Antes costumava ser só vento, sonho e aventura, mas agora toda vez que eu ando de bicicleta eu tenho mêdo da morte. É um mêdo que eu combato usando cuidado, racionalidade e uma dose grande de coragem. Andar de bicicleta não vai me fazer morrer mais cedo do que de carro, eu me digo.
Ser ciclista faz com que imediatamente todo mundo te odeie. Inclusive, e isso é o que me dói mais, pedestres. Eu em particular me porto, como ciclista, de forma cuidadosa e educada. Faço sinais com os braços, me mantenho atenta aos arredores, ocupo a faixa apropriada. Eventualmente, em dúvida entre me entalar entre ônibus ou me arriscar nas faixas de carros, subo na calçada, mas sempre faço isso na marcha mais lenta e dou passagem para todos os pedestres. Hoje inclusive pus um pé no chão e parei esperando pacientemente as pessoas saírem do ônibus. Inclusive quando uma mulher se assustou com a minha presença e pediu desculpas, eu respondi "Não, desculpa eu". Tudo poderia ter ficado por ali, exceto que a mulher se deu conta do que ela falou (ou do que eu falei) e imadiatamente se corrigiu "Quer dizer, não, você é que tem que se desculpar! Você não deveria estar aqui!" e começou um sermão e eu só fui embora. Quando a gente é ciclista todo mundo achar que tem que nos educar, que não sabemos o que estamos fazendo. Por incrível que pareça, nós sabemos. Somos nós que melhor sabemos o que temps que fazer.
Outra coisa insuportável a respeito de ser ciclista em São Paulo é como a bicicleta parece despertar o machismo em todos os homens na rua. Eu dificilmente recebo cantadas de rua quando estou a pé -- quando estou de bike, é comum. E com "cantadas" eu quero dizer coisas simplesmente ofensivas. Parece que nenhum homem consegue falar comigo sem sugerir que vou cair da bicicleta, que vou me machucar, de modo geral que a rua é um lugar perigoso para mim -- de novo, como se eu não soubesse o que estou fazendo. Hoje um pedestre na Augusta me mandou um olhar nojento e falou algo sobre eu estar sem sutiã, o que me perturbou porque eu nem tinha notado que eu estava sem sutiã, e também porque eu levei uns 10 anos pra juntar coragem de sair sem sutiã de vez em quando e para de noiar com meus peitos, porra! E mais tarde um homem saiu do seu caminho pra me acompanhar, usando a bicicleta como desculpa para xavecos, ao mesmo tempo dizendo que bicicleta não é meio de transporte, e me falando pra tomar cuidado. Por acaso a bicicleta tem uma aura de fragilidade e vulnerabilidade em volta dela? Pessoas em bicicletas parecem mais sucetíveis a machismo e paternalismo pra vocês?
Mas enfim, é claro que essas coisas não são o motivo principal para que a maior parte das pessoas não queira andar de bicicleta. Essas coisas são periféricas, mecanismos auxiliares de desistímulos, acompanhadas por aquelas ridículas campanhas na internet exigindo que ciclistas "respeitem os direitos dos outros", ameaçando ciclistas de não ter seus direitos respeitados (e não há nada que cada ciclista possa fazer para evitar essa ameaça, já que se uma pessoa ciclista queba qualquer uma das regras arbitárias, a classe toda é vista como agressora). Essas são as campanhas tranqüilas e de boinhas contra ciclistas. Como toda discriminação injusta e arbitrária, a discriminação contra ciclistas vem acompanhada de violência física e ameaças de morte.
Eu sei que com este texto eu vou desestimular pessoas a serem ciclistas, mas ao mesmo tempo eu já tentei e tentei estimular pessoas ao ciclismo, e eu sei que só posso fazer isso através do incentivo e exemplo e não fingindo que o mundo do ciclismo é um mar de rosas. Não. Como ciclista, eu coloco minha vida nas mãos de outras pessoas a cada viagem. Eu faço isso como pedestre também, é verdade, e às vezes andar de bike é bastante mais seguro que andar a pé. A diferença clara é que boa parte das agressões que sofro como ciclista são propositais. Sempre há os carros que nos ultrapassam deixando nenhuma margem para desequilíbrios ou desvios. Sempre há o ultrapassamento por ônibus. Há o motociclista que nos ultrapassa naquele espacinho entre duas faixas. Uma vez um carrão enorme e preto atravessou três faixas numa ponte vazia apenas para me tirar uma fina (e quase me joguei na contramão de mêdo). Hoje dois carros decidiram me ultrapassar ao mesmo tempo -- enquanto eu xingava o que me tirava uma fina pela esquerda e me desviava ligeiramente dele, me surge pelo lado direito, o lado para o qual eu me desviava, um babaca em alta velocidade, a uns quinze centímetros de mim, xingando e gritando ainda por cima. E tudo isso só porque eu me recusei a ficar na faixa de ônibus. Recentemente ouvi uma história de um amigo que estava dividindo a faixa de ônibus e um motorista de ônibus jogou o veículo em cima dele, obrigando-o a ir para a calçada ou morrer. Eu realmente queria que motoristas parassem de ameaçar nossas vidas, seja por raiva, seja por distração, seja por diversão.
Isso faz com que toda viagem de bicicleta acabe se tornando uma viagem de adrenalina, e quando eu chego em casa eu morro no sofá. Alguns caminhos são melhores que outros: Alto de Pinheiros é inteiramente horrível quase sempre; a Rebouças é mais ou menos tranqüila, e ajuda o fato de que é plana.
Às vezes andar de bicicleta é absolutamente maravilhoso. Hoje foi um desses dias: o sol estava bonito, mas não forte demais, a temperatura estava perfeita, o trânsito estava suportável, e eu pedalei da Vila Madalena para USP, da USP para o MASP (via Eusébio Matoso e Rebouças), da Paulista para a Vila Madalena (via Dr. Arnaldo). A princípio eu queria ir de bike até o metrô butantã e levar a bike comigo para a Paulista via metrô, para pegar mais leve no exercício e experimentar a hospitalidade da ViaQuatro (afinal, eles têm esses cartazinhos nojentos dizendo "aqui sua bicicleta é bem vinda", não é mesmo?). Eu poderia ter previsto que eu não poderia usar a bike no metrô durante um dia de semana. E que eu não poderia deixar a bici no bicicletário porque eu estava sem corrente. Então num impulso eu decidi pegar altas avenidas e subir pra Paulista usando minha própria força motriz. Não me arrependo de nada.
Quando eu estava pedalando na Paulista, num momento de calmaria entre as múltiplas agressões a que ser ciclista me expõe, eu me peguei pensando o quanto eu adoro isso, o quanto andar de bicicleta é muito melhor que qualquer outro meio de transporte, exceto, alumas vezes, andar à pé. Eu me sinto livre, leve, real, em contato com o mundo. Eu parei num farol ao lado de uma outra ciclista e ela me cumprimentou com um "Oi". Eu gosto muito mais de bicicleta do que de ônibus, e eu gosto de ônibus muito mais do que de carro. E além de ser um meio de transporte gostoso e um bom esporte, eu ainda me sinto bem por não estar contribuindo pra poluição, pra hegemonia do transporte privado, pra violência do trânsito. Eu não tenho nenhuma vergonha de admitir que quando eu estou de bike eu me sinto muito superior a todas as pessoas que podem usar bike e optam por usar carro. A sensação de andar de bike pelas ruas da cidade pe quase tão poderosa quanto a de andar a pé: a sensação de que a cidade nos pertence, e de que merecemos estar nela. Merecemos estar nela, apesar de todos acharem e dizerem o contrário.
E aí acontece aquele momento perfeito, às vezes logo depois de um fina entre dois carros que te deixam com o coração disparado e cheio de ódio, eu continuo pedalando, xingando em voz alta, e o sol continua batendo, e aquele vento na cara vai me acalmando, e de repente, quando eu menos espero, estou no viaduto sobre a Sumaré, e me assola a vista gloriosa da cidade, onde, por alguns instantes, eu consigo enxergar os morros feitos de parques, cobertos de um verde que para nós na metrópole é quase um mito. E por um momento eu tenho um lampejo de uma esperança que me evade durante todos os outros momentos da vida.
Nessa hora eu me pergunto como podem as outras pessoas não andar de bicicleta. Por esses breves momentos de glória em que estou usando o melhor meio de transporte jamais inventado, fazendo parte do vento, estando além da Cidade. Vento.
Nessa hora eu chego no túnel e o caos retorna por mais alguns minutos.
palavra por palavra, procuro chegar, devagar, ao lugar de La Loba.
"O silêncio", disse o griot,"só é escuro no começo..."
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terça-feira, 13 de agosto de 2013
terça-feira, 19 de março de 2013
Mulher Não Sabe Brincar
Mulher não sabe brincar.
Não dá pra brincar com mulher.
Mulher leva tudo à sério. Mulher é séria demais.
Mulher não entende que a graça está em ser escroto.
Mulher não entende que homem não pensa assim de verdade.
Mulher não sabe entrar na brincadeira.
Mulher bate forte demais.
Mulher não entende que não é pra machucar.
Mulher não entende que é pra xingar, não pra ofender.
Mulher acha que é sério.
Quando homem bate de brincadeira, mulher revida a sério.
Mulher não entende a brincadeira.
Mulher é violenta demais.
Mulher é nervosa demais.
Mulher é histérica demais.
O cara tava só falando, não tinha porque ela partir pra agressão física.
Não dá pra brincar com mulher.
Mulher leva tudo à sério. Mulher é séria demais.
Mulher não entende que a graça está em ser escroto.
Mulher não entende que homem não pensa assim de verdade.
Mulher não sabe entrar na brincadeira.
Mulher bate forte demais.
Mulher não entende que não é pra machucar.
Mulher não entende que é pra xingar, não pra ofender.
Mulher acha que é sério.
Quando homem bate de brincadeira, mulher revida a sério.
Mulher não entende a brincadeira.
Mulher é violenta demais.
Mulher é nervosa demais.
Mulher é histérica demais.
O cara tava só falando, não tinha porque ela partir pra agressão física.
segunda-feira, 3 de setembro de 2012
Panfletarismo
Ultimamente eu tenho me sentido muito gay.
Quando eu digo "gay", eu não quero dizer homossexual. Eu já passei por épocas muito lésbicas, e já passei por épocas femininas, e já passei por épocas de macho e por épocas gays. Estou numa época em que me identifico mais com homens gays. Em parte é porque eu estou admitindo que durante a maior parte da minha vida eu quis ser um homem, e só me conformei em encontrar as vantagens de ser mulher ("vantagens" é um termo estranho pra isso - digamos as "partes que eu gosto" de ser mulher). Em parte é simplesmente porque sexo gay é muito sexy, e eu detesto quando eu não posso participar (obs.: viva os homens bi!!!). Em parte é porque eu tenho tido vontade de fazer parte de um movimento que é colorido, irreverente, pega todo mundo na balada e curte vestir dourado e dançar no pole.
Eu sou bicha. Eu curto vestir dourado e dançar no pole dance, como eu nunca curti os longos dignos da sensualidade feminil. Eu quero ser a femme-fatale, mas eu sempre acabo usando uma bermuda ou bombacha, com minhas pernas peludas, meus tênis de trilha, e agora om estes óculos estou parecendo uma hipster fora de moda, uma indie sem tribo. Eu acho que sou bicha porque eu sempre fui um moleque, mas agora eu me visto bem. Enfim. E eu gosto de homem como um viado, e me sinto muito confortável falando com gay sobre homem, de uma forma que eu não me sinto tão à vontade com a maior parte das mulheres (com exceções, obviamente - mas mesmo com as exceções eu não me sinto totalmente à vontade, por vários motivos que talvez tenham algo por trás).
Eu também tenho sido muito feminista. Porque é a mesma coisa. Porque eu quero defender o meu direito como mulher bissexual que curte namoros abertos e gosta de sexo, porra. Porque eu acho que liberdade sexual é importante. No fundo é isso que está por trás do meu feminismo intenso. Porque eu quero liberdade, liberdade, como eu estou dizendo há tantos anos. Liberdade pra pegar quem você quiser. Liberdade pra se vestir como você quiser. Liberdade pra se divertir como você quiser. (tudo isso, é claro, tem limites também, mas ainda estamos a anos luz de bater com eles). Mas recentemente uma amiga amiga minha reclamou que as meninas do grupo têm sido muito feministas, muito panfletárias. E eu preciso dizer: tem que ser mesmo.
Você, que reclamou, você devia ser feminista. Aposto que você na verdade reclama pelo mesmo motivo que você fica triste porque aquele garoto com quem você saiu te chamou de vadia. Porque você tem mêdo de enfrentar. Você tem mêdo de que ele tenha razão. Você quer viver a vida do seu jeito, mas você não quer lutar pelo direito de ser respeitada. Você não faz sentido! Eu preciso te puxar e dizer que eu não acredito na sua reclamação. Eu tentei te convencer de que o que o garoto disse não era verdade. Mas eu, eu passei a vida inteira lutando, desde os quatro anos, lutando, lutando, eu treinei com os meus demônios internos antes de vir pro pau da vida real. Eu admiro você, e você ousa ter vergonha justamente da parte de você que eu admiro?! Eu invejo você, mas você não inveja a si mesma. Mas eu vou dizer, você está errada ao querer que a gente pare de panfletar. Eu pensei muito sobre isso e agora eu tenho certeza: a gente tem sim que panfletar.
Quando teve a Parada Gay e a gente não foi, o Fê chegou puto (vestindo uma coroa, e super gay, e lindo, e muito puto) com a gente porque nenhum de nós, gays, tinha ido na Parada. Nenhum de nós tinha aturado o ridículo e se divertido com o ridículo pra mostrar ao mundo que estamos lá. Eu me senti horrível, porque ele tinha razão. Mas na época eu estava mais ferida com o desrespeito a qualquer um que queira se identificar como bissexual, e eu não queria dançar junto com o povo que me reprimia dessa forma. Mas se fosse hoje, eu iria. E eu deveria ter ido, senão por mim, pelo menos por ele. Porque eu não quero jamais viver num mundo onde meus amigos tenham sua liberdade sexual toldada de maneira tão extensa. Este mundo em que a gente vive, em que quando a gente conhece um estranho, a primeira coisa que a gente faz é avaliar o quanto a gente tem que esconder e mentir.
E também tenho panfletado (devia fazer mais) sobre ciclismo, porque eu me sinto tanto
uma minoria toda vez que ando de bicicleta e toda vez que falo sobre isso que às vezes acho que deveria ter uma lei dizendo "Não discriminarás por sexo, gênero, religião, etnia, opção sexual ou meio de transporte". E o foda é que meus parentes e amigos me discriminam. Como sempre, o que dói mais é que os parentes e amigos também discriminam. Mas eu não sei se eu deveria me sentir tão mal. Eu também os discrimino por usarem carro demais. Eu discrimino meus pais por não pegarem ônibus. Eu tento ignorar, quando eu ouço um "Quando você dirigir todo dia..." (mãe, se tudo der certo, isso nunca vai acontecer).
A gente panfleta porque a gente quer que todo mundo esteja o tempo todo pensando nisso. A gente não quer ser ignorado. Talvez a forma esteja errada, talvez o jeito de chamar a atenção esteja sendo pouco efetivo. Talvez. Mas política não é uma coisa que pode ser deixada apenas para os momentos "apropriados". Não adianta discutir apenas com as pessoas próximas, nos momentos íntimos. Tem que discutir publicamente, tem que dar a cara pra bater. Eu dou a minha cara pra bater, cada dia mais. Eu prefiro levar porrada a viver me sentindo oprimida. Meu objetivo é chegar ao ponto em que eu não tenha mais vergonha nenhuma de defender o que eu acho certo. E correr o risco de levar tapa na cara.
Discutam.
Quando eu digo "gay", eu não quero dizer homossexual. Eu já passei por épocas muito lésbicas, e já passei por épocas femininas, e já passei por épocas de macho e por épocas gays. Estou numa época em que me identifico mais com homens gays. Em parte é porque eu estou admitindo que durante a maior parte da minha vida eu quis ser um homem, e só me conformei em encontrar as vantagens de ser mulher ("vantagens" é um termo estranho pra isso - digamos as "partes que eu gosto" de ser mulher). Em parte é simplesmente porque sexo gay é muito sexy, e eu detesto quando eu não posso participar (obs.: viva os homens bi!!!). Em parte é porque eu tenho tido vontade de fazer parte de um movimento que é colorido, irreverente, pega todo mundo na balada e curte vestir dourado e dançar no pole.
Eu sou bicha. Eu curto vestir dourado e dançar no pole dance, como eu nunca curti os longos dignos da sensualidade feminil. Eu quero ser a femme-fatale, mas eu sempre acabo usando uma bermuda ou bombacha, com minhas pernas peludas, meus tênis de trilha, e agora om estes óculos estou parecendo uma hipster fora de moda, uma indie sem tribo. Eu acho que sou bicha porque eu sempre fui um moleque, mas agora eu me visto bem. Enfim. E eu gosto de homem como um viado, e me sinto muito confortável falando com gay sobre homem, de uma forma que eu não me sinto tão à vontade com a maior parte das mulheres (com exceções, obviamente - mas mesmo com as exceções eu não me sinto totalmente à vontade, por vários motivos que talvez tenham algo por trás).
Eu também tenho sido muito feminista. Porque é a mesma coisa. Porque eu quero defender o meu direito como mulher bissexual que curte namoros abertos e gosta de sexo, porra. Porque eu acho que liberdade sexual é importante. No fundo é isso que está por trás do meu feminismo intenso. Porque eu quero liberdade, liberdade, como eu estou dizendo há tantos anos. Liberdade pra pegar quem você quiser. Liberdade pra se vestir como você quiser. Liberdade pra se divertir como você quiser. (tudo isso, é claro, tem limites também, mas ainda estamos a anos luz de bater com eles). Mas recentemente uma amiga amiga minha reclamou que as meninas do grupo têm sido muito feministas, muito panfletárias. E eu preciso dizer: tem que ser mesmo.
Você, que reclamou, você devia ser feminista. Aposto que você na verdade reclama pelo mesmo motivo que você fica triste porque aquele garoto com quem você saiu te chamou de vadia. Porque você tem mêdo de enfrentar. Você tem mêdo de que ele tenha razão. Você quer viver a vida do seu jeito, mas você não quer lutar pelo direito de ser respeitada. Você não faz sentido! Eu preciso te puxar e dizer que eu não acredito na sua reclamação. Eu tentei te convencer de que o que o garoto disse não era verdade. Mas eu, eu passei a vida inteira lutando, desde os quatro anos, lutando, lutando, eu treinei com os meus demônios internos antes de vir pro pau da vida real. Eu admiro você, e você ousa ter vergonha justamente da parte de você que eu admiro?! Eu invejo você, mas você não inveja a si mesma. Mas eu vou dizer, você está errada ao querer que a gente pare de panfletar. Eu pensei muito sobre isso e agora eu tenho certeza: a gente tem sim que panfletar.
Quando teve a Parada Gay e a gente não foi, o Fê chegou puto (vestindo uma coroa, e super gay, e lindo, e muito puto) com a gente porque nenhum de nós, gays, tinha ido na Parada. Nenhum de nós tinha aturado o ridículo e se divertido com o ridículo pra mostrar ao mundo que estamos lá. Eu me senti horrível, porque ele tinha razão. Mas na época eu estava mais ferida com o desrespeito a qualquer um que queira se identificar como bissexual, e eu não queria dançar junto com o povo que me reprimia dessa forma. Mas se fosse hoje, eu iria. E eu deveria ter ido, senão por mim, pelo menos por ele. Porque eu não quero jamais viver num mundo onde meus amigos tenham sua liberdade sexual toldada de maneira tão extensa. Este mundo em que a gente vive, em que quando a gente conhece um estranho, a primeira coisa que a gente faz é avaliar o quanto a gente tem que esconder e mentir.
E também tenho panfletado (devia fazer mais) sobre ciclismo, porque eu me sinto tanto
uma minoria toda vez que ando de bicicleta e toda vez que falo sobre isso que às vezes acho que deveria ter uma lei dizendo "Não discriminarás por sexo, gênero, religião, etnia, opção sexual ou meio de transporte". E o foda é que meus parentes e amigos me discriminam. Como sempre, o que dói mais é que os parentes e amigos também discriminam. Mas eu não sei se eu deveria me sentir tão mal. Eu também os discrimino por usarem carro demais. Eu discrimino meus pais por não pegarem ônibus. Eu tento ignorar, quando eu ouço um "Quando você dirigir todo dia..." (mãe, se tudo der certo, isso nunca vai acontecer).
A gente panfleta porque a gente quer que todo mundo esteja o tempo todo pensando nisso. A gente não quer ser ignorado. Talvez a forma esteja errada, talvez o jeito de chamar a atenção esteja sendo pouco efetivo. Talvez. Mas política não é uma coisa que pode ser deixada apenas para os momentos "apropriados". Não adianta discutir apenas com as pessoas próximas, nos momentos íntimos. Tem que discutir publicamente, tem que dar a cara pra bater. Eu dou a minha cara pra bater, cada dia mais. Eu prefiro levar porrada a viver me sentindo oprimida. Meu objetivo é chegar ao ponto em que eu não tenha mais vergonha nenhuma de defender o que eu acho certo. E correr o risco de levar tapa na cara.
Discutam.
quinta-feira, 3 de novembro de 2011
Conversa
Agora há pouco eu encontrei o Léo no para-ciclos do ime e papeamos um pouco. Ele quis elogiar a minha camiseta (sempre me espanta o quanto as pessoas do mundo comentam esta camiseta) e disse uma coisa assim:
- Você fica meio surfista com essa camiseta e essa corrente.
- Surfista? Isso é bom ou é ruim?
- Ahm... É meio -
- Digo, camiseta colorida e veranil num dia nublado ?
- É bom. Sexualmente ambígüo, mas bonita.
E eu disse
- Bom. Ambígüo é bom. Estou indo no quinta-e-breja hoje e quero o máximo de ambigüidade sexual possível.
Não, não foi isso que eu disse. O que eu disse foi
- Acho que é bom então. Eu gosto de meninas com estilo surfista, então as pessoas devem gostar de mim assim, também.
Não, também não foi isso. Acho que eu sorri e disse "acho que é bom, então", e mudamos de assunto. Eu estive pensando naquela quinta-e-breja um ou dois menses atrás na qual os amigos do Léo acharam que eu era fancha e disseram que eu podia pegar qual menina eu quisesse e eu achei isso positivo, mas o Léo disse pra eles que eu era hétero e isso me incomodou um pouco, mas eu fiquei quieta, porque, ele deve ter razão, não? E como me incomodar com uma verdade? Mas eu queria ter dito alguma coisa, e eu preciso lembrar de dizer alguma coisa nas próximas vezes em que alguma coisa precisar ser dita.
Sexualmente ambígüo é bom. Ambigüidade é muito bom. Estou só desabafando; acho que tenho me sentido bastante desconfortável dentro da minha sexualidade (como se ela fosse uma roupa que eu não sei direito por onde vestir).
- Você fica meio surfista com essa camiseta e essa corrente.
- Surfista? Isso é bom ou é ruim?
- Ahm... É meio -
- Digo, camiseta colorida e veranil num dia nublado ?
- É bom. Sexualmente ambígüo, mas bonita.
E eu disse
- Bom. Ambígüo é bom. Estou indo no quinta-e-breja hoje e quero o máximo de ambigüidade sexual possível.
Não, não foi isso que eu disse. O que eu disse foi
- Acho que é bom então. Eu gosto de meninas com estilo surfista, então as pessoas devem gostar de mim assim, também.
Não, também não foi isso. Acho que eu sorri e disse "acho que é bom, então", e mudamos de assunto. Eu estive pensando naquela quinta-e-breja um ou dois menses atrás na qual os amigos do Léo acharam que eu era fancha e disseram que eu podia pegar qual menina eu quisesse e eu achei isso positivo, mas o Léo disse pra eles que eu era hétero e isso me incomodou um pouco, mas eu fiquei quieta, porque, ele deve ter razão, não? E como me incomodar com uma verdade? Mas eu queria ter dito alguma coisa, e eu preciso lembrar de dizer alguma coisa nas próximas vezes em que alguma coisa precisar ser dita.
Sexualmente ambígüo é bom. Ambigüidade é muito bom. Estou só desabafando; acho que tenho me sentido bastante desconfortável dentro da minha sexualidade (como se ela fosse uma roupa que eu não sei direito por onde vestir).
terça-feira, 25 de outubro de 2011
I want to ride it where I like
Ontem eu fui de bicicleta até a casa do Rê. Foi tão legal! Quero andar mais de bike, apesar de estar toda dolorida nas pernas... Quero viajar de bike! É tão incrível se movimentar com as próprias forças.
quinta-feira, 14 de julho de 2011
(nota:
a postagem anterior ia se chamar "mei", a palavra na minha própria língüa para "tu". Mas no último instante resolvi mudar de língüa. Se não faz diferença, posso apenas seguir meu coração.
foda-se o mêdo. Se não tenho esperanças reais, posso pelo menos continuar escrevendo.
E acho significativo que eu tome esta decisão no dia quatorze)
Hoje tive uma idéia para uma história.
foda-se o mêdo. Se não tenho esperanças reais, posso pelo menos continuar escrevendo.
E acho significativo que eu tome esta decisão no dia quatorze)
Hoje tive uma idéia para uma história.
Du.
Do lado de fora do círculo, uma borboleta voa como se fosse luz colorida. A borboleta é na verdade um dragão. O dragão é na verdade uma enseada. O veleiro na enseada percorre um círculo ao teu redor e canta em louvor da tua caminhada sobre as águas. Tu és uma fada. Tu cantas. Tu és o Lobo na noite, a Gata, os pêlos teus brilham sedosos refletindo um beijo matrimonial da Lua. A Lua na verdade é um espírito da chuva. Eu sei, eu corri com ela por cima de poças d'água e voei no flanco das águias procurando olhos que vissem longe, e encontrei os teus. Eu não sou tua, mas ainda assim sigo tuas pegadas. Eu sou tua porque te amo. Eu sou o Amor, O Mais Lépido dos Dragões, minhas patas fortes e grandes percorrem espaços minúsculos por cima de montanhas ancestrais, e ao meu redor todos se apaixona, ao meu redor as urzes, as carmelitas, as senóides, as taturanas. Tu és a curva regular de um regato com inclinações matemtáticas, o revelo de uma fazenda de formigas que inadvertidamente imita uma representação da função de Riemann. Eu sou uma formiga, primitiva e carnívora, uma formiga com pêlos, com caninos. Debaixo da lua eu sinto o calor dos mamíferos, eu sinto o amor dos bichos sociais, eu crio a vida em pequenos flocos, eu passo adiante um olhar de doçura. Eu sou tua porque te amo. Eu te amo porque nas bordas de um mar imenso me parece que todas as ondulações representam a canção que quero compor para ti. O castelo de areia na verdade é uma luminária. A luminária imita um vagalume. As tuas mãos imitam as mãos de milênios de cuidado carinhoso. Tu és uma serpente do mar, leviatã imensa, a luz da lua te faz brilhar prateada, tuas escamas parecem véus de seda em dias de casamento. Tentas nos falar e ouvimos o rumor primordial das nuvens. Mas tanto quero te ouvir que te entendo. A serpente na verdade é uma criança, e a criança brinca com um filhotinho de gato no jardim de uma casa de campo. Eu te quero porque te amo, porque sonho com estar contigo, porque imagino uma vida de risadas e viagens por mar. Eu vestirei a roupa do cavaleiro negro e te protegerei de todos os perigos. Eu enfrentarei os monstros e os magos cruéis, mas eu te darei a única coisa realmente boa que tenho a oferecer. No meu leito de morte, na luta derradeira contra o último dragão (e é necessário que eu perca a batalha para que os dragões sobrevivam e para que entendas o que vim fazer) eu tocarei teu rosto com minhas mãos rudes cobertas por grossas luvas, e entenderás meu carinho e minha doçura, e me amarás um pouquinho, mas saberás que não é o toque de meus dedos no teu rosto que tenho a oferecer. Quando eu te levar a galope por campos ancestrais, quando eu rir um riso de criança em tua companhia, nada disso será o que realmente quero te dar. Os homens em verdade são todos meninos, e todas as mulheres são crianças. Eu não sou melhor do que eles, e eu não posso te enganar. Mas eu te tomarei nos braços quando estiveres triste, e eu dançarei contigo quando estiveres contente, e nós andaremos da lâmina de luz que se estende sobre o mar do Belo Reino. Eu te amo, e quero compartilhar esse luar contigo. Eu tenho tanto mêdo de que não entendas... Eu tenho um mêdo imenso de que não sejas a dama que enxergo quando te vejo. Mas, mesmo se fores outra pessoa, outro tipo de fada ou mulher, eu ainda te terei em grande estima. Ainda oferecerei minha espada se quiseres ser minha rainha. Eu não posso evitar o cavalheirismo quando enxergo teus olhos feminis. Tu és a leõa com quem tenho sonhos nas minhas noites de presa. Tu és a esfinge. A esfinge na verdade é uma avó antiga da rainha Titânia. E as harpas dos meninos gregos fazem a trilha sonora do teu caminho. Tudo isto é teu, se quiseres, se puderes ver. As paisagens infinitas se cobrem de forração verdejante. No lombo de feras imensas eu conheci os corpos de homens e de animais paleóticos. Eu dancei com os mitos antigos antes de te conhecer. E tu me fascinas porque também olhaste nos olhos dos mitos. Mas não sei dizer o que pudestes ver. Eu queria dizer que anseio por percorrer contigo um campo infinito. Mas eu tenho muito mêdo de que digas "não".
Se me abandonares às minhas próprias aventuras, ainda assim não ficarei solitário. Meu espírito vagará em boa companhia, embora talvez eu ainda me sinta um pouco só. Voltarei para te contar de todas as histórias, e por mais que me doa tudo o que não puder ser contado, tentarei ao máximo mostrar a beleza das pequenas coisas, dos detalhes dos encontros. Da borboleta que na verdade era um dragão. And so forth. Mas quero te pedir que não te vistas sempre em roupas de rainha, porque alguns tipos de trabalho exigem um gibão de couro e um par de galochas. Nós vamos entrar juntas nas florestas difíceis da terra dos Anjos. Nós vamos encontrar os olhos de antiqüíssimos deuses do Norte, de antes do Ragnarokk. E vamos pegar carona nos velhos ventos. Serás minha princesa, mesmo se não fores minha companheira de batalhas. Mas meus companheiros então serão tufões de vento, criaturas da noite, pessoas de coração como o meu, dispostos a enfrentar dragões, capazes de amar os dentes das bocas que os mordem.
Eu não guardarei rancor, porque também os amo, porque não estarei só e entenderei tua decisão de não vir conosco. Na verdade apenas serei capaz de aceitar essa decisão porque não estou só, mesmo agora. Tenho um sonho que me acompanha, um gato de orelhas negras que está sempre perto dos meus pés e corre comigo e me carrega nas costas quando preciso descansar. Eu sonhava com que dormisses comigo aninhada na barriga fofa desse animal, eu sonhava com que caçasse conosco pelos campos nevados e pelas florestas fechadas e pela tundra que cobre as planícies perto da noite. Mas se me disseres não, montarei no flanco do meu gato, vestirei minha armadura e amarrarei teu lenço, minha dama dos sonhos, na ponta da minha lança, antes de seguir para o Castelo de Nuvens onde o Rei dos Elefantes, que tem seis braços de seis diferentes cores, me dará uma missão. Eu não ficarei sozinha, mas em noites de lua mansa em que a brisa do mar-de-longe me trouxer o cheiro das nossas viagens, eu segurarei o lenço, rasgado e manchado de sangue, perto da boca, sem coragem de morder, com mêdo de perturbar os velhos demônios da tua falta. E tu serás um sonho que corre pelos uivos dos lobos, vivendo uma vida fora do meu alcance. Eu voltarei para ti, cheio de cicatrizes, e beberemos e comeremos e trocaremos histórias de caça e de reinado. Mas a cada inverno eu me terei mêdo de ter te perdido outra vez. Eu quererei te ter comigo, meu irmão de sonhos, minha irmã de noites. O gato na verdade é um homem. Tu viverás sem mim. Eu me esforçarei para parar de mentir para ti, de parar de me esconder. Tu serás feliz.
Mas esta noite, quando eu morrer na luta contra o dragão, eu cavaleiro de histórias antigas, eu teu Lancelot-Morgana, condenado a te deixar nas mãos de Guinevere, eu tocarei teu rosto com amor e explodirei como um milhão de liridas g'alambra, um milhão de pássaros de sombras levando-te comigo em todas as direções. E tu te tornarás um animal de asas.
Nos separaremos, então. Sempre nos separamos. Mas distantes é que se torna forte a única coisa realmente preciosa que posso oferecer e que ainda não tenhas: sozinha é que melhor saberás apreciar a Liberdade. Antes de ser Lancelot eu me chamava Galahad. E tu, quando não eras rei, te chamavas Gwydion. Tu eras um gamo jovem. E tu eras uma dama-fada, enfeitiçada pelos rei de Faërie. E eu era uma Lôba jovem, Raksha, uma mãe de lobos e homens, uma mulher do sangue, e um príncipe, desses que toma navios para o fim do mundo, desses que nada tem fora a própria liberdade. E eu... eu vim até aqui apenas para oferecê-la a ti. Eu sei que não a queres. Eu sei que queres todo um outro mundo. Mas não posso evitar sonhar com a tua companhia. Não posso evitar sonhar que enxergues que apenas quero te permitir ser feliz mesmo quando os reis do teu castelo não puderem te fazer sorrir. Eu quero te dar a ti mesma. Eu quero os teus olhos nos meus. Eu tenho mêdo. O rei era na verdade um namorado. O gamo era na verdade uma carta. A espada era na verdade um telefonema. Vamos voltar para casa agora. Eu te amo.
Se me abandonares às minhas próprias aventuras, ainda assim não ficarei solitário. Meu espírito vagará em boa companhia, embora talvez eu ainda me sinta um pouco só. Voltarei para te contar de todas as histórias, e por mais que me doa tudo o que não puder ser contado, tentarei ao máximo mostrar a beleza das pequenas coisas, dos detalhes dos encontros. Da borboleta que na verdade era um dragão. And so forth. Mas quero te pedir que não te vistas sempre em roupas de rainha, porque alguns tipos de trabalho exigem um gibão de couro e um par de galochas. Nós vamos entrar juntas nas florestas difíceis da terra dos Anjos. Nós vamos encontrar os olhos de antiqüíssimos deuses do Norte, de antes do Ragnarokk. E vamos pegar carona nos velhos ventos. Serás minha princesa, mesmo se não fores minha companheira de batalhas. Mas meus companheiros então serão tufões de vento, criaturas da noite, pessoas de coração como o meu, dispostos a enfrentar dragões, capazes de amar os dentes das bocas que os mordem.
Eu não guardarei rancor, porque também os amo, porque não estarei só e entenderei tua decisão de não vir conosco. Na verdade apenas serei capaz de aceitar essa decisão porque não estou só, mesmo agora. Tenho um sonho que me acompanha, um gato de orelhas negras que está sempre perto dos meus pés e corre comigo e me carrega nas costas quando preciso descansar. Eu sonhava com que dormisses comigo aninhada na barriga fofa desse animal, eu sonhava com que caçasse conosco pelos campos nevados e pelas florestas fechadas e pela tundra que cobre as planícies perto da noite. Mas se me disseres não, montarei no flanco do meu gato, vestirei minha armadura e amarrarei teu lenço, minha dama dos sonhos, na ponta da minha lança, antes de seguir para o Castelo de Nuvens onde o Rei dos Elefantes, que tem seis braços de seis diferentes cores, me dará uma missão. Eu não ficarei sozinha, mas em noites de lua mansa em que a brisa do mar-de-longe me trouxer o cheiro das nossas viagens, eu segurarei o lenço, rasgado e manchado de sangue, perto da boca, sem coragem de morder, com mêdo de perturbar os velhos demônios da tua falta. E tu serás um sonho que corre pelos uivos dos lobos, vivendo uma vida fora do meu alcance. Eu voltarei para ti, cheio de cicatrizes, e beberemos e comeremos e trocaremos histórias de caça e de reinado. Mas a cada inverno eu me terei mêdo de ter te perdido outra vez. Eu quererei te ter comigo, meu irmão de sonhos, minha irmã de noites. O gato na verdade é um homem. Tu viverás sem mim. Eu me esforçarei para parar de mentir para ti, de parar de me esconder. Tu serás feliz.
Mas esta noite, quando eu morrer na luta contra o dragão, eu cavaleiro de histórias antigas, eu teu Lancelot-Morgana, condenado a te deixar nas mãos de Guinevere, eu tocarei teu rosto com amor e explodirei como um milhão de liridas g'alambra, um milhão de pássaros de sombras levando-te comigo em todas as direções. E tu te tornarás um animal de asas.
Nos separaremos, então. Sempre nos separamos. Mas distantes é que se torna forte a única coisa realmente preciosa que posso oferecer e que ainda não tenhas: sozinha é que melhor saberás apreciar a Liberdade. Antes de ser Lancelot eu me chamava Galahad. E tu, quando não eras rei, te chamavas Gwydion. Tu eras um gamo jovem. E tu eras uma dama-fada, enfeitiçada pelos rei de Faërie. E eu era uma Lôba jovem, Raksha, uma mãe de lobos e homens, uma mulher do sangue, e um príncipe, desses que toma navios para o fim do mundo, desses que nada tem fora a própria liberdade. E eu... eu vim até aqui apenas para oferecê-la a ti. Eu sei que não a queres. Eu sei que queres todo um outro mundo. Mas não posso evitar sonhar com a tua companhia. Não posso evitar sonhar que enxergues que apenas quero te permitir ser feliz mesmo quando os reis do teu castelo não puderem te fazer sorrir. Eu quero te dar a ti mesma. Eu quero os teus olhos nos meus. Eu tenho mêdo. O rei era na verdade um namorado. O gamo era na verdade uma carta. A espada era na verdade um telefonema. Vamos voltar para casa agora. Eu te amo.
quinta-feira, 9 de junho de 2011
Discurso do twitter++
#diadosnamorados
Posso falar? Eu detesto o dia dos namorados. Sempre que chega esse dia eu tenho vontade de estar solteira! Acho que é porque eu sempre tenho vontade de estar solteira, mas também porque todas as lembranças realmente boas que tenho de dias dos namorados são das Festas de Solteiros, nos poucos ou velhos dias em que eu tava solteira. De verdade, não consigo lembrar o que eu fiz nos dias de namorados em que eu tava namorando. Fora no último deles, em que eu decidi terminar meu namoro.
Essa institucionalização do amor me incomoda tanto que eu não consigo aproveitar. E eu não preciso de datas coletivas pra coisas pessoais. Na verdade, eu me incomodo profundamente com a idéia de que todo mundo estará comemorando seus namoros ao mesmo tempo que eu. Eu não quero achar que meu relacionamento, tão especial, com alguém que eu amo tanto que vale a pena sacrificar minha liberdade por ela, é apenas mais um na mesma categoria de tantos outros que não têm nada a ver com ele. Até porque eu nunca me submeteria a algumas coisas que a maior parte dos namorados acha normal. E temn tanto namoro aí afora que é tão menos significativo que o meu! Eu não quero fazer parte desse conjunto.
Com isso tudo em mente, proponho mudar o nome desse dia pra Dia dos Solteiros, e que todo mundo seja solteiro por um dia! \o/ Vejam só, a gente se divertiria um monte, aproveitaria a diversão de ser solteiro, juntaria os casados e os solteiros numa grande festa, e refletiria muito mais profundamente sobre a validade dos nossos namoros. A putaria é opcional.
Dia dos Solteiros ftw! Apoiem esse projeto!
Posso falar? Eu detesto o dia dos namorados. Sempre que chega esse dia eu tenho vontade de estar solteira! Acho que é porque eu sempre tenho vontade de estar solteira, mas também porque todas as lembranças realmente boas que tenho de dias dos namorados são das Festas de Solteiros, nos poucos ou velhos dias em que eu tava solteira. De verdade, não consigo lembrar o que eu fiz nos dias de namorados em que eu tava namorando. Fora no último deles, em que eu decidi terminar meu namoro.
Essa institucionalização do amor me incomoda tanto que eu não consigo aproveitar. E eu não preciso de datas coletivas pra coisas pessoais. Na verdade, eu me incomodo profundamente com a idéia de que todo mundo estará comemorando seus namoros ao mesmo tempo que eu. Eu não quero achar que meu relacionamento, tão especial, com alguém que eu amo tanto que vale a pena sacrificar minha liberdade por ela, é apenas mais um na mesma categoria de tantos outros que não têm nada a ver com ele. Até porque eu nunca me submeteria a algumas coisas que a maior parte dos namorados acha normal. E temn tanto namoro aí afora que é tão menos significativo que o meu! Eu não quero fazer parte desse conjunto.
Com isso tudo em mente, proponho mudar o nome desse dia pra Dia dos Solteiros, e que todo mundo seja solteiro por um dia! \o/ Vejam só, a gente se divertiria um monte, aproveitaria a diversão de ser solteiro, juntaria os casados e os solteiros numa grande festa, e refletiria muito mais profundamente sobre a validade dos nossos namoros. A putaria é opcional.
Dia dos Solteiros ftw! Apoiem esse projeto!
terça-feira, 10 de maio de 2011
Amor Livre - ~~
Sabe aquela sensação de que nada mais importa? Então. Não é o que eu quero. Não quero ficar preso a uma pessoa, acorrentado a uma esperança de que vamos nos ver de novo. Não quero ser refém de uma promessa, mesmo que tácita, de que devemos algo um para o outro. Eu preciso saber que, a qualquer momento, eu posso decidir nunca mais ligar, nunca mais ver, nunca mais falar - e se eu ligo, vejo e falo é exclusivamente porque eu quero. E isso tudo exige um tremendo esforço. É tão fácil se acostumar com as outras pessoas (e eu não quero que você se acostume comigo). E me pergunto, será que eu vou me acostumar? Será que eu vou querer me acostumar um dia? Será que vai começar a fazer parte da minha vida, cada dia um pouquinho mais, até que não tenha mais volta?
Sim. E isso me assusta, todos os dias. Eu estou tão acostumada com você, mas eu não quero te ver só porque está estabelecido que será assim. Eu não quero que você tome cada decisão pensando em mim. Tudo mudou, é claro, tudo sempre muda, mas as palavras do último outono ainda têm cheiro de mato e de mar, e nós nunca cumprimos aquelas promessas de vento, de se perder, de caçar. E antes do próximo outono eu quero viver com você pelo menos mais um sonho. E eu quero saber que embarcamos nessa não só porque é confortável, mas porque é Awesome.
Sabe o que eu quero? Eu quero que você diga que tudo o mais importa, e que todos nós vamos fazer o que for melhor, em cada circunstância, e que a gente não vai se sacrificar pelas coisas chatas, e sim pelas coisas que realmente vão mudar o nosso mundo. Entende?
quarta-feira, 6 de abril de 2011
Aqui.
Eu te amo. Mas eu não apenas te amo como eu amo todas as outras pessoas que eu amo. Eu estou disposta a sacrificar milhões de futuros pelo meu futuro com você. Os filhos que eu teria com outros amantes, as festas de natal com outras famílias, as bibliotecas compartilhadas, as casas, as canecas e os sofás e todas aquelas madrugadas e manhãzinhas e conversas antes de dormir quando a gente está dormindo junto só porque a gente dorme junto sempre e é tão mais gostoso do que dormir sozinho. E vários tipos de aventuras românticas loucas, e várias descobertas profundas e vários momentos cotidianos e outras coisas que só acontecem numa convivência tão íntima e tão intensa que é não dá pra ter de verdade com mais de uma ou talvez umas poucas pessoas.
Eu quero viver a vida com você. Todas as madrugadas e viagens longas na chuva, e cafés da manhã a almoços no fim da tarde e todas as pequenas mazelas e todos os grandes desafios, e eu quero poder te contar todos os dias das coisas legais e chatas que aconteceram comigo, e ouvir você se emocionar com elas e se revoltar com as coisas que são erradas e rejubilar com as que são felizes, e ficar preocupado com as que são perigosas porque assim eu não estou sozinha. E eu quero ouvir você contar suas pequenas aventuras e as formas incríveis como você lida com tudo o que te acontece, porque eu nunca me canso de aprender sobre você e com você.
E, enquanto nós crescemos juntos, enquanto nós andamos juntos pelo mundo, pela vida, eu quero nossas vidas misturadas. Eu quero nossos irmãos tomando conta dos nossos filhotes, discutindo coisas improváveis em volta de uma grande mesa de piquenique, ou algo assim. Eu imagino sua irmã contando histórias para os meus sobrinhos, possivelmente enquanto todos nós subimos numa árvore e nossas mães e tias compartilham histórias de quando nós éramos pequenos, e eu quero todos nós juntos cantando samba e choro em alguma festa de família e nossos amigos contando histórias embaraçosas sobre nós para as crianças (se nós não tivermos filhos, eles ainda contarão para nossos sobrinhos).
E, sabe, eu quero isso devagar, minuto por minuto, cada aluno que não entende direito o que você ensina, cada lista de matemática que eu não consigo terminar, cada noite que a gente passa em claro porque o jogo ou o papo ou o mundo estão muito bons ou porque pelo menos um de nós está distraído demais com alguma pessoa incrível, cada improviso de fantasia, de viagem, de apresentação, cada entrevista de emprego, cada procura por orientador, cada pessoa nova que surge em nossas vidas ou pessoa velha que muda. Eu quero todas as viagens impulsivas no meio da noite só porque faz muito tempo que a gente não vê Minas, ou o Mar; eu quero todas as experiências transformadoras com você; eu quero cada partida de cada jogo em que a gente vicia, cada brinde, cada pote de sucrilhos e garrafa de cerveja; eu quero cada pôr do sol que nos emociona, e cada beijo, e cada transa, e cada arrepio diante da potência de uma tempestade, e cada abraço que podia nunca mais largar; e cada toque entre as nossas peles, e cada brincadeira sua com o meu gato, e eu quero construir um trecho de universo nosso, que seja um pouco mais do nosso jeito, e que seja por isso um pouco mais feliz.
E como eu quero te fazer feliz! Eu quero te ver conquistar os seus sonhos, e mudar a vida de muitas outras pessoas, e construir comigo esse futuro a cada passo, sem pressa, porque você é tão confiante de que tudo já está dando certo afinal. E eu quero estar do seu lado a cada mudança, a cada passagem, aprendendo sobre você, mudando junto, mandando tudo pro espaço e te puxando pra Zanzibar toda vez que a vida começar a ficar muito sem graça. E eu quero infinitas horas pra ficar enrolada com você, só curtindo o prazer de te amar tanto. E eu quero tudo isso com todas as palavras, mesmo que em gatês. Eu quero tudo isso com todas as histórias, loucuras e verdades. E eu quero viver pra sempre com você.
...Num assunto não muito relacionado, eu também quero muito levar aquele seu amigo delicioso pra casa. Se você pudesse dar tipo um passe-livre pra gente, ia ser realmente fantástico.
Eu quero viver a vida com você. Todas as madrugadas e viagens longas na chuva, e cafés da manhã a almoços no fim da tarde e todas as pequenas mazelas e todos os grandes desafios, e eu quero poder te contar todos os dias das coisas legais e chatas que aconteceram comigo, e ouvir você se emocionar com elas e se revoltar com as coisas que são erradas e rejubilar com as que são felizes, e ficar preocupado com as que são perigosas porque assim eu não estou sozinha. E eu quero ouvir você contar suas pequenas aventuras e as formas incríveis como você lida com tudo o que te acontece, porque eu nunca me canso de aprender sobre você e com você.
E, enquanto nós crescemos juntos, enquanto nós andamos juntos pelo mundo, pela vida, eu quero nossas vidas misturadas. Eu quero nossos irmãos tomando conta dos nossos filhotes, discutindo coisas improváveis em volta de uma grande mesa de piquenique, ou algo assim. Eu imagino sua irmã contando histórias para os meus sobrinhos, possivelmente enquanto todos nós subimos numa árvore e nossas mães e tias compartilham histórias de quando nós éramos pequenos, e eu quero todos nós juntos cantando samba e choro em alguma festa de família e nossos amigos contando histórias embaraçosas sobre nós para as crianças (se nós não tivermos filhos, eles ainda contarão para nossos sobrinhos).
E, sabe, eu quero isso devagar, minuto por minuto, cada aluno que não entende direito o que você ensina, cada lista de matemática que eu não consigo terminar, cada noite que a gente passa em claro porque o jogo ou o papo ou o mundo estão muito bons ou porque pelo menos um de nós está distraído demais com alguma pessoa incrível, cada improviso de fantasia, de viagem, de apresentação, cada entrevista de emprego, cada procura por orientador, cada pessoa nova que surge em nossas vidas ou pessoa velha que muda. Eu quero todas as viagens impulsivas no meio da noite só porque faz muito tempo que a gente não vê Minas, ou o Mar; eu quero todas as experiências transformadoras com você; eu quero cada partida de cada jogo em que a gente vicia, cada brinde, cada pote de sucrilhos e garrafa de cerveja; eu quero cada pôr do sol que nos emociona, e cada beijo, e cada transa, e cada arrepio diante da potência de uma tempestade, e cada abraço que podia nunca mais largar; e cada toque entre as nossas peles, e cada brincadeira sua com o meu gato, e eu quero construir um trecho de universo nosso, que seja um pouco mais do nosso jeito, e que seja por isso um pouco mais feliz.
E como eu quero te fazer feliz! Eu quero te ver conquistar os seus sonhos, e mudar a vida de muitas outras pessoas, e construir comigo esse futuro a cada passo, sem pressa, porque você é tão confiante de que tudo já está dando certo afinal. E eu quero estar do seu lado a cada mudança, a cada passagem, aprendendo sobre você, mudando junto, mandando tudo pro espaço e te puxando pra Zanzibar toda vez que a vida começar a ficar muito sem graça. E eu quero infinitas horas pra ficar enrolada com você, só curtindo o prazer de te amar tanto. E eu quero tudo isso com todas as palavras, mesmo que em gatês. Eu quero tudo isso com todas as histórias, loucuras e verdades. E eu quero viver pra sempre com você.
...Num assunto não muito relacionado, eu também quero muito levar aquele seu amigo delicioso pra casa. Se você pudesse dar tipo um passe-livre pra gente, ia ser realmente fantástico.
sexta-feira, 18 de março de 2011
comentário sobre garotas de pernas peludas
(eu acho que de todos os assuntos pelos quais eu me interesso este talvez seja o menos interessante para os outros. não dá pra ter certeza, já que ninguém nunca comenta nada sobre uma grande parte deles)
Uma coisa curiosa a respeito de deixar as pernas peludas por muito tempo é que aos poucos você começa a notar nitidamente até que ponto essa idéia de que pernas sem pêlos são mais bonitas e atraentes é cultural. O que quero dizer é que aos poucos a gente vai deixando de achar a pele nua mais bonita. Na verdade, ontem eu fiquei algum tempo olhando para minhas canelas, horrorizada com aquela pele branca pelada cheia de pontonhos onde os folículos pilosos ainda existiam sem nada de pêlo por cima. Que coisa esquisita. Parece pele de bebê, e quem em sã consciência quereria ter pele de bebê? Estou dignamente cansada de ser neotênica; por favor, me permitam ser apreciada como uma espécime adulta.
Ás vezes ainda tenho momentos nos quais eu olho pros meus joelhos e penso "AAAAAAHHH! PÊLOS!! O.O!!", e foi por isso que eu raspei as canelas ontem, mas faz algum tempo já que tive que me conformar com o fato de que eu gosto de ter coxas felpudas, gosto tanto que me desagrada tê-las completamente lisas.
Pernas peludas podiam entrar na moda, e aí as pessoas não ficariam reparando tanto, e me enchendo tanto o saco, e eu podia parar de me preocupar com isso. Na verdade, se eu fosse um pouco menos peluda, eu provavelmente já teria abdicado completamente dessa preocupação. Mas é claro que a pessoa que mais vai se incomodar com uma obrigação social é justamente a que é mais obrigada. E não me digam que não é uma obrigação social.
É um pouco mais do que achar que as minhas pernas ficam melhores com pêlos. Estou começando a achar que as outras garotas ficam melhores com pêlos também.
(numa nota vagamente relacionada, continuo pensando a respeito do que o Carlos disse ("eu gosto de garotas peludas" + "eu acho que pêlos são um símbolo de virilidade") e o pensamento dele está fazendo cada vez mais sentido pra mim. Dependendo da sua definição de virilidade, e do aspecto envolvido, não me incomoda você querer suas mulheres viris.)
(eu estou numa vibe de não ver contradição nas coisas hoje, não?)
Enfim, que explodam todas as convenções sociais! Meu cavalo por um pouco mais de liberdade!
Uma coisa curiosa a respeito de deixar as pernas peludas por muito tempo é que aos poucos você começa a notar nitidamente até que ponto essa idéia de que pernas sem pêlos são mais bonitas e atraentes é cultural. O que quero dizer é que aos poucos a gente vai deixando de achar a pele nua mais bonita. Na verdade, ontem eu fiquei algum tempo olhando para minhas canelas, horrorizada com aquela pele branca pelada cheia de pontonhos onde os folículos pilosos ainda existiam sem nada de pêlo por cima. Que coisa esquisita. Parece pele de bebê, e quem em sã consciência quereria ter pele de bebê? Estou dignamente cansada de ser neotênica; por favor, me permitam ser apreciada como uma espécime adulta.
Ás vezes ainda tenho momentos nos quais eu olho pros meus joelhos e penso "AAAAAAHHH! PÊLOS!! O.O!!", e foi por isso que eu raspei as canelas ontem, mas faz algum tempo já que tive que me conformar com o fato de que eu gosto de ter coxas felpudas, gosto tanto que me desagrada tê-las completamente lisas.
Pernas peludas podiam entrar na moda, e aí as pessoas não ficariam reparando tanto, e me enchendo tanto o saco, e eu podia parar de me preocupar com isso. Na verdade, se eu fosse um pouco menos peluda, eu provavelmente já teria abdicado completamente dessa preocupação. Mas é claro que a pessoa que mais vai se incomodar com uma obrigação social é justamente a que é mais obrigada. E não me digam que não é uma obrigação social.
É um pouco mais do que achar que as minhas pernas ficam melhores com pêlos. Estou começando a achar que as outras garotas ficam melhores com pêlos também.
(numa nota vagamente relacionada, continuo pensando a respeito do que o Carlos disse ("eu gosto de garotas peludas" + "eu acho que pêlos são um símbolo de virilidade") e o pensamento dele está fazendo cada vez mais sentido pra mim. Dependendo da sua definição de virilidade, e do aspecto envolvido, não me incomoda você querer suas mulheres viris.)
(eu estou numa vibe de não ver contradição nas coisas hoje, não?)
Enfim, que explodam todas as convenções sociais! Meu cavalo por um pouco mais de liberdade!
sexta-feira, 29 de outubro de 2010
Do som que sai dos teus lábios
texto: Marina Salles
ilustração: Márcio Zamboni
música: Carl Orff
Então eu abro os olhos e meus olhos se enchem de música. Aí está você: nesse som, nesse verde que enche meus olhos quando eu vejo a paz que me invade quando eu ouço esta melodia, estas vozes. Neste momento, eu te amo. Neste momento eu sou o que eu quero, um cavaleiro voando sobre os campos, nada me pára, nada me contém, há coisas que eu salto e há coisas sob as quais me abaixo, mas nada se interpõe à minha vista do céu, porque neste momento eu sou livre, e neste momento eu alcanço o que você quis me dar. Eu alço vôo e o mundo é realmente tão grande!, como você disse... Uma guerra uma poesia se desenrola debaixo de mim. E de repente há silêncio. Acabou uma música.
Você concordou que dizer eu-te-amo era muito complicado e eu tive que me explicar: o que estou dizendo é: (eu te amo é:)

É que você chegou a mim
E num instante você viveu em mim
E sem perceber você entendeu uma parte de mim
Você estendeu a mim a sua chama
Você alegrou meu coração e mudou minha vida
E agora...
E agora eu te dou um passe
Para que entre e saia livremente dessa terra
Um passe-livre por meu coração.

E agora é esta a paisagem dentro de mim: há tapetes vermelhos dentro de um castelo, uma fortaleza, que assoma no topo de uma encosta, eu eu sou o pássaro que circunda a torre mais alta, e eu sou o homem que entra com passos pesados na sala do trono. Tudo é um sonho e tudo se desfaz. A música muda e as faces dos homens mudam. Tudo é energia, um tambor que bate regendo o coração dos homens. E eu estou aqui, eu sou as paredes e os cascos dos navios, eu sou o couro dos tambores, eu estou aqui tentando sentir e entender, procurando a resposta, procurando através dessa música, procurando a lembrança do som que saiu dos teus lábios. Eu procuro (e eu sei que é em vão) o som da tua voz através das trombetas, o som da tua voz cantando pra mim, a lembrança de você olhando nos meus olhos. Tudo é tão suave, e tão pesado, e entretanto de repente eu sou uma pomba, eu vôo sem destino, meus olhos são lágrimas, minha boca é um gosto passado, eu sou um anjo perdido procurando a resposta, procurando o sentido do som que saiu dos teus lábios.

Quem eu sou? Você me pergunta e eu sou a sua pergunta. Mas agora não importa. Quando sair de mim, deixe aberta a porta -- há muito lá fora que eu quero convidar a entrar; há muito no mundo que eu quero habitar, mas que também quero que me habite. Eu devo ser a terra e o viajante (eu devo ser a estrada e o violeiro) e eu devo ser a fonte e o sedento, e eu quero ser bem boi como berrante. Me guia e eu te guio! Eu sou o céu e a estrela. Eu não ouço as palavras desta música, mas pra mim é como o céu cantando, eu ouço a voz dos astros e eu flutuo entre eles. E eu ouço a voz da vala das estrelas. E eu lembro da sua história, e eu tento imaginar a beleza -- como será acenderem-se as estrelas?

Então as estrelas disparam e o mundo vira uma torrente uma avalanche, eu páro no meio da música, olho ao redor, suspiro, respiro fundo e me pergunto: onde estou? Esta é a minha casa, hoje é dia das mães. Mas não significa nada. Minha alma não entende nada de casas e calendários. E eu não entendo nada de música. Eu sou um joguete nas mãos dessa melodia. Finalmente eu lembro da tua voz, a tua voz cantando, a tua voz dizendo declamando com tom grave a thousand kisses deep. Mas eu devo te ouvir, cada canção, cada palavra, e enxergar cada emoção que teu olhar transparece. Eu rio. Porque te leio tão fácil e mesmo assim desconheço. Quem você é? Eu pergunto e eu sou a minha pergunta. Mas só por muito pouco tempo. Num instante eu pisco como uma estrela e eu sou outra coisa, eu sou uma outra vida. Minha alma é uma coisa dispersa, um vento, uma torrente que se divide e volta a se unir. Eu rio, porque eu sou leve agora. Agora eu não posso te ouvir, mas sei o que você fala. Porque através dessa música é você que fala, e é você no meio do mundo de vozes que é o universo. Eu ouço tudo, mas muito pouco eu entendo. E como quero entender! Por isso continuo buscando, eu estou buscando a pergunta, e eu busco todas as coisas através das vozes de todas as bocas.

E como a tua boca me morde, eu enxergo no clarão da dor o grito de todas as coisas. A tua voz nem existe agora, só existe esse terror, esse rosnado. Meu coração dispara e meu sangue urra, no fogo do teu veneno e na explosão dum sors salutis -- e de repente minha alma é fogo, meu mundo é fera, meu sangue é fúria e eu devoro o mundo e nada mais é anjo nada mais é água nada mais é calmaria porque tudo é pura loucura! Eu me levanto contra o frio da noite eu sou o Sol, invicto e irremovível, iluminando e queimando as retinas de todas as coisas eu sou a Luz cuspida de teus lábios eu sou o teu sangue e meu peito cresce num rosnado-desejo que fagocita o mundo e num instante eu sou completamente um tudo demoníaco -- e então minha alma voa.

Do alto do vôo da minha alma eu estou ouvindo palmas, e isso quer dizer que a música acabou. Mas eu me sinto leve, a música me liberta, eu fecho os olhos e a noite me carrega para onde eu quero estar, onde a música é nectar, onde a tua voz existe dentro de mim, no ímpeto de um raio e na candura de uma vela. Eu abro os olhos e você está me olhando, mas já não são olhos de fera. Então eu abro os olhos e estou aqui novamente, e eu estou sozinha.

Eu apoio o rosto nas mãos, e meus olhos são lágrimas, e meu coração ressona e tudo é silêncio através dos pequenos barulhos do dia. Eu caio em mim. Eu olho para o céu, e eu estou buscando a pergunta que eu sei que não existe, e eu queria ser o ar para poder me encher desses sons que saem de todos os lábios
quarta-feira, 8 de setembro de 2010
Olho
Sempre tão calmo. Por que é sempre tão calmo?
Eu levantei e dei voltas pelo seu quarto, enlouquecida, querendo destruir tudo, querendo fazer você entender. Você não entendeu. Você nunca chegou a realmente entender. Você perguntou o que eu estava fazendo, e eu disse, nada, eu queria era saber o que você não estava fazendo, e por quê.
É sempre tão calmo.
Você se aninha em mim, eu me aninho em você, um ou dois ou três gatos se aninham em nós, entre nós, por cima e ao redor de nós, e nós somos um ninho.
Tomar café na grama.
Subir em árvore.
Tomar sol.
Cozinhar.
Amar.
Tem tanta coisa linda no nosso mundo, mas o que eu queria mesmo era botar fogo em tudo. Botar fogo em tudo! Deixar tudo queimar, fazer tudo arder, a começar por você!
Esses seus olhos sempre tão calmos, eu quero fazê-los sorrir de verdade, eu quero vê-los se arregalando de mêdo, se contraindo de fogo, enlouquecendo. E entretanto eu odeio ouvir dor na sua voz. Mas...
como me enerva ouvir na sua voz essa paz!
Eu levantei e dei voltas pelo seu quarto, enlouquecida, querendo destruir tudo, querendo fazer você entender. Você não entendeu. Você nunca chegou a realmente entender. Você perguntou o que eu estava fazendo, e eu disse, nada, eu queria era saber o que você não estava fazendo, e por quê.
É sempre tão calmo.
Você se aninha em mim, eu me aninho em você, um ou dois ou três gatos se aninham em nós, entre nós, por cima e ao redor de nós, e nós somos um ninho.
Tomar café na grama.
Subir em árvore.
Tomar sol.
Cozinhar.
Amar.
Tem tanta coisa linda no nosso mundo, mas o que eu queria mesmo era botar fogo em tudo. Botar fogo em tudo! Deixar tudo queimar, fazer tudo arder, a começar por você!
Esses seus olhos sempre tão calmos, eu quero fazê-los sorrir de verdade, eu quero vê-los se arregalando de mêdo, se contraindo de fogo, enlouquecendo. E entretanto eu odeio ouvir dor na sua voz. Mas...
como me enerva ouvir na sua voz essa paz!
segunda-feira, 24 de maio de 2010
Do som que sai dos teus lábios
Resumindo, eu escrevi, enviei para o Márcio e ele desenhou, ou melhor, está desenhando. Discutimos muitos esses desenhos na última viagem, e entendi melhor o que me atrai e o que me repele nele. Não sei se ele ouviu a primeira música da Carmina Burana para fazer este desenho, como deveria, mas mesmo assim ele conseguiu desenhar uma imagem quase igual à que estava na minha mente quando eu escrevi esse parágrafo — embora a parte de baixo do desenho, o rosto e o sopro-inspiração, sejam apenas dele. Acho estranho picotar o texto deste jeito, e pretendo publicar o conjunto inteiro no final; mas, ao mesmo tempo, acho interessante ir revelando aos poucos. Esta primeira parte é bem desinteressada e despretensiosa, e eu espero que tenhamos passado pelo menos o sentimento de prazer e liberdade que deveria haver. Eu espero que você alcance o que eu quis te dar. =)
Do som que sai dos teus lábios
(Carmina Burana, Carl Orff)
Então eu abro os olhos e meus olhos se enchem de música. Aí está você: nesse som, nesse verde que enche meus olhos quando eu vejo a paz que me invade quando eu ouço esta melodia, estas vozes. Neste momento, eu te amo. Neste momento eu sou o que eu quero, um cavaleiro voando sobre os campos, nada me pára, nada me contém, há coisas que eu salto e há coisas sob as quais me abaixo, mas nada se interpõe à minha vista do céu, porque neste momento eu sou livre, e neste momento eu alcanço o que você quis me dar. Eu alço vôo e o mundo é realmente tão grande!, como você disse... Uma guerra uma poesia se desenrola debaixo de mim. E de repente há silêncio. Acabou uma música.
segunda-feira, 17 de maio de 2010
De sobre o mirante
(a noite é uma criança distraída)
Eu achei que chegaria um dia que não seria assim tão incrível e aí eu ficaria muito decepcionada e até meio depressiva. Eu achei que ia ser horrível. Mas não foi assim. Foi só meio confuso. Eu acordei um dia sem grandes ambições. Eu acordei e queria escrever, cantar, almoçar com o Basílio e a Néia, jogar RPG talvez. Mentira, eu sabia que eu não conseguiria jogar. Mas eu queria ver meus amigos. Eu queria tentar. Então o dia escorreu assim, eu o tempo todo distraída, meio alheia, tanta coisa pra sentir atrasado, tanta coisa tenta pra pensar.
--------------------
Eu cheguei em casa, tirei a corrente do pescoço e tentei voltar para o mundo de antes, mas não podia, porque nem eu nem o rio éramos os mesmos. Eu tomei um banho longo e me joguei na cama e dormi, sem querer querendo, dormi pra tentar entender, pra tentar sincronizar meu corpo com o mundo de agora-aqui, e dormi sabendo que estava perdendo a noite perdendo tudo, e fui acordada com:
— Vamos assistir Carmina Burana na Luz em vinte-e-cinco minutos, você vem?
— Eu tô em casa, me deixa ir que eu corro como o vento pra tentar chegar a tempo.
Tudo deu errado mas eu cheguei a duas músicas e meia do final. Eu me emocionei com os últimos "venus..." a quinze metros do palco, eu me mantive lá contra os desejos dos meus que estavam tão mais longe. Eu andei pela multidão e os rostos das pessoas que ouviam eram de glória: olhos fechados, vários lábios cantando. Hoje o jornal dizia que foi uma apresentação pífia. Algumas músicas sobrevivem a qualquer coisa. E no final eu larguei todas as coisas para abrir os braços. Eu cantei também. Nada disso importa. E a partir daí foi uma noite como qualquer outra.
Eu olhei pra você e meu pensamento se contorceu numa careta, porque se só ouvir o seu nome já me distrai tanto do mundo, que dirá caminhar ao seu lado?
Teve um momento em que o Poru estava assustando as pessoas (não o culpem, a idéia foi minha) de um jeito muito simpático, e eu acho que eu causei a maior quantidade de mêdo num desconhecido na minha vida. É que aquela menina era muito linda. Talvez ela nem fosse perfeita, ela era tão delicada, não era gostosa, não emanava poder como as pessoas de quem eu geralmente gosto, ela... ela parecia uma flor, um lírio branco iluminado por um único raio de luar.
"Quando me tocas eu me transformo
Como uma flor que se abre
Como uma flor eu me abro
Para o calor do teu toque"
Ela tinha a pele clara e os traços delicados, cabelos escuros curtos meio ondulados emoldurando o rosto. Eu fui falar com o Poru e olhei para ela e disse "nossa". E eu começava a falar com o Poru mas meu olhar ficava se voltando para ela, e eu queria muito parar e conversar com ela, descobrir quem ela era, como eu poderia vê-la mais vezes (num pedestal), e ao mesmo tempo eu precisava dizer para o Poro que estávamos indo embora, beber cerveja com o Sacha (o que no final não fizemos ¬¬), dar tchau para os amigos do David, e em certo momento eu virei para ela e disse:
"Uau, como você é linda."
...
Se vocês tivessem visto o olhar dela, vocês entenderiam melhor porque naquela hora eu me senti um monstro. Um ogro raptor de donzelas. Eu tive mêdo de mim mesma. E aí fomos embora.
E depois conversamos bastante, e tudo meio enevoado, tudo tão bonito, tantas pessoas que... mas eu não digo nada, eu estou tão em silêncio. Assistimos Deixa ela entrar e foi tão emocionante quando a música antes. Um filme lindo. E depois fomos pra casa, e dormimos juntos, conversando sobre as coisas que precisávamos mudar, sobre nossos erros, sobre nosso amor, sobre os estudos, sobre acordar no dia seguinte, sobre xkcd, sobre i love the whole world (the future is pretty cool).
Então eu acordei pensando em como expressar, não pensando em viver ainda mais coisas incríveis e perfeitas. E ao longo do dia o mêdo foi ficando cada vez mais forte, o mêdo de não poder falar, o mêdo de estar tudo o que importa apenas um pouco além do limite das conversas razoáveis. Eu lembrei o olhar nos olhos deles quando eu falei da minha sexta-feira, eu lembrei de vários olhares de muitos tempos antes e depois. Eu fiquei com mêdo. Eu voltei pra casa depois do jogo e tentei escrever, mas tudo o que eu queria dizer não podia ser dito, e a minha pilha de rascunhos no blogger ficava cada vez maior. Mas eu não podia dizer.
Que dizer do que eu sinto por você? Do que não é desejo, não é amor, não é paixão, não é um interesse fútil? Que dizer do que nem eu entendo? Como eu posso te querer sem te querer? E como passar por cima do mêdo?
Que dizer do meu desejo por você, completamente despropositado?
Que dizer dos meus sonhos, dos meus mêdos, completamente errados?
Na calma, eu também pensei em você. Eu achei que chegaria um dia que seria perfeitamente normal e que eu odiaria isso. Mas não. Chegou um dia em que eu estava tão repleta de uma sensação de glória que nada mais parecia me importar. Como eu queria poder expressar! E tudo era tão silêncio. Eu parei e pensei em como eu me sentira feliz, como eu queria poder expressar essa alegria irrestrita, essa alegria devastadora, que me fez saltirar e rir e cantar e dançar ao redor de você. Como eu tenho que lhe agradecer pela alegria que me preencheu completamente, como eu nunca esperava ficar tão feliz! Depois disso nada mais importa, meu dia estava vazio, meu dia era um raio de sol o mais importante é o agora, mas eu vou viver o resto da minha vida lembrando desse mar, sabendo que por sua causa eu fui feliz, sabendo a importância de todas as outras pessoas que me trouxeram até aqui, eu estava sorrindo sem conseguir lidar direito com esse foco de luz que nasceu no meu peito, essa torre iluminada de marfim que brilha, que desvela praias e falésias, flores, tiés-sangue, que está vazia agora mas que prepara uma festa, e é tudo por você, meu companheiro de viagem, meu bardo, muito obrigada!
Eu quero criar um novo nome para um tipo de relacionamento. Não vai se chamar conquistadores de mundo. Estou em dúvida entre Companheiros de Caça e Companheiros de Viagem. Eu quero virar com você, viajar e caçar com você. Essa é a minha luz, a minha alegria, o meu farol. Ugo, teu barco (o Sonho) vai se guiar também por esse farol. Quando nós navegarmos juntos, nós nos reuniremos nessa torre. É a primeira construção em muito tempo que não está cinzenta e abandonada. Não há demônios aqui! Nós nos guiaremos por sua luz. Daqui a cem anos, se eu me lembrar desse dia, eu ainda terei luz para guiar minha jornada.
Isso tudo me assusta.
Me assusta porque não posso chamar a todos para virem comigo se eu não puder convidá-los para a festa. Eu quero chamar vocês, que eu amo, que me apóiam sempre. Senão, quem virá para a festa. Eu sei: senão, virão todos os demônios para a festa. E ali eles vagarão sem destino, ali eles tomarão conta de mais uma construção que eu abandonarei. Meu farol! Minha torre de luz! Não! Eu vou dar um jeito. Eu vou criar coragem e quebrar todas as barreiras. Pelo amor. Por mim. Por sempre.
Eu vou falar a verdade.
Mas não agora.
Eu achei que chegaria um dia que não seria assim tão incrível e aí eu ficaria muito decepcionada e até meio depressiva. Eu achei que ia ser horrível. Mas não foi assim. Foi só meio confuso. Eu acordei um dia sem grandes ambições. Eu acordei e queria escrever, cantar, almoçar com o Basílio e a Néia, jogar RPG talvez. Mentira, eu sabia que eu não conseguiria jogar. Mas eu queria ver meus amigos. Eu queria tentar. Então o dia escorreu assim, eu o tempo todo distraída, meio alheia, tanta coisa pra sentir atrasado, tanta coisa tenta pra pensar.
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Eu cheguei em casa, tirei a corrente do pescoço e tentei voltar para o mundo de antes, mas não podia, porque nem eu nem o rio éramos os mesmos. Eu tomei um banho longo e me joguei na cama e dormi, sem querer querendo, dormi pra tentar entender, pra tentar sincronizar meu corpo com o mundo de agora-aqui, e dormi sabendo que estava perdendo a noite perdendo tudo, e fui acordada com:
— Vamos assistir Carmina Burana na Luz em vinte-e-cinco minutos, você vem?
— Eu tô em casa, me deixa ir que eu corro como o vento pra tentar chegar a tempo.
Tudo deu errado mas eu cheguei a duas músicas e meia do final. Eu me emocionei com os últimos "venus..." a quinze metros do palco, eu me mantive lá contra os desejos dos meus que estavam tão mais longe. Eu andei pela multidão e os rostos das pessoas que ouviam eram de glória: olhos fechados, vários lábios cantando. Hoje o jornal dizia que foi uma apresentação pífia. Algumas músicas sobrevivem a qualquer coisa. E no final eu larguei todas as coisas para abrir os braços. Eu cantei também. Nada disso importa. E a partir daí foi uma noite como qualquer outra.
Eu olhei pra você e meu pensamento se contorceu numa careta, porque se só ouvir o seu nome já me distrai tanto do mundo, que dirá caminhar ao seu lado?
Teve um momento em que o Poru estava assustando as pessoas (não o culpem, a idéia foi minha) de um jeito muito simpático, e eu acho que eu causei a maior quantidade de mêdo num desconhecido na minha vida. É que aquela menina era muito linda. Talvez ela nem fosse perfeita, ela era tão delicada, não era gostosa, não emanava poder como as pessoas de quem eu geralmente gosto, ela... ela parecia uma flor, um lírio branco iluminado por um único raio de luar.
"Quando me tocas eu me transformo
Como uma flor que se abre
Como uma flor eu me abro
Para o calor do teu toque"
Ela tinha a pele clara e os traços delicados, cabelos escuros curtos meio ondulados emoldurando o rosto. Eu fui falar com o Poru e olhei para ela e disse "nossa". E eu começava a falar com o Poru mas meu olhar ficava se voltando para ela, e eu queria muito parar e conversar com ela, descobrir quem ela era, como eu poderia vê-la mais vezes (num pedestal), e ao mesmo tempo eu precisava dizer para o Poro que estávamos indo embora, beber cerveja com o Sacha (o que no final não fizemos ¬¬), dar tchau para os amigos do David, e em certo momento eu virei para ela e disse:
"Uau, como você é linda."
...
Se vocês tivessem visto o olhar dela, vocês entenderiam melhor porque naquela hora eu me senti um monstro. Um ogro raptor de donzelas. Eu tive mêdo de mim mesma. E aí fomos embora.
E depois conversamos bastante, e tudo meio enevoado, tudo tão bonito, tantas pessoas que... mas eu não digo nada, eu estou tão em silêncio. Assistimos Deixa ela entrar e foi tão emocionante quando a música antes. Um filme lindo. E depois fomos pra casa, e dormimos juntos, conversando sobre as coisas que precisávamos mudar, sobre nossos erros, sobre nosso amor, sobre os estudos, sobre acordar no dia seguinte, sobre xkcd, sobre i love the whole world (the future is pretty cool).
Então eu acordei pensando em como expressar, não pensando em viver ainda mais coisas incríveis e perfeitas. E ao longo do dia o mêdo foi ficando cada vez mais forte, o mêdo de não poder falar, o mêdo de estar tudo o que importa apenas um pouco além do limite das conversas razoáveis. Eu lembrei o olhar nos olhos deles quando eu falei da minha sexta-feira, eu lembrei de vários olhares de muitos tempos antes e depois. Eu fiquei com mêdo. Eu voltei pra casa depois do jogo e tentei escrever, mas tudo o que eu queria dizer não podia ser dito, e a minha pilha de rascunhos no blogger ficava cada vez maior. Mas eu não podia dizer.
Que dizer do que eu sinto por você? Do que não é desejo, não é amor, não é paixão, não é um interesse fútil? Que dizer do que nem eu entendo? Como eu posso te querer sem te querer? E como passar por cima do mêdo?
Que dizer do meu desejo por você, completamente despropositado?
Que dizer dos meus sonhos, dos meus mêdos, completamente errados?
Na calma, eu também pensei em você. Eu achei que chegaria um dia que seria perfeitamente normal e que eu odiaria isso. Mas não. Chegou um dia em que eu estava tão repleta de uma sensação de glória que nada mais parecia me importar. Como eu queria poder expressar! E tudo era tão silêncio. Eu parei e pensei em como eu me sentira feliz, como eu queria poder expressar essa alegria irrestrita, essa alegria devastadora, que me fez saltirar e rir e cantar e dançar ao redor de você. Como eu tenho que lhe agradecer pela alegria que me preencheu completamente, como eu nunca esperava ficar tão feliz! Depois disso nada mais importa, meu dia estava vazio, meu dia era um raio de sol o mais importante é o agora, mas eu vou viver o resto da minha vida lembrando desse mar, sabendo que por sua causa eu fui feliz, sabendo a importância de todas as outras pessoas que me trouxeram até aqui, eu estava sorrindo sem conseguir lidar direito com esse foco de luz que nasceu no meu peito, essa torre iluminada de marfim que brilha, que desvela praias e falésias, flores, tiés-sangue, que está vazia agora mas que prepara uma festa, e é tudo por você, meu companheiro de viagem, meu bardo, muito obrigada!
Eu quero criar um novo nome para um tipo de relacionamento. Não vai se chamar conquistadores de mundo. Estou em dúvida entre Companheiros de Caça e Companheiros de Viagem. Eu quero virar com você, viajar e caçar com você. Essa é a minha luz, a minha alegria, o meu farol. Ugo, teu barco (o Sonho) vai se guiar também por esse farol. Quando nós navegarmos juntos, nós nos reuniremos nessa torre. É a primeira construção em muito tempo que não está cinzenta e abandonada. Não há demônios aqui! Nós nos guiaremos por sua luz. Daqui a cem anos, se eu me lembrar desse dia, eu ainda terei luz para guiar minha jornada.
Isso tudo me assusta.
Me assusta porque não posso chamar a todos para virem comigo se eu não puder convidá-los para a festa. Eu quero chamar vocês, que eu amo, que me apóiam sempre. Senão, quem virá para a festa. Eu sei: senão, virão todos os demônios para a festa. E ali eles vagarão sem destino, ali eles tomarão conta de mais uma construção que eu abandonarei. Meu farol! Minha torre de luz! Não! Eu vou dar um jeito. Eu vou criar coragem e quebrar todas as barreiras. Pelo amor. Por mim. Por sempre.
Eu vou falar a verdade.
Mas não agora.
domingo, 9 de maio de 2010
Do som que sai dos teus lábios
(carmina burana)
Então eu abro os olhos e meus olhos se enchem de música. Aí está você: nesse som, nesse verde que enche meus olhos quando eu vejo a paz que me invade quando eu ouço esta melodia, estas vozes. Neste momento, eu te amo. Neste momento eu sou o que eu quero, um cavaleiro voando sobre os campos, nada me pára, nada me contém, há coisas que eu salto e há coisas sob as quais me abaixo, mas nada se interpõe à minha vista do céu, porque neste momento eu sou livre, e neste momento eu alcanço o que você quis me dar. Eu alço vôo e o mundo é realmente tão grande!, como você disse... Uma guerra uma poesia se desenrola debaixo de mim. E de repente há silêncio. Acabou uma música.
Você concordou que dizer eu-te-amo era muito complicado e eu tive que me explicar: o que estou dizendo é: (eu te amo é:)
É que você chegou a mim
E num instante você viveu em mim
E sem perceber você entendeu uma parte de mim
Você estendeu a mim a sua chama
Você alegrou meu coração e mudou minha vida
E agora...
E agora eu te dou um passe
Para que entre e saia livremente dessa terra
Um passe-livre por meu coração.
E agora é esta a paisagem dentro de mim: há tapetes vermelhos dentro de um castelo, uma fortaleza, que assoma no topo de uma encosta, eu eu sou o pássaro que circunda a torre mais alta, e eu sou o homem que entra com passos pesados na sala do trono. Tudo é um sonho e tudo se desfaz. A música muda e as faces dos homens mudam. Tudo é energia, um tambor que bate regendo o coração dos homens. E eu estou aqui, eu sou as paredes e os cascos dos navios, eu sou o couro dos tambores, eu estou aqui tentando sentir e entender, procurando a resposta, procurando através dessa música, procurando a lembrança do som que saiu dos teus lábios. Eu procuro (e eu sei que é em vão) o som da tua voz através das trombetas, o som da tua voz cantando pra mim, a lembrança de você olhando nos meus olhos. Tudo é tão suave, e tão pesado, e entretanto de repente eu sou uma pomba, eu vôo sem destino, meus olhos são lágrimas, minha boca é um gosto passado, eu sou um anjo perdido procurando a resposta, procurando o sentido do som que saiu dos teus lábios.
Quem eu sou? Você me pergunta e eu sou a sua pergunta. Mas agora não importa. Quando sair de mim, deixe aberta a porta -- há muito lá fora que eu quero convidar a entrar; há muito no mundo que eu quero habitar, mas que também quero que me habite. Eu devo ser a terra e o viajante (eu devo ser a estrada e o violeiro) e eu devo ser a fonte e o sedento, e eu quero ser bem boi como berrante. Me guia e eu te guio! Eu sou o céu e a estrela. Eu não ouço as palavras desta música, mas pra mim é como o céu cantando, eu ouço a voz dos astros e eu flutuo entre eles. E eu ouço a voz da vala das estrelas. E eu lembro da sua história, e eu tento imaginar a beleza -- como será acenderem-se as estrelas?
Então as estrelas disparam e o mundo vira uma torrente uma avalanche, eu páro no meio da música, olho ao redor, suspiro, respiro fundo e me pergunto: onde estou? Esta é a minha casa, hoje é dia das mães. Mas não significa nada. Minha alma não entende nada de casas e calendários. E eu não entendo nada de música. Eu sou um joguete nas mãos dessa melodia. Finalmente eu lembro da tua voz, a tua voz cantando, a tua voz dizendo declamando com tom grave a thousand kisses deep. Mas eu devo te ouvir, cada canção, cada palavra, e enxergar cada emoção que teu olhar transparece. Eu rio. Porque te leio tão fácil e mesmo assim desconheço. Quem você é? Eu pergunto e eu sou a minha pergunta. Mas só por muito pouco tempo. Num instante eu pisco como uma estrela e eu sou outra coisa, eu sou uma outra vida. Minha alma é uma coisa dispersa, um vento, uma torrente que se divide e volta a se unir. Eu rio, porque eu sou leve agora. Agora eu não posso te ouvir, mas sei o que você fala. Porque através dessa música é você que fala, e é você no meio do mundo de vozes que é o universo. Eu ouço tudo, mas muito pouco eu entendo. E como quero entender! Por isso continuo buscando, eu estou buscando a pergunta, e eu busco todas as coisas através das vozes de todas as bocas.
E como a tua boca me morde, eu enxergo no clarão da dor o grito de todas as coisas. A tua voz nem existe agora, só existe esse terror, esse rosnado. Meu coração dispara e meu sangue urra, no fogo do teu veneno e na explosão dum sors salutis -- e de repente minha alma é fogo, meu mundo é fera, meu sangue é fúria e eu devoro o mundo e nada mais é anjo nada mais é água nada mais é calmaria porque tudo é pura loucura! Eu me levanto contra o frio da noite eu sou o Sol, invicto e irremovível, iluminando e queimando as retinas de todas as coisas eu sou a Luz cuspida de teus lábios eu sou o teu sangue e meu peito cresce num rosnado-desejo que fagocita o mundo e num instante eu sou completamente um tudo demoníaco -- e então minha alma voa.
Do alto do vôo da minha alma eu estou ouvindo palmas, e isso quer dizer que a música acabou. Mas eu me sinto leve, a música me liberta, eu fecho os olhos e a noite me carrega para onde eu quero estar, onde a música é nectar, onde a tua voz existe dentro de mim, no ímpeto de um raio e na candura de uma vela. Eu abro os olhos e você está me olhando, mas já não são olhos de fera. Então eu abro os olhos e estou aqui novamente, e eu estou sozinha.
Eu apoio o rosto nas mãos, e meus olhos são lágrimas, e meu coração ressona e tudo é silêncio através dos pequenos barulhos do dia. Eu caio em mim. Eu olho para o céu, e eu estou buscando a pergunta que eu sei que não existe, e eu queria ser o ar para poder me encher desses sons que saem de todos os lábios.
Então eu abro os olhos e meus olhos se enchem de música. Aí está você: nesse som, nesse verde que enche meus olhos quando eu vejo a paz que me invade quando eu ouço esta melodia, estas vozes. Neste momento, eu te amo. Neste momento eu sou o que eu quero, um cavaleiro voando sobre os campos, nada me pára, nada me contém, há coisas que eu salto e há coisas sob as quais me abaixo, mas nada se interpõe à minha vista do céu, porque neste momento eu sou livre, e neste momento eu alcanço o que você quis me dar. Eu alço vôo e o mundo é realmente tão grande!, como você disse... Uma guerra uma poesia se desenrola debaixo de mim. E de repente há silêncio. Acabou uma música.
Você concordou que dizer eu-te-amo era muito complicado e eu tive que me explicar: o que estou dizendo é: (eu te amo é:)
É que você chegou a mim
E num instante você viveu em mim
E sem perceber você entendeu uma parte de mim
Você estendeu a mim a sua chama
Você alegrou meu coração e mudou minha vida
E agora...
E agora eu te dou um passe
Para que entre e saia livremente dessa terra
Um passe-livre por meu coração.
E agora é esta a paisagem dentro de mim: há tapetes vermelhos dentro de um castelo, uma fortaleza, que assoma no topo de uma encosta, eu eu sou o pássaro que circunda a torre mais alta, e eu sou o homem que entra com passos pesados na sala do trono. Tudo é um sonho e tudo se desfaz. A música muda e as faces dos homens mudam. Tudo é energia, um tambor que bate regendo o coração dos homens. E eu estou aqui, eu sou as paredes e os cascos dos navios, eu sou o couro dos tambores, eu estou aqui tentando sentir e entender, procurando a resposta, procurando através dessa música, procurando a lembrança do som que saiu dos teus lábios. Eu procuro (e eu sei que é em vão) o som da tua voz através das trombetas, o som da tua voz cantando pra mim, a lembrança de você olhando nos meus olhos. Tudo é tão suave, e tão pesado, e entretanto de repente eu sou uma pomba, eu vôo sem destino, meus olhos são lágrimas, minha boca é um gosto passado, eu sou um anjo perdido procurando a resposta, procurando o sentido do som que saiu dos teus lábios.
Quem eu sou? Você me pergunta e eu sou a sua pergunta. Mas agora não importa. Quando sair de mim, deixe aberta a porta -- há muito lá fora que eu quero convidar a entrar; há muito no mundo que eu quero habitar, mas que também quero que me habite. Eu devo ser a terra e o viajante (eu devo ser a estrada e o violeiro) e eu devo ser a fonte e o sedento, e eu quero ser bem boi como berrante. Me guia e eu te guio! Eu sou o céu e a estrela. Eu não ouço as palavras desta música, mas pra mim é como o céu cantando, eu ouço a voz dos astros e eu flutuo entre eles. E eu ouço a voz da vala das estrelas. E eu lembro da sua história, e eu tento imaginar a beleza -- como será acenderem-se as estrelas?
Então as estrelas disparam e o mundo vira uma torrente uma avalanche, eu páro no meio da música, olho ao redor, suspiro, respiro fundo e me pergunto: onde estou? Esta é a minha casa, hoje é dia das mães. Mas não significa nada. Minha alma não entende nada de casas e calendários. E eu não entendo nada de música. Eu sou um joguete nas mãos dessa melodia. Finalmente eu lembro da tua voz, a tua voz cantando, a tua voz dizendo declamando com tom grave a thousand kisses deep. Mas eu devo te ouvir, cada canção, cada palavra, e enxergar cada emoção que teu olhar transparece. Eu rio. Porque te leio tão fácil e mesmo assim desconheço. Quem você é? Eu pergunto e eu sou a minha pergunta. Mas só por muito pouco tempo. Num instante eu pisco como uma estrela e eu sou outra coisa, eu sou uma outra vida. Minha alma é uma coisa dispersa, um vento, uma torrente que se divide e volta a se unir. Eu rio, porque eu sou leve agora. Agora eu não posso te ouvir, mas sei o que você fala. Porque através dessa música é você que fala, e é você no meio do mundo de vozes que é o universo. Eu ouço tudo, mas muito pouco eu entendo. E como quero entender! Por isso continuo buscando, eu estou buscando a pergunta, e eu busco todas as coisas através das vozes de todas as bocas.
E como a tua boca me morde, eu enxergo no clarão da dor o grito de todas as coisas. A tua voz nem existe agora, só existe esse terror, esse rosnado. Meu coração dispara e meu sangue urra, no fogo do teu veneno e na explosão dum sors salutis -- e de repente minha alma é fogo, meu mundo é fera, meu sangue é fúria e eu devoro o mundo e nada mais é anjo nada mais é água nada mais é calmaria porque tudo é pura loucura! Eu me levanto contra o frio da noite eu sou o Sol, invicto e irremovível, iluminando e queimando as retinas de todas as coisas eu sou a Luz cuspida de teus lábios eu sou o teu sangue e meu peito cresce num rosnado-desejo que fagocita o mundo e num instante eu sou completamente um tudo demoníaco -- e então minha alma voa.
Do alto do vôo da minha alma eu estou ouvindo palmas, e isso quer dizer que a música acabou. Mas eu me sinto leve, a música me liberta, eu fecho os olhos e a noite me carrega para onde eu quero estar, onde a música é nectar, onde a tua voz existe dentro de mim, no ímpeto de um raio e na candura de uma vela. Eu abro os olhos e você está me olhando, mas já não são olhos de fera. Então eu abro os olhos e estou aqui novamente, e eu estou sozinha.
Eu apoio o rosto nas mãos, e meus olhos são lágrimas, e meu coração ressona e tudo é silêncio através dos pequenos barulhos do dia. Eu caio em mim. Eu olho para o céu, e eu estou buscando a pergunta que eu sei que não existe, e eu queria ser o ar para poder me encher desses sons que saem de todos os lábios.
segunda-feira, 26 de abril de 2010
Coisas que eu absolutamente não entendo
Este é um post sobre coisas que estào erradas. Coisas com as quais eu discordo. Eu estou querendo falar isto há muito tempo.
Mas pô, gente, sexo não é sobre ficar se vendendo para que a pessoa de quem você gosta (não estou nem falando de amor) sinta prazer. Sexo não é sobre alcançar o preço mais alto no leilão dos corpos. Sexo é o tipo de coisa que só faz sentido quando se conquista junto. É o tipo de prazer que vem do devorar mútuo, do querer engolir o outro por todas as partes do corpo. Como alguém pode querer ser passivo, ser comido?
Abstratamente eu até vejo uma explicação, mas não consigo entender de verdade qual o sentido de se comprazer em se submeter a outra pessoa, de se permitir ser usado; como isso pode ser bom?
Aliás, antes que a discussão comece, quero acrescentar que eu percebo que minha revolta não se estende muito convictamente ao mesmo comportamento por parte dos homens gays. Eu me pergunto se é só o meu feminismo que não me permite aceitar a mulher submissa, enquanto o homem submisso ainda me parece suficientemente viril. Aliás um homem que quer ser dominado ainda é só um homem; uma mulher que quer ser domada me parece menos que uma mulher. Como eu detesto meus preconceitos! Como me causa nojo tudo o que eu penso sobre as diferenças entre os sexos no sexo! Preciso me livrar disso, mas não sei como. Me ajudam?
Mas não quero me livrar da minha repulsa inicial: não acho que as pessoas deveriam ficar se dando por aí como num buffet.
No final do meu segundo namoro eu queria passar uns quatro anos sem namorar porque já tinha passado quase cinco anos tentando administrar esse negócio de gostar de vários caras e só poder ficar com um (aliás não só caras). Eu tinha namorado quase sem pausa pelos quase quatro anos antes e eu entendia muito bem como aquilo funcionava: como namoro era bom, como era bom confiar, como era bom ter ele só pra mim, como na verdade ele nunca era só pra mim, como eu queria outras coisas, mas evitava chegar perto da tentação pra não me queimar demais e acabar cedendo, como a culpa me dilacerava mesmo eu sendo plenamente fiel (por fora), como perto nunca era perto demais mas freqüentemente longe também não era longe demais. Como era incrivelmente doloroso tudo isso, ficar atando o amor a essas coisas tão desnecessárias! Por que a opção não podia ser minha?! Por que a opção de ser fiel não era inteiramente minha?
Quanta coisa a gente faz por mêdo quando ama alguém e acha que tem que seguir um monte de regras só por causa disso. Não entendo esse namoro baseado em regras que supõe-se proteger o amor mas no fundo só o acorrentam. Prefiro esse namoro mais descansado que tenho com o Di: esse que tem poucas regras, na verdade só uma: de ser sincero, de confiar, de falar tudo e de, se um dia não der mais, avisar antes. Nunca trair, não com o coração. Não ter mêdo. É tão fácil não ter ciúmes. É só confiar em si mesmo. Por tanto tempo eu me condenei por nunca conseguir dar aos homens que eu amo a confiança de eu realmente os amo mais que tudo, mas: às vezes é só uma questão de você ser meu melhor amigo. Abra os braços, eu vou te dar tudo o que eu tenho. Eu vou te dar todo o meu coração, mas escuta, não tem só você dentro dele. Eu amo demais. Não patològicamente demais, mas com certeza demais para as suas ridículas convenções sociais, seus mêdos. E distraidamente demais. Hoje (hoje agora) eu não tenho nenhuma culpa, pelo menos não em relação a meu namorado.
Teve um dia (é importante citar) que eu estava num banco com vários amigos e um cara de quem eu gostava demais, desses que fazem seu coração derreter completamente. E eu estava conversando com ele, derretida, e o Diogo chegou e... Olha, naquela semana eu queria nem mais estar com ele, eu achava que tinha passado, que era só uma pequena paixão, mas quando eu o vi, eu entendi tudo, eu pulei para os braços dele e olhei de volta para o cara, mirei "desculpa", naquele dia eu entendi o que eu estava fazendo, o que eu podia ser se eu conseguisse olhar para o lado certo. Eu abracei o Diogo e eu poderia afogá-lo de amor, e eu entendi quão maravilhoso é não ter regras, não ter culpa, saber que eu não ia me distrair e deixar ele de lado porque cada segundo que eu passasse com outro cara ia ser um segundo a menos pra passar com ele, e eu queria todos os meus segundos. Eu sabia que ia ter tempo e que eventualmente eu ia estar numa festa ou numa viagem e que eu ia querer outras coisas, e que talvez acontecesse um dia de eu querer passar uns dias longe dele, mas eu soube naquela hora, com uma alegria que quase me afogou, que dali em diante a minha felicidade era responsabilidade minha, e que eu podia não ter que me obrigar a nada: porque se eu não tivesse mêdo, ele também não teria, e cada segundo em que a gente estivesse separado seria pra viver algo que nos tornaria maiores depois. Eu nunca tinha sentido tanta liberdade, tanta responsabilidade. Eu nunca achei que eu ia me sentir plenamente feliz por me conter, por sacrificar algumas opções boas. Simplesmente saber que os meus motivos para isso não eram idiotas foi... UAU!
Sabe, neste blog eu estou sempre convidando vocês a olharem o mundo pelos meus olhos. Então agora vejam isto:
E se não existissem regras, e todas as decisões certas que você tomou fossem plenamente de sua responsabilidade? E se não houvesse uma burocracia pra você xingar, e toda vez que você cometesse um erro você pudesse se prometer acertar da próxima vez?
É assim que eu me sinto com ele. Eu me sinto feliz, e absolutamente confortável, e quando eu venho confessar alguma coisa pra ele, não é porque eu estou tentando ser fiel, mas porque ele é o meu melhor amigo.
Garotas que querem "dar"
Em primeiro lugar, eu tenho que dizer que eu não entendo gente que diz que quer dar pra alguém. Eu entendo falar que quer transar, que quer comer, que quer pegar; até que quer fuder. Mas DAR? Dar o quê, aliás? Toda vez que alguém diz isso, fica parecendo que você considera seu corpo um bem material, um objeto que você oferece e espera que o cara aceite. O pior é quando uma mina diz "eu daria pra ele". Sério mesmo? Você não acha que fica parecendo que você está ali com a buceta nas mãos esperando que o cara te note e venha te provar como num buffet? Você não se sente uma coisa de se comer quando você diz isso? Você não acha que você está só se oferecendo, enquanto deixa para o cara a função de escolher que garota ele acha mais apetitosa? Quando você diz que quer dar pra alguém, você está dizendo que quer se oferecer para o prazer daquela pessoa.Mas pô, gente, sexo não é sobre ficar se vendendo para que a pessoa de quem você gosta (não estou nem falando de amor) sinta prazer. Sexo não é sobre alcançar o preço mais alto no leilão dos corpos. Sexo é o tipo de coisa que só faz sentido quando se conquista junto. É o tipo de prazer que vem do devorar mútuo, do querer engolir o outro por todas as partes do corpo. Como alguém pode querer ser passivo, ser comido?
Abstratamente eu até vejo uma explicação, mas não consigo entender de verdade qual o sentido de se comprazer em se submeter a outra pessoa, de se permitir ser usado; como isso pode ser bom?
Aliás, antes que a discussão comece, quero acrescentar que eu percebo que minha revolta não se estende muito convictamente ao mesmo comportamento por parte dos homens gays. Eu me pergunto se é só o meu feminismo que não me permite aceitar a mulher submissa, enquanto o homem submisso ainda me parece suficientemente viril. Aliás um homem que quer ser dominado ainda é só um homem; uma mulher que quer ser domada me parece menos que uma mulher. Como eu detesto meus preconceitos! Como me causa nojo tudo o que eu penso sobre as diferenças entre os sexos no sexo! Preciso me livrar disso, mas não sei como. Me ajudam?
Mas não quero me livrar da minha repulsa inicial: não acho que as pessoas deveriam ficar se dando por aí como num buffet.
Namoros cheios de ciúmes
A segunda coisa que eu não entendo é esse negócio de namoro. Eu já fiz parte de alguns e mesmo assim não entendi. No final do meu segundo namoro eu tinha chegado à conclusão de que não queria mais namorar. Puta trampo isso de ficar se sacrificando, se contendo, tentando agradar, se submetendo aos prazeres do seu amor. Amor não deveria ser uma aventura a dois? Não deveria ser uma coisa espontânea, que debocha das convenções?No final do meu segundo namoro eu queria passar uns quatro anos sem namorar porque já tinha passado quase cinco anos tentando administrar esse negócio de gostar de vários caras e só poder ficar com um (aliás não só caras). Eu tinha namorado quase sem pausa pelos quase quatro anos antes e eu entendia muito bem como aquilo funcionava: como namoro era bom, como era bom confiar, como era bom ter ele só pra mim, como na verdade ele nunca era só pra mim, como eu queria outras coisas, mas evitava chegar perto da tentação pra não me queimar demais e acabar cedendo, como a culpa me dilacerava mesmo eu sendo plenamente fiel (por fora), como perto nunca era perto demais mas freqüentemente longe também não era longe demais. Como era incrivelmente doloroso tudo isso, ficar atando o amor a essas coisas tão desnecessárias! Por que a opção não podia ser minha?! Por que a opção de ser fiel não era inteiramente minha?
Quanta coisa a gente faz por mêdo quando ama alguém e acha que tem que seguir um monte de regras só por causa disso. Não entendo esse namoro baseado em regras que supõe-se proteger o amor mas no fundo só o acorrentam. Prefiro esse namoro mais descansado que tenho com o Di: esse que tem poucas regras, na verdade só uma: de ser sincero, de confiar, de falar tudo e de, se um dia não der mais, avisar antes. Nunca trair, não com o coração. Não ter mêdo. É tão fácil não ter ciúmes. É só confiar em si mesmo. Por tanto tempo eu me condenei por nunca conseguir dar aos homens que eu amo a confiança de eu realmente os amo mais que tudo, mas: às vezes é só uma questão de você ser meu melhor amigo. Abra os braços, eu vou te dar tudo o que eu tenho. Eu vou te dar todo o meu coração, mas escuta, não tem só você dentro dele. Eu amo demais. Não patològicamente demais, mas com certeza demais para as suas ridículas convenções sociais, seus mêdos. E distraidamente demais. Hoje (hoje agora) eu não tenho nenhuma culpa, pelo menos não em relação a meu namorado.
Teve um dia (é importante citar) que eu estava num banco com vários amigos e um cara de quem eu gostava demais, desses que fazem seu coração derreter completamente. E eu estava conversando com ele, derretida, e o Diogo chegou e... Olha, naquela semana eu queria nem mais estar com ele, eu achava que tinha passado, que era só uma pequena paixão, mas quando eu o vi, eu entendi tudo, eu pulei para os braços dele e olhei de volta para o cara, mirei "desculpa", naquele dia eu entendi o que eu estava fazendo, o que eu podia ser se eu conseguisse olhar para o lado certo. Eu abracei o Diogo e eu poderia afogá-lo de amor, e eu entendi quão maravilhoso é não ter regras, não ter culpa, saber que eu não ia me distrair e deixar ele de lado porque cada segundo que eu passasse com outro cara ia ser um segundo a menos pra passar com ele, e eu queria todos os meus segundos. Eu sabia que ia ter tempo e que eventualmente eu ia estar numa festa ou numa viagem e que eu ia querer outras coisas, e que talvez acontecesse um dia de eu querer passar uns dias longe dele, mas eu soube naquela hora, com uma alegria que quase me afogou, que dali em diante a minha felicidade era responsabilidade minha, e que eu podia não ter que me obrigar a nada: porque se eu não tivesse mêdo, ele também não teria, e cada segundo em que a gente estivesse separado seria pra viver algo que nos tornaria maiores depois. Eu nunca tinha sentido tanta liberdade, tanta responsabilidade. Eu nunca achei que eu ia me sentir plenamente feliz por me conter, por sacrificar algumas opções boas. Simplesmente saber que os meus motivos para isso não eram idiotas foi... UAU!
Sabe, neste blog eu estou sempre convidando vocês a olharem o mundo pelos meus olhos. Então agora vejam isto:
E se não existissem regras, e todas as decisões certas que você tomou fossem plenamente de sua responsabilidade? E se não houvesse uma burocracia pra você xingar, e toda vez que você cometesse um erro você pudesse se prometer acertar da próxima vez?
É assim que eu me sinto com ele. Eu me sinto feliz, e absolutamente confortável, e quando eu venho confessar alguma coisa pra ele, não é porque eu estou tentando ser fiel, mas porque ele é o meu melhor amigo.
quarta-feira, 7 de outubro de 2009
Sobre o sonho que eu mencionei no twitter (e no blog do Bruno?)
O curioso foi que todo o sonho tinha, sim, um sentido geral. Assim: a espada, o projeto e a viagem são faces diferentes da mesma pulsão que é a luta pelo sentido da própria individualidade. O Dalprá é um símbolo, o Poro é um símbolo, o Renato e o Bruno são símbolos.
Nós estávamos sentados no escuro ao redor da mesa numa festa aqui em casa, e eu havia sentado na mesa dos amigos da Talita. Eu disse alguma coisa, eu havia feito alguma coisa e disse que o Dalprá me decapitaria por causa disso. O amigo dele (Homem Preto(cabelo curto, olhos, roupas)(pele bastante clara)) disse que eu entendera tudo errado, que ele não era o tipo de gente que arrancaria cabeças. A mesa estava na FAU, era noite e estava tudo apagado, a mesa ficava na cantina vazia e no balcão mais amigos da Talita conversavam enquanto o cara montava um rádio. Eles tinham equipamentos e logo descobri que estavam montando uma rádio (pirata) que era voltada para os jogadores de RPG. Me pareceu uma idéia fantástica! Mas então mais amigos meus chegaram, aconteceram coisas que eu não entendi direito, muitas coisas, tudo mudou, cresceu, sei lá. Ninguém agrediu ninguém, nem com motivo.
O plano era o seguinte: vinte pessoas, todas muito amigas, viajariam para outra cidade e se estabeleceriam lá, todas na mesma vizinhança, talvez até na mesma casa. Ficaríamos lá dois, três meses, trabalhando, pagando o aluguel, vivendo como as pessoas de lá, fazendo bicos, e então um belo dia levantaríamos acampamemto, todos os vinte, e iríamos para a próxima cidade. Repeat.
Eu quero muito:
perder o mêdo dessa espada que me ameaça
poder efetivamente te conhecer, depois do mêdo
assumir a tara e concretizar um projeto no que me empolga
assumir o amor e construir uma vida junto com meus amigos
expôr-nos ao risco (a partir daqui somos todos-um) e viver coisas novas
conhecer cada mundo com intensidade e entrega
É muito importante pra mim esse lance de conhecer a fundo um modo de viver a princípio desconhecido. Entrar na vida da cidade e viver como parte integrante por algum tempo. Ao mesmo tempo meus amigos são indispensáveis. Não é a primeira vez que eu sonho com algo desse tipo, mas só agora sou capaz de fazer essa interpretação. Antes os ônibus de viagem eram um elemento intrigante dos meus sonhos. Os sonhos eram mais investigativos. Os signos estavam mais confundidos. Ainda aqui os signos estão misturados. Qual a relação entre espada, Dalprá e RPG? (na verdade, eu sei qual a relação, mas não sei se posso admitir). Principalmente, qual a relação entre a viagem, a amizade, e o cenário de mêdo e insegurança que veio antes? E porque eu levava o Renato na viagem?
Na verdade essas perguntas não são difíceis de se responder, eu só me pergunto se as respostas óbvias dizem toda a verdade, ou se os símbolos estão um pouco mais pro fundo do que queremos admitir.
Ontem na aula Renato disse que como eu estava associada ao número 16 ele achava que eu devia ter importância pra vida dele. Eu sei que ele tem uma certa importância na minha vida. Por isso mesmo eu gostaria de carregá-lo com o resto do meu clã, mas. Há sempre um mas. O mas é a espada? Não, a espada é o mêdo puro, o mêdo que vem de algum lugar anterior, como o desconhecido. Se eu te conhecer, você não vai mais querer me matar. Mas e se eu não for o tipo de pessoa de quem você é capaz de gostar? É essa a questão no fundo, Não é? Quando conhecemos pessoas novas, corremos sempre o risco de sermos pessoas incrivelmente chatas.
Tive um sonho outro dia no qual eu encontrava a casa de uma Bruxa. Para que eu pudesse entrar, ela abria duas portas; uma invisível. Quando passava pela porta invisível podia ver o interior verdadeiro da casa, no qual as paredes haviam sido pintadas de outra cor. A casa era muito interessante e aconchegante e a velha era uma pessoa deliciosa, diria minha mãe. Do lado de fora dois moleques tentavam encontrar a entrada secreta na casa. Olhei pela porta e podia ver os olhos deles através das persianas. Um deles era um Poro muito jovem (mas com o cabelo que ele tem hoje). Me assustei (traição?) e me escondi das vistas deles. "Não se preocupe", disse a velha, "que eles não podem ver através da parede invisível." Nós estávamos dentro da casa invísivel e por isso éramos invisíveis para eles. Mesmo assim os deixamos entrar, e eles se sentaram para comer bolo de nozes e canela conosco. Qual o sentido de se ter uma casa invisível se você deixa todo mundo entrar?
Uma vez sonhei com o Bruno, foi uma coisa assim: nós ficávamos nos encarando. Foi um sonho muito longo, muita passagem de tempo, e só um olhar fixo. Acho que nossa amizade é um pouco assim. Menos perigosa que com o Dalprá ou o Renato, menos inquietante que com o Poro, mas, de certa forma, mais exigente.
Nós estávamos sentados no escuro ao redor da mesa numa festa aqui em casa, e eu havia sentado na mesa dos amigos da Talita. Eu disse alguma coisa, eu havia feito alguma coisa e disse que o Dalprá me decapitaria por causa disso. O amigo dele (Homem Preto(cabelo curto, olhos, roupas)(pele bastante clara)) disse que eu entendera tudo errado, que ele não era o tipo de gente que arrancaria cabeças. A mesa estava na FAU, era noite e estava tudo apagado, a mesa ficava na cantina vazia e no balcão mais amigos da Talita conversavam enquanto o cara montava um rádio. Eles tinham equipamentos e logo descobri que estavam montando uma rádio (pirata) que era voltada para os jogadores de RPG. Me pareceu uma idéia fantástica! Mas então mais amigos meus chegaram, aconteceram coisas que eu não entendi direito, muitas coisas, tudo mudou, cresceu, sei lá. Ninguém agrediu ninguém, nem com motivo.
O plano era o seguinte: vinte pessoas, todas muito amigas, viajariam para outra cidade e se estabeleceriam lá, todas na mesma vizinhança, talvez até na mesma casa. Ficaríamos lá dois, três meses, trabalhando, pagando o aluguel, vivendo como as pessoas de lá, fazendo bicos, e então um belo dia levantaríamos acampamemto, todos os vinte, e iríamos para a próxima cidade. Repeat.
Eu quero muito:
perder o mêdo dessa espada que me ameaça
poder efetivamente te conhecer, depois do mêdo
assumir a tara e concretizar um projeto no que me empolga
assumir o amor e construir uma vida junto com meus amigos
expôr-nos ao risco (a partir daqui somos todos-um) e viver coisas novas
conhecer cada mundo com intensidade e entrega
É muito importante pra mim esse lance de conhecer a fundo um modo de viver a princípio desconhecido. Entrar na vida da cidade e viver como parte integrante por algum tempo. Ao mesmo tempo meus amigos são indispensáveis. Não é a primeira vez que eu sonho com algo desse tipo, mas só agora sou capaz de fazer essa interpretação. Antes os ônibus de viagem eram um elemento intrigante dos meus sonhos. Os sonhos eram mais investigativos. Os signos estavam mais confundidos. Ainda aqui os signos estão misturados. Qual a relação entre espada, Dalprá e RPG? (na verdade, eu sei qual a relação, mas não sei se posso admitir). Principalmente, qual a relação entre a viagem, a amizade, e o cenário de mêdo e insegurança que veio antes? E porque eu levava o Renato na viagem?
Na verdade essas perguntas não são difíceis de se responder, eu só me pergunto se as respostas óbvias dizem toda a verdade, ou se os símbolos estão um pouco mais pro fundo do que queremos admitir.
Ontem na aula Renato disse que como eu estava associada ao número 16 ele achava que eu devia ter importância pra vida dele. Eu sei que ele tem uma certa importância na minha vida. Por isso mesmo eu gostaria de carregá-lo com o resto do meu clã, mas. Há sempre um mas. O mas é a espada? Não, a espada é o mêdo puro, o mêdo que vem de algum lugar anterior, como o desconhecido. Se eu te conhecer, você não vai mais querer me matar. Mas e se eu não for o tipo de pessoa de quem você é capaz de gostar? É essa a questão no fundo, Não é? Quando conhecemos pessoas novas, corremos sempre o risco de sermos pessoas incrivelmente chatas.
Tive um sonho outro dia no qual eu encontrava a casa de uma Bruxa. Para que eu pudesse entrar, ela abria duas portas; uma invisível. Quando passava pela porta invisível podia ver o interior verdadeiro da casa, no qual as paredes haviam sido pintadas de outra cor. A casa era muito interessante e aconchegante e a velha era uma pessoa deliciosa, diria minha mãe. Do lado de fora dois moleques tentavam encontrar a entrada secreta na casa. Olhei pela porta e podia ver os olhos deles através das persianas. Um deles era um Poro muito jovem (mas com o cabelo que ele tem hoje). Me assustei (traição?) e me escondi das vistas deles. "Não se preocupe", disse a velha, "que eles não podem ver através da parede invisível." Nós estávamos dentro da casa invísivel e por isso éramos invisíveis para eles. Mesmo assim os deixamos entrar, e eles se sentaram para comer bolo de nozes e canela conosco. Qual o sentido de se ter uma casa invisível se você deixa todo mundo entrar?
Uma vez sonhei com o Bruno, foi uma coisa assim: nós ficávamos nos encarando. Foi um sonho muito longo, muita passagem de tempo, e só um olhar fixo. Acho que nossa amizade é um pouco assim. Menos perigosa que com o Dalprá ou o Renato, menos inquietante que com o Poro, mas, de certa forma, mais exigente.
sexta-feira, 7 de agosto de 2009
A Morte (liberdade)
"Nós tínhamos essa idéia, e mesmo depois de tudo continuo achando que a liberdade é o mais fundamental para a formação de qualquer pessoa, inclusive a liberdade de morrer, sem esse risco não somos senhores, mas escravos."
segunda-feira, 3 de agosto de 2009
A Morte (I)
(ou: descobri que odeio cemitérios)
Na região de Canzara os ritos fúnebres sempre foram levados muito a sério. Quando uma pessoa morre, parece que até o ar muda subitamente de cheiro. A notícia se espalha como sementeira alada, corre no vento, e todos os que ficam sabendo vestem imediatamente o manto amarelo de couriú, que em um dia se alaranja, em dois se avermelha, em três se amarronza, em quatro anegra. Assim os campos de Canzara vão se colorindo gradualmente, de dentro pra fora, e ao mesmo tempo de dentro pra fora vão perdendo a cor.
Durante uma semana cada pessoa age de acordo com as regras do couriú: os que vestem o manto amarelo lavam a casa, as roupas e os cabelos, não podem comer e também não podem falar; os de manto laranja comem pão-de-frango e folha de canhacheira lambida no fogo de vela (é o dia favorito de todos), passam o dia cantando ou rezando, e dependendo da lua têm que cortar os cabelos; os de vermelho pintam o corpo, saem de casa com lanças e só podem comer o que puderem matar; os de marrom quebram suas lanças e se alimentam de cascas de árvores, raízes, folhas e flores, se houverem; os de negro se banham na lama e voltam para casa, onde, depois do último canto, voltam às suas vidas normais. Poucos dias depois o couriú se desprende do manto e só aí as pessoas param de usá-lo. Dizem que é o sinal de que o mundo pode continuar como era antes.
As cores do couriú regem também a preparação do corpo. Os mais próximos do morto clamam para si, através dos versos tradicionais, os deveres para com o corpo. Quando é necessário, o resto da comunidade executa as regras do couriú no lugar dessas pessoas, que têm deveres diferentes. No dia amarelo, é preciso lavar o corpo e preparar a madeira para o caixão. A madeira precisa ser de três árvores diferentes, escolhidas pela primeira pessoa. No dia laranja, usando velas laranjas, deve-se queimar os cabelos e todos os pêlos do morto e preparar as tintas para o caixão. As tintas também devem ser feitas com três pigmentos diferentes, escolhidos por uma segunda pessoa. No dia vermelho, enquanto todos os outros deixam suas casas, os preparadores pintam cada milímetro de pele do corpo e constroem o caixão com todos os cuidados. No dia marrom, ainda mais sozinhos, os preparadores terminam os detalhes finais do caixão, cobrem-no de pinturas, forram-no com terra, põe o corpo dentro dele e o fecham com sete fechos. Depois limpam a bagunça, a si mesmos, uns aos outros. Esperam sozinhos pela chegada dos outros. Choram, talvez.
No dia negro todos voltam para a cerimônia da morte. Voltam cobertos de lama, vestindo mantos negros, famintos e ferozes. Nos outros lugares esse é um dia tranquilo em que tudo volta ao normal assim que a lama se dissolve na água do banho, mas, aqui, onde um homem morreu, é um dia muito estranho. Das sombras das casas surge um grupo de homens (?) vestidos de preto com máscaras pretas de feras. Não se vê nenhuma parte de seus corpos, e ninguém se aproxima por causa do mêdo e do cheiro de morte. Ninguém diz nada: eles levantam o caixão pintado e carregam-no até um lugar vazio decidido por eles, enquanto os outros seguem, silenciosos. Pousam o caixão no chão. Tiram de dentro do manto armas colossais --- machado, facão, picareta, foice, martelo, enxada, forjados, polidos e afiados para serem grandes, negros e brutais. Com um guincho de fúria o primeiro machado desce sobre o caixão dividindo-o no meio, seguido pelo urro da picaretada, pelo estrondo do martelo que lança pedaços de madeira sobre os demais; a comunidade urra, recua, se excita e se assusta, as lâminas sobem e descem, as feras gritam e rugem e saltam sobre o corpo enquanto despedaçam-no com sua fúria, o camunidade grita e canta os cantos de morte, de liberdade, de mêdo, a carne, a terra e a madeira voam, a fúria e a morte voam, os ossos se partem junto com as tábuas, e quando acaba as feras rugem levantando as armas e a comunidade pula sobre os restos (carne osso madeira terra tinta) e os agarra, os disputa, cada um ansioso por enterrar um pedaço, o maior, mais fundo.
De repente a comunidade se dispersa. Banho, comida, a vida segue em frente. As feras já desapareceram faz tempo. As pessoas estão cansadas. A terra mexida e novamente vazia (ao menos na superfície) ficará abandonada até que couriú se desprenda das nossas roupas. Então, tudo será como sempre foi.
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