. A terra mexida e novamente vazia (ao menos na superfície) ficará abandonada até que couriú se desprenda das nossas roupas. Então, tudo será como sempre foi.

sábado, 25 de julho de 2009

Mood

I don't know what I am for



All around me are familiar faces
Worn out places - worn out faces
Bright and early for their daily races
Going nowhere - going nowhere
And their tears are filling up their glasses
No expression - no expression
Hide my head I want to drown my sorrow
No tommorow - no tommorow

And I find it kind of funny
I find it kind of sad
The dreams in which I'm dying
Are the best I've ever had
I find it hard to tell you
'Cos I find it hard to take
When people run in circles
It's a very, very Mad World

Children waiting for the day they feel good
Happy Birthday - Happy Birthday
Made to feel the way that every child should
Sit and listen - sit and listen
Went to school and I was very nervous
No one knew me - no one knew me
Hello teacher tell me what's my lesson
Look right through me - look right through me

And I find it kind of funny
I find it kind of sad
The dreams in which I'm dying
Are the best I've ever had
I find it hard to tell you
'Cos I find it hard to take
When people run in circles
It's a very, very Mad World

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Eu sou uma pessoa constante

Eu estou aplicando os marcadores do blogger aos meus posts antigos. Queria fazer isso faz tempo, mas sempre soube (ainda sei) que dá um trabalho do capeta, por isso não tinha feito ainda. Criei muitos marcadores, mas não foram exatamente suficientes porque nem tudo pode ser classificado, e tal. Além disso havia coisas que eu não queria agrupar, como todos os posts depressivos, imagina?

Enfim, um dos posts era esse resultado de quiz sobre mim:


You rank up there with your seduction skills, though you might not know it.
That's because you're a natural at seduction. You don't realize your power!
The root of your natural seduction power: your innocence and optimism.

You're the type of person who happily plays around and creates a unique little world.
Little do you know that your personal paradise is so appealing that it sucks people in.
You find joy in everything - so is it any surprise that people find joy in you?

You bring back the inner child in everyone you meet with your sincere and spontaneous ways.
Your childlike (but not childish) behavior also inspires others to care for you.
As a result, those who you befriend and date tend to be incredibly loyal to you.


Três anos depois, ainda acho que essa resposta tem tudo pra ser verdadeira. É claro, eu teria que perguntar pra eles pra saber a verdade ^^

Enfim, como será que eu vou marcar este post?

domingo, 19 de julho de 2009

Manual do Minotauro - Missão




A vida é linda, não é, Laerte?

E os desejos confusos

(porque, foda-se o mundo, I get off on being completely sincere)



Então a vontade de transar com todos os caras do mundo passou. Não sei explicar como, nem porque. Foi suave. Foi de repente, você passou por trás de mim e eu senti o seu cheiro, e dali a pouco tudo o que eu queria era dormir nos seus braços. Eu abracei você e pedi pra você ficar, e dessa vez era você, só você, e mais ninguém poderia me abraçar naquela hora, ninguém mais tem o seu cheiro, o seu calor, o seu carinho. É isso que eu quero dizer quando digo que eu te amo.

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Least I Could Do


Questões de cunho moral e filosófico

"Desde muy temprano se sufre, pero sólo desde cierta edad se aprovecha." - Alfonso Reyes, Tertúlia de Madrid, III



Há um ditado que diz que "mais vale um pássaro na mão do que dois voando", outro que diz que "quem não arrisca não petisca", outro que diz que "tudo está bem quando acaba bem" e outro que diz que "de boas intenções o inferno está cheio". Cresci ouvindo essas coisas, muito bem usadas, muito bem argumentadas, e acho que a meu modo sigo as duas primeiras mas não as duas últimas.

Recentemente corri um risco para evitar ter apenas pássaros voando, e posso dizer de certa forma que tudo acabou bem, mas essa resposta não é suficiente para minha filosofia. Não consigo avaliar precisamente se foram boas ou más minhas intenções, para não mencionar os métodos. Não sei dizer se foram os fins que justificaram os meios, ou se foram os meios que justificaram os fins. Se esta é uma história a que bem e mal talvez não se apliquem, então as duas coisas são verdadeiras. Dá na mesma se tanto os meios como os fins foram por um lado bons por outro maus. Assim a questão só se propõe justamente porque, na questão de um risco cuja validade é questionável, a ceitação final desse risco depende inteiramente do resoltado (que pode ser tanto petisco quando desgraça); como podemos tomar decisões razoáveis quando há uma questão assim em aberto?

É como a questão do House, que toma decisões sem antes confirmar suas teorias e faz todo tipo de coisa que pode "matar ou salvar". House é respeitado, embora não pela comunidade médica em geral, apenas porque está sempre certo. Se um dos seus palpites estiver errado, e ele matar uma pessoa, sua carreira, sua ideologia, sua vida vai por água abaixo? Será que a Cuddy, que sempre apoia suas loucuras, embora com limites, conseguiria perdoá-lo se ele matasse um paciente com um tratamento errado? O House pode tomar decisões potencialmente más porque ele é foda, mas e o resto de nós, pessoas reais? Será que seguir nossas intuições é o suficiente para fazer a coisa certa? Ou será que, tentando seguir uma ideologia perigosa, nos tornaremos eventualmente os vilões?

Se eu faço uma coisa que pode ser imperdoável, e por acaso essa coisa não tem conseqüência negativas, não seria moralmente correto que de qualquer forma eu não fosse perdoada?

Por outro lado, se eu faço uma coisa que pode ser a salvação, e por azar essa coisa só tem conseqüência negativas, seria moral que eu fosse condenada?

Talvez fosse mais justo se, nessas situações em que os resultados determinam a validade de uma ação, os julgamentos fossem baseados nas informações que o ator tinha antes de atuar; afinal, se duas pessoas fazem a mesma coisa, e uma destrói a cidade enquanto outra salva um ônibus escolar, as duas são igualmente boas ou más. Não?

O problema, que é o mesmo problema que existe para o ator, é como avaliar as possíveis conseqüência dos seus atos. Muitos, como eu, escolhem a partir de sonhos e intuições. Como colocar essas coisas na balaça?

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Sonhos

"Não te preocupes com sonhos: pois o espírito do homem julga ver no sono como verdade o que deseja em estado de vigília." - Dionísio Catão, Dísticos



Quando sonhei com você, foi como o sol
me iluminando e me aquecendo dentro do dia
foi como a chuva grossa do verão
levantando o cheiro da grama e enchendo meu peito de vida
(por que é que a chuva me faz tão feroz, tão alegre?
por que a chuva me traz de volta a infância?
por que a chuva me torna loba, me torna vento, me torna deusa?)
como se eu chegasse naquela cabana da floresta onde eu sonhei morar
no coração da floresta que é como o seu coração
onde eu tenho uma cama, uma faca e a fonte da vida
foi como "para sempre"
foi como estar em casa
foi como ter um amigo
foi como um abraço.

Quando eu sonhei com você, foi como um pecado
fervendo meu sangue e gelando meus dedos famintos
Foi como uma guerra travada num ermo, num túmulo
sob a noite cerrada, num descampado
um cavaleiro negro, um animal negro, contra a lua minguante
seus olhos eram segredo; seus olhos brilhavam.
Foi como uma espada vertendo sangue do meu peito
um inimigo, um demônio dentro do meu peito
dizendo "foda-se o mundo, eu só quero você"

Quando eu sonhei com você, foi como uma estrada
que subia uma montanha imensa e que eu percorri
(porque vovó dizia que sua estrada contorna a montanha
minha estrada percorre a montanha e outra montanha
não há só um pico, só uma luz: há a Perdição;
o caminho para o topo é o caminhar: há só o Infinito)
No topo, no cume encontrei um fantasma brilhante de mim
ou um espírito que faltava dentro do meu próprio espírito
ou um espectro do reflexo
do reflexo do reflexo de mim
Foi como ser devorado por um urso mau
e como ser abraçado por um golem gigante
Foi como a Imensidão
e como um coração imenso batendo por mim
foi como violar minha própria castidade
foi como amar a terra, foi como DEUS.
foi como tornar-me humana a partir do barro.
foi como tornar-me Outra.
foi como o incesto.

Quando eu sonhei com você, foi como a paisagem
que vem antes e cria a linha do horizonte
foi como nascer de novo, num mundo mudado
Foi como o prazer de caminhar sobre a lama que passa entre meus dedos dos pés
foi como a brisa e o vento que carregam meus espíritos
apenas soprando bem, muito bem
foi como o prazer de descer uma ladeira de bicicleta sem segurar o guidão
Foi como a liberdade.

Quando eu sonhei com você, foi como uma mensagem
Aquela mensagem do velho da taverna
"adentre a caverna e liberte a donzela das garras do dragão
e não se esqueça de trazes seis cabeças de orcs"
Sim, foi bastante como um video-game
Foi como uma missão, um desafio, um sentido de vida
Foi como uma certeza no futuro
Cada vez mais, a cada você, foi amadurecer.
Foi como rir com você e ser seu amigo.
Foi como adorar você.

Quando eu sonhei com você, foi como a realidade
ou como se o sonho fosse a realidade
De repente verdade era mentira e mentira era verdade
Foi como se a realidade fosse um espectro do sonho
e a loucura fosse sã e a sanidade, loucura
Foi como um sonho
Foi como chegar ao horizonte
foi como o impossível
Foi como a verdade
fazer a verdade tornar-se o que a verdade é
(ou concretizar o mundo das idéias
para não idealizar o mundo concreto)

Quando eu sonhei com você, foi como uma resposta
dizendo "foda-se tudo, eu só quero saber!
a resposta para todas as coisas, todas as perguntas
eu quero me tornar o que eu quero ser"
Foi como baixar as cortinas, sair do teatro
Foi como deixar os enigmas e sair para a vida
Foi como cuspir na cara da esfinge
ou devorar a esfinge
e cuspir os ossos da esfinge no mundo ignorante
Foi como montar um cavalo descontrolado
foi como subir no alto do pédrão e me jogar de lá
(e por mais que me assuste o pédrão e a dor lá em baixo
e por mais que me aflija esse mêdo que tenho dos saltos
e por mais que nunca eu salte sem saber como será o fim do salto
esse sonho, certamente, foi um salto)
Foi como um amigo, um demônio, voando com meus espíritos
dizendo "foda-se tudo porque eu quero você"

Again?

Just because I'm losing
Doesn't mean I'm lost
Doesn't mean I'll stop



Sobre a história anterior: eu escrevo só porque você lê.

PS para o Charles.:

Quando os velhos de Alanraia morrem, são enterrados num imenso mausoléu subterrâneo sem caixões. Buracos nas sarjetas permitem que entrem nesse mausoléu água, sol e pessoas distraídas. O mausoléu assim se torna um grande jardim subterrâneo, cheio de plantas escuras, fungos e outras criaturas. O solo de Alanraia, construída sobre esse campo imenso, é o que há de mais sagrado para os Alanreses. Os jovens de Alanraia, quando morrem, são queimados até que só reste o pó, e o pó é soprado sobre um bando de pássaros migratórios, para que seja levado para outra parte do mundo.

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Fazendo Matrícula (2)

Finalmente recebi a resposta do meu professor de MAC para a pergunta "e aí, o que eu faço agora?"

A resposta foi a seguinte:
Sobre outras disciplinas para continuar estudando programação. A continuação natural seria fazer as disciplinas de laboratório de programação (são duas, com nomes com terminação I e II). Elas são disciplinas interessantes pois focam em ferramentas de programação e também na confecção de projetos maiores e não apenas pequenos EPs isolados. São as disciplinas de programação feitas pelos alunos do segundo ano de computação no IME.

Deixem eu contextualizar essa matéria "Laboratório de Programação I": semestre passado eu queria fazer coisas muito legais e me inscrevi nela, mas não peguei, e na minha ingenuidade não fiz requerimento nem nada disso. Teria sido legal porque eu teria feito junto com o Nando, mas isso não vem ao caso. Semestre que vem essa disciplina não existe. É o que acontece quando você consegue ser idiota por uma ano e meio, e não só um ano, e acaba fazendo as matérias todas nos semestres errados. Pelo menos eu conheci o Paulo, que é um cara legal, e tive a mesma matéria que o Diogo, mas, bem, acho que nada disso compensa. Estou bastante irritada. E não quero ficar pra trás de jeito nenhum.

Então: eu mandei um e-mail pro cara responsável pela matéria perguntando se é sussa eu fazer Lab 2 sem ter feito Lab 1. Espero que sim. Uma pena é que decidir fazer essa matéria não muda nada nas minhas dúvidas e inseguranças; só deixa claro que eu não vou fazer Cálculo II.

O que é uma pena. Era a única matéria que eu tinha certeza que ia ser legal.

PS.: pensando bem, ela também deixa claro que eu não vou fazer MecFlu, pelo menos não de manhã. Mas isso acho que eu já sabia...

Fazendo matrícula...

É muito difícil. Talves o difícil seja conseguir especificar exatamente o que eu quero. O que eu quero da vida, do futuro, da faculdade, de mim. A minha maior dúvida atual é entre Álgebra Linear para Computação e Introdução à Manufatura Mecânica. A primeira me daria uma grande chance de fazer Computação Gráfica no futuro, me tornaria mais habilidosa para uma porção de coisas, e é a única das matérias de álgebra linear que não têm pré-requisitos ; todas as outras requerem que eu tenha feito geometria analítica ou vetores e geometria, e nenhuma dessas matérias está disponível. A segunda me ensinaria sobre processos de produção, supostamente me daria grandes conhecimentos e habilidades úteis para o projeto de produtos. De certa forma, é como se eu estivesse fazendo uma escolha entre o mundo real e o virtual. Mas apenas de certa forma.

Escolher AlgeLin também me impediria de fazer várias outras matérias, como Cálculo II (eu achei que faria sentido fazer a seqüência de uma matéria que eu gostei de fazer) e Microprocessadores e Controle Digital, que é sobre sontrole de sistemas dinâmicos.

O que mais me irrita nessa questão toda é que eu vou ter que ralar e correr atrás de um monte de coisas se eu quiser ter a menor chance de fazer qualquer coisa. Eu não sei se dá pra quebrar requisitos. Eu não sei quantos requerimentos e recursos de requerimentos eu vou ter que fazer. Por isso, eu tenho que tomar uma decisão definitiva. Eu preciso ter certeza. E eu não sei de onde tirar essa certeza.

Não seria mais fácil se estudar fosse como em jogos de computador, em que novas opções vão aparecendo à medida que você vai conseguindo os requisitos para elas, e em que você sempre pode conseguir mais níveis naquilo que você gosta até chegar ao nível máximo?

Outra dúvida minha é fazer ou não Laboratório de Desenho e Cor, na ECA. Eu acho que é o tipo de coisa que me fazria mais feliz, mais tranqüila, mesmo se fosse difícil. Mas para isso eu teria que desistir de Cálculo II, Análise de Algoritmos e Arquitetura de Computadores. Acho que neste caso a dúvida é: eu quero ser feliz ou eu quero ser foda? (a propósito, se eu decidir fazer Cálculo II, as escolhas subitamente se tornam muito simples).

O problema é que eu não tenho nenhuma garantia de que eu vou ser feliz ou foda. Eu não sei o que eu vou aprender. Eu não sei o quanto eu vou sofrer com essas coisas. Eu tenho duas diretrizes básicas: eu quero ter aulas à tarde, eu quero ter aulas das quais eu goste, e eu quero chegar mais perto de descobrir um caminho que eu possa seguir. No fundo, não é tão ruim. É só extremamente confuso. E eu me sinto extremamente insegura.

Eu também tenho vontade de fazer aquele curso de C# que custa R$500,00 e vai tomar duas semanas das minhas férias. Eu não sei o que fazer, na verdade. Eu quero programar. Eu quero alguém que me aponte um caminho, que diga, vai por aqui, por aqui há coisas legais. Eu sinto que eu vou ficar pra sempre na faculdade. Meus amigos estão fazendo várias coisas, iniciação científica, trabalho na área, projetos diversos, e eu, bem, eu estou patinando, sem saber que tipo de vida eu posso levar.

Me parece tarde demais para coisas tão fúteis quanto "férias".

segunda-feira, 6 de julho de 2009

domingo, 5 de julho de 2009

Esquecer

Porque vivia em Alanraia, sempre soubera que um dia ficaria velho e precisaria partir. Quando a idade certa chegou, deixou suas coisas e foi. A partir daquele dia não teria mais nome. Seria um peregrino cuja terra prometida era também o ponto de partida. Trinta anos na estrada. Em Alanraia fora general e senador, e respeitado por todos os conterrâneos. Começara como chefe de guarda na periferia da cidade e ganhara uma tropeta após capturar todos os bandidos da região próxima. Trabalhara por um ano capturando bandidos em terra antes de começar a lidar com os piratas. Comprara do capitão do porto seus primeiro navio por uma picanha, quinhentos luares e cinco barris de cerveja. Três meses depois, já conhecido até em outros mares, conseguira seu segundo navio, sem picanha, mil e duzentos luares. Armou uma arapuca para os bandidos das águas que lhe valeu sua própria frota com cinco galeões e os melhores canhões da cidade. Seus homens o amavam porque alguns estavam com ele desde o início e porque ele sempre exigia deles exatamente o melhor que poderiam lhe dar. Em cinco anos, comandando quarenta navios, capturara Scarânia, antiga Levante, cobrira suas leoas de piche e lhe rebatizara Alanteni(o Pátio). Nessa batalha, aquela cujos detalhes se tornariam parte de todos os seus sonhos até o fim de sua vida, nessa batalha perfeita fora ferido na perna e conseqüentemente afastado dos seus serviços. Em Alanraia nenhum soldado ficava afastado de casa por mais de seis meses, mas dois anos inteiros na cidade era mais que qualquer marujo poderia esperar. A fama ou a confiança lhe dera assim que pisara em terra a cadeira de senador. Como senador fora justo, mas não fizera nenhuma proposta. Ou talvez seria melhor dizer que nos dois anos em que servira à cidade como senador, não fizera nenhuma lei, nenhuma reforma, mas julgara as propostas dos outros e os argumentos que ouvia com coragem e justiça, sem nunca perder de vista o benefício total à cidade. Porém, mal a perna se recuperara totalmente, já estava de novo nos mares, reformando as regras da marinha, se livrando de novos piratas; além disso recapturara Levante e desta vez dera-lhe o nome de Alanfera(a Morte). Partindo de Alanfera acuara os defensores da cidade, capturara o capitão B. Leão e o trocara por 34 prisioneiros de guerra num opressivo acordo de rendição. Fizera de Anlanfera sua base, e vivera nela por cinco anos, estendendo um exército sobre a terra como havia estendido um sobre o mar. Passava em Alanraia apenas uma semana por ano, em duas viagens apressadas, para abraçar suas filhas e beijar sua terra vermelha pedindo a bênção dos seus. Em Alanfera era sempre revoltas e carnavais, festas e rebeliões. A pantera de piche porém já nem era mais chamada de leoa. Seu exército continuava vencendo batalhas. Sua cidade tinha muito do que se orgulhar. E esse foi o fim da história.

Porque sempre vivera por Alanraia, sempre soubera o dia em que ficaria velho e teria de partir. Quando esse dia chegou, como chegava para todos, saudou seus companheiros na cidade, abraçou todos o que respeitava, caminhou pelos pátios nos quais brincara em criança, e embarcou num veleiro branco para Alanfera. Seus coronéis fizeram-lhe uma homenagem, seus soldados por toda a cidade se perfilavam à sua passagem. Numa última reunião de conselho apontou seu sucessor no posto e fizeram uma festa. Então tudo acabou. Saiu da festa sem uniforme, vestido como um dos civis daquela cidade que era tão diferente do que queria que fosse. Nenhum soldado raso ou oficial sequer olhou para ele. A partir daquele dia estava morto; não tinha nome, não tinha patente, ninguém o conhecia. Quando caminhou até o porto, era como se fosse um fantasma. Quando o veleiro branco estendeu suas velas, era como se fosse invisível. A parte mais difícil de morrer era esquecer da vida que chamara de sua. Enquanto o veleiro branco seguia o vento que não sabia para onde ia, tentava esquecer de todas as suas batalhas. Só estaria realmente livre quando não houvessem mais pronomes possessivos. Temia perder a noção do tempo, temia esquecer também de onde viera e para onde ia; o veleiro branco não tinha biruta mas tinha um relógio que marcava o tempo ao contrário e uma bússola que não apontava para o norte. E seguia para o mar do esquecimento, que também se chamava o mar da memória.
Dali a trinta anos chegaria a Alanraia apenas um peregrino. Ele diria que viera seguindo uma bússola louca e um relógio que marcaria zero. Ele contaria sonhos estranhos, histórias antigas cujos heróis pareceriam não ter nome. Ele contaria para as crianças assustadas de uma cidade que se chamava Morte, e que talvez existisse, em algum lugar. A maior parte de suas histórias seria maravilhosa, coisa de terras estranhas, de mundos estranhos, coisas que as pessoas da cidade mal poderiam imaginar.
Os peregrinos, os velhos, são bem recebidos em Alanraia. Eles recebem casa, comida, e o direito de andar livremente por onde quiserem. São consultados por todos os cidadãos em busca de conselhos ou presságios. Além disso, nunca deixam a cidade. Se tornam parte dela, como as ruas e as casas. Quando são questionados a respeito de sua vida pregressa, respondem quase sempre que acabaram de nascer.

Pronome pessoal possessivo de primeira pessoa

Um dia Liane perguntou para Zacharias o que mais lhe fazia saudade de sua antiga vida no rancho. Zacharias não parou para pensar, nem por um instante.
"Sinto falta de Lúcia, de nossa casa, de nossos filhos. Sinto falta do pôr do sol atrás da colina e de Turo, o pônei que demos para Alina quando ela fez seis anos. Sinto falta de sentar com Lúcia na varanda e conversar olhando para a lua."
A isso, Liane teve que perguntar:
"Você seria mais feliz se nunca tivéssemos partido? Se tivéssemos continuado no rancho até o fim?"
Não. A resposta era sempre não. Mesmo em seu coração não havia redenção para todos os erros da sua vida pregressa. Não havia escapatória para o fim que lhes era reservado. Viveriam ali até que fossem encontrados. Então partiriam, quem sabe mudando de nome, quem sabe com outras pessoas... o futuro que ele enxergava era uma repetição do passado, porque o fim lhe parecia sempre o mais certo. Mas não era isso que ele diria a Liane.
"Sinto falta de Lúcia, mas apenas porque não a vejo há anos. Se a visse agora, quem será que me olharia através dos olhos dela? Quem falaria através da sua boca? Se eu estivesse lá, nós não estaríamos aqui. Se eu estivesse no passado, não existiria o presente. Se tívessemos ficado no rancho, não haveria estas pedras, estas colinas; nós não poderíamos assistir ao nascer do sol atrás da velha árvore. As pedras do passado nunca vão criar limo; as nossas, é possível amar. Eu não te deixaria se encontrasse minha mulher e meus filhos, querida. Eles são boas pessoas, e eu os amo, mas não são mais meus. Aquela não é mais a minha vida; está é."



Às vezes eu me pergunto o que queremos dizer quando dizemos "minha vida". A vida é minha mesmo? Tenho algum poder sobre ela? Ela faz parte de mim? Ela define alguma coisa em mim? Eu defino alguma coisa nela? Será que sou eu a parte mais importante dessa vida, ou será que o protagonista é outro? Será que sou apenas a câmera, o diretor, o ator, tentando criar alguma coisa maior para chamar de "meu filme"? Será que através dos meus olhos acontecem coisas? Será que meu olhar cria significado?

Será que tenho qualquer poder sobre o que eu vivo?

sábado, 20 de junho de 2009

Design e Semiótica

Vocês se importam se eu pensar em voz alta um pouco? É que eu me organizo melhor quando escrevo, e não quero sair do computador e ir efetivamente trabalhar, então pensei em escrever aqui mesmo. Tudo bem?

Tenho que fazer um trabalho de semiótica sobre qualquer objeto de design. Ou seja, qualquer coisa feita por um designer, ou que poderia ter sido feito por um. Ou seja, virtualmente qualquer coisa.

As pessoas não entendem o que é o campo do design. Ontem o Bruno se impressionou quando eu disse que design é muito amplo (eu estava tentando explicar que é possível gostar das matérias do design sem realmente querer ser designer). A verdade é que o designer não tem um campo muito definido. Um designer pode trabalhar com qualquer coisa. Trabalhar com pesquisadores (cientistas) é um pouco difícil, mas não completamente impossível. O mais fácil é trabalhar com empresas, artistas, publicitários, criadores, engenheiros, indústria, internet ou meios de comunicação, mas existem inúmeras possibilidades.

O característico do design não é o campo, mas o método. Podemos trabalhar em qualquer campo. Há restrições: o método do designer é um método de projeto. Ele até funciona para outras coisas, mas não é o ideal. Existem coisas que um designer não pode fazer. É claro que não há quem possa fazer tudo. Mas um designer poderia solucionar problemas em qualquer situação. Um designer poderia projetar qualquer produto. Se for possível ensinar a ele como as coisas funcionam, então ele é capaz de fazer seu trabalho. Obviamente, nem sempre é possível ensinar a ele como as coisas funcionam.

Outra limitação, embora nem de longe tão sólida, é que o designer é treinado para projetar para seres humanos. Não que ele saiba as medidas e proporções ideais de cor (o designer a princípio não sabe nada), mas ele está acostumado com os seres humanos, com a forma como aprendem, com as fórmulas da gestalt, com sua noção de estilo e beleza, com a forma como respondem a suas perguntas. No curso que eu faço, metade do trabalho é sempre pesquisa. Pesquisa envolve encontrar as opiniões, os tamanhos, a legislação, os desejos e as dificuldades relevantes. O designer iria ficar confuso ao projetar para máquinas. O designer iria parecer maluco ao projetar para bichos (eu acho que eu adoraria trabalhar para bichos). (nota.: isso é questionável porque as pessoas que fazem casas, coleiras e brinquedos para animais são designers... mas ainda acho que esse é um campo de baixa qualidade, e que a pesquisa feita é meio porca)

Olhem ao redor. Assumindo que vocês estejam dentro de uma casa ou na faculdade, posso dizer sem muito mêdo que quase tudo o que vocês vêem foi feito por um designer. O que não foi, foi feito por um artesão, por vocês mesmos ou pela natureza. Pode ser que as pessoas que fizeram esses objetos não se considerassem designers, e sim artistas, ou editores, ou engenheiros, ou arquitetos, ou apenas uma pessoa com um trabalho a fazer. Mas, a partir do momento em que se puseram a fazer o projeto de um abjeto, identidade ou composição gráfica, com a preocupação real de tornar a sua interação com o usuário ou sua comunicação o mais azeitada e eficiente e até mesmo agradável possível, então ele é um designer. (obs.: a gente costuma dizer que projetos que não levam em conta o usuário são "projetos de engenheiro". isso não é um preconceito, é só uma definição, já que o engenheiro não é treinado para lidar com o usuário, e sim com o mecanismo — é por isso que tantos polis vêm fazer fau-poli!)

Acho que uma das coisas que mais me incomoda no meu curso é que não nos tornamos realmente aptos a estudar qualquer campo em que queiramos trabalhar. Uma das coisas que aprendi com meu curso é que antes de fazer um projeto é preciso se tornar especialista na área correspondente. Por exemplo: para projetar uma lâmpada, eu preciso estudar iluminação. Para fazer um projeto para cegos, eu preciso entender a vida dos cegos. Para projetar carros, eu preciso entender como funciona um carro, como funciona a aerodinâmica, como o material se deforma em uma colisão. Em muitos casos é possível aprender em alguns meses o duficiente para se fazer um bom projeto. Em alguns casos, como no do carro, é necessária necessàriamente a associação com um engenheiro, mas para que haja boa comunicação com o engenheiro também é preciso entender a engenharia. No curso de arquitetura, assim como em alguns cursos de design gráfico ou desenho industrial mais especializados, existe a preocupação de ensinar ao graduando as técnicas, as características dos materiais, a matemática e a física de tudo com que esses cursos propõe que o seu graduado trabalhe. Não com muita profundidade, talvez, em direção à engenharia, mas o suficiente para que o projeto não saia absurdo demais. O meu curso não ensina isso, porque não seria possível ensinar todas as técnicas específicas de cada uma das áreas nas quais eles esperam que nós trabalhemos. Nós aprendemos uma coisinha aqui, outra ali, apenas para que não sejamos totalmente ignorantes. E o resto é por nossa conta.

Meu problema com essa estratégia é que sempre nos falta, a princípio, uma área comum de entendimento com profissionais de outras áreas. Eu gostaria que meu curso tivesse, embora numa proporção menos... absoluta, uma proposta que encontrei no curso do Diogo: a de criar uma linguagem que abranja diversas áreas do conhecimento.

(Me incomoda no curso do diogo que eles achem que estão estudando todas as áreas do conhecimento quando na verdade estão estudando apenas física, química, matemática, computação e um pouco de biologia, e me incomoda ainda mais a defesa que fazem à essa acusação porque dá a entender que o que estudam no ciclo básico é apenas o mais difícil -- e é mesmo, é o tipo de coisa que não se pode tentar explicar aos amigos como eu tento explicar a vocês o que é design, o que é semiótica, o que eu estou pensando, mas, veja bem, isso me incomoda ainda mais, porque de qualquer forma eu não posso sonhar em fazer vocês entenderem exatamente qual é a do Peirce ou a do Max Bill, e eu imagino que seria ainda mais difícil para o Yuri ou o Ugo explicarem o que estão estudando, e entretanto existe alguém que acha que é possível estudar até mesmo as sciências humanas partindo de uma base puramente científica!)

Acho que terminei o que eu queria dizer sobre design. Aproveitando o ensejo, eu queria tentar dar uma leve noção do que é semiótica. E já que estou usando bastante esse termo, o que é gestalt.

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Pensando bem, vou primeiro verificar se não estou dizendo nenhuma bobagem. Me digam, aliás, se isso realmente interessa. Até logo, amigos.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Como uma parede atrás de uma porta aberta

Quase todos os dias Zacharias encontra uma porta nova em sua casa. Uma porta ou um canto novo. Ou um risco no vidro da janela. Ele passa pela porte e se impressiona muito com as coisas lá dentro. Não com a mesa, com o computador ou com a estante de livros. Ele se impressiona com aquele bloco de pedra que é um pouco menor do que os outros, deixando uma linha de cimento um pouco mais grossa. Ele passa horas admirando uma mordida de rato na base do pé da cadeira. Quando fecha uma porta que permanece sempre aberta, sempre se assusta com a parede que de repente existe. Quando Ilina lhe perguntou se ele gostava mais da sua casa no rancho, ele respondeu rapidamente:
— Como, se, no rancho, atrás das portas não há nenhuma parede!


Hoje durante a aula de cálculo eu súbito levei um susto ao perceber algo completamente inesperado. O que eu percebi é que eu estava acordada. Mais que isso, eu estivera acordada desde o começo da aula. Eu não ficara sequer com sono! Eu não fora para a cama especialmente cedo (na verdade, ficara assistindo TV até a uma da manhã) nem dormira mais do que o normal (na verdade, sexta-feira eu tenho a aula mais cedo da semana, e eu acordara às sete da manhã), nem tomara o mate com guaraná que muitas vezes me permitiu assistir à primeira metade da aula. O dia fora como qualquer outro dia, entretanto em qualquer outro dia eu teria dormido na aula pelo menos até as nove horas, enquanto hoje às nove da manhã eu olhava no relógio e me assustava com o fato de que eu estava completamente desperta.

Nos outros dias também eu estaria extremamente mau-humorada e pensaria para mim várias vezes em como eu detesto a minha vida; hoje, essa frase parecia absurda, e nada mais me incomodava, e eu estava entendendo a matéria, e tudo parecia bom e feliz. Além disso, quando eu saí de casa eu não estava atrasada, ou com preguiça de pegar a bicicleta, e enquanto eu pedalava para a Física eu sentia dores horríveis nas pernas e o buraco na minha boca latejava, mas eu não me sentia miserável por ter que agüentar as dores e os incômodos e seguir em frente com as minhas missões impossíveis. E quando eu voltava para casa eu lembrei das coisas que eu costumo pensar enquanto faço aquele mesmo caminho, e em como eu costumo andar devagar, e tive vontade de rir de mim e pedalar mais rápido apesar da dor e me tornar mais forte e fazer o melhor caminho possível. E acho que foi mais ou menos aí que eu entendi o significado da palavra "estresse".

Sim, a vida é dura, a vida é um inferno, e às vezes parece que não importa o quanto nós queiramos sorrir nós ainda somos obrigados a fazer cara séria e meter a cara naquilo que depois de um tempo nós passamos a odiar. Às vezes tudo dá errado e o tempo é muito curto e a gente perde todas as esperanças de fazer a coisa certa e nossas responsabilidades nos afogam e nos parece impossível cumprir todas as obrigações e satisfazer todas as expectativas. Sim, às vezes nós somos fracos, e tolos, e incapazes, e sacrificamos tudo o que não é urgente e indispensável para cumprir nossas metas que nunca sabemos se um dia poderemos conquistar. E em todos os momentos em que tentamos descansar, sentimos pressa, e ânsia e culpa por não estarmos nos esforçando para fazer o que não teremos tempo para fazer depois. E tudo é muito justificável, e tudo faz muito sentido, e nós gostaríamos de poder investir toda a nossa energia em cada coisa que fazemos. Pelo menos a minha vida é assim.

Mas isso não é motivo para se transformar num escravo de si mesmo. A culpa na verdade só existe porque além de tudo nós sentimos raiva e frustração e não conseguimos fazer tudo o que queremos, e por tudo isso nos sentimos péssimos mesmo achando que estamos fazendo a coisa certa. Esse não é um bom jeito de se viver.

O jeito bom de se viver é se esforçar
em primeiro lugar pra ser feliz
e em segundo lugar para ser capaz.