Minha mãe me perguntou casualmente se eu não usava mais vestido. Em tom de confirmação.
Minha resposta foi prolixa.
Nãoeunãousomais quasenuncaquerdizer eutenhoalgunsaindaeutentousardevezemquandoeuvistoummasseilá pareceesquisito eunãogostomaseutenhoummonteaindaàsvezeseuponhouns praficaremcasamas eunãosaiocomelesachofeiomeachofeionãoseiexplicarsó nãocompbinamaiscomigoachoesquisito nadacontra
A verborragia tentando muito não soar simplesmente como repúdio a todos os símbolos de feminilidade, tentando evadir o machismo, tentado evitar chegar no cerne da questão, tentando impedir que a resposta seja pontuada com um
"
por
quê?
"
Minha mãe faz perguntas cada vez mais evasivas, evitando questionar, evitando. Às vezes dá indiretas. Uma vez ela me aconselhou a pensar muito sobre isso. Eu me dei conta: "ela sabe". Percebi então que não é que minha mãe não acredite em mim, mas que ela não confie em mim. Ela acredita que eu acredito em certas coisas ou que eu sinto certas coisas sobre mim, coisas sobre as quais não conversamos, a menos de perguntas evasivas e respostas prolixas, mas ela não acredita que eu possa de fato saber essas coisas sem a ajuda de um profissional.
Uma vez ela me aconselhou a pensar seriamente sobre "essas coisas". Eu mantive uma expressão neutra, enquanto avaliava se valia a penas dizer que eu já pensava sobre essas coisas, todo o tempo, todos os dias, e que se eu não falava sobre essas coisas com ela era porque ela não me dava abertura pra isso. As coisas ficam mais difíceis depois que a gente se abre, depois que a gente está vulnerável. E assim ela parece que sabe cada vez menos sobre mim, não por não ouvir, não por não enxergar, mas pelo meu silêncio deliberado, pelo meu silêncio pontual e específico, que é a única forma de proteger a dualidade da conclusão a que meus questionamentos sempre me levam. Porque me parece me minha mãe acredita que a dualidade é um estado transitório, um estado de dúvida e falta de auto-conhecimento, que há uma dialética, e que um dia haverá uma síntese, que eu deixarei de ser muitas coisas para ser uma, e que essa uma será sólida, e simples, e compreensível, e inquestionável. E não é só minha mãe. Parece que há uma expectativa generalizada ao meu redor de que algum dia as pessoas saibam extamanete quem elas são, e que quem elas são seja facilmente descritível em categorias, rótulos, gêneros, filiações.
Minha resposta a isso é simplesmente: não.
palavra por palavra, procuro chegar, devagar, ao lugar de La Loba.
"O silêncio", disse o griot,"só é escuro no começo..."
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domingo, 1 de março de 2015
sexta-feira, 5 de dezembro de 2014
Segregaçã Etária
Eu tava aqui pensando em como a segregação etária perpetrada pela escola é um problema. Deixe-me explicar.
Quando eu tava no colegial, eu tinha muites amigues, unides entre outras coisas por quão desajustades nós éramos à ordem social escolar. Algumes de nós tinham sofrido muito bullying na mesma escola. No colegial, quando começamos a nos envolver em romances adolescentes e outras situações novelescas, nossas inseguranças e imaturidades, misturadas com as nóias com que anos de exclusão social haviam nos imbuído, começaram a causar conflitos entre nós. Eu me lembro de um amigo que decidiu sabotar meu namoro com outro cara, por exemplo. Na época eu morri de raiva dele por que a atitude dele me fez tomar decisões erradas e sofrer. Muitas pessoas pareciam querer que eu fosse mais "puritana" ou sei lá. Vários dos nossos amigos estavam "no armário", ou saindo dele e ainda meio perdidos. Hoje em dia eu olho pra trás e penso que a pessoa que eu sou hoje teria lidado com tudo aquilo, dialogado, resolvido os problemas. Mas aí eu penso que eu hoje em dia não posso nem ajudar adolescentes a entender os problemas confusos nos quais eles se metem. Será que teria ajudado se na época nós pudéssemos ter tido amizade com pessoas mais velhas? As pessoas mais elhas na nossa vida eram sempre parentes e professores e colegas de trabalho dos nossos parentes -- boa parte eram que pessoas com quem eu não conversaria sobre nada pessoal, nem no passado, nem hoje. Nós estávamos constantemente inventando o mundo em que vivíamos, ou tentando sobreviver às complicadas hierarquias sociais da micro-sociedade adolescente da escola. Isso poderia até ser libertador, mas na prática a micro sociedade era tão hostil quanto nós esperávamos que o mundo lá fora fosse. Eu não sabia que eu ia conseguir me libertar das inúmeras correntes que me prendiam na escola. Eu não sabia que a vida ia ser maior e melhor e mais livre, e que eu ia concluir que não valia a pena ter nenhuma daquelas nóias, e que eu ia ter vergonha dos meus preconceitos bobos da adolescência. Eu não sabia que eu ia ter uma comunidade queer, não-mono, não-binarista de amigues que iam prezar pela miberdade e segurança de todo mundo. O mundo humano parecia desinteressante e limitado. Eu preferia a solidão à interação social. Naquela época, meu amigo fez uma piada, quando eu estava brincando com um pedaço de pau ele olhou pra mim e falou "você gosta de um pau, hem?" E eu tive que juntar 200% da minha força de vontade pra encarar de volta e falar "claro! Você não?".. Eu lembro porque foi extremamente significante. Hoje eu dia eu faço essas coisas sem nem pensar. Eu também lembro da minha primeira conversa sobre sexo, quando eu tinha 18 e fui numa viagem com amigues da minha irmã mais velha (todos e todas cis e hétero). Pensa só, no colegial eu tive que defender a minha honra e de meus namorados e amigos inúmeras vezes, mas eu nunca tinha tido uma conversa de verdade sobre sexo, na qual eu pudesse falar e perguntar e rir das piadas bobas e ouvir histórias boas e ruins e verdadeiras. Eu só tinha participado de piadas, zueiras, ofensas e bullying. Eu tinha vontade de conhecer outros tipos de pessoas, outros estilos de vida, mas eu só consegui isso depois de sair da escola. De fato, depois da escola todo mundo foi ficando mais seguro de si e se descobrindo e saindo dos armários todos. Demorou um tempo, mas aconteceu.
Quando eu penso na minha história de vida tudo parece meio surreal. Não sei se é só dissociação mesmo, porque eu passei tanto tempo sentindo que tudo era uma enganação, e porque eu dava tanta mais importância a histórias fictícias, ou porque falando objetivamente nada aconteceu, mas subjetivamente minha vida parecia um filme da Bridget Johnes. Acho que grande parte é porque nada bateu com o que era pra ser adolescência, com os relatos de adolescência que eu ouvi, tanto na época quanto depois. Eu ouvi relatos de adolescentes que tinham poucos amigos e odiavam todo mundo, e relatos de adolescentes que tinham vários amigos e iam em festas e bebiam escondido dos pais, e relatos de adolescentes que trepavam muito e passavam o dia na rua, mas nenhum relato era de adolescentes que não bebiam, não trepavam, não fumavam (essencialmente por moralismo barato, me parece), tinham infinitos amigos, gostavam de várias pessoas, inventavam histórias fofas e malucas e horríveis e não sabiam se comunicar direito com os outros adolescentes. Ainda fico me perguntando se não há adolescentes como nós na minha velha escola, perdidos e empolgados e se machucando uns aos outros por pura ignorância coletiva.
Enfim eu desviei um pouco do assunto original, mas eu acho que teria ajudado se nossas ofertas de amizade não fossem tão limitadas em faixa etária, se pudéssemos ter mais contato com pessoas mais novas e mais velhas com quem nos déssemos bem. Acho que teríamos ficado menos à mercê dos moralismos que os adultos da geração de nossos pais queriam que acreditássemos.
quarta-feira, 15 de outubro de 2014
--- E pra quê eu preciso saber disso?
Então, tipo, esta semana eu tava dando aula e apareceu um exercício de vestibular que tinha umas funções logarítmicas deslocadas, com as assíntotas verticais em tracejado. Aí eu pensei "poutz, é melhor eu explicar pressas pessoas o que que é uma assíntota!"
Eu falei pra turma que eu ia explicar isso pra elas, e imediatamente a menina super dedicada que quer prestar poli me pergunta:
--- E pra quê eu preciso saber isso?
Hm.
Olha, eu entendo que com o vestibular se aproximando é normal a gente começar a ficar na pira de não querer estudar nada que não for ser imediatamente útil. Mas acho que a questão é mais profunda aqui, é uma questão que eu sinto mais forte, que é a questão de querer sempre justificar o aprendizado de matemática. Sempre. Quantas vezes eu já não ouvi gente reclamando que estudar essa ou aquela matéria de matemática era inútil, por que nunca ia usar aquilo na vida?
Imagina que eu estivesse dando aula de biologia, e eu começasse a falar sobre o ornitorrinco, e eu começasse a descrever como ele é, onde ele vive, que tipo de bicho ele é. Alguém na turma ia perguntar pra que saber do ornitorrinco ia servir? Ou imagina que eu começasse a falar de, sei lá, de quelíceras, que é essa parte do corpo das aranhas, sabe, que vários artrópodes têm, que elas usam por exemplo pra te picar. Alguém ia perguntar "mas pra quê que isso serve?". Ou imagina que eu desse aula de história, e eu quisesse explicar sobre relações de servidão, ou eu quisesse contar a história da Alsácia-Lorena. Ou mais ainda, imagina que eu desse aula de artes, e que eu quisesse explicar que existe essa cor, que chama azul.
Pra quê servem assíntotas? Sei lá, possívelmente pra nada, pra que serve azul? Assíntota é uma coisa que algumas funções têm; algumas funções têm comportamento assintótico, é algo que acontece, é interessante em alguns casos, é legal, funções assintóticas representam bem alguns tipos de idéias, por exemplo a idéia de se aproximar de um ponto de equilíbrio; sem contar que boa parte das funções mais comuns que tem são assintóticas. Pra que serve estudar assíntotas? Bom, em primeiro lugar, serve pra você ler a palavra "assíntota" em algum lugar e saber o que significa. Também serve pra você ver uma linha tracejada num gráfico e saber o que aquela linha é. Serve pra você identificar que aquela função super conhecida tem uma assíntota vertical no zero, e ver um gráfico de função com essa assíntota deslocada, e perceber que teve um deslocamento da função. Pra que serve saber o que é uma pata, uma orelha, um estômato? Pra que serve saber o que significa "antípoda"?
Eu fico pensando por um lado que matemática deve ser um saco absoluto pras pessoas, claro, que ninguém tem a menor vontade de estudar curvas, funções, transformações, derivadas, assíntotas, limites. Quando a minha professora de história começou a falar da história das termópilas, no colegial, ninguém interrompeu ela pra perguntar por quê ela achava que ela tinha que contar aquela história. Mas ao mesmo tempo isso é porque a história era interessante.
Por outro lado a gente devia mesmo parar o tempo todo e se perguntar "mas o que que eu tô fazendo aqui? Por que eu tô fazendo isso?"... Só que assim, é preciso se perguntar, mais do que "por quê aprender isso?", é preciso se perguntar "o que eu quero aprender?". Então eu não sei o que eu tenho que falar quando eu tô dando uma aula de cursinho e uma pessoa vem me perguntar o que eu tô fazendo ali. Eu penso: bom, eu tô tentando mostrar os comportamentos de funções pra vocês, pra fazer elas parecerem menos assustadoras, prelas fazerem um pouco mais de sentido, porque vocês vão precisar saber manipular essas coisas na prova que vocês vão fazer, e porque algumas de vocês vão inclusive usar um monte de funções ao longo da vida de vocês porque vocês vão estudar engenharia, física, essas coisas. Não é o sistema de ensino do qual eu gostaria de estar fazendo parte, e nem é o sistema de ensino que vocês querem, tb. Mas eu tava pensando que ultimamente o vestibular tem ficado cada vez mais dahora, cada vez mais misturando as disciplinas e fazendo perguntas inteligentes que exigem que a gente pare e pense e manipule os conhecimentos. E que o vestibular está mais dahora que o sistema de ensino das escolas. E que eu não tenho o menor saco pra dar uma aula enciclopedista, e nem eu acho que isso vai ajudar com porra nenhuma.
Além do mais, eu sou uma dessas pessoas que acha matemática uma das coisas mais lindas do mundo, e eu não ia conseguir mutilar completamente essa coisa que eu estudo.
Eu falei pra turma que eu ia explicar isso pra elas, e imediatamente a menina super dedicada que quer prestar poli me pergunta:
--- E pra quê eu preciso saber isso?
Hm.
Olha, eu entendo que com o vestibular se aproximando é normal a gente começar a ficar na pira de não querer estudar nada que não for ser imediatamente útil. Mas acho que a questão é mais profunda aqui, é uma questão que eu sinto mais forte, que é a questão de querer sempre justificar o aprendizado de matemática. Sempre. Quantas vezes eu já não ouvi gente reclamando que estudar essa ou aquela matéria de matemática era inútil, por que nunca ia usar aquilo na vida?
Imagina que eu estivesse dando aula de biologia, e eu começasse a falar sobre o ornitorrinco, e eu começasse a descrever como ele é, onde ele vive, que tipo de bicho ele é. Alguém na turma ia perguntar pra que saber do ornitorrinco ia servir? Ou imagina que eu começasse a falar de, sei lá, de quelíceras, que é essa parte do corpo das aranhas, sabe, que vários artrópodes têm, que elas usam por exemplo pra te picar. Alguém ia perguntar "mas pra quê que isso serve?". Ou imagina que eu desse aula de história, e eu quisesse explicar sobre relações de servidão, ou eu quisesse contar a história da Alsácia-Lorena. Ou mais ainda, imagina que eu desse aula de artes, e que eu quisesse explicar que existe essa cor, que chama azul.
Pra quê servem assíntotas? Sei lá, possívelmente pra nada, pra que serve azul? Assíntota é uma coisa que algumas funções têm; algumas funções têm comportamento assintótico, é algo que acontece, é interessante em alguns casos, é legal, funções assintóticas representam bem alguns tipos de idéias, por exemplo a idéia de se aproximar de um ponto de equilíbrio; sem contar que boa parte das funções mais comuns que tem são assintóticas. Pra que serve estudar assíntotas? Bom, em primeiro lugar, serve pra você ler a palavra "assíntota" em algum lugar e saber o que significa. Também serve pra você ver uma linha tracejada num gráfico e saber o que aquela linha é. Serve pra você identificar que aquela função super conhecida tem uma assíntota vertical no zero, e ver um gráfico de função com essa assíntota deslocada, e perceber que teve um deslocamento da função. Pra que serve saber o que é uma pata, uma orelha, um estômato? Pra que serve saber o que significa "antípoda"?
Eu fico pensando por um lado que matemática deve ser um saco absoluto pras pessoas, claro, que ninguém tem a menor vontade de estudar curvas, funções, transformações, derivadas, assíntotas, limites. Quando a minha professora de história começou a falar da história das termópilas, no colegial, ninguém interrompeu ela pra perguntar por quê ela achava que ela tinha que contar aquela história. Mas ao mesmo tempo isso é porque a história era interessante.
Por outro lado a gente devia mesmo parar o tempo todo e se perguntar "mas o que que eu tô fazendo aqui? Por que eu tô fazendo isso?"... Só que assim, é preciso se perguntar, mais do que "por quê aprender isso?", é preciso se perguntar "o que eu quero aprender?". Então eu não sei o que eu tenho que falar quando eu tô dando uma aula de cursinho e uma pessoa vem me perguntar o que eu tô fazendo ali. Eu penso: bom, eu tô tentando mostrar os comportamentos de funções pra vocês, pra fazer elas parecerem menos assustadoras, prelas fazerem um pouco mais de sentido, porque vocês vão precisar saber manipular essas coisas na prova que vocês vão fazer, e porque algumas de vocês vão inclusive usar um monte de funções ao longo da vida de vocês porque vocês vão estudar engenharia, física, essas coisas. Não é o sistema de ensino do qual eu gostaria de estar fazendo parte, e nem é o sistema de ensino que vocês querem, tb. Mas eu tava pensando que ultimamente o vestibular tem ficado cada vez mais dahora, cada vez mais misturando as disciplinas e fazendo perguntas inteligentes que exigem que a gente pare e pense e manipule os conhecimentos. E que o vestibular está mais dahora que o sistema de ensino das escolas. E que eu não tenho o menor saco pra dar uma aula enciclopedista, e nem eu acho que isso vai ajudar com porra nenhuma.
Além do mais, eu sou uma dessas pessoas que acha matemática uma das coisas mais lindas do mundo, e eu não ia conseguir mutilar completamente essa coisa que eu estudo.
domingo, 12 de outubro de 2014
Compaixão
A pessoa do outro lado da mesa disse que os movimentos grevistas da USP eram "uma falta de patriotismo!"
Eu não seria a pessoa apropriada para questionar isso porque eu tenho a impressão de que usar a palavra "patriotismo" já é começar errado. Quando eu penso em nações patrióticas eu penso na Alemanha nazista. Pra não ficar muito <i>reductio ad Hitlerum</i>, eu penso também nos exércitos, todos, em jovens dando suas vidas para matar outras pessoas jovens. Eu penso em guerra. Eu penso na ditadura militar brasileira querendo que todo mundo ficasse quietinho e exaltasse o Brasil no hino nacional. Pra mim quem exige patriotismo é gente que apóia a ditadura, é militarista, é querer que não se critique um governo, que se aceite ser governado sem questionamentos. É uma palavra que não me traz boas impressãos.
Pra falar a verdade, eu tenho esse impulso de dizer que patriotismo é uma coisa errada. É errado porque significa amar à patria mais que aos outros. E se é pra "amar ao próximo" e ter compaixão e etc, é pra amar a todos, e a todas as coisas vivas, independente de onde elas estejam. Não é pra amar ao seu vizinho mais do que a um estrangeiro. Quando o padre diz pra amar o próximo, ele não quer dizer que é pra amar só quem está perto, entende, é só uma força de expressão. Inclusive se você pensar na imensidão do universo todas as pessoas da terra estão bem pertinho. Mas é claro que se aparecerem aliens na terra você pode tentar amar a eles também. Compaixão significa empatizar com todas as criaturas. Não é pra respeitar o parecido e cuspir na cara de quem é diferente.
Acho que passar tempo com gente católica acaba ativando minha criação católica e eu fico pensando sobre todas essas coisas. Se você pensar a Bíblia soa o tempo todo como um clubinho bairrista. É pra amar seu vizinho e Deus vai destruir seus inimigos. "O povo de Deus", dizem os religiosos, quando não "o povo escolhido". Os filhos de Abrão. Não admira muito que tantos povos tenham feito guerras por "terras prometidas". Mas ao mesmo tempo quando Cristo morre na cruz ele não condena nem mesmo os infiéis romanos que o matam. Hoje em dia fala-se muito nisso, nessa compaixão. Eu penso um pouco na compaixão que me foi ensinada, e acho que é uma compaixão que tem algo de budista, nesse jeito de ter respeito e amor por todas as coisas. As nações e as bandeiras não fazem sentido, porque todos somos um perante o sagrado ("sob Deus" ou "no amor de Cristo", ou o que você quiser). Nesse sentido o patriotismo é um tanto anti-cristão, ou é uma religião em si, uma heresia de certa forma. Acho que os papas medievais concordariam comigo.
Por outro lado, se não fosse toda essa conotação facista que a palavra "patriotismo" tem, eu falaria sobre como os rebeldes, os grevistas, são na verdade os maiores patriotas. Porque amar ao seu país não significa amá-lo quando ele vai bem e abandoná-lo quando ele vai mal, nem significa amá-lo todo o tempo e ignorar seus problemas. Amar seu país significa lutar para melhorá-lo e fazer dele o melhor país possível. Os professores universitários em greve querem de fato que sua universidade seja a melhor possível, que haja professores o bastante para dar todas as aulas, e que as contas da universidade sejam abertas para que todos possam garantir que a universidade está sendo bem-gerida. Muitos deles estão em greve apesar do custo que isso tem para eles (apesar do esforço contra isso, quase sempre o custo da greve de professores é maior para os professores do que para reitores e governantes - que ultimamente têm tentado dar a entender que eles nem ligam). Pode-se discutir quão adequado e eficiente é esse método, nesse caso, mas dizer que greves são antipatrióticas, que um povo está contra sua pátria, é fingir que esse povo não compõe a pátria. A impressão que eu tenho é que patriotismo em si é antipatriótico, porque o patriotismo não faz bem pro povo. Eu diria que querer extingüir as divisas entre as nações pode ser patriótico.
sexta-feira, 10 de outubro de 2014
Utilidade
Faz algum tempo tive uma discussão com um colega sobre a impressão que a população em geral tem da ciência e da universidade. Se um governo investe em ciência, é provável que a população se sinta injustiçada. A universidade tem essa fama de ser composta por vagabundos que nada fazem de útil, e estudar é visto como um privilégio. Isso transparece nos discursos de que mestrandos e doutorandos não devem exigir bolsas que os sustentem -- como estudar é um benefício em si, não é justo que o estudante receba além disso um benefício monetário. Mesmo quando o investimento é diretamente em pesquisa, questiona-se a necessidade desse investimento. Meu colega me explicou que o que acontece é que a população não vê a utilidade da ciência porque ela de fato não lhe beneficia.
Acho que uma parte disso é um erro, já que as pesquisas feitas com incentivo público nas universidades públicas são as responsáveis pelos maiores avanços a longo prazo nas questões de interesse da população carente. Outra parte disso é causada por uma visão extremamente individualista - porque o único benefício reconhecido do estudo é aquele para o estudante, que pode se tornar uma pessoa mais capacitada e no futuro conseguir empregos melhores - e utilitarista - ou seja, não se enxerga a importância da manutenção da comunidade científica em si. Ao que me parece, a aparente utilidade prática da pesquisa científica serve para obscurecer a natureza artística e cultural da ciência. Seria mais coerente, eu acho, que programas de pesquisa em algumas áreas de ciência teórica abstrata fossem financiados por programas de incentivo a cultura. Porém, como supõe-se que a ciência é útil, passa-se a se exigir que ela seja valorizada apenas enquanto é perceptivelmente útil.
De um ponto de vista mais prático porém, eu acho que o cerne da desconfiança com as instituições científicas é justificado. Se uma sociedade sustenta uma instituição que não se preocupa em criar benefícios para a sociedade, essa instituição se torna como um mosteiro, ou como talvez fossem algumas antigas universidades, ou bibliotecas, lugares onde o conhecimento é armazenado e mantido vivo e refinado, que têm a própria continuação e aperfeiçoamento como seu único objetivo. Eu adoraria viver numa universidade assim, mas eu não sei até que ponto eu acharia justo investir numa instituição cujos frutos são intangíveis para quem a sustenta.
A universidade que temos hoje é composta em grande parte por artistas que se dedicam apenas à sua arte, mas em outra grande parte por pessoas sonhadoras que desejam que sua pesquisa torne o mundo melhor. Algumas dessas pessoas se envolvem com projetos de extensão, que é o meio oficial de devolver para a sociedade os benefícios do estudo, algumas voltam-se para o ensino, e algumas procuram projetos de pesquisa que possam ser utilizados no futuro, por pessoas mais empreendedoras, para tornar as coisas melhores. Mas esse esforço é inútil se não houver quem aplique e distribua esse novo conhecimento. Muitas vezes, existem forças poderosas trabalhando justamente contra a aplicação do conhecimento. A universidade se torna um núcleo de resistência a uma cultura destrutiva... Mas uma resistência passiva pode ser simplesmente ignorada. É preciso uma articulação com as ruas.
Tudo isso pra dizer que muitas vezes os temas que mais me apaixonam na ciência muitas vezes me parecem incapazes de transformar o mundo de verdade. Isso me frustra, e me leva a investir cada vez mais energia em coisas cujo resultado eu possa ver. Talvez eu não seja a pessoa mais apropriada para fazê-las, mas pelo menos eu acho que elas precisam ser feitas. Mudar o mundo nos detalhes já é melhor que não mudar nada. Talvez isso faça de mim uma pessoa errada para pesquisar matemática: meu amor por ela é grande, mas eu tenho dificuldade de ver a importância do que eu faço por amor. Especialmente se quase ninguém pode compartilhar comigo a beleza do que eu estudo. É como escrever uma história e não poder contá-la a ninguém.
sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014
Transição e Identificação com Mulheres
Ultimamente eu tenho tido vontade de dizer coisas como "eu, como mulher...". Eu tenho sentido identificação com mulheres. Estranhamente, isso é algo novo pra mim. É curioso que eu tenha passado a me identificar com mulheres justamente depois de desistir de me identificar como mulher. Eu acredito, na verdade, que essas coisas estejam relacionadas.
Eu passei uma parte muito grande da minha vida sem nenhuma identificação com mulheres. Embora eu pensasse em mim como mulher (com certa raiva e desejo de ser um menino), eu não via absolutamente nenhuma semelhança entre eu e as outras meninas da escola, por exemplo. Eu não via por que eu devia ser mais semelhante a minhas primas que aos meus primos, ou me identificar mais com minhas tias que com meus tios. Eu tinha uma relação ótima com minhas primas, e havia uma certa divisão de gênero entre meus primos, mas eu nunca me senti plenamente dentro do grupo das primas. Eu era a criança mais nova, a caçula, e isso era uma espécie de identidade pra mim. Eu queria muito mais fazer as atividades de menino que eu não podia fazer do que a maior parte das atividades de menina. Na escola, a separação era muito mais intensa. No pré, eu tenho uma lembrança, muito vaga, de apenas três meninas (lembro de um único dia na casa de Jennifer, lembro de sua mãe e sua gata, mas não seu rosto; lembro do rosto de Melissa, de seu pai e de quando a visitamos muitos anos depois; lembro vagamente de onde eu estava no parquinho no dia em que Marcela veio contar, desesperada, que havia matado nosso coelho), e uma lembrança muito forte da amizade intensa que eu tive com três ou quatro meninos (Ricardo, Vinícius, Kauã, e um pouco de Alan). Quando mudei para outra escola e a segregação entre os gêneros era mais forte, eu me sentia ainda mais deslocade por não ter essa cultura de segregação. Eu tentava fazer amizade com os meninos, mas era muito difícil. Fiz muitas amigas meninas, mas era uma amizade difícil; há poucas meninas daquela época com quem eu tinha uma amizade confortável. Elas tentavam me ensinar a fazer coisas de menina e eu me sentia uma menina desajeitada e sem cultura. Depois de um tempo eu desisti de tentar; fiz amizades com garotos que se interessavam por mim e com as garotas que gostavam de fazer amizades com garotos. Minha identificação com garotos era sempre muito mais forte que com garotas.
Eu achava normal; eu me identificava como uma garota esquisita, uma outcast. Alguns anos mais tarde, um amigo meu apontou, neste blog mesmo, que eu era uma pessoa muito feminina, mas "preferia" me ver como uma pessoa estranha. Foi a primeira vez que eu suspeitei que minha visão de mim não tivesse nada a ver com a visão dos outros. Pensando bem, é um pensamento meio desesperador, esse de que os outros estavam me vendo como uma mulher adequada, bem-encaixada na vida, confortável, e só eu estava me vendo como eu realmente me sentia. Pensando bem, isso explica muita coisa, mas muita coisa mesmo.
Veja, eu me identificava como mulher, eu identificava que coisas aconteciam comigo por ser mulher, e coisas que eu fazia por ser mulher, eu tinha desejos específicos de deixar de ser e ter sido mulher, eu só não me identificava com outras mulheres.
Em algum momento eu descobri a bissexualidade, a não-monogamia, e por fim o feminismo.
A bissexualidade serviu pra compreender parte da minha ansiedade com certas mulheres como simplesmente uma ansiedade de ter desejo por uma mulher que eu tinha todos os motivos para crer que era hétero. Quando eu compreendi melhor meus sentimentos, eu desenvolvi uma necessidade louca de ser lésbica. Eu acho que eu imaginava que entre as lésbicas eu talvez sentisse alguma forma de identificação. Até hoje eu tenho essa imagem de que lésbicas vivem num mundo mágico composto por mulheres em que todas elas se sentem bem, aceitas e bem-encaixadas. De fato, muitas vezes elas passam deliberadamente essa impressão. Entretanto, por ser uma pessoa bissexual e estar quase sempre com homens, (e eu culpo um pouco a dificuldade que eu e minhas amigas bi tínhamos de fazer essa coisa perigosa que é ficar com garotas à vista de outrem), eu nunca cheguei a me envolver romanticamente com mulheres. Por outro lado, eu vivi amores platônicos extremamente intensos --- e esses amores, de uma forma mais poética do que confusa, me jogaram de um lado pro outro no simbolismo de gênero, porque eu invejava a mitologia do amor heterossexual e eu queria a simbologia do cavaleiro, dos mitos primitivos, da rainha e do amante, de todas essas coisas, mas eu também queria romper as expectativas heterossexuais, então eu alternava entre narrativas heróicas masculinas e femininas, tornando o gênero de todos os envolvidos uma coisa poéticamente fluida, como dá pra ver aqui.
A não-monogamia serviu para focar meus sentimentos de deslocamento e exclusão numa coisa objetiva: eu era diferente de todas as demais porque pra mim monogamia simplesmente não era uma opção. Não-monogamia foi claramente a minha primeira e mais importante orientação sexual clara (já que a heterossexualidade fora meramente uma imposição social, e a bissexualidade se manteve como uma dúvida até praticamente ano passado).
O feminismo veio vindo aos poucos, misturando coisas que minhas amigas mais politizadas e minha mãe me diziam. Eu lembro do dia em que eu e minha mãe tivemos uma longa e iluminadora conversa sobre o abuso que sofri na infância, e como isso abriu meus olhos para muitas coisas. Depois, no feminismo, eu comecei a me identificar com outras mulheres através dos relatos de abusos. Os espaços exclusivos para mulheres, mesmo que virtuais, como o Mulheres Livres, permitiam que nós falássemos em grandes grupo sobre essas coisas, e ficou muito claro como nós estávamos todas juntas, e como aquela roda de histórias era poderosa. Eu inclusive escrevi sobre isso aqui, no início do ano passado. Naquele momento eu entendi que minha maior identificação com outras mulheres era através das histórias de abuso e resistência, abuso e sobrevivência, abuso e essa capacidade louca que temos de continuar em frente, muitas vezes continuando a conviver com o abusador, amando-o ou cuidando dele durante toda a vida, fingindo que somos capazes de perdoar, às vezes por incapacidade de condenar completamente. Minha identificação com outras mulheres vinha através do laço com minha mãe e minha avó e minha bisavó na linhagem materna que certamente haviam sofrido abusos antes de mim, e vivido e sido as pessoas fortes e incríveis que elas eram e ela é.
Mas ao mesmo tempo eu descobri, através de sexo e de posts deste blog, que eu não era a única pessoa no meu círculo que rejeitava o próprio gênero. Ao mesmo tempo eu conheci uma mulher trans e um homem trans --- minha voz ainda treme um pouco quando eu tento descrever a sensação poderosa que me causou ver aquele corpo másculo, peludo e musculoso, e saber que era fisicamente possível ter aquilo para mim. E esse mesmo homem disse: "Eu não sou homem, eu não sou mulher, gender, fuck it". Então eu segui esse caminho loucamente libertador de simplesmente negar meu gênero. Não apenas tentar me libertar abstratamente das imposições de gênero como eu estava fazendo antes, mas rejeitar arbitrariamente tudo o que era feminino.
Essa diferença foi poderosa porque havia muita coisa que eu tinha mêdo de fazer. Eu precisei juntar coragem por anos antes de deixar as pernas sem depilação; eu demorei pelo menos dez anos sem conseguir seguir minha vontade de raspar a cabeça; eu passei mais do que isso sem nem cogitar andar sem sutiã; eu freqüentemente tentava experimentar coisas "de mulher", talvez numa tentativa fútil de me identificar com outras mulheres, ou numa tentativa ainda mais fútil de "exercitar meu poder de escolha". Eu havia acreditado no pensamento liberal de que mulheres escolhem pessoalmente depilar as pernas e as axilas, usar maquiagem e esmalte, usar sutiã, salto-alto, saia, cabelo comprido, e eu havia acreditado de uma forma tal que eu aplicava essas escolhas a mim, questionando apenas superficialmente por que eu estava fazendo isso.
Pra se ter uma idéia, na primeira vez em que eu saí com uma mulher lésbica, eu me vesti da forma mais feminina que eu pude, com brincos delicados, saia curta, sandália, e me senti ligeiramente boba por ver que ela se vestia de um jeito muito mais parecido com o que eu me vestia normalmente.
Para outra idéia, quando eu percebi que eu ia ficar com um garoto que declaradamente preferia pessoas peludas, eu, que havia me mantido peluda mesmo na praia, de biquíni, tive que depilar as pernas. E eu continuei alternando entre deixar crescer e depilar por anos, mesmo que cada vez que eu depilasse eu sentisse um momento de desagrado cada vez que eu via minhas pernas peladas.
Além disso, eu usava sutiã e dizia que era porque eu detestava a sensação dos meus peitos balançando. Eu ainda detesto profundamente essa sensação, mas eu não uso mais sutiã quase nunca. Hoje em dia me parece que eu usava sutiã basicamente por mêdo de que meus peitos ficassem caídos.
Eu achava que eu estava exercitando meu poder de escolha sobre meu corpo e minhas roupas, mas não era uma escolha em liberdade. Quando eu escolhi deixar de me comportar como mulher e deliberadamente tomar comportamentos masculinizados, essa falta de liberdade deliberada me forçou a notar uma séria de limitações que eu havia me imposto anteriormente. Essa experiência me transformou completamente. Além disso, é claro, as pessoas trans, anarquistas e não-monogâmicas que conheci nessa época (tenho dificuldade de separar os grupos) me levaram para uma teoria feminista e uma militância muito mais radical do que a que eu havia conhecido até então, que me permitiu pensar muito mais profundamente sobre tudo o que eu experienciava.
O processo de transição (até agora) foi confuso e irregular.
Um dia eu resolvi me travestir, e tive um momento inicial de extremo prazer por parecer um homem, seguida de uma crise nervosa em que eu precisava me vestir com roupas fofas e femininas que eu adorasse. Depois de um tempo eu comecei espontaneamente a me vestir de forma mais ou menos andrógina. Depois, num processo que eu ainda não consegui entender, eu subitamente comecei a rejeitar roupas femininas: quando eu vestia qualquer coisa com rendinhas, ou sainhas, ou estampas delicadas, eu sentia um estranhamento, uma repulsa, como se aquilo estivesse ridículo e errado. Eu acho que ainda estou nessa fase, embora de vez em quando eu use uma ou outra roupa feminina.
Nas relações com as pessoas foi semelhante: no começo me causava estranhamento quando me tratavam de forma neutra ou masculina, até o dia em que eu senti uma transição dentro de mim e comecei espontaneamente a usar pronomes masculinos pra falar de mim mesmo, e depois, em alguns momentos começou a se tornar desagradável quando certas pessoas usavam pronomes femininos para se referir a mim. Hoje em dia há uma segmentação na minha cabeça, eu ainda quero que minha família me trate como sempre me tratou, não quero fazer uma transição na minha vida, e quando me apresento para velhinhas desconhecidas na rua eu ainda uso meu nome de batismo; mas certas pessoas têm uma relação muito generificada comigo, certos amigos usam demais pronomes e formas femininas, e dependendo do caso e do amigo, de há quanto tempo o conheço e como é nossa relação, isso incomoda. O que me incomoda não é, na verdade, o pronome ou o nome ou a forma gramatical escolhida, é o tratamento em geral, é a diferenciação. É possível notar quanta relevância o gênero têm em nossas relações observando o quanto ele se mostra na linguagem usada. E de modo geral usar formas gramaticais que evidenciem o gênero tem parecido esquisito para mim.
A relação com meu corpo, ao mesmo tempo, mudou bastante, mas talvez por outros motivos. Em alguns aspectos, eu tenho sentido menos vontade de transformação, eu tenho sentido menos incômodo por ter poucos pêlos, menos incômodo por não ter barba nem pêlos nos braços (ah, os pêlos nos braços... acho que metade da minha atração por homens vem deles...). Eu parei de usar sutiã, e percebi que a sensação que eu sempre tive com os peitos balançando é bastante parecida ou talvez conectada com disforia --- essa sensação louca de asfixia, de que tudo vai ser insuportável pra sempre, contra qual o único remédio é desviar o olhar e respirar fundo e não pensar a respeito disso. Eu percebo que a sensação de disforia que eu às vezes tenho com meus peitos é muito parecida com o desespêro que eu tive por estar na faculdade errada, ou por não estar levando a vida que eu quero de modo geral. Eu percebo que eu sempre senti isso de certa forma. Esse incômodo do descontrôle, de ter que lidar com algo que você queria que nem existisse. Sempre foi assim.
"Sempre fui assim" é a frase que mais me levou a descobertas nos últimos sete anos.
E por fim, chegamos à identificação com mulheres.
Na verdade essa identificação é algo muito recente. Eu senti um impulso de identificação quando me percebi desejante de mulheres, mas no relacionamento com elas ainda me sentia o patinho feio. Eu senti uma identificação com as histórias de abuso, mas essa identificação não era suficiente para eu me sentir confortável. Eu não vou explicar em detalhes o que me fez começar a me identificar com mulheres porque é um assunto complexo político e teórico e que envolve uma infinidade de tretas e mereceria uma série de posts a respeito. Vou apenas dizer que minha percepção das agressões que eu sofro por ser designada mulher aumentou, e que assuntos específicos de pessoas designadas mulheres têm sido discutidos com freqüência, e que voltei a discutir primeiramente feminismo, mas com essa nova visão que desenvolvi nesse processo, e que afinal notei (esses dias) que me identifico primariamente com outras pessoas designadas mulheres e que sofrem o mesmo tipo de agressão que eu, que temos pensamentos parecidos, e posicionamentos parecidos. Eu desenvolvi nesse tempo a admiração pelas pessoas que assumem "mulher" como identidade política depois de terem sido forçosamente designadas mulheres por toda a vida; eu as admiro porque vejo nisso um ato de lealdade às outras mulheres, àquelas que jamais questionariam seu gênero. Cada vez mais eu me identifico como uma pessoa faab: designada mulher, mas não feliz com isso. Às vezes me ocorre que minha incapacidade de me identificar confortavelmente como mulher seja antes uma fraqueza de caráter, uma dificuldade em resistir, como resistem as mulheres que admiro, uma falta de resiliência; Admitir minha mulheridade seria difícil e doloroso, então deixo de lado, deixo pra outro dia. Escolho não me identificar. Tento, mas nem sempre consigo, evitar esse pensamento desmoralisante.
Mas trabalhamos. Percebo agora que o envolvimento com a transgeneridade, assim como com a não-heterossexualidade e a não-monogamia, me permitiu amadurecer muitas idéias e me dar maior segurança para me relacionar com outras pessoas; mas principalmente, a não-obrigação de me identificar com outras mulheres tornou o convívio com elas muito mais fácil. Poder me identifcar a priori como o outro, o diferente, me torna imune à maior armadilha do convívio com mulheres, que é quando elas supõe que eu, "por ser mulher", penso, ajo e sei coisas que elas sabem. Quando me sinto inseguro em relação à minha habilidade em performar mulher, eu posso me esconder sob o escudo de não ser, de fato, uma mulher.
Talvez seja ilusão minha que mulheres se identificam umas com as outras, não sei; mas talvez não seja, talvez seja só a minha construção de gênero que não foi tão bem feita quanto com as outras mulheres, talvez ela tenha sido quebrada cedo demais pelo abuso; talvez seja só uma conjunção de fatores, de eu ser bissexual, não-monogâmica, por minha mãe nunca ter me ensinado a usar vestidos e pintar a unhas, por eu ter tido vontade de jogar futebol mas nunca ter tido muito talento pelos esportes, por eu ser uma criança exageradamente tímida, mas muito eloquente, talvez sejam apenas todas essas coicidências que fazem minha experiência de gênero funcionar melhor quando eu escolho negar meu gênero designado.
Mas trabalhamos. Talvez isso mude de novo durante este ano.
Eu passei uma parte muito grande da minha vida sem nenhuma identificação com mulheres. Embora eu pensasse em mim como mulher (com certa raiva e desejo de ser um menino), eu não via absolutamente nenhuma semelhança entre eu e as outras meninas da escola, por exemplo. Eu não via por que eu devia ser mais semelhante a minhas primas que aos meus primos, ou me identificar mais com minhas tias que com meus tios. Eu tinha uma relação ótima com minhas primas, e havia uma certa divisão de gênero entre meus primos, mas eu nunca me senti plenamente dentro do grupo das primas. Eu era a criança mais nova, a caçula, e isso era uma espécie de identidade pra mim. Eu queria muito mais fazer as atividades de menino que eu não podia fazer do que a maior parte das atividades de menina. Na escola, a separação era muito mais intensa. No pré, eu tenho uma lembrança, muito vaga, de apenas três meninas (lembro de um único dia na casa de Jennifer, lembro de sua mãe e sua gata, mas não seu rosto; lembro do rosto de Melissa, de seu pai e de quando a visitamos muitos anos depois; lembro vagamente de onde eu estava no parquinho no dia em que Marcela veio contar, desesperada, que havia matado nosso coelho), e uma lembrança muito forte da amizade intensa que eu tive com três ou quatro meninos (Ricardo, Vinícius, Kauã, e um pouco de Alan). Quando mudei para outra escola e a segregação entre os gêneros era mais forte, eu me sentia ainda mais deslocade por não ter essa cultura de segregação. Eu tentava fazer amizade com os meninos, mas era muito difícil. Fiz muitas amigas meninas, mas era uma amizade difícil; há poucas meninas daquela época com quem eu tinha uma amizade confortável. Elas tentavam me ensinar a fazer coisas de menina e eu me sentia uma menina desajeitada e sem cultura. Depois de um tempo eu desisti de tentar; fiz amizades com garotos que se interessavam por mim e com as garotas que gostavam de fazer amizades com garotos. Minha identificação com garotos era sempre muito mais forte que com garotas.
Eu achava normal; eu me identificava como uma garota esquisita, uma outcast. Alguns anos mais tarde, um amigo meu apontou, neste blog mesmo, que eu era uma pessoa muito feminina, mas "preferia" me ver como uma pessoa estranha. Foi a primeira vez que eu suspeitei que minha visão de mim não tivesse nada a ver com a visão dos outros. Pensando bem, é um pensamento meio desesperador, esse de que os outros estavam me vendo como uma mulher adequada, bem-encaixada na vida, confortável, e só eu estava me vendo como eu realmente me sentia. Pensando bem, isso explica muita coisa, mas muita coisa mesmo.
Veja, eu me identificava como mulher, eu identificava que coisas aconteciam comigo por ser mulher, e coisas que eu fazia por ser mulher, eu tinha desejos específicos de deixar de ser e ter sido mulher, eu só não me identificava com outras mulheres.
Em algum momento eu descobri a bissexualidade, a não-monogamia, e por fim o feminismo.
A bissexualidade serviu pra compreender parte da minha ansiedade com certas mulheres como simplesmente uma ansiedade de ter desejo por uma mulher que eu tinha todos os motivos para crer que era hétero. Quando eu compreendi melhor meus sentimentos, eu desenvolvi uma necessidade louca de ser lésbica. Eu acho que eu imaginava que entre as lésbicas eu talvez sentisse alguma forma de identificação. Até hoje eu tenho essa imagem de que lésbicas vivem num mundo mágico composto por mulheres em que todas elas se sentem bem, aceitas e bem-encaixadas. De fato, muitas vezes elas passam deliberadamente essa impressão. Entretanto, por ser uma pessoa bissexual e estar quase sempre com homens, (e eu culpo um pouco a dificuldade que eu e minhas amigas bi tínhamos de fazer essa coisa perigosa que é ficar com garotas à vista de outrem), eu nunca cheguei a me envolver romanticamente com mulheres. Por outro lado, eu vivi amores platônicos extremamente intensos --- e esses amores, de uma forma mais poética do que confusa, me jogaram de um lado pro outro no simbolismo de gênero, porque eu invejava a mitologia do amor heterossexual e eu queria a simbologia do cavaleiro, dos mitos primitivos, da rainha e do amante, de todas essas coisas, mas eu também queria romper as expectativas heterossexuais, então eu alternava entre narrativas heróicas masculinas e femininas, tornando o gênero de todos os envolvidos uma coisa poéticamente fluida, como dá pra ver aqui.
A não-monogamia serviu para focar meus sentimentos de deslocamento e exclusão numa coisa objetiva: eu era diferente de todas as demais porque pra mim monogamia simplesmente não era uma opção. Não-monogamia foi claramente a minha primeira e mais importante orientação sexual clara (já que a heterossexualidade fora meramente uma imposição social, e a bissexualidade se manteve como uma dúvida até praticamente ano passado).
O feminismo veio vindo aos poucos, misturando coisas que minhas amigas mais politizadas e minha mãe me diziam. Eu lembro do dia em que eu e minha mãe tivemos uma longa e iluminadora conversa sobre o abuso que sofri na infância, e como isso abriu meus olhos para muitas coisas. Depois, no feminismo, eu comecei a me identificar com outras mulheres através dos relatos de abusos. Os espaços exclusivos para mulheres, mesmo que virtuais, como o Mulheres Livres, permitiam que nós falássemos em grandes grupo sobre essas coisas, e ficou muito claro como nós estávamos todas juntas, e como aquela roda de histórias era poderosa. Eu inclusive escrevi sobre isso aqui, no início do ano passado. Naquele momento eu entendi que minha maior identificação com outras mulheres era através das histórias de abuso e resistência, abuso e sobrevivência, abuso e essa capacidade louca que temos de continuar em frente, muitas vezes continuando a conviver com o abusador, amando-o ou cuidando dele durante toda a vida, fingindo que somos capazes de perdoar, às vezes por incapacidade de condenar completamente. Minha identificação com outras mulheres vinha através do laço com minha mãe e minha avó e minha bisavó na linhagem materna que certamente haviam sofrido abusos antes de mim, e vivido e sido as pessoas fortes e incríveis que elas eram e ela é.
Mas ao mesmo tempo eu descobri, através de sexo e de posts deste blog, que eu não era a única pessoa no meu círculo que rejeitava o próprio gênero. Ao mesmo tempo eu conheci uma mulher trans e um homem trans --- minha voz ainda treme um pouco quando eu tento descrever a sensação poderosa que me causou ver aquele corpo másculo, peludo e musculoso, e saber que era fisicamente possível ter aquilo para mim. E esse mesmo homem disse: "Eu não sou homem, eu não sou mulher, gender, fuck it". Então eu segui esse caminho loucamente libertador de simplesmente negar meu gênero. Não apenas tentar me libertar abstratamente das imposições de gênero como eu estava fazendo antes, mas rejeitar arbitrariamente tudo o que era feminino.
Essa diferença foi poderosa porque havia muita coisa que eu tinha mêdo de fazer. Eu precisei juntar coragem por anos antes de deixar as pernas sem depilação; eu demorei pelo menos dez anos sem conseguir seguir minha vontade de raspar a cabeça; eu passei mais do que isso sem nem cogitar andar sem sutiã; eu freqüentemente tentava experimentar coisas "de mulher", talvez numa tentativa fútil de me identificar com outras mulheres, ou numa tentativa ainda mais fútil de "exercitar meu poder de escolha". Eu havia acreditado no pensamento liberal de que mulheres escolhem pessoalmente depilar as pernas e as axilas, usar maquiagem e esmalte, usar sutiã, salto-alto, saia, cabelo comprido, e eu havia acreditado de uma forma tal que eu aplicava essas escolhas a mim, questionando apenas superficialmente por que eu estava fazendo isso.
Pra se ter uma idéia, na primeira vez em que eu saí com uma mulher lésbica, eu me vesti da forma mais feminina que eu pude, com brincos delicados, saia curta, sandália, e me senti ligeiramente boba por ver que ela se vestia de um jeito muito mais parecido com o que eu me vestia normalmente.
Para outra idéia, quando eu percebi que eu ia ficar com um garoto que declaradamente preferia pessoas peludas, eu, que havia me mantido peluda mesmo na praia, de biquíni, tive que depilar as pernas. E eu continuei alternando entre deixar crescer e depilar por anos, mesmo que cada vez que eu depilasse eu sentisse um momento de desagrado cada vez que eu via minhas pernas peladas.
Além disso, eu usava sutiã e dizia que era porque eu detestava a sensação dos meus peitos balançando. Eu ainda detesto profundamente essa sensação, mas eu não uso mais sutiã quase nunca. Hoje em dia me parece que eu usava sutiã basicamente por mêdo de que meus peitos ficassem caídos.
Eu achava que eu estava exercitando meu poder de escolha sobre meu corpo e minhas roupas, mas não era uma escolha em liberdade. Quando eu escolhi deixar de me comportar como mulher e deliberadamente tomar comportamentos masculinizados, essa falta de liberdade deliberada me forçou a notar uma séria de limitações que eu havia me imposto anteriormente. Essa experiência me transformou completamente. Além disso, é claro, as pessoas trans, anarquistas e não-monogâmicas que conheci nessa época (tenho dificuldade de separar os grupos) me levaram para uma teoria feminista e uma militância muito mais radical do que a que eu havia conhecido até então, que me permitiu pensar muito mais profundamente sobre tudo o que eu experienciava.
O processo de transição (até agora) foi confuso e irregular.
Um dia eu resolvi me travestir, e tive um momento inicial de extremo prazer por parecer um homem, seguida de uma crise nervosa em que eu precisava me vestir com roupas fofas e femininas que eu adorasse. Depois de um tempo eu comecei espontaneamente a me vestir de forma mais ou menos andrógina. Depois, num processo que eu ainda não consegui entender, eu subitamente comecei a rejeitar roupas femininas: quando eu vestia qualquer coisa com rendinhas, ou sainhas, ou estampas delicadas, eu sentia um estranhamento, uma repulsa, como se aquilo estivesse ridículo e errado. Eu acho que ainda estou nessa fase, embora de vez em quando eu use uma ou outra roupa feminina.
Nas relações com as pessoas foi semelhante: no começo me causava estranhamento quando me tratavam de forma neutra ou masculina, até o dia em que eu senti uma transição dentro de mim e comecei espontaneamente a usar pronomes masculinos pra falar de mim mesmo, e depois, em alguns momentos começou a se tornar desagradável quando certas pessoas usavam pronomes femininos para se referir a mim. Hoje em dia há uma segmentação na minha cabeça, eu ainda quero que minha família me trate como sempre me tratou, não quero fazer uma transição na minha vida, e quando me apresento para velhinhas desconhecidas na rua eu ainda uso meu nome de batismo; mas certas pessoas têm uma relação muito generificada comigo, certos amigos usam demais pronomes e formas femininas, e dependendo do caso e do amigo, de há quanto tempo o conheço e como é nossa relação, isso incomoda. O que me incomoda não é, na verdade, o pronome ou o nome ou a forma gramatical escolhida, é o tratamento em geral, é a diferenciação. É possível notar quanta relevância o gênero têm em nossas relações observando o quanto ele se mostra na linguagem usada. E de modo geral usar formas gramaticais que evidenciem o gênero tem parecido esquisito para mim.
A relação com meu corpo, ao mesmo tempo, mudou bastante, mas talvez por outros motivos. Em alguns aspectos, eu tenho sentido menos vontade de transformação, eu tenho sentido menos incômodo por ter poucos pêlos, menos incômodo por não ter barba nem pêlos nos braços (ah, os pêlos nos braços... acho que metade da minha atração por homens vem deles...). Eu parei de usar sutiã, e percebi que a sensação que eu sempre tive com os peitos balançando é bastante parecida ou talvez conectada com disforia --- essa sensação louca de asfixia, de que tudo vai ser insuportável pra sempre, contra qual o único remédio é desviar o olhar e respirar fundo e não pensar a respeito disso. Eu percebo que a sensação de disforia que eu às vezes tenho com meus peitos é muito parecida com o desespêro que eu tive por estar na faculdade errada, ou por não estar levando a vida que eu quero de modo geral. Eu percebo que eu sempre senti isso de certa forma. Esse incômodo do descontrôle, de ter que lidar com algo que você queria que nem existisse. Sempre foi assim.
"Sempre fui assim" é a frase que mais me levou a descobertas nos últimos sete anos.
E por fim, chegamos à identificação com mulheres.
Na verdade essa identificação é algo muito recente. Eu senti um impulso de identificação quando me percebi desejante de mulheres, mas no relacionamento com elas ainda me sentia o patinho feio. Eu senti uma identificação com as histórias de abuso, mas essa identificação não era suficiente para eu me sentir confortável. Eu não vou explicar em detalhes o que me fez começar a me identificar com mulheres porque é um assunto complexo político e teórico e que envolve uma infinidade de tretas e mereceria uma série de posts a respeito. Vou apenas dizer que minha percepção das agressões que eu sofro por ser designada mulher aumentou, e que assuntos específicos de pessoas designadas mulheres têm sido discutidos com freqüência, e que voltei a discutir primeiramente feminismo, mas com essa nova visão que desenvolvi nesse processo, e que afinal notei (esses dias) que me identifico primariamente com outras pessoas designadas mulheres e que sofrem o mesmo tipo de agressão que eu, que temos pensamentos parecidos, e posicionamentos parecidos. Eu desenvolvi nesse tempo a admiração pelas pessoas que assumem "mulher" como identidade política depois de terem sido forçosamente designadas mulheres por toda a vida; eu as admiro porque vejo nisso um ato de lealdade às outras mulheres, àquelas que jamais questionariam seu gênero. Cada vez mais eu me identifico como uma pessoa faab: designada mulher, mas não feliz com isso. Às vezes me ocorre que minha incapacidade de me identificar confortavelmente como mulher seja antes uma fraqueza de caráter, uma dificuldade em resistir, como resistem as mulheres que admiro, uma falta de resiliência; Admitir minha mulheridade seria difícil e doloroso, então deixo de lado, deixo pra outro dia. Escolho não me identificar. Tento, mas nem sempre consigo, evitar esse pensamento desmoralisante.
Mas trabalhamos. Percebo agora que o envolvimento com a transgeneridade, assim como com a não-heterossexualidade e a não-monogamia, me permitiu amadurecer muitas idéias e me dar maior segurança para me relacionar com outras pessoas; mas principalmente, a não-obrigação de me identificar com outras mulheres tornou o convívio com elas muito mais fácil. Poder me identifcar a priori como o outro, o diferente, me torna imune à maior armadilha do convívio com mulheres, que é quando elas supõe que eu, "por ser mulher", penso, ajo e sei coisas que elas sabem. Quando me sinto inseguro em relação à minha habilidade em performar mulher, eu posso me esconder sob o escudo de não ser, de fato, uma mulher.
Talvez seja ilusão minha que mulheres se identificam umas com as outras, não sei; mas talvez não seja, talvez seja só a minha construção de gênero que não foi tão bem feita quanto com as outras mulheres, talvez ela tenha sido quebrada cedo demais pelo abuso; talvez seja só uma conjunção de fatores, de eu ser bissexual, não-monogâmica, por minha mãe nunca ter me ensinado a usar vestidos e pintar a unhas, por eu ter tido vontade de jogar futebol mas nunca ter tido muito talento pelos esportes, por eu ser uma criança exageradamente tímida, mas muito eloquente, talvez sejam apenas todas essas coicidências que fazem minha experiência de gênero funcionar melhor quando eu escolho negar meu gênero designado.
Mas trabalhamos. Talvez isso mude de novo durante este ano.
quarta-feira, 29 de janeiro de 2014
Todas as Confissões
Eu vivo controlando meus pensamentos e atitudes, com mêdo de estar cerceando a liberdade alheia, com mêdo de oprimir.
Eu não converso muito sobre as dúvidas que tenho em relação a todas as nossas militâncias.
Muitas vezes eu estou em cima do muro, assistindo. Aconteceu uma ou dias vezes de alguém reclamar de algo que eu disse, ou de algo que eu compartilhei ou endorsei. Aconteceu algumas vezes de alguém se ofender com o fato de eu não ter tomado um lado explicitamente.
Essas coisas me perseguem.
Eu queria ter mais convicção nas minhas ideologias, identidades, filosofias. Em vez disso estou constantemente revendo e questionando o que faço. Nunca sei se o que penso não será de fato uma violência ideológica contra outra pessoa. Não consigo escolher ou construir uma corrente de feminismo com a qual me identifique porque minha opinião fundamental sobre como devemos nos identificar politicamente, ou como eu prefiro me identificar, é fluida. Hoje, no Dia da Visibilidade Trans, eu assumi uma identidade cis, politicamente, pois os temas que discuti hoje eu discuti do ponto de vista de uma mulher, de mulher como classe política, de mulher apesar de nossas individualidades e de nossa resistência ao nosso próprio gênero.
Eu sou uma pessoa designada e lida como mulher. Digo designada mulher não apenas porque fui designada assim no nascimento mas também porque assim me designam diariamente, em todas as interações sociais cisgeneristas, familiares me designam o papel de mulher, mulheres que acabei de conhecer me impõe o papel de mulher, homens desconhecidos na rua me forçam ao papel de mulher. Em dias ímpares me parece que devo me assumir assim, pessoa designada diariamente como mulher, pessoa agrilhoada ao gênero mulher, mas pessoa não resignada a esse gênero, pessoa que se recusa a se identificar como mulher; em dias assim me recuso a me identificar com o gênero que me foi imposto o com o qual sinto nenhuma identificação. Em dias pares tenho a impressão de que ser designada mulher justamente é ser mulher, e que quando me identifico com outras pessoas que sofreram abusos unicamente por serem vistas como mulheres, sinto essa identificação justamente por ser mulher, porque no fundo é o abuso, a opressão, a única coisa que une todas as mulheres.
Não consigo decidir se sou ou não mulher. É verdade que não quero ser, mas não sei o quando disso é disforia e o quanto é femmefobia.
Sou uma pessoa designada diariamente e desde o nascimento como mulher e convictamente feminista. Mas isso não me impede de ter pensamentos e sentimentos de misoginia e femmefobia (o ódio a coisas associadas ao feminino).
Eu dou suma importância ao feminismo interseccional e procuro ao máximo apoiar e reforçar as lutas de pessoas que possuem outras identidades e que sofrem outras discriminações, mas isso não me salva de eventualmente ter pensamentos classistas, racistas, lesbofóbicos, femmefóbicos, transmisóginos, capacitistas. Na verdade isso me coloca justamente em uma situação em que eu posso pegar essas pessoas desprevinidas e reproduzir a opressão sobre elas dentro dos espaços que deveriam ser seguros, agredindo-as quando suas guardas deveriam estar abaixadas. Eu sou uma fonte de opressão, não só potencial como real. Minha pele, meu rosto, minhas roupas, meu cabelo, minha voz, minha erudição, minhas experiências de vida, minhas opiniões, tudo isso é fruto e lembrança de uma opressão. Eu sou parte de tudo o que eu ojerizo. Minha própria presença é possivelmente opressora.
Eu me considero, pelo menos metade do tempo, uma pessoa de gênero não-binário. Ou pelo menos gostaria de me assumir assim. Minha convicção nessa identidade varia com muitas coisas, entre elas qual modalidade de feminismo eu tenho estudado e seguido mais fortemente. Eu desejo que me reconheçam como uma pessoa que não é propriamente mulher, e eu desejo que me tratem sem distinções de gênero. Eu desejo às vezes ocultar ou modificar aspzctos do meu corpo. Outras ezes eu evito sequer pensar no meu corpo. Eu não desejo interagir com meu corpo como uma mulher -- porém eu também não desejo isso a nenhuma mulher.
Ser uma pessoa (eventualmente) não-binária também não me impede de ter pensamentos e atitudes binaristas, e transfóbicas, mesmo contra pessoas com identidades como a minha e, de fato, contra mim.
Eu não consigo entender o mundo e as palavras de forma objetiva. Me parece que me falta um estudo mais profundo de semiologia. Conceitos como "identidade", "gênero", "mulher" parecem vagos, fluidos, mudam de conversa para concersa, de contexto para contexto, de forma que ora eu sou mulher, ora sou trans, ora sou apenas uma pessoa. Possuir uma identidade de gênero bem-definida e arraigada na identidade pessoal me parece insano, incompreensível, impossível de encaixar corretamente na teoria e percepção que eu gostaria de ter sobre gênero.
Eu tento manter a mente aberta.
Eu sinto que passo mais tempo apagando e reescrevendo o que escrevo do que de fato articulando minhas idéias. Me parece que qualquer coisa que eu pense estará inevitávelmente errada. Mas algumas serão úteis. Mas apenas quando eu compartilhá-las. E eventualmente eu repdroduzo uma forma de pensamento opressiva, é raro mas esses momentos me perseguem. Eu reescrevo tudo o que escrevo porque tudo o que escrevo vem com um alvo e uma intenção. E eu gostaria de atingir o alvo de forma limpa e clara, e não espirrar sangue para todos os lados. Eu não quero correr o risco de comprometer outras causas.
Eu não quero perder a clareza. Eu não quero perder a capacidade crítica. Também não quero me manter em silêncio apenas em nome da liberdade de pensamento, que é uma liberdade falsa, pois permite o desenvolvimento do pensamento amoral. Eu não acredito efetivamente na relativização do que se acha certo. Não ter convicções nenhumas não é nenhuma forma de liberdade, antes uma prisão. Ou talvez a prisão seja a necessidade de convicções para tomar uma atitude.
Eu gostaria inclusive de me apegar mais aos extremos, mas eu sou uma pessoa de hesitações e mêdos, e essa é minha frasueza, e essa é minha força. Eu controlo assim meu potencial para a opressão e a ofensa, mas controlo também meu potencial revolucionário. Porém, eu não preciso e não devo tentar mudar o mundo individualmente. Eu não acredito em nenhum momento no individualismo, e nada do que faço faço pensando individualmente. Assim, eu me considero um tipo de peça útil às nossas causas, como também são úteis as pessoas que têm fortes convicções a respeito de suas próprias identidades.
Eu amadureço lentamente, mas não importa muito, nunca me viram como imatura. Eu serei sempre uma pessoa velha e jovem porque não tenho a coragem de viver uma juventude e nem terei a serenidade de resignar-me à velhice.
sábado, 7 de dezembro de 2013
Das coisas das quais eu às vezes sinto falta
Meu último texto me deu um olé e me fez escrever algo diferente do que eu planejava. Mas talvez fosse necessário colocar aquelas coisas (isto é, eu) em um contexto antes de escrever isto que eu quero escrever. Pois bem, vamos tentar de novo.
Ultimamente tenho pensado com uma certa freqüência naquelas coisas que eu apreciava do tempo (relativamente curto) em que eu me senti plenamente confortável e apropriado como mulher. Aqueles tempos em que eu me vesti de forma totalmente "feminina" e senti prazer nisso, sabe. Aqueles tempos em que eu acreditei que havia algo de mágico, de divino, de sagrado em ser mulher. Tempos muito estranhos.
Pra falar a verdade eu penso pouco nessas coisas; normalmente eu penso mais no mêdo que eu tenho de mudar, de que as mudanças me levem a me afastar de pessoas que eu quero, que sair do armário e arrancar a máscara me desamarre dessa personagem que existe e que é ainda eu, mas não é eu. Eu não quero que meus amigos falem no futuro daquela Eu que eles conheceram e que morreu quando eu nasci. Mas eu normalmente não penso muito nas vantagens intrínsecas dessa antiga Eu, então tenho que aproveitar que estou pensando nisso.
Enfim.
Quando eu me vestia sempre de forma sexy, eu tinha uma confiança ferrenha de que eu era extremamente sexy. Eu era uma pessoa bonita, gostosa, autoconfiante, e eu sabia que eu poderia conquistar qualquer pessoa desde que eu tentasse. Eu fazia muito sexo, muito mais do que eu fazia antes e muito mais do que eu tenho vontade de fazer hoje. O jogo de sedução era a coisa mais empolgante do mundo. Eu me apaixonava o tempo todo também, de uma forma mais sexual do que acontece agora. Eu sabia que eu era a fêmea alfa, a tal ponto que mulheres tão bonitas quanto eu me faziam me sentir ameaçada. Quando eu conhecia homens novos, minha primeira atitude era uma troca sugestiva de olhares. Só para estabelecer as regras. Eu não diria que minha auto-estima era realmente alta, mas eu tinha esse pilar no qual me sustentar -- as pessoas gostavam de mim, se atraíam por mim, e eu sempre podia sair por aí e viver um romance.
Ultimamente eu tenho pensado nisso às vezes, como era confortável saber (nem sei julgar, agora, se era verdade) que eu seria desejada, saber que haveriam flertes, jogos de sedução, saber que a pessoa que eu quisesse me quereria de volta e essas coisas todas. Saber que minha presença não seria notada. Uma pessoa pode sobreviver à base desse conhecimento. Mas eu meio que abri mão disso quando eu decidi deixar pra trás a cisheterossexualidade, e foi uma renúncia mais ou menos consciente. Em boa parte eu cansei da auto-enganação de que bastaria tentar quando eu não tentaria, e talvez uma parte tenha sido a frustração com os homens gays, as mulheres heteras, as mulheres gays, e os homens monogâmicos. Mas uma parte maior foi simplesmente conseguir mudar o foco da minha identidade, da sexualidade para outras coisas mais relevantes, como posicionamento político. De repente eu não preciso mais participar de atividades sexuais ousadas pra ter orgulho de mim. De repente ser a fêmea alfa não é mais importante nem suficiente. E daí se alguns homens heterossexuais se interessaram por mim? Você não tem nada melhor em que basear a sua auto-estima?
Esses questionamentos me levaram a fazer uma pequena análise crítica dessa história toda, e eu me percebi contando a seguinte história:
A história começa com eu sendo uma guriazinha virgem de uns quatro anos. Desde pequena eu tinha uma determinação ferrenha que eu só fui entender anos depois quando minha mãe me explicou, sabe. Eu me achava um lixo na maior parte do tempo, mas a minha culpa por não ser a filha, aluna, pessoa que eu deveria ser não era grande o suficiente pra afogar as coisas que realmente importavam. Eu tinha uma missão. Não tem como desmoralizar uma pessoa que tem uma missão, especialmente se você nem sabe disso. Em algum momento da vida eu tive certeza de que eu ia ganhar o Nobel da literatura quando eu cumprisse minha missão. Eu tinha uma atitude meio vingativa, de que eu ia voltar com meus livros publicados e mostrar como toda a minha inadequação social tinha um Propósito. É claro que, naquela época bizarra e mutante da vida entre os sete e os quatorze anos, eu me achava enorme, desengonçada, feia, e que nenhum garoto ia gostar de mim nunca, muito menos aquele que eu admirava. Na real, a parte mais feliz foi dos doze até o fim dos quatorze, quando eu meio que esqueci de me apaixonar por garotos de tão envolvida que eu estava com meus amigos incríveis e as coisas que a gente fazia. Eu lembro de admirar os joguinhos de sedução das pessoas e de me surpreender toda vez que parecia que eu estava em um deles. Acho que se pá eu não me considerava bem humano.
Mas é claro que os hormônios me alcançaram eventualmente; eles me pegaram no final do ginásio e eu tive aquele momento glorioso de me apaixonar (seguidas vezes) e não ter idéia do que fazer a respeito. Tinha alguns meninos apaixonados por mim também, mas acho que isso não fazia muita diferença pra mim. Só que, embora eu não acreditasse nisso, eu já era uma menina branca magra (embora não tão magra quanto eu fiquei depois) com peitos e bunda e coxas bonitas, e, bom, bonita e legal; acho que eu era exatamente o que os garotos queriam de uma "garota nerd" (embora eu não fosse nerd como a gente imagina hoje em dia). Enfim, o caso é que muito aos pouquinhos isso foi pegando em mim. Isso e o jeito como as pessoas foram me tratando, especialmente depois que eu meio que perdi o contato com esse grupo do ginásio, como uma coisa fofinha e adorável e fácil de se gostar. Isso e estar crescendo e desejando mais do que ser um mascote, e querer ter mais amizades, e conquistar mais pessoas. Em algum momento eu me dei conta de que meus melhores amigos estavam apaixonados por mim. Depois eu namorei com o menino que eu queria mesmo namorar. Eu queria ser foda também na vida sexual, mas aconteceram uns rolos, e eu continuei mais ou menos insegura nessa área, mas depois dessa época eu tive certeza absoluta de que eu era uma pessoa apaixonante. Nessa época eu também decidi abandonar minha missão, e todas as histórias, e viver no mundo real.
Apesar de tudo, eu continuei tendo crises absurdas a respeito do meu corpo até os 21, porque eu achava que eles só me achavam bonita porque eles já estavam apaixonados. Mas aos 21 essa barreira desapareceu e eu resolvi apreciar a vida. Mais ou menos ao mesmo tempo eu mudei de carreira e abandonei boa parte das minhas inseguranças profissionais. Aos poucos eu fui retomando um orgulho de saber fazer alguma coisa, agora somando duas coisas que eu sabia fazer (escrever e programar). Eu resolvi explorar essa idéia de ser sexy e de ser feminina, com grandes efeitos (eu consegui ser feminina sem nunca usar maquiagem, e praticamente sem depilação), inclusive para minha sexualidade. Mas a empolgação de mudar de carreira começou a passar, e muitas vezes eu voltei a pensar coisas como "Bom, eu não tenho muitas habilidades, mas pelo menos as pessoas gostam de mim", mas agora com uma nota mais alta de "Mas pelo menos eu sou a mina mais gata e mais foda de qualquer balada".
Pensando bem, é estranho o quanto a beleza é determinante para uma mulher heterossexual -- eu parei para pensar nisso depois de ler este texto. Minha auto-estima enquanto mulher era dependente de eu ser desejável, e era uma sensação inebriante quando eu era, mas quando eu não me sentia linda, eu era incapaz de sequer conversar com as pessoas direito. Aí no último ano vários eventos me fizeram lutar deliberadamente contra essa corrente. Eu fiz as coisas que eu queria fazer -- furei a orelha, cortei o cabelo, saí de um bocado de armários, e finalmente deixei os pêlos do corpo crescerem até seu tamanho máximo.
Eu tenho me sentido menos sexy, e às vezes ocorre de eu sentir falta disso. Mas eu acho que nunca me senti tão confiante. Não sei se é a idade, se eu só cansei da insegurança, acho mesmo que o número de coisas na lisa de "o que eu sei fazer" está crescendo, e que o meu mêdo das coisas está diminuindo. Eu não me acho bonita com tanta freqüência, e eu tenho essa impressão de que eu devo estar finalmente começando a afastar homens hetero. Eu às vezes me acho bonito; mas também não acho que eu vá atrair mulheres hétero. As pessoas que eu atraio... não quero realmente me perguntar o que as atrai. Na verdade eu não tenho tido vontade de me envolver com muitas pessoas. Eu tenho achado desagradável a idéia de que outras pessoas podem me achar sexy. Simplesmente não é a impressão que eu quero passar.
Às vezes eu saio de casa sem nem me olhar no espelho, sem sutiã, com roupas das quais eu nem gosto tanto. Nos últimos meses tem sido menos estranho não se importar. Acho que estou começando a entender essa coisa masculina de não dar a mínima para a roupa.
Acho que o que eu quero dizer, no final, é que eu tô bem assim, melhor do que eu jamais estive. A vida está boa, eu posso ir em frente. E eu não quero mais ser bonita, porque simplesmente não vale a pena.
Ultimamente tenho pensado com uma certa freqüência naquelas coisas que eu apreciava do tempo (relativamente curto) em que eu me senti plenamente confortável e apropriado como mulher. Aqueles tempos em que eu me vesti de forma totalmente "feminina" e senti prazer nisso, sabe. Aqueles tempos em que eu acreditei que havia algo de mágico, de divino, de sagrado em ser mulher. Tempos muito estranhos.
Pra falar a verdade eu penso pouco nessas coisas; normalmente eu penso mais no mêdo que eu tenho de mudar, de que as mudanças me levem a me afastar de pessoas que eu quero, que sair do armário e arrancar a máscara me desamarre dessa personagem que existe e que é ainda eu, mas não é eu. Eu não quero que meus amigos falem no futuro daquela Eu que eles conheceram e que morreu quando eu nasci. Mas eu normalmente não penso muito nas vantagens intrínsecas dessa antiga Eu, então tenho que aproveitar que estou pensando nisso.
Enfim.
Quando eu me vestia sempre de forma sexy, eu tinha uma confiança ferrenha de que eu era extremamente sexy. Eu era uma pessoa bonita, gostosa, autoconfiante, e eu sabia que eu poderia conquistar qualquer pessoa desde que eu tentasse. Eu fazia muito sexo, muito mais do que eu fazia antes e muito mais do que eu tenho vontade de fazer hoje. O jogo de sedução era a coisa mais empolgante do mundo. Eu me apaixonava o tempo todo também, de uma forma mais sexual do que acontece agora. Eu sabia que eu era a fêmea alfa, a tal ponto que mulheres tão bonitas quanto eu me faziam me sentir ameaçada. Quando eu conhecia homens novos, minha primeira atitude era uma troca sugestiva de olhares. Só para estabelecer as regras. Eu não diria que minha auto-estima era realmente alta, mas eu tinha esse pilar no qual me sustentar -- as pessoas gostavam de mim, se atraíam por mim, e eu sempre podia sair por aí e viver um romance.
Ultimamente eu tenho pensado nisso às vezes, como era confortável saber (nem sei julgar, agora, se era verdade) que eu seria desejada, saber que haveriam flertes, jogos de sedução, saber que a pessoa que eu quisesse me quereria de volta e essas coisas todas. Saber que minha presença não seria notada. Uma pessoa pode sobreviver à base desse conhecimento. Mas eu meio que abri mão disso quando eu decidi deixar pra trás a cisheterossexualidade, e foi uma renúncia mais ou menos consciente. Em boa parte eu cansei da auto-enganação de que bastaria tentar quando eu não tentaria, e talvez uma parte tenha sido a frustração com os homens gays, as mulheres heteras, as mulheres gays, e os homens monogâmicos. Mas uma parte maior foi simplesmente conseguir mudar o foco da minha identidade, da sexualidade para outras coisas mais relevantes, como posicionamento político. De repente eu não preciso mais participar de atividades sexuais ousadas pra ter orgulho de mim. De repente ser a fêmea alfa não é mais importante nem suficiente. E daí se alguns homens heterossexuais se interessaram por mim? Você não tem nada melhor em que basear a sua auto-estima?
Esses questionamentos me levaram a fazer uma pequena análise crítica dessa história toda, e eu me percebi contando a seguinte história:
A história começa com eu sendo uma guriazinha virgem de uns quatro anos. Desde pequena eu tinha uma determinação ferrenha que eu só fui entender anos depois quando minha mãe me explicou, sabe. Eu me achava um lixo na maior parte do tempo, mas a minha culpa por não ser a filha, aluna, pessoa que eu deveria ser não era grande o suficiente pra afogar as coisas que realmente importavam. Eu tinha uma missão. Não tem como desmoralizar uma pessoa que tem uma missão, especialmente se você nem sabe disso. Em algum momento da vida eu tive certeza de que eu ia ganhar o Nobel da literatura quando eu cumprisse minha missão. Eu tinha uma atitude meio vingativa, de que eu ia voltar com meus livros publicados e mostrar como toda a minha inadequação social tinha um Propósito. É claro que, naquela época bizarra e mutante da vida entre os sete e os quatorze anos, eu me achava enorme, desengonçada, feia, e que nenhum garoto ia gostar de mim nunca, muito menos aquele que eu admirava. Na real, a parte mais feliz foi dos doze até o fim dos quatorze, quando eu meio que esqueci de me apaixonar por garotos de tão envolvida que eu estava com meus amigos incríveis e as coisas que a gente fazia. Eu lembro de admirar os joguinhos de sedução das pessoas e de me surpreender toda vez que parecia que eu estava em um deles. Acho que se pá eu não me considerava bem humano.
Mas é claro que os hormônios me alcançaram eventualmente; eles me pegaram no final do ginásio e eu tive aquele momento glorioso de me apaixonar (seguidas vezes) e não ter idéia do que fazer a respeito. Tinha alguns meninos apaixonados por mim também, mas acho que isso não fazia muita diferença pra mim. Só que, embora eu não acreditasse nisso, eu já era uma menina branca magra (embora não tão magra quanto eu fiquei depois) com peitos e bunda e coxas bonitas, e, bom, bonita e legal; acho que eu era exatamente o que os garotos queriam de uma "garota nerd" (embora eu não fosse nerd como a gente imagina hoje em dia). Enfim, o caso é que muito aos pouquinhos isso foi pegando em mim. Isso e o jeito como as pessoas foram me tratando, especialmente depois que eu meio que perdi o contato com esse grupo do ginásio, como uma coisa fofinha e adorável e fácil de se gostar. Isso e estar crescendo e desejando mais do que ser um mascote, e querer ter mais amizades, e conquistar mais pessoas. Em algum momento eu me dei conta de que meus melhores amigos estavam apaixonados por mim. Depois eu namorei com o menino que eu queria mesmo namorar. Eu queria ser foda também na vida sexual, mas aconteceram uns rolos, e eu continuei mais ou menos insegura nessa área, mas depois dessa época eu tive certeza absoluta de que eu era uma pessoa apaixonante. Nessa época eu também decidi abandonar minha missão, e todas as histórias, e viver no mundo real.
Apesar de tudo, eu continuei tendo crises absurdas a respeito do meu corpo até os 21, porque eu achava que eles só me achavam bonita porque eles já estavam apaixonados. Mas aos 21 essa barreira desapareceu e eu resolvi apreciar a vida. Mais ou menos ao mesmo tempo eu mudei de carreira e abandonei boa parte das minhas inseguranças profissionais. Aos poucos eu fui retomando um orgulho de saber fazer alguma coisa, agora somando duas coisas que eu sabia fazer (escrever e programar). Eu resolvi explorar essa idéia de ser sexy e de ser feminina, com grandes efeitos (eu consegui ser feminina sem nunca usar maquiagem, e praticamente sem depilação), inclusive para minha sexualidade. Mas a empolgação de mudar de carreira começou a passar, e muitas vezes eu voltei a pensar coisas como "Bom, eu não tenho muitas habilidades, mas pelo menos as pessoas gostam de mim", mas agora com uma nota mais alta de "Mas pelo menos eu sou a mina mais gata e mais foda de qualquer balada".
Pensando bem, é estranho o quanto a beleza é determinante para uma mulher heterossexual -- eu parei para pensar nisso depois de ler este texto. Minha auto-estima enquanto mulher era dependente de eu ser desejável, e era uma sensação inebriante quando eu era, mas quando eu não me sentia linda, eu era incapaz de sequer conversar com as pessoas direito. Aí no último ano vários eventos me fizeram lutar deliberadamente contra essa corrente. Eu fiz as coisas que eu queria fazer -- furei a orelha, cortei o cabelo, saí de um bocado de armários, e finalmente deixei os pêlos do corpo crescerem até seu tamanho máximo.
Eu tenho me sentido menos sexy, e às vezes ocorre de eu sentir falta disso. Mas eu acho que nunca me senti tão confiante. Não sei se é a idade, se eu só cansei da insegurança, acho mesmo que o número de coisas na lisa de "o que eu sei fazer" está crescendo, e que o meu mêdo das coisas está diminuindo. Eu não me acho bonita com tanta freqüência, e eu tenho essa impressão de que eu devo estar finalmente começando a afastar homens hetero. Eu às vezes me acho bonito; mas também não acho que eu vá atrair mulheres hétero. As pessoas que eu atraio... não quero realmente me perguntar o que as atrai. Na verdade eu não tenho tido vontade de me envolver com muitas pessoas. Eu tenho achado desagradável a idéia de que outras pessoas podem me achar sexy. Simplesmente não é a impressão que eu quero passar.
Às vezes eu saio de casa sem nem me olhar no espelho, sem sutiã, com roupas das quais eu nem gosto tanto. Nos últimos meses tem sido menos estranho não se importar. Acho que estou começando a entender essa coisa masculina de não dar a mínima para a roupa.
Acho que o que eu quero dizer, no final, é que eu tô bem assim, melhor do que eu jamais estive. A vida está boa, eu posso ir em frente. E eu não quero mais ser bonita, porque simplesmente não vale a pena.
segunda-feira, 12 de agosto de 2013
Gênero existe.
Estou chegando à conclusão de que o problema do feminismo radical transnegativo com o transfeminismo e a transgeneridade em geral é que o radfe acredita que gênero não existe, que gênero é uma criação cultural do patriarcado, a serviço do patriarcado. E como explicar a existência de pessoas que sabem, para si mesmas, que são de um ou outro gênero, a despeito do que lhe impuseram desde nascência, se gênero é apenas um fenômeno social? Dizer que gênero não existe é como dizer que orientação sexual não existe, que uma pessoa não-hétero nasce hétero como todo mundo e decide se tornar gay ou bi. É claro que o feminismo radical não deve estar realmente preocupado com questões de sexualidade, afinal, pessoas não-heterossexuais não constituem um grupo sistemáticamente oprimido e explorado em prol do Patriarcado, não?
Exceto que esse argumento soa realmente estúpido quando lembramos que garotos gays e meninas trans freqüentemente são marginalizadxs por sua identidade e sexualidade e exploradxs sexualmente, ou se tornam proffisionais do sexo de várias formas. Não é à tôa que a palavra "travesti" na linguagem corrente significa um tipo de prostituta.
Eu não acho que dá pra negar que gênero existe. E mesmo que ele seja um fenômeno fundamentalmente social e que interage com as construções sociais de diversas formas, isso não significa que ele possa ser reduzido a "uma imposição do patriarcado". Gênero não é apenas a forma como uma pessoa é criada e tratada como criança, mas também a forma como ela se reconhece em relação a esse tratamento. Gênero interage com sexualidade, com etnia, com credo, com identidade de gênero. Gênero parece uma opressão para a mulher cis a quem o gênero que lhe foi imposto é a sua principal forma de opressão, especialmente para a mulher cis branca de classe média e alta saudável para quem seu gênero é a única forma sistematizada de opressão, mas a opressão está no papel de gênero, nas imposições de gênero, não no gênero em si -- tanto que mesmo as feministas abolicionistas de gênero nunca pretenderam deixar de se considerar mulheres.
Às vezes eu sinto que seria uma traição ao feminismo deixar de me considerar mulher, e eu me pergunto se esse sentimento não é responsável por uma anulação completa das identidades trans-masculinas dentro do feminismo -- um sentimento de traição, pois uma "mulher" (chamada mulher pelo patriarcado, segundo as radfems) se nega a se considerar mulher então ela está abandonando o campo de batalha feminista. Como uma negra que deixasse de se considerar negra. Mas como dizer a um homem trans que ele não é um homem, quando é isso que ele sente dentro de si? Como dizer a um homem trans que independente de como ele se apresenta para o mundo, ele não é um homem porque se chamar de homem seria se apropriar da terminologia patriarcal -- porque permitir a ele se chamar de homem seria admitir que somos mulheres não apenas porque a mulheridade nos foi imposta pelo patriarcado, mas também porque conseguimos nos identificar com outras mulheres, e porque conseguimos viver entre mulheres sem nos sentir alienígenas, e porque nos sentimos, em algum sentido, mulheres. Aceitar a transgeneridade requer que se aceite o gênero, ou que se questione a própria identidade de gênero. Talvez o feminismo seja suficiente para definir sua identidade de gênero, talvez você defina seu gênero como "butch", mas certamente sua identidade pessoal está atrelada ao seu gênero, e se você consegue se considerar mulher e aceitar a segregação entre homens e mulheres se colocando no lado mulher, então você já está numa posição privilegiada em relação a um homem trans que possivelmente vai se sentir dividido entre poder ser homem e poder ser feminista (ainda bem que o transfeminismo existe).
O argumento do privilégio da criação masculina, que supostamente faz das mulheres trans homens, é ainda mais absurdo porque primeiro considera que meninas trans são capazes de atender às expectativas básicas de gênero masculino, quer dizer, passar como homens, e que conseguem internalizar as características da criação masculina que lhes darão vantagens na vida adulta, e segundo porque não considera que a mulher trans é uma mulher e que não recebe, ao se posicionar socialmente como mulher, nenhum dos privilégios masculinos.
E paro por aqui porque meus próximos argumentos seriam para combater imbecilidades e ignorâncias.
Exceto que esse argumento soa realmente estúpido quando lembramos que garotos gays e meninas trans freqüentemente são marginalizadxs por sua identidade e sexualidade e exploradxs sexualmente, ou se tornam proffisionais do sexo de várias formas. Não é à tôa que a palavra "travesti" na linguagem corrente significa um tipo de prostituta.
Eu não acho que dá pra negar que gênero existe. E mesmo que ele seja um fenômeno fundamentalmente social e que interage com as construções sociais de diversas formas, isso não significa que ele possa ser reduzido a "uma imposição do patriarcado". Gênero não é apenas a forma como uma pessoa é criada e tratada como criança, mas também a forma como ela se reconhece em relação a esse tratamento. Gênero interage com sexualidade, com etnia, com credo, com identidade de gênero. Gênero parece uma opressão para a mulher cis a quem o gênero que lhe foi imposto é a sua principal forma de opressão, especialmente para a mulher cis branca de classe média e alta saudável para quem seu gênero é a única forma sistematizada de opressão, mas a opressão está no papel de gênero, nas imposições de gênero, não no gênero em si -- tanto que mesmo as feministas abolicionistas de gênero nunca pretenderam deixar de se considerar mulheres.
Às vezes eu sinto que seria uma traição ao feminismo deixar de me considerar mulher, e eu me pergunto se esse sentimento não é responsável por uma anulação completa das identidades trans-masculinas dentro do feminismo -- um sentimento de traição, pois uma "mulher" (chamada mulher pelo patriarcado, segundo as radfems) se nega a se considerar mulher então ela está abandonando o campo de batalha feminista. Como uma negra que deixasse de se considerar negra. Mas como dizer a um homem trans que ele não é um homem, quando é isso que ele sente dentro de si? Como dizer a um homem trans que independente de como ele se apresenta para o mundo, ele não é um homem porque se chamar de homem seria se apropriar da terminologia patriarcal -- porque permitir a ele se chamar de homem seria admitir que somos mulheres não apenas porque a mulheridade nos foi imposta pelo patriarcado, mas também porque conseguimos nos identificar com outras mulheres, e porque conseguimos viver entre mulheres sem nos sentir alienígenas, e porque nos sentimos, em algum sentido, mulheres. Aceitar a transgeneridade requer que se aceite o gênero, ou que se questione a própria identidade de gênero. Talvez o feminismo seja suficiente para definir sua identidade de gênero, talvez você defina seu gênero como "butch", mas certamente sua identidade pessoal está atrelada ao seu gênero, e se você consegue se considerar mulher e aceitar a segregação entre homens e mulheres se colocando no lado mulher, então você já está numa posição privilegiada em relação a um homem trans que possivelmente vai se sentir dividido entre poder ser homem e poder ser feminista (ainda bem que o transfeminismo existe).
O argumento do privilégio da criação masculina, que supostamente faz das mulheres trans homens, é ainda mais absurdo porque primeiro considera que meninas trans são capazes de atender às expectativas básicas de gênero masculino, quer dizer, passar como homens, e que conseguem internalizar as características da criação masculina que lhes darão vantagens na vida adulta, e segundo porque não considera que a mulher trans é uma mulher e que não recebe, ao se posicionar socialmente como mulher, nenhum dos privilégios masculinos.
E paro por aqui porque meus próximos argumentos seriam para combater imbecilidades e ignorâncias.
quinta-feira, 8 de agosto de 2013
Sacrifíco Animal (post no facebook)
Esses dias eu estava pensando sobre sacrifício animal, por causa da discussão a respeito de macumba, cabeça de bode, tourada. Assim até fica parecendo que nossa sociedade considera um absurdo imperdoável matar animais inocentes. É claro que isso não é verdade. Consideramos (bem, vocês, eles, consideram) perfeitamente aceitável matar animais em muitos casos.
Acham perfeitamente normal matar porco, frango, boi, veado, alce, camarão, peixe, tubarão, carangueijo, e muitos outros tipos de bicho, com métodos que às vezes são dolorosos, para que possam comer uma parte de seus corpos. Inclusive comem alguns animais ainda meio vivos.
Aliás come-se peru assassinado no Natal, mata-se o peru, jogam-se fora os pedaços menos apetitosos do corpo dele e come-se algumas partes da carne. Esse tipo de ritual pode, deve, é amplamente aceito por todos. Usa-se o discurso de que "pode porque é de comer", mas vamos lembrar de toda a carne que já jogamos fora na vida, de toda a carne que apodrece no supermercado, que apodrece no caminho, que não é comprada porque o preço da carne não é baixo o suficiente, nós sabemos que isso existe e muito.
É engraçado como pessoas que comem carne de boi, porco e frango, que acham normal matar rato e gambá, e que vão pra Europa comer carne de veado, às vezes ficam horrorizadas quando vêm alguém comendo coelho ou cachorro ou algum bicho que eles acham bonitinho. Enquanto isso muitos veganos vêm a mesma cena e dão de ombros. Estamos acostumados a sentir aflição ao ver animais sendo mortos por motivos que consideramos absurdos. Hoje mesmo apareceu na minha timeline uma foto de ratinhos mortos, falando de um novo método "ecológico" de matar ratinhos. Eu não quero ver foto de bicho fofo morto, entendeu?
Vocês acham que é certo e necessário, e matam com as próprias mãos ou com venenos de todo tipo barata, rato, gambá, guaxinim, morcego, pombo, abelha, vespa, marimbondo, lesma, caracol, mariposa e qualquer outro animal que cometa o crime hediondo de fazer um ninho nas paredes de um prédio habitado por humanos, ou na terra abaixo dele, ou no terreno ao lado, ou dentro dele, e que ouse mostrar sua cara!
Acham normal matar animais o tempo todo por mil razões diferentes.
Acham normal matar, com venenos que afetam todas as formas de vida do lugar, animais que querem comer as plantas que produzimos para nos alimentar, ou para nos dar prazer, ou para alimentar nossos animais, ou para qualquer outro fim.
Acham necessário e piedoso matar animais domésticos e mesmo de estimação se constraírem alguma doença contagiosa perigosa, ou alguma doença terminal, ou se cometerem alguma violência contra humanos. No caso de animais rurais, uma pata quebrada já é às vezes suficiente para que sejam "sacrificados".
Acham normal e inevitável matar diversos animais para treinamento e pesquisa em diversas áreas, especialmente na área de saúde.
Acham aceitável matar TODAS as espécies de seres vivos (animais, plantas, fungos, microoosganismos, etc) indiscriminadamente para fazer represas para gerar energia para a indústria, ou para abrir espaço para pastos e plantações de monocultura, ou para o cultivo de madeira, ou para a instalação de indústrias, ou para a construção de moradia, ou para a construção de portos ou estradas, por outra razão qualquer que pareça importante na hora para quem pode tomar essa decisão.
Matam com armadilhas e armas de fogo raposas, lobos, onças, jacarés, tubarões e outros animais considerados "maus" e "perigosos", mesmo enquanto entidades ambientalistas tentam proteger estes animais da extinção (matam estes animais de forma não muito diferente da que mata-se índios, aliás, e por motivos semelhantes também).
E aí, dado tudo isso, eu acho muito suspeito que venham me falar em resgatar galinhas de macumba. Não que eu queira que galinhas morram, mas porque estamos atacando esse ritual de fundo de quintal, esse ritual de religião invisível afro-brasileira, e não os massacres que estão acontecendo agora mesmo, de milhões de espécies nativas, muitas vezes apenas para nosso prazer e conforto e lucro do capital?
Acham perfeitamente normal matar porco, frango, boi, veado, alce, camarão, peixe, tubarão, carangueijo, e muitos outros tipos de bicho, com métodos que às vezes são dolorosos, para que possam comer uma parte de seus corpos. Inclusive comem alguns animais ainda meio vivos.
Aliás come-se peru assassinado no Natal, mata-se o peru, jogam-se fora os pedaços menos apetitosos do corpo dele e come-se algumas partes da carne. Esse tipo de ritual pode, deve, é amplamente aceito por todos. Usa-se o discurso de que "pode porque é de comer", mas vamos lembrar de toda a carne que já jogamos fora na vida, de toda a carne que apodrece no supermercado, que apodrece no caminho, que não é comprada porque o preço da carne não é baixo o suficiente, nós sabemos que isso existe e muito.
É engraçado como pessoas que comem carne de boi, porco e frango, que acham normal matar rato e gambá, e que vão pra Europa comer carne de veado, às vezes ficam horrorizadas quando vêm alguém comendo coelho ou cachorro ou algum bicho que eles acham bonitinho. Enquanto isso muitos veganos vêm a mesma cena e dão de ombros. Estamos acostumados a sentir aflição ao ver animais sendo mortos por motivos que consideramos absurdos. Hoje mesmo apareceu na minha timeline uma foto de ratinhos mortos, falando de um novo método "ecológico" de matar ratinhos. Eu não quero ver foto de bicho fofo morto, entendeu?
Vocês acham que é certo e necessário, e matam com as próprias mãos ou com venenos de todo tipo barata, rato, gambá, guaxinim, morcego, pombo, abelha, vespa, marimbondo, lesma, caracol, mariposa e qualquer outro animal que cometa o crime hediondo de fazer um ninho nas paredes de um prédio habitado por humanos, ou na terra abaixo dele, ou no terreno ao lado, ou dentro dele, e que ouse mostrar sua cara!
Acham normal matar animais o tempo todo por mil razões diferentes.
Acham normal matar, com venenos que afetam todas as formas de vida do lugar, animais que querem comer as plantas que produzimos para nos alimentar, ou para nos dar prazer, ou para alimentar nossos animais, ou para qualquer outro fim.
Acham necessário e piedoso matar animais domésticos e mesmo de estimação se constraírem alguma doença contagiosa perigosa, ou alguma doença terminal, ou se cometerem alguma violência contra humanos. No caso de animais rurais, uma pata quebrada já é às vezes suficiente para que sejam "sacrificados".
Acham normal e inevitável matar diversos animais para treinamento e pesquisa em diversas áreas, especialmente na área de saúde.
Acham aceitável matar TODAS as espécies de seres vivos (animais, plantas, fungos, microoosganismos, etc) indiscriminadamente para fazer represas para gerar energia para a indústria, ou para abrir espaço para pastos e plantações de monocultura, ou para o cultivo de madeira, ou para a instalação de indústrias, ou para a construção de moradia, ou para a construção de portos ou estradas, por outra razão qualquer que pareça importante na hora para quem pode tomar essa decisão.
Matam com armadilhas e armas de fogo raposas, lobos, onças, jacarés, tubarões e outros animais considerados "maus" e "perigosos", mesmo enquanto entidades ambientalistas tentam proteger estes animais da extinção (matam estes animais de forma não muito diferente da que mata-se índios, aliás, e por motivos semelhantes também).
E aí, dado tudo isso, eu acho muito suspeito que venham me falar em resgatar galinhas de macumba. Não que eu queira que galinhas morram, mas porque estamos atacando esse ritual de fundo de quintal, esse ritual de religião invisível afro-brasileira, e não os massacres que estão acontecendo agora mesmo, de milhões de espécies nativas, muitas vezes apenas para nosso prazer e conforto e lucro do capital?
terça-feira, 9 de julho de 2013
Monogamia/Mononormatividade e nóis com isso.
Ontem participei de uma primeira roda de discussão que se propunha a ser a respeito de "não-monogamia" (se isso se concretizou ou não é outra discussão). Sinto, pessoalmente, que a discussão foi particularmente pouco organizada e confusa, de forma que nós não tínhamos controle a respeito de que assuntos nós abordaríamos ou não, e que nós falhamos no objetivo basal de entender os problemas que nós enfrentamos e de estabelecer uma comunicação entre nós, os não-monogâmicos, que pudesse levar à criação de um vocabulário comum, à união política ou a qualquer coisa mais que uma confraternização intelectual e troca de contatos --- não que essas coisas não sejam de grande importância. Eu decidi escrever este texto antes da próxima roda de discussão com o intuito de começar uma discussão formal, teórica, organizada. O mais importante deste texto provavelmente não serão as respostas e explicações que darei, mas as perguntas que sucitarão essas respostas. Sintam-se tods livres para oferecer suas próprias respostas.
P: Quem nós somos?
Nós somos pessoas que desejam ter experiências sexuais ou afetivas, mas que não querem viver relacionamentos monogâmicos. Eu irei me referir a nós como não-monogâmicos.
Existem vários termos associados à não-monogamia: relacionamentos abertos, amor livre, poliamor, poliafeto, relações livres, etc.. Porém, me parece que atualmente não há nenhum termo que agrade a todas as pessoas não-monogâmicas. Não vejo isso como um grande problema -- também não há um nome único para o movimento que atualmente se denomina "LGBTQ+", e nao acho que isso enfraqueça o movimento. O que acho é que somos muito diversos em experiências e reivindicações, e que devemos fazer um esforço consciente de nos unirmos apesar dessas diferenças. Por exemplo, existem pessoas entre nós que gostariam de se casar com uma ou mais pessoas, enquanto outros entre nós rejeitam completamente o conceito de casamento. Eu particularmente não acho que esse seja um bom motivo para uma cisão.
P: O que é monogamia?
Monogamia é uma característica de certas relações afetivas ou sexuais entre duas pessoas. Uma relação é monogâmica quando ambas as pessoas se comprometem a não se envolver romanticamente ou sexualmente com outras pessoas que não seu par monogâmico. Ou seja, existem aspectos da relação entre essas duas pessoas, aspectos emocionais e sexuais, que são exclusivos àquela relação. Em geral numa relação monogâmica os aspectos exclusivos mais importante são "se apaixonar" e "fazer sexo", sendo que é uma traição gravíssima se envolver dessas formas com outras pessoas.
Na verdade, relacionamentos monogâmicos são bastante diversos entre si, de acordo com o que as pessoas envolvidas encaram como "romântico" e "sexual" no próprio comportamento e no de seu par monogâmico, das razões pessoais pelas quais essas pessoas são monogâmicas e principalmente, a meu ver, da quantidade de ciúmes que as pessoas sentem.
P: Nós somos contra a monogamia?
Eu jamais apontaria para um outro casal e diria "você não pode ser monogâmico!", e imagino que a maior parte de nós não faria isso. Porém, acho que alguns de nós acreditam que relações monogâmicas são ruins em si, mesmo para as pessoas que escolhem deliberadamente se envolver nelas. Eu discordo dessa postura. Embora tenhamos críticas à construção social da monogamia e à mononormatividade, não acho que podemos julgar as razões pessoais pelas quais as pessoas escolhem a monogamia.
O argumento principal contra a monogamia é que ela é uma regra e uma imposição sobre outra pessoa, e que se a exclusividade é de fato feita por amor, ela não precisaria ser imposta como uma regra. Entretanto, muitos de nós vivem em relacionamentos que possuem regras, e eu acredito que essas regras são importantes para o relacionamento funcionar. Não cabe a mim aprovar ou desaprovar as regras escolhidas por outras pessoas para seus próprios relacionamentos.
Porém, me parece que na maior parte das relações monogâmicas, devido a uma idéia mononormativa de como funcionam as pessoas, exige-se uma "monogamia de sentimentos", quer dizer, a pessoa está proibida não apenas de se relacionar com outras, mas também de se interessar por elas, ou mesmo de olhar para elas. Esse tipo maluco de monogamia leva, a meu ver, inevitavelmente, ou a acessos de culpa e auto-flagelação, ou a mentiras e segredos entre o casal.
P: Por que as pessoas são monogâmicas?
É óbvio para a maior parte de nós que, em primeiro lugar, grande parte das pessoas é apenas "socialmente monogâmica", no sentido de que "traem" seus parceiros, e em segundo lugar, quase todas as pessoas são monogâmicas apenas porque é essa é a norma social (falarei do conceito de mononormatividade em seguida). Além disso, uma parte grande das pessoas opta por não ser monogâmica simplesmente se mantendo "solteira".
Por outro lado, quando confrontadas com pessoas não-monogâmicas, as pessoas monogâmicas quase sempre procuram justificar porque elas, pessoalmente, preferem viver em monogamia.
A bem da verdade, a maior parte dessas explicações soam absurdas e até mesmo ofensivas para nós --- por exemplo "sou monogâmicx porque quero amor de verdade" ou porque "se o relacionamento está bom e cheio de amor, a pessoa não precisa de mais ninguém". A conclusão é que essas pessoas "escolheram" ser monogâmicas por completa ignorância do que significa não ser monogâmico.
Outras pessoas dão explicações mais razoáveis. Algumas pessoas entram em relações monogâmicas apenas porque su parceire é monogâmicx e ela realmente não considera a monogamia um sacrifício. Outras pessoas sentem que a exclusividade torna seus momentos íntimos mais especiais. Muitas pessoas simplesmente não acreditam que uma relação não-monogâmica possa dar certo (o que eu também atribuo à nossa invisibilidade e à ignorância geral).
E, é claro, muitas pessoas são monogâmicas porque são extremamente ciumentas. A meu ver, o ciúmes é uma exacerbação de insegurança e mêdo que nada têm a ver com a outra pessoa, mas que são projetados na outra pessoa, como se ela fosse responsável pela sua insegurança. O ciúmes é um sentimento negativo e danoso para o relacionamento, e eu acho que qualquer pessoa ciumenta deveria se esforçar para resolver esse problema. A glorificação do ciúmes, na minha opinião, é a forma mais absurda e torpe de mononormatividade, porque se glorifica uma atitude de controle sobre a vida do outro. Além disso, algumas pessoas são monogâmicas porque elas sabem que é socialmente inaceitável não ter ciúmes e não exigir a "fidelidade" de su parceire, e assim essas pessoas exercem controle sobre a vida de parceire por pressão social.
P: O que é "mononormatividade"?
Eu imagino que essa palavra tenha surgido como uma referência à "heteronormatividade". Veja, a heteronormatividade é a norma que favorece casais cis heterossexuais. Casais cis heterossexuais podem se casar, não têm mêdo de sair em público, são representados em histórias, em todas as mídias, e de modo geral se espera que uma pessoa seja cis heterossexual desde o momento em que ela nasce. Ser cis heterossexual implica em uma série interminável de vantagens sociais, jurídicas e econômicas, especialmente para pessoas casadas. Da mesma forma, ser monogâmico implica em uma série parecida de vantagens em oposição a ser não-monogâmico. Em primeiro lugar, o casamento oferece muitas vantagens, e essas vantagens apenas estão disponíveis para pessoas monogâmicas. Além disso, trocar carícias com mais de uma pessoa em público é considerado uma "depravação", mais ou menos da mesma forma que o é trocar carícias com uma pessoa do mesmo sexo. A não-monogamia é retratada em histórias, mas quase sempre como uma situação de conflito, traição, instabilidade.
A mononormatividade também é expressa nas opiniões ignorantes da maior parte das pessoas a respeito de nós, quando as pessoas acreditam que apenas na monogamia existe amor, e que apenas a monogamia é uma forma correta e pura de se relacionar; e também na ignorância das pessoas em relação a seus próprios relacionamentos uma vez que, acreditando que uma pessoa não deve ser capaz de se interessar por mais outra, assume-se que quando um membro do casal se sente atraído por outra pessoa a relação está comprometida. E quando duas pessoas começam a se relacionar, elas quase sempre assumem que a outra é monogâmica. Mais grave ainda, a mononormatividade glorifica atitudes de imposição da monogamia e de controle da vida alheia, glorifica o ciúmes e justifica inclusive a agressão física (até mesmo assassinato) da pessoa que incorre em "traição" (muitas vezes mesmo que a suposta "traição" tenha ocorrido depois do término da relação). Finalmente, a mononormatividade condena todas as pessoas não-monogâmicas (exceto talvez homens cis heterossexuais), chamando-as de "vadias", e esse rótulo é muitas vezes usado para justificar agressões e crimes cometidos contra essas pessoas, apenas porque seu "valor como pessoa" é considerado menor do que o de uma pessoa monogâmica.
Evidentemente, a mononormatividade está intrinsecamente ligada à heteronormatividade e de modo geral ao machismo, de modo que ela é especialmente cruel com mulheres, cis ou trans, pessoas trans* de modo geral e gays/bis. De fato, muitas vezes é aceito e até esperado que homens cis heterossexuais se comportem pessoalmente de forma não-monogâmica. Mas vamos falar de machismo em outro tópico.
P: Por que nós dizemos que "somos" não-mono/poli/rli/etc?
Essencialmente, é porque nós não queremos, não conseguimos, não aturamos, não suportamos viver em situações de monogamia. A monogamia é opressora para nós. Nossas opções de como viver experiências afetivas e sexuais fazem parte da nossa identidade, da mesma forma que orientações sexuais.
Existem outras pessoas que consideramos que "são" monogâmicas, porque elas só aceitam relacionamentos monogâmicos. Existem também pessoas que aceitam ambos e que não "são" nem uma coisa nem outra.
P: Por que nossa movimentação é política e não apenas pessoal?
Porque nós vivemos num mundo que ora acredita que nós não existimos, ora que estamos fadados à infelicidade, ora que somos depravads e vadias. Porque se ficarmos calados e separados, não poderemos mudar esta situação. Porque o pessoal é político.
P: É um problema nossa movimentação ser contra alguma coisa em vez de a favor de algo?
Claro que não! Nós somos a favor do direito de viver com os mesmos privilégios que o resto da sociedade, mas nosso grupo provavelmente não existiria se não houvesse uma imposição social opressiva que nos exclui. Da mesma forma que o feminismo é contra o machismo e a misoginia e o movimento LGBTQ+ é contra (o machismo e) a homofobia e a heteronormatividade, nós também nos unimos contra algo que nos oprime. É tipo a ordem natural das coisas.:wq
P: Quem nós somos?
Nós somos pessoas que desejam ter experiências sexuais ou afetivas, mas que não querem viver relacionamentos monogâmicos. Eu irei me referir a nós como não-monogâmicos.
Existem vários termos associados à não-monogamia: relacionamentos abertos, amor livre, poliamor, poliafeto, relações livres, etc.. Porém, me parece que atualmente não há nenhum termo que agrade a todas as pessoas não-monogâmicas. Não vejo isso como um grande problema -- também não há um nome único para o movimento que atualmente se denomina "LGBTQ+", e nao acho que isso enfraqueça o movimento. O que acho é que somos muito diversos em experiências e reivindicações, e que devemos fazer um esforço consciente de nos unirmos apesar dessas diferenças. Por exemplo, existem pessoas entre nós que gostariam de se casar com uma ou mais pessoas, enquanto outros entre nós rejeitam completamente o conceito de casamento. Eu particularmente não acho que esse seja um bom motivo para uma cisão.
P: O que é monogamia?
Monogamia é uma característica de certas relações afetivas ou sexuais entre duas pessoas. Uma relação é monogâmica quando ambas as pessoas se comprometem a não se envolver romanticamente ou sexualmente com outras pessoas que não seu par monogâmico. Ou seja, existem aspectos da relação entre essas duas pessoas, aspectos emocionais e sexuais, que são exclusivos àquela relação. Em geral numa relação monogâmica os aspectos exclusivos mais importante são "se apaixonar" e "fazer sexo", sendo que é uma traição gravíssima se envolver dessas formas com outras pessoas.
Na verdade, relacionamentos monogâmicos são bastante diversos entre si, de acordo com o que as pessoas envolvidas encaram como "romântico" e "sexual" no próprio comportamento e no de seu par monogâmico, das razões pessoais pelas quais essas pessoas são monogâmicas e principalmente, a meu ver, da quantidade de ciúmes que as pessoas sentem.
P: Nós somos contra a monogamia?
Eu jamais apontaria para um outro casal e diria "você não pode ser monogâmico!", e imagino que a maior parte de nós não faria isso. Porém, acho que alguns de nós acreditam que relações monogâmicas são ruins em si, mesmo para as pessoas que escolhem deliberadamente se envolver nelas. Eu discordo dessa postura. Embora tenhamos críticas à construção social da monogamia e à mononormatividade, não acho que podemos julgar as razões pessoais pelas quais as pessoas escolhem a monogamia.
O argumento principal contra a monogamia é que ela é uma regra e uma imposição sobre outra pessoa, e que se a exclusividade é de fato feita por amor, ela não precisaria ser imposta como uma regra. Entretanto, muitos de nós vivem em relacionamentos que possuem regras, e eu acredito que essas regras são importantes para o relacionamento funcionar. Não cabe a mim aprovar ou desaprovar as regras escolhidas por outras pessoas para seus próprios relacionamentos.
Porém, me parece que na maior parte das relações monogâmicas, devido a uma idéia mononormativa de como funcionam as pessoas, exige-se uma "monogamia de sentimentos", quer dizer, a pessoa está proibida não apenas de se relacionar com outras, mas também de se interessar por elas, ou mesmo de olhar para elas. Esse tipo maluco de monogamia leva, a meu ver, inevitavelmente, ou a acessos de culpa e auto-flagelação, ou a mentiras e segredos entre o casal.
P: Por que as pessoas são monogâmicas?
É óbvio para a maior parte de nós que, em primeiro lugar, grande parte das pessoas é apenas "socialmente monogâmica", no sentido de que "traem" seus parceiros, e em segundo lugar, quase todas as pessoas são monogâmicas apenas porque é essa é a norma social (falarei do conceito de mononormatividade em seguida). Além disso, uma parte grande das pessoas opta por não ser monogâmica simplesmente se mantendo "solteira".
Por outro lado, quando confrontadas com pessoas não-monogâmicas, as pessoas monogâmicas quase sempre procuram justificar porque elas, pessoalmente, preferem viver em monogamia.
A bem da verdade, a maior parte dessas explicações soam absurdas e até mesmo ofensivas para nós --- por exemplo "sou monogâmicx porque quero amor de verdade" ou porque "se o relacionamento está bom e cheio de amor, a pessoa não precisa de mais ninguém". A conclusão é que essas pessoas "escolheram" ser monogâmicas por completa ignorância do que significa não ser monogâmico.
Outras pessoas dão explicações mais razoáveis. Algumas pessoas entram em relações monogâmicas apenas porque su parceire é monogâmicx e ela realmente não considera a monogamia um sacrifício. Outras pessoas sentem que a exclusividade torna seus momentos íntimos mais especiais. Muitas pessoas simplesmente não acreditam que uma relação não-monogâmica possa dar certo (o que eu também atribuo à nossa invisibilidade e à ignorância geral).
E, é claro, muitas pessoas são monogâmicas porque são extremamente ciumentas. A meu ver, o ciúmes é uma exacerbação de insegurança e mêdo que nada têm a ver com a outra pessoa, mas que são projetados na outra pessoa, como se ela fosse responsável pela sua insegurança. O ciúmes é um sentimento negativo e danoso para o relacionamento, e eu acho que qualquer pessoa ciumenta deveria se esforçar para resolver esse problema. A glorificação do ciúmes, na minha opinião, é a forma mais absurda e torpe de mononormatividade, porque se glorifica uma atitude de controle sobre a vida do outro. Além disso, algumas pessoas são monogâmicas porque elas sabem que é socialmente inaceitável não ter ciúmes e não exigir a "fidelidade" de su parceire, e assim essas pessoas exercem controle sobre a vida de parceire por pressão social.
P: O que é "mononormatividade"?
Eu imagino que essa palavra tenha surgido como uma referência à "heteronormatividade". Veja, a heteronormatividade é a norma que favorece casais cis heterossexuais. Casais cis heterossexuais podem se casar, não têm mêdo de sair em público, são representados em histórias, em todas as mídias, e de modo geral se espera que uma pessoa seja cis heterossexual desde o momento em que ela nasce. Ser cis heterossexual implica em uma série interminável de vantagens sociais, jurídicas e econômicas, especialmente para pessoas casadas. Da mesma forma, ser monogâmico implica em uma série parecida de vantagens em oposição a ser não-monogâmico. Em primeiro lugar, o casamento oferece muitas vantagens, e essas vantagens apenas estão disponíveis para pessoas monogâmicas. Além disso, trocar carícias com mais de uma pessoa em público é considerado uma "depravação", mais ou menos da mesma forma que o é trocar carícias com uma pessoa do mesmo sexo. A não-monogamia é retratada em histórias, mas quase sempre como uma situação de conflito, traição, instabilidade.
A mononormatividade também é expressa nas opiniões ignorantes da maior parte das pessoas a respeito de nós, quando as pessoas acreditam que apenas na monogamia existe amor, e que apenas a monogamia é uma forma correta e pura de se relacionar; e também na ignorância das pessoas em relação a seus próprios relacionamentos uma vez que, acreditando que uma pessoa não deve ser capaz de se interessar por mais outra, assume-se que quando um membro do casal se sente atraído por outra pessoa a relação está comprometida. E quando duas pessoas começam a se relacionar, elas quase sempre assumem que a outra é monogâmica. Mais grave ainda, a mononormatividade glorifica atitudes de imposição da monogamia e de controle da vida alheia, glorifica o ciúmes e justifica inclusive a agressão física (até mesmo assassinato) da pessoa que incorre em "traição" (muitas vezes mesmo que a suposta "traição" tenha ocorrido depois do término da relação). Finalmente, a mononormatividade condena todas as pessoas não-monogâmicas (exceto talvez homens cis heterossexuais), chamando-as de "vadias", e esse rótulo é muitas vezes usado para justificar agressões e crimes cometidos contra essas pessoas, apenas porque seu "valor como pessoa" é considerado menor do que o de uma pessoa monogâmica.
Evidentemente, a mononormatividade está intrinsecamente ligada à heteronormatividade e de modo geral ao machismo, de modo que ela é especialmente cruel com mulheres, cis ou trans, pessoas trans* de modo geral e gays/bis. De fato, muitas vezes é aceito e até esperado que homens cis heterossexuais se comportem pessoalmente de forma não-monogâmica. Mas vamos falar de machismo em outro tópico.
P: Por que nós dizemos que "somos" não-mono/poli/rli/etc?
Essencialmente, é porque nós não queremos, não conseguimos, não aturamos, não suportamos viver em situações de monogamia. A monogamia é opressora para nós. Nossas opções de como viver experiências afetivas e sexuais fazem parte da nossa identidade, da mesma forma que orientações sexuais.
Existem outras pessoas que consideramos que "são" monogâmicas, porque elas só aceitam relacionamentos monogâmicos. Existem também pessoas que aceitam ambos e que não "são" nem uma coisa nem outra.
P: Por que nossa movimentação é política e não apenas pessoal?
Porque nós vivemos num mundo que ora acredita que nós não existimos, ora que estamos fadados à infelicidade, ora que somos depravads e vadias. Porque se ficarmos calados e separados, não poderemos mudar esta situação. Porque o pessoal é político.
P: É um problema nossa movimentação ser contra alguma coisa em vez de a favor de algo?
Claro que não! Nós somos a favor do direito de viver com os mesmos privilégios que o resto da sociedade, mas nosso grupo provavelmente não existiria se não houvesse uma imposição social opressiva que nos exclui. Da mesma forma que o feminismo é contra o machismo e a misoginia e o movimento LGBTQ+ é contra (o machismo e) a homofobia e a heteronormatividade, nós também nos unimos contra algo que nos oprime. É tipo a ordem natural das coisas.:wq
terça-feira, 14 de maio de 2013
Mulheres (Las Cantadoras)
Estou num grupo de mulheres. Existem mulheres de todos os tipos, mulheres casadas e solteiras, mulheres que se acham crianças e mulheres que se sentem adultas, mulheres que já fizeram muito sexo e mulheres que não fizeram quase nada, mulheres altas e baixas, gordas e magras, mulheres com têmpora raspada, mulheres com cabelos compridos, mulheres que nunca se masturbaram e mulheres que se fazem gozar todo dia, mulheres que têm tesão por homem ou por mulher ou por ambos ou por todo gênero de gente, mulheres que têm filhos, mulheres que têm mãe e pai, mulheres que tiveram namorad aos doze, mulheres que deram o primeiro beijo ao dezenove, mulheres que gostam de usar cinta-pau, mulheres que gostam de dominação, mulheres que nunca viram um vibrador, mulheres que não querem que o namorado veja o que elas escrevem, mulheres que preferiam não ser mulheres, mulheres que precisam lutar para serem mulheres, mulheres que... algumas mulheres tiveram experiências muito diferentes umas das outras, e algumas pessoas querem obter esse conhecimento secreto que se passa apenas entre as mulheres, porque no mundo lá fora existe mêdo. Então uma mulher pergunta se alguma de nós conhece alguém que já contou que já passou por alguma situação abusiva, violenta, se alguém conhece alguém que já foi abusada ou violada, fisicamente, ela diz. E o coro das mulheres responde (é quase, quase um únissono) "sim, muitas, (e em muitas das nossas vozes se ouve "eu também")".
Muitas. E contamos histórias. Algumas das mulheres contam suas próprias histórias, outras dizem que preferem não contar. Algumas de nós contam histórias de pessoas muito próximas, outras de pessoas que conhecemos apenas o suficiente para confiar. Algumas das mulheres das histórias são adultas, outras são adolescentes, outras são crianças. Algumas são nossas mães, algumas são nossas irmãs, algumas são nossas amigas. Algumas histórias aconteceram muito, muito tempo atrás, e algumas aconteceream faz pouco tempo, e muitas abriram feridas que ainda não conseguimos fechar. Algumas das mulheres dizem que ainda estão tentando lidar com isso. Algumas de nós tinham muitas histórias, outras tinham poucas. Algumas de nós eram virgens, algumas vezes era pra ser a primeira vez. Algumas vezes a história nunca foi contada para nenhum homem, e algumas vezes ela foi. Algumas vezes nós contamos para nossas famílias e amigos, e eles nos apoiaram e nos protegeram. Algumas vezes nós contamos e eles nos incriminaram, ou não deram importância, ou disseram que é nossa responsabilidade superar. Algumas vezes nós não dissemos nada, com mêdo de ser culpadas, com vergonha. Algumas vezes nós queríamos proteger o agressor. Algumas vezes nós contamos para a pessoa em quem confiávamos e ela quis proteger o agressor. Algumas vezes o agressor foi o namorado, o peguete, o homem com quem queríamos trepar naquela noite; outras vezes foi um desconhecido na rua, no bar ou bala; outras vezes foi um homem raivoso, um ex-marido ou ex-amigo; outras vezes ainda foram nossos irmãos, nossos pais, nossos primos, nossos padrastos. Alguns eram meninos, alguns eram velhos, alguns eram homens com deficiências mentais e outros eram homens perfeitamente normais. Algums eram homens em quem absolutamente não confiávamos, outros eram homens em quem confiávamos plenamente, até mesmo homens que amávamos. Algumas poucas vezes era uma mulher. Algumas vezes não conseguimos culpá-los, outras vezes os odiamos para sempre. Algumas vezes tivemos que pôr nossas mãos no corpo dele, algumas vezes ele pôs suas mãos no nosso corpo, algumas vezes ele invadiu nossos corpos e nos machucou e violentou e nos deixou nos sentindo humilhadas, fracas e sujas. Algumas vezes nós não sabemos direito, porque estávamos inconscientes. Algumas vezes nós lutamos, ou gritamos, ou choramos, e pedimos pra parar. Algumas vezes nós não fizemos nada, ou não podíamos fazer nada. Algumas vezes estávamos embriagadas, outras vezes fomos drogadas, outras vezes fomos forçadas, outras vezes estávamos dormindo, e algumas vezes éramos pequenas demais para entender ou resistir. Algumas vezes nós engravidamos e abortamos, e algumas vezes nós engravidamos e tivemos o filho. Algumas vezes demoramos meses ou anos para entender a violência, e em algumas histórias durantes esses meses ou anos e até depois nós continuamos a conviver com ele, como se nada houvesse acontecido. Algumas vezes nós continuamos do lado dele, até o fim, ainda estamos convivendo com alguns deles. Algumas vezes nós ouvimos pouco tempo depois histórias semelhantes envolvendo o mesmo homem e outras mulheres. Muitas vezes nós nos culpamos por não gritar mais, por não contar para todo mundo, por sermos fracas e vulneráveis, por não correr para a delegacia da mulher. Algumas vezes nós continuamos sentindo que não temos nenhuma opção. Algumas vezes nós contamos para as pessoas em quem confiávamos, e passamos a desconfiar de que ela era uma de nós. Algumas vezes nós sentimos que ninguém mais no mundo podia imaginar que nossa história pudesse ser real.
Nenhuma vez foi nossa culpa. Nenhuma vez nós quisemos isso. Nenhuma vez nós fizemos por merecer. Entretanto nós contamos nossas histórias, umas para as outras, e às vezes eu sinto que, apesar de todas as diferenças, de diferenças de forma, de situação, de intensidade e de conseqüências, nós contamos uma única história e nós somos todas uma coisa só. É nessas horas que eu me sinto mais próxima de ser mulher --- essa hora em que eu sei que eu não poderia ser um homem porque eu bebi da fonte das histórias das mulheres que os homens não ouvem, essa hora em que eu sinto raiva e impotência e frustração porque eu faço parte de uma história que se repete sempre e que quase nunca se ouve fora das alcovas mulheris, e que na verdade mesmo entre as mulheres quase nunca se ouve, porque no resto do tempo não somos quase nada, não somos uma unidade, tudo o que nos une é nossa separação, a mediação de nossas relações pelos homens que nos rodeiam, nossos pais, nossos maridos e namorados, a mediação de nossas relações com nossas mães pela estrutura familiar patriarcal, e a mediação ne nossas relações com nossas colegas pelas necessidades de galgar a hierarquia da familidade, auto-controle e mesmo de felicidade, já que somos todas mulheres modernas e bem-resolvidas. Mas na roda de histórias não somos bem-resolvidas, somos cheias de ódio, fraqueza e frustração. E contamos nossos segredos. Às vezes me parece que sobreviver à violência faz parte da nossa identidade de gênero, que somente conseguimos nos unir quando admitimos a violência que sofremos e admitimos que ela é de todas nós. E nessas horas eu não posso ser nada além de mulher.
Se eu tivesse tido a opção, eu não teria escolhido ser feminista -- eu teria escolhido ser homem. Mas eu não tive a opção. Eu fui forçada a ser mulher, e a única forma de sobreviver sendo mulher é entrar na roda de histórias das mulheres, e ser feminista.
Muitas. E contamos histórias. Algumas das mulheres contam suas próprias histórias, outras dizem que preferem não contar. Algumas de nós contam histórias de pessoas muito próximas, outras de pessoas que conhecemos apenas o suficiente para confiar. Algumas das mulheres das histórias são adultas, outras são adolescentes, outras são crianças. Algumas são nossas mães, algumas são nossas irmãs, algumas são nossas amigas. Algumas histórias aconteceram muito, muito tempo atrás, e algumas aconteceream faz pouco tempo, e muitas abriram feridas que ainda não conseguimos fechar. Algumas das mulheres dizem que ainda estão tentando lidar com isso. Algumas de nós tinham muitas histórias, outras tinham poucas. Algumas de nós eram virgens, algumas vezes era pra ser a primeira vez. Algumas vezes a história nunca foi contada para nenhum homem, e algumas vezes ela foi. Algumas vezes nós contamos para nossas famílias e amigos, e eles nos apoiaram e nos protegeram. Algumas vezes nós contamos e eles nos incriminaram, ou não deram importância, ou disseram que é nossa responsabilidade superar. Algumas vezes nós não dissemos nada, com mêdo de ser culpadas, com vergonha. Algumas vezes nós queríamos proteger o agressor. Algumas vezes nós contamos para a pessoa em quem confiávamos e ela quis proteger o agressor. Algumas vezes o agressor foi o namorado, o peguete, o homem com quem queríamos trepar naquela noite; outras vezes foi um desconhecido na rua, no bar ou bala; outras vezes foi um homem raivoso, um ex-marido ou ex-amigo; outras vezes ainda foram nossos irmãos, nossos pais, nossos primos, nossos padrastos. Alguns eram meninos, alguns eram velhos, alguns eram homens com deficiências mentais e outros eram homens perfeitamente normais. Algums eram homens em quem absolutamente não confiávamos, outros eram homens em quem confiávamos plenamente, até mesmo homens que amávamos. Algumas poucas vezes era uma mulher. Algumas vezes não conseguimos culpá-los, outras vezes os odiamos para sempre. Algumas vezes tivemos que pôr nossas mãos no corpo dele, algumas vezes ele pôs suas mãos no nosso corpo, algumas vezes ele invadiu nossos corpos e nos machucou e violentou e nos deixou nos sentindo humilhadas, fracas e sujas. Algumas vezes nós não sabemos direito, porque estávamos inconscientes. Algumas vezes nós lutamos, ou gritamos, ou choramos, e pedimos pra parar. Algumas vezes nós não fizemos nada, ou não podíamos fazer nada. Algumas vezes estávamos embriagadas, outras vezes fomos drogadas, outras vezes fomos forçadas, outras vezes estávamos dormindo, e algumas vezes éramos pequenas demais para entender ou resistir. Algumas vezes nós engravidamos e abortamos, e algumas vezes nós engravidamos e tivemos o filho. Algumas vezes demoramos meses ou anos para entender a violência, e em algumas histórias durantes esses meses ou anos e até depois nós continuamos a conviver com ele, como se nada houvesse acontecido. Algumas vezes nós continuamos do lado dele, até o fim, ainda estamos convivendo com alguns deles. Algumas vezes nós ouvimos pouco tempo depois histórias semelhantes envolvendo o mesmo homem e outras mulheres. Muitas vezes nós nos culpamos por não gritar mais, por não contar para todo mundo, por sermos fracas e vulneráveis, por não correr para a delegacia da mulher. Algumas vezes nós continuamos sentindo que não temos nenhuma opção. Algumas vezes nós contamos para as pessoas em quem confiávamos, e passamos a desconfiar de que ela era uma de nós. Algumas vezes nós sentimos que ninguém mais no mundo podia imaginar que nossa história pudesse ser real.
Nenhuma vez foi nossa culpa. Nenhuma vez nós quisemos isso. Nenhuma vez nós fizemos por merecer. Entretanto nós contamos nossas histórias, umas para as outras, e às vezes eu sinto que, apesar de todas as diferenças, de diferenças de forma, de situação, de intensidade e de conseqüências, nós contamos uma única história e nós somos todas uma coisa só. É nessas horas que eu me sinto mais próxima de ser mulher --- essa hora em que eu sei que eu não poderia ser um homem porque eu bebi da fonte das histórias das mulheres que os homens não ouvem, essa hora em que eu sinto raiva e impotência e frustração porque eu faço parte de uma história que se repete sempre e que quase nunca se ouve fora das alcovas mulheris, e que na verdade mesmo entre as mulheres quase nunca se ouve, porque no resto do tempo não somos quase nada, não somos uma unidade, tudo o que nos une é nossa separação, a mediação de nossas relações pelos homens que nos rodeiam, nossos pais, nossos maridos e namorados, a mediação de nossas relações com nossas mães pela estrutura familiar patriarcal, e a mediação ne nossas relações com nossas colegas pelas necessidades de galgar a hierarquia da familidade, auto-controle e mesmo de felicidade, já que somos todas mulheres modernas e bem-resolvidas. Mas na roda de histórias não somos bem-resolvidas, somos cheias de ódio, fraqueza e frustração. E contamos nossos segredos. Às vezes me parece que sobreviver à violência faz parte da nossa identidade de gênero, que somente conseguimos nos unir quando admitimos a violência que sofremos e admitimos que ela é de todas nós. E nessas horas eu não posso ser nada além de mulher.
Se eu tivesse tido a opção, eu não teria escolhido ser feminista -- eu teria escolhido ser homem. Mas eu não tive a opção. Eu fui forçada a ser mulher, e a única forma de sobreviver sendo mulher é entrar na roda de histórias das mulheres, e ser feminista.
sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013
Bissexualidade
(baseado, sem pretensões de fidelidade, em coisas ditas em conversas reais ou imaginárias - às vezes mais de uma vez)
— = ---
— Acho que não dá pra uma pessoa ir na balada e querer pegar "qualquer um". Ou você está procurando homem, ou mulher. Mesmo um bissexual, tem dias que está hétero, dias que está gay.
— Mas você não é bissexual, nem conhece alguém que seja, certo?
— Não. Mas só não faz sentido! Querer ficar com mulher é totalmente diferente de querer ficar com homem!
— Eu fico irritada com essa gente que se diz bissexual. Não existe isso de gostar "tanto de homem quanto de mulher". Todo mundo tem uma preferência.
— Mas e as pessoas que de fato gostam de homem mas de vez em quando pegam mulher, por exemplo?
— Ah, mas isso não faz de você bissexual. Você gosta de homem, você é hétero, pegar mulher de vez em quando não muda isso. Quem diz que é bissexual tá querendo ficar em cima do muro, não quer admitir pra si mesmo e pros outros que tem uma orientação sim, ah, me poupe! Se admite, pô.
— Mas, péraí, só porque tem uma preferência então não...
— Péra, deixa eu entender, eu tô no meio de um monte de gente que se acha bissexual, né?
— Se você é gay mas fica insistindo em ter namoros hétero, você está negando os seus desejos homossexuais? Você prejudica a sua vida com isso?
— Bom, o estudo aponta a existência de alguns caras casados com mulher que tinham uma certa ereção com pornô de mulher, mas a reação era muito maior com pornô gay. Provavelmente eles eram gays enrustidos, que meio que "aprenderam" a se excitar com mulher pra se encaixarem na sociedade.
— Se você escolhe um lado e admite a sua, ham, a sua "monossexualidade", você está negando os seus desejos em relação ao outro sexo?
— Nenhum estudo encontrou bissexuais de verdade! As pessoas precisam parar de se enganar e fingir que existe um meio termo! Essa é uma falácia danosa para a nossa causa. É preciso que as pessoas entendam que homossexualidade é genético e definitivo, e que não existe cura nem meia cura. Viado é viado e fancha é fancha, ponto!
— Mas, pô, isso não é motivo pra ficar enchendo o saco dela e chamando ela de fanchona o tempo todo. Ela está meio na dúvida, deixa ela.
— Mas é claro que é motivo. É só olhar pra ela pra saber que ela é sapata, e essa história de ficar em dúvida é uma grande mentira. Ela precisa aceitar o que ela é.
— Mas e se eu não quiser aceitar o que eu sou? Como fica?
— Vai ver um psicólogo, vai.
— Quando você se descobriu gay?
— Ah, quando eu era pequeno eu já era gay. Eu achava que homem combinava com homem, e mulher com mulher.
— Eu descobri na faculdade. Passei anos me irritando com as pessoas que me chamavam de gay. Cheguei a brigar feio com uma amiga, depois a gente voltou a se falar quando eu saí do armário.
— Eu tinha uma namorada com quem eu me dava super bem e fazia um monte de sexo, mas um dia eu vi um cara gostoso e senti tesão... Hoje em dia eu nem tenho mais vontade de ficar com mulher, porque homem é tão melhor!
— Meu ex-namorado agora namora um homem.
— E como é pra você?
— Eu acho que não faz muita diferença, pra mim. É a vida pessoal dele, agora, e não muda nada do que aconteceu entre nós. Não explica nada.
— A ex-namorada da minha amiga está namorando um homem, também.
— Então ela não era gay, hem?
— Eu disse que ela era hétero! Mulher na adolescência faz umas experiências...
— Agora, a sua amiga, essa sim é sapatão, hem?
— É só olhar pra ela pra saber.
— É engraçado é que tem gente que não tem gaydar, né? Outro dia virou mó bochicho no escritório sobre a chefe, e eu disse de cara: "É que ela é lésbica, né?". Todo mundo tava super surpreso, todo mundo ficou "mas como você sabe???". Ah, vá.
— É engraçado que dá pra perceber mesmo quando a própria pessoa ainda não sabe.
— Eu me pergunto isso às vezes, se alguém olha pra você e diz que você é gay, isso quer dizer que você é mesmo? E se diz que você é hétero?
— Quando você começou a se considerar bi?
— Assim que eu parei pra pensar no assunto, uai. Eu era adolescente e eu gostava tanto de meninos quanto de meninas.
— Mas você gostava mesmo dos meninos tanto quanto das meninas? Você se apaixonava por meninos?
— Hmm, acho que eu só me apaixonei por meninas... Mas eu gostava bastante dos homens também. Não era a mesma coisa, mas nunca me ocorreu me considerar hétero.
— Mas você já teve experiência com homem?
— Já.
— E gostou?
— Foi muito bom.
— Eu já peguei homem, já dei o cu, foi bom, mas acho que eu não sou gay. Não tenho envolvimento emocional com homem.
— Eu gosto de ficar com mulher, mas eu sou bem hétero. Eu não entendo como você que gosta muito mais de pica do que eu ainda acha que é bi.
— É verdade, homem tem pica, mas, por outro lado, mulher tem peito!
— E cintura, não dá pra esquecer a cintura.
— Mas homem tem peito de homem. E barba. E mulher às vezes tem muita bochecha.
— Acho que eu não conseguiria ficar com uma mulher. Aquela vez que a gente quase fez um ménage, eu pensei "não, tem outra buceta aqui!"
— Você diz isso mas no dia seguinte pega uma mina e tem sonhos eróticos com outra. Aliás, eu só tenho sonhos eróticos com mulheres. Os seus sonhos definem a sua sexualidade?
— Outro dia eu tive um sonho super bizarro com você. Eu estava beijando você, mas você tinha um pinto!
— Você não está vendo, mas eu estava agora mesmo desenhando um pinto. Eu tinha certeza de que eu ia ter um pinto no seu sonho.
— Isso quer dizer que eu sou gay?
— Bom, você sente atração sexual por homens?
— Não. Mas e as pessoas que demoraram anos pra entender que eram gays?
— Você quer ser gay?
— Talvez eu precise ser gay.
— Se eu fosse gay eu ia ter muito mais felicidade sexual.
— Mas você acha os homens horrendos!
— Bom, por isso que eu queria ser gay, mas não sou. E eu não acho todos os homens horrendos. É só que eles são tão peludos... e grandes... e feios. Mas eu pegava o Justin Bieber, ele é quase uma menina. E bonitinha.
— Nossa, que machista!
— Machista por quê?
— Super machista essa atitude de "eu nunca ia pegar nenhum homem, e mesmo se eu pegasse um homem, tinha que ser um homem que é quase uma mulher"! É pura pose de machão.
— Mas eu só estou dizendo que o Justin Bieber não é feio...
— Ah, você só está atestando a sua masculinidade! Eu, se eu pegasse uma mulher, eu ia querer que fosse uma mulher de verdade, feminina, affe!
— Mas você não ia pegar uma mulher...
— Não, mas se eu pegasse, eu não ia pegar uma mulher que parece um homem só pra deixar claro que eu sou hétero.
— Então se eu gosto de mulheres masculinas eu sou gay?
— E se eu gosto de homens femininos? Os caras que gostam de travesti são hétero?
— Outro dia eu gamei numa mina que parecia muito com um cara que eu peguei um tempo atrás. Estou me sentindo culpada.
— Você sempre puxa pro pessoal!
— Bom, pra mim esse assunto é muito pessoal. Você acha que os meus sonhos definem a sua sexualidade?
— Por que você não define a sua sexualidade por com quem você faz sexo?
— Um garoto virgem de treze anos não pode ser gay?
— Não dá pra confiar na sexualidade de adolescentes, eles fazem experiências...
— Mas em que idade você pode começar a confiar?
— Eu fico meio assustado que isso tenha aparecido pra mim tão tarde. Sabe, eu não sou um adolescente. Todos os meus amigos que viraram gays ou bis se descobriram até uns 20 anos de idade. Será que eu estava reprimindo isso esse tempo todo?
— Bom, você sabe que eu não acredito muito em monossexualidade.
— Mãe, eu acho que eu sou bissexual.
— ...Por que você acha isso?
— Por que eu me sinto muito atraída por mulheres.
— Mas você já ficou com uma mulher?
— Já.
— Mas você nunca namorou uma mulher.
— ...Bom, eu sempre estive namorando com homens.
— Ah, filha, você é jovem, jovens fazem experiências. Quando eu era adolescente eu também me sentia muito atraída por mulheres, mas eu não sou "bissexual". Eu namorei com homens e casei com um homem, pronto!
— ...
— Eu queria ter tido essa sua confiança, de saber desde sempre que era assim mesmo.
— Mas deve ser mó legal ter essa revelação, "Oh, eu sou gay!". Imagina?
— E você?
— Eu sempre achei que eu sempre tinha sido confusa mesmo... Mas eu encontrei uns escritos antigos ontem. Parece que eu sempre tive grandes sonhos de casamento, e eu só pensava em homens. Homens altos de cabelos negros. Homens baixos, fortes e ruivos. Pra falar a verdade eu só sabia lidar com homens, desde que eu era pequena. Eu queria ser um homem, e eu até gostaria de ser um homem gay. E eu sempre me apaixonava por homens... Mas pensando bem, tinha aquela menina no colegial que tinha olhos dourados maravilhosos.... Um personagem meu, que era namorado da protagonista, tinha olhos dourados de águia como os dela. Ela chamava Júlia. Eu passava metade da aula olhando pra ela e pensando em como começar a conversa. Mas eu não chamava de amor.
— Mas você não era perdidamente apaixonada por aquele menino bonito?
— Sim, sim, por ele, por aquele outro, pelo meu melhor amigo que era apaixonado pelo meu irmão, e que chegou a achar que estava apaixonado por mim. No terceiro ano eu encontrei um garoto de olhos verdes maravilhoso, ficava o dia todo olhando pra ele e... pensando em como começar a conversa. Depois de alguns meses eu comecei a chamar de amor.
— E a Júlia?
— Encontrei ela outro dia, ela me tratou como uma amiga. Fiquei meio fascinada com o fato de que ela gostava de mim. Eu não fazia muitas amigas no colegial, me sentia incapaz de falar com mulheres. Me pergunto se o Pedro também me trataria como uma amiga.
— Você viu aquele novo estudo, com movimento de pupila?
— Ele não usa medição de engrossamento de pênis? Estou ouvindo.
— Inclusive mede mulheres também. Aí está a graça — ele meio que determinou que a maior parte das mulheres hétero têm reações a mulheres bonitas assim como a homens. E encontrou homens bissexuais também.
— Legal. Os bissexuais vão ficar felizes, mas os nossos amigos gays nem vão acreditar muito.
— Bom, é claro que nenhum desses estudo é muito confiável. Mas pelo menos a gente tem algo pra dizer.
— Como foi a conversa com a sua mãe afinal?
— Ela não acreditou. Foi bem menos assustador do que a conversa sobre namoro aberto, mas daquela vez ela foi tão legal, e dessa vez eu fiquei um pouco frustrada.
— Você quer ouvir como foi a minha conversa com a minha mãe? Qualquer uma das oito?
— Eu sei, eu sei, eu tenho a melhor mãe do mundo e eu não tenho um problema de verdade. É só que eu queria poder me sentir eu mesma, sabe?
— Mas você está negando a si mesma. Você quer ser algo que você não é.
— No começo eu achei que podia ser isso, porque eu queria muito ser bi, e porque eu queria fazer parte da comunidade gay (ou do que quer que eles se chamem agora, foda-se).
— Péra, você acha que pra fazer parte da luta você tem que ser gay?
— Eu acho que sim. Eu sei que não devia ser assim, mas é.
— Pô, então eu, que namoro um cara bissexual, não faço parte do movimento?
— Não é bem assim, não estou dizendo que não pode, da mesma forma que você pode ser homem e feminista, mas... mas os babacas vão sempre dizer que "as mulheres é que têm que lutar pelas mulheres", "os gays é que tem que lutar pelos gays", e tal. E agora estão me dizendo que bissexual não existe.
— É bom que bissexual exista, senão eu vou estar sendo enganada pelos últimos sete meses.
— Vontadezinha de arranjar uma namorada e levar ela pra casa. Só pra chocar minha mãe. Ou pra provar que é de verdade.
— ...Olha, mãe, não é só que eu me sinto atraída por mulheres. Eu sonho com mulheres. Eu me apaixono por elas. Você ia ter problemas se eu saísse com mulheres?
— Ah, Ma, você pode sair com quem você quiser. Você é jovem. Você se apaixona fácil. Mas você traz seu namorado pra casa, ele vira da família. Já se você trouxesse uma menina pra casa, uma namorada, ia ser um pouco estranho. Não é a mesma coisa, sabe?
— Ia ser estranho se eu trouxesse uma namorada? Mas estranho do que quando meu irmão traz as namoradas dele?
— Ah, Ma... Sabe, a gente sempre acha que vai conseguir lidar com essas coisas... Mas recentemente uma amiga próxima de mim descobriu que a filha era lésbica, e aí ela descobriu que não é tão fácil assim de lidar. É difícil pra gente.
— Você está falando daquela cuja filha é evidentemente gay?
— Ah, lembra, isso é segredo, não pode contar pra ninguém!
— Mas como você descobriu que era bissexual?
— Bom, eu estava no colegial, aqula história toda... Um dia minha amiga veio falar comigo, e o seio dela raspou no meu braço. Eu senti, como se diz? como se fosse uma descarga elétrica pelo corpo. Eu continuava apaixonada por aquele menino, mas depois disso eu fiquei algum tempo só conseguindo pensar em peitos.
— E foi assim, de repente, então?
— Não, não de verdade. Eu tinha acreditado que bissexual não existia. Eu comecei a me apaixonar por mulheres, a sonhar com mulheres, mas eu continuei acreditando que era hétero. Eu queria experimentar pegar mulheres, mas eu não podia me considerar bi sem nunca ter pego uma mulher. Um dia eu fui numa festa e as amigas do meu amigo me chamaram de sapata, e eu fiquei super feliz. Aí ele corrigiu eles, e eu fiquei meio brava. Mas eu me considerava hétero no fundo, não tinha coragem de reclamar. Um dia eu peguei uma mulher numa festa, mas não senti tesão nenhum. Eu estava apaixonada por uma amiga minha, obcecada e sofrendo, mas eu era hétero. Eu contei isso para um amigo e ele disse que eu devia estar projetando alguma coisa nela... Porque eu era hétero, e estava tão feliz com meu namorado. Aí um dia eu consegui sair num date com uma menina por quem eu tinha uma paixão, e foi o melhor primeiro beijo da minha vida. E mesmo assim meus amigos diziam que eu era hétero e eu meio que acreditava neles, porque eu só tinha beijado mulher duas vezes, porque eu namorava caras, porque eu nunca tinha transado com uma mulher. Então eu peguei todas as mulheres que eu consegui, o mais e o melhor que eu pude, e eu passei uma festa inteira pegando uma menina linda. Meu amigo me zuou dizendo que quando eu ficava bêbada eu virava lésbica, e eu concordei inteiramente. Mas no final daquela festa eu peguei um rapaz gostoso e gostei tanto disso que de novo eu concluí que eu era hétero. Aí eu fiquei muito confusa, peguei várias mulheres, transei com mulheres, decidi fazer o look fanchinha para atrair mulheres nos bares, mas no fundo eu achava que gostava mais de ficar com homens, e apesar de eu querer muito ser bi eu ainda acreditava que eu era hétero, no fundo. Uma hétero que por algum motivo se apaixonava por mulheres de vez em quando, mas que gostava muito de homem. Mas hétero.
— E quando isso mudou?
— Não tenho certeza. Talvez tenha sido porque eu conheci outros bissexuais. Ou porque eu descobri mulheres de quem eu gostava mais e homens de quem eu gostava menos. Ou eu parei de me importar. Na verdade... acho que o que pegou foi quando eu estava com uma mulher, e eu percebi que eu estava curtindo, estava confortável e sabia o que eu estava fazendo. Eu não estava só experimentando. Não era mais uma coisa nova pra mim. Só era bom.
— = ---
— Acho que não dá pra uma pessoa ir na balada e querer pegar "qualquer um". Ou você está procurando homem, ou mulher. Mesmo um bissexual, tem dias que está hétero, dias que está gay.
— Mas você não é bissexual, nem conhece alguém que seja, certo?
— Não. Mas só não faz sentido! Querer ficar com mulher é totalmente diferente de querer ficar com homem!
— Eu fico irritada com essa gente que se diz bissexual. Não existe isso de gostar "tanto de homem quanto de mulher". Todo mundo tem uma preferência.
— Mas e as pessoas que de fato gostam de homem mas de vez em quando pegam mulher, por exemplo?
— Ah, mas isso não faz de você bissexual. Você gosta de homem, você é hétero, pegar mulher de vez em quando não muda isso. Quem diz que é bissexual tá querendo ficar em cima do muro, não quer admitir pra si mesmo e pros outros que tem uma orientação sim, ah, me poupe! Se admite, pô.
— Mas, péraí, só porque tem uma preferência então não...
— Péra, deixa eu entender, eu tô no meio de um monte de gente que se acha bissexual, né?
— Se você é gay mas fica insistindo em ter namoros hétero, você está negando os seus desejos homossexuais? Você prejudica a sua vida com isso?
— Bom, o estudo aponta a existência de alguns caras casados com mulher que tinham uma certa ereção com pornô de mulher, mas a reação era muito maior com pornô gay. Provavelmente eles eram gays enrustidos, que meio que "aprenderam" a se excitar com mulher pra se encaixarem na sociedade.
— Se você escolhe um lado e admite a sua, ham, a sua "monossexualidade", você está negando os seus desejos em relação ao outro sexo?
— Nenhum estudo encontrou bissexuais de verdade! As pessoas precisam parar de se enganar e fingir que existe um meio termo! Essa é uma falácia danosa para a nossa causa. É preciso que as pessoas entendam que homossexualidade é genético e definitivo, e que não existe cura nem meia cura. Viado é viado e fancha é fancha, ponto!
— Mas, pô, isso não é motivo pra ficar enchendo o saco dela e chamando ela de fanchona o tempo todo. Ela está meio na dúvida, deixa ela.
— Mas é claro que é motivo. É só olhar pra ela pra saber que ela é sapata, e essa história de ficar em dúvida é uma grande mentira. Ela precisa aceitar o que ela é.
— Mas e se eu não quiser aceitar o que eu sou? Como fica?
— Vai ver um psicólogo, vai.
— Quando você se descobriu gay?
— Ah, quando eu era pequeno eu já era gay. Eu achava que homem combinava com homem, e mulher com mulher.
— Eu descobri na faculdade. Passei anos me irritando com as pessoas que me chamavam de gay. Cheguei a brigar feio com uma amiga, depois a gente voltou a se falar quando eu saí do armário.
— Eu tinha uma namorada com quem eu me dava super bem e fazia um monte de sexo, mas um dia eu vi um cara gostoso e senti tesão... Hoje em dia eu nem tenho mais vontade de ficar com mulher, porque homem é tão melhor!
— Meu ex-namorado agora namora um homem.
— E como é pra você?
— Eu acho que não faz muita diferença, pra mim. É a vida pessoal dele, agora, e não muda nada do que aconteceu entre nós. Não explica nada.
— A ex-namorada da minha amiga está namorando um homem, também.
— Então ela não era gay, hem?
— Eu disse que ela era hétero! Mulher na adolescência faz umas experiências...
— Agora, a sua amiga, essa sim é sapatão, hem?
— É só olhar pra ela pra saber.
— É engraçado é que tem gente que não tem gaydar, né? Outro dia virou mó bochicho no escritório sobre a chefe, e eu disse de cara: "É que ela é lésbica, né?". Todo mundo tava super surpreso, todo mundo ficou "mas como você sabe???". Ah, vá.
— É engraçado que dá pra perceber mesmo quando a própria pessoa ainda não sabe.
— Eu me pergunto isso às vezes, se alguém olha pra você e diz que você é gay, isso quer dizer que você é mesmo? E se diz que você é hétero?
— Quando você começou a se considerar bi?
— Assim que eu parei pra pensar no assunto, uai. Eu era adolescente e eu gostava tanto de meninos quanto de meninas.
— Mas você gostava mesmo dos meninos tanto quanto das meninas? Você se apaixonava por meninos?
— Hmm, acho que eu só me apaixonei por meninas... Mas eu gostava bastante dos homens também. Não era a mesma coisa, mas nunca me ocorreu me considerar hétero.
— Mas você já teve experiência com homem?
— Já.
— E gostou?
— Foi muito bom.
— Eu já peguei homem, já dei o cu, foi bom, mas acho que eu não sou gay. Não tenho envolvimento emocional com homem.
— Eu gosto de ficar com mulher, mas eu sou bem hétero. Eu não entendo como você que gosta muito mais de pica do que eu ainda acha que é bi.
— É verdade, homem tem pica, mas, por outro lado, mulher tem peito!
— E cintura, não dá pra esquecer a cintura.
— Mas homem tem peito de homem. E barba. E mulher às vezes tem muita bochecha.
— Acho que eu não conseguiria ficar com uma mulher. Aquela vez que a gente quase fez um ménage, eu pensei "não, tem outra buceta aqui!"
— Você diz isso mas no dia seguinte pega uma mina e tem sonhos eróticos com outra. Aliás, eu só tenho sonhos eróticos com mulheres. Os seus sonhos definem a sua sexualidade?
— Outro dia eu tive um sonho super bizarro com você. Eu estava beijando você, mas você tinha um pinto!
— Você não está vendo, mas eu estava agora mesmo desenhando um pinto. Eu tinha certeza de que eu ia ter um pinto no seu sonho.
— Isso quer dizer que eu sou gay?
— Bom, você sente atração sexual por homens?
— Não. Mas e as pessoas que demoraram anos pra entender que eram gays?
— Você quer ser gay?
— Talvez eu precise ser gay.
— Se eu fosse gay eu ia ter muito mais felicidade sexual.
— Mas você acha os homens horrendos!
— Bom, por isso que eu queria ser gay, mas não sou. E eu não acho todos os homens horrendos. É só que eles são tão peludos... e grandes... e feios. Mas eu pegava o Justin Bieber, ele é quase uma menina. E bonitinha.
— Nossa, que machista!
— Machista por quê?
— Super machista essa atitude de "eu nunca ia pegar nenhum homem, e mesmo se eu pegasse um homem, tinha que ser um homem que é quase uma mulher"! É pura pose de machão.
— Mas eu só estou dizendo que o Justin Bieber não é feio...
— Ah, você só está atestando a sua masculinidade! Eu, se eu pegasse uma mulher, eu ia querer que fosse uma mulher de verdade, feminina, affe!
— Mas você não ia pegar uma mulher...
— Não, mas se eu pegasse, eu não ia pegar uma mulher que parece um homem só pra deixar claro que eu sou hétero.
— Então se eu gosto de mulheres masculinas eu sou gay?
— E se eu gosto de homens femininos? Os caras que gostam de travesti são hétero?
— Outro dia eu gamei numa mina que parecia muito com um cara que eu peguei um tempo atrás. Estou me sentindo culpada.
— Você sempre puxa pro pessoal!
— Bom, pra mim esse assunto é muito pessoal. Você acha que os meus sonhos definem a sua sexualidade?
— Por que você não define a sua sexualidade por com quem você faz sexo?
— Um garoto virgem de treze anos não pode ser gay?
— Não dá pra confiar na sexualidade de adolescentes, eles fazem experiências...
— Mas em que idade você pode começar a confiar?
— Eu fico meio assustado que isso tenha aparecido pra mim tão tarde. Sabe, eu não sou um adolescente. Todos os meus amigos que viraram gays ou bis se descobriram até uns 20 anos de idade. Será que eu estava reprimindo isso esse tempo todo?
— Bom, você sabe que eu não acredito muito em monossexualidade.
— Mãe, eu acho que eu sou bissexual.
— ...Por que você acha isso?
— Por que eu me sinto muito atraída por mulheres.
— Mas você já ficou com uma mulher?
— Já.
— Mas você nunca namorou uma mulher.
— ...Bom, eu sempre estive namorando com homens.
— Ah, filha, você é jovem, jovens fazem experiências. Quando eu era adolescente eu também me sentia muito atraída por mulheres, mas eu não sou "bissexual". Eu namorei com homens e casei com um homem, pronto!
— ...
— Eu queria ter tido essa sua confiança, de saber desde sempre que era assim mesmo.
— Mas deve ser mó legal ter essa revelação, "Oh, eu sou gay!". Imagina?
— E você?
— Eu sempre achei que eu sempre tinha sido confusa mesmo... Mas eu encontrei uns escritos antigos ontem. Parece que eu sempre tive grandes sonhos de casamento, e eu só pensava em homens. Homens altos de cabelos negros. Homens baixos, fortes e ruivos. Pra falar a verdade eu só sabia lidar com homens, desde que eu era pequena. Eu queria ser um homem, e eu até gostaria de ser um homem gay. E eu sempre me apaixonava por homens... Mas pensando bem, tinha aquela menina no colegial que tinha olhos dourados maravilhosos.... Um personagem meu, que era namorado da protagonista, tinha olhos dourados de águia como os dela. Ela chamava Júlia. Eu passava metade da aula olhando pra ela e pensando em como começar a conversa. Mas eu não chamava de amor.
— Mas você não era perdidamente apaixonada por aquele menino bonito?
— Sim, sim, por ele, por aquele outro, pelo meu melhor amigo que era apaixonado pelo meu irmão, e que chegou a achar que estava apaixonado por mim. No terceiro ano eu encontrei um garoto de olhos verdes maravilhoso, ficava o dia todo olhando pra ele e... pensando em como começar a conversa. Depois de alguns meses eu comecei a chamar de amor.
— E a Júlia?
— Encontrei ela outro dia, ela me tratou como uma amiga. Fiquei meio fascinada com o fato de que ela gostava de mim. Eu não fazia muitas amigas no colegial, me sentia incapaz de falar com mulheres. Me pergunto se o Pedro também me trataria como uma amiga.
— Você viu aquele novo estudo, com movimento de pupila?
— Ele não usa medição de engrossamento de pênis? Estou ouvindo.
— Inclusive mede mulheres também. Aí está a graça — ele meio que determinou que a maior parte das mulheres hétero têm reações a mulheres bonitas assim como a homens. E encontrou homens bissexuais também.
— Legal. Os bissexuais vão ficar felizes, mas os nossos amigos gays nem vão acreditar muito.
— Bom, é claro que nenhum desses estudo é muito confiável. Mas pelo menos a gente tem algo pra dizer.
— Como foi a conversa com a sua mãe afinal?
— Ela não acreditou. Foi bem menos assustador do que a conversa sobre namoro aberto, mas daquela vez ela foi tão legal, e dessa vez eu fiquei um pouco frustrada.
— Você quer ouvir como foi a minha conversa com a minha mãe? Qualquer uma das oito?
— Eu sei, eu sei, eu tenho a melhor mãe do mundo e eu não tenho um problema de verdade. É só que eu queria poder me sentir eu mesma, sabe?
— Mas você está negando a si mesma. Você quer ser algo que você não é.
— No começo eu achei que podia ser isso, porque eu queria muito ser bi, e porque eu queria fazer parte da comunidade gay (ou do que quer que eles se chamem agora, foda-se).
— Péra, você acha que pra fazer parte da luta você tem que ser gay?
— Eu acho que sim. Eu sei que não devia ser assim, mas é.
— Pô, então eu, que namoro um cara bissexual, não faço parte do movimento?
— Não é bem assim, não estou dizendo que não pode, da mesma forma que você pode ser homem e feminista, mas... mas os babacas vão sempre dizer que "as mulheres é que têm que lutar pelas mulheres", "os gays é que tem que lutar pelos gays", e tal. E agora estão me dizendo que bissexual não existe.
— É bom que bissexual exista, senão eu vou estar sendo enganada pelos últimos sete meses.
— Vontadezinha de arranjar uma namorada e levar ela pra casa. Só pra chocar minha mãe. Ou pra provar que é de verdade.
— ...Olha, mãe, não é só que eu me sinto atraída por mulheres. Eu sonho com mulheres. Eu me apaixono por elas. Você ia ter problemas se eu saísse com mulheres?
— Ah, Ma, você pode sair com quem você quiser. Você é jovem. Você se apaixona fácil. Mas você traz seu namorado pra casa, ele vira da família. Já se você trouxesse uma menina pra casa, uma namorada, ia ser um pouco estranho. Não é a mesma coisa, sabe?
— Ia ser estranho se eu trouxesse uma namorada? Mas estranho do que quando meu irmão traz as namoradas dele?
— Ah, Ma... Sabe, a gente sempre acha que vai conseguir lidar com essas coisas... Mas recentemente uma amiga próxima de mim descobriu que a filha era lésbica, e aí ela descobriu que não é tão fácil assim de lidar. É difícil pra gente.
— Você está falando daquela cuja filha é evidentemente gay?
— Ah, lembra, isso é segredo, não pode contar pra ninguém!
— Mas como você descobriu que era bissexual?
— Bom, eu estava no colegial, aqula história toda... Um dia minha amiga veio falar comigo, e o seio dela raspou no meu braço. Eu senti, como se diz? como se fosse uma descarga elétrica pelo corpo. Eu continuava apaixonada por aquele menino, mas depois disso eu fiquei algum tempo só conseguindo pensar em peitos.
— E foi assim, de repente, então?
— Não, não de verdade. Eu tinha acreditado que bissexual não existia. Eu comecei a me apaixonar por mulheres, a sonhar com mulheres, mas eu continuei acreditando que era hétero. Eu queria experimentar pegar mulheres, mas eu não podia me considerar bi sem nunca ter pego uma mulher. Um dia eu fui numa festa e as amigas do meu amigo me chamaram de sapata, e eu fiquei super feliz. Aí ele corrigiu eles, e eu fiquei meio brava. Mas eu me considerava hétero no fundo, não tinha coragem de reclamar. Um dia eu peguei uma mulher numa festa, mas não senti tesão nenhum. Eu estava apaixonada por uma amiga minha, obcecada e sofrendo, mas eu era hétero. Eu contei isso para um amigo e ele disse que eu devia estar projetando alguma coisa nela... Porque eu era hétero, e estava tão feliz com meu namorado. Aí um dia eu consegui sair num date com uma menina por quem eu tinha uma paixão, e foi o melhor primeiro beijo da minha vida. E mesmo assim meus amigos diziam que eu era hétero e eu meio que acreditava neles, porque eu só tinha beijado mulher duas vezes, porque eu namorava caras, porque eu nunca tinha transado com uma mulher. Então eu peguei todas as mulheres que eu consegui, o mais e o melhor que eu pude, e eu passei uma festa inteira pegando uma menina linda. Meu amigo me zuou dizendo que quando eu ficava bêbada eu virava lésbica, e eu concordei inteiramente. Mas no final daquela festa eu peguei um rapaz gostoso e gostei tanto disso que de novo eu concluí que eu era hétero. Aí eu fiquei muito confusa, peguei várias mulheres, transei com mulheres, decidi fazer o look fanchinha para atrair mulheres nos bares, mas no fundo eu achava que gostava mais de ficar com homens, e apesar de eu querer muito ser bi eu ainda acreditava que eu era hétero, no fundo. Uma hétero que por algum motivo se apaixonava por mulheres de vez em quando, mas que gostava muito de homem. Mas hétero.
— E quando isso mudou?
— Não tenho certeza. Talvez tenha sido porque eu conheci outros bissexuais. Ou porque eu descobri mulheres de quem eu gostava mais e homens de quem eu gostava menos. Ou eu parei de me importar. Na verdade... acho que o que pegou foi quando eu estava com uma mulher, e eu percebi que eu estava curtindo, estava confortável e sabia o que eu estava fazendo. Eu não estava só experimentando. Não era mais uma coisa nova pra mim. Só era bom.
segunda-feira, 3 de setembro de 2012
Panfletarismo
Ultimamente eu tenho me sentido muito gay.
Quando eu digo "gay", eu não quero dizer homossexual. Eu já passei por épocas muito lésbicas, e já passei por épocas femininas, e já passei por épocas de macho e por épocas gays. Estou numa época em que me identifico mais com homens gays. Em parte é porque eu estou admitindo que durante a maior parte da minha vida eu quis ser um homem, e só me conformei em encontrar as vantagens de ser mulher ("vantagens" é um termo estranho pra isso - digamos as "partes que eu gosto" de ser mulher). Em parte é simplesmente porque sexo gay é muito sexy, e eu detesto quando eu não posso participar (obs.: viva os homens bi!!!). Em parte é porque eu tenho tido vontade de fazer parte de um movimento que é colorido, irreverente, pega todo mundo na balada e curte vestir dourado e dançar no pole.
Eu sou bicha. Eu curto vestir dourado e dançar no pole dance, como eu nunca curti os longos dignos da sensualidade feminil. Eu quero ser a femme-fatale, mas eu sempre acabo usando uma bermuda ou bombacha, com minhas pernas peludas, meus tênis de trilha, e agora om estes óculos estou parecendo uma hipster fora de moda, uma indie sem tribo. Eu acho que sou bicha porque eu sempre fui um moleque, mas agora eu me visto bem. Enfim. E eu gosto de homem como um viado, e me sinto muito confortável falando com gay sobre homem, de uma forma que eu não me sinto tão à vontade com a maior parte das mulheres (com exceções, obviamente - mas mesmo com as exceções eu não me sinto totalmente à vontade, por vários motivos que talvez tenham algo por trás).
Eu também tenho sido muito feminista. Porque é a mesma coisa. Porque eu quero defender o meu direito como mulher bissexual que curte namoros abertos e gosta de sexo, porra. Porque eu acho que liberdade sexual é importante. No fundo é isso que está por trás do meu feminismo intenso. Porque eu quero liberdade, liberdade, como eu estou dizendo há tantos anos. Liberdade pra pegar quem você quiser. Liberdade pra se vestir como você quiser. Liberdade pra se divertir como você quiser. (tudo isso, é claro, tem limites também, mas ainda estamos a anos luz de bater com eles). Mas recentemente uma amiga amiga minha reclamou que as meninas do grupo têm sido muito feministas, muito panfletárias. E eu preciso dizer: tem que ser mesmo.
Você, que reclamou, você devia ser feminista. Aposto que você na verdade reclama pelo mesmo motivo que você fica triste porque aquele garoto com quem você saiu te chamou de vadia. Porque você tem mêdo de enfrentar. Você tem mêdo de que ele tenha razão. Você quer viver a vida do seu jeito, mas você não quer lutar pelo direito de ser respeitada. Você não faz sentido! Eu preciso te puxar e dizer que eu não acredito na sua reclamação. Eu tentei te convencer de que o que o garoto disse não era verdade. Mas eu, eu passei a vida inteira lutando, desde os quatro anos, lutando, lutando, eu treinei com os meus demônios internos antes de vir pro pau da vida real. Eu admiro você, e você ousa ter vergonha justamente da parte de você que eu admiro?! Eu invejo você, mas você não inveja a si mesma. Mas eu vou dizer, você está errada ao querer que a gente pare de panfletar. Eu pensei muito sobre isso e agora eu tenho certeza: a gente tem sim que panfletar.
Quando teve a Parada Gay e a gente não foi, o Fê chegou puto (vestindo uma coroa, e super gay, e lindo, e muito puto) com a gente porque nenhum de nós, gays, tinha ido na Parada. Nenhum de nós tinha aturado o ridículo e se divertido com o ridículo pra mostrar ao mundo que estamos lá. Eu me senti horrível, porque ele tinha razão. Mas na época eu estava mais ferida com o desrespeito a qualquer um que queira se identificar como bissexual, e eu não queria dançar junto com o povo que me reprimia dessa forma. Mas se fosse hoje, eu iria. E eu deveria ter ido, senão por mim, pelo menos por ele. Porque eu não quero jamais viver num mundo onde meus amigos tenham sua liberdade sexual toldada de maneira tão extensa. Este mundo em que a gente vive, em que quando a gente conhece um estranho, a primeira coisa que a gente faz é avaliar o quanto a gente tem que esconder e mentir.
E também tenho panfletado (devia fazer mais) sobre ciclismo, porque eu me sinto tanto
uma minoria toda vez que ando de bicicleta e toda vez que falo sobre isso que às vezes acho que deveria ter uma lei dizendo "Não discriminarás por sexo, gênero, religião, etnia, opção sexual ou meio de transporte". E o foda é que meus parentes e amigos me discriminam. Como sempre, o que dói mais é que os parentes e amigos também discriminam. Mas eu não sei se eu deveria me sentir tão mal. Eu também os discrimino por usarem carro demais. Eu discrimino meus pais por não pegarem ônibus. Eu tento ignorar, quando eu ouço um "Quando você dirigir todo dia..." (mãe, se tudo der certo, isso nunca vai acontecer).
A gente panfleta porque a gente quer que todo mundo esteja o tempo todo pensando nisso. A gente não quer ser ignorado. Talvez a forma esteja errada, talvez o jeito de chamar a atenção esteja sendo pouco efetivo. Talvez. Mas política não é uma coisa que pode ser deixada apenas para os momentos "apropriados". Não adianta discutir apenas com as pessoas próximas, nos momentos íntimos. Tem que discutir publicamente, tem que dar a cara pra bater. Eu dou a minha cara pra bater, cada dia mais. Eu prefiro levar porrada a viver me sentindo oprimida. Meu objetivo é chegar ao ponto em que eu não tenha mais vergonha nenhuma de defender o que eu acho certo. E correr o risco de levar tapa na cara.
Discutam.
Quando eu digo "gay", eu não quero dizer homossexual. Eu já passei por épocas muito lésbicas, e já passei por épocas femininas, e já passei por épocas de macho e por épocas gays. Estou numa época em que me identifico mais com homens gays. Em parte é porque eu estou admitindo que durante a maior parte da minha vida eu quis ser um homem, e só me conformei em encontrar as vantagens de ser mulher ("vantagens" é um termo estranho pra isso - digamos as "partes que eu gosto" de ser mulher). Em parte é simplesmente porque sexo gay é muito sexy, e eu detesto quando eu não posso participar (obs.: viva os homens bi!!!). Em parte é porque eu tenho tido vontade de fazer parte de um movimento que é colorido, irreverente, pega todo mundo na balada e curte vestir dourado e dançar no pole.
Eu sou bicha. Eu curto vestir dourado e dançar no pole dance, como eu nunca curti os longos dignos da sensualidade feminil. Eu quero ser a femme-fatale, mas eu sempre acabo usando uma bermuda ou bombacha, com minhas pernas peludas, meus tênis de trilha, e agora om estes óculos estou parecendo uma hipster fora de moda, uma indie sem tribo. Eu acho que sou bicha porque eu sempre fui um moleque, mas agora eu me visto bem. Enfim. E eu gosto de homem como um viado, e me sinto muito confortável falando com gay sobre homem, de uma forma que eu não me sinto tão à vontade com a maior parte das mulheres (com exceções, obviamente - mas mesmo com as exceções eu não me sinto totalmente à vontade, por vários motivos que talvez tenham algo por trás).
Eu também tenho sido muito feminista. Porque é a mesma coisa. Porque eu quero defender o meu direito como mulher bissexual que curte namoros abertos e gosta de sexo, porra. Porque eu acho que liberdade sexual é importante. No fundo é isso que está por trás do meu feminismo intenso. Porque eu quero liberdade, liberdade, como eu estou dizendo há tantos anos. Liberdade pra pegar quem você quiser. Liberdade pra se vestir como você quiser. Liberdade pra se divertir como você quiser. (tudo isso, é claro, tem limites também, mas ainda estamos a anos luz de bater com eles). Mas recentemente uma amiga amiga minha reclamou que as meninas do grupo têm sido muito feministas, muito panfletárias. E eu preciso dizer: tem que ser mesmo.
Você, que reclamou, você devia ser feminista. Aposto que você na verdade reclama pelo mesmo motivo que você fica triste porque aquele garoto com quem você saiu te chamou de vadia. Porque você tem mêdo de enfrentar. Você tem mêdo de que ele tenha razão. Você quer viver a vida do seu jeito, mas você não quer lutar pelo direito de ser respeitada. Você não faz sentido! Eu preciso te puxar e dizer que eu não acredito na sua reclamação. Eu tentei te convencer de que o que o garoto disse não era verdade. Mas eu, eu passei a vida inteira lutando, desde os quatro anos, lutando, lutando, eu treinei com os meus demônios internos antes de vir pro pau da vida real. Eu admiro você, e você ousa ter vergonha justamente da parte de você que eu admiro?! Eu invejo você, mas você não inveja a si mesma. Mas eu vou dizer, você está errada ao querer que a gente pare de panfletar. Eu pensei muito sobre isso e agora eu tenho certeza: a gente tem sim que panfletar.
Quando teve a Parada Gay e a gente não foi, o Fê chegou puto (vestindo uma coroa, e super gay, e lindo, e muito puto) com a gente porque nenhum de nós, gays, tinha ido na Parada. Nenhum de nós tinha aturado o ridículo e se divertido com o ridículo pra mostrar ao mundo que estamos lá. Eu me senti horrível, porque ele tinha razão. Mas na época eu estava mais ferida com o desrespeito a qualquer um que queira se identificar como bissexual, e eu não queria dançar junto com o povo que me reprimia dessa forma. Mas se fosse hoje, eu iria. E eu deveria ter ido, senão por mim, pelo menos por ele. Porque eu não quero jamais viver num mundo onde meus amigos tenham sua liberdade sexual toldada de maneira tão extensa. Este mundo em que a gente vive, em que quando a gente conhece um estranho, a primeira coisa que a gente faz é avaliar o quanto a gente tem que esconder e mentir.
E também tenho panfletado (devia fazer mais) sobre ciclismo, porque eu me sinto tanto
uma minoria toda vez que ando de bicicleta e toda vez que falo sobre isso que às vezes acho que deveria ter uma lei dizendo "Não discriminarás por sexo, gênero, religião, etnia, opção sexual ou meio de transporte". E o foda é que meus parentes e amigos me discriminam. Como sempre, o que dói mais é que os parentes e amigos também discriminam. Mas eu não sei se eu deveria me sentir tão mal. Eu também os discrimino por usarem carro demais. Eu discrimino meus pais por não pegarem ônibus. Eu tento ignorar, quando eu ouço um "Quando você dirigir todo dia..." (mãe, se tudo der certo, isso nunca vai acontecer).
A gente panfleta porque a gente quer que todo mundo esteja o tempo todo pensando nisso. A gente não quer ser ignorado. Talvez a forma esteja errada, talvez o jeito de chamar a atenção esteja sendo pouco efetivo. Talvez. Mas política não é uma coisa que pode ser deixada apenas para os momentos "apropriados". Não adianta discutir apenas com as pessoas próximas, nos momentos íntimos. Tem que discutir publicamente, tem que dar a cara pra bater. Eu dou a minha cara pra bater, cada dia mais. Eu prefiro levar porrada a viver me sentindo oprimida. Meu objetivo é chegar ao ponto em que eu não tenha mais vergonha nenhuma de defender o que eu acho certo. E correr o risco de levar tapa na cara.
Discutam.
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