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terça-feira, 14 de agosto de 2018

Quando nasci

(obs: achei este texto na pilha de rascunhos, e entendendo que o final dele precisa ser reescrito e tal, mas estou numa vibe de publicar coisas mal-escritas, então aqui vai)

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Algumas semanas antes de eu nascer, um homem olhou para o meu corpo e disse: mulher.
Minha vó se alegrou de saber que teria uma netinha.
Minha mãe se recusou a saber, ela disse: já tenho uma menina e um menino, o próximo bebê pode ser o que ele quiser. O que vier é lucro.

Eu sou lucro.

Quando nasci, um homem olhou para o leu corpo e disse: mulher.
Me tiraram do colo de minha mãe. Me mantiveram numa cama estéril. Me devolveram para os braços de meu irmão bebê que gritava: minha! Minha! Minha!

Toda criança não pertence a si mesma.

Minhas tias comemoraram meu corpo chamado mulher. Minhas primas me deram espaço nas brincadeiras dos vestidos, das maquiagens, das fadas. O mundo maravilhoso de ser mulher.

Meus primos (e os outros meninos) me disseram que quem jogava mal era mulherzinha, que mulher era covarde, que mulher era ruim, e assim eu aprendi que me chamavam de mulher para me ofender. Mulher era um palavrão.

Quando eu mudei de escola, as crianças ouviram meu nome e souberam: mulher. As meninas me adotaram, me incluíram, me ensinaram as delicadezas, as brincadeiras, os assuntos de mulher; os meninos se afastaram e me afastaram, e tiraram sarro, e puxaram meu cabelo e me chamaram de muitas coisas, às vezes por nojo, às vezes por interesse; e eu aprendi que eu precisava participar da separação entre homem e mulher.

Quando eu cresci um pouco, eu descobri que meu corpo era proibido, que só podia ser visto por aquelas que tinham um corpo semelhante ao meu; que se eu quisesse interagir com meu corpo, revelar meu corpo, trocar os panos que cobriam meu corpo, eu precisava me esconder de todos os que não eram mulher. Eu não entendi; mas eu entendi que meu corpo era mulher, que meu corpo me separava e me limitava ao conjunto das pessoas que se chamavam mulher.

Nas aulas de educação física, o professor olhou pra mim e disse: mulher. Então ele me fez fazer exercícios mais leves, me obrigou a me esforçar menos, baixou suas expectativas sobre o meu desempenho, e muitas vezes me impediu de jogar futebol, porque eu era mulher; e eu aprendi que mulher era fraca, lenta, incapaz e ruim, que eu não tinha mira, nem força, nem fôlego, nem reflexos, e não adiantava eu tentar mostrar que eu tinha, que eu era, que eu podia fazer, porque mulher não pode, não tem, não é; assim era toda mulher.

Quando eu me senti só, um menino olhou para o meu corpo e disse: mulher. E desejou meu corpo e minha companhia, e fez amizade comigo, porque eu era mulher. E ele me permitiu me sentir importante, e inteligente, e querida, como nenhuma pessoa jamais me fizera sentir. Quando nossa amizade cresceu, eu chamei de amor; não amor daquele tipo proibido que só podia haver entre homem e mulher, mas amor daquele tipo doce que se tem entre irmão, entre irmãs, entre familiares e pessoas amigas. Mas ele me pediu em namoro, porque o amor dele era daquele tipo estranho que significava que ele era homem e eu era mulher e o corpo dele, diferente do meu, desejava o meu corpo, diferente do dele. E eu aprendi que eu poderia ter amigos se eu fosse desejável como mulher.

Conforme cresci, minhas amigas e meus amigos me perguntaram, cada vez mais insistentemente, de que menino eu gostava, e eu entendi que eu precisava gostar dos meninos (daquele jeito estranho que só meninas podiam gostar de meninos, e que envolvia romances e beijos e a separação entre homem e mulher), e que os meninos precisavam gostar de mim (dessa forma estranha que só os meninos podiam gostar das meninas e que envolvia corpos e beijos e a separação entre homem e mulher), mais que das outras meninas, e que competir pela atenção do menino que eu gostava era ser mulher.

Quando meus seios cresceram, meu irmão adolescente olhou pro meu corpo e disse: mulher. E eu percebi seu olhar e senti que ele também me via através das divisões e separações e através dos nossos corpos, e que o amor que ele tinha por mim, aquele amor de irmãos, estava manchado pela sugestão daquele gostar que existe entre homem e mulher.

Quando meus pêlos cresceram, eu fiquei feliz de me aproximar mais de uma fera, de uma lôba -- mas logo descobri que pêlos precisavam ser arrancados, em longas sessões de tortura, e eu aprendi que o sofrimento era parte de ser mulher, e que eu não podia ser um bicho, ser selvagem, ser loba, enquanto eu fosse mulher.

Conforme cresci, eu comecei a valorizar apenas as meninas que faziam amizades com meninos, as que recusavam a separação rígida entre os sexos -- mas porque o mundo adolescente era feito da separação entre homem e mulher, nossas amizades se encheram de cotonações sexuais, porque amizades entre homem e mulher sempre se misturavam com aquele tipo estranho de gostar que vinha da reunião dos sexos separados. E eu soube que eu precisava participar desses jogos, e que só podia jogar na posição de mulher.

Eu tentei resistir.
Com meus amigos de internet, eu brincava que era homem, ou bicho, ou fera. Nós falávamos de não ter sexo, ou de poder alternar entre os sexos. Nós falávamos de abraços masculinos, e de não ter vergonha do corpo um do outro. Nós falávamos de amizade, aquela amizade entre pessoas irmãs, um paraíso perdido anterior à cisão entre os sexos, do passado (que eu imaginava que houvesse existido) onde nós havíamos sido livres das limitantes separações entre homem e mulher. O paraíso, anterior aos sexos.

Adolescente, eu decidi que não ia me impôr a vergonha do corpo, que eu podia sim tirar a roupa na frente do meu melhor amigo, meu amigo-irmão; e o fiz. Mas adolescíamos, e eu senti o olhar do meu amigo, e percebi seu desejo, aquele estranho desejo que só um homem podia ter sobre uma mulher, aquele desejo sobre o corpo, sobre cada pedaço de pele exposta ou sugestão de forma; e entendi que eu nunca mais poderia mostrar diante de um homem meu corpo mulher. Minha amizade com homens, a partir dali, seria sempre limitada pelo meu corpo de mulher.

E quando meus pêlos cresceram tão rápido e tão fortes que removê-los passou a ser um tormento, e eu comecei a usar shorts mesmo com pernas peludas, minhas amigas riram de mim, e eu entendi que a pior coisa que eu podia fazer como mulher era ter características de homem.

Mas quando eu descobri que vários dos meus amigos mais íntimos me amavam e me desejavam como mulher, eu entendi que eu era uma mulher amável e desejável, e que eu podia fazer meus amigos felizes sendo mulher.

Depois disso, quando eu comecei a sonhar com os olhos dourados de uma mulher, eu tive mêdo de sequer interagir com ela, com mêdo de que eu não fosse capaz de atender às expectativas de qualquer mulher
 
Depois disso, quando meu amigo me contou que ele era gay, eu tive o baque de aprender que eu podia partilhar amor com um homem que não desejava meu corpo de mulher; e ao mesmo tempo o baque de desejar um homem que jamais desejaria meu corpo de mulher..

E depois, quando eu comecei a namorar o rapaz que declamava seu amor a princesas de corações gélidos, eu odiei esse amor cortês, e decidi me afastar o mais possível da idealização que ele tinha de mulher. E depois, quando eu decidi me afastar dele, eu decidi começar a explorar o que poderia ser me comportar como uma mulher.

Então eu comecei a usar vestidos, e saias, e toda aquela parafernália que me faria mulher; e depois eu descobri que eu não sabia usar maquiagem, mas que poderia não usar, e que se eu raspasse as pernas, não precisaria depilar, e que haviam formas de escapar a algumas partes do sofrimento de ser mulher.

Quando virei mulher, eu compreendi que eu podia tentar resistir à imposição de ser mulher.

Quando eu consegui assumir minha sexualidade, e ir atrás de vivê-la satisfatoriamente, eu descobri que outras pessoas gostariam até das partes mais bizarras, das partes que eu detestava, do meu corpo de mulher. E eu aceitei que meu corpo não era nojento, errado ou deformado, através do desejo e do sexo e do olhar dos homens.

E quando eu entrei em paz com minha sexualidade, eu consegui fazer amizades tranqüilas e honestas e profundas com outras mulheres, e eu descobri que muitas delas também se revoltavam contra o sofrimento de ser mulher; e eu descobri que eu podia lutar contra cada pequeno pedaço do modelo de mulher.

Depois disso, quando eu deixei meus pêlos crescerem, e eu senti o triunfo de voltar a ter patas de fera, os homens vieram atrás de mim me dizer o quanto eles me admiravam na minha coragem como mulher; e eu não consegui dizer a eles que pouco me interessava ser julgada como mulher.

Quando eu encontrei outra pessoa como eu, e brinquei com ela sentindo que nenhum de nós era homem e nenhuma era mulher, eu me dei conta de que eu nunca estava realmente feliz enquanto eu fosse reconhecide como mulher. Mulher era uma prisão, uma corrente que me atava. A liberdade era a fera, a resistência, e o nada.



Quando nasci, eu olhei para o mundo com meus olhos que não eram nem de homem nem de mulher.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Todas as Confissões

Eu vivo controlando meus pensamentos e atitudes, com mêdo de estar cerceando a liberdade alheia, com mêdo de oprimir.

Eu não converso muito sobre as dúvidas que tenho em relação a todas as nossas militâncias.

Muitas vezes eu estou em cima do muro, assistindo. Aconteceu uma ou dias vezes de alguém reclamar de algo que eu disse, ou de algo que eu compartilhei ou endorsei. Aconteceu algumas vezes de alguém se ofender com o fato de eu não ter tomado um lado explicitamente.

Essas coisas me perseguem.

Eu queria ter mais convicção nas minhas ideologias, identidades, filosofias. Em vez disso estou constantemente revendo e questionando o que faço. Nunca sei se o que penso não será de fato uma violência ideológica contra outra pessoa. Não consigo escolher ou construir uma corrente de feminismo com a qual me identifique porque minha opinião fundamental sobre como devemos nos identificar politicamente, ou como eu prefiro me identificar, é fluida. Hoje, no Dia da Visibilidade Trans, eu assumi uma identidade cis, politicamente, pois os temas que discuti hoje eu discuti do ponto de vista de uma mulher, de mulher como classe política, de mulher apesar de nossas individualidades e de nossa resistência ao nosso próprio gênero.

Eu sou uma pessoa designada e lida como mulher. Digo designada mulher não apenas porque fui designada assim no nascimento mas também porque assim me designam diariamente, em todas as interações sociais cisgeneristas,  familiares me designam o papel de mulher, mulheres que acabei de conhecer me impõe o papel de mulher, homens desconhecidos na rua me forçam ao papel de mulher. Em dias ímpares me parece que devo me assumir assim, pessoa designada diariamente como mulher, pessoa agrilhoada ao gênero mulher, mas pessoa não resignada a esse gênero, pessoa que se recusa a se identificar como mulher; em dias assim me recuso a me identificar com o gênero que me foi imposto o com o qual sinto nenhuma identificação. Em dias pares tenho a impressão de que ser designada mulher justamente é ser mulher, e que quando me identifico com outras pessoas que sofreram abusos unicamente por serem vistas como mulheres, sinto essa identificação justamente por ser mulher, porque no fundo é o abuso, a opressão, a única coisa que une todas as mulheres.

Não consigo decidir se sou ou não mulher. É verdade que não quero ser, mas não sei o quando disso é disforia e o quanto é femmefobia.

Sou uma pessoa designada diariamente e desde o nascimento como mulher e convictamente feminista. Mas isso não me impede de ter pensamentos e sentimentos de misoginia e femmefobia (o ódio a coisas associadas ao feminino).

Eu dou suma importância ao feminismo interseccional e procuro ao máximo apoiar e reforçar as lutas de pessoas que possuem outras identidades e que sofrem outras discriminações, mas isso não me salva de eventualmente ter pensamentos classistas, racistas, lesbofóbicos, femmefóbicos, transmisóginos, capacitistas. Na verdade isso me coloca justamente em uma situação em que eu posso pegar essas pessoas desprevinidas e reproduzir a opressão sobre elas dentro dos espaços que deveriam ser seguros, agredindo-as quando suas guardas deveriam estar abaixadas. Eu sou uma fonte de opressão, não só potencial como real. Minha pele, meu rosto, minhas roupas, meu cabelo, minha voz, minha erudição, minhas experiências de vida, minhas opiniões, tudo isso é fruto e lembrança de uma opressão. Eu sou parte de tudo o que eu ojerizo. Minha própria presença é possivelmente opressora.

Eu me considero, pelo menos metade do tempo, uma pessoa de gênero não-binário. Ou pelo menos gostaria de me assumir assim. Minha convicção nessa identidade varia com muitas coisas, entre elas qual modalidade de feminismo eu tenho estudado e seguido mais fortemente. Eu desejo que me reconheçam como uma pessoa que não é propriamente mulher, e eu desejo que me tratem sem distinções de gênero. Eu desejo às vezes ocultar ou modificar aspzctos do meu corpo. Outras ezes eu evito sequer pensar no meu corpo. Eu não desejo interagir com meu corpo como uma mulher -- porém eu também não desejo isso a nenhuma mulher.
Ser uma pessoa (eventualmente) não-binária também não me impede de ter pensamentos e atitudes binaristas, e transfóbicas, mesmo contra pessoas com identidades como a minha e, de fato, contra mim.

Eu não consigo entender o mundo e as palavras de forma objetiva. Me parece que me falta um estudo mais profundo de semiologia. Conceitos como "identidade", "gênero", "mulher" parecem vagos, fluidos, mudam de conversa para concersa, de contexto para contexto, de forma que ora eu sou mulher, ora sou trans, ora sou apenas uma pessoa. Possuir uma identidade de gênero bem-definida e arraigada na identidade pessoal me parece insano, incompreensível, impossível de encaixar corretamente na teoria e percepção que eu gostaria de ter sobre gênero.

Eu tento manter a mente aberta.

Eu sinto que passo mais tempo apagando e reescrevendo o que escrevo do que de fato articulando minhas idéias. Me parece que qualquer coisa que eu pense estará inevitávelmente errada. Mas algumas serão úteis. Mas apenas quando eu compartilhá-las. E eventualmente eu repdroduzo uma forma de pensamento opressiva, é raro mas esses momentos me perseguem. Eu reescrevo tudo o que escrevo porque tudo o que escrevo vem com um alvo e uma intenção. E eu gostaria de atingir o alvo de forma limpa e clara, e não espirrar sangue para todos os lados. Eu não quero correr o risco de comprometer outras causas.

Eu não quero perder a clareza. Eu não quero perder a capacidade crítica. Também não quero me manter em silêncio apenas em nome da liberdade de pensamento, que é uma liberdade falsa, pois permite o desenvolvimento do pensamento amoral. Eu não acredito efetivamente na relativização do que se acha certo. Não ter convicções nenhumas não é nenhuma forma de liberdade, antes uma prisão. Ou talvez a prisão seja a necessidade de convicções para tomar uma atitude.

Eu gostaria inclusive de me apegar mais aos extremos, mas eu sou uma pessoa de hesitações e mêdos, e essa é minha frasueza, e essa é minha força. Eu controlo assim meu potencial para a opressão e a ofensa, mas controlo também meu potencial revolucionário. Porém, eu não preciso e não devo tentar mudar o mundo individualmente. Eu não acredito em nenhum momento no individualismo, e nada do que faço faço pensando individualmente. Assim, eu me considero um tipo de peça útil às nossas causas, como também são úteis as pessoas que têm fortes convicções a respeito de suas próprias identidades.

Eu amadureço lentamente, mas não importa muito, nunca me viram como imatura. Eu serei sempre uma pessoa velha e jovem porque não tenho a coragem de viver uma juventude e nem terei a serenidade de resignar-me à velhice.


segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Diálogo sintético sobre feminismo

--- Amor, o que é esse tal de feminismo do qual você tanto fala?
--- Feminismo é a luta das mulheres por direitos que os homens já têm, é a luta contra o machismo, por igualdade de gênero...
--- Ôpa, igualdade de gênero, eu também quero isso! Posso participar?
--- Claro! Quanto mais aliados, melhor!
--- Péra, "aliados"? Mas eu vou ser feminista também, vou lutar junto com você, por que você me chama meramente de "aliado"? Não é uma luta por igualdade?? Eu também quero a minha igualdade, quero poder fazer as coisas que as mulheres fazem...
--- Você quer fazer o que "as mulheres fazem"? Como o quê?
--- Ah, eu quero poder ir na praia só de sunga, usar saia quando tá quente, que as mulheres paguem a conta pra mim, essas coisas...
--- Ahn, sério? Porque o feminismo é mais sobre coisas como, sabe, poder sair sem mêdo de ser estuprada, conseguir emprego, conseguir viver sem depender de um homem, essas coisas...
--- Ah, mas eu também quero o fim do serviço militar obrigatório só pra homens, e que a taxa de morte por violência de homens diminua!
--- Hm, ok, mas essas não são as pautas do feminismo, sabe? Nós lutamos contra a opressão sobre mulheres que privilegia homens, e não contra a violência de homens sobre outros homens. Aliás o feminismo é justamente sobre parar de focar só nos problemas dos homens.
--- Ah. É? Puxa, achei que o feminismo era uma coisa mais ampla, mais abrangente. Pôxa, então não é a minha causa, esse feminismo não tá com nada. Não quero mais ser feminista não.

<baseado em alguns trechos repetidos freqüentemente de conversas reais. A síntese torna o diálogo um pouco exagerado>

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Feminilidade à serviço do Machismo (um exemplo claro)

Ontem fui no karaokê para o aniversário do Michel. Foi uma noite muito boa, muito divertida, apesar das muitas coisas muito desgradáveis que ocorreram ao longo da noite. Ocorreram muitas coisas muito desagradáveis, e sinto que todas elas de alguma forma foram culpa do machismo, seja por misoginia seja por hetero(ou mono)normatividade. Mesmo o CreeppyGuy louco que nos atazanou a noite inteira só foi tão incômodo porque ele era tão machista, porque usava termos objetificadores, porque fazia as mulheres se sentirem ameaçadas, porque repetia o comportamento de tantos outros homens machistas e agressores. As coisas que tanto me incomodaram foram na verdade coisas muito normais: apagamento de bissexualidade, coibição de danças homoeróticas (entre dois homens sem nenhum interesse um no outro, olha só), xaveco machista, invasão de espaço pessoal.

Normal. A coisa que me incomodou mais, dadas as circunstâncias, foi a mais normal de todas. As circunstâncias eram que eu tenho cabelo raspado à máquina 2 e estava, ontem, me vestindo e portanto de forma deliberadamente masculina, com calças compridas, coturno e camisa social. Durante as interações com o CreepyGuy (que ganhou esse apelido por nossa amiga americana, Akshata, que foi escolhida por ele como alvo principal por ser gringa), meu comportamento foi se tornando cada vez mais rígido e agressivo. Aproveitando que esse maluco parecia me reconhecer como homem, eu reuni toda minha masculinidade pra ir até ele e pedir pra ele ir embora. No final da noite eu estava sem mais nenhuma paciência.

Nessa hora, eu subo para cantar com Chalom e esse cara desconhecido que queria muito cantar com ele. O cara, que nem conhecia a música, aproveita o tempo para elogiar meu cabelo, passar a mão nele (antes que eu pudesse consentir com isso, é claro) e tentar ganhar minha simpatia. Eu admito que não sei lidar com esse tipo de abordagem "simpática". Eu sorrio, tento me afastar gentilmente, tiro a mão do cara de mim gentilmente, não, não está me ofendendo, só pára com isso, diz meu sorriso embaraçado.

Eu preciso aprender a não sorrir, porque obviamente isso não funciona. O cara finge que acha (porque eu sei que ele não é assim tão ingênuo) que eu estou dando mole. Ele finge que conseguiu minha intimidade. Ele se aproveita do meu sorriso e não-violência para continuar puxando papo, puxando papo com as mãos, tocando meu braço, minhas costas, ele finge que não nota que eu me afasto, que eu corto o assunto, que eu viro a cara e deliberadamente me afasto. Ele dá uns dois minutinhos e vem recomeçar, sempre com as mãos, tocando meu corpo com um sorriso, fingindo que ele está sendo amigável. Normal. Desagradàvelmente, enjoativamente normal. Eu ignoro. Fujo. Meu sorriso vai ficando mais amarelo e as recusas vão ficando mais explícitas, mas é irrelevante, ele (Ele, o Homem, esse personagem que insiste em reaparecer tão freqüentemente em minha vida), Ele sabe ler os meus sinais, ele só finge que não para poder continuar insistindo. Um pouco mais e o cara decide ir embora, isto é, decide se despedir de mim (é claro, ele finge que conquistou minha amizade). Despedir é uma desculpa para tocar mais, com mais liberdade, em especial para dar um beijo no rosto e quem sabe até tentar roubar um canto de lábio. Enojadoramente normal. Ele vem me dar um beijo e eu, eu que já O conheço de muitas outras situações desagradáveis, eu me apoio naquela masculinidade que eu desenvolvi ao longo da noite e estendo a mão, sem hesitar, sem balancear --- Mas ele, acostumado a fingir, finge que houve uma dúvida, finge que foi uma confusão, faz que foi um vai-não-vai, um não-sei-se-ofereço-abraço-ou-beijo, faz que eu dei a mão apenas para me livrar dessa dúvida. Eu não entro no faz-de-conta e mantenho a mão estendida, firme, entre nós. Ele se desaponta por um instante e aperta minha mão como se fosse a mão de uma dama. Eu mudo a posição das mãos e faço um aperto decididamente masculino e afasto o corpo. Ele faz um jogo de corpo, dá um sorriso amigável e diz:

"Você está muito masculinizada!",

como uma reprimenda amigável, um conselho de amigo, aproximando o corpo. Eu endireito o corpo e digo com voz firme: "Me deixa ser masculinizada se eu quiser!" ("me deixa", como se Ele precisasse me permitir qualquer coisa). Ele muda de estratégia rapidamente e diz: "É que eu cumprimento meus amigos assim, com um beijo" e, antes que eu consiga tomar uma atitude, me dá um abraço e um beijo na bochecha. Eu me afasto quase que o empurrando pra longe, não sei se sorrio mas acho que minha cara mostra claramente meus sentimento (não me lembro mesmo), e ele solta a frase da noite:

"Você não é assim!"

e, finalmente, vai embora.
Eu volto para minhas amigas e elas me olham com cara preocupada, o que me garante que tudo foi muito claro pra elas também. Elas me perguntam "quem foi esse cara?!" e "ele disse que você não é assim? Quem é ele pra dizer isso?!". Eu me sinto um pouco melhor, mais em segurança (valeu mil vezes, Keks e Carol!). Eu falo como eu não sei lidar com essas pessoas, que eu não soube quando responder, que ele falou que eu tava muito masculinizada e eu tava com muita raiva. Minha amiga diz que eu podia ter respondido "Eu sou um homem!". Eu fico feliz com a idéia, vou tentar na próxima vez. Porque certamente haverá uma próxima vez.

O pior é que, depois disso, durante o resto da noite eu fiquei notando cada pedacinho de mim que poderia ter atraído esse cara, fiquei pensando que talvez se eu tivesse escondendo os peitos ele nem me reconhecesse como mulher e não viesse atrás de mim, fiquei notando como a calça realça minha bunda de uma forma sexy e pensando em comprar calças masculinas que escondem a bunda, fazendo mil planos de esconder meu corpo para me proteger. Me sentindo ameaçada. E isso por um acontecimento estupidamente normal. Que só foi pior que o normal porque dessa vez eu reagi mais que o normal, talvez. Porque a norma é não reagir. A norma é se submeter, como uma boa menina, ou recorrer ao socorro de machos grandes e ameaçadores. Se mostrar como propriedade deles, para se proteger. Meu namorado me contou que estava batendo papo com esse cara depois e que ele ficou muito confuso e pediu desculpas quando descobriu que eu era namorada dele. Claro, pediu desculpas pra ele. Normal.

E afinal chegamos à moral da história. Eu não contei essa história para falar da agressão dos xavecos, que é uma coisa super comum e que todo mundo já deve saber como é. Eu contei porque ela mostra o quanto alguns preceitos de feminilidade estão a serviço do machismo. O homem em questão deliberadamente tentou evocar a feminilidade como forma de se apropriar de mim, de me controlar para ter acesso ao meu corpo. Ele me acusou de ser muito "masculinizada" quando eu resisti a ele, quando me defendi. A masculinidade aqui era uma muralha entre eu e ele, e ele usou os papéis de gênero para tentar me derrubar. Algumas vezes a "utilidade" dos papéis de gênero parecem coisa de gente que teoriza demais e que vê intencionalidade em coisa que não tem -- mas às vezes, e essa história é um exemplo claríssimo disso, as pessoas usam os papéis de gênero de forma maliciosa, deliberadamente, para controlar o comportamento dos outros em seu favor. A feminilidade obriga uma mulher a sorrir, a ser gentil, a dar beijo no rosto e a se submeter ao toque de homens, exceto quando acompanhada. A feminilidade serve para transformar a mulher desacompanhada numa presa fácil. A masculinidade pode ser usada como resistência, mas será prontamente desautorizada. O Homem tentará de todas as formas coagir sua presa a abandonar essa resistência e, em defesa de sua feminilidade, se expôr a ele. Assim a feminilidade serve ao homem machista.

Meu objetivo atual é ser capaz de abandonar todas as feminilidades que me tornam frágil e que me expõe, e nunca me sentir na obrigação de ser "feminina". Quero poder ser feminina apenas como e quando isso me fizer bem e quando EU quiser.

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Gênero existe.

Estou chegando à conclusão de que o problema do feminismo radical transnegativo com o transfeminismo e a transgeneridade em geral é que o radfe acredita que gênero não existe, que gênero é uma criação cultural do patriarcado, a serviço do patriarcado. E como explicar a existência de pessoas que sabem, para si mesmas, que são de um ou outro gênero, a despeito do que lhe impuseram desde nascência, se gênero é apenas um fenômeno social? Dizer que gênero não existe é como dizer que orientação sexual não existe, que uma pessoa não-hétero nasce hétero como todo mundo e decide se tornar gay ou bi. É claro que o feminismo radical não deve estar realmente preocupado com questões de sexualidade, afinal, pessoas não-heterossexuais não constituem um grupo sistemáticamente oprimido e explorado em prol do Patriarcado, não?

Exceto que esse argumento soa realmente estúpido quando lembramos que garotos gays e meninas trans freqüentemente são marginalizadxs por sua identidade e sexualidade e exploradxs sexualmente, ou se tornam proffisionais do sexo de várias formas. Não é à tôa que a palavra "travesti" na linguagem corrente significa um tipo de prostituta.

Eu não acho que dá pra negar que gênero existe. E mesmo que ele seja um fenômeno fundamentalmente social e que interage com as construções sociais de diversas formas, isso não significa que ele possa ser reduzido a "uma imposição do patriarcado". Gênero não é apenas a forma como uma pessoa é criada e tratada como criança, mas também a forma como ela se reconhece em relação a esse tratamento. Gênero interage com sexualidade, com etnia, com credo, com identidade de gênero. Gênero parece uma opressão para a mulher cis a quem o gênero que lhe foi imposto é a sua principal forma de opressão, especialmente para a mulher cis branca de classe média e alta saudável para quem seu gênero é a única forma sistematizada de opressão, mas a opressão está no papel de gênero, nas imposições de gênero, não no gênero em si -- tanto que mesmo as feministas abolicionistas de gênero nunca pretenderam deixar de se considerar mulheres.

Às vezes eu sinto que seria uma traição ao feminismo deixar de me considerar mulher, e eu me pergunto se esse sentimento não é responsável por uma anulação completa das identidades trans-masculinas dentro do feminismo -- um sentimento de traição, pois uma "mulher" (chamada mulher pelo patriarcado, segundo as radfems) se nega a se considerar mulher então ela está abandonando o campo de batalha feminista. Como uma negra que deixasse de se considerar negra. Mas como dizer a um homem trans que ele não é um homem, quando é isso que ele sente dentro de si? Como dizer a um homem trans que independente de como ele se apresenta para o mundo, ele não é um homem porque se chamar de homem seria se apropriar da terminologia patriarcal -- porque permitir a ele se chamar de homem seria admitir que somos mulheres não apenas porque a mulheridade nos foi imposta pelo patriarcado, mas também porque conseguimos nos identificar com outras mulheres, e porque conseguimos viver entre mulheres sem nos sentir alienígenas, e porque nos sentimos, em algum sentido, mulheres. Aceitar a transgeneridade requer que se aceite o gênero, ou que se questione a própria identidade de gênero. Talvez o feminismo seja suficiente para definir sua identidade de gênero, talvez você defina seu gênero como "butch", mas certamente sua identidade pessoal está atrelada ao seu gênero, e se você consegue se considerar mulher e aceitar a segregação entre homens e mulheres se colocando no lado mulher, então você já está numa posição privilegiada em relação a um homem trans que possivelmente vai se sentir dividido entre poder ser homem e poder ser feminista (ainda bem que o transfeminismo existe).

O argumento do privilégio da criação masculina, que supostamente faz das mulheres trans homens, é ainda mais absurdo porque primeiro considera que meninas trans são capazes de atender às expectativas básicas de gênero masculino, quer dizer, passar como homens, e que conseguem internalizar as características da criação masculina que lhes darão vantagens na vida adulta, e segundo porque não considera que a mulher trans é uma mulher e que não recebe, ao se posicionar socialmente como mulher, nenhum dos privilégios masculinos.

E paro por aqui porque meus próximos argumentos seriam para combater imbecilidades e ignorâncias.

terça-feira, 4 de junho de 2013

Ser Homem

O quanto da minha vida foi determinado por eu ser mulher?

Sabe, esta é uma questão pra mim. O que eu seria se eu fosse homem? Essa questão não é fácil de responder. Mas, bem, olha o meu irmão. Ele é um cara legal, e talvez ele seja feminista (eu nunca conversei com ele a respeito disso), mas, é diferente. Tudo é diferente.

Eu às vezes me pego pensando em mim mesma como uma versão gender-bended do meu irmão. Eu acho que "se eu fosse homem", eu seria forte como ele, rápido e ágil como ele. Eu sempre tentei acompanhá-lo, eu sempre corri com ele como se fôssemos iguais. Meu irmão foi uma das pouquíssimas pessoas na minha vida que sempre me tratou como se eu fosse igual a ele, mesmo sendo menina. Eu tenho algumas dificuldades com meu irmão, mas isso eu devo a ele: ele nunca achou que eu ser menina fosse desculpa para não correr, não lutar, não subir em árvore, não fazer barra, não entrar no campeonato de video-game ou na competição de bebida. Meu irmão nunca me mandou parar, e sempre ficou realmente decepcionado quando eu deixava de fazer alguma dessas coisas com ele. Acho que é por isso que me perturba (e fere) tanto quando meu irmão me trata como menina ou mulher. Na maior parte do tempo, parece que nossa relação teria sido exatamente igual se eu fosse homem.

Entretanto, meu irmão é a exceção. O resto do mundo me tratou de formas muito diferentes apenas porque eu era menina (mesmo antes de isso fazer qualquer diferença razoável). Eu acho que nossa relação de irmãos teria sido muito diferente porque eu teria participado de eventos que eram proibidos pra mim --- viagens com meu tio machão e os primos, andar de lancha na tempestade, ou simplesmente fazer alguns exercícios ---, porque meus primos teriam visto a minha força em vez de ver apenas minha fofura, porque eu conseguiria acompenhar mais de perto as capacidades físicas do meu irmão, mesmo se eu não fosse tão forte quanto ele.

Talvez o mundo fosse menos contraditório se eu fosse um garoto. E menos ofensivo. Sabe, quando eu era pequena, eu não entendia que eu não era um menino, que eu era diferente do meu irmão --- até porque nós éramos iguais: minha mãe sempre contou a história das pessoas que passavam e perguntavam "são gêmeos ou gêmeas?". Eu gostava de jogar bola, de lutinha e de salvar o mundo, e minha irmã gostava disso também e nunca foi um problema. Mas eu entendia perfeitamente bem que quando um moleque dizia que alguma coisa era "de menina", que alguém fazia alguma coisa "como uma menina", ou que alguém era "uma menininha", isso era apenas uma ofensa. Chamar alguém de "menina" era sempre um insulto. Então eu não queria, de forma nenhuma, ser uma menina. Minha mãe não entendia isso, nem as tias e as professoras e os professores e as outras crianças, nenhuma delas podia ver que quando me chamavam de "menina", "mocinha", "garotinha", eu tomava aquilo como um insulto.
Enquanto as pessoas me vissem como uma menina, eu estava perdendo. Eu precisava ser forte. Eu precisava ser mais forte do que todos os meninos, pra mostrar que eu era um deles. Eu precisava não desistir nunca, porque desistir significava ser inferior para sempre. Na minha imaginação, eu era uma heroína, uma figura mítica que se transformava em lobos e panteras, que era a maior guerreira do mundo (eu tinha um amigo que era o Rei e um amigo que era um Mago, mas nenhum deles era tão forte quanto eu), que era a líder de um time de esportes marciais com bola, eu freqüentemente salvava meus amigos de perigos terríveis e ora salvava ora enfrentava os garotos por quem eu me interessava, e eu atravessava o mundo num cavalo tão rápido que ele cavalgava sobre as águas,e em algumas histórias eu tinha até uma contra-parte masculina. Minhas histórias eram cheios de personagens masculinos fortes e impressionante, mas todos eles me respeitavam porque eu era mais forte e experiente que eles.

Não ajudou em nada o fato de que, aos cinco anos, enquanto eu queria ser um dos meninos e estava fazendo de tudo para não ser "maricas" nem "menininha", enquanto minha irmã e minha prima faziam sugestões absurda de que eu, sendo uma "menina", estava apaixonada pelo meu amiguinho, enquanto os adultos me chamavam de "fofinha" e "gracinha" e "menina linda" sem nem suspeitar que o que eu queria mesmo era respeito (e, sério, não era difícil ver isso das atitudes que eu tinha), quando eu tinha cinco anos de idade um homem, um adulto retardado, funcionário na escola em que eu estava aprendendo a escrever e multiplicar por 10, me levou, talvez duas ou cinco vezes, para o quarto de brinquedos e me fez pôr a mão numa linguiça quente e suja que ele tinha no bolso.
Eu digo isso assim com todas as palavras porque foi isso que aconteceu. Talvez esse homem tenha me feito acariciar o pênis dele, ou pior. Outras mulheres que conheço talvez tenham histórias piores de abuso durante a infância. Eu me sinto mal por trazer um assunto "pesado" à tona num texto que deveria ser simplesmente sobre a criação de meninos e meninas --- mas, inevitavelmente, não sei exatamente quanto tempo depois, eu cheguei à conclusão de que aquilo aconteceu porque eu era menina. Não aconteceu com meus amigos, meus companheiros de viagens espaciais e aventuras na selva. Aconteceu com uma outra menina (não sei bem quando eu fiquei sabendo disso), uma que, para a minha sorte, gritou, deu o alarme, permitiu que a preocupação da minha mãe com meu comportamento nos levasse a um psicólogo e, com alguma ajuda de professora e avó e mãe (figuras maternas ou figuras femininas não sei), eu contasse o que aconteceu e digerisse de alguma forma toda a experiência. Qualquer religião que eu tivesse não tinha sequer uma tentativa de ajudar. Os livros, as histórias não falam de abusos com garotinhas. Eu fiz o que pude: me tornei um herói e um animal selvagem, uma força da natureza, uma guerreira, uma fera selvagem, assassina. O mundo das minhas histórias era cheio de sangue e violência. De alguma forma minha relação com o mundo exterior, nas minhas memórias, não mudou muito em caráter, apenas em intensidade, já que meu interesse em interagir com o mundo lá fora ficou muito menor, ainda mais depois que eu mudei de escola e perdi todos os amigos e professoras. No mundo lá fora eu tinha meninos que tiravam sarro de mim, professores que me insultavam, pais que tinham mêdo de que eu ficasse louca, e umas meninas que faziam "coisas de menina" e aparentemente achavam isso legal, o que para mim era totalmente incompreensível.

Na minha cabeça eu não era tanto uma menina quanto um animal selvagem --- acho digno de nota que o animal que eu escolhia era em geral um lobo ou uma pantera, que praticamente não tem dimorfismo sexual, ou uma leõa, que é um animal que caça e organiza o bando enquanto o macho é paparicado e embelezado. Eu era fã de Raksha, a Demônia, a mãe-loba do Mogli, porque ela enfrentava o Shere-Khan (e na minha cabeça ela é que tinha enfrentado cinco oponentes para escolher o macho que ela queria), e eu era fã de Buck, o canzarrão de Jack London que se tornava o líder de todos os lobos. Eu me esforçava para ser forte, eu subia nas árvores mais altas, eu corria, eu escalava todas as pedras e me metia no meio do mato sempre que eu podia, porque o mundo humano era feito para maricas, mas eu não era apenas uma criança, eu era uma fera, e eu tinha vivido mais do que os adultos podiam imaginar, e algum dia eles iam ser pegos de surpresa por mim. Eu ia provar que eu não era uma menina, que ninguém podia abusar de mim. Nessa época eu também odiava a única parte decididamente feminina do meu corpo, passava horas puxando e deformando meus lábios, não sei bem se tentando esconder a vagina ou se tentando modelar uma espécie de pênis com o que eu tinha à mão.

Enquanto isso nas aulas de educação física os professores não queriam que eu jogasse bola com os meninos, e eu era obrigada a jogar queimada ou brincar de elástico com as meninas, que para mim eram criaturas alienígenas. Pior que isso, nas aulas em que os meninos faziam flexão eu tinha que fazer "flexão de menina", algo que eu achava desagradável e humilhante. E "barra de menina", que sequer era um exercício para os braços, e sim uma prova de paciência: o desfio era ficar pendurado na barra, sem ter que se mexer, ou levantando os joelhos, pelo máximo de tempo. Naquela época, eu e mais algumas meninas conseguíamos fazer barras e flexões tão bem quanto alguns dos meninos; essas prova eram só uma espécie de humilhação e insulto especial. Depois de introjetar muito bem que fazer qualquer coisa "como uma menina" era uma vergonha, eu era obrigada a fazer esportes "como uma menina". Meus professores estavam me xingando na minha cara, e eu tinha que aceitar, calada, afinal, eu era, mesmo, "uma menina". Minha auto-confiança foi destruída, e eu passei a vida duvidando de tudo o que eu fazia, pensava e dizia.

Eu tinha pouquíssima experiência e empatia com meninas. Eu não mencionei nenhuma atividade "feminina" até agora porque para mim elas não existiam. Na verdade, nós brincávamos de casinha e boneca junto com comandos em ação, junto com meu irmão, e tinha também as coisas que minha prima trazia, por exemplo a brincadeira de desfile da "pakalolo" que fazíamos inventando formas de enrolar toalhas e lençóis, a brincadeira das fadas que vinham de outro mundo contar histórias (minha prima e minha irmã eram muito criativas), brincar de sereia, brincar de comida --- eu gostava dessas brincadeiras, mas por algum motivo eu não dava importância a elas. Acho que o fato de que nunca tinha meninos por perto quando brincávamos de pakalolo ajudava, pois eu podia baixar a guarda, e ao mesmo tempo eu lembro que se a brincadeira começava a derivar pra maquiagens e outras coisas mais "de menina", eu fugia.
Eu tinha amigas meninas na escola (eu não tinha amigos porque eu era incapaz de entender por que os meninos da escola me enchiam tanto o saco), mas pra falar a verdade eu não tinha amizades de verdade, na maior parte do tempo. A maior parte das meninas falava uma língüa que eu mal conseguia entender, até uns 12 anos de idade. Felizmente eu encontrei algumas meninas que se pareciam comigo, que detestavam coisas "de menina" e com quem eu podia jogar bola, andar de bike, e tentar, de alguma forma, procurar uma forma de lidar com toda a humilhação que era ser menina quando a coisa certa a se ser era claramente menino.
Assim, durante a pré-adolescência, quando eu estava começando a fazer amizade com garotos e gente tão deslocada quanto eu, nós descobrimos o paganismo, Brumas de Avalon, bruxas e toda uma mitologia na qual as mulheres eram o centro, na qual cada mulher era uma encarnação da Deusa. Encarar o feminino como divino ajudou muito a sobreviver à adolescência (assim como todas aquelas histórias de heroína e lobos e tudo o mais). E sobreviver à adolescência, previsivelmente, foi o tipo de desafio que requeria ajuda.

Na adolescência meu corpo começou a mostrar que eu era mulher através de peitos e pernas grossas, tudo o que eu nunca quis ter, não tanto porque era coisa de mulher mas mais porque minha irmã não tinha e eu queria ser igual a ela --- mas a mitologia da mulher-deusa me fez aceitar esse corpo como símbolo do meu poder, e cultivá-lo e amá-lo, e eu aos poucos parei de tentar me machucar. Simultaneamente, eu desenvolvi todos os pêlos do mundo, o que eu imediatamente achei o máximo porque me deixava mais parecida com um lôbo (além do mais, minha melhor amiga também era peluda). Por outro lado, eu parei de crescer, desenvolvi problemas do joelho e na coluna que me causavam dor toda vez que eu jogava bola, e rapidamente os meninos começaram a ficar mil vezes melhores que eu em tudo o que eu valorizava. Minhas "amigas" que gostavam de coisas de menina começaram a falar de garotos e romance, meus amigos começaram a se interessar por mim (o que eu detestava), e minha mãe decidiu que eu tinha que fazer todo tipo de coisa agora que eu era "mocinha".
Eu até me divertia com os vestidos de festa e maquiagem que uma amiga de mamãe fazia em mim para os casamentos e afins; mas logo depois começou a tortura de depilação, descoloração, desodorante feminino, e cada vez mais pessoas reclamando do jeito como eu me vestia, das roupas velhas, feias, furadas --- em pouco tempo eu entendi que eu não podia ter pêlos, nem cicatrizes, nem machucados nem furos nas roupas, porque tudo isso era coisa de homem, era coisa que era legal no meu irmão, mas em mim era feio. Mas, como eu disse antes, eu não conseguia entender do fundo do coração que eu era "menina" e que para mim "coisa de menina" era bom e que eu e meu irmão tínhamos que ser diferentes, eu queria as mesmas coisas que ele, eu queria ter cicatrizes legais, eu queria ser foda, eu queria me arriscar e me machucar e disputar a bola e rasgar os joelhos das calças porque isso tudo é sinal de que você tem garra. Então eu não só era chamada de "menina" como ainda levava bronca por fazer tudo o que merecia "respeito", e ainda por cima quando eu estava com meu irmão, que ainda era o cara que me tratava como igual, eu mal conseguia acompanhá-lo. E aos poucos até meus amigos nerds e esquisitos começaram a me dar uma lavada em todas as nossas corridas e lutinhas e what-not. Eu tive que começar a admitir que eu não era mais um dos garotos, e comecei a desejar ser. Meu irmão, nessa época, tinha um melhor amigo super bacana, e eles começaram a conhecer meninas também. Eu tinha uma relação estranha com o amigo do meu irmão, ora ele era como um irmão, ora eu achava que ele me via como uma mulher.

Um dia meu irmão me viu como mulher. Eu sei disso, mas eu nunca falei sobre isso com ninguém, muito menos com ele. Foi uma traição, e eu nunca perdoei meu irmão. Essa parte, essa traição, isso nunca teria acontecido se eu fosse um homem.

Toda essa história foi anos antes de eu realmente me assumir como feminista. Foi anos antes de eu me assumir como qualquer coisa. Foi antes do colegial. A partir dos catorze anos minha vida emocional foi tão intensa que todas as outras questões pareceram menos importantes no momento. O que eu notei foi uma resistência, da deusa-lôba dentro de mim, a me machucar depilando as pernas, a se disfarçar com maquiagens que eu não sabia aplicar e que deixavam ridícula. E uma miríade de sonhos e fantasias, que foram se tornando mais diversos, incluindo romance e sexo e até mesmo filhos (eventualmente netos). Mas eu queria amar e eu aos dezoito decidi fechar o teatro, cancelar todas as aventuras, e viver a "vida real". Depois disso passei mais uns bons dois anos continuando a cometer erros e crimes contra as leis da deusa-lôba, e mais uns três ou quatro numa jornada de auto-conhecimento, que me trouxeram até aqui, nua, sem deusa, sem lôba, sem herói, sem nada além do meu corpo e da minha história, e das minhas convicções políticas. Hoje em dia eu consigo usar vestidos e saias sem me sentir ridícula. Recentemente eu aprendi que posso ter pernas peludas e que posso sair sem sutiã. Eu ainda tenho dificuldades com algumas coisas bestas --- ainda não gosto de ser menina, de ser fofinha, de que me chamem pelo meu nome. Hoje em dia eu sei que eu não sou um homem, que eu jamais poderia ser homem. Por outro lado, eu não tenho mais a menor idéia do que significa ser mulher --- se eu aceitar que eu sou mulher, eu sinto que eu estou dissolvendo completamente o conceito de mulher. Ou talvez essa seja a forma de lidar com a raiva. Talvez eu só queira ser uma mulher masculina e pronto.

Voltando à pergunta: eu seria feminista se eu fosse homem? Bem, eu sei que eu sou feminista não exatamente porque eu sou mulher mas porque eu fui uma menina que queria em primeiro lugar ser um bicho, ou um garoto. Como seria a narrativa acima se eu tivesse nascido com um pintinho? Eu não teria a raiva, a insegurança, os insultos, a convicção de que o mundo estava sendo injusto comigo ao me taxar de menina... Eu acho que se eu tivesse nascido menino, eu teria me encaixado, vivido as aventuras, acompanhado os garotos. Eu não teria sofrido abuso, meu irmão e meus amigos nunca teriam deixado de me ver como um dos caras, eu não teria a pressão para entender o mundo das meninas, nem pra sofrer na mesa de depilação. Minhas calças teriam bolsos! Eu acho que se eu tivesse nascido menino eu simplesmente me sentiria mais encaixado no mundo, e teria menos motivação interna pra ser feminista.

É claro que eu poderia ser feminista mesmo assim. Mas sinto que todos os motivos pessoais que me levaram ao feminismo não estariam mais lá. Eu ainda seria feminista por motivos políticos, provavelmente, mas pra falar a verdade eu não sei se eu teria tanta convicção numa bandeira que não falasse com a minha história de vida (e talvez, também, eu fosse um garoto babaca e auto-centrado que não conseguiria ver a necessidade do feminismo). Talvez com os anos e o esclarecimento eu começasse a querer usar saia ou pintar o cabelo ou beijar garotos ou alguma outra coisa que me jogasse no feminismo. Talvez a história fosse totalmente diferente do que eu imagino. Mas tudo isso é irrelevante, porque esta é a minha história, não a de uma pessoa que nunca existiu. E esta é a minha história. Na minha história eu sou ora uma guerreira, ora uma lôba, ora uma deusa, e na minha história eu sou feminista porquê eu fui menina.

Fim.

terça-feira, 14 de maio de 2013

Mulheres (Las Cantadoras)

Estou num grupo de mulheres. Existem mulheres de todos os tipos, mulheres casadas e solteiras, mulheres que se acham crianças e mulheres que se sentem adultas, mulheres que já fizeram muito sexo e mulheres que não fizeram quase nada, mulheres altas e baixas, gordas e magras, mulheres com têmpora raspada, mulheres com cabelos compridos, mulheres que nunca se masturbaram e mulheres que se fazem gozar todo dia, mulheres que têm tesão por homem ou por mulher ou por ambos ou por todo gênero de gente, mulheres que têm filhos, mulheres que têm mãe e pai, mulheres que tiveram namorad aos doze, mulheres que deram o primeiro beijo ao dezenove, mulheres que gostam de usar cinta-pau, mulheres que gostam de dominação, mulheres que nunca viram um vibrador, mulheres que não querem que o namorado veja o que elas escrevem, mulheres que preferiam não ser mulheres, mulheres que precisam lutar para serem mulheres, mulheres que... algumas mulheres tiveram experiências muito diferentes umas das outras, e algumas pessoas querem obter esse conhecimento secreto que se passa apenas entre as mulheres, porque no mundo lá fora existe mêdo. Então uma mulher pergunta se alguma de nós conhece alguém que já contou que já passou por alguma situação abusiva, violenta, se alguém conhece alguém que já foi abusada ou violada, fisicamente, ela diz. E o coro das mulheres responde (é quase, quase um únissono) "sim, muitas, (e em muitas das nossas vozes se ouve "eu também")".

Muitas. E contamos histórias. Algumas das mulheres contam suas próprias histórias, outras dizem que preferem não contar. Algumas de nós contam histórias de pessoas muito próximas, outras de pessoas que conhecemos apenas o suficiente para confiar. Algumas das mulheres das histórias são adultas, outras são adolescentes, outras são crianças. Algumas são nossas mães, algumas são nossas irmãs, algumas são nossas amigas. Algumas histórias aconteceram muito, muito tempo atrás, e algumas aconteceream faz pouco tempo, e muitas abriram feridas que ainda não conseguimos fechar. Algumas das mulheres dizem que ainda estão tentando lidar com isso. Algumas de nós tinham muitas histórias, outras tinham poucas. Algumas de nós eram virgens, algumas vezes era pra ser a primeira vez. Algumas vezes a história nunca foi contada para nenhum homem, e algumas vezes ela foi. Algumas vezes nós contamos para nossas famílias e amigos, e eles nos apoiaram e nos protegeram. Algumas vezes nós contamos e eles nos incriminaram, ou não deram importância, ou disseram que é nossa responsabilidade superar. Algumas vezes nós não dissemos nada, com mêdo de ser culpadas, com vergonha. Algumas vezes nós queríamos proteger o agressor. Algumas vezes nós contamos para a pessoa em quem confiávamos e ela quis proteger o agressor. Algumas vezes o agressor foi o namorado, o peguete, o homem com quem queríamos trepar naquela noite; outras vezes foi um desconhecido na rua, no bar ou bala; outras vezes foi um homem raivoso, um ex-marido ou ex-amigo; outras vezes ainda foram nossos irmãos, nossos pais, nossos primos, nossos padrastos. Alguns eram meninos, alguns eram velhos, alguns eram homens com deficiências mentais e outros eram homens perfeitamente normais. Algums eram homens em quem absolutamente não confiávamos, outros eram homens em quem confiávamos plenamente, até mesmo homens que amávamos. Algumas poucas vezes era uma mulher. Algumas vezes não conseguimos culpá-los, outras vezes os odiamos para sempre. Algumas vezes tivemos que pôr nossas mãos no corpo dele, algumas vezes ele pôs suas mãos no nosso corpo, algumas vezes ele invadiu nossos corpos e nos machucou e violentou e nos deixou nos sentindo humilhadas, fracas e sujas. Algumas vezes nós não sabemos direito, porque estávamos inconscientes. Algumas vezes nós lutamos, ou gritamos, ou choramos, e pedimos pra parar. Algumas vezes nós não fizemos nada, ou não podíamos fazer nada. Algumas vezes estávamos embriagadas, outras vezes fomos drogadas, outras vezes fomos forçadas, outras vezes estávamos dormindo, e algumas vezes éramos pequenas demais para entender ou resistir. Algumas vezes nós engravidamos e abortamos, e algumas vezes nós engravidamos e tivemos o filho. Algumas vezes demoramos meses ou anos para entender a violência, e em algumas histórias durantes esses meses ou anos e até depois nós continuamos a conviver com ele, como se nada houvesse acontecido. Algumas vezes nós continuamos do lado dele, até o fim, ainda estamos convivendo com alguns deles. Algumas vezes nós ouvimos pouco tempo depois histórias semelhantes envolvendo o mesmo homem e outras mulheres. Muitas vezes nós nos culpamos por não gritar mais, por não contar para todo mundo, por sermos fracas e vulneráveis, por não correr para a delegacia da mulher. Algumas vezes nós continuamos sentindo que não temos nenhuma opção. Algumas vezes nós contamos para as pessoas em quem confiávamos, e passamos a desconfiar de que ela era uma de nós. Algumas vezes nós sentimos que ninguém mais no mundo podia imaginar que nossa história pudesse ser real.

Nenhuma vez foi nossa culpa. Nenhuma vez nós quisemos isso. Nenhuma vez nós fizemos por merecer. Entretanto nós contamos nossas histórias, umas para as outras, e às vezes eu sinto que, apesar de todas as diferenças, de diferenças de forma, de situação, de intensidade e de conseqüências, nós contamos uma única história e nós somos todas uma coisa só. É nessas horas que eu me sinto mais próxima de ser mulher --- essa hora em que eu sei que eu não poderia ser um homem porque eu bebi da fonte das histórias das mulheres que os homens não ouvem, essa hora em que eu sinto raiva e impotência e frustração porque eu faço parte de uma história que se repete sempre e que quase nunca se ouve fora das alcovas mulheris, e que na verdade mesmo entre as mulheres quase nunca se ouve, porque no resto do tempo não somos quase nada, não somos uma unidade, tudo o que nos une é nossa separação, a mediação de nossas relações pelos homens que nos rodeiam, nossos pais, nossos maridos e namorados, a mediação de nossas relações com nossas mães pela estrutura familiar patriarcal, e a mediação ne nossas relações com nossas colegas pelas necessidades de galgar a hierarquia da familidade, auto-controle e mesmo de felicidade, já que somos todas mulheres modernas e bem-resolvidas. Mas na roda de histórias não somos bem-resolvidas, somos cheias de ódio, fraqueza e frustração. E contamos nossos segredos. Às vezes me parece que sobreviver à violência faz parte da nossa identidade de gênero, que somente conseguimos nos unir quando admitimos a violência que sofremos e admitimos que ela é de todas nós. E nessas horas eu não posso ser nada além de mulher.

Se eu tivesse tido a opção, eu não teria escolhido ser feminista -- eu teria escolhido ser homem. Mas eu não tive a opção. Eu fui forçada a ser mulher, e a única forma de sobreviver sendo mulher é entrar na roda de histórias das mulheres, e ser feminista.

terça-feira, 19 de março de 2013

Mulher Não Sabe Brincar

Mulher não sabe brincar.
Não dá pra brincar com mulher.
Mulher leva tudo à sério. Mulher é séria demais.
Mulher não entende que a graça está em ser escroto.
Mulher não entende que homem não pensa assim de verdade.
Mulher não sabe entrar na brincadeira.
Mulher bate forte demais.
Mulher não entende que não é pra machucar.
Mulher não entende que é pra xingar, não pra ofender.
Mulher acha que é sério.
Quando homem bate de brincadeira, mulher revida a sério.
Mulher não entende a brincadeira.
Mulher é violenta demais.
Mulher é nervosa demais.
Mulher é histérica demais.

O cara tava só falando, não tinha porque ela partir pra agressão física.