Resolvi escrever isto aqui em parte por causa de um comentário que a Tá deixou, dizendo que gostaria de ler o que eu escrevo. Na verdade, eu tenho tentado escrever algumas coisas, não necessariamente histórias definitivas mas rascunhos e anotações para o futuro. Meu último projeto é escrever sucintamente tudo o que eu consigo ver da história que eu chamo de Soule V, a história de Marwa Macally e de todos os que se envolveram com ela no Hatsw. Essa Saga surgiu quando eu tinha uns onze ou doze anos, a partir da minha paixão por video-game e talvez da influência de Tolkien e dos caras da Exodus. Por muitos anos eu evitei descrevê-la porque sabia que eu não tinha a capacidade de cantá-la tão épica quanto ela merecia, ou porque eu não conseguiria descrever decentemente os cenários e os personagens. Depois de um tempo, eu decidi que não podia realmente contá-la por causa do seu conteúdo: porque era uma Soule, ou seja, os personagens eram em grande parte variações de pessoas reais, especialmente eu e meus irmãos e amigos mais próximos; e porque começava como um jogo de video-game e depois se tornava um épico sério e intenso. Passei anos da minha vida tentando encontrar uma forma de adaptar a história para que ela pudesse ser contada para qualquer pessoa. Esta semana, porém, decidi que estava me preocupando com as coisas erradas.
Acho que o mais importante é escrever a história, agora. Se eu puder escrever a história de Marwa, então poderei contar a história de Aragorn Scorpes, de Jolyn e de Idael. Poderei compreender como o Hatsw funciona e aplicar esse conhecimento em outras histórias passadas no mesmo cenário. De repente o video-game não me parece mais uma forma tola e infantil de começar um conto. Afinal, Nárnia não começa com crianças brincando pela casa? Meu conto pode ser menos infantil que Nárnia, mas ainda será lido por pessoas que gostariam de passear por outros mundos de qualquer forma que fosse, assim como eu. Eu quero escrever para essas pessoas, esses meus irmãos de fantasia. Eu quero expôr minha alma para eles, e pedir sua solidariedade.
Ontem um esquerdista vendendo jornal conseguiu atrair meu interesse e me fez descrever minha história como "sobre pessoas tentando encontrar seu lugar no mundo". Sejamos dragões ou executivos, não queremos todos a mesma coisa?
Por fim, eu escrevo para dizer que você pode ler o que eu escrevo, Tá. Parte do que eu escrevo está neste blog, no label La Cantadora. Outra parte eu posse contar a quem pedir. Algumas coisas me deixam um pouco perdida, como por exemplo a personagem que é irmã mais velha da protagonista e que em breve entrará na faculdade e terá pouco tempo para jogar com ela. Outras coisas me empolgam, como, por exemplo, o filho de meu filho. Tenho ao mesmo tempo vergonha e orgulho do que irei contar, mas se me pedir com vontade suficiente, eu contarei tudo. É claro que há partes que eu preferiria não contar por uma questão de surpresa, mas me peça para eu guardar a surpresa e eu guardarei.
Eu quero aprender todas as línguas, porque de alguma forma me parece que a verdade está nas palavras.
palavra por palavra, procuro chegar, devagar, ao lugar de La Loba.
"O silêncio", disse o griot,"só é escuro no começo..."
quinta-feira, 18 de março de 2010
terça-feira, 16 de março de 2010
Essas pessoas da física.
Hoje eu estava conversando com a Gabi(óloga) e o Bruno (Iha) e confessei que estava viciada em livros, e descrevi como isso era horrível. A princípio eles não entenderam, tive que explicar melhor. Depois eles olharam pra mim meio confusos e disseram "É por isso que você não estuda aqui" e "Tudo bem, minhas amigas ficaram assim com Harry Potter durante toda a sexta série".
Nâo! Você não pode me comparar com suas amigas na sexta série, mas eu não sou uma pré-adolescente, isto não é uma paixonite, I am the real thing, a for-real book-junkie. Não é possível que não tenha nenhum desses na física, é?
E mais: quando perguntaram que livro era, eu falei e expliquei como me doía a tradução atroz em que todos os tempos verbais estavam errados, em que quase não havia pretérito mais-que-perfeito enquanto um de cada quatro parágrafos falava do passado-do-passado, eles: "o quê?"
"Oquê?"
Repeti meu problema para diversas pessoas e o mais próximo de compreensão que eu tive foi do Dobay, que disse: "eu nunca li um livro que tivesse esse tipo de problema."
...
Depois de algum tempo, murmurei frustrada que não precisava da compreensão deles, que eu ia me contentar em ter minha irmã, que sente exatamente o mesmo tipo de revolta de eu.
E falei isso olhando pro chão, me sentindo estranhamente solitária no meio de alguns dos meus melhores amigos.
Nâo! Você não pode me comparar com suas amigas na sexta série, mas eu não sou uma pré-adolescente, isto não é uma paixonite, I am the real thing, a for-real book-junkie. Não é possível que não tenha nenhum desses na física, é?
E mais: quando perguntaram que livro era, eu falei e expliquei como me doía a tradução atroz em que todos os tempos verbais estavam errados, em que quase não havia pretérito mais-que-perfeito enquanto um de cada quatro parágrafos falava do passado-do-passado, eles: "o quê?"
"Oquê?"
Repeti meu problema para diversas pessoas e o mais próximo de compreensão que eu tive foi do Dobay, que disse: "eu nunca li um livro que tivesse esse tipo de problema."
...
Depois de algum tempo, murmurei frustrada que não precisava da compreensão deles, que eu ia me contentar em ter minha irmã, que sente exatamente o mesmo tipo de revolta de eu.
E falei isso olhando pro chão, me sentindo estranhamente solitária no meio de alguns dos meus melhores amigos.
segunda-feira, 15 de março de 2010
Dos últimos livros que tenho lido:
Por favor! Por favor! Eu imploro por pelo menos um préterito mais-que-perfeito!
sexta-feira, 12 de março de 2010
Essência
Estou na FAU, todos os meus amigos estão em aula, estou dividida entre filosofar, passear no sol, ler um livro ou estudar. Bem, aqui eu estou.
Há pouco tempo eu estive lendo Fight Club (que tem aspectos melhores e outros piores que o filme — notadamente o fato de o narrado não se chamar Tyler Durden) e tem aquela parte em que o narrador tem que dizer o que ele gostaria de mudar em sua vida antes que o carro batesse de frente, quer dizer, seu desejo final antes da morte, aquela coisa que você diria pro padre na hora da extrema unção se o seu padre só se sentisse vivo enquanto espanca outro homem no porão de um bar ou se esforça para destruir o mundo.
"Drunk drivers against mothers", kind-a-thing.
Eu estava no jardim, tinha um dia lindo na minha frente (é preciso observar que meu jardim em si é lindo) e minha vida parecendo escorrer das minhas mãos como um chumaço de plumas e me perguntei: o que eu quero, o que eu responderia ao mecânico dirigindo meu carro em direção à morte quando ele me fizesse essa pergunta?
— Eu quero escrever meus livros.
Sabe, não aquelas coisas amadorísticas que eu mostro pra vocês, eu quero escrever a história de Shaer, a guerra dos três demônios, a viagem de Aragorn. Eu quero mostrar a força da lida deles, eu quero declarar a que conclusão cheguei.
Tudo isso me parece impossível, como me parecia impossível velejar, me parece impossível eu um dia saber escrever e ter coragem de macular essas histórias com minhas palavras. Mas eu faço um esforço, embora débil, para que um dia isso se torne possível.
Eu sou uma escritora, uma Cantadora em essência? Nâo sei. Não tenho a mesma seiva criativa do Charles, e não há grandiosidade em meus poemas nem sabedoria em minha prosa, tudo que me resta é minha paixão, que se dilui no tempo conforme eu falho em escrever o próximo capítulo. Por exemplo, quando comecei as Histórias Sem Fim, pretendia escrever um capítulo por semana, e já se passou um ano e escrevi talvez quatro folhas.
Espero entretanto que ao menos a história seja interessante.
A Bia da Biblioteca um dia me disse "Não deixe os números confundirem você: você nasceu para as letras". Sim, sim, as letras, as palavras me encantam, mas a matemática também me encanta, tudo o que é linguagem me encanta, talvez nasça daí minha paixão por computação, mas meus interesses vão muito além desse encanto. Talvez a ciência, a arte, a fábera, e todas as coisas da vida sejam apenas hobbies, coisas do coração, coisas que são alimento mas que não são o objetivo final. Todo esse amor que eu tenho pelo mundo, talvez seja apenas a forma de devorá-lo.
Quem pode saber? Eu quero ter cento e dezoito anos e ser velha, forte e sábia. Eu quero levantar o mundo (me dêem uma alavanca!), eu quero acima de tudo enxergar. Entretanto, toda vez que me distraio do mundo e tento me concentrar no eu, eu sei que a forma como Eu gostaria de existir no mundo seria através das histórias.
Há pouco tempo eu estive lendo Fight Club (que tem aspectos melhores e outros piores que o filme — notadamente o fato de o narrado não se chamar Tyler Durden) e tem aquela parte em que o narrador tem que dizer o que ele gostaria de mudar em sua vida antes que o carro batesse de frente, quer dizer, seu desejo final antes da morte, aquela coisa que você diria pro padre na hora da extrema unção se o seu padre só se sentisse vivo enquanto espanca outro homem no porão de um bar ou se esforça para destruir o mundo.
"Drunk drivers against mothers", kind-a-thing.
Eu estava no jardim, tinha um dia lindo na minha frente (é preciso observar que meu jardim em si é lindo) e minha vida parecendo escorrer das minhas mãos como um chumaço de plumas e me perguntei: o que eu quero, o que eu responderia ao mecânico dirigindo meu carro em direção à morte quando ele me fizesse essa pergunta?
— Eu quero escrever meus livros.
Sabe, não aquelas coisas amadorísticas que eu mostro pra vocês, eu quero escrever a história de Shaer, a guerra dos três demônios, a viagem de Aragorn. Eu quero mostrar a força da lida deles, eu quero declarar a que conclusão cheguei.
Tudo isso me parece impossível, como me parecia impossível velejar, me parece impossível eu um dia saber escrever e ter coragem de macular essas histórias com minhas palavras. Mas eu faço um esforço, embora débil, para que um dia isso se torne possível.
Eu sou uma escritora, uma Cantadora em essência? Nâo sei. Não tenho a mesma seiva criativa do Charles, e não há grandiosidade em meus poemas nem sabedoria em minha prosa, tudo que me resta é minha paixão, que se dilui no tempo conforme eu falho em escrever o próximo capítulo. Por exemplo, quando comecei as Histórias Sem Fim, pretendia escrever um capítulo por semana, e já se passou um ano e escrevi talvez quatro folhas.
Espero entretanto que ao menos a história seja interessante.
A Bia da Biblioteca um dia me disse "Não deixe os números confundirem você: você nasceu para as letras". Sim, sim, as letras, as palavras me encantam, mas a matemática também me encanta, tudo o que é linguagem me encanta, talvez nasça daí minha paixão por computação, mas meus interesses vão muito além desse encanto. Talvez a ciência, a arte, a fábera, e todas as coisas da vida sejam apenas hobbies, coisas do coração, coisas que são alimento mas que não são o objetivo final. Todo esse amor que eu tenho pelo mundo, talvez seja apenas a forma de devorá-lo.
Quem pode saber? Eu quero ter cento e dezoito anos e ser velha, forte e sábia. Eu quero levantar o mundo (me dêem uma alavanca!), eu quero acima de tudo enxergar. Entretanto, toda vez que me distraio do mundo e tento me concentrar no eu, eu sei que a forma como Eu gostaria de existir no mundo seria através das histórias.
quinta-feira, 11 de março de 2010
O que eu faço quando perco alguém
Quando eu te perdi
(lembro nitidamente)
chorei por anos, de tempos em tempos
a vida pareceu sem graça
as brincadeiras não foram as mesmas.
Por anos não tive ninguém pra mim como você.
Mas com o tempo, acho, fui te tornando menos que uma memória
te tornei meu sangue, te tornei meu core.
Quando me curei, era eu que havia faltado.
Quando te perdi, entrei em desespêro.
Não parecia certo te perder.
Eu não estava certa sem você.
Todas as coisas que eu fazia pareciam idiotas,
todas as piadas pareciam estúpidas,
todos os meus amigos pareciam bobões
por que nenhum deles era você.
Queria voltar pra você, queria te encontrar
Mas aos poucos
meus amigos
se tornaram estrelas mais brilhantes que você
(e quando me dei conta, era eu que havia me afastado)
Quando te perdi, eu entendi.
Minha dor era tão grande que parecia abarcar o universo, mas isso não importava, porque eu entendi.
Eu senti saudades, mas pensei:
"Vivemos tudo o que poderíamos viver"
Você viveu, viverá, para sempre.
Quando te perdi, eu observei
Eu observei até que você viesse à tona
eu observei os outros que também te perdiam
eu procurei por você nos olhos deles
eu procurei por você nos registros, nas lembranças
eu procurei por você na memória e em Deus
e talvez eu te encontre, não sei, na Morte.
Quando te perdi, eu te amaldiçoei
Eu gritei, eu urrei em silêncio
Eu xinguei sua família, seus sonhos
Aqueles amigos que a gente teve e que eu não tenho mais.
Quando te perdi, não te perdoei
Ainda não te perdôo.
Quando eu te perdi
(e como me dói pensar nisso)
eu mergulhei em coisas felizes, talvez pra esquecer
Amigos, amor, essas coisas
Porque foi tão definitivo!
No fim,
eu perdi tanto
mas consegui manter você
um pouco ao menos de você.
Quando te perdi
(acho que perdi metade do meu coraço junto,
por isso não sinto profundamente essa perda)
Sério, quando te perdi
Passei alguns anos sem saber direito o que fazer da minha vida.
Passei muito tempo sem saber se as outras pessoas que eu conhecia
poderiam de alguma forma preencher o espaço que antes era só pra ti
De verdade,
ainda não tenho certeza do que aconteceu
Não que eu sinta sua falta, é só que
...às vezes eu acho que ainda sobra em mim esse espaço vazio.
Quando te perdi
...
...
...
...
Bom...
...
..
.
.
É: quando eu te perdi, o vazio de não ter você foi tão avassalador que entrei em desespêro e tranquei o pensamento pra fora da minha mente. Toda vez que pensei em você meu mundo ficou negro, e quis chorar. Toda vez que ouvi de você, gritei em minha mente para abafar os urros dessa ânsia que não me deixava respirar. Tentei, com todas as forças, fazer minha vida fazer sentido sem você. Tentei me convencer de que sua história podia prosseguir sem mim. Tentei fechar meus ouvidos para qualquer traço de você, com mêdo da dor lancinante que me causava qualquer notícia sua. Chorei: chorei copiosamente, sem conseguir sequer enxugar as lágrimas. E nunca parei de sonhar com você.
Quando te perdi, sentei e olhei a noite, magoada,
pensando em todas as promessas que fizemos e que não iríamos cumprir,
pensando em todas as aventuras que não poderíamos fazer.
(lembro nitidamente)
chorei por anos, de tempos em tempos
a vida pareceu sem graça
as brincadeiras não foram as mesmas.
Por anos não tive ninguém pra mim como você.
Mas com o tempo, acho, fui te tornando menos que uma memória
te tornei meu sangue, te tornei meu core.
Quando me curei, era eu que havia faltado.
Quando te perdi, entrei em desespêro.
Não parecia certo te perder.
Eu não estava certa sem você.
Todas as coisas que eu fazia pareciam idiotas,
todas as piadas pareciam estúpidas,
todos os meus amigos pareciam bobões
por que nenhum deles era você.
Queria voltar pra você, queria te encontrar
Mas aos poucos
meus amigos
se tornaram estrelas mais brilhantes que você
(e quando me dei conta, era eu que havia me afastado)
Quando te perdi, eu entendi.
Minha dor era tão grande que parecia abarcar o universo, mas isso não importava, porque eu entendi.
Eu senti saudades, mas pensei:
"Vivemos tudo o que poderíamos viver"
Você viveu, viverá, para sempre.
Quando te perdi, eu observei
Eu observei até que você viesse à tona
eu observei os outros que também te perdiam
eu procurei por você nos olhos deles
eu procurei por você nos registros, nas lembranças
eu procurei por você na memória e em Deus
e talvez eu te encontre, não sei, na Morte.
Quando te perdi, eu te amaldiçoei
Eu gritei, eu urrei em silêncio
Eu xinguei sua família, seus sonhos
Aqueles amigos que a gente teve e que eu não tenho mais.
Quando te perdi, não te perdoei
Ainda não te perdôo.
Quando eu te perdi
(e como me dói pensar nisso)
eu mergulhei em coisas felizes, talvez pra esquecer
Amigos, amor, essas coisas
Porque foi tão definitivo!
No fim,
eu perdi tanto
mas consegui manter você
um pouco ao menos de você.
Quando te perdi
(acho que perdi metade do meu coraço junto,
por isso não sinto profundamente essa perda)
Sério, quando te perdi
Passei alguns anos sem saber direito o que fazer da minha vida.
Passei muito tempo sem saber se as outras pessoas que eu conhecia
poderiam de alguma forma preencher o espaço que antes era só pra ti
De verdade,
ainda não tenho certeza do que aconteceu
Não que eu sinta sua falta, é só que
...às vezes eu acho que ainda sobra em mim esse espaço vazio.
Quando te perdi
...
...
...
...
Bom...
...
..
.
.
É: quando eu te perdi, o vazio de não ter você foi tão avassalador que entrei em desespêro e tranquei o pensamento pra fora da minha mente. Toda vez que pensei em você meu mundo ficou negro, e quis chorar. Toda vez que ouvi de você, gritei em minha mente para abafar os urros dessa ânsia que não me deixava respirar. Tentei, com todas as forças, fazer minha vida fazer sentido sem você. Tentei me convencer de que sua história podia prosseguir sem mim. Tentei fechar meus ouvidos para qualquer traço de você, com mêdo da dor lancinante que me causava qualquer notícia sua. Chorei: chorei copiosamente, sem conseguir sequer enxugar as lágrimas. E nunca parei de sonhar com você.
Quando te perdi, sentei e olhei a noite, magoada,
pensando em todas as promessas que fizemos e que não iríamos cumprir,
pensando em todas as aventuras que não poderíamos fazer.
Vegetarianismo?
Hoje, eram cinco horas, aquela hora em que meu corpo começa a ficar incomodado com a falta de algo pra digerir, fui na cozinha e peguei um pedaço de frango. Aquilo tava gostoso e resolvi pegar mais um pedaço só pelo prazer. Enquanto me acomodava para ler enquanto comia, pensei:
— Estou comendo os músculos de uma galinha.
Galinha como? Penuda, branca, ciscando, aquele olhar arregalado de dinossauro, crista, garras, vôos curtos, voz estridente. Imaginei galinha na minha mente, chocando, ciscando, andando, gritando. Estava comendo um pedaço de galinha. Me imaginei arrancando um bife da galinha, e o fritando e o comendo. Porra.
De repente me pareceu idiota comer carne só porque eu tô com gula. Quando você está com fome, poucas coisas são tão gloriosas quanto a carne, e a carne realmente é saudável, e meu corpo às vezes clama por ela. Mas comer só porque sim? Comer outro animal só porque o gosto é bom? Eu não mataria uma galinha por alguns minutos de prazer, não se esse prazer não fosse glorioso o suficiente para dar sentido à minha vida.
O frango pareceu totalmente sem gosto de repente. Eu podia sentir que ele ainda tinha o sabor agradável, mas eu me senti mal por estar comendo. Mesmo assim, sem poder devolvê-lo à geladeira, comi até o fim.
— Estou comendo os músculos de uma galinha.
Galinha como? Penuda, branca, ciscando, aquele olhar arregalado de dinossauro, crista, garras, vôos curtos, voz estridente. Imaginei galinha na minha mente, chocando, ciscando, andando, gritando. Estava comendo um pedaço de galinha. Me imaginei arrancando um bife da galinha, e o fritando e o comendo. Porra.
De repente me pareceu idiota comer carne só porque eu tô com gula. Quando você está com fome, poucas coisas são tão gloriosas quanto a carne, e a carne realmente é saudável, e meu corpo às vezes clama por ela. Mas comer só porque sim? Comer outro animal só porque o gosto é bom? Eu não mataria uma galinha por alguns minutos de prazer, não se esse prazer não fosse glorioso o suficiente para dar sentido à minha vida.
O frango pareceu totalmente sem gosto de repente. Eu podia sentir que ele ainda tinha o sabor agradável, mas eu me senti mal por estar comendo. Mesmo assim, sem poder devolvê-lo à geladeira, comi até o fim.
sábado, 6 de março de 2010
Mudança dos nomes das ruas na USP
Vocês viram? Parece que vão mudar a Rua da Reitoria pra "rua da Praça do Relógio" (é aquela rua que passa da rotatória até a Praça do Relógio por dentro do quarteirão do CRUSP), e a Praça da Reitoria para "Praça do Relógio Solar". Acho que isso vai ficar muito confuso, as pessoas vão confundir ainda mais... se bem que na verdade ninguém usa os nomes de verdade das ruas; pra mim aquela praça chama "Praça do Calendário Solar" (porque é um calendário, não só um relógio). Também vão chamar uma rua de "Rua da Reitoria" lá perto da antiga reitoria. Isso é bem estranho, o bolsão já deixa todo mundo confuso, agora essa rua vai piorar as coisas. Aquilo tinha que chamar "rua dos bancos" ou algo assim. As coisas tinham que ser mais objetivas.
domingo, 28 de fevereiro de 2010
Mais um capítulo na minha epopéia
Este capítulo vai ser um apanhado de pensamentos que me ocorreram ao longo do dia:
I
Embora eu tenha decidido há muito tempo não fazer Design, por todos os lado que eu via o problema eu chegava sempre à conclusão de que ainda era aquilo o que eu queria ser e fazer, o que era o mais legal, a minha essência. Eu olhava os problemas com olhar de designer, eu olho para o mundo com esse olhar. Eu defendo o design contra todos os ataques e insisto que ele é o mais importante. Eu sempre achei que o problema não fosse o tema em si, mas o método do curso, e que no fim eu ia acabar voltando, quem sabe com um diploma ou dois, para acabar me tornando Designer.
Nos últimos dias isso vem, lentamente, mudando. Não sei que mudança é essa, nas minhas prioridades e nos meus desejos. Nos últimos dias eu tenho sentido um interesse pela física, pela química e pela biologia que eu não sentia desde o colegial, quando eu cogitava me tornar cientista. Eu tenho desejado aprender com tanto fervor quanto naquela época, e não apenas para me tornar algo maior, mas também pelo puro interesse pelo conhecimento. De repente tenho ficado em dúvida se o mais importante é salvar o mundo, trabalhar no mundo, ou antes de tudo compreendê-lo.
II
Como disse no ítem anterior, no segundo colegial eu passei por uma fase em que Física e Química me pareciam os cursos mais empolgantes. Eu queria conhecer o mundo, queria estudar matemática, queria trabalhar em laboratório e enxergar trocas de energia em tudo o que eu visse, pois é. Por muitos anos depois disso lembrei dessa empolgação como um deslize, uma paixão passageira por uma coisa que pra mim era um hobbie, uma diversãozinha que eu podia praticar na escola, um jogo para jogar com os amigos. Não: eu queria mesmo saber de tudo, perguntava para os professores sobre as folhas anômalas da grama, fazia anotações sobre os insetos, tentava imaginar as fórmulas dos ingredientes do shampoo.
Esses dias minha mãe me disse que naquela época ela achava que eu ia fazer Física, que ela nunca entendeu por que eu fui fazer Design, e aí meio que tudo voltou com tudo, todas as questões daquela época, como Design tinha me parecido a mistura certa de ciência e arte (que ingenuidade a minha, não?), como ciência e arte eram próximas para mim e como na verdade eu queria descobrir mais sobre o mundo antes de poder mudá-lo com minhas próprias mãos! Eu não lembro de como foi começar a faculdade, mas deve ter sido mesmo terrível pra mim; eu lembro da empolgação de estudar Fotografia, Desenho, história do design, editoração, técnicas visuais (sim, o curso do SENAC me empolgava bem mais que o da FAU), história da arte (que eu tinha esperado a vida toda pra estudar), técnicas de gravura, e... Bom, não sei se tinha mais.
Hoje tudo me parece uma decepção tão grande, eu descobri que não ia ter cálculo nem física, parei o SENAC com todas as suas matérias legais, não houveram mais aulas de técnicas no Design, as aulas de ergonomia eram um saco, eu acabei não aprendendo o que eu queria aprender e aprendendo bem mal o que eles achavam que eu devia aprender. Mesmo assim, naquela época eu culpava minha má interação com os colegas e veteranos, minha falta de hábito de estudar, o choque de perder o jantar com a família (acho que acabei perdendo minha família nessa), minha dificuldade de interagir com a burocracia (e minha timidez de modo geral) — enfim eu julgava que se eu crescesse, amadurecesse e aprendesse a ser como eles, tudo ia se encaixar magicamente; eu achava que só dependia de mim.
III
Hoje eu percebo o quanto eu senti falta da pesquisa — esse espírito de procurar, de investigar, de modelar e imaginar possibilidades, de construir: como isso falta! O conhecimento associado ao Design deveria ser uma Tecnologia. Assim como ao longo dos séculos se desenvolveram novas estratégias de Go, ao longo do tempo mesmo os materiais e técnicas antigos podem ser reinventados em processos e produtaos novos! Se houver um esforço de reunir o que já foi feito e construir em cima disso, quão longe podemos chegar? Talvez nada longe, visto que existe um mercado imortal do design ruim (aliás, sempre me pergunto como essa persistência do ruim funciona). Mas talvez muito longe ainda assim! Queria que meu curso tivesse menos projeto e mais estudo, que aprendêssemos uma enorme variedade de técnicas e os detalhes de cada uma delas, para que soubéssemos o que estamos fazendo quando projetamos. Design não é apenas Método! Não quero de forma nenhuma fazer o curso Deisgn FAUUSP, mas ainda acho possível que eu volte para fazer uma pós, um mestrado ou doutorado em design ^^
IV
Enfim eu lembrei que um dia eu quis com muita convicção fazer Física, e fiquei imaginando que coisas estranhas poderiam ter acontecido se eu tivesse feito essa opção. Será que eu teria vários amigos Físicos, conheceria toda a USP e teria tido um primeiro ano feliz? Será que eu teria me dado bem com os físicos que são meus grandes amigos hoje? Talvez isso tivesse sido ótimo, ou talvez fosse péssimo, não dá pra saber. Mas agora não importa muito, eu acho. Esses três anos não foram em vão, eu aprendi muita coisa neles, embora talvez eu tenha me tornado muito menos do que eu esperava.
...
... Acho que tudo está bem quando acaba bem.
I
Embora eu tenha decidido há muito tempo não fazer Design, por todos os lado que eu via o problema eu chegava sempre à conclusão de que ainda era aquilo o que eu queria ser e fazer, o que era o mais legal, a minha essência. Eu olhava os problemas com olhar de designer, eu olho para o mundo com esse olhar. Eu defendo o design contra todos os ataques e insisto que ele é o mais importante. Eu sempre achei que o problema não fosse o tema em si, mas o método do curso, e que no fim eu ia acabar voltando, quem sabe com um diploma ou dois, para acabar me tornando Designer.
Nos últimos dias isso vem, lentamente, mudando. Não sei que mudança é essa, nas minhas prioridades e nos meus desejos. Nos últimos dias eu tenho sentido um interesse pela física, pela química e pela biologia que eu não sentia desde o colegial, quando eu cogitava me tornar cientista. Eu tenho desejado aprender com tanto fervor quanto naquela época, e não apenas para me tornar algo maior, mas também pelo puro interesse pelo conhecimento. De repente tenho ficado em dúvida se o mais importante é salvar o mundo, trabalhar no mundo, ou antes de tudo compreendê-lo.
II
Como disse no ítem anterior, no segundo colegial eu passei por uma fase em que Física e Química me pareciam os cursos mais empolgantes. Eu queria conhecer o mundo, queria estudar matemática, queria trabalhar em laboratório e enxergar trocas de energia em tudo o que eu visse, pois é. Por muitos anos depois disso lembrei dessa empolgação como um deslize, uma paixão passageira por uma coisa que pra mim era um hobbie, uma diversãozinha que eu podia praticar na escola, um jogo para jogar com os amigos. Não: eu queria mesmo saber de tudo, perguntava para os professores sobre as folhas anômalas da grama, fazia anotações sobre os insetos, tentava imaginar as fórmulas dos ingredientes do shampoo.
Esses dias minha mãe me disse que naquela época ela achava que eu ia fazer Física, que ela nunca entendeu por que eu fui fazer Design, e aí meio que tudo voltou com tudo, todas as questões daquela época, como Design tinha me parecido a mistura certa de ciência e arte (que ingenuidade a minha, não?), como ciência e arte eram próximas para mim e como na verdade eu queria descobrir mais sobre o mundo antes de poder mudá-lo com minhas próprias mãos! Eu não lembro de como foi começar a faculdade, mas deve ter sido mesmo terrível pra mim; eu lembro da empolgação de estudar Fotografia, Desenho, história do design, editoração, técnicas visuais (sim, o curso do SENAC me empolgava bem mais que o da FAU), história da arte (que eu tinha esperado a vida toda pra estudar), técnicas de gravura, e... Bom, não sei se tinha mais.
Hoje tudo me parece uma decepção tão grande, eu descobri que não ia ter cálculo nem física, parei o SENAC com todas as suas matérias legais, não houveram mais aulas de técnicas no Design, as aulas de ergonomia eram um saco, eu acabei não aprendendo o que eu queria aprender e aprendendo bem mal o que eles achavam que eu devia aprender. Mesmo assim, naquela época eu culpava minha má interação com os colegas e veteranos, minha falta de hábito de estudar, o choque de perder o jantar com a família (acho que acabei perdendo minha família nessa), minha dificuldade de interagir com a burocracia (e minha timidez de modo geral) — enfim eu julgava que se eu crescesse, amadurecesse e aprendesse a ser como eles, tudo ia se encaixar magicamente; eu achava que só dependia de mim.
III
Hoje eu percebo o quanto eu senti falta da pesquisa — esse espírito de procurar, de investigar, de modelar e imaginar possibilidades, de construir: como isso falta! O conhecimento associado ao Design deveria ser uma Tecnologia. Assim como ao longo dos séculos se desenvolveram novas estratégias de Go, ao longo do tempo mesmo os materiais e técnicas antigos podem ser reinventados em processos e produtaos novos! Se houver um esforço de reunir o que já foi feito e construir em cima disso, quão longe podemos chegar? Talvez nada longe, visto que existe um mercado imortal do design ruim (aliás, sempre me pergunto como essa persistência do ruim funciona). Mas talvez muito longe ainda assim! Queria que meu curso tivesse menos projeto e mais estudo, que aprendêssemos uma enorme variedade de técnicas e os detalhes de cada uma delas, para que soubéssemos o que estamos fazendo quando projetamos. Design não é apenas Método! Não quero de forma nenhuma fazer o curso Deisgn FAUUSP, mas ainda acho possível que eu volte para fazer uma pós, um mestrado ou doutorado em design ^^
IV
Enfim eu lembrei que um dia eu quis com muita convicção fazer Física, e fiquei imaginando que coisas estranhas poderiam ter acontecido se eu tivesse feito essa opção. Será que eu teria vários amigos Físicos, conheceria toda a USP e teria tido um primeiro ano feliz? Será que eu teria me dado bem com os físicos que são meus grandes amigos hoje? Talvez isso tivesse sido ótimo, ou talvez fosse péssimo, não dá pra saber. Mas agora não importa muito, eu acho. Esses três anos não foram em vão, eu aprendi muita coisa neles, embora talvez eu tenha me tornado muito menos do que eu esperava.
...
... Acho que tudo está bem quando acaba bem.
sábado, 27 de fevereiro de 2010
O Engenheiro e o Cientista
Ontem enquanto estudava na Física, tive uma conversa interessante com o Jesus e o Léo. Como era de se esperar a princípio os dois tentaram me dissuadir de fazer Poli, mas no final me deram bons conselhos e me ajudaram a ver a coisa pelo meu lado. Durante a discussão sobre a diferença entre os cursos da Poli e os cursos científicos como Física e CM, ocorreram os seguintes diálogos:
I
— O que mais te fazia falta no Design?
— Bem, — eu comecei, ganhando tempo para pensar com cautela. — Eu sentia muita falta da parte técnica dos projetos. Na verdade eu sentia falta da matemática — descobri que não consigo ficar sem matemática na minha vida — e também de pesquisa: pesquisávamos um pouco sobre alguns projetos e outros designers, isso é legal, mas não é incrível. Acima de tudo, eu sentia falta de entender como as coisas funcionam. Eu queria trabalhar mais na estrutura das coisas.
— ... Você ainda tá matriculada no Design, né?
— Sim, por quê? — eu perguntei. Será que ele ia dizer que eu devia mesmo era continuar no Design, que eu o amava apesar dos defeitos do curso?
— Por que aí quando você finalmente perceber que você quer fazer CM, vai ser só fazer a transferência!
É claro! O pessoal do CM sempre me diz que eu devia ir pra lá, o que eu esperava! Mas será que ele tinha razão? Pensei um pouco, e lembrei: que a estrutura, para um cientista, é a ciência, a física. Repliquei:
— Não sei se você entendeu: eu fazia um projeto de máquina, eu me envolvia, queria mudar a posição do motor para abrir um espaço aqui, e transferir aquela alavanca pra lá que é melhor para a mão, e acho que vou ter que mudar o sistema de transmissão para isso... Mas eu não sei se o peso do motor aqui atrás vai ser demais para essa coluna que o sustenta, ou se vai desalinhar a correia de transmissão, e afinal que outros tipos de transmissão são possíveis pra resolver o problema da alavanca?
(Nota: quando finalmente resolvemos ir atrás dessas informações, lembro que o professor reclamou que estávamos focando apenas na mecânica da máquina. "E o design? Cadê o design?" E eu pensando: pode haver design sem mecânica? Porra, como eu guardo raiva desse dia...)
II
— Vamos esquecer os fins por enquanto e pensar nos meios. Você fez cálculo, não fez?
— Sim, mas não passei. Vou ter que fazer de novo e--
— Mas você lembra do Teorema do Valor Médio, por exemplo?
— Lembro. Por quê?
— Quando você aprende um teorema como esse, você prefere que ele seja demonstrado e provado ou que seja só apresentado como verdade e aplicado exaustivamente para que seja fixado na sua cabeça?
Passei vários segundos pensando nessa pergunta. Por um lado, se o teorema não é muito usado, ele acaba sendo esquecido. Por outro lado, se ele é demonstrado com cuidado, ele pode ser relembrado pela sua demonstração.
— Acho que eu prefiro que haja demonstração. Não me lembro de quase nenhuma demonstração, na verdade, mas lembro que nas aulas da escola eu ficava fascinada pela história do conhecimento: como foi inventado o Teorema de Pitágoras, de onde veio a Fórmula de Báskhara, quem primeiro pensou na idéia de Índice de Refração...
— Se você vê uma demonstração uma vez, e a entende, ela fica pra sempre em algum lugar da sua mente — disse o Jesus.
— Se você gosta de entender de onve vêm as coisas, você vai odiar o Cálculo da Poli.
III
— Eu não quero fazer Cálculo de novo agora, mas estava pensando em pegar a matéria de Física da Poli.
— Por que vai fazer Física e não Cálculo?
— Bom, eu dei uma olhada nas matérias do primeiro semestre, e Física me pareceu a mais "engenheira" depois de Introdução à Engenharia.
— Mas Cálculo é que é a essência da Poli.
No fim das contas, vou fazer o máximo possível de matérias na Poli, quer dizer, todas que eu puder sem sacrificar as duas de computação. Não sei o quanto eu vou amar ou odiar o lugar. Espero que no final eu saiba exatamente o que eu amo e o que eu odeio.
sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010
Mimese
Por todas as mesmas coisas que me fizeram te amar, eu te odiei. Eu te odiei em segredo por muito tempo, com mêdo de você não entender que eu precisava te odiar. Eu te odiei por cada uma de suas qualidades. Eu te odiei por sua força, por suas convicções em todas as questões em que eu tinha dúvidas. Eu te odiei pela sua sagacidade, pela sua inteligência. Eu odiei cada frase brilhante, cada piada, cada vez que você fazia um amigo. Eu odiei todos os seus talentos, eu odiei cada instante de prazer que eles te deram. Eu odiei cada um dos seus sorrisos. Cada vez que você se empolgava com algo eu sentia raiva; cada vez que você criava algo lindo eu sentia dor. Eu odiei você, por cada momento bom que passamos juntos eu odiei você, sem nunca te dizer nada. Eu odiei cada sorriso que você me arrancava, cada convite que você me fazia. Eu odiei em segredo, mas intensamente, misturando o ódio com o amor, misturando momentos de horror com momentos de êxtase, confundindo num só sentimento faminto o desespero e a felicidade. Eu odiei o seu prazer, eu odiei o seu amor, eu odiei a minha imagem nos seus olhos, eu odiei te ver nos olhos deles. Cada vez que meu coração inchava de orgulho por você outra parte de mim vomitava o ódio por cada uma das suas vitórias. Eu odiei você por tudo o que você fez de bom. Eu odiei você por ter me salvado, eu odiei a felicidade que você me trouxe. Eu odiei você por ter tido que me trazer a felicidade, por tê-la me oferecido, por não ter me privado dela, me obrigado a conquistá-la. Eu odiei você por ter me dado forças sem me tornar forte, por ter me dado vitórias sem me tornar vencedora! Eu odiei você, acima de tudo, por ter me dado a felicidade sem me dar junto o orgulho.
quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010
O Bom, o Ótimo e o Necessário
Ultimamente eu tenho tido umas dúvidas mais objetivas que as de sempre. Por exemplo: será que eu devo fazer cursinho? (não é uma merda que eu tenha que decidir isso até no máximo amanhã?) Ou então: eu devo estudar matemática? A sensação que eu tenho é que qualquer opção sem poréns que eu escolher vai me manter insatisfeita. Por exemplo, se eu estudar só computação vou me incomodar por não estudar mecânica, se eu for fazer mecânica vou odiar ter aulas toscas de computação, e se acabar chutando o balde e indo fazer cm (talvez seja uma idéia boa, não sei) eu vou ficar aflita por não estudar nenhum dos dois direito, mas pelo menos eu vou estar estudando biologia pra compensar. (e química também, mas isso é irrelevante).
A longo prazo talvez essas dúvidas sejam esquecidas, porque eu vou ter muito tempo pra fazer uma porção de matérias extras. Mas eu me pergunto se em cinco ou dez anos eu não vou estar aflita por não estar me especializando. Não que isso seja importante agora. Eu evito pensar a longo prazo porque a incerteza é muito grande; prefiro tentar sobreviver por agora, e pensar em prazos de no máximo três anos.
Eu não sei, três anos atrás a idéia de que eu poderia ficar três anos num curso que não me faz nem um pouco feliz era uma coisa vaga e absurda; eu achava que se não gostasse ia perceber em apenas seis meses e que ia sair logo do curso pra fazer outro. Acho que eu esqueci de levar em conta a minha estupidez natural; acho que esqueci que eu ia evitar a qualquer custo tomar uma decisão que pudesse não ser a certa, ou que não escolher é escolher que não. Eu tenho um pouco de mêdo dessa dor nunca mais passar, sabe? Hoje o que me dói e envergonha não é ter feito design, é não ter saído assim que as coisas começaram a dar errado, é ter insistido quando o melhor era desistir; eu e minha absoluta incapacidade de desistir! Eu poderia ter feito tantas coisas, biologia, pedagogia, artes plásticas, física, eu poderia ter conquistao o mundo se eu tivesse me dado o direito de abrir mão. Que raiva agora! Que arrependimento cruel! Quando eu era pequena, eu detestava a tal ponto o arrependimento que decidi não me arrepender mais, e lacrei esse sentimento. Lacrei tão bem que ele só voltou na faculdade, e com força total — de quantas coisas terríveis eu me arrependo! Como dói por dentro! Como anseio por esquecer esses erros, esquecer as dores e viver numa espécie de sonho de que todas as coisas deram mais ou menos certo! Como odeio a dor de ter me causado (de ter lhe causado) tão intenso sofrimento!
Eu queria mesmo estudar matemática e física suficientes para poder estudar computação e engenharia. Não! O que eu queria mesmo era estudar computação e engenharia, a física, a matemática etc são legais mas acho que não são realmente incríveis, são mais como meios para um fim pra mim. Ou melhor, eu não estou tão incrivelmente interessada assim nas partes mais legais delas. Biologia é outra coisa incrívelmente legal, mas acho que já me afastei demais dela para conseguir voltar atrás e ir atrás dela. É isso que eu acho, que não tenho mais todas as opções, agora eu sinto que o que eu tenho é o design, a mecânica, a eletrônica e a programação. Eu sinto dor nesse pensamento, eu me sinto encurralada.
Eu queria fazer só as matérias de programação do bcc, mas acho que isso é uma armadilha, eles têm uma matemática fudida e superespecífica e acho que eles provavelmente usam ela nos programas. Um dos problemas é que cada instituto tem sua própria matemática e sua própria física, eu não vou conseguir realmente estudar cada coisa uma vez só sem perder um monte de coisa. Eu não sei o que fazer em relação a isso. Eu me dei bem com a computação porque as matérias que eu fiz eram bem introdutórias e eu conseguia entender tudo, mas a maior parte das matérias da poli eram ou muito fáceis ou completamente impossíveis de se entender, então eu ainda não sei se eu posso gostar de estudar na poli, na verdade. Eu espero descobrir, mas por outro lado sinto que vou pegar todas as matérias legais e deixar as chatas, o que é uma merda.
Eu queria não fazer cursinho pra ter tempo pra estudar mais as coisas que me interessam. Mas não vou conseguir me decidir a tempo. E o que meus pais vão dizer se eu começar o cursinho e depois desistir no meio depois de pagar três mensalidades? Eu imagino minha família franzindo a testa pra metade das minhas opções, a pior delas seria fazer CM nesse sentido, e também seria um saco passar dois anos sem poder estudar mecânica e eletrônica e computação direito, o que são bons motivos pra não fazer, os motivos pra fazer seriam que como as matérias lá são fudidas talvez eu conseguisse ter que fazer menos matérias depois, economizar umas matérias se pá (e eu poderia estudar biologia) (e, pensando bem, é um lugar legal).
A vurto prazo, eu fico pensando será que eu devo estudar cálculo? Ou álgebra? Ou física? Ou estatística? Todas essas coisas seriam úteis no futuro, e se eu não fizer agora talvez não consiga fazer depois, mas ao mesmo tempo todas dariam muito trabalho. Será que eu devo fazer todas as matérias legais dos cursos que eu quero, pra ver como é? Laboratório de física para engenharia? Estrutura de dados? O que eu faço? Cursinho? Eu acho que vou odiar o cursinho; será que eu desisto e faço só em agosto?
A longo prazo talvez essas dúvidas sejam esquecidas, porque eu vou ter muito tempo pra fazer uma porção de matérias extras. Mas eu me pergunto se em cinco ou dez anos eu não vou estar aflita por não estar me especializando. Não que isso seja importante agora. Eu evito pensar a longo prazo porque a incerteza é muito grande; prefiro tentar sobreviver por agora, e pensar em prazos de no máximo três anos.
Eu não sei, três anos atrás a idéia de que eu poderia ficar três anos num curso que não me faz nem um pouco feliz era uma coisa vaga e absurda; eu achava que se não gostasse ia perceber em apenas seis meses e que ia sair logo do curso pra fazer outro. Acho que eu esqueci de levar em conta a minha estupidez natural; acho que esqueci que eu ia evitar a qualquer custo tomar uma decisão que pudesse não ser a certa, ou que não escolher é escolher que não. Eu tenho um pouco de mêdo dessa dor nunca mais passar, sabe? Hoje o que me dói e envergonha não é ter feito design, é não ter saído assim que as coisas começaram a dar errado, é ter insistido quando o melhor era desistir; eu e minha absoluta incapacidade de desistir! Eu poderia ter feito tantas coisas, biologia, pedagogia, artes plásticas, física, eu poderia ter conquistao o mundo se eu tivesse me dado o direito de abrir mão. Que raiva agora! Que arrependimento cruel! Quando eu era pequena, eu detestava a tal ponto o arrependimento que decidi não me arrepender mais, e lacrei esse sentimento. Lacrei tão bem que ele só voltou na faculdade, e com força total — de quantas coisas terríveis eu me arrependo! Como dói por dentro! Como anseio por esquecer esses erros, esquecer as dores e viver numa espécie de sonho de que todas as coisas deram mais ou menos certo! Como odeio a dor de ter me causado (de ter lhe causado) tão intenso sofrimento!
Eu queria mesmo estudar matemática e física suficientes para poder estudar computação e engenharia. Não! O que eu queria mesmo era estudar computação e engenharia, a física, a matemática etc são legais mas acho que não são realmente incríveis, são mais como meios para um fim pra mim. Ou melhor, eu não estou tão incrivelmente interessada assim nas partes mais legais delas. Biologia é outra coisa incrívelmente legal, mas acho que já me afastei demais dela para conseguir voltar atrás e ir atrás dela. É isso que eu acho, que não tenho mais todas as opções, agora eu sinto que o que eu tenho é o design, a mecânica, a eletrônica e a programação. Eu sinto dor nesse pensamento, eu me sinto encurralada.
Eu queria fazer só as matérias de programação do bcc, mas acho que isso é uma armadilha, eles têm uma matemática fudida e superespecífica e acho que eles provavelmente usam ela nos programas. Um dos problemas é que cada instituto tem sua própria matemática e sua própria física, eu não vou conseguir realmente estudar cada coisa uma vez só sem perder um monte de coisa. Eu não sei o que fazer em relação a isso. Eu me dei bem com a computação porque as matérias que eu fiz eram bem introdutórias e eu conseguia entender tudo, mas a maior parte das matérias da poli eram ou muito fáceis ou completamente impossíveis de se entender, então eu ainda não sei se eu posso gostar de estudar na poli, na verdade. Eu espero descobrir, mas por outro lado sinto que vou pegar todas as matérias legais e deixar as chatas, o que é uma merda.
Eu queria não fazer cursinho pra ter tempo pra estudar mais as coisas que me interessam. Mas não vou conseguir me decidir a tempo. E o que meus pais vão dizer se eu começar o cursinho e depois desistir no meio depois de pagar três mensalidades? Eu imagino minha família franzindo a testa pra metade das minhas opções, a pior delas seria fazer CM nesse sentido, e também seria um saco passar dois anos sem poder estudar mecânica e eletrônica e computação direito, o que são bons motivos pra não fazer, os motivos pra fazer seriam que como as matérias lá são fudidas talvez eu conseguisse ter que fazer menos matérias depois, economizar umas matérias se pá (e eu poderia estudar biologia) (e, pensando bem, é um lugar legal).
A vurto prazo, eu fico pensando será que eu devo estudar cálculo? Ou álgebra? Ou física? Ou estatística? Todas essas coisas seriam úteis no futuro, e se eu não fizer agora talvez não consiga fazer depois, mas ao mesmo tempo todas dariam muito trabalho. Será que eu devo fazer todas as matérias legais dos cursos que eu quero, pra ver como é? Laboratório de física para engenharia? Estrutura de dados? O que eu faço? Cursinho? Eu acho que vou odiar o cursinho; será que eu desisto e faço só em agosto?
terça-feira, 9 de fevereiro de 2010
Notas
Outro dia eu tive uma disputa por notas com o Diogo. Ele disse que a média dele era X e eu falei, "nossa, sua média é pior que a minha". Todo mundo riu porque era pra eu ter uma nota muito baixa com o número de reprovações que eu carrego... Na verdade meu estórico escolar é uma vergonha, mas enfim... Aí eu fui olhar no Jupiter e descobri que minha nota tinha caído do semestre passado pra esse. Mas como, se eu ainda não tinha reprovado nenhuma matéria?? Olhei de novo e vi que eram as notas baixas, 5.0, 5.6, por aí... Por algum motivo eu sempre acho bem mais chato tirar um monte de notas baixas-mas-passa dessas que tirar zero em umas e nove em outras. Desde o começo da faculdade eu tava conseguindo melhorar sempre as minhas notas escolhendo umas matérias pra abandonar na hora do desespêro (no fim eu sou meio covarde na faculdade). No último semestre eu consegui trancar várias matérias pra evitar reprovações, mas mesmo assim fui meio mal e minha média baixou pelo menos meio ponto.
Depois o Diogo falou que a média dele considerando só o cm é bem mais alta, mas eu argumentei que a comparação é inválida porque eu não amo meu curso que nem ele e meu curso não tem game-shark que nem o dele.
Depois o Diogo falou que a média dele considerando só o cm é bem mais alta, mas eu argumentei que a comparação é inválida porque eu não amo meu curso que nem ele e meu curso não tem game-shark que nem o dele.
segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010
Software de Celular é uma #@%$!!
Fiz umas gravações no meu celular e fui eu lá toda feliz tentar passar as gravações pro meu computador. Mas é claro que, como software de celular é uma merda, eu não consigo transferir as gravações pra nenhuma pasta que eu possa acessar do meu computador. Estou procurando uma forma há uma hora e ainda não consegui encontrar, e aceito qualquer ajuda ou sugestão. Esse é o tipo da coisa que me deixa muito irritada.
O problema é que quando você salva qualquer coisa no seu celular o padrão é gravar na memória do celular, que é um buraco escuro de onde nada nunca sai. O que está gravado no chip pode ser passado para outros celulares pelo menos, e o que está no cartão de memória dá pra acessar pelo computador. Se é assim, porque o padrão não é gravar as coisas no cartão de memória?
Também aceito se alguém conhecer um jeito de abrir os arquivos do celular usando outro software, quer dizer, um hack, para que eu possa mexer neles direito. Não tenho coragem de procurar esse tipo de coisa na internet.
Outra possibilidade que me ocorre é transferir para alguém por bluetooth e fazer esse alguém salvar em um lugar mais acessível.
Tinha outra coisa que eu queria dizer, o que era...?
O problema é que quando você salva qualquer coisa no seu celular o padrão é gravar na memória do celular, que é um buraco escuro de onde nada nunca sai. O que está gravado no chip pode ser passado para outros celulares pelo menos, e o que está no cartão de memória dá pra acessar pelo computador. Se é assim, porque o padrão não é gravar as coisas no cartão de memória?
Também aceito se alguém conhecer um jeito de abrir os arquivos do celular usando outro software, quer dizer, um hack, para que eu possa mexer neles direito. Não tenho coragem de procurar esse tipo de coisa na internet.
Outra possibilidade que me ocorre é transferir para alguém por bluetooth e fazer esse alguém salvar em um lugar mais acessível.
Tinha outra coisa que eu queria dizer, o que era...?
segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010
Shortfic - O Cavalo e Seu Menino
de vez em quando eu encontro um ou outro texto legal no meu arquivo. Este por exemplo. Eu imagino que o final de O Cavalo e seu Menino (que é sem dúvida o melhor livro da série) tenha me incomodado muito para que eu escrevesse isso. Eu gosto do final hehe
Ele era um garoto como qualquer outro. Tinha cabelos castanhos, assim como seus olhos, e sua pele era apenas um pouco mais escura de sol que a de seu pai. Como era comum para um garoto da sua idade. Ele era pouco diferente de Corin psicologicamente, e menos ainda em aparência. Gostava de cavalgar, correr nos campos de sua terra, sob o sol, subir nas árvores do pomar e ter aulas de esgrima no pátio do castelo. Gostava de ver a cara de seu pai quando os encontrava cobertos de terra, água, lama, de como ele ria de suas caras sujas e seus cabelos bagunçados. O que havia nele que o tornava tão diferente de qualquer outro garoto de sua idade naquela terra?
Ele era um garoto normal, embora seu povo provavelmente pensasse diferente. O fato de, ainda bebê, ter sido levado para a Calormânia e vivido lá por mais de dez anos não invalidava essa normalidade. Muito menos o fato de ser o príncipe herdeiro da Arquelândia. Ou o de ter acabado de concretizar uma profecia estranha sobre ele derrubar o rei da Calormânia, ou algo assim. Ele não se sentia especial por nada disso. Aliás, ele não queria ser especial. Queria apenas viver aventuras, correr pelos campos, subir nas árvores, ouvir as canções de Nárnia, estar nas festas da Arquelândia, dançando sob o céu de verão. Queria ser apenas Shasta, o humilde garoto que um dia montou um cavalo falante e enfrentou o leão. Não tinha necessidade de viver naquele luxo de príncipe, chamado por um nome que ele ainda não reconhecia como seu. Ele não queria ser Cor, o filho perdido do rei, o salvador da pátria. Ele não precisava daquilo. Shasta bastava.
O garoto suspirou, olhando perdidamente para os campos dezenas de metros abaixo. Talvez, pensou, desanimado, talvez ele fosse realmente mais calormano que arquelão. Claro, se ele não tivesse sido levado de seu país antes do que podia se lembrar por causa de uma maldita profecia, provavelmente seria como Corin, seu irmão. Um bom espadachim, um guerreiro, que montava com graça e firmeza, e ainda que muito jovem para ser chamado homem, não fazia feio em uma batalha de verdade. Shasta não era nada daquilo. Quando chegara à Arquelândia, desprevenido, mal conseguia segurar uma espada, e quase fora morto por tentar acompanhar Corin na batalha contra o rei Rabadash da Calormânia. Sorrindo, ele se lembrou de Rabadash preso no gancho do muro, Rabadash virando burro, a solenidade de Aslam, o Leão, ao contar-lhes toda uma série de verdades irrefutáveis, Aslam dizendo-lhe que nenhum dos leões da viagem faria mal a eles, pois todos eram o mesmo. Fora uma grande aventura. Sorrindo ainda mais, ele se lembrava de como conhecera Bri, das aulas de hipismo, dos tombos, de Huin e Aravis, a tarcaína que o acompanhara para fora da Calormânia, de quando fora confundido com Corin, as conversas do rei Edmundo e da rainha Susana de Nárnia, dos animais falante... Ele tinha que admitir que foram bons tempos aqueles. Para algumas pessoas, a aventura pode ser uma maldição. Para Shasta, fora uma bênção, um privilégio. Mil vezes melhor que viver com [Arsheesh], trabalhando muito e vivendo muito pouco.
Mas o que mais o irritava era sem dúvida ser considerado tão diferente dos outros. Era ridículo, do seu ponto de vista. Ele era uma garoto normal. Tinha os mesmos problemas que a maioria dos meninos da sua idade. As mesmas dificuldades e desafios. As mesmas alegrias e tristezas. Os mesmos amores platônicos, o mesmo desespero crítico, a mesma mania de auto-flagelação das pessoas que cometem erros. Talvez fosse um pouco ignorante, não tivesse grande habillidade com as armas da Arquelândia, se confundisse nos costumes e coisas afins. Mas, para todos os efeitos, era tão normal quanto qualquer príncipe herdeiro de um pequeno mas alegre reino poderia ser.
No final das contas, o que realmente importava para ele era ignorado. Os valores, os sentimentos, toda a verdadeira face de uma pessoa, era esquecido quando o comparavam com o resto do mundo. O que contava era seu passado. Só isso. Que diferença fazia então tudo o que ele era se o importante mesmo era o que ele fora? Ele poderia ter se tornado um garoto orgulhoso, cruel, que jogava na cara das pessoas tudo o que pensava mal delas, e o que não pensava, mal-educado, relaxado, egocêntrico. Quem sabe assim as pessoas percebessem a diferença? Entre ser e ter sido?
Suspirando, Shasta ainda observava a bela, mas vazia de significado, vista que tinha do alto da torre principal. Subira ali não para ver a bela cidade em que nascera, as pessoas da Arquelândia levando suas vidas felizes, e se sentir bem com isso. Seria mais provável que, ao contrário, subisse ali para poder se lacerar mais fácil e eficientemente. Doía-lhe pensar que as pessoas felizes lá embaixo o consideravam tão diferente. Era quase como se não fosse humano. Era quase como se não fosse alguém. Ser apenas mais um no mundo inteiro podia parecer triste para algumas pessoas, mas ser diferente dos outros todos era certamente mais desesperador, no mínimo. O desespero consistia em não poder falar como uma pessoa normal, por não ser ouvido como uma.
Mas também não subira ali para observar as pessoas que quase podia dizer que odiava e sentir-se mal. Seus motivos eram menos nobres. E mesmo refletir parecia ridículo na sua situação. Ele subira ali porque não pudera sair da cidade sem que o vissem. E porque queria observar o que havia além dela. As florestas, os rios, as colinas, as montanhas ao longe. A natureza parecia mais bonita sem as casas e ruas cercando-a.
Estilhaços do meu Único Tremor
It may not be that I don't love this path, but only that I cannot stand the thought of suffering another defeat — my heart is blank, weakened by the many times it has been beaten. To hold on enduring what has only given me honorless pain, even if I deserved it, would be to deny the instinct of survival — and therefore to spit in Nature's eyes. I will go, probably, but I won't go quietly. I don't care where to, if I can just get out of here.
Quando estávamos andando pelo bairro apagado e fantasmagórico sob a lua cheia, perguntou-me porque eu via tanta beleza nas árvores; eu respondi que que elas me agradavam, e só. Mas ontem, no apartamento asseado e sem espaço para fantasmas, teria dado meu sangue por uma árvore. Abri a janela apenas para olhá-la, e quase chorei ao ver seus galhos se bifurcando e ondulando para dentro de pequenas nuvens de folhas!
O Diogo diz que a gente não deve escrever com palavras épicas, porque isso deixa tudo meio ridículo. Mas de que outra forma eu poderia transmitir o que eu estou sentindo, que não se passa através de simples palavras? Naquela hora, meu coração se apertou ao ver os galhos da árvore, mais ou menos como ele se aperta ao ver você, e eu percebi que eu não quereria viver num mundo que não tivesse árvores. Se todas as árvores morressem, se eu não tivesse nenhuma forma de trazê-las de volta, eu provavelmente me mataria. Eu realmente não sei se a morte pode ser interessante, eu sou o tipo de pessoas que gostaria de viver para sempre, mas de que me valeria viver para sempre sem árvores? Naquela hora, eu entendi que árvores são a coisa mais importante.
Que tipo de pessoa sou eu se eu vivo sem lutar por aquilo que é mais importante? Matar para comer não me incomoda, matar insetos sem motivo me causa um certo desprezo frio que em geral eu ignoro, matar pessoas me provoca nojo e uma certa esperaça compassiva dolorosa; matar árvores me provoca ódio, puro, simples e inútil. No meu coração uma pessoa que mata qualquer ser vivo e não sente nada em relação a isso é uma espécie de psicopata. Eu suspeito que já tenha me afastado de uma pessoa inconscientemente depois que ela confessou ter matado um gato na inocência da crueldade infantil. A morte, mesmo que de um mosquito, é uma coisa séria. A morte de uma árvore é um pecado tão grande que apenas a vida de outras árvores podem pagar aquela que foi tomada. A pessoa que corta árvores, assim como a pessoa que mata os bois, precisa ter consciência de que seu trabalho é assunto de Deus.
E digo Deus mesmo, para bater de frente com o ateísmo de vocês, porque pra mim a vida é uma coisa tão sagrada que se torna fútil negar a religiosidade. Que me importa que eu não acredite em um velho barbudo que nos dá leis e punições, se eu acredito na vontade intrínseca das coisas, na diferença entre o certo e o errado, no sagrado? Se eu não teria coragem de derrubar uma árvore grande nem que fosse para construir minha casa no lugar?
Eu vivo perguntando às pessoas se elas acham mais certo fazer o que eu gosto, fazer o que eu faço bem ou fazer o que eu acho importante. Em geral elas dizem que eu devo fazer o que eu gosto. Ultimamente eu tenho me perguntado se eu poderia ser feliz fazendo o que eu não considero importante. Eu não estou feliz agora, mas agora eu não estou fazendo nada. Como eu posso saber como eu posso fazer o que é importante?
Nos últimos meses o futuro tem me parecido cada vez mais negro.
terça-feira, 26 de janeiro de 2010
Écrire
Se minha vida fosse um livro, o primeiro volume se chamaria Viagem. Eu seria um cão um gato um lobo um pássaro e o maior capítulo seria Liberdade. Seria um livro de causos, de aventuras, de família, de Estórias mil. Seria um volume dedicado ao irmão Gris. O segundo volume, com gostinho de depois-do-fim, seria o de Akela, e se chamaria Sozinho. Seria um livro de guerras, de lutas, de sangue, de escuridão, de perigo, de leões. Um mundo sem amigos, mas também sem fraquezas. Um mundo sem o conceito de erros. Um mundo onde poderia nascer o ódio. O terceiro volume seria Amigo, seria um livro dedicado à chuva e ao vento do verão. Seria o livro que faz a travessia do Selvagem ao genuínamente amoroso. O quarto volume se chamaria Amor — parte um, Desejo; parte dois, Entrega; parte três, Poder; parte quatro, Libertação. O quinto volume se chama Mêdo. Esse seria o livro da derrocada, o livro que destrói todos os outros enquanto ainda tenta retomá-los, o livro da Destruição. Mas haveria um capítulo para Laços e um capítulo para Doçura. Também haveriam capítulos para a Darrota. E eu estou tentando a muito tempo (e tão sem efeito!) começar um livro novo, um livro melhor, chamado Coragem. Mas eu não consigo porque parece que falta algo. Parece que falta um onde do qual tirar forças, um motivo para resistir e enfrentar. Ou alguém que me dê confiança.
Espero que seja possível encontrar.
Espero que seja possível encontrar.
quarta-feira, 6 de janeiro de 2010
Shortcommings
Não consigo fazer meu trabalho. Fui na biblioteca, lutei contra a vontade cada vez mais forte de ir embora, venci, aprendi algumas coisas, descobri que não podia fazer meu trabalho com o que aprendi, voltei à estaca de não saber nem por onde começar. Não tenho coragem de pedir ajuda, acho que a resposta provavelmente seria "bom, se você não aprendeu nada nos últimos dois anos, então aceite mais uma reprovação merecida". Estou cansada de merecer minhas reprovações, de não poder botar a culpa em ninguém além de mim mesma. Estou cansada de não conseguir nem começar um projeto porque já sei que vou desistir dele no meio, ou porque sei que enquanto estiver insistindo sem fé vou apenas prolongar um sofrimento que só leva a mais fracasso. Estou cansada de me esforçar para fazer o meu melhor mas saber que meus erros anteriores já me tiraram toda a possibilidade de vencer. Estou cansada de saber que de um ano para outro não aprendi nada e cometi os mesmos erros. Estou cansada de explicar para as pessoas que eu ainda estou muito, muito longe de me formar. Estou cansada de pedir em silêncio que as pessoas parem de perguntar sobre a minha faculdade. Estou cansada de não ter coragem de conversar com meus colegas ou sequer de imaginar o que eles pensam de mim. Estou cansada de não entender nada do eles falam, estou cansada de ser a única aqui que não tem nenhum plano para o futuro. Quando isso tudo acabar, o que eu vou ser? A bixete dos meus bixos, a que não se formou quando todo mundo já está trabalhando. Eu odeio isso tudo, eu odeio a lei que isso implica, a lei que eu não posso seguir.
A verdade é que eu não teria coragem de ir para a Cajaíba, eu teria coragem de me dar férias quando eu não fiz nada para merecê-las, quanto mais ficar com tantas outras pessoas naturalmente bem sucedidas que fizeram de tudo para merecer suas férias. Eu sinto vergonha, sim, de não estar trabalhando agora, de estar aqui, de não estar com meus amigos, na verdade tudo me envergonha.
Às vezes eu me pergunto se algum dia eu vou sentir de novo aquela tranquilidade de estar vivendo a vida certa.
A verdade é que eu não teria coragem de ir para a Cajaíba, eu teria coragem de me dar férias quando eu não fiz nada para merecê-las, quanto mais ficar com tantas outras pessoas naturalmente bem sucedidas que fizeram de tudo para merecer suas férias. Eu sinto vergonha, sim, de não estar trabalhando agora, de estar aqui, de não estar com meus amigos, na verdade tudo me envergonha.
Às vezes eu me pergunto se algum dia eu vou sentir de novo aquela tranquilidade de estar vivendo a vida certa.
terça-feira, 5 de janeiro de 2010
Ciúme
Eu não tenho muita vontade de escrever, mas eu ainda tenho a vontade de comunicar. Acho que sei no fundo que meu destino é escrever (devo dizer Destino com letra maiúscula?), que é o que me dá prazer, me define e o que eu sempre fiz. Mas não é assim. A essência não são as letras e sim o sonho dos mundos que me percorrem. No fundo, eu só quero realmente me comunicar.
Todo o resto é um fracasso, não? Ou uma possibilidade que não foi explorada. Todos os meus sonhsos são apenas sonhos, e por isso eu não boto muito fé neles, o que talvez queira dizer que eu não sonho. E porque eu não sonho eu não tenha fé um nada, quanto mais em mim. Minha mãe está certa em não confiar em mim. E por não ser confiável eu também deixo de confiar em mim. É assim.
A chave da coisa é a insegurança. Apenas sofrer ao ver um casal feliz ou amigos felizes, isso é inveja. Ciúmes é o mêdo que temos de que aquela passoas que amamos goste mais de outro que que mim. Ciúmes é o mêdo de ser insuficiente. De que o próprio contato com outras pessoas torne subitamente claro os nossos defeitos. Ciúmes é o mêdo de admitir os próprios defeitos. E por isso é o mêdo de errar, e de perder.
E portanto é sim uma coisa ruim, como o mêdo, se desesperado. Mas talvez, como qualquer mêdo, seja natural e necessário, seja uma prova de que não somos perfeitos. De qualquer forma ainda defendo que ciúmes não é motivo para nenhuma decisão — é no máximo um aviso doloroso de que algo não está certo, mas é preciso sempre pensar com cuidado o quê. A gente deve, sempre, desconfiar dos nossos mêdos.
Todo o resto é um fracasso, não? Ou uma possibilidade que não foi explorada. Todos os meus sonhsos são apenas sonhos, e por isso eu não boto muito fé neles, o que talvez queira dizer que eu não sonho. E porque eu não sonho eu não tenha fé um nada, quanto mais em mim. Minha mãe está certa em não confiar em mim. E por não ser confiável eu também deixo de confiar em mim. É assim.
A chave da coisa é a insegurança. Apenas sofrer ao ver um casal feliz ou amigos felizes, isso é inveja. Ciúmes é o mêdo que temos de que aquela passoas que amamos goste mais de outro que que mim. Ciúmes é o mêdo de ser insuficiente. De que o próprio contato com outras pessoas torne subitamente claro os nossos defeitos. Ciúmes é o mêdo de admitir os próprios defeitos. E por isso é o mêdo de errar, e de perder.
E portanto é sim uma coisa ruim, como o mêdo, se desesperado. Mas talvez, como qualquer mêdo, seja natural e necessário, seja uma prova de que não somos perfeitos. De qualquer forma ainda defendo que ciúmes não é motivo para nenhuma decisão — é no máximo um aviso doloroso de que algo não está certo, mas é preciso sempre pensar com cuidado o quê. A gente deve, sempre, desconfiar dos nossos mêdos.
domingo, 3 de janeiro de 2010
Reflexo do reflexo etc.
Does the walker choose the path, or the path the walker?
Há muito em que tenho que pensar, minha vida, meu amor, minha função no mundo. Tudo está mudando ou ao menos minha compreensão de tudo. Meus espíritos estão mudando, minhas forças estão mudando, as coisas que eu quero fazer. Até mesmo minha voz. Eu acho que eu queria acreditar que a resposta não é uma coisa simplesmente física, uma coisa que eu devo resolver com meu corpo e com o espaço que vivo. Eu sonho em poder agir também com as forças do espaço que imagino. Mas é tão difícil fazê-los ouvir! É tão difícil fazê-los entender o poder e a beleza desse espaço! E é tão difícil sobreviver quando cada pessoa quer viver uma coisa diferente que luta contra todas as outras. Talvez daqui a alguns dias eu esteja mais forte, ou talvez não. Eu não sei. Eu sei o que devo fazer, e sei porque não devo fazê-lo, e isso me confunde.
sábado, 19 de dezembro de 2009
Blog II
Eu configurei meu Blogger para me mandar por e-mail todos os comentários feitos no meu Blog. Isso significa que qualquer comentário feito em qualquer post vai chegar em mim eficientemente. De modo geral eu acho que fazer comentários é como rabiscar alguma coisa na página de um livro, com a diferença de que nunca atrapalha a leitura, o espaço é ilimitado e várias pessoas podem ler. Comentário não é post — não é algo em si, para ser guardado e valorizado. Mas é alguma coisa que faz parte do post, e é uma resposta que dá sentido ao post. Eu acho importante.
On the same topic, o Haloscan resolveu se vender pra uma empresa de comentários pagos, e vários blogueiros estão tentando descobrir como importar seus comments para o Blogger. Eu estou esperando eles descobrirem porque eu sou uma folgada.
Eu cheguei à conclusão que escrever intensamente sobre coisas que importam no começo das férias foi uma ótima idéia! Tantas pessoas me deram tantas respostas que vou demorar uma semana só pra entender tudo o que está na minha mente agora! Volto a esse tópico depois, estou em dúvida se devo criar novos posts para responder ou se devo responder nos comentários. Acho que faz mais sentido responder nos comentários.
Bom, tenho que sair agora, embora eu quisesse escrever agora. Nos vemos mais tarde.
PS.: eu consegui estruturar mais ou menos um texto para ser meu trabalho final sobre sustentabilidade. Como ele repete amplamente os textos anteriores, com apenas algumas alterações no desenvolvimento, eu resolvi não postar, mas posso mandar se alguém quiser.
On the same topic, o Haloscan resolveu se vender pra uma empresa de comentários pagos, e vários blogueiros estão tentando descobrir como importar seus comments para o Blogger. Eu estou esperando eles descobrirem porque eu sou uma folgada.
Eu cheguei à conclusão que escrever intensamente sobre coisas que importam no começo das férias foi uma ótima idéia! Tantas pessoas me deram tantas respostas que vou demorar uma semana só pra entender tudo o que está na minha mente agora! Volto a esse tópico depois, estou em dúvida se devo criar novos posts para responder ou se devo responder nos comentários. Acho que faz mais sentido responder nos comentários.
Bom, tenho que sair agora, embora eu quisesse escrever agora. Nos vemos mais tarde.
PS.: eu consegui estruturar mais ou menos um texto para ser meu trabalho final sobre sustentabilidade. Como ele repete amplamente os textos anteriores, com apenas algumas alterações no desenvolvimento, eu resolvi não postar, mas posso mandar se alguém quiser.
quinta-feira, 17 de dezembro de 2009
Blog
Hoje eu falei pra minha mãe que ela podia ler as coisas que eu estava escrevendo no blog, e ela falou "Não tem muito mais gente lendo seu blog, né?", eu respondi "tem umas cinco pessoas, eu acho, mas elas sempre comentam".
Isso me fez me sentir estranha, tem apenas cinco pessoas lendo isto, cinco não, ugo, márcio, yuri, bruno, charles, quiçá denise, quiçá outras pessoas que não sei, bem, são cinco mesmo que eu sei que lêem às vezes mas acho que são mais, de qualquer forma são muito poucas, minhas palavras não chegam longe, "eu antes tomava minha pena por espada", diz sartre no fundo da minha mente, e afinal, para quê eu escrevo num blog que quase ninguém lê?
No entanto, não desprezo o pequeno número dos meus leitores, são poucos, mas são bons, são pessoas que pensam, são pessoas com quem eu posso esperar verdadeira comunicação, em quem talvez minhas idéias e questões encontrem algum tipo de eco. Não posso mudar o mundo, mas talvez eu possa ter efeito sobre aqueles que vivem perto de mim, eu penso. Além do mais, eu gosto de escrever. Se uma só pessoa lesse cada um dos meus textos, isso seria motivo mais que suficiente para escrevê-los. Se uma pessoa parar para pensar nas minhas palavras, então a existência deste blog já estará plenamente justoficada.
É claro que a minha pena é uma espada.
Isso me fez me sentir estranha, tem apenas cinco pessoas lendo isto, cinco não, ugo, márcio, yuri, bruno, charles, quiçá denise, quiçá outras pessoas que não sei, bem, são cinco mesmo que eu sei que lêem às vezes mas acho que são mais, de qualquer forma são muito poucas, minhas palavras não chegam longe, "eu antes tomava minha pena por espada", diz sartre no fundo da minha mente, e afinal, para quê eu escrevo num blog que quase ninguém lê?
No entanto, não desprezo o pequeno número dos meus leitores, são poucos, mas são bons, são pessoas que pensam, são pessoas com quem eu posso esperar verdadeira comunicação, em quem talvez minhas idéias e questões encontrem algum tipo de eco. Não posso mudar o mundo, mas talvez eu possa ter efeito sobre aqueles que vivem perto de mim, eu penso. Além do mais, eu gosto de escrever. Se uma só pessoa lesse cada um dos meus textos, isso seria motivo mais que suficiente para escrevê-los. Se uma pessoa parar para pensar nas minhas palavras, então a existência deste blog já estará plenamente justoficada.
É claro que a minha pena é uma espada.
E o que isso tem a ver com sustentabilidade?
Seguimento do trabalho, explicando a relação com o tema.
Sustentabilidade é um princípio que só faz sentido se aplicado ao modo de vida. Não se pode fazer uma coisa de modo sustentável, porque essa uma coisa só foi possível por causa das muitas outras coisas que fizemos antes, e se essas coisas foram feitas sem nenhuma preocupação com a sustentabilidade, então a nossa uma ação sustentável não é sustentável coisa nenhuma. Sustentabilidade é o princípio de viver e fazer as coisas de forma que possamos continuar vivendo e fazendo no futuro — por isso é que tanto nossas matérias primas como o destino de nosso lixo devem ser do tipo que se renova. Mas mesmo que tivéssemos uma fonte de matéria prima e um destino para o lixo que fossem inesgotáveis, ainda não poderíamos garantir que essa seria uma solução sustentável, Teríamos que garantir também que nossa ocupação do espaço é sustentável, e que nossa produção de barulho e bagunça e que nossos gastos energéticos são sustentáveis. Teríamos que ter relações sustentáveis com todas as outras coisas, vivas e inertes, do mundo. Na verdade, teríamos que conseguir enxergar o mundo em seu todo e em todos os seus detalhes para garantir que não estamos tornando o mundo menos sustentável. Na verdade, como fazemos parte do mundo, teríamos que garantir que o mundo fosse sustentável, e para isso teríamos que compensar todas as ações insustentáveis de todas as outras coisas no mundo; teríamos que garantir que inclusive todas as outras espécies estão se comportando de maneira sustentável. E mesmo que esse absurdo fosse possível ainda descobriríamos que apesar de todo o esforço o mundo não se sustentaria para sempre, porque alguma hora o sol vai se apagar ou a terra sairá de órbita ou, pensando mais longe, o crescimento inevitável da entropia levará a um universo sem grandes variações de energia, e portanto sem vida.Então o que é a sustentabilidade? Por um lado, a sustentabilidade é o princípio do esforço que fazemos para continuar vivendo pelo máximo de tempo possível. Por outro lado, é o esforço que fazemos para manter as coisas mais ou menos do jeito que estão — quer dizer, evitar que espécies se extinguam, preservar os eco-sistemas que já existem, etc. Evitar que coisas como o trânsito, as impermeabilização do solo, o gasto energético e as emissões de poluentes cresçam é um princípio sustentável. Na verdade, evitar que as coisas mudem é uma idéia sustentável — poderíamos proteger o mundo se pudéssemos estagnar completamente o crescimento populacional, o crescimento econômico e todo tipo de movimento — mas não queremos apenas viver para sempre, ou viver sempre no mesmo mundo, queremos também continuar a sonhar, a construir, a progredir. Dessa oposição surge uma questão que é mais ou menos esta: como podemos fazer tudo o que queremos sem com isso causar a destruição do mundo? Essa questão tem duas sub-questões que são fundamentais: o que nós realmente queremos, e o que é, e como funciona, o mundo. Precisamos saber o que queremos, é claro, para que possamos decidir do que abrir mão para conseguir aquilo que queremos; e precisamos saber o que é e como funciona o mundo para saber diferenciar o que vai destruí-lo do que vai apenas alterá-lo. É importante entender que o mundo vai mudar, está mudando, e que o máximo que podemos fazer é tentar direcionar a mudança para alguma situação que nos agrade. Para saber que situações nos agradarão, é claro, precisamos entender como elas funcionam, suas implicações climáticas e biológicas, seus efeitos sobre as populações que interagem conosco e sobre nós mesmos. Para saber que mudanças levarão a uma situação que nos agrade, também precisamos entender como as mudanças acontecem e de que elas dependem. Por último, para que tudo isso faça sentido, precisamos conhecer a nós mesmos, qual o nosso papel nesse sistema, qual a nossa posição no mundo. Precisamos entender quem somos, onde estamos, o que fazemos e qual é a nossa relação com o meio ambiente. Por isso, em vez de falar sobre energia, poluição, matéria prima e descarte, escolhi parar para pensar nessas questões mais fundamentais, em compreender como as coisas funcionam.
Hoje vou falar mal do resto da blogofórumsfera
Às vezes eu vou procurar alguma coisa na internet e caio num fonte de blogs e fóruns discutindo o assunto, e eu fico impressionada com como as pessoas fazem discussões totalmente desinteressantes na internet.
À vezes eu passo pelo mesmo assunto dez vezes, e os assuntos são digamos polêmicos, como Deus, Destino, Homossexualidade, Liberdade, e eu me impressiono com como as opiniões são sempre as mesmas, com como os comentários são sempre pontuais e pouco elaborados, como se as pessoas sentissem necessidade de sempre expressar as opiniões contrárias mas nunca de realmente tentar convencer os outros, ou como se as pessoas argumentassem pelo simples dever de argumentar, mas nunca tivessem realmente parado para pensar.
Eu me impressiono com os assuntos também, como as pessoas discutem mil vezes os assuntos que eu já decidi mil vezes que não valia mais a pena discutir se não fosse para discutir muito sériamente, porque são assuntos que já foram discutidos mil vezes e que de certa forma nunca chegam em nenhuma resposta — mais que isso, não levam a nenhum engrandecimento pessoal. E as pessoas tiram postulados do cú, descrevem o mundo como se todo mundo concordasse com elas, fazem questionamentos mas na verdade nunca param para pensar de onde elas tiraram aqueles questionamentos, são perguntas clichés em relação a assuntos clichés.
Entendam, não estou falando que tudo o que dizem é bobagem. Muitas vezes uma coisa ou outra é muito interessante, ou é algo em que por acaso eu nunca havia pensado, mas é incrível como há gente que mesmo assim não desenvolve o assunto, que apenas pincela alguns assuntos e não articula aliás nem relaciona or argumentos dentro do próprio texto. E também é incrível como as respostas a esse tipo de texto quase sempre são no mesmo nível de profundidade do texto ou ainda mais raso, como questionam só as coisas mais óbvias, como às vezes sugerem coisas interessantes mas nunca sequer relacionam a idéia com o questionamento do texto.
Toda vez que eu faço isso eu me assusto, sinto um certo desprezo e me envergonho até da minha prepotência, em achar que os assuntos que eu discuto são mais fundamentais ou mais interessantes ou em achar que eu os discuto com mais profundidade e menos clichés. Mas eu com certeza discuto com menos clichés: a prova disso é justamente que eu me sinto mal com o excesso de pensamentos clichés.
Às vezes me parece que de fato o mundo está cheio de figurantes.
À vezes eu passo pelo mesmo assunto dez vezes, e os assuntos são digamos polêmicos, como Deus, Destino, Homossexualidade, Liberdade, e eu me impressiono com como as opiniões são sempre as mesmas, com como os comentários são sempre pontuais e pouco elaborados, como se as pessoas sentissem necessidade de sempre expressar as opiniões contrárias mas nunca de realmente tentar convencer os outros, ou como se as pessoas argumentassem pelo simples dever de argumentar, mas nunca tivessem realmente parado para pensar.
Eu me impressiono com os assuntos também, como as pessoas discutem mil vezes os assuntos que eu já decidi mil vezes que não valia mais a pena discutir se não fosse para discutir muito sériamente, porque são assuntos que já foram discutidos mil vezes e que de certa forma nunca chegam em nenhuma resposta — mais que isso, não levam a nenhum engrandecimento pessoal. E as pessoas tiram postulados do cú, descrevem o mundo como se todo mundo concordasse com elas, fazem questionamentos mas na verdade nunca param para pensar de onde elas tiraram aqueles questionamentos, são perguntas clichés em relação a assuntos clichés.
Entendam, não estou falando que tudo o que dizem é bobagem. Muitas vezes uma coisa ou outra é muito interessante, ou é algo em que por acaso eu nunca havia pensado, mas é incrível como há gente que mesmo assim não desenvolve o assunto, que apenas pincela alguns assuntos e não articula aliás nem relaciona or argumentos dentro do próprio texto. E também é incrível como as respostas a esse tipo de texto quase sempre são no mesmo nível de profundidade do texto ou ainda mais raso, como questionam só as coisas mais óbvias, como às vezes sugerem coisas interessantes mas nunca sequer relacionam a idéia com o questionamento do texto.
Toda vez que eu faço isso eu me assusto, sinto um certo desprezo e me envergonho até da minha prepotência, em achar que os assuntos que eu discuto são mais fundamentais ou mais interessantes ou em achar que eu os discuto com mais profundidade e menos clichés. Mas eu com certeza discuto com menos clichés: a prova disso é justamente que eu me sinto mal com o excesso de pensamentos clichés.
Às vezes me parece que de fato o mundo está cheio de figurantes.
quarta-feira, 16 de dezembro de 2009
O Todo e a Parte
Quando comecei a desenvolver este texto, percebi que podia argumentar por inúmeros caminhos — ciência, agricultura, trabalho, urbanismo, espiritualidade, preconceito, moralidade, arte, amor — diversas questões nosso universo podem ser abordadas pelo ponto de vista da divisão e classificação. O desenvolvimento de cada uma dessas abordagens levantou uma grande quantidade de outras questões, mas de modo geral reforçou minha convicção nessa tese: a de que há um perigo e um erro problemático em alguns tipos de classificação, que podem estar nos custando muito caro.
É claro que não posso falar contra a classificação em si. A vida seria muito diferente de não tentássemos sempre separar as coisas; pode-se dizer que sem classificação não há linguagem, pois o que é uma palavra senão um limite entre o que ela significa e tudo o que ela não significa? Na verdade todo signo é definido por seus limites — sem limites não há signos, e sem signos não há comunicação. Precisamos separar as coisas, o seco do molhado, o vivo do morto, o quente do frio, o verde do amarelo e do azul e do vermelho e do branco... Quando separamos criamos classes, fôrmas nas quais podemos encaixar o que percebemos do mundo. Associamos a essas classes tudo o que conhecemos sobre as coisas que se encaixam nela, e assim quando conhecemos uma coisa nova, se conseguimos encaixá-la em uma classe, passamos a saber imediatamente uma porção de coisas sobre ela. É claro que o sistema não é perfeito: sempre vão haver coisas que não se encaixam nas classes que conhecemos, para os quais temos que imaginar classes novas, e muitas coisas vão apenas parecer se encaixar, o que frequentemente vai fazer com que acreditemos saber coisas que depois se mostrarão erradas. Ou não — podemos continuar acreditando indefinidamente em algo que não está de acordo com a realidade. Essa insegurança na adequação das classes é um pilar fundamental na procura do conhecimento, especialmente no método científico. Podemos viver a vida inteira acreditando na coisa errada, mas precisamos estar prontos para que a qualquer momento nossas convicções sejam abaladas. Quando encontramos coisas que não se encaixam em nossa classificação, precisamos estar pronto para mudá-la, ou teremos erros e incoerências na nossa concepção do mundo; ou ainda, teremos que ignorar as informações que não se encaixam, limitando o aprendizado.
Ignorar as informações que recebemos, ou seja, impedir que adquiramos conhecimento, para manter a coerência do modelo, é um problema sério. Mas nós não somos apenas receptores desinteressados, como câmeras de segurança que apenas gravam tudo o que passar a sua frente e cujas imagens podem apenas ser interpretadas depois. Nós somos seres atuantes no mundo, e nosso olhar também é ativo. Quando temos fé demais em nosso modelos, somos capazes de deixar de enxergar qualquer coisa que não esteja classificada, e isso é um problema muito maior. E quando dependemos demais de nossos modelos, podemos acabar modificando o mundo ao nosso redor para que possamos compreendê-lo — e isso pode se tornar uma catástrofe.
-----------
Isso é o que eu acho que vai ser o começo do meu texto final. Acho que as idéias já estão todas aí, só preciso convencer as pessoas delas e mostrar onde elas estão na nossa vida — ah, é, e juntar com sustentabilidade que é o tema do ensaio oO
É claro que não posso falar contra a classificação em si. A vida seria muito diferente de não tentássemos sempre separar as coisas; pode-se dizer que sem classificação não há linguagem, pois o que é uma palavra senão um limite entre o que ela significa e tudo o que ela não significa? Na verdade todo signo é definido por seus limites — sem limites não há signos, e sem signos não há comunicação. Precisamos separar as coisas, o seco do molhado, o vivo do morto, o quente do frio, o verde do amarelo e do azul e do vermelho e do branco... Quando separamos criamos classes, fôrmas nas quais podemos encaixar o que percebemos do mundo. Associamos a essas classes tudo o que conhecemos sobre as coisas que se encaixam nela, e assim quando conhecemos uma coisa nova, se conseguimos encaixá-la em uma classe, passamos a saber imediatamente uma porção de coisas sobre ela. É claro que o sistema não é perfeito: sempre vão haver coisas que não se encaixam nas classes que conhecemos, para os quais temos que imaginar classes novas, e muitas coisas vão apenas parecer se encaixar, o que frequentemente vai fazer com que acreditemos saber coisas que depois se mostrarão erradas. Ou não — podemos continuar acreditando indefinidamente em algo que não está de acordo com a realidade. Essa insegurança na adequação das classes é um pilar fundamental na procura do conhecimento, especialmente no método científico. Podemos viver a vida inteira acreditando na coisa errada, mas precisamos estar prontos para que a qualquer momento nossas convicções sejam abaladas. Quando encontramos coisas que não se encaixam em nossa classificação, precisamos estar pronto para mudá-la, ou teremos erros e incoerências na nossa concepção do mundo; ou ainda, teremos que ignorar as informações que não se encaixam, limitando o aprendizado.
Ignorar as informações que recebemos, ou seja, impedir que adquiramos conhecimento, para manter a coerência do modelo, é um problema sério. Mas nós não somos apenas receptores desinteressados, como câmeras de segurança que apenas gravam tudo o que passar a sua frente e cujas imagens podem apenas ser interpretadas depois. Nós somos seres atuantes no mundo, e nosso olhar também é ativo. Quando temos fé demais em nosso modelos, somos capazes de deixar de enxergar qualquer coisa que não esteja classificada, e isso é um problema muito maior. E quando dependemos demais de nossos modelos, podemos acabar modificando o mundo ao nosso redor para que possamos compreendê-lo — e isso pode se tornar uma catástrofe.
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Isso é o que eu acho que vai ser o começo do meu texto final. Acho que as idéias já estão todas aí, só preciso convencer as pessoas delas e mostrar onde elas estão na nossa vida — ah, é, e juntar com sustentabilidade que é o tema do ensaio oO
introverted intuitive feeling perceiving
De tempos em tempos eu acho esse resultado de teste junguiano de internet guardado no meu hd e sempre, sempre me surpreendo com como ele me parece acertado. oO''
INFP
creative, smart, idealist, loner, attracted to sad things,
disorganized, avoidant, can be overwhelmed by unpleasant feelings,
prone to quitting, prone to feelings of loneliness, _ambivalent of the
rules_, solitary, *daydreams about people to maintain a sense of
closeness*, focus on fantasies, acts without planning, low self
confidence, emotionally moody, can feel defective, _prone to
lateness_, likes esoteric things, wounded at the core, feels shame,
frequently losing things, prone to sadness, prone to dreaming about a
rescuer, disorderly, observer, easily distracted, does not like
crowds, can act without thinking, private, can feel uncomfortable
around others, familiar with the darkside, hermit, more likely to
support marijuana legalization, can sabotage self, _likes the rain_,
sometimes can't control fearful thoughts, prone to crying, prone to
regret, attracted to the counter culture, can be submissive, prone to
feeling discouraged, frequently second guesses self, not punctual, not
always prepared, can feel victimized, prone to confusion, prone to
irresponsibility, can be pessimistic
Por outro lado me assusta um pouco como ele enfatiza só os lados negativos. Acho que esse é o retrato de mim adolescente e depressiva lol. Hoje em dia eu ainda sou tudo mas sob uma armadura de determinação e loucura O.o E amor, eu acho.
INFP
creative, smart, idealist, loner, attracted to sad things,
disorganized, avoidant, can be overwhelmed by unpleasant feelings,
prone to quitting, prone to feelings of loneliness, _ambivalent of the
rules_, solitary, *daydreams about people to maintain a sense of
closeness*, focus on fantasies, acts without planning, low self
confidence, emotionally moody, can feel defective, _prone to
lateness_, likes esoteric things, wounded at the core, feels shame,
frequently losing things, prone to sadness, prone to dreaming about a
rescuer, disorderly, observer, easily distracted, does not like
crowds, can act without thinking, private, can feel uncomfortable
around others, familiar with the darkside, hermit, more likely to
support marijuana legalization, can sabotage self, _likes the rain_,
sometimes can't control fearful thoughts, prone to crying, prone to
regret, attracted to the counter culture, can be submissive, prone to
feeling discouraged, frequently second guesses self, not punctual, not
always prepared, can feel victimized, prone to confusion, prone to
irresponsibility, can be pessimistic
Por outro lado me assusta um pouco como ele enfatiza só os lados negativos. Acho que esse é o retrato de mim adolescente e depressiva lol. Hoje em dia eu ainda sou tudo mas sob uma armadura de determinação e loucura O.o E amor, eu acho.
Droga
Me parece que postar minhas idéias neste blog foi inadequado. Não consegui nenhuma resposta e continuo com tanta dificuldade para escrever quanto antes. Eu nunca achei que fosse conseguir entregar no prazo, que foi hoje, mas estou ficando meio nervosa com a situação. Digo, muito nervosa.
terça-feira, 15 de dezembro de 2009
LACKADAISY
Outra leitura
Pensando bem, acho que o que nos leva a separar e dividir tanto as coisas não é a megalomania de querer controlar tudo, e sim a megalomania de tentar entender tudo. Ou talvez os dois.
Por que tem que haver diferença entre o que se deve fazer e o que se deve fazer? Por que a humanidade não pode fazer parte da natureza? Por que tem que haver divisão entre as ciências?
Não conseguimos entrar em acordo com o mundo. Uma hora é ele que nos agride, outra nós é que o agredimos. Mas será que não é assim mesmo? Nos limites da nossa capacidade de ver o mundo está a possibilidade de que sejamos apenas uma espécie animal, e também a possibilidade de que não seja necessário compreender o mundo em absoluto. Por que exigimos isso de nós mesmos?
Não consigo avançar no raciocínio, e isso está me deixando louca. Como vou Escrever um texto sobre isso?
No início eu queria apenas explicar que a separaçào entre as coisas, mesmo a própria divisão conceitual, gera um exagero de custos e danos para nós mesmos, para o meio ambiente, para nossa cultura. Mas não consigo parar de me perguntar por que isso acontece. Eu preciso parar pra pensar mas eu não tenho tempo.
Mas de fato a secessão gera custos, não? Porque como achamos que as coisas são diferentes, temos que criar modos diferentes de lidar com elas. Acho que é esse o coração do meu argumento. Não é como se estivéssemos tentando nos livrar das coisas que não nos são diretamente úteis, na verdade, estamos tentado colocá-las no que consideramos seus devidos lugares. Crescemos ouvindo de nossos pais que existe uma hora e um lugar para cada coisa. Mas colocar cada coisa em seu lugar significa que cada coisa tem que ser tratada de forma diferente. Assim, da mesma forma que não podemos ter um macaco de estimação, porque ele é um animal selvagem e não doméstico, não podemos ter plantas selvagens nas nossas praças nem hortas em nossos telhados?(*)
5. Cidade - Você já passou pela experiência de morar num bairro residencial, que não tem padarias nem supermercados? A organização urbana desta cidade funciona assim: há um lugar para se morar, um lugar para se consumir, um lugar para se produzir e um lugar para se trabalhar em escritórios. Se a sua empresa precisa de um prédio de escritórios e de uma fábrica, eles podem ficar a vários quilômetros de distância um do outro. Num bairro residencial, você pode ter que dirigir por dezenas de minutos ou pegar mais de um ônibus para ir ao trabalho ou comprar suprimentos para suas necessidades básicas. Isso significa gasto de dinheiro, tempo e combustível, aumento de stress, do trânsito, e da emissão de poluentes. Isso poderia ser facilmente resolvido se lotes de diferentes funções fossem dispostos próximos um ao outro, por exemplo, se houvessem padarias em todos os bairros residenciais.
A questão das fábricas é complicada porque elas produzem muita poluição e muito barulho, o que quer dizer que nada vai se dar bem perto delas. A solução usual é agrupá-las todas num lugar e deixar os funcionários, as famílias dos funcionários e tudo o mais que tiver tido o azar de viver perto dali sofrerem as conseqüências sozinhos. A idéia claramente é a de que podemos resolver o problema isolando ele e pondo um monte de espaço vazio, ou pelo menos espaço desvalorizado, em volta. Acreditamos que podemos fazer qualquer tipo de agressão se ela tiver espaço para se dispersar antes de atingir o ambiente em volta. Mas, se for assim, os industriais não deveriam ter que comprar toda a terra afetada em volta deles, já que estão assumindo responsabilidade pela poluição dela? Será que não faria mais sentido garantir que eles fizessem pouco barulho e pouca sujeira, da mesma forma que o comércio e a moradia?
Aliás, por que não podemos ter macacos de estimação? O que torna os cachorros, gatos, jabutis, pequenos roedores e passarinhos tão diferentes dos outros animais? Alguns animais não são adotados por famílias simplesmente proque são fortes e perigosos demais como onças e lobos. Outros porque são muito grandes, como elefantes e vacas. Mas outros simplesmente são considerados selvagens, e isso é motivo suficiente para que você não possa ter um em casa. Sabe, em alguns casos não tem nada a ver com o que é melhor para quem. É só a idéia que fazemos de qual é o lugar certo de cada coisa. Por exemplo, aqui em casa de tempos em tempos surgem mariposas de quinze a vinte centímetros de envergadura, e toda vez que elas surgem, fico paralisada, sem saber o que fazer com ela. Estou no meio de São Paulo, eu penso, não deveria haver mariposas desse tamanho! Também não deveria haver uma população de capivaras vivendo muito bem obrigado nas margens do Pinheiros. E aí? Nós lidamos com gatos e cachorros ora como se fossem animais adoráveis ora como pragas, mas ficamos apenas confusos com a existência de outros animais grandes na cidade. Eles estão em toda parte à nossa volta, pássaros de todo tipo, corujas, capivaras, ratos grandes e pequenos, insetos de todos os tamanhos, sapos, aranhas, esquilos, micos, mas na maior parte do tempo não os vemos, e quando os vemos é com aquela relutância de quem não pode compreender a existência dessas criaturas "selvagens" na nossa cidade. É claro, esperamos que eles fiquem restritos a parques, jardins, bosques, áreas abandonadas. Mas, da mesma forma que o barulho das fábricas, esses animais fazem parte da cidade. Porque a cidade, ao contrário do que dizemos, não é um reduto da civilização separado da "natureza". Nós não somos nada diferente deles. A cidade é parte do mundo, é também "natureza".
(*) Em Hong Kong, o problema da alimentação foi enfrentado com hortas nos telhados dos prédios. Foi uma solução muito eficiente, especialmente na parte de transporte, mas que parece inconcebível para a maior parte das pessoas no mundo.
Por que tem que haver diferença entre o que se deve fazer e o que se deve fazer? Por que a humanidade não pode fazer parte da natureza? Por que tem que haver divisão entre as ciências?
Não conseguimos entrar em acordo com o mundo. Uma hora é ele que nos agride, outra nós é que o agredimos. Mas será que não é assim mesmo? Nos limites da nossa capacidade de ver o mundo está a possibilidade de que sejamos apenas uma espécie animal, e também a possibilidade de que não seja necessário compreender o mundo em absoluto. Por que exigimos isso de nós mesmos?
Não consigo avançar no raciocínio, e isso está me deixando louca. Como vou Escrever um texto sobre isso?
No início eu queria apenas explicar que a separaçào entre as coisas, mesmo a própria divisão conceitual, gera um exagero de custos e danos para nós mesmos, para o meio ambiente, para nossa cultura. Mas não consigo parar de me perguntar por que isso acontece. Eu preciso parar pra pensar mas eu não tenho tempo.
Mas de fato a secessão gera custos, não? Porque como achamos que as coisas são diferentes, temos que criar modos diferentes de lidar com elas. Acho que é esse o coração do meu argumento. Não é como se estivéssemos tentando nos livrar das coisas que não nos são diretamente úteis, na verdade, estamos tentado colocá-las no que consideramos seus devidos lugares. Crescemos ouvindo de nossos pais que existe uma hora e um lugar para cada coisa. Mas colocar cada coisa em seu lugar significa que cada coisa tem que ser tratada de forma diferente. Assim, da mesma forma que não podemos ter um macaco de estimação, porque ele é um animal selvagem e não doméstico, não podemos ter plantas selvagens nas nossas praças nem hortas em nossos telhados?(*)
5. Cidade - Você já passou pela experiência de morar num bairro residencial, que não tem padarias nem supermercados? A organização urbana desta cidade funciona assim: há um lugar para se morar, um lugar para se consumir, um lugar para se produzir e um lugar para se trabalhar em escritórios. Se a sua empresa precisa de um prédio de escritórios e de uma fábrica, eles podem ficar a vários quilômetros de distância um do outro. Num bairro residencial, você pode ter que dirigir por dezenas de minutos ou pegar mais de um ônibus para ir ao trabalho ou comprar suprimentos para suas necessidades básicas. Isso significa gasto de dinheiro, tempo e combustível, aumento de stress, do trânsito, e da emissão de poluentes. Isso poderia ser facilmente resolvido se lotes de diferentes funções fossem dispostos próximos um ao outro, por exemplo, se houvessem padarias em todos os bairros residenciais.
A questão das fábricas é complicada porque elas produzem muita poluição e muito barulho, o que quer dizer que nada vai se dar bem perto delas. A solução usual é agrupá-las todas num lugar e deixar os funcionários, as famílias dos funcionários e tudo o mais que tiver tido o azar de viver perto dali sofrerem as conseqüências sozinhos. A idéia claramente é a de que podemos resolver o problema isolando ele e pondo um monte de espaço vazio, ou pelo menos espaço desvalorizado, em volta. Acreditamos que podemos fazer qualquer tipo de agressão se ela tiver espaço para se dispersar antes de atingir o ambiente em volta. Mas, se for assim, os industriais não deveriam ter que comprar toda a terra afetada em volta deles, já que estão assumindo responsabilidade pela poluição dela? Será que não faria mais sentido garantir que eles fizessem pouco barulho e pouca sujeira, da mesma forma que o comércio e a moradia?
Aliás, por que não podemos ter macacos de estimação? O que torna os cachorros, gatos, jabutis, pequenos roedores e passarinhos tão diferentes dos outros animais? Alguns animais não são adotados por famílias simplesmente proque são fortes e perigosos demais como onças e lobos. Outros porque são muito grandes, como elefantes e vacas. Mas outros simplesmente são considerados selvagens, e isso é motivo suficiente para que você não possa ter um em casa. Sabe, em alguns casos não tem nada a ver com o que é melhor para quem. É só a idéia que fazemos de qual é o lugar certo de cada coisa. Por exemplo, aqui em casa de tempos em tempos surgem mariposas de quinze a vinte centímetros de envergadura, e toda vez que elas surgem, fico paralisada, sem saber o que fazer com ela. Estou no meio de São Paulo, eu penso, não deveria haver mariposas desse tamanho! Também não deveria haver uma população de capivaras vivendo muito bem obrigado nas margens do Pinheiros. E aí? Nós lidamos com gatos e cachorros ora como se fossem animais adoráveis ora como pragas, mas ficamos apenas confusos com a existência de outros animais grandes na cidade. Eles estão em toda parte à nossa volta, pássaros de todo tipo, corujas, capivaras, ratos grandes e pequenos, insetos de todos os tamanhos, sapos, aranhas, esquilos, micos, mas na maior parte do tempo não os vemos, e quando os vemos é com aquela relutância de quem não pode compreender a existência dessas criaturas "selvagens" na nossa cidade. É claro, esperamos que eles fiquem restritos a parques, jardins, bosques, áreas abandonadas. Mas, da mesma forma que o barulho das fábricas, esses animais fazem parte da cidade. Porque a cidade, ao contrário do que dizemos, não é um reduto da civilização separado da "natureza". Nós não somos nada diferente deles. A cidade é parte do mundo, é também "natureza".
(*) Em Hong Kong, o problema da alimentação foi enfrentado com hortas nos telhados dos prédios. Foi uma solução muito eficiente, especialmente na parte de transporte, mas que parece inconcebível para a maior parte das pessoas no mundo.
If you steal from several...
segunda-feira, 14 de dezembro de 2009
Template II
Este template tem um subtítulo bizarro.
Eu descobri rapidamente que não suporto aquele modelo da Toca por mais que ele seja lindo. Vi que tinha este outro guardado aqui e resolvi experimentar. Obviamente ele é muito, muito mais alegre que o anterior. Não lembro em que época da minha vida eu usei isto. É estranho.O que eu gostava naquele template "ashkar zbol" (que é um template de luto, não se engane) é que os links visitados desapareciam. Eu achava isso extremamente bonito. Claro que era um problema se você quisesse acessar um mesmo site duas vezes, mas acho que era um problema fútil que se compensava pela beleza dos links entremeados de vazios. Durante algum tempo eu inclusive escrevi em preto sobre preto. Foi uma época triste, mas bela. Fiquei feliz quando acabou, quando pude mudar de blog, de nome, de vida. Por algum tempo tudo foi muito diferente.
Sonho revelador
Tive um sonho hoje. Quer dizer, tive muitos sonhos, mas quero falar sobre um só. Os outros sonhos, bem, não escolhi lembrar deles, sabe? Não foram especialmente relevantes, foram só... sonhos. Desses que a gente tem à noite.
O que quero contar do meu sonho foi uma parte em que nos deparamos com um monstro mecânico, um clank ou um robô. Ele tinha a forma e o comportamento de um animal (eu acho) e era tão interessante quanto um animal verdadeiro. Eu não conseguia tirar os olhos dele: queria decifrá-lo, entender como suas peças se encaixavam, ler seu código-fonte, entender como ele fora feito! Enquanto todas as outras pessoas (eram meus amigos/família, ou seja, Ugo, Marco, Poro, Mãe, não sei bem quem porque tinha muita gente) queriam seguir em frente naquela espécie de Dungeon Sci-Fi de onde estávamos tentando sair (acho que tirei a imagem de Tales of Symphonia), eu queria parar e estudar aquela criatura mecânica. Então, alguém me disse que, se aquilo era tão importante assim pra mim, eu deveria largar o design e ir estudar Engenharia Mecatrônica, que tem como subárea a Robótica. Na hora isso foi uma revelação, todas as minhas dúvidas desapareceram e eu fiquei feliz de saber que eu tinha uma vocação a buscar.
Enfim. Eu detesto sonhos-revelação porque na hora eles são extasiantes mas quando você acorda e pensa direito, vê que nenhuma das suas dúvidas foi sequer comentada no sonho. O que parece óbvio no sonho em geral parece estúpido no Mundo Acordado. Eu realmente prefiro realidade-revelação. Epifanias reais. Daquele tipo que não existe.
Mas, como diria o Ringo, "nothing ever happens to me".
PS.: Eu realmente estava considerando fazer engenharia mecatrônica. É claro! Combinar mecânica e eletrônica, que são coisas que eu sempre quis dominar apesar da minha ignorância total em relação a ambas, com programação, que é uma coisa que me apaixonou instantâneamente? Não parece uma resposta de sonho? Bem, justamente, parece o tipo de coisa que é feita de sonhos mesmo, e eu tenho mêdo de que uma carreira nessa área envolveria um conhecimento porco de mecânica, um conhecimento porco de eletrônica, um conhecimento porco de (controle e automação) programação (eu conheço a Poli, eu sei como as coisas podem ser porcas por lá) e muitas, mas muitas horas mesmo de trabalho ingrato, provavelmente sem nenhum apoio moral ou intelectual bem como é no Design. Eu não quero ter matérias ruins e muita exigência. Claro que parte de mim tem esperança de que eles sigam o mesmo preceito daquele curso absurdo e robado que o Diogo faz: pra aprender sobre várias áreas e não virar um generalista porco, você tem que ter três vezes mais matéria no total que uma pessoa normal. Outra coisa que me ocorre é que talvez o fato de eu me interessar por mecânica, eletrônica e computação seja um bom motivo pra eu fazer um curso técnico mas um mai motivo pra fazer uma faculdade.
Mas como qualquer coisa me parece melhor que o meu curso, eu provavelmente vou mudar pra uma dessas áreas.
O que quero contar do meu sonho foi uma parte em que nos deparamos com um monstro mecânico, um clank ou um robô. Ele tinha a forma e o comportamento de um animal (eu acho) e era tão interessante quanto um animal verdadeiro. Eu não conseguia tirar os olhos dele: queria decifrá-lo, entender como suas peças se encaixavam, ler seu código-fonte, entender como ele fora feito! Enquanto todas as outras pessoas (eram meus amigos/família, ou seja, Ugo, Marco, Poro, Mãe, não sei bem quem porque tinha muita gente) queriam seguir em frente naquela espécie de Dungeon Sci-Fi de onde estávamos tentando sair (acho que tirei a imagem de Tales of Symphonia), eu queria parar e estudar aquela criatura mecânica. Então, alguém me disse que, se aquilo era tão importante assim pra mim, eu deveria largar o design e ir estudar Engenharia Mecatrônica, que tem como subárea a Robótica. Na hora isso foi uma revelação, todas as minhas dúvidas desapareceram e eu fiquei feliz de saber que eu tinha uma vocação a buscar.
Enfim. Eu detesto sonhos-revelação porque na hora eles são extasiantes mas quando você acorda e pensa direito, vê que nenhuma das suas dúvidas foi sequer comentada no sonho. O que parece óbvio no sonho em geral parece estúpido no Mundo Acordado. Eu realmente prefiro realidade-revelação. Epifanias reais. Daquele tipo que não existe.
Mas, como diria o Ringo, "nothing ever happens to me".
PS.: Eu realmente estava considerando fazer engenharia mecatrônica. É claro! Combinar mecânica e eletrônica, que são coisas que eu sempre quis dominar apesar da minha ignorância total em relação a ambas, com programação, que é uma coisa que me apaixonou instantâneamente? Não parece uma resposta de sonho? Bem, justamente, parece o tipo de coisa que é feita de sonhos mesmo, e eu tenho mêdo de que uma carreira nessa área envolveria um conhecimento porco de mecânica, um conhecimento porco de eletrônica, um conhecimento porco de (controle e automação) programação (eu conheço a Poli, eu sei como as coisas podem ser porcas por lá) e muitas, mas muitas horas mesmo de trabalho ingrato, provavelmente sem nenhum apoio moral ou intelectual bem como é no Design. Eu não quero ter matérias ruins e muita exigência. Claro que parte de mim tem esperança de que eles sigam o mesmo preceito daquele curso absurdo e robado que o Diogo faz: pra aprender sobre várias áreas e não virar um generalista porco, você tem que ter três vezes mais matéria no total que uma pessoa normal. Outra coisa que me ocorre é que talvez o fato de eu me interessar por mecânica, eletrônica e computação seja um bom motivo pra eu fazer um curso técnico mas um mai motivo pra fazer uma faculdade.
Mas como qualquer coisa me parece melhor que o meu curso, eu provavelmente vou mudar pra uma dessas áreas.
Natureza, Conflito, Diferença de potencial
Aquela discussão acabou se desvirtuando um pouco, então vou tentar começar de novo.
Como eu estava dizendo, muito do nosso conflito interno vem da dificuldade em encontrar limites entre nosso poder e nossa impotência. Individualmente, isso é uma questão de análise psicológica, frustrações pessoais e inspiranção para blogueiros. Na escala social, isso tem implicações políticas.
Diversas sociedades tiveram bem menos problemas em relação a isso que a nossa. Algumas pessoas simplesmente esperaram menos da vida. Outras esperaram menos de si mesmas. Outras acreditaram fervorosamente no Destino, nas Regras e nas Funções Sociais. Um grande número delas foi prepotante o suficiente para achar que deveriam resolver o problema definindo que podiam tudo, e tentando controlar todas as variáveis do sistema. Isso é de uma estupidez sem tamanho, é claro, e também é o que tentamos fazer, como um grupo, na maior parte dos casos.
O coração dessa tática é desenvolver uma Ordem meticulosa. Se tudo estiver organizado e indexado, então pode ser controlado. Nós podemos lidar com coisas indexadas e organizadas, não importa o quão terríveis pareçam. O trovão é uma coisa terrível, mas se temos um artigo na enciclopédia explicando como ele funciona e pra que ele serve, não precisamos ter mêdo dele. A Ordem serve para nos proteger do Desconhecido. Conhecimento significa Segurança. Mas a verdade é que não podemos lutar contra a Entropia. Nós tentamos enfrentá-la dando um nome a ela, explicando-a inclusive fisicamente. Mas toda vez que pensamos nela ficamos desarmados. Sabemos que mesmo quando estamos organizando nosso sistema, nos bastidores estamos desorganizando o universo.
Péraí, eu estou ficando com sono e perdendo o foco.
A questão é...
As pessoas têm essa idéia de que organizar é separar as coisas. Juntar as coisas parecidas e separar as diferentes. Isso me lembra minha mãe arrumando meu quarto; ela empilha tudo o que tiver formato mais ou menos A4 e põe os copos de um lado, os livros de outro, os brinquedos em cima da estante, etc. O quarto fica parecendo arrumado (faz anos que ela não faz isso) mas não faz nenhum sentido prático. Eu não vou dizer que eu consigo usar meu quarto com eles do jeito que está, mas eu também não consigo usá-lo com as coisas todas empilhadas e agrupadas por formato. Acho que estou perdendo o foco de novo.
Vou dar uma série de exemplos sem pensar muito.
1. Carinho - uma divisão que é estremamente curiosa é entre os tipos de relações pessoais. Tenho discussões intermináveis com muita gente sobre esse assunto. Outro dia tive uma conversa mais ou menos assim (resumindo):
— Interesse romântico impede uma amizade. Não dá pra ser amigo de alguém que você quer pegar.
— No meu caso, acho mais fácil fazer amizade com alguém que eu queira pegar.
— Não dá. Sabe, com meus amigos eu posso dizer o que eu quiser e falar não pra eles sem problemas. Mas num namoro ou num flerte, cada coisa adquire um significado, tem um monte de outras questões, um monte de coisas que você espera e quer daquela pessoa e vice-versa, não dá pra ter uma amizade de verdade.
— Mas seus amigos também não exigem e esperam coisas de você? Talvez eu nunca tenha tido uma amizade como essas que você tem. Acabo tratando meus amigos da mesma forma que trato meu namorado, é quase a mesma coisa.
— Acho que você nunca teve, mesmo. E eu nunca tive um namoro como os seus.
Essas conversas me intrigam muito. Preciso pensar sério sobre isso. Nessa mesma conversa eu defini um namorado como "seu melhor amigo que você quer pegar". Parte de mim acha que todas essas divisões são fúteis, que os próprios relacionamentos são fúteis, mas parte de mim acha que eles facilitam algumas coisas.
2. Hobbies - Uma coisa problemática é a divisão entre Trabalho e Lazer. É contraproducente, não faz o menor sentido prático ou filosófico, é antiadaptativo, é estressante, entretanto está profundamente arraigada na nossa cultura. Admite-se a possibilidade de um trabalho que dê prazer, mas tem que ser o trabalho certo, a sua vocação, aquela coisa para a qual você foi feito ou na qual você pode usar todo o seu potencial, ou então alguma "profissão de viadinho", provavelmente alguma coisa da área de artes. Eu acho ridículo tanto imaginar que você vai ser infeliz trabalhando com algo que não seja seu Destino quanto que você vai ser feliz Quando Encontrar Sua Vocação. Sabe, eu não quero ser um personagem de Dungeons and Dragons, por mais interessantes que sejam as Classes no mundo real. Por que meu trabalho tem que ser fonte de dor e sofrimento? Porque meus deveres não podem ser também meus prazeres? Existe algo intrínseco a isso que impede? Outra derivação vil essa divisão é que se considera que uma coisa é ou útil, ou decorativa, ou um brinquedo. A bicibleta por exemplo em São Paulo não é respeitada porque é considerada um brinquedo, um veículo de lazer. É difícil encontrar bicicletas feitas para andar na rua. Algumas pessoas não conseguem conceber a idéia da bicicleta como meio de transporte.
3. Política - no banheiro da fau, em algum lugar, tem uma discussão muito velha e apagada; quando eu a li pela primeira vez o começo já fora totalmente apagado, mas dava para ler um trecho que dizia "... confundir conteúdo político com carência afetiva ...". Esse trecho estava sublinhado e alguém puxara uma flecha e escrevera: "então a felicidade individual está dissociada daquela que é coletiva!". Há muitos comentários ao redor ridicularizando essa ressalva, mas eu sempre achei essa particularmente inteligente. Por que não pensar a carência afetiva do ponto de vista político, sabe? Ok, eu não sei qual o contexto da frase, talvez fosse mesmo nada a ver, mas, do jeito que está hoje, me parece uma conclusão perfeitamente lógica! Se as reivindicações políticas de um indivíduo ou de um grupo são ridicularizadas só porque surgem de conflitos emocionais, então, certamente, o ridículo é considerar que os problemas pessoais são de importância coletiva. Mas por que não seriam? Se as pessoas sofrem com a situação em que estão, não é seu direito querer uma mudança?
4. Agricultura - E porque são necessários muros tão altos entre a Natureza e a Civilização? Só consigo ver absurdos nessa rixa. Existe uma série de plantas perfeitamente legais que a gente não só não cultiva como tenta confinar a "áreas de preservação", que são mais ou menos como guetos para plantas rejeitadas. O modelo dominante da agricultura é a monocultura intensiva-extensiva, cujo princípio é eliminar do sistema tudo o que não seja indispensável para o produto final e desenvolver a produção para que o máximo possa ser feito no mínimo de espaço, esgotando daquele espaço recursos muito específicos, e como segue o paradigma de que a diversificação é apenas uma divisão de esforços que tira potência, isso é replicado extensivamente, vide soja, cana, gado, café e eucalipto no Brasil. Aliás, vide hidrelétricas também — nosso método é sempre concentrar, potencializar, dividir e classificar. O natural (o que nós consideramos natural) é o oposto: misturar, competir, invadir, trocar. Nossa agricultura depende se um poderoso sistema de transporte de água, energia, produção, fertilização. De um lado tiramos da terra, de outro lado acrescentamos a ela, criamos com isso uma tensão constante, assim se produz trabalho, se gasta energia, se desorganiza o universo para organizar o sistema. O mundo estará sempre inevitavelmente tentando invadir nosso sistema, e nós estaremos lutando constra ele. Mas há outros modos. Há como aliviar a tensão diminuindo as distâncias, as diferenças e a agressão.
domingo, 13 de dezembro de 2009
Potencial e Escolha
Um dos trabalhos que estou fazendo é um ensaio com tema Sustentabilidade. Eu detesto esse tema, detesto a forma como ele foi imposto a nós desde que inventaram o termo, como o estudamos na escola na época em que nossos pais nem haviam ouvido falar nisso, em como se prega, estúpida e acríticamente, que ele é mais importante que quase tudo o mais. Em como se fala merda sobre isso. Em como as discussões sobre isso são irritantemente hipócritas. Então eu resolvi falar sobre outra coisa, disfarçadamente. Estou, digamos, tentando elaborar o tema. Tenho muita dificuldade com isso. Vou deixar aqui alguns pensamentos preliminares.
Acho que o nosso problema com o mundo é... ok, esse é um jeito péssimo (péssimo, eu digo!) de começar uma discussão. Mas eu acho que há uma série de problemas na forma como a gente pensa o mundo. Sério. Nossa visão de mundo, como é natural, se estrutura sobre o conflito fundamental entre o nosso poder e a nossa impotência. Qualquer livro de auto-ajuda, dicionário de pérolas da sabedoria ou coleção de filosofia em algum momento passa por frases como:
"É preciso convicção para mudar o que está errado, paciência para se agüentar o que não se pode mudar e sabedoria para saber a diferença." (ok, eu inventei o é preciso pra cada coisa pq eu não me lembro do original — costumava receber dezenas de frases desse tipo naqueles ppts da época de ouro das correntes de e-mail (sim, aqueles com fotos bonitinhas e ditados espirituosos))
e
"O ser humano vive cavalgando com cada pé sobre um cavalo: um é o cavalo do Destino, outro do Livre-Arbítrio. A chave é saber diferenciá-los, saber em que devemos investir nossos esforços e contra o que devemos parar de lutar, pois está fora de nosso controle." (eu não me lembro da frase exata, mas juro que tem algo com esse sentido escrito num dos top 10 livros de auto-ajuda na matéria da Veja)
De fato existem coisas que podemos fazer e coisas que podemos não fazer. Mas o que define a diferença entre elas? Será que a maior diferença entre uma coisa e outra não é justamente o fato de querermos ou não fazê-las? Eu não acho que seja possível saber se uma coisa está ou não dentro de nossos limites enquanto não chegarmos nesses limites, e isso significaria se esforçar ao máximo para conseguir chegar a esse objetivo. O problema é que nossa avaliação de se devemos ou não fazer alguma coisa depende em parte de se nosso esforço vai gerar resultado ou não, e se esse resultado vai ser suficiente para compensar o esforço. Essa é uma informação que em um grande número de casos está muito, mas muito distante do nosso alcance (na maior parte dos outros casos ainda está um pouquinho além do nosso alcance) mas como somos todos naturalmente otimistas (eu posso usar como axioma que todo mundo é naturalmente otimista?) — ou talvez naturalmente orgulhosos — sempre achamos que se realmente nos empenhássemos em alguma empreitada, ela seria bem sucedida, com certeza. Eu vou reescrever esse parágrafo de uma forma mais organizada:
Não temos como saber com certeza se somos ou não capazes de realizar qualquer coisa. Na maior parte dos casos, não temos a menor idéia disso. Porém — talvez porque nossa cultura, a sociedade e nós mesmos exijamos sempre que sejamos o melhor que pudermos ser, e, considerando que não temos a menor idéia de quão bons podemos ser, isso significa grosso modo o melhor que podemos imaginar — nós tendemos a achar que podemos realizar qualquer coisa.
Mas é claro que não podemos. A contradição está logo dentro do raciocínio: poderíamos realizar qualquer coisa se nos dedicássemos intensivamente a isso e se tivéssemos a capacidade para isso. Consideremos que todo mundo tenha todas as capacidade básicas, ainda assim não poderíamos nos dedicar a todas as coisas que queiramos fazer. Tentar fazer todas as coisas que se quer levaria inevitavelmente ao fracasso, segundo esse raciocínio. Escolher um determinado caminho e abdicar dos outros também não é muito melhor porque, no fundo, cada um de nós sabe que poderia fazer muito melhor do que o que está sendo feito hoje em dia em quase qualquer situação (isso é a primeira decorrência lógica dos nossos axiomas), e isso significa que cada renúncia é um peso terrível, o de estar abdicando de uma façanha incrível que eu certamente poderia realizar.
Eu estou achando muito difícil me expressar hoje, estou repetindo as coisas como um bêbado. O que eu quero dizer, na verdade, é que faz todo sentido achar que você é capaz de salvar o mundo e resolver tudo o que está de errado. Mas isso não quer dizer que isso seja possível. As fronteiras entre o que podemos e o que não podemos fazer estão nas nossas escolhas e nas escolhas dos outros sobre nós — e naquelas coisas que chamamos de acaso e destino. Não são coisas que podemos ver, não são caminhos traçados na terra que podemos seguir ou não seguir. São mais picadas e trilhas que fazemos caminhando, e que podem dar em qualquer lugar. Não, é pior que isso: não existe um caminho, não existe ir, seguir, voltar. O que podemos fazer é o que fazemos, não podemos fazer nada até que façamos algo.
A questão é: eu devo achar que posso tudo, ou que não posso nada? Uma pessoa que se acha capaz de tudo, se for uma pessoa minimamente idealista, vai se afogar em culpa por não fazer todas as mil coisas que ela deve fazer e pode fazer bem; mas uma pessoa que se considera incapaz vai se sentir um merda e ficar deprimido, ou virar uma daquelas pessoas que riem amarelo de si mesmas e que fazem os outros se sentirem desconfortáveis com algo entre dó e desprezo. Na verdade, as pessoas mais felizes e agradáveis provavelmente são aquelas que não pensam nisso, não questionam suas escolhas, simplesmente são e fazem e pronto. As pessoas mais interessantes são aquelas que conseguem pensar nisso de vez em quando.
Template
Este template tem um subtítulo muito mais legal.
Eu estava editando umas coisas no meu blog e decidi ver o que acontece se eu retornar ao modelo antigo da Toca da Lôba. Foi uma esperiência muito estranha. O mais estranho foi reparar como o jeito como eu escrevo e a configuração dos meus textos não faz mais sentido com esse template antigo. Quando leio os textos antigos que ainda estão na Toca, acho tudo muito lindo. Até os nomes dos posts nos Ecos se encaixam de uma forma interessante. Mas quando aplico o template a este Blog, não faz sentido. Tenho notado que muitos dos meus posts antigos também só ficavam agradáveis de se ler no template original em que foram compostos. É curioso entender como essas coisas fazem diferença. Acho que eu entendo porque eu mudei de template.
Também é meio engraçado notar os links como estão diferentes! A maior parte desses lugares aí nem existem mais! Alguns deles já haviam deixado de fazer sentido havia muitos anos quando eu abandonei esse template. Curioso. Também é curioso que eu só tenha tido vontade de guardar dois dos muitos templates que criei para a Toca. Mostro o outro quem sabe semana que vem. Nem sei como ele é! E depois vou voltar ao que estava antes, que apesar de tudo faz muito mais sentido hoje em dia.
Nota: este template usa os comentários do haloscan, não do blogger. Preciso dar um jeito de fazer com que os dois apareçam num mesmo template, mas ainda não sei como. Agora, não dá para ler os comentários feitos ontem por exemplo. E quando eu voltar para o modelo normal não vou poder ler os comentários feitos hoje.
sexta-feira, 11 de dezembro de 2009
Denise (mas não só)
Sei às vezes que a melhor parte de nós é aquela que mesmo nós não conhecemos. Aquela parte oculta. Imaginamos durante toda vida uma forma de chegar até essa reserva de nós que está fora de nosso alcance. Tentamos tudo, procuramos resolutos o portão despercebido que nos leva ao jardim secreto de nós mesmos.
Imagina como seria esse jardim se fosse povoado e habitado como as nossas outras construções, se fosse limpo e asseado com manutenção constante? Imagino esse lugar drenado de todas as marcas de seu abandono, imagino esse lugar sendo apenas uma parte de mim pela qual eu passo sem olhar. A beleza mesmo está nessa vegetação selvagem que nasce sobre uma camada sedimentar de mistério. A beleza são os fantasmas, a vida que povoa o desconhecido. A beleza é os monstros marinhos que figuram nas bordas dos mapas das grandes navegações. Eu busco aquele lugar inseguro, aquele lugar invisito, um lugar onde Há Dragões.
E como chegar a ele, quando não pisamos num solo envolto nas pegadas de um Deus Desconhecido?
Eu o procuro através das pessoas. Das palavras também, mas nas palavras que vêm das pessoas. Porque no Outro encontro o que desconheço do Eu. O melhor de mim, sem dúvida, é aquilo que vejo quando conheço alguém novo — alguém que me toca e liberta, que me traz algo verdadeiramente novo. Estou tão desgastada pelo tempo, entretanto quando olho em olhos novos vejo tudo outra vez: o barulho das árvores no vento, o cheiro das folhas molhadas, a textura peculiar do líquem et cetera. O novo é a minha memória. A experiência é o meu passado. Sei às vezes que o que mais espero de mim é o meu futuro que é também meu passado, Ou talvez os sonhos do passado que só podem existir num botão de esperança. É tudo assim; se esperarmos demais, tudo vira literatura e música, mas se lutarmos demais, nos tornamos... como dizer? Nos tornamos apenas lutadores. E na luta da vida esquecemos talvez que o que realmente nos move são as raízes daquele Eu desconhecido. Esquecemos que temos sob a superfície uma cidade de construções abandonadas. É impossível viver sempre no presente, é impossível dar manutenção a tudo isso. Mais que isso — é falso, é inútil. A beleza pra mim é percorrer esses salões vazios. É ouvir o canto dos pássaros que embalaram civilizações passadas.
Nas pessoas encontro as passagens secretas que levam ao outro lado do Eu. Nas experiência novas me crio e recrio e descubro mundos além dos que eu já vivia. Ergo torres sobre torres, torres sobre descampados, castelos sobre florestas em homenagem a reinos que se fazem num átimo quando uma frase me descreve. Queria poder dar a devida importância a essa cidade-palavra; levar seus inocentes fundadores a conhecer as vielas, os mirantes, os pombais. Toda vez que alguém me conhece queria... queria poder abrir as portas de mim! Mas não queria mostrar o tosco, o sujo, sabe? os fios elétricos os auditórios os dvds piratas nas calçadas os carros branco-preto-pratas as locadoras o bilhete único o telemarketing os filmes b os joguinhos de flash os romancetes júlia-sabrina os efeitos especiais o congestionamento o sabor artificial idêntico ao original as embalagens de biscoito as pessoas que correm os trabalhadores de escritório engravatados sozinhos em carros quatro-portas na hora do rush a comida da cantina os prédios provisórios sem manutenção cheios de pessoas a burocracia as matérias em que não aprendemos nada e a iluminação noturna fluorescente que deixa a noite parecida com shopping-center. Não!, eu queria mostrar as florestas, as grandes obras arquitetônicas, os lugares desabitados, o Mar! Eu queria poder tirar tudo o que é tolo e passageiro, e deixar só o âmago pulsante da poesia viva. Eu queria poder mostrar só o que realmente vale a pena em mim. Só as melhores músicas. Só palavras verdadeiras, escritas na Língua Antiga.
Mas eu não posso. Na verdade não posso tanto que nem consigo mostrar a reverberação que nossas conversas têm no meu passado. Não posso porque tudo se cobre por um véu de trivialidade. Mas nada é trivial. Nada é. Ouço dedos dançando numa rapsódia húngara, minha vida toda eu procurava sem saber algumas notas de Liszt, mas quando as encontro nos dedos de uma conversa banal eu sei de repende que tudo de vazio que acontece tem um significado profundo nesse mundo abaixo do meu mundo, esse río-abajo-río de mim. Coisas idiotas como uma barata de repente se tornam estranhas e sagradas e assustadoras. O mundo dentro de mim tem constantes revoluções. E eu, que mal as vejo, que as sinto mas não as noto, tão cheios estão meus olhos das mil coisas que vejo sobre o mundo, eu que percorro a vida a contra-pêlo, não posso ser uma boa guia para essa viagem.
Eu queria poder ir além disso. Ir aos melhores filmes e aos melhores livros. Construir um templo que revele quem eu deveria ser respeitosamente. Dançar como dedos no início da Sonata ao Luar. Deslizar sobre uma paisagem de inverno. Haver comunicação verdadeira entre eu e você. Trocarmos os nomes dos nossos amantes junto com passagens de Cortázar. Queria chegar mais perto da magia de tudo isso.
Queria chegar com você ao lugar de La Loba.
Imagina como seria esse jardim se fosse povoado e habitado como as nossas outras construções, se fosse limpo e asseado com manutenção constante? Imagino esse lugar drenado de todas as marcas de seu abandono, imagino esse lugar sendo apenas uma parte de mim pela qual eu passo sem olhar. A beleza mesmo está nessa vegetação selvagem que nasce sobre uma camada sedimentar de mistério. A beleza são os fantasmas, a vida que povoa o desconhecido. A beleza é os monstros marinhos que figuram nas bordas dos mapas das grandes navegações. Eu busco aquele lugar inseguro, aquele lugar invisito, um lugar onde Há Dragões.
E como chegar a ele, quando não pisamos num solo envolto nas pegadas de um Deus Desconhecido?
Eu o procuro através das pessoas. Das palavras também, mas nas palavras que vêm das pessoas. Porque no Outro encontro o que desconheço do Eu. O melhor de mim, sem dúvida, é aquilo que vejo quando conheço alguém novo — alguém que me toca e liberta, que me traz algo verdadeiramente novo. Estou tão desgastada pelo tempo, entretanto quando olho em olhos novos vejo tudo outra vez: o barulho das árvores no vento, o cheiro das folhas molhadas, a textura peculiar do líquem et cetera. O novo é a minha memória. A experiência é o meu passado. Sei às vezes que o que mais espero de mim é o meu futuro que é também meu passado, Ou talvez os sonhos do passado que só podem existir num botão de esperança. É tudo assim; se esperarmos demais, tudo vira literatura e música, mas se lutarmos demais, nos tornamos... como dizer? Nos tornamos apenas lutadores. E na luta da vida esquecemos talvez que o que realmente nos move são as raízes daquele Eu desconhecido. Esquecemos que temos sob a superfície uma cidade de construções abandonadas. É impossível viver sempre no presente, é impossível dar manutenção a tudo isso. Mais que isso — é falso, é inútil. A beleza pra mim é percorrer esses salões vazios. É ouvir o canto dos pássaros que embalaram civilizações passadas.
Nas pessoas encontro as passagens secretas que levam ao outro lado do Eu. Nas experiência novas me crio e recrio e descubro mundos além dos que eu já vivia. Ergo torres sobre torres, torres sobre descampados, castelos sobre florestas em homenagem a reinos que se fazem num átimo quando uma frase me descreve. Queria poder dar a devida importância a essa cidade-palavra; levar seus inocentes fundadores a conhecer as vielas, os mirantes, os pombais. Toda vez que alguém me conhece queria... queria poder abrir as portas de mim! Mas não queria mostrar o tosco, o sujo, sabe? os fios elétricos os auditórios os dvds piratas nas calçadas os carros branco-preto-pratas as locadoras o bilhete único o telemarketing os filmes b os joguinhos de flash os romancetes júlia-sabrina os efeitos especiais o congestionamento o sabor artificial idêntico ao original as embalagens de biscoito as pessoas que correm os trabalhadores de escritório engravatados sozinhos em carros quatro-portas na hora do rush a comida da cantina os prédios provisórios sem manutenção cheios de pessoas a burocracia as matérias em que não aprendemos nada e a iluminação noturna fluorescente que deixa a noite parecida com shopping-center. Não!, eu queria mostrar as florestas, as grandes obras arquitetônicas, os lugares desabitados, o Mar! Eu queria poder tirar tudo o que é tolo e passageiro, e deixar só o âmago pulsante da poesia viva. Eu queria poder mostrar só o que realmente vale a pena em mim. Só as melhores músicas. Só palavras verdadeiras, escritas na Língua Antiga.
Mas eu não posso. Na verdade não posso tanto que nem consigo mostrar a reverberação que nossas conversas têm no meu passado. Não posso porque tudo se cobre por um véu de trivialidade. Mas nada é trivial. Nada é. Ouço dedos dançando numa rapsódia húngara, minha vida toda eu procurava sem saber algumas notas de Liszt, mas quando as encontro nos dedos de uma conversa banal eu sei de repende que tudo de vazio que acontece tem um significado profundo nesse mundo abaixo do meu mundo, esse río-abajo-río de mim. Coisas idiotas como uma barata de repente se tornam estranhas e sagradas e assustadoras. O mundo dentro de mim tem constantes revoluções. E eu, que mal as vejo, que as sinto mas não as noto, tão cheios estão meus olhos das mil coisas que vejo sobre o mundo, eu que percorro a vida a contra-pêlo, não posso ser uma boa guia para essa viagem.
Eu queria poder ir além disso. Ir aos melhores filmes e aos melhores livros. Construir um templo que revele quem eu deveria ser respeitosamente. Dançar como dedos no início da Sonata ao Luar. Deslizar sobre uma paisagem de inverno. Haver comunicação verdadeira entre eu e você. Trocarmos os nomes dos nossos amantes junto com passagens de Cortázar. Queria chegar mais perto da magia de tudo isso.
Queria chegar com você ao lugar de La Loba.
quinta-feira, 26 de novembro de 2009
Pergunta.
Tenho uma pergunta para quem leu as últimas partes dessas Histórias: quem é a Velha da Pedra, e quem é a donzela Fælyn?
quarta-feira, 25 de novembro de 2009
O Primeiro Dragão de Roder - versão da Velha
Roder não era apenas um guerreiro corajoso, hábil e incansável. Ele também era jovem e bonito. Mal chegou à vila, todas as moças se apaixonaram por ele. Mas Roder não estava interessado em garotas; estava interessado em monstros. Queria a emoção da batalha e a aclamação de uma vitória! Assim, a única garota que chamou sua atenção foi a que conseguiu ser capturada pelo dragão das redondezas. Chamava-se Fælyn, tinha quinze anos e tudo o que sabia fazer era cantar e encantar os garotos, mas o que queria mesmo era ser resgatada por um grande herói. Roder veio assim que ouviu a história pela primeira vez. Trazia só sua espada e sua coragem. Entrou na caverna sozinho, e percorreu inúmeras câmaras antes de encontrar a câmara do tesouro, onde a donzela estava amarrada com correntes de ouro num trono cravejado de rubis. Roder não reparou nos rubis nem na beleza da garota, porque não tinha olhos capazes de enxergar belezas, mas viu uma donzela em perigo e jurou que iria salvá-la e punir seu raptor, o dragão. Primeiro quebrou as correntes de ouro, depois gritou pelos túneis da caverna clamando o desafio do dragão. O dragão não veio. Roder era paciente e esperou três dias na sala do tesouro, gritando e chamando. Não passaram fome porque entre os tesouros do dragão havia fruteiras que nunca se esvaziavam e taças que estavam sempre cheias, e dormiram bem sobre cobertores trançados com fios de ouro. Fælyn era uma moça astuta e durante todo o primeiro dia reuniu tesouros e provisões para sair da caverna e viver ricamente no mundo de fora. Dizia que iriam viver em um palácio imenso, viajariam em elefantes, teriam panteras e tigres num grande jardim, e todos os príncipes viriam jantar em seus banquetes. Como o herói ignorasse suas fantasias, a donzela perdeu o ânimo, deixou de acreditar na alegria do seu imenso sonho, e no segundo dia tentava atrai-lo para fora da caverna com outra proposta: se estabeleceriam numa vila nas montanhas, teriam terras para cultivar e protager, defenderiam a vila de ataques de monstros e dragões e seriam recompensados com o amor dos vilãos e com fartos banquetes. Roder, na sua obcessão pelo inimigo que não aparecia, não dava ouvidos às fantasias da donzela. No terceiro dia, Fælyn decidira que iria embora sozinha, com o ouro que pudesse carregar, e procuraria um homem mais sensato, junto ao qual pudesse comprar terrar, construir uma casa e viver em paz e conforto, rodeada de servos. Foi só quando já saía da imensa galeria que se deu conta de que o tesouro que realmente a atraía não era o ouro, nem as pedras preciosas, mas o homem destemido que viera resgatá-la. Então largou o ouro e as pedras e chamou-o outra vez, agora dizendo que iriam juntos resgatar donzelas e lutar contra monstros, que juntos salvariam vilas e reinos, que todo o mundo conheceria Roder o matador de dragões, que ela contaria como ele a salvara das garras do monstro cruel, e que ele ainda a salvaria muitas outras vezes. A isso Roder finalmente cedeu. A imagem dos muitos dragões que ainda ia enfrentar o fez esquecer momentaneamente o que não tinha enfrentado, e ele aceitou sair acompanhado da moça. Os dois estavam felizes com a perspectiva de sua vida futura. Saíram da caverna fazendo planos e discutindo rotas. Roder se animara com a visão de seu futuro, e agora contava incríveis histórias de todos os feitos que pretendia realizar. Porém, mal chegaram à vila, ouviu-se um urro bestial vindo da cova atrás deles.
O sonho de Roder e Fælyn não era tão forte quanto aquele urro.
— Voltarei para te buscar, — ele disse, e então mergulhou novamente na caverna.
Fælyn esperou por ele, aqui onde nós estamos, por dias, semanas, meses. O herói não voltou. As pessoas na cidade diziam que ele havia derrotado o dragão, e que partira para enfrentar outro. Mas algumas poucas pessoas, nesta vila ou em outras, inclusive a própria donzela, sabiam que isso era mentira. Algumas pessoas, notadamente a donzela, sabiam que naquela caverna não havia um dragão, não havia um Inimigo: havia apenas uma garota chamada Fælyn.
terça-feira, 24 de novembro de 2009
Desânimo
Mas não é só isso. Quer dizer, não é só a frustração dos trabalhos que não dão mais prazer, das aulas em que não se faz nada nem se aprende, da rotina que gira em falso, que não significa nada, nem a dificuldade filha da puta de se ter amigos que no mínimo apareçam numa festa de aniversário (uma vez por ano, porra, com garantia de diversão), nem a resistência interna cada vez maior de se considerar uma designer que é cada vez mais parecida com dor, nem apenas também o horário noturno que que torna o sacrifício muito maior. É tudo isso, sempre foi, ainda é, mas eu sei agora que é algo mais, algo que vem não apenas da vontade de realizar os sonhos de infância mas também do outro lado, do lado que quer vencer, do lado que quer chegar ao fim de alguma coisa, que não agüenta mais estar alheio a tudo isso. Não é só isso — é que agora cada vez que eu vejo uma pessoa feliz com suas conquistas, uma pessoa se formando, uma pessoa fazendo iniciação, uma pessoa estudando ou trabalhando (na verdade, mesmo se a pessoa não estiver feliz) eu sinto uma dor no peito, um desejo de ser assim também, de estudar, de trabalhar, de ir em frente, de fazer grandes coisas.
Mas eu não posso ser assim na FAU. Eu não sei ser assim. Eu não posso trabalhar sozinha e eu também não tenho o pique para acompanhar o ritmo do resto da turma. Eu não posso vencer na FAU. Eu nunca vou vencer. Eu continuo me perguntando por que eu escolhi justamente um dos poucos cursos que ia me fazer me sentir amarrada ao mesmo tempo que ofereceria os maiores de todos os desafios. Não há como eu honestamente acreditar que eu vou conseguir me formar nesse curso. Mesmo se eu conseguisse fazer umas sete ou oito matérias por semestre (sem optativas) eu me formaria em no mínimo seis anos. Ou talvez o mínimo, contando os conflitos de horário e whatnot, já tenha chegado em sete. E aí, mesmo me esforçando ao máximo ou desistindo de todas as optativas, eu teria que pedir por favor pra comissão não me jubilar. Mas eu não quero mais me esforçar ao máximo para aprender quase nada, eu não quero ter que convencer a comissão de nada. Eu quero estudar mecânica, programação, didática, arte, história; eu quero conseguir tirar um sentido disso tudo. O design na verdade faz sentido. O que não faz sentido é este curso de design.
-------
PS.:
Meus sonhos de infância são:
. viver na selva
. ser um animal selvagem
. lutar muito bem
. construir brinquedos
. fazer brinquedos de controle remoto
. escrever livros
. fazer histórias em quadrinhos
. fazer jogos de videogame
. saber muitas coisas
. ensinar
. velejar
. viajar
. viver com muitos bichos e muitas plantas
. andar a cavalo
. jogar bola bem
Acho que o design é uma boa forma de amarrar tudo, sem problemas.
Bem, o problema é que eu não tenho nada pra amarrar.
Mas eu não posso ser assim na FAU. Eu não sei ser assim. Eu não posso trabalhar sozinha e eu também não tenho o pique para acompanhar o ritmo do resto da turma. Eu não posso vencer na FAU. Eu nunca vou vencer. Eu continuo me perguntando por que eu escolhi justamente um dos poucos cursos que ia me fazer me sentir amarrada ao mesmo tempo que ofereceria os maiores de todos os desafios. Não há como eu honestamente acreditar que eu vou conseguir me formar nesse curso. Mesmo se eu conseguisse fazer umas sete ou oito matérias por semestre (sem optativas) eu me formaria em no mínimo seis anos. Ou talvez o mínimo, contando os conflitos de horário e whatnot, já tenha chegado em sete. E aí, mesmo me esforçando ao máximo ou desistindo de todas as optativas, eu teria que pedir por favor pra comissão não me jubilar. Mas eu não quero mais me esforçar ao máximo para aprender quase nada, eu não quero ter que convencer a comissão de nada. Eu quero estudar mecânica, programação, didática, arte, história; eu quero conseguir tirar um sentido disso tudo. O design na verdade faz sentido. O que não faz sentido é este curso de design.
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PS.:
Meus sonhos de infância são:
. viver na selva
. ser um animal selvagem
. lutar muito bem
. construir brinquedos
. fazer brinquedos de controle remoto
. escrever livros
. fazer histórias em quadrinhos
. fazer jogos de videogame
. saber muitas coisas
. ensinar
. velejar
. viajar
. viver com muitos bichos e muitas plantas
. andar a cavalo
. jogar bola bem
Acho que o design é uma boa forma de amarrar tudo, sem problemas.
Bem, o problema é que eu não tenho nada pra amarrar.
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