Aqui estamos, e somos onze. Onde dos quinze que partiram. Onze dentre todos os que se dispuseram.
A Letra.
A Faca.
O broche e a chave.
A pata.
O pingente.
A máscara.
O laço.
O cinto.
O Giz.
O focinho.
O pedal.
E o escudo.
Nós nos voltamos para o passado. Nós perguntamos sobre o passado. A Letra se imprime sobre a Pele do passado. Nossos olhos são espelhos que distorcem a luz do passado. Nós somos lentes. Nós escrevemos.
Um de nós se ergue sobre duas pernas. Um de nós renega nosso antigo nome. Um de nós desce de seu cavalo e corta suas tranças e as joga sobre o chão onde pisa. Um de nós ergue-se novamente.
O Focinho se ergue em direção a ele. Um de nós acaricia o focinho e o abandona. Um de nós abandona nosso antigo nome.
Uma de nós se levanta em oposição a ele. Um de nós oferece seu corpo para a faca, que ela marque seu corpo e o submeta. A Faca o corta. Uma de nós marca nele nosso indelével nome. Um de nós sangra e se reconstitue. A Faca e o Escudo são idênticos. Nossos olhos são espelhados e refletem imagens idênticas, um macho pequeno e coberto de sangue e uma fêmea grande e coberta de sangue. Um de nós ajoelha-se e uma de nós o abraça. Mas por fim se separam. Um de nós apaga nosso único nome.
Somos múltiples. A Máscara o veste e mostra nossa História. A Letra se escreve e conta nossa História. Um de nós aceita em reclusão. A caverna de nossa História é escura e longa e suas paredes contam de muitas coisas. Um de nós ouve em atenção. Nós o mandaremos como nosso mensageiro e como nosso cônsul, para os domínios que nossas vozes falham em alcançar. Nós o mandaremos ao passo em que ele se manda, fugido de nós.
O Focinho o morde.
A Pata o sagra. Uma de nós o olha nos olhos e o absolve e condena. Uma de nós lhe dá uma missão. Uma de nós o ama e o fertiliza, para que ele chegue prenhe ao seu universo. A Máscara o abençoa e o compreende. O Broche e a Chave o vestem e o ornam, mas ele os guarda numa caixa de madeira. Um de nós despe-se e se apresenta nu. O pingente transforma-se e o protege. Um de nós agradece.
O Cinto e o Giz transformam-se em objetos para que um de nós o use. Mas ele os guarda também, em silêncio. Ele os usará quando for a hora.
Finalmente, o Laço o abraça. A Letra abre seu livro e o Laço chama através dele todas as vozes que precisam se ouvir presentes. Um de nós toca cada um de nós em respeito, amor e premonição. Estamos no fim da caverna e há paisagens lá fora. Todas nós nos agrupamos na beirada da caverna. As paisagens nos perturbam e nos confundem. Nós nem sempre podemos transitar no mundo lá fora.
Uma de nós dá alguns passos para fora e invoca o Futuro. Nossos deuses sussuram como árvores balançadas pelo vento.
Um de nós começa sua jornada.
palavra por palavra, procuro chegar, devagar, ao lugar de La Loba.
"O silêncio", disse o griot,"só é escuro no começo..."
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sexta-feira, 6 de dezembro de 2013
terça-feira, 26 de junho de 2012
A Lagoa de Cristal
(one of my oldests daydreams was this of a cleansing magic. it could heal body and mind, clean air and earth and water, and make everything good and full of beauty)
---
E de repente estavam numa clareira, e as árvores estavam coloridas com reflexos inconstantes de água clara. A lagoa parecia apenas uma lagoa comum, e, como acontece com as lagoas comuns, a vegetação era mais vistosa e mais verde bem perto da água. Dava pra ver as pedras arredondadas brilhando no lugar onde a lagoa escoava num rio raso, mas o rio que a alimentava estava do outro lado, meio longe e escondido na mata. "Não parece muito impressionante", pensou Marin, e pôs um pé dentro da água.
O pé queimou como se pisasse em fogo, e ela pulou para trás de reflexo, assustada, as patas ardendo e o coração disparado. Rafael pulou junto, de susto; os dois meninos olharam pra ela preocupados.
-- A água às vezes arde enquanto cura. -- disse Rind, enquanto Marin recusava ajuda pra levantar. -- A gente tem que entrar devagar, por isso e porque precisa estar calmo pra não... pra não esquecer o que significa estar bem.
-- O que quer dizer? -- perguntou Rafa, com os dois pés dentro da lagoa, -- Está fazendo cócegas, mas é gostoso. -- ele fechou os olhos e foi andando lentamente pra dentro da água. Esse era o lugar certo pra fazer isso, Rind tinha dito, porque a lagoa ali era rasa e ia afundando lentamente. Mas havia também uma trilha para cima da pedra que ficava na parte mais profunda da lagoa, de onde alguém menos cauteloso poderia pular, ou ser jogado. Rind tinha dito que se você fosse jogado na Lagoa, corria o risco de se dissolver na água, ou virar um unlak ou um cardume de peixes. Marin não acreditava em unlaks ou em gente virando água e peixe. Ela tinha visto o homem-cavalo e o lobo que corria pelas nuvens, mas esses eram outros tipos de mágica. Rind tinha dito que depois da Lagoa ela ia ser tão forte quanto o Unicórnio. Que os homens-cavalo batizavam todas as suas crianças nessa água pra receber a bênção dos Guardiões, que eles sempre nos guardem. Mas a Lagoa ardia nos seus pés, enquanto Rafael entrava nela tranqüilamente, de olhos fechados. Não era justo. Tudo era sempre mais fácil para os meninos! Mas por um instante Marin viu Rafael fazer uma careta ao dar um passo. Talvez ele estivesse só fingindo, e aí era ainda pior. Ela não podia deixar ele ser mais corajoso que ela. Tudo era sempre mais fácil para um menino, mas ela era melhor que ele, ela fazia as coisas mais difíceis.
Rind gritou -- Marin, não corr --- mas ela estava correndo e tropeçando e caindo na água, tchi-bum, e a lagoa era funda o bastante pra ela de repente estar no fundo, e tudo era claro, cegante de claro, e doía e ardía, queimava como entrar numa banheira de gelo.
Marin de repente queria sair dali, não queria sentir mais dor. Ela era uma mulher, diziam que mulheres sentem menos dor, ela nunca tinha sentido tanta dor assim, nem naquela vez jogando bola - mas era impossível pensar em jogar bola, ela queria gritar, queria que tivesse menos luz, até a água dentro da sua boca ardia na sua língua, no céu da boca, como uma pasta de dente ardida demais. Em algum livro tinha um homem que ficava ferido e desmaiava de dor, será que ela ia desmaiar de dor?
E então talvez ela estivesse desmaiando, porque a dor passou, e então vieram as sensações estranhas. As sensações estranhas eram de calor e frio ao mesmo tempo, de molhado mas ressecado, e havia um vento extremamente forte que ameaçava levá-la pelos ares. Seus olhos estavam cegos, então só restava sentir. Marin sentiu que estava numa floresta, com cheiro de chuva e mato e o cheiro do pêlo do lôbo branco na sua pele, na sua bôca, junto com a sensação da fôrça que vinha nas suas quatro patas, e cheio daquele som das árvores chacoalhadas pela ventania -- depois sentiu que ondas batiam forte nas suas pernas por todos os lados, e um vento louco jogava água e areia na sua cara, e a balançava como uma árvore -- depois que água corria por ima dela como se ela fosse uma sarjeta, ou o leito de um rio caudaloso, mas rodas e patas corriam por ela, e ela se sentia vibrar como um tambor -- de repente ela se sentiu seca e forte como um cavalo, com cheiro de estábulo de fazenda, e vontade de correr pelo mundo -- e por um momento todas as sensações ficaram muito confusas quando ela começou a correr simultaneamente em todas as direções, e ela lembrou de quando ela ficava na varanda de um apartamento olhando os carros passando e querendo ser o Vento.
Então o Vento voltou a ser uma pessoa, que pôs as patas muito confusas no fundo da lagoa. Agora ela conseguia ver tudo muito claramente, e por um momento sentiu se sentiu maravilhosa - tudo estava no lugar, e ela podia se mexer como quisesse, e respirar debaixo d'água, e ser qualquer coisa! Seu corpo mudava de forma e tudo mudava de cor, e parecia que sua mente também estava se mexendo. Mas aos poucos a alegria foi mudando para desespêro, porque seus dentes pareciam moles e soltos mudando de forma sem parar no lugar, e suas mão de repente não pareciam mais mãos de nada que ela conhecesse, e sua pele ficava mudando de textura e até seus pêlos não ficavam de um jeito só. Rind tinha dito pra tomar cuidado, que era importante ser você mesmo no final. Marin não queria virar uma unlak ou um cardume. Nem mesmo queria ser o Vento. Era tão estranho não ser ninguém desse jeito, e ela tinha tanta coisa que ela era. Marin decidiu que estar bem era ser você mesmo. E então ela teve braços de menina e pernas de menina, e barriga de menina, e olhos de menina que viam muito bem debaixo d'água, e tentou lembrar como era ter dentes de menina, e como era ficar de pé, e respirar, e como eram seus cabelos, e seus pés, e suas outras patas. No fim, ela estava bastante parecida consigo mesma, e se sentindo leve, porque não tinha lembrado de devolver o cansaço, a fome e outros desconfortos de menina.
O fundo da lagoa era azul e bonito e cheio de peixes que Marin queria perseguir e tentar pegar. Mas meninas não respiravam debaixo d'água, e logo ela estava se desesperando e procurando voltar à superfície, à superfície, onde haveria ar!
Quando saiu da Lagoa, arfando e pingando água brilhante, que agora parecia um pouco assustadora, Marin encontrou Rafael, saindo da Lagoa rindo e brincando com a água.
-- Foi incível, Rind! Eu fui um pássaro e uma cobra, e nadei como uma tartaruga e voei como um falcão! Eu fui de todas as cores e de todas as formas, e eu sinto como se fosse pra ser assim mesmo, eu vou ser tudo, eu vou me tornar tudo o que eu quiser! Você não se sente assim, Marin? É tão incrível! Eu vou voar além das nuvens! E você, Marin, o que você foi?
Marin olhou para Rafa seriamente, pensando em como ele estava levando aquilo como se tivesse sido uma brincadeira deliciosa, como tomar sorvete e ir no parque de diversões. Mas, pensando bem, ela se sentia bem, agora que tinha acabado. Era como se ela tivesse se afogado e voltado à vida de uma vez só, mas agora estava tudo bem. Seu corpo inteiro ainda ardia um pouco, mas era um ardor leve, que um vendedor de pasta de dente chamaria de "refrescância". Só restava um pouco de estranheza, de não ter muita certeza de se ela ainda era a mesma pessoa de antes. Ou talvez ela fosse, e tudo aquilo tivesse sido só um sonho.
-- Marin? O que você foi?
-- O que mais, Rafa? Eu fui um lôbo.
---
E de repente estavam numa clareira, e as árvores estavam coloridas com reflexos inconstantes de água clara. A lagoa parecia apenas uma lagoa comum, e, como acontece com as lagoas comuns, a vegetação era mais vistosa e mais verde bem perto da água. Dava pra ver as pedras arredondadas brilhando no lugar onde a lagoa escoava num rio raso, mas o rio que a alimentava estava do outro lado, meio longe e escondido na mata. "Não parece muito impressionante", pensou Marin, e pôs um pé dentro da água.
O pé queimou como se pisasse em fogo, e ela pulou para trás de reflexo, assustada, as patas ardendo e o coração disparado. Rafael pulou junto, de susto; os dois meninos olharam pra ela preocupados.
-- A água às vezes arde enquanto cura. -- disse Rind, enquanto Marin recusava ajuda pra levantar. -- A gente tem que entrar devagar, por isso e porque precisa estar calmo pra não... pra não esquecer o que significa estar bem.
-- O que quer dizer? -- perguntou Rafa, com os dois pés dentro da lagoa, -- Está fazendo cócegas, mas é gostoso. -- ele fechou os olhos e foi andando lentamente pra dentro da água. Esse era o lugar certo pra fazer isso, Rind tinha dito, porque a lagoa ali era rasa e ia afundando lentamente. Mas havia também uma trilha para cima da pedra que ficava na parte mais profunda da lagoa, de onde alguém menos cauteloso poderia pular, ou ser jogado. Rind tinha dito que se você fosse jogado na Lagoa, corria o risco de se dissolver na água, ou virar um unlak ou um cardume de peixes. Marin não acreditava em unlaks ou em gente virando água e peixe. Ela tinha visto o homem-cavalo e o lobo que corria pelas nuvens, mas esses eram outros tipos de mágica. Rind tinha dito que depois da Lagoa ela ia ser tão forte quanto o Unicórnio. Que os homens-cavalo batizavam todas as suas crianças nessa água pra receber a bênção dos Guardiões, que eles sempre nos guardem. Mas a Lagoa ardia nos seus pés, enquanto Rafael entrava nela tranqüilamente, de olhos fechados. Não era justo. Tudo era sempre mais fácil para os meninos! Mas por um instante Marin viu Rafael fazer uma careta ao dar um passo. Talvez ele estivesse só fingindo, e aí era ainda pior. Ela não podia deixar ele ser mais corajoso que ela. Tudo era sempre mais fácil para um menino, mas ela era melhor que ele, ela fazia as coisas mais difíceis.
Rind gritou -- Marin, não corr --- mas ela estava correndo e tropeçando e caindo na água, tchi-bum, e a lagoa era funda o bastante pra ela de repente estar no fundo, e tudo era claro, cegante de claro, e doía e ardía, queimava como entrar numa banheira de gelo.
Marin de repente queria sair dali, não queria sentir mais dor. Ela era uma mulher, diziam que mulheres sentem menos dor, ela nunca tinha sentido tanta dor assim, nem naquela vez jogando bola - mas era impossível pensar em jogar bola, ela queria gritar, queria que tivesse menos luz, até a água dentro da sua boca ardia na sua língua, no céu da boca, como uma pasta de dente ardida demais. Em algum livro tinha um homem que ficava ferido e desmaiava de dor, será que ela ia desmaiar de dor?
E então talvez ela estivesse desmaiando, porque a dor passou, e então vieram as sensações estranhas. As sensações estranhas eram de calor e frio ao mesmo tempo, de molhado mas ressecado, e havia um vento extremamente forte que ameaçava levá-la pelos ares. Seus olhos estavam cegos, então só restava sentir. Marin sentiu que estava numa floresta, com cheiro de chuva e mato e o cheiro do pêlo do lôbo branco na sua pele, na sua bôca, junto com a sensação da fôrça que vinha nas suas quatro patas, e cheio daquele som das árvores chacoalhadas pela ventania -- depois sentiu que ondas batiam forte nas suas pernas por todos os lados, e um vento louco jogava água e areia na sua cara, e a balançava como uma árvore -- depois que água corria por ima dela como se ela fosse uma sarjeta, ou o leito de um rio caudaloso, mas rodas e patas corriam por ela, e ela se sentia vibrar como um tambor -- de repente ela se sentiu seca e forte como um cavalo, com cheiro de estábulo de fazenda, e vontade de correr pelo mundo -- e por um momento todas as sensações ficaram muito confusas quando ela começou a correr simultaneamente em todas as direções, e ela lembrou de quando ela ficava na varanda de um apartamento olhando os carros passando e querendo ser o Vento.
Então o Vento voltou a ser uma pessoa, que pôs as patas muito confusas no fundo da lagoa. Agora ela conseguia ver tudo muito claramente, e por um momento sentiu se sentiu maravilhosa - tudo estava no lugar, e ela podia se mexer como quisesse, e respirar debaixo d'água, e ser qualquer coisa! Seu corpo mudava de forma e tudo mudava de cor, e parecia que sua mente também estava se mexendo. Mas aos poucos a alegria foi mudando para desespêro, porque seus dentes pareciam moles e soltos mudando de forma sem parar no lugar, e suas mão de repente não pareciam mais mãos de nada que ela conhecesse, e sua pele ficava mudando de textura e até seus pêlos não ficavam de um jeito só. Rind tinha dito pra tomar cuidado, que era importante ser você mesmo no final. Marin não queria virar uma unlak ou um cardume. Nem mesmo queria ser o Vento. Era tão estranho não ser ninguém desse jeito, e ela tinha tanta coisa que ela era. Marin decidiu que estar bem era ser você mesmo. E então ela teve braços de menina e pernas de menina, e barriga de menina, e olhos de menina que viam muito bem debaixo d'água, e tentou lembrar como era ter dentes de menina, e como era ficar de pé, e respirar, e como eram seus cabelos, e seus pés, e suas outras patas. No fim, ela estava bastante parecida consigo mesma, e se sentindo leve, porque não tinha lembrado de devolver o cansaço, a fome e outros desconfortos de menina.
O fundo da lagoa era azul e bonito e cheio de peixes que Marin queria perseguir e tentar pegar. Mas meninas não respiravam debaixo d'água, e logo ela estava se desesperando e procurando voltar à superfície, à superfície, onde haveria ar!
Quando saiu da Lagoa, arfando e pingando água brilhante, que agora parecia um pouco assustadora, Marin encontrou Rafael, saindo da Lagoa rindo e brincando com a água.
-- Foi incível, Rind! Eu fui um pássaro e uma cobra, e nadei como uma tartaruga e voei como um falcão! Eu fui de todas as cores e de todas as formas, e eu sinto como se fosse pra ser assim mesmo, eu vou ser tudo, eu vou me tornar tudo o que eu quiser! Você não se sente assim, Marin? É tão incrível! Eu vou voar além das nuvens! E você, Marin, o que você foi?
Marin olhou para Rafa seriamente, pensando em como ele estava levando aquilo como se tivesse sido uma brincadeira deliciosa, como tomar sorvete e ir no parque de diversões. Mas, pensando bem, ela se sentia bem, agora que tinha acabado. Era como se ela tivesse se afogado e voltado à vida de uma vez só, mas agora estava tudo bem. Seu corpo inteiro ainda ardia um pouco, mas era um ardor leve, que um vendedor de pasta de dente chamaria de "refrescância". Só restava um pouco de estranheza, de não ter muita certeza de se ela ainda era a mesma pessoa de antes. Ou talvez ela fosse, e tudo aquilo tivesse sido só um sonho.
-- Marin? O que você foi?
-- O que mais, Rafa? Eu fui um lôbo.
quinta-feira, 24 de maio de 2012
Alarara/En Passant
"Somos do mesmo sangue, tu e eu"
Um dia eu acreditei nessas palavras
Mas o tempo passou e tudo mudou tanto
Será que todo mundo se sente como um extraterreste?
Quando eu era pequena, várias das minhas estórias começavam com ir para outro mundo. No outro mundo, eu era uma rainha, uma princesa, uma guerreira, uma heroína (ou talvez vocês fossem entender melhor se eu dissesse um Rei, um Príncipe, um Guerreiro, um Herói). Eu era descendente do Povo Antigo, escolhida pelos Guardiães, meu Destino era proteger o meu lugar, where I belonged.
Or do I belong there still?
Com o tempo, eu comecei a entender que se eu descendia dos Grandes Reis, só podia ser através de meus pais. Eu não poderia abdicar da veracidade da minha família, então meus irmãos, meus primos e às vezes até gente adulta começaram a aparecer nas minhas aventuras. Meus irmãos vinham para o Mundo comigo, eles eram grandes Líderes, tinham conhecimentos e habilidades que eu não tinha, e eram valorosos rivais, aliados ou inimigos. Mas fatalmente, dado alguns anos no Mundo, eles acabavam voltando para o mundo real, ou eles se envolviam com os seus próprios problemas, e eu acabava ficando só com os meus amigos de Lá, vivendo aquelas aventuras muito pessoais, construindo uma história e uma família que...
Depois, resolvi voltar para o mundo d'Aqui, mas sei lá... Eu quiz trazer meus amigos comigo, mas não sabia como apresentá-los à galera. E como explicar para minha mãe que eu ainda a amava, mesmo depois de todos aqueles anos? E como explicar que eu não era a mesma pessoa que havia saído daqui? Como explicar o que eu era? E quem eu era afinal?
Meus irmãos entenderam algumas coisas, e eu com muito esforço de ambas as partes consegui explicar uma ou outra coisa a alguns homens apaixonados (ao longo dos anos). Mas eles se afastaram (enfim, nós nos afastamos) e, bom, tantas vezes foi tão difícil traduzir as palavras de Veraki, Hatsi e Zaty para a língüa dos humanos...
Enfim...
No fundo, eu voltei para casa e tentei lutar a luta pequena (ränaki), a lida de manter a casa (honaki?) e viver a vida (maaki?). Afinal, a outra eu estava tendo um filho, e ensinando crianças. E tal. E eu estava determinada a conviver com pessoas, pra variar.
"Somos do mesmo sangue, tu e eu."
Mas nós não somos nem do mesmo mundo! No fundo, eu fui criada meio em Ziget, e eu sou meio Zaty. Por dentro, por dentro, por dentro.
Será que todo mundo se sente um extraterrestre? Será que cada pessoa veio de outro planeta? Ou será que sou só eu?
Eu estou começando a esquecer as minhas palavras... E me dói isso, eu entendo a dor de quem não pertence a lugar algum.
Será que todo mundo se sente um extraterrestre?
Um dia eu acreditei nessas palavras
Mas o tempo passou e tudo mudou tanto
Será que todo mundo se sente como um extraterreste?
Quando eu era pequena, várias das minhas estórias começavam com ir para outro mundo. No outro mundo, eu era uma rainha, uma princesa, uma guerreira, uma heroína (ou talvez vocês fossem entender melhor se eu dissesse um Rei, um Príncipe, um Guerreiro, um Herói). Eu era descendente do Povo Antigo, escolhida pelos Guardiães, meu Destino era proteger o meu lugar, where I belonged.
Or do I belong there still?
Com o tempo, eu comecei a entender que se eu descendia dos Grandes Reis, só podia ser através de meus pais. Eu não poderia abdicar da veracidade da minha família, então meus irmãos, meus primos e às vezes até gente adulta começaram a aparecer nas minhas aventuras. Meus irmãos vinham para o Mundo comigo, eles eram grandes Líderes, tinham conhecimentos e habilidades que eu não tinha, e eram valorosos rivais, aliados ou inimigos. Mas fatalmente, dado alguns anos no Mundo, eles acabavam voltando para o mundo real, ou eles se envolviam com os seus próprios problemas, e eu acabava ficando só com os meus amigos de Lá, vivendo aquelas aventuras muito pessoais, construindo uma história e uma família que...
Depois, resolvi voltar para o mundo d'Aqui, mas sei lá... Eu quiz trazer meus amigos comigo, mas não sabia como apresentá-los à galera. E como explicar para minha mãe que eu ainda a amava, mesmo depois de todos aqueles anos? E como explicar que eu não era a mesma pessoa que havia saído daqui? Como explicar o que eu era? E quem eu era afinal?
Meus irmãos entenderam algumas coisas, e eu com muito esforço de ambas as partes consegui explicar uma ou outra coisa a alguns homens apaixonados (ao longo dos anos). Mas eles se afastaram (enfim, nós nos afastamos) e, bom, tantas vezes foi tão difícil traduzir as palavras de Veraki, Hatsi e Zaty para a língüa dos humanos...
Enfim...
No fundo, eu voltei para casa e tentei lutar a luta pequena (ränaki), a lida de manter a casa (honaki?) e viver a vida (maaki?). Afinal, a outra eu estava tendo um filho, e ensinando crianças. E tal. E eu estava determinada a conviver com pessoas, pra variar.
"Somos do mesmo sangue, tu e eu."
Mas nós não somos nem do mesmo mundo! No fundo, eu fui criada meio em Ziget, e eu sou meio Zaty. Por dentro, por dentro, por dentro.
Será que todo mundo se sente um extraterrestre? Será que cada pessoa veio de outro planeta? Ou será que sou só eu?
Eu estou começando a esquecer as minhas palavras... E me dói isso, eu entendo a dor de quem não pertence a lugar algum.
Será que todo mundo se sente um extraterrestre?
segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012
Manhã em Raéa
Na cidade de Raéa tudo era tão bonito! As praças estavam cobertas de lírios e as torres dos palácios se erguiam claras e majestosas em direção ao céu azul e límpido lá em cima. Em Raéa nunca chovia, nunca ficava nublado, talvez porque a cidade estava acima da maioria das nuvens, no topo dos picos fantásticos que o povo comum chamava de Heaven. É claro que o nome original do lugar era Haven, mas quem discordaria do nome que o povo dava, quer dizer, haveria um lugar mais próximo de se chamar de Céu? Os enormes pássaros de Raéa se agitavam e cantavam para despertar a cidade. Os habitantes de Raéa, como qualquer povo de boa fé, veneravam a Quemi, o Pássaro das Cores, e a Quehy, a Fênix de Luz. Exemplares jovens das duas espécies saltitavam aqui e ali, colorindo e iluminando o ar em que dançavam; mas o pássaro mais presente da cidade era o que eles chamavam de Alma dos Ventos, uma ave imponente que parecia nunca parar de crescer e que viajava distância inacreditável para fazer seus ninhos nas torres dos palácios. E, como era bem cedo, os parapeitos das janelas estavam apinhados de Almas das Manhãs, os menores pássaros de Raéa (ainda um pouco maiores que um sabiá de peito laranja), que tinham penas macias como as plumas de um bebê e que se reuniam ao nascer do sol para se aquecer, conversar com seus irmãos em trinados baixos e graves e entoar adoráveis cantigas de acordar. Não havia melhor forma de acordar que o amanhecer de Raéa! O sol entrava por todas as janelas e fazia brilhar as torres imaculadamente brancas. As casas baixas, feitas de blocos mais rudes das pedras claras das montanhas, estavam cobertas de flores delicadas que se abriam ao toque do sol. Cada porta, esculpida na mais nobre madeira jovem que crescia timidamente abaixo das nuvens, se abria, e cada janela, apenas para deixar o vento entrar. Logo todos estariam despertos, e a cidade estaria cantando com o prazer de um novo dia. Era por essas manhãs que Lyserh vivia. Ele adorava saltar para a rua e sentir o ar correndo por sua pele enquanto abrandava a queda. O azul do céu e o branco brilhante das casas e das flores o preenchia , como o calor do sol. Ele cumprimentava os pássaros ao caminhar pela praça. Era sua vez de ser feliz. Era tudo o que tinha na vida.
Neste dia, Ly também estava feliz porque ia conseguir uma coisa a mais, uma coisa a mais a que se agarrar nos momentos em que a luz parecia distante. Ele não tinha a menor dúvida de que a partir de então ele seria feliz! Ali, em Raéa, onde cada dia era perfeito, ali ele ia encontrar seu lugar do lado direito de Deus. Era impossível parar de sorrir. Ali ele ia encontrar aquilo que daria sentido à sua vida.
Ele atravessou mais algumas praças cobertas de lírios, e algumas ruas estreitas e floridas, saltitando de pedra em pedra e cantarolando para acompanhar as Almas. Antigamente ele costumava pensar com freqüência em como seria, depois da morte, é claro, ser um pássaro e passar seus dias planando e chilreando por aí; mas hoje esse pensamento sequer lhe ocorreu -- a vida parecia tão bela assim do jeito que estava! Era difícil pensar em coisas tristes ou mesmo coisas imperfeitas neste dia alegre.
Uma sombra passou por sua cabeça; a sombra do pórtico que separava seu bairro, cheio de jardins, do centro de Raéa, onde as construções altas de pedra antiga e acinzentada deixavam todo o espaço fresco e sombreado. A rua em frente era longa, estreita e cheias de portas dos dois lados, numa parede de sobrados interrompida a cada dezena de metros por vielas laterais. Mais adiante, a rua se inclinava em direção ao cume da cidade, e os topos das construções da região mais alta apareciam por trás dos telhados dos sobrados.
Lysere pôr os pés no chão e correu pelos próximos quarteirões, ansioso agora que podia enxergar a ponta do prédio ao qual se dirigia. As ruas estreitas e sinuosas do centro estavam apenas acordando, e o menino, que conhecia Raéa com a planta dos pés, corria através das primeiras barracas montadas nos mercados, e cortava caminho por dentro das galerias que acabaram de abrir, e se enfiava em ruelas esmagadas entre casarões para atravessar pracinhas nos fundos dos quarteirões. Em Raéa, conforme se chegava mais perto do cume, mais as construções tinham ornamentos e torres e balaustradas, e mais eram feitas de pedras coloridas e inclusive mais escuras, e aqui algumas delas tinham também gárgulas pretas sobre os balaústres, beirais e cumeeiras, com formato de dragão mostrando os dentes, e mais para cima ainda haveria gárgulas de pedra clara, com formato de grifo ou de águia, e nos pés e nas costas das gárgulas as Almas das Manhãs faziam seus ninhos, equilibrados.
Mas a rua que Lysere procurava era uma curta e um pouco mais larga, escondida no meio das ruas amontoadas do centro, ainda na região onde as gárgulas eram pretas e as construções eram de pedra cinza mais escura que em todo o resto da cidade. Para chegar nessa rua era preciso passar por galerias e vielas e caminhos que nem todos conheciam, e ela estava fora de todas as rotas da vias grandes, e por isso era muito vazia e tranqüila, e a essa hora da manhã parecia deserta. Essa era a rua dos mestres do conhecimento, que viviam reclusos com seus discípulos em suas torres estreitas. Cada torre era cercada por um muro baixo, com portões vazados e ornamentados que davam para a rua, e muitas delas tinham jardins ou sacadas, onde às vezes era possível ver um aprendiz dormitando, lendo ou apreciando a manhã. Algumas das torres eram apenas prédinhos quadrados de três ou quatro andares, outras eram circulares e iam afinando nos andares mais altos; algumas delas tinham portões grandes no andar térreo, outras tinham portas pequenas de madeira, e algumas ainda tinham apenas uma escada exterior que levava a uma porta-balcão no meio do segundo-andar. Muitas delas tinham os andares superiores feitos de pedra branca, como as casas das periferias da cidade. A Rua dos Mestres era uma das mais antigas da cidade, e quando Liserh corria por ela ele sentia o cheiro das madeiras e pedras escuras e das trepadeiras que cobriam todos os muros e quase fechavam as grandes janelas, e sentia o olhar das gárgulas monstruosas vigiando-o em seu caminho, o mêdo que toda criança tinha daquela parte da cidade se somando ao nervosismo pelo que ia acontecer com ele hoje. Quando chegou ao seu destino, Liserh parou para recuperar o fôlego e a calma, querendo parecer controlado e respeitável ao entrar.
Era apenas por um acaso histórico que a pena de Raéa do Braço do Grande Anjo, a força militar de elite que servia à defesa de Heaven, tinha sua sede na Rua dos Pensamentes. O prédio da sede se destacava de longe porque suas paredes eram impecavelmente brancas, livres de trepadeiras, ao invés de ter gárgulas negras e assustadoras espalhadas pelos beirais, tinha um único Grifo branco e dourado alçando vôo de cima da grande janela do terceiro andar, sobre um telhado ornamentado apenas com telhas em forma de penas. O terreno era maior do que os outros da rua, e o portão era mais alto, e o próprio prédio era mais largo, e embora não fosse um dos mais altos, ele se destacava por seu uma construção inteiriça, diferente das outras torres que tinham pedaços construídos em época diferentes. Desde a primeira vez em que vira aquele prédio, Liserh sentira que ele era especial, e quando aprendera na escola que aquela era a sede do Braço do Grande Anjo, se tornara seu sonho um dia ser chamado para entrar naquele lugar.
(estou publicando provisóriamente, deixem comentários)
Neste dia, Ly também estava feliz porque ia conseguir uma coisa a mais, uma coisa a mais a que se agarrar nos momentos em que a luz parecia distante. Ele não tinha a menor dúvida de que a partir de então ele seria feliz! Ali, em Raéa, onde cada dia era perfeito, ali ele ia encontrar seu lugar do lado direito de Deus. Era impossível parar de sorrir. Ali ele ia encontrar aquilo que daria sentido à sua vida.
Ele atravessou mais algumas praças cobertas de lírios, e algumas ruas estreitas e floridas, saltitando de pedra em pedra e cantarolando para acompanhar as Almas. Antigamente ele costumava pensar com freqüência em como seria, depois da morte, é claro, ser um pássaro e passar seus dias planando e chilreando por aí; mas hoje esse pensamento sequer lhe ocorreu -- a vida parecia tão bela assim do jeito que estava! Era difícil pensar em coisas tristes ou mesmo coisas imperfeitas neste dia alegre.
Uma sombra passou por sua cabeça; a sombra do pórtico que separava seu bairro, cheio de jardins, do centro de Raéa, onde as construções altas de pedra antiga e acinzentada deixavam todo o espaço fresco e sombreado. A rua em frente era longa, estreita e cheias de portas dos dois lados, numa parede de sobrados interrompida a cada dezena de metros por vielas laterais. Mais adiante, a rua se inclinava em direção ao cume da cidade, e os topos das construções da região mais alta apareciam por trás dos telhados dos sobrados.
Lysere pôr os pés no chão e correu pelos próximos quarteirões, ansioso agora que podia enxergar a ponta do prédio ao qual se dirigia. As ruas estreitas e sinuosas do centro estavam apenas acordando, e o menino, que conhecia Raéa com a planta dos pés, corria através das primeiras barracas montadas nos mercados, e cortava caminho por dentro das galerias que acabaram de abrir, e se enfiava em ruelas esmagadas entre casarões para atravessar pracinhas nos fundos dos quarteirões. Em Raéa, conforme se chegava mais perto do cume, mais as construções tinham ornamentos e torres e balaustradas, e mais eram feitas de pedras coloridas e inclusive mais escuras, e aqui algumas delas tinham também gárgulas pretas sobre os balaústres, beirais e cumeeiras, com formato de dragão mostrando os dentes, e mais para cima ainda haveria gárgulas de pedra clara, com formato de grifo ou de águia, e nos pés e nas costas das gárgulas as Almas das Manhãs faziam seus ninhos, equilibrados.
Mas a rua que Lysere procurava era uma curta e um pouco mais larga, escondida no meio das ruas amontoadas do centro, ainda na região onde as gárgulas eram pretas e as construções eram de pedra cinza mais escura que em todo o resto da cidade. Para chegar nessa rua era preciso passar por galerias e vielas e caminhos que nem todos conheciam, e ela estava fora de todas as rotas da vias grandes, e por isso era muito vazia e tranqüila, e a essa hora da manhã parecia deserta. Essa era a rua dos mestres do conhecimento, que viviam reclusos com seus discípulos em suas torres estreitas. Cada torre era cercada por um muro baixo, com portões vazados e ornamentados que davam para a rua, e muitas delas tinham jardins ou sacadas, onde às vezes era possível ver um aprendiz dormitando, lendo ou apreciando a manhã. Algumas das torres eram apenas prédinhos quadrados de três ou quatro andares, outras eram circulares e iam afinando nos andares mais altos; algumas delas tinham portões grandes no andar térreo, outras tinham portas pequenas de madeira, e algumas ainda tinham apenas uma escada exterior que levava a uma porta-balcão no meio do segundo-andar. Muitas delas tinham os andares superiores feitos de pedra branca, como as casas das periferias da cidade. A Rua dos Mestres era uma das mais antigas da cidade, e quando Liserh corria por ela ele sentia o cheiro das madeiras e pedras escuras e das trepadeiras que cobriam todos os muros e quase fechavam as grandes janelas, e sentia o olhar das gárgulas monstruosas vigiando-o em seu caminho, o mêdo que toda criança tinha daquela parte da cidade se somando ao nervosismo pelo que ia acontecer com ele hoje. Quando chegou ao seu destino, Liserh parou para recuperar o fôlego e a calma, querendo parecer controlado e respeitável ao entrar.
Era apenas por um acaso histórico que a pena de Raéa do Braço do Grande Anjo, a força militar de elite que servia à defesa de Heaven, tinha sua sede na Rua dos Pensamentes. O prédio da sede se destacava de longe porque suas paredes eram impecavelmente brancas, livres de trepadeiras, ao invés de ter gárgulas negras e assustadoras espalhadas pelos beirais, tinha um único Grifo branco e dourado alçando vôo de cima da grande janela do terceiro andar, sobre um telhado ornamentado apenas com telhas em forma de penas. O terreno era maior do que os outros da rua, e o portão era mais alto, e o próprio prédio era mais largo, e embora não fosse um dos mais altos, ele se destacava por seu uma construção inteiriça, diferente das outras torres que tinham pedaços construídos em época diferentes. Desde a primeira vez em que vira aquele prédio, Liserh sentira que ele era especial, e quando aprendera na escola que aquela era a sede do Braço do Grande Anjo, se tornara seu sonho um dia ser chamado para entrar naquele lugar.
(estou publicando provisóriamente, deixem comentários)
sábado, 18 de dezembro de 2010
Rascunhos
"Não faça rascunhos. Leve cada desenho a sério." - Peçanha
Sabe, eu tenho dois rascunhos quase permanente no meu blog, além de um rascunho rotativo de Histórias Sem Fim. São começos de histórias que eu queria escrever, que começaram muito naturalmente, mas que eu não consigo continuar! É tão difícil continuar. Particularmente esta sobre o Lay, o Anjo do Relâmpago (é a primeira vez que o chamo assim, em português), é difícil porque eu comecei querendo escrever com leveza e beleza, mas a vida do Lay não é bonita, e eu não consigo dar o passo do lirismo para a narrativa. Acho narrativas muito difíceis, me dou muito melhor com as descrições. Bem, acho que nunca serei um contador de histórias como o Garth Nix, mas talvez eu possa almejar um pouco do fascínio do Tolkien... Enfim, vou publicar esse rascunho para vocês terem uma idéia do que estou falando.
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Na cidade de Raéa tudo era tão bonito! As praças estavam cobertas de lírios e as torres dos palácios se erguiam claras e majestosas em direção ao céu azul e límpido lá em cima. Em Raéa nunca chovia, nunca ficava nublado, talvez porque a cidade estava acima da maioria das nuvens, no topo dos picos fantásticos que o povo comum chamava de Heaven. É claro que o nome original do lugar era Haven, mas quem discordaria do nome que o povo dava, quer dizer, haveria um lugar mais próximo de se chamar de Céu? Os enormes pássaros de Raéa se agitavam e cantavam para despertar a cidade. Os habitantes de Raéa, como qualquer povo de boa fé, venerava a Quemi, o Pássaro das Cores, e a Quehy, a Fênix de Luz. Exemplares jovens das duas espécies saltitavam aqui e ali, colorindo e iluminando o ar em que dançavam; mas o pássaro mais presente da cidade era o que eles chamavam de Alma dos Ventos, uma ave imponente que parecia nunca parar de crescer e que viajava distância inacreditáveis para fazer seu ninho nas torres dos palácios. E, como era bem cedo, os parapeitos das janelas estavam apinhados de Almas das Manhãs, os menores pássaros de Raéa (ainda um pouco maiores que um sabiá de peito laranja), que tinham penas macias como as plumas de um bebê e que se reuniam no nascer do sol para se aquecer, conversar com seus irmãos em trinados baixos e graves e entoar adoráveis cantigas de acordar. Não havia melhor forma de acordar que o amanhecer de Raéa! O sol entrava por todas as janelas e fazia brilhar as torres imaculadamente brancas. As casas baixas, feitas de blocos mais rudes das pedras claras das montanhas, estavam cobertas de flores delicadas que se abriam ao toque do sol. Cada porta, esculpida na mais nobre madeira jovem que crescia timidamente abaixo das nuvens, se abria, e cada janela, apenas para deixar o vento entrar. Logo todos estariam despertos, e a cidade estaria cantando com o prazer de um novo dia. Era por essas manhãs que Lyserh vivia. Ele adorava saltar para a rua e sentir o ar correndo por sua pele enquanto abrandava a queda. O azul do céu e o branco brilhante das casas e das flores o preenchia , como o calor do sol. Ele cumprimentava os pássaros ao caminhar pela praça. Era sua vez de ser feliz. Era tudo o que tinha na vida.
Neste dia, Ly também estava feliz porque ia conseguir uma coisa a mais, uma coisa a mais a que se agarrar nos momentos em que a luz parecia distante. Ele não tinha a menor dúvida de que a partir de então ele seria feliz! Ali, em Raéa, onde cada dia era perfeito, ali ele ia encontrar seu lugar do lado direito de Deus. Era impossível parar de sorrir. Ali ele ia encontrar aquilo que daria sentido à sua vida.
Ele atravessou mais algumas praças cobertas de lírios, e algumas ruas estreitas e floridas, saltitando de pedra em pedra e cantarolando para acompanhar as Almas. Antigamente ele costumava pensar com freqüência em como seria, depois da morte, é claro, ser um pássaro e passar seus dias planando e chilreando por aí; mas hoje esse pensamento sequer lhe ocorreu -- a vida parecia tão bela assim do jeito que estava! Era difícil pensar em coisas tristes ou mesmo coisas imperfeitas neste dia alegre.
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Minha idéia é contar como Lyserh entrou para a força de elite dos Anjos. É muito importante para a história que ele entre nela. Na verdade é essa a fundação do personagem. Mas eu não consigo fazer acontecer.
quinta-feira, 18 de março de 2010
Comunicado & Reflexão sobre as Estórias
Resolvi escrever isto aqui em parte por causa de um comentário que a Tá deixou, dizendo que gostaria de ler o que eu escrevo. Na verdade, eu tenho tentado escrever algumas coisas, não necessariamente histórias definitivas mas rascunhos e anotações para o futuro. Meu último projeto é escrever sucintamente tudo o que eu consigo ver da história que eu chamo de Soule V, a história de Marwa Macally e de todos os que se envolveram com ela no Hatsw. Essa Saga surgiu quando eu tinha uns onze ou doze anos, a partir da minha paixão por video-game e talvez da influência de Tolkien e dos caras da Exodus. Por muitos anos eu evitei descrevê-la porque sabia que eu não tinha a capacidade de cantá-la tão épica quanto ela merecia, ou porque eu não conseguiria descrever decentemente os cenários e os personagens. Depois de um tempo, eu decidi que não podia realmente contá-la por causa do seu conteúdo: porque era uma Soule, ou seja, os personagens eram em grande parte variações de pessoas reais, especialmente eu e meus irmãos e amigos mais próximos; e porque começava como um jogo de video-game e depois se tornava um épico sério e intenso. Passei anos da minha vida tentando encontrar uma forma de adaptar a história para que ela pudesse ser contada para qualquer pessoa. Esta semana, porém, decidi que estava me preocupando com as coisas erradas.
Acho que o mais importante é escrever a história, agora. Se eu puder escrever a história de Marwa, então poderei contar a história de Aragorn Scorpes, de Jolyn e de Idael. Poderei compreender como o Hatsw funciona e aplicar esse conhecimento em outras histórias passadas no mesmo cenário. De repente o video-game não me parece mais uma forma tola e infantil de começar um conto. Afinal, Nárnia não começa com crianças brincando pela casa? Meu conto pode ser menos infantil que Nárnia, mas ainda será lido por pessoas que gostariam de passear por outros mundos de qualquer forma que fosse, assim como eu. Eu quero escrever para essas pessoas, esses meus irmãos de fantasia. Eu quero expôr minha alma para eles, e pedir sua solidariedade.
Ontem um esquerdista vendendo jornal conseguiu atrair meu interesse e me fez descrever minha história como "sobre pessoas tentando encontrar seu lugar no mundo". Sejamos dragões ou executivos, não queremos todos a mesma coisa?
Por fim, eu escrevo para dizer que você pode ler o que eu escrevo, Tá. Parte do que eu escrevo está neste blog, no label La Cantadora. Outra parte eu posse contar a quem pedir. Algumas coisas me deixam um pouco perdida, como por exemplo a personagem que é irmã mais velha da protagonista e que em breve entrará na faculdade e terá pouco tempo para jogar com ela. Outras coisas me empolgam, como, por exemplo, o filho de meu filho. Tenho ao mesmo tempo vergonha e orgulho do que irei contar, mas se me pedir com vontade suficiente, eu contarei tudo. É claro que há partes que eu preferiria não contar por uma questão de surpresa, mas me peça para eu guardar a surpresa e eu guardarei.
Eu quero aprender todas as línguas, porque de alguma forma me parece que a verdade está nas palavras.
Acho que o mais importante é escrever a história, agora. Se eu puder escrever a história de Marwa, então poderei contar a história de Aragorn Scorpes, de Jolyn e de Idael. Poderei compreender como o Hatsw funciona e aplicar esse conhecimento em outras histórias passadas no mesmo cenário. De repente o video-game não me parece mais uma forma tola e infantil de começar um conto. Afinal, Nárnia não começa com crianças brincando pela casa? Meu conto pode ser menos infantil que Nárnia, mas ainda será lido por pessoas que gostariam de passear por outros mundos de qualquer forma que fosse, assim como eu. Eu quero escrever para essas pessoas, esses meus irmãos de fantasia. Eu quero expôr minha alma para eles, e pedir sua solidariedade.
Ontem um esquerdista vendendo jornal conseguiu atrair meu interesse e me fez descrever minha história como "sobre pessoas tentando encontrar seu lugar no mundo". Sejamos dragões ou executivos, não queremos todos a mesma coisa?
Por fim, eu escrevo para dizer que você pode ler o que eu escrevo, Tá. Parte do que eu escrevo está neste blog, no label La Cantadora. Outra parte eu posse contar a quem pedir. Algumas coisas me deixam um pouco perdida, como por exemplo a personagem que é irmã mais velha da protagonista e que em breve entrará na faculdade e terá pouco tempo para jogar com ela. Outras coisas me empolgam, como, por exemplo, o filho de meu filho. Tenho ao mesmo tempo vergonha e orgulho do que irei contar, mas se me pedir com vontade suficiente, eu contarei tudo. É claro que há partes que eu preferiria não contar por uma questão de surpresa, mas me peça para eu guardar a surpresa e eu guardarei.
Eu quero aprender todas as línguas, porque de alguma forma me parece que a verdade está nas palavras.
sábado, 12 de janeiro de 2008
O ser imenso abriu apenas um olho, e quase sem se mexer examinou cuidadosamente o que via.
Be yourself, no matter what they say
Eu preciso falar sobre aquelas meninas. Preciso falar sobre elas assim como preciso falar sobre o João Dante mas não ainda. Preciso falar porque algo acontece e é algo diferente de tudo o que aconteceu antes. Antes era apenas um sonho, agora... Digo que o dragão acorda de um breve sono, olha ao redor e decide que o Filho do Cão está por aqui. Ele se deita novamente e adormece, adormece aguardando o tempo (que virá) quando houverem mais dragões e quando eles puderem crescer e se multiplicar. Mas então algo acontece. Algo como um ligeiro tremor, uma vibração que suas grossas escamas mal percebem. "Ainda levará anos para que eu possa fazer uma armadura", disse-me o dragão do sonho; mas agora ele olha ao redor, até um pouco assustado, e pergunta: você acha que o futuro já chegou?
Elas tinham nomes como Mônica, Bárbara, Fernanda. Eram pequenas, como convém a pequenas meninas, pequenas como estas. Com os pratos brancos. Eram o futuro. Mariana, Bianca, Luna. Eram fortes, e apaixonadas. E deveriam aprender. E seriam o futuro. Eram três, e não sabíamos bem como encontrá-las. E teriam nomes como os nossos. E nos sucederiam. Isso na história. Mas um dia sonhei com estar conversando com três meninas e o Rafa, ou seria o Ugo? E um dia vi a cena do sonho e levei um susto (ninguém percebeu). E foi como se fossem elas mesmo. Não exatamente elas, mas alguma coisa parecida. O futuro já chegou? eu me perguntei, assustada. Tão rápido, com tanta antecedência?
Depois se tornaram meninas de verdade, deste mundo e não do outro. Mas eu olharia para elas em dúvida mais algumas vezes, por mais algum tempo. E então elas começaram a falar, como filhotes de dragão que finalmente se dão conta de seus poderes (dentro de mim, é claro. elas mesmas provavelmente já conheciam seus poderes). E alguma coisa me assustou. Naquelas meninas que não eram, pensando bem, tão pequenas. Alguma coisa entre dizer yuri-monitor e falar sobre mim em um de seus posts. Como dragões adolescentes que de repente assustam a todos com seus poderes. Como correntes, de algo maior do que ferro. E velhos jogos da verdade (perdi o Jogo) em que falamos de Amor, e de Deus, e eram a mesma coisa, no final das contas. E ler aquelas palavras foi como estar de novo com quinze anos, sofrendo uma paixão difícil, tendo sonhos acusadores, pensando em beijos proibidos, e descobrindo formas de ter amigos que eu não conhecia, e me fortalencendo cada vez mais, e abraçando, e sonhando. E eu olhei nos olhos daquele dragão jovem e falei, claramente:
— Eu achei que não existiam dragõas mães nesta era. Mesmo diante de ti, não posso acreditar que existas.
— A dragõa-mãe me carrega desde as eras antigas. Dragões mais nascerão — respondeu meu amigo, dulcíssimo. — Dragões cobrirão os céus, pois a dragõa-mãe ainda vive.
— E teu pai, meu amigo, ainda existe?
— Meu pai é o mesmo que o teu. Ele dorme no fundo dos mares; ele caça ao pé das montanhas. Mas as eras tiraram sua força.
— E os dragões que dormem escondidos?
— Nós os encontraremos, irmã. O meu cheiro os despertará, pois trago ainda o cheiro do berço. Nós os despertaremos, irmã, e os levaremos à mãe. Nós renasceremos, irmã.
quinta-feira, 24 de maio de 2007
O Tomo de Gancche - I
Escrevi este início de história há um bocado de tempo já, mas nunca consegui terminá-lo. Vou publicá-lo talvez apenas para tornar menos difícil lê-lo, sabe? Obviamente, eu não pretendia interromper a narrativa ali, mas fui obrigada. Um dia eu termino ^^ Aproveitem, foi feito com esmero.
O relógio de pêndulo acabou de assoviar seis horas, e cada objeto nesta sala parece reverberar em concordância. Os livros nas estantes, com suas capas de madeira, tremem com o assoalho, em resposta aos urros da trovoada, e meus velhos ouvidos sentem o tilintar silencioso das lâminas nas paredes e das penas sobre a escrivaninha. Cada coisa nesta sala quer prender minha atenção, quer lembrar-me de sua importância e da importância do momento e do lugar de onde saiu. A pedra vermelha que uso como peso de papel prende o meu olhar como um îmã poderoso; o envelope rasgado embaixo dela exala um perfume antigo que torna difícil pensar. É certamente o punhal de lâmina negra, entre todos, o que mais se remexe (imóvel) no seu suporte na parede. Entretanto, poderia eu desandar a falar dele, quando sequer mencionei tantos outros elementos cuja importância precede sua existência? Vejo agora o grave erro que cometi: tranquei as portas, e passei ferrolho nas janelas, para que ninguém vindo de fora perturbasse meu ofício, e agora são os alguéns — ou alguns — de dentro que me perturbam. Desde sempre, dias como este, chuvosos e cheios de vento, me trazem tantas lembranças, e tão antigas, que não consigo manter os olhos no presente.
Então, talvez seja a chuva minha melhor companheira: porque é preciso que eu me volte mais uma vez para o passado. É preciso que eu conte uma velha história, uma entre as tantas histórias que cada reflexo de luz nesta sala insiste em me recordar, mas uma história que ao fim encerra todas as outras. É por isso que tranco as janelas, que privo-me da abençoada luz do Sol e me atenho à pena em minha mão e ao tomo sob meus dedos. Todavia, antes que eu consiga unir os dois e dar início, finalmente, à narrativa, uma dúvida me paraliza: por onde devo começar? De outros dias chuvosos como este, outros dias que mudaram minha vida? De algum momento ainda mais memorável, em que a vida dos — dos protagonistas? — estivesse periclitando entre mais de um precipício? Aquém e além dessas portas fechadas, cada signo no mundo reclama o seu direito de introduzir e justificar os outros. Eu busco o momento que melhor explica tudo o que este tomo tem dever de compreender. Devo partir do fim? Do começo? E, mesmo que soubesse escolher por um dos dois, eu saberia discernir quais são o início e o término de minha história? Não — seria melhor que a minha narrativa começasse não por um, mas por todos os momentos, conferindo a cada instante o valor e o sabor de descoberta que é de seu direito.
<08/11/06>
O relógio de pêndulo acabou de assoviar seis horas, e cada objeto nesta sala parece reverberar em concordância. Os livros nas estantes, com suas capas de madeira, tremem com o assoalho, em resposta aos urros da trovoada, e meus velhos ouvidos sentem o tilintar silencioso das lâminas nas paredes e das penas sobre a escrivaninha. Cada coisa nesta sala quer prender minha atenção, quer lembrar-me de sua importância e da importância do momento e do lugar de onde saiu. A pedra vermelha que uso como peso de papel prende o meu olhar como um îmã poderoso; o envelope rasgado embaixo dela exala um perfume antigo que torna difícil pensar. É certamente o punhal de lâmina negra, entre todos, o que mais se remexe (imóvel) no seu suporte na parede. Entretanto, poderia eu desandar a falar dele, quando sequer mencionei tantos outros elementos cuja importância precede sua existência? Vejo agora o grave erro que cometi: tranquei as portas, e passei ferrolho nas janelas, para que ninguém vindo de fora perturbasse meu ofício, e agora são os alguéns — ou alguns — de dentro que me perturbam. Desde sempre, dias como este, chuvosos e cheios de vento, me trazem tantas lembranças, e tão antigas, que não consigo manter os olhos no presente.
Então, talvez seja a chuva minha melhor companheira: porque é preciso que eu me volte mais uma vez para o passado. É preciso que eu conte uma velha história, uma entre as tantas histórias que cada reflexo de luz nesta sala insiste em me recordar, mas uma história que ao fim encerra todas as outras. É por isso que tranco as janelas, que privo-me da abençoada luz do Sol e me atenho à pena em minha mão e ao tomo sob meus dedos. Todavia, antes que eu consiga unir os dois e dar início, finalmente, à narrativa, uma dúvida me paraliza: por onde devo começar? De outros dias chuvosos como este, outros dias que mudaram minha vida? De algum momento ainda mais memorável, em que a vida dos — dos protagonistas? — estivesse periclitando entre mais de um precipício? Aquém e além dessas portas fechadas, cada signo no mundo reclama o seu direito de introduzir e justificar os outros. Eu busco o momento que melhor explica tudo o que este tomo tem dever de compreender. Devo partir do fim? Do começo? E, mesmo que soubesse escolher por um dos dois, eu saberia discernir quais são o início e o término de minha história? Não — seria melhor que a minha narrativa começasse não por um, mas por todos os momentos, conferindo a cada instante o valor e o sabor de descoberta que é de seu direito.
<08/11/06>
segunda-feira, 6 de novembro de 2006
Sobre Lobz, Kyiuri, o Bibliotecário e... bem, eu.
Estou postando por falta do que postar. Pensamentos incongruentes me perturbam:
E se Lobz não for uma pessoa, mas uma sombra? E se o Bibliotecário estiver falando a verdade? E se for uma sombra com alma de gente? E se as lembranças se tornarem reais? E se Lobz fosse a sombra de Kiyuri? E se a Lôba nunca a encontrar? Qual terá sido o sentido disso tudo?
A grande questão, ao se escrever uma história, é que às vezes não parece fazer nenhum sentido contá-la. Como resolver essa questão?
E se Lobz não for uma pessoa, mas uma sombra? E se o Bibliotecário estiver falando a verdade? E se for uma sombra com alma de gente? E se as lembranças se tornarem reais? E se Lobz fosse a sombra de Kiyuri? E se a Lôba nunca a encontrar? Qual terá sido o sentido disso tudo?
A grande questão, ao se escrever uma história, é que às vezes não parece fazer nenhum sentido contá-la. Como resolver essa questão?
sexta-feira, 11 de agosto de 2006
Minha tristeza é inexata
Eu tenho vontade de escrever uma história como as que o Cham escreve às vezes... Aquelas que finjem que são apenas sobre os personagens, mas que na verdade são sobre ele mesmo. Aquelas que são nacos arrancados da alma e firmados nas palavras. Aquelas que são completas, e simples, e cheias de um sentimento indefinido que talvez só quem pões sentimentos em histórias possa perceber, porque acho que é esse o sentimento. Mas eu não tenho mais forças para isso. Ao menos não hoje.
Eu não tenho motivos para estar triste. Isso provavelmente significa que eu estou apenas cansada, e que amanhã vai fazer um lindo dia de sol e eu vou estar cantarolando. Mas nada disso adianta, porque eu estou numa jangadinha tão pequena, e tão perdida, que não consigo ver direito o amanhã. Acho que estou com amnésia: não sei direito o que vou fazer nem o que vai acontecer comigo.
Quando você foi embora, eu fiquei ali parrada alguns segundos, olhando pro nada, sem pensar, sem sentir nada. Então meu coração voltou a bater, devagar, e eu sorri de uma forma que não sorria antes. De repente o futuro não importa tanto, porque o presente já é pesado, denso e difícil. De repente, meu futuro não me preocupa muito; o futuro vai ser bom, vai ser diferente, vai ser uma aventura. Amanhã, quem sabe, possamos rir e brincar como crianças aprendendo a crescer. No fundo, ainda me sinto um pouco criança, preciso ser prtegida, preciso de ajuda, não entendo tudo o que me dizem. Ao mesmo tempo, me sinto forte o suficiente para ir em frente, para ir aonde for preciso e enfrentar os desafios que me aguardam. De certa forma ainda sinto uma chama ardendo pela vida em mim. Meus sonhos estão apenas um pouco apagados -- mas, se soprarmos, podem acender de novo.
eu já não me pergunto se eu não sei por quê
às vezes o que eu vejo quase ninguém vê
eu sei que você sabe, quase sem querer
que eu vejo o mesmo que você
Eu queria dar minha vida ao mundo, lutar ferozmente por aquilo em que acredito. Mas em que é que acredito? Vejo meus sonhos voando no vento, como cicatrizes abrindo-se no meu peito... Minhas personagens sempre foram difíceis de explicar, e o sentido de suas vidas fazia pouco sentido até pra mim. Akira, por exemplo, não conhece nenhum sentimento positivo além da Plenitude. Se não existe paz e satisfação, para ele, tudo se torna ódio, mêdo, raiva, dor, nervoso, desconfiança. Kyiuri, por outro lado, compreende todos os sentimentos, mas lentamente esquece-se de senti-los, passando a apenas saboreá-los. A Lôba não consegue controlar seus sentimentos, não consegue tomar decisões importantes porque todas as opções exigem sacrifício de sentimentos... acho que é por isso que ela foge, volta ao mundo dos homens onde tudo é indeciso...
Na verdade estou divagando, ou eu nunca compararia esses três personagens, já que eles praticamente não interagem... Eu devia comparar Akira com Aragorn, Jolyn, Evanael, Idael, Meranael, LA e Mara, porque todos estes estão relacionados muito mais proximamente. Afinal, Mara é praticamente o oposto da Lôba , mesmo que elas sejam praticamente a mesma personagem. Mara, vivendo num mundo muito mais áfero, controla suas emoções, e age conforme a necessidade... ao menos depois da morte de seus dois anjos...
Sabe, um dia você me fez acreditar em coisas impossíveis...
Eu não tenho motivos para estar triste. Isso provavelmente significa que eu estou apenas cansada, e que amanhã vai fazer um lindo dia de sol e eu vou estar cantarolando. Mas nada disso adianta, porque eu estou numa jangadinha tão pequena, e tão perdida, que não consigo ver direito o amanhã. Acho que estou com amnésia: não sei direito o que vou fazer nem o que vai acontecer comigo.
Quando você foi embora, eu fiquei ali parrada alguns segundos, olhando pro nada, sem pensar, sem sentir nada. Então meu coração voltou a bater, devagar, e eu sorri de uma forma que não sorria antes. De repente o futuro não importa tanto, porque o presente já é pesado, denso e difícil. De repente, meu futuro não me preocupa muito; o futuro vai ser bom, vai ser diferente, vai ser uma aventura. Amanhã, quem sabe, possamos rir e brincar como crianças aprendendo a crescer. No fundo, ainda me sinto um pouco criança, preciso ser prtegida, preciso de ajuda, não entendo tudo o que me dizem. Ao mesmo tempo, me sinto forte o suficiente para ir em frente, para ir aonde for preciso e enfrentar os desafios que me aguardam. De certa forma ainda sinto uma chama ardendo pela vida em mim. Meus sonhos estão apenas um pouco apagados -- mas, se soprarmos, podem acender de novo.
eu já não me pergunto se eu não sei por quê
às vezes o que eu vejo quase ninguém vê
eu sei que você sabe, quase sem querer
que eu vejo o mesmo que você
Eu queria dar minha vida ao mundo, lutar ferozmente por aquilo em que acredito. Mas em que é que acredito? Vejo meus sonhos voando no vento, como cicatrizes abrindo-se no meu peito... Minhas personagens sempre foram difíceis de explicar, e o sentido de suas vidas fazia pouco sentido até pra mim. Akira, por exemplo, não conhece nenhum sentimento positivo além da Plenitude. Se não existe paz e satisfação, para ele, tudo se torna ódio, mêdo, raiva, dor, nervoso, desconfiança. Kyiuri, por outro lado, compreende todos os sentimentos, mas lentamente esquece-se de senti-los, passando a apenas saboreá-los. A Lôba não consegue controlar seus sentimentos, não consegue tomar decisões importantes porque todas as opções exigem sacrifício de sentimentos... acho que é por isso que ela foge, volta ao mundo dos homens onde tudo é indeciso...
Na verdade estou divagando, ou eu nunca compararia esses três personagens, já que eles praticamente não interagem... Eu devia comparar Akira com Aragorn, Jolyn, Evanael, Idael, Meranael, LA e Mara, porque todos estes estão relacionados muito mais proximamente. Afinal, Mara é praticamente o oposto da Lôba , mesmo que elas sejam praticamente a mesma personagem. Mara, vivendo num mundo muito mais áfero, controla suas emoções, e age conforme a necessidade... ao menos depois da morte de seus dois anjos...
Sabe, um dia você me fez acreditar em coisas impossíveis...
sábado, 24 de junho de 2006
Daniel Nievvish
Quando eu era criança eu achava que Daniel era adulto. Não que ele fosse especialmente maduro - muito pelo contrário. Nem achava que ele poderia ser de longe tão velho quanto Animal, seu mestre e pai de criação. Mas talvez o velho fosse um pouco baixo, e do alto dos meus quatro ou cinco anos eu não conseguia ver claramente a diferença entre um e outro. É claro que o rapaz era alto, mas para uma criança pequena até um menino de dez ou onze anos tem o porte de um homem feito. E evidentemente eu jamais me tornaria mais alta do que ele, de forma que levaram pelo menos dez anos para que eu finalmente percebesse que o rapaz era, no máximo, pré-adolescente, e na maioria dos aspectos tão infantil quanto Rafa, Rin, ou mesmo eu. O fato de nós brigarmos de igual para igual, ou de eu eventualmente subjugá-lo, na história, seria no mínimo surreal se ele fosse, como seria mais tarde, um homem firme, poderoso e consciente. Por isso é que há alguns meses (ou anos, não sei dizer) eu tento substituir a imagem clássica do jovem adulto pronto para novas aventuras pela do rapazote insolente, prepotente e ansioso por novas conquistas que ele era, e seria por muito tempo ainda, mesmo que isso tudo mudasse antes que ele ressurgisse, agora de fato adulto, mais calmo, mais suave, e definitivamente mais evasivo, em todos os sentidos.
A primeira surpresa, nesse reencontro, foi descobrir que ele fuma. Foi assim uma descoberta espontânea: num instante de distração, vi-o tirar um cigarro do bolso da camisa (necessariamente uma camisa de manga - ele se recusaria usar camiseta) e acendê-lo com um isqueiro barato tirado do bolso da calça. Talvez tenha sido isso o que deixou mais claro que é tudo uma farsa - afinal, o fumo ia contra seu ideal de vigor e saúde, de força e resistência, que aparentemente orientara sua vida desde sempre. Até se podia imaginar que ele bebesse... afinal, seu mestre já aprendera a fazer cachaça. Mas dizem que quem fuma não pratica alpinismo. E Daniel estava muito propenso a escalar montanhas. Mas afinal de que é que está se escondendo?
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Na verdade é estranho tentar compreender os prórprios personagens. Daniel não foi o meu personagem mais duradouro. Depois de um ou dois anos de intensas aventuras nas quais ele era umas vezes vilão, outras companheiro, o rapaz solitário, que não conhecia carinho nem humanidade, foi tão esquecido quanto o resto do mundo fantástico de Ziget. Difícil então falar sobre ele. Orfão de pai, mãe e civilização, o menino foi encontrado por acaso por um dos pouquíssimos seres humanos vivendo na superfície. O soldado não tinha mais tropa, não tinha mais ordens, não tinha mais família, não tinha mais nome, nem sonhos. Àquela altura todos haviam desistido de ser alguma coisa, e ninguém mais acreditava nos Guardiães. Não se sabia a razão de nada, e apenas presumia-se que os Negros estivessem acorrentando o fluxo vital da terra. Pode-se dizer que o menino, um menino com nome, com futuro e com sonhos, reacendeu nele a esperança de uma humanidade perdida. O menino era pequeno, mas já tinha algumas idéias e sabia um pouco de leitura e escrita, o que era mais do que o velho ferreiro poderia lhe oferecer. Quando o menino Daniel lhe perguntou, no imperativo, sem pronomes de tratamento, quem ele era, o velho se atrapalhou e respondeu, num grunhido embolado, quase um rosnado, de quem desaprendeu a falar: Animal Smith.
Talvez Daniel fosse até mesmo um dos Negros. Como eles foram de certa forma apagados na mesma época, é difícil saber com certeza. Seria até interessante imaginar porque o menino foi mandado para a superfície, onde para todos os efeitos as forças antigas tinham menos influência. Afinal, desde a extinção dos dragões os povos humanos de Zigat haviam feito poucas excursões à superfície, e deviam ter pouca consciência do que se passava lá fora, em termos amplos. Ainda assim, haviam lançado algumas poucas tropas à Luz para garantir que os Povos Azuis não se tornassem demasiado pretensiosos. Dessa forma o velho Animal era sobrevivente da época dos Homens das Cavernas (os garimpeiros de diamantes)... Seus rostos queimados de sol diziam pouco a respeito de suas origens, mas fossem quem fossem os dois, como todos os outros humanos do planeta, eram resultado dos conflitos do passado misturados rudemente com a força vital do povo das profecias. Talvez, apesar deles, ainda seja certo dizer que Zigat é um mundo sem homens...
A primeira surpresa, nesse reencontro, foi descobrir que ele fuma. Foi assim uma descoberta espontânea: num instante de distração, vi-o tirar um cigarro do bolso da camisa (necessariamente uma camisa de manga - ele se recusaria usar camiseta) e acendê-lo com um isqueiro barato tirado do bolso da calça. Talvez tenha sido isso o que deixou mais claro que é tudo uma farsa - afinal, o fumo ia contra seu ideal de vigor e saúde, de força e resistência, que aparentemente orientara sua vida desde sempre. Até se podia imaginar que ele bebesse... afinal, seu mestre já aprendera a fazer cachaça. Mas dizem que quem fuma não pratica alpinismo. E Daniel estava muito propenso a escalar montanhas. Mas afinal de que é que está se escondendo?
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Na verdade é estranho tentar compreender os prórprios personagens. Daniel não foi o meu personagem mais duradouro. Depois de um ou dois anos de intensas aventuras nas quais ele era umas vezes vilão, outras companheiro, o rapaz solitário, que não conhecia carinho nem humanidade, foi tão esquecido quanto o resto do mundo fantástico de Ziget. Difícil então falar sobre ele. Orfão de pai, mãe e civilização, o menino foi encontrado por acaso por um dos pouquíssimos seres humanos vivendo na superfície. O soldado não tinha mais tropa, não tinha mais ordens, não tinha mais família, não tinha mais nome, nem sonhos. Àquela altura todos haviam desistido de ser alguma coisa, e ninguém mais acreditava nos Guardiães. Não se sabia a razão de nada, e apenas presumia-se que os Negros estivessem acorrentando o fluxo vital da terra. Pode-se dizer que o menino, um menino com nome, com futuro e com sonhos, reacendeu nele a esperança de uma humanidade perdida. O menino era pequeno, mas já tinha algumas idéias e sabia um pouco de leitura e escrita, o que era mais do que o velho ferreiro poderia lhe oferecer. Quando o menino Daniel lhe perguntou, no imperativo, sem pronomes de tratamento, quem ele era, o velho se atrapalhou e respondeu, num grunhido embolado, quase um rosnado, de quem desaprendeu a falar: Animal Smith.
Talvez Daniel fosse até mesmo um dos Negros. Como eles foram de certa forma apagados na mesma época, é difícil saber com certeza. Seria até interessante imaginar porque o menino foi mandado para a superfície, onde para todos os efeitos as forças antigas tinham menos influência. Afinal, desde a extinção dos dragões os povos humanos de Zigat haviam feito poucas excursões à superfície, e deviam ter pouca consciência do que se passava lá fora, em termos amplos. Ainda assim, haviam lançado algumas poucas tropas à Luz para garantir que os Povos Azuis não se tornassem demasiado pretensiosos. Dessa forma o velho Animal era sobrevivente da época dos Homens das Cavernas (os garimpeiros de diamantes)... Seus rostos queimados de sol diziam pouco a respeito de suas origens, mas fossem quem fossem os dois, como todos os outros humanos do planeta, eram resultado dos conflitos do passado misturados rudemente com a força vital do povo das profecias. Talvez, apesar deles, ainda seja certo dizer que Zigat é um mundo sem homens...
(PS: eu comecei este post hoje às quatro horas da manhã. Fui ler outros blogs e fotologs, postei um poeminha fajuto e outras bobagens, até que li o comentário da Clara, que foi quem me inspirara a escrever em primeiro lugar. Então terminei, na hora que está marcada ali embaixo. É, eu sei. E tenho que estar na Milla às 3h30 hoje! Oh Deus, Oh Vida, Oh Azar!)
PPS:Escrevo sobre amanhã amanhã ou depois. Não sinto um pingo de arrependimento, e estou feliz. Viva! ^___^
PPS2:Por amanhã eu quero dizer hoje.
domingo, 14 de agosto de 2005
"Never look back"
As pessoas vivem dizendo coisas assim, "Não chore pelo leite derramado", "Seguir em frente sem olhar para trás", "Águas passadas não voltam mais". Pois é, não voltam. Ainda assim, perdemos tempo e energia procurando coisas pelas quais nos apaixonamos quando éramos crianças. Por exemplo, quando eu era criança inventei histórias demais. Tantas, que nenhuma delas era lá muito interessante. Na verdade, até que eram bem legais. Mas aos poucos eu fui me dando conta de que elas eram impublicáveis, pois só falavam de mim, da minha vida, e de como eu queria que ela fosse. A Louba Zaty nada mais é do que uma projeção de como às vezes eu queria que minha vida fosse. O interessante é que em certo momento a Louba torna-se cansada e amargurada por todo o sangue derramado e todo o horror que presenciou ou do qual tomou parte. Talvez fosse uma espécie de consolo, como um dizer: se você vivesse assim, seria infeliz também. Mesmo assim, eu sonhava com Ziget, terra da liberdade, onde eu podia tudo, e tudo era um sonho infantil. Sempre que me refugiava lá, o planeta inteiro me recebia amorosamente, como uma velha companheira que há muito não voltasse para casa. Acho que era essa toda a idéia. Por isso várias vezes eu deixei Ziget, para retornar anos mais tarde. Acho que de quando em quando eu fazia um amigo no mundo real, que fazia a voda um pouco menos terrível. Agora, porém, estou matando essa criança, e abandonando a Velha Floresta, onde procuramos cristais e em cujos rios nos banhamos tranqüilamente, mais uma vez.
Hoje, estou assassinando sonhos infantis. Estou quebrando minha coleção de espadas, e é com dor no coração que vejo-as se desfazendo em pó. Sentirei falta de Ziget, dos gigantes azuis, das casas na floresta ou na montanha, daquele gosto de sangue. Mas são águas passadas. Não há nada à minha frente, mas morro se olhar para trás. Hoje, mato uma criança. Hoje, não sou mais quem fui. Quero superar minha incapacidade de deixar para trás quem me amou mais do que eu sabia amar. Quem, aliás, me fez notar o quanto eu não sabia amar. Estou iniciando uma guerra contra um sentimento ao qual não posso me apegar. Estou apagando-o. Oficialmente, vou lutar por ir além do que sempre fui. Vou dar um significado aos meus desenhos. Vou escrever minhas histórias, mas não aquelas que não posso publicar. Não quero mais fazer fics. Não quero mais chorar. Vou devolver o demônio ao seu inferno. Acho que pela primeira vez quero fazer um amigo, de verdade. Sem enganar a ninguém, nem a mim mesma.
- O que não significa que Aragorn Scorpes vai mudar de nome. Espero que não haja copyright sobre o nome. -
Uma reportagem na VEJA dizia que as mulheres são capazes de reviver intensamente suas experiências emotivas, enquanto os homens se esquecem das coisas rapidamente. Acho que está certo. Metade da minha dor consiste em reviver aqueles momentos passados e saber que eles pertencem ao passado, que o que estamos vivendo agora não inclua o que já vivemos. Eu queria poder viver tudo de novo: me apaixonar de novo, te conquistar de novo, o primeiro abraço, o primeiro eu-te-amo, o primeiro beijo. Lembro do que senti, de quão mais doce pareceu o aroma do mundo naquele momento. O quão perdida me senti, por saber estar abraçando um coração, e ao mesmo tempo lacerando outro. O quanto, entretanto, me pareceu certo mesmo assim. É difícil deixar algumas lembranças para trás. É difícil não ficar pensando nelas, pensar em como as coisas poderiam ter sido diferentes. Mas isso não só não leva a nada, como também machuca.
Por isso, hoje estou deixando o passado para trás. Combinei comigo e com o O'Boy viver no presente, o tempo presente, os homens presentes, e deixar o passado e o futuro com os outros tempos desinteressantes do sistema, como a eternidade e o nunca.
"O passado e o futuro são fúteis."
Hoje, estou assassinando sonhos infantis. Estou quebrando minha coleção de espadas, e é com dor no coração que vejo-as se desfazendo em pó. Sentirei falta de Ziget, dos gigantes azuis, das casas na floresta ou na montanha, daquele gosto de sangue. Mas são águas passadas. Não há nada à minha frente, mas morro se olhar para trás. Hoje, mato uma criança. Hoje, não sou mais quem fui. Quero superar minha incapacidade de deixar para trás quem me amou mais do que eu sabia amar. Quem, aliás, me fez notar o quanto eu não sabia amar. Estou iniciando uma guerra contra um sentimento ao qual não posso me apegar. Estou apagando-o. Oficialmente, vou lutar por ir além do que sempre fui. Vou dar um significado aos meus desenhos. Vou escrever minhas histórias, mas não aquelas que não posso publicar. Não quero mais fazer fics. Não quero mais chorar. Vou devolver o demônio ao seu inferno. Acho que pela primeira vez quero fazer um amigo, de verdade. Sem enganar a ninguém, nem a mim mesma.
- O que não significa que Aragorn Scorpes vai mudar de nome. Espero que não haja copyright sobre o nome. -
Uma reportagem na VEJA dizia que as mulheres são capazes de reviver intensamente suas experiências emotivas, enquanto os homens se esquecem das coisas rapidamente. Acho que está certo. Metade da minha dor consiste em reviver aqueles momentos passados e saber que eles pertencem ao passado, que o que estamos vivendo agora não inclua o que já vivemos. Eu queria poder viver tudo de novo: me apaixonar de novo, te conquistar de novo, o primeiro abraço, o primeiro eu-te-amo, o primeiro beijo. Lembro do que senti, de quão mais doce pareceu o aroma do mundo naquele momento. O quão perdida me senti, por saber estar abraçando um coração, e ao mesmo tempo lacerando outro. O quanto, entretanto, me pareceu certo mesmo assim. É difícil deixar algumas lembranças para trás. É difícil não ficar pensando nelas, pensar em como as coisas poderiam ter sido diferentes. Mas isso não só não leva a nada, como também machuca.
Por isso, hoje estou deixando o passado para trás. Combinei comigo e com o O'Boy viver no presente, o tempo presente, os homens presentes, e deixar o passado e o futuro com os outros tempos desinteressantes do sistema, como a eternidade e o nunca.
"O passado e o futuro são fúteis."
segunda-feira, 26 de janeiro de 2004
Hyo there, little fellas, comment ça va? I just call to say I love you! Eu sonhei com meus amigos hoje. Estranhamente não foram todos os meus amigos, só aqueles dos quais eu tinha saudades... E junto com eles vieram algumas pessoas nas quais eu nem sequer penso, e foi tudo muito estranho. Foram dias muito estranhos estes últimos. Mesmo descontando as horas que eu passei apenas lendo Dragão Brasil e inventando números e dados RPGísticos para meus mundos... mesmo assim foi tão estranho....
Sábado eu acordei e olhei pela janela, e por mais que eu procurasse eu não conseguia encontrar vida. Eu nunca consegui ver a vida. Estava tudo cinza, mas não um cinza bonito, um cinza cor de cimento, mas tão... sem brio... Eu levantei e fui andando pela casa, e mais do que nunca eu odiei o mundo em que vivemos, esse mundo morto, esse corpo putrefato onde construímos nossas casas e temos nossos filhos. Sabe? O mundo está acabando, e foi só isso que eu consegui ver. Então nós fomos para a paraia, para Toque-toque, um lugar que me traz más lembranças e que eu não faço questão de me lembrar que existe... E lá parecia que a vida não havia se extingüido totalmente... Mas mesmo assim... Havia pouca vida.
Acho que por isso eu me empolguei tanto com os 17 elementos de Ziget(5 de Transformação, 3 de Criação, 6 de Manipulação, 3 de Destruição) e com perguntas bestas como: será que a Mme. Cinísia gosta de rodas?
Então domingo foi aniversário de 450 anos de São Paulo, e eu fiquei olhando todas aquelas pessoas felizes, todos aqueles sonhos, e então eu entendi. Estas lágrimas que estão invadindo meus olhos sem permissão são lágrimas de saudades. Lágrimas de amor. De amizade. Eu estou sentindo tanto a falta de vocês aqui... No final, que se dane que tudo está acabando, que a morte se espalha como um vício bem publicitado, que a vida está lentamente deixando-nos para trás, que o ar cheira a droga e não se sente mais o cheiro da chuva, nem sequer do sangue. Que se dane que estamos morrendo...
É por aquilo que amamos que a gente morre. Acima de tudo, é por aquilo que amamos que lutamos, e é para e por lutarmos que estamos vivos. Não é?
"Diante de coisa tão doída,
conservêmo-nos serenos.
Cada minuto de vida
nunca é mais, é sempre menos.
O Ser é apenas uma parte do Não-Ser
e não do Ser.
Desde o instante em que se nasce
já se começa a morrer."
Para todos vocês, aquele abraço de amigo e urso, meus pequerruchos amados.
Eu não quero esquecer, se eu não preciso...
Sábado eu acordei e olhei pela janela, e por mais que eu procurasse eu não conseguia encontrar vida. Eu nunca consegui ver a vida. Estava tudo cinza, mas não um cinza bonito, um cinza cor de cimento, mas tão... sem brio... Eu levantei e fui andando pela casa, e mais do que nunca eu odiei o mundo em que vivemos, esse mundo morto, esse corpo putrefato onde construímos nossas casas e temos nossos filhos. Sabe? O mundo está acabando, e foi só isso que eu consegui ver. Então nós fomos para a paraia, para Toque-toque, um lugar que me traz más lembranças e que eu não faço questão de me lembrar que existe... E lá parecia que a vida não havia se extingüido totalmente... Mas mesmo assim... Havia pouca vida.
Acho que por isso eu me empolguei tanto com os 17 elementos de Ziget(5 de Transformação, 3 de Criação, 6 de Manipulação, 3 de Destruição) e com perguntas bestas como: será que a Mme. Cinísia gosta de rodas?
Então domingo foi aniversário de 450 anos de São Paulo, e eu fiquei olhando todas aquelas pessoas felizes, todos aqueles sonhos, e então eu entendi. Estas lágrimas que estão invadindo meus olhos sem permissão são lágrimas de saudades. Lágrimas de amor. De amizade. Eu estou sentindo tanto a falta de vocês aqui... No final, que se dane que tudo está acabando, que a morte se espalha como um vício bem publicitado, que a vida está lentamente deixando-nos para trás, que o ar cheira a droga e não se sente mais o cheiro da chuva, nem sequer do sangue. Que se dane que estamos morrendo...
É por aquilo que amamos que a gente morre. Acima de tudo, é por aquilo que amamos que lutamos, e é para e por lutarmos que estamos vivos. Não é?
"Diante de coisa tão doída,
conservêmo-nos serenos.
Cada minuto de vida
nunca é mais, é sempre menos.
O Ser é apenas uma parte do Não-Ser
e não do Ser.
Desde o instante em que se nasce
já se começa a morrer."
Para todos vocês, aquele abraço de amigo e urso, meus pequerruchos amados.
Eu não quero esquecer, se eu não preciso...
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