Aqui estamos, e somos onze. Onde dos quinze que partiram. Onze dentre todos os que se dispuseram.
A Letra.
A Faca.
O broche e a chave.
A pata.
O pingente.
A máscara.
O laço.
O cinto.
O Giz.
O focinho.
O pedal.
E o escudo.
Nós nos voltamos para o passado. Nós perguntamos sobre o passado. A Letra se imprime sobre a Pele do passado. Nossos olhos são espelhos que distorcem a luz do passado. Nós somos lentes. Nós escrevemos.
Um de nós se ergue sobre duas pernas. Um de nós renega nosso antigo nome. Um de nós desce de seu cavalo e corta suas tranças e as joga sobre o chão onde pisa. Um de nós ergue-se novamente.
O Focinho se ergue em direção a ele. Um de nós acaricia o focinho e o abandona. Um de nós abandona nosso antigo nome.
Uma de nós se levanta em oposição a ele. Um de nós oferece seu corpo para a faca, que ela marque seu corpo e o submeta. A Faca o corta. Uma de nós marca nele nosso indelével nome. Um de nós sangra e se reconstitue. A Faca e o Escudo são idênticos. Nossos olhos são espelhados e refletem imagens idênticas, um macho pequeno e coberto de sangue e uma fêmea grande e coberta de sangue. Um de nós ajoelha-se e uma de nós o abraça. Mas por fim se separam. Um de nós apaga nosso único nome.
Somos múltiples. A Máscara o veste e mostra nossa História. A Letra se escreve e conta nossa História. Um de nós aceita em reclusão. A caverna de nossa História é escura e longa e suas paredes contam de muitas coisas. Um de nós ouve em atenção. Nós o mandaremos como nosso mensageiro e como nosso cônsul, para os domínios que nossas vozes falham em alcançar. Nós o mandaremos ao passo em que ele se manda, fugido de nós.
O Focinho o morde.
A Pata o sagra. Uma de nós o olha nos olhos e o absolve e condena. Uma de nós lhe dá uma missão. Uma de nós o ama e o fertiliza, para que ele chegue prenhe ao seu universo. A Máscara o abençoa e o compreende. O Broche e a Chave o vestem e o ornam, mas ele os guarda numa caixa de madeira. Um de nós despe-se e se apresenta nu. O pingente transforma-se e o protege. Um de nós agradece.
O Cinto e o Giz transformam-se em objetos para que um de nós o use. Mas ele os guarda também, em silêncio. Ele os usará quando for a hora.
Finalmente, o Laço o abraça. A Letra abre seu livro e o Laço chama através dele todas as vozes que precisam se ouvir presentes. Um de nós toca cada um de nós em respeito, amor e premonição. Estamos no fim da caverna e há paisagens lá fora. Todas nós nos agrupamos na beirada da caverna. As paisagens nos perturbam e nos confundem. Nós nem sempre podemos transitar no mundo lá fora.
Uma de nós dá alguns passos para fora e invoca o Futuro. Nossos deuses sussuram como árvores balançadas pelo vento.
Um de nós começa sua jornada.
palavra por palavra, procuro chegar, devagar, ao lugar de La Loba.
"O silêncio", disse o griot,"só é escuro no começo..."
Mostrando postagens com marcador decisões. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador decisões. Mostrar todas as postagens
sexta-feira, 6 de dezembro de 2013
quinta-feira, 8 de agosto de 2013
Ser mulher
Passar na banca ou no supermercado, na casa da tia ou no consultório, e ver uma revista "para mulheres" sempre me desagradou profundamente. Digo, houve aquele momento na adolescência em que elas me despertaram alguma curiosidade, porque todas as revistas de notícias eram chatas, e revistas femininas falavam de coisas mais humanas, e eu estava tentando descobrir qual era o meu papel no mundo e o que era essa coisa que eu deveria ter chamada "gênero". Por um momento breve eu gostei de ler as MarieClaires e as Cláudias que mães e tias levavam para as férias na praia e fins de semana no sítio. Mas a curiosidade passou e rapidamente virou asco. Com o tempo revistas femininas começaram a me dar engulhos de longe, só de vislumbrar as caras e roupas e poses que as modelos e celebridades faziam nas capas cheias de promessas de curas milagrosas para as doenças da gordura, da feiúra, da falta de tesão, da falta de homem, da falta de perfeição e dinheiro e adequação aos padrões. Aquela coisa de sempre, do mundo ao redor. Com o tempo eu passei a odiar revistar femininas com paixão, a ponto de achá-las mais desagradáveis que as revistas masculinas. Curioso como revistas masculinas são revistas de mulher pelada, enquanto revistas femininas ensinam mulheres a como ficarem peladas.
É um pouco difuso pra mim por que eu sinto uma repulsa tão forte por revista de mulher. Eu não consigo simplesmente passar por cima das capas, reconhecendo que eu não sou o público alvo da revista. Talvez porque seria falso, e fácil demais, descartar qualquer expressão midiática com o argumento de que "eu não sou o público alvo". Como dizer que eu não sou exatamente o público alvo de uma TPM ou de uma Nova, assim como fui o público alvo de Witch e Capricho, e serei, na idade apropriada, o público alvo da MarieClaire? Se você perguntasse a qualquer pessoa da minha família ela poderia me descrever como uma mulher de classe média-alta, entre 20 e 30 anos, buscando sua independência e interessada em homens, ainda por cima branca, e bonita; gosto de me vestir bem e me preocupo com meu corpo. Como mais a editora de uma revista dessas descreve seu público? E entretanto ao escrever essas palavras fica claro, gritantemente claro, que eu estou completamente fora desse suposto público-alvo.
No fundo tudo é uma questão de pertencimento. Provavelmente o que me dói mesmo nas revistas femininas é o quanto elas simbolizam tudo a que eu não pertenço e nunca pertencerei -- e nem quero pertencer. Quase nenhuma pessoa minha amiga de fato lê qualquer uma dessas revistas -- eu imagino minha irmã me dizendo agora como ela também odeia essas revistas, como a imagem de mulher que elas constroem é errada, como é mesmo ofensivo que elas sejam "voltadas para mulheres" quando uma parte tão grande das mulheres se sente enojada com os ideais que perpassam essas revistas que, como eu disse, insistem demais em ensinar como ficar pelada. Pra mim as revistas de mulher são o símbolo máximo dessa feminilidade que eu odeio, dessa femilidade que me rejeita e que ao mesmo tempo, com muito mais violência, tenta me assimilar.
No fundo tudo é uma questão de pertencimento. O que me dói mesmo, mais fundo, é o quanto essas revistas simbolizam todo um gênero que tenta me pertencer, me engolir. Essas revistas não existem num vácuo onde eu poderia esquecer de sua existência como eu esqueço da existência de um pornô bizarro japonês. Essas revistas são apenas uma entre muitas expressões desse feminino simpático, amoroso, que quer o meu bem, que quer me fazer melhor, que quer me fazer me vestir melhor, parecer melhor, falar melhor. Todo um gênero que quer me assimilar com sorrisos e reprimandas gentis. Conselhos. Elogios. Aquela coisa que elas chamam de empatia entre mulheres ou algo assim. Logo passará a chamar sororidade, espera o termo pegar no feminismo de manicure. As mulheres estão aqui para você. Estão aqui pra tudo, somos todas uma grande união, sorrateiramente longe dos olhares dos homens, aqui no espaço feminino onde podemos conversar sobre "coisa de mulher".
Coisa de mulher. A mulher da revista feminina pode até ser feminista ou não, pode ser lésbica ou não, pode ser bi, pode ser japonesa, pode fazer tae-kwon-dô, pode ser empresária e até mesmo cientista. Mas a mulher de revista sempre depila as pernas, mesmo se ela não tiver quase nada de pêlos, e se acontecer de ela ficar peluda mesmo ela usa calça jeans independente do calor. A mulher de revista vai no cabelereiro conversar com as amigas e pintas as unhas. A mulher de revista adora esse momento de intimidade feminina.
Eu detesto esse momento de intimidade feminina. Aliás eu detesto intimidade feminina. Pra mim é como uma cusparada na cara, depois de crescer aprendendo todos os detalhes repressores desse seu modelo de mulher, espera-se ainda que eu me identifique com mulheres, que eu me sinta confortável entre mulheres. De alguma forma eu deslizei pra fora do cistema nessa, pra mim "mulher" virou sinônimo de repressão, "mulher" como uma roupa apertada, como um sutiã que machuca, "mulher" como uma manicure desajeitada arrancando pedaços das minhas unhas, "mulher" como castração, "mulher" como depiladora arrancando pele e sangue e pêlos e variados pedaços de mim. Empatia de gênero como uma facada que me desespera mais do que misoginia. "Mulher" como assimilação, "mulher" como colonização.
Nada me desestabiliza tanto quanto ser colocada num grupo de pessoas que se identificam confortavelmente como mulheres. Mesmo que não sejam essas mulheres familiares, mulheres que pintam as unhas, que se depilam, que lêm revista feminina. Existe pelo menos um outro grupo de mulheres que me aflige: mulheres feministas, lésbicas, que quebram os padrões de gênero, masculinizadas, butch, punk, roqueiras, que mantém aquele impressionante orgulho feminista de gênero, aquele orgulho de ser mulher que resulta da ressignificação da palavra "mulher" em "aquilo que eu sou". Aliás as mulheres feministas em geral, com sua sororidade e whatnot (especialmente as muito definitivamente lésbicas), quando têm muita confiança na sua mulheridade, como me perturbam. Me perturbam quando me assimilam, quando me reconhecem como uma igual, quando dão a mim um tratamento amigável que recusam a amigos meus que me são mais próximos do que qualquer uma delas jamais será, quando negam às pessoas que são como minha família um carinho que dispensam a mim, mesmo quando me desejam seu desejo me perturba, talvez porque sinto muito profundamente que nossa relação é falsa, que nossa intimidade é falsa e ruirá quando elas enxergarem meu eu real, quando elas enxergarem que não sou uma delas (e me perturbam também quando vejo refletidos comportamentos meus iguais aos delas. Me perturbam pela semelhança, me afastam pela proximidade).
Me perturbam, todas as mulheres que sabem que são mulheres, me perturbam com uma certa inveja ruim, de quem não quer fazer parte de um grupo, apenas lhe inveja os privilégios. O privilégio de conseguir ser mulher. O privilégio de terem umas às outras. Tenho uma inveja louca, sempre tive, das mulheres para quem é fácil fazer amizade com outras mulheres. Eu por mim não tenho muita fé sequer na minha capacidade de fazer amizade com seres humanos. Eu sempre me senti um estranho no ninho entre mulheres, me esforçando para me assemelhar a elas, assimilando alguns comportamentos, fazendo toda uma farsa. Eu nunca entendi como era possível que elas pudessem conviver comigo. Eu ria de suas piadas, mas não conseguia entender a graça. E quando de fato fiz amizade com mulheres, me dei conta de que não era diferente de fazer amizade com homens. Anos depois, porém, descobri que muitos homens ainda mantinham a maior parte de sua masculinidade social escondida de mim, num lugar de macho onde podiam ficar as escrotices de moleques.
"Sororidade" é uma palavra que engasga na garganta. Sororidade entre pessoas que se desconhecem. É uma palavra que se usa com liberdade demais. Ou que eu não entendo. Talvez, como mil coisas no universo feminino, a idéia de sororidade esteja além da minha compreensão. O feminismo da sororidade está além de mim, um feminismo de mulheres não me abarca, não me carrega. Eu sinto os discursos de sororidade como assimilação, como colonização -- de mim, que não me sinto nada, de mim que tenho sangue branco, sangue europeu, sangue laçador de índia, sangue também, disperso talvez, de índia laçada, sangue de imigrante, sangue de bandeirante, entretanto me sinto uma etnia própria, muito selvagem para ser branca, muito branca para deixar de sê-lo -- mas tento imaginar como espera-se que todas as mulheres do mundo se unam, se sintam comuns. Uma palavra que ignora as diferenças, que nos supõe unidas e juntas por um ideal únicos, e nos une por nossos gêneros não me abarca, por mais que tente me assimilar.
Ou talvez seja apenas uma questão de pertencimento, insolúvel. Talvez eu sinta que o feminino tenta me assimilar justamente porque ele falha. Entretanto um sentimento de irmandade não é impossível, mesmo uma irmandade de gênero. O quanto me dói receber uma simpatia que não me cabe, que é negada às pessoas que são como eu, talvez seja justamente mais dolorosa pela imensa empatia que tenho pelas pessoas que reconheço que são, sim, como eu, e que entretanto são excluídas dessa simpatia.
Eu não faço parte do seu público-alvo, por mais que a revista feminina e a simpatia feminina e todas as feminilidades continuem tentando me assimilar. É hora de eu mandar as feminilidades todas pro espaço e parar de tentar ser mulher.
É um pouco difuso pra mim por que eu sinto uma repulsa tão forte por revista de mulher. Eu não consigo simplesmente passar por cima das capas, reconhecendo que eu não sou o público alvo da revista. Talvez porque seria falso, e fácil demais, descartar qualquer expressão midiática com o argumento de que "eu não sou o público alvo". Como dizer que eu não sou exatamente o público alvo de uma TPM ou de uma Nova, assim como fui o público alvo de Witch e Capricho, e serei, na idade apropriada, o público alvo da MarieClaire? Se você perguntasse a qualquer pessoa da minha família ela poderia me descrever como uma mulher de classe média-alta, entre 20 e 30 anos, buscando sua independência e interessada em homens, ainda por cima branca, e bonita; gosto de me vestir bem e me preocupo com meu corpo. Como mais a editora de uma revista dessas descreve seu público? E entretanto ao escrever essas palavras fica claro, gritantemente claro, que eu estou completamente fora desse suposto público-alvo.
No fundo tudo é uma questão de pertencimento. Provavelmente o que me dói mesmo nas revistas femininas é o quanto elas simbolizam tudo a que eu não pertenço e nunca pertencerei -- e nem quero pertencer. Quase nenhuma pessoa minha amiga de fato lê qualquer uma dessas revistas -- eu imagino minha irmã me dizendo agora como ela também odeia essas revistas, como a imagem de mulher que elas constroem é errada, como é mesmo ofensivo que elas sejam "voltadas para mulheres" quando uma parte tão grande das mulheres se sente enojada com os ideais que perpassam essas revistas que, como eu disse, insistem demais em ensinar como ficar pelada. Pra mim as revistas de mulher são o símbolo máximo dessa feminilidade que eu odeio, dessa femilidade que me rejeita e que ao mesmo tempo, com muito mais violência, tenta me assimilar.
No fundo tudo é uma questão de pertencimento. O que me dói mesmo, mais fundo, é o quanto essas revistas simbolizam todo um gênero que tenta me pertencer, me engolir. Essas revistas não existem num vácuo onde eu poderia esquecer de sua existência como eu esqueço da existência de um pornô bizarro japonês. Essas revistas são apenas uma entre muitas expressões desse feminino simpático, amoroso, que quer o meu bem, que quer me fazer melhor, que quer me fazer me vestir melhor, parecer melhor, falar melhor. Todo um gênero que quer me assimilar com sorrisos e reprimandas gentis. Conselhos. Elogios. Aquela coisa que elas chamam de empatia entre mulheres ou algo assim. Logo passará a chamar sororidade, espera o termo pegar no feminismo de manicure. As mulheres estão aqui para você. Estão aqui pra tudo, somos todas uma grande união, sorrateiramente longe dos olhares dos homens, aqui no espaço feminino onde podemos conversar sobre "coisa de mulher".
Coisa de mulher. A mulher da revista feminina pode até ser feminista ou não, pode ser lésbica ou não, pode ser bi, pode ser japonesa, pode fazer tae-kwon-dô, pode ser empresária e até mesmo cientista. Mas a mulher de revista sempre depila as pernas, mesmo se ela não tiver quase nada de pêlos, e se acontecer de ela ficar peluda mesmo ela usa calça jeans independente do calor. A mulher de revista vai no cabelereiro conversar com as amigas e pintas as unhas. A mulher de revista adora esse momento de intimidade feminina.
Eu detesto esse momento de intimidade feminina. Aliás eu detesto intimidade feminina. Pra mim é como uma cusparada na cara, depois de crescer aprendendo todos os detalhes repressores desse seu modelo de mulher, espera-se ainda que eu me identifique com mulheres, que eu me sinta confortável entre mulheres. De alguma forma eu deslizei pra fora do cistema nessa, pra mim "mulher" virou sinônimo de repressão, "mulher" como uma roupa apertada, como um sutiã que machuca, "mulher" como uma manicure desajeitada arrancando pedaços das minhas unhas, "mulher" como castração, "mulher" como depiladora arrancando pele e sangue e pêlos e variados pedaços de mim. Empatia de gênero como uma facada que me desespera mais do que misoginia. "Mulher" como assimilação, "mulher" como colonização.
Nada me desestabiliza tanto quanto ser colocada num grupo de pessoas que se identificam confortavelmente como mulheres. Mesmo que não sejam essas mulheres familiares, mulheres que pintam as unhas, que se depilam, que lêm revista feminina. Existe pelo menos um outro grupo de mulheres que me aflige: mulheres feministas, lésbicas, que quebram os padrões de gênero, masculinizadas, butch, punk, roqueiras, que mantém aquele impressionante orgulho feminista de gênero, aquele orgulho de ser mulher que resulta da ressignificação da palavra "mulher" em "aquilo que eu sou". Aliás as mulheres feministas em geral, com sua sororidade e whatnot (especialmente as muito definitivamente lésbicas), quando têm muita confiança na sua mulheridade, como me perturbam. Me perturbam quando me assimilam, quando me reconhecem como uma igual, quando dão a mim um tratamento amigável que recusam a amigos meus que me são mais próximos do que qualquer uma delas jamais será, quando negam às pessoas que são como minha família um carinho que dispensam a mim, mesmo quando me desejam seu desejo me perturba, talvez porque sinto muito profundamente que nossa relação é falsa, que nossa intimidade é falsa e ruirá quando elas enxergarem meu eu real, quando elas enxergarem que não sou uma delas (e me perturbam também quando vejo refletidos comportamentos meus iguais aos delas. Me perturbam pela semelhança, me afastam pela proximidade).
Me perturbam, todas as mulheres que sabem que são mulheres, me perturbam com uma certa inveja ruim, de quem não quer fazer parte de um grupo, apenas lhe inveja os privilégios. O privilégio de conseguir ser mulher. O privilégio de terem umas às outras. Tenho uma inveja louca, sempre tive, das mulheres para quem é fácil fazer amizade com outras mulheres. Eu por mim não tenho muita fé sequer na minha capacidade de fazer amizade com seres humanos. Eu sempre me senti um estranho no ninho entre mulheres, me esforçando para me assemelhar a elas, assimilando alguns comportamentos, fazendo toda uma farsa. Eu nunca entendi como era possível que elas pudessem conviver comigo. Eu ria de suas piadas, mas não conseguia entender a graça. E quando de fato fiz amizade com mulheres, me dei conta de que não era diferente de fazer amizade com homens. Anos depois, porém, descobri que muitos homens ainda mantinham a maior parte de sua masculinidade social escondida de mim, num lugar de macho onde podiam ficar as escrotices de moleques.
"Sororidade" é uma palavra que engasga na garganta. Sororidade entre pessoas que se desconhecem. É uma palavra que se usa com liberdade demais. Ou que eu não entendo. Talvez, como mil coisas no universo feminino, a idéia de sororidade esteja além da minha compreensão. O feminismo da sororidade está além de mim, um feminismo de mulheres não me abarca, não me carrega. Eu sinto os discursos de sororidade como assimilação, como colonização -- de mim, que não me sinto nada, de mim que tenho sangue branco, sangue europeu, sangue laçador de índia, sangue também, disperso talvez, de índia laçada, sangue de imigrante, sangue de bandeirante, entretanto me sinto uma etnia própria, muito selvagem para ser branca, muito branca para deixar de sê-lo -- mas tento imaginar como espera-se que todas as mulheres do mundo se unam, se sintam comuns. Uma palavra que ignora as diferenças, que nos supõe unidas e juntas por um ideal únicos, e nos une por nossos gêneros não me abarca, por mais que tente me assimilar.
Ou talvez seja apenas uma questão de pertencimento, insolúvel. Talvez eu sinta que o feminino tenta me assimilar justamente porque ele falha. Entretanto um sentimento de irmandade não é impossível, mesmo uma irmandade de gênero. O quanto me dói receber uma simpatia que não me cabe, que é negada às pessoas que são como eu, talvez seja justamente mais dolorosa pela imensa empatia que tenho pelas pessoas que reconheço que são, sim, como eu, e que entretanto são excluídas dessa simpatia.
Eu não faço parte do seu público-alvo, por mais que a revista feminina e a simpatia feminina e todas as feminilidades continuem tentando me assimilar. É hora de eu mandar as feminilidades todas pro espaço e parar de tentar ser mulher.
quinta-feira, 20 de outubro de 2011
Sucinto
De dentro de mim, ouço um sussurro que é praticamente um choro.
"I'm empty and aching and I don't know why."
Eu sou o lobo na noite, solitário, andando lentamente por entre as árvores. Eu sou a fome e o frio, eu sou o vento uivando no centro da cidade. Eu vejo um coelho passando, desatento, mas desta vez eu sequer tenho vontade de caçá-lo. A fome já está muito próxima de mim para isso.
"Magic or love or battle or death - you'll take any of them."
Hoje eu sonhei com uma pessoa. Meia hora depois, pensar sobre o sonho tinha me levado a pensar em outra. De novo eu pensei naquela noite tanto tempo atrás, and I started crying when I started feeling that rancid smell of stale love. Fuck that. It's been too long, and my tears are only telling me to move on. I hate this part. I hate giving up on a feeling. Acho que a única saída é procurar um novo sonho. Um sonho mais... real.
Eu vou esquecer tudo deste vez. Eu vou desencanar e relaxar e parar de me importar tanto com as conseqüências. Eu vou parar de chorar sem mootivo e ir atrás daquilo que está por trás. Eu vou parar de ter mêdo de perder a dignidade. Pelo menos uma vez eu vou tentar ser algo diferente.
"I'm empty and aching and I don't know why."
Eu sou o lobo na noite, solitário, andando lentamente por entre as árvores. Eu sou a fome e o frio, eu sou o vento uivando no centro da cidade. Eu vejo um coelho passando, desatento, mas desta vez eu sequer tenho vontade de caçá-lo. A fome já está muito próxima de mim para isso.
"Magic or love or battle or death - you'll take any of them."
Hoje eu sonhei com uma pessoa. Meia hora depois, pensar sobre o sonho tinha me levado a pensar em outra. De novo eu pensei naquela noite tanto tempo atrás, and I started crying when I started feeling that rancid smell of stale love. Fuck that. It's been too long, and my tears are only telling me to move on. I hate this part. I hate giving up on a feeling. Acho que a única saída é procurar um novo sonho. Um sonho mais... real.
Eu vou esquecer tudo deste vez. Eu vou desencanar e relaxar e parar de me importar tanto com as conseqüências. Eu vou parar de chorar sem mootivo e ir atrás daquilo que está por trás. Eu vou parar de ter mêdo de perder a dignidade. Pelo menos uma vez eu vou tentar ser algo diferente.
domingo, 28 de fevereiro de 2010
Mais um capítulo na minha epopéia
Este capítulo vai ser um apanhado de pensamentos que me ocorreram ao longo do dia:
I
Embora eu tenha decidido há muito tempo não fazer Design, por todos os lado que eu via o problema eu chegava sempre à conclusão de que ainda era aquilo o que eu queria ser e fazer, o que era o mais legal, a minha essência. Eu olhava os problemas com olhar de designer, eu olho para o mundo com esse olhar. Eu defendo o design contra todos os ataques e insisto que ele é o mais importante. Eu sempre achei que o problema não fosse o tema em si, mas o método do curso, e que no fim eu ia acabar voltando, quem sabe com um diploma ou dois, para acabar me tornando Designer.
Nos últimos dias isso vem, lentamente, mudando. Não sei que mudança é essa, nas minhas prioridades e nos meus desejos. Nos últimos dias eu tenho sentido um interesse pela física, pela química e pela biologia que eu não sentia desde o colegial, quando eu cogitava me tornar cientista. Eu tenho desejado aprender com tanto fervor quanto naquela época, e não apenas para me tornar algo maior, mas também pelo puro interesse pelo conhecimento. De repente tenho ficado em dúvida se o mais importante é salvar o mundo, trabalhar no mundo, ou antes de tudo compreendê-lo.
II
Como disse no ítem anterior, no segundo colegial eu passei por uma fase em que Física e Química me pareciam os cursos mais empolgantes. Eu queria conhecer o mundo, queria estudar matemática, queria trabalhar em laboratório e enxergar trocas de energia em tudo o que eu visse, pois é. Por muitos anos depois disso lembrei dessa empolgação como um deslize, uma paixão passageira por uma coisa que pra mim era um hobbie, uma diversãozinha que eu podia praticar na escola, um jogo para jogar com os amigos. Não: eu queria mesmo saber de tudo, perguntava para os professores sobre as folhas anômalas da grama, fazia anotações sobre os insetos, tentava imaginar as fórmulas dos ingredientes do shampoo.
Esses dias minha mãe me disse que naquela época ela achava que eu ia fazer Física, que ela nunca entendeu por que eu fui fazer Design, e aí meio que tudo voltou com tudo, todas as questões daquela época, como Design tinha me parecido a mistura certa de ciência e arte (que ingenuidade a minha, não?), como ciência e arte eram próximas para mim e como na verdade eu queria descobrir mais sobre o mundo antes de poder mudá-lo com minhas próprias mãos! Eu não lembro de como foi começar a faculdade, mas deve ter sido mesmo terrível pra mim; eu lembro da empolgação de estudar Fotografia, Desenho, história do design, editoração, técnicas visuais (sim, o curso do SENAC me empolgava bem mais que o da FAU), história da arte (que eu tinha esperado a vida toda pra estudar), técnicas de gravura, e... Bom, não sei se tinha mais.
Hoje tudo me parece uma decepção tão grande, eu descobri que não ia ter cálculo nem física, parei o SENAC com todas as suas matérias legais, não houveram mais aulas de técnicas no Design, as aulas de ergonomia eram um saco, eu acabei não aprendendo o que eu queria aprender e aprendendo bem mal o que eles achavam que eu devia aprender. Mesmo assim, naquela época eu culpava minha má interação com os colegas e veteranos, minha falta de hábito de estudar, o choque de perder o jantar com a família (acho que acabei perdendo minha família nessa), minha dificuldade de interagir com a burocracia (e minha timidez de modo geral) — enfim eu julgava que se eu crescesse, amadurecesse e aprendesse a ser como eles, tudo ia se encaixar magicamente; eu achava que só dependia de mim.
III
Hoje eu percebo o quanto eu senti falta da pesquisa — esse espírito de procurar, de investigar, de modelar e imaginar possibilidades, de construir: como isso falta! O conhecimento associado ao Design deveria ser uma Tecnologia. Assim como ao longo dos séculos se desenvolveram novas estratégias de Go, ao longo do tempo mesmo os materiais e técnicas antigos podem ser reinventados em processos e produtaos novos! Se houver um esforço de reunir o que já foi feito e construir em cima disso, quão longe podemos chegar? Talvez nada longe, visto que existe um mercado imortal do design ruim (aliás, sempre me pergunto como essa persistência do ruim funciona). Mas talvez muito longe ainda assim! Queria que meu curso tivesse menos projeto e mais estudo, que aprendêssemos uma enorme variedade de técnicas e os detalhes de cada uma delas, para que soubéssemos o que estamos fazendo quando projetamos. Design não é apenas Método! Não quero de forma nenhuma fazer o curso Deisgn FAUUSP, mas ainda acho possível que eu volte para fazer uma pós, um mestrado ou doutorado em design ^^
IV
Enfim eu lembrei que um dia eu quis com muita convicção fazer Física, e fiquei imaginando que coisas estranhas poderiam ter acontecido se eu tivesse feito essa opção. Será que eu teria vários amigos Físicos, conheceria toda a USP e teria tido um primeiro ano feliz? Será que eu teria me dado bem com os físicos que são meus grandes amigos hoje? Talvez isso tivesse sido ótimo, ou talvez fosse péssimo, não dá pra saber. Mas agora não importa muito, eu acho. Esses três anos não foram em vão, eu aprendi muita coisa neles, embora talvez eu tenha me tornado muito menos do que eu esperava.
...
... Acho que tudo está bem quando acaba bem.
I
Embora eu tenha decidido há muito tempo não fazer Design, por todos os lado que eu via o problema eu chegava sempre à conclusão de que ainda era aquilo o que eu queria ser e fazer, o que era o mais legal, a minha essência. Eu olhava os problemas com olhar de designer, eu olho para o mundo com esse olhar. Eu defendo o design contra todos os ataques e insisto que ele é o mais importante. Eu sempre achei que o problema não fosse o tema em si, mas o método do curso, e que no fim eu ia acabar voltando, quem sabe com um diploma ou dois, para acabar me tornando Designer.
Nos últimos dias isso vem, lentamente, mudando. Não sei que mudança é essa, nas minhas prioridades e nos meus desejos. Nos últimos dias eu tenho sentido um interesse pela física, pela química e pela biologia que eu não sentia desde o colegial, quando eu cogitava me tornar cientista. Eu tenho desejado aprender com tanto fervor quanto naquela época, e não apenas para me tornar algo maior, mas também pelo puro interesse pelo conhecimento. De repente tenho ficado em dúvida se o mais importante é salvar o mundo, trabalhar no mundo, ou antes de tudo compreendê-lo.
II
Como disse no ítem anterior, no segundo colegial eu passei por uma fase em que Física e Química me pareciam os cursos mais empolgantes. Eu queria conhecer o mundo, queria estudar matemática, queria trabalhar em laboratório e enxergar trocas de energia em tudo o que eu visse, pois é. Por muitos anos depois disso lembrei dessa empolgação como um deslize, uma paixão passageira por uma coisa que pra mim era um hobbie, uma diversãozinha que eu podia praticar na escola, um jogo para jogar com os amigos. Não: eu queria mesmo saber de tudo, perguntava para os professores sobre as folhas anômalas da grama, fazia anotações sobre os insetos, tentava imaginar as fórmulas dos ingredientes do shampoo.
Esses dias minha mãe me disse que naquela época ela achava que eu ia fazer Física, que ela nunca entendeu por que eu fui fazer Design, e aí meio que tudo voltou com tudo, todas as questões daquela época, como Design tinha me parecido a mistura certa de ciência e arte (que ingenuidade a minha, não?), como ciência e arte eram próximas para mim e como na verdade eu queria descobrir mais sobre o mundo antes de poder mudá-lo com minhas próprias mãos! Eu não lembro de como foi começar a faculdade, mas deve ter sido mesmo terrível pra mim; eu lembro da empolgação de estudar Fotografia, Desenho, história do design, editoração, técnicas visuais (sim, o curso do SENAC me empolgava bem mais que o da FAU), história da arte (que eu tinha esperado a vida toda pra estudar), técnicas de gravura, e... Bom, não sei se tinha mais.
Hoje tudo me parece uma decepção tão grande, eu descobri que não ia ter cálculo nem física, parei o SENAC com todas as suas matérias legais, não houveram mais aulas de técnicas no Design, as aulas de ergonomia eram um saco, eu acabei não aprendendo o que eu queria aprender e aprendendo bem mal o que eles achavam que eu devia aprender. Mesmo assim, naquela época eu culpava minha má interação com os colegas e veteranos, minha falta de hábito de estudar, o choque de perder o jantar com a família (acho que acabei perdendo minha família nessa), minha dificuldade de interagir com a burocracia (e minha timidez de modo geral) — enfim eu julgava que se eu crescesse, amadurecesse e aprendesse a ser como eles, tudo ia se encaixar magicamente; eu achava que só dependia de mim.
III
Hoje eu percebo o quanto eu senti falta da pesquisa — esse espírito de procurar, de investigar, de modelar e imaginar possibilidades, de construir: como isso falta! O conhecimento associado ao Design deveria ser uma Tecnologia. Assim como ao longo dos séculos se desenvolveram novas estratégias de Go, ao longo do tempo mesmo os materiais e técnicas antigos podem ser reinventados em processos e produtaos novos! Se houver um esforço de reunir o que já foi feito e construir em cima disso, quão longe podemos chegar? Talvez nada longe, visto que existe um mercado imortal do design ruim (aliás, sempre me pergunto como essa persistência do ruim funciona). Mas talvez muito longe ainda assim! Queria que meu curso tivesse menos projeto e mais estudo, que aprendêssemos uma enorme variedade de técnicas e os detalhes de cada uma delas, para que soubéssemos o que estamos fazendo quando projetamos. Design não é apenas Método! Não quero de forma nenhuma fazer o curso Deisgn FAUUSP, mas ainda acho possível que eu volte para fazer uma pós, um mestrado ou doutorado em design ^^
IV
Enfim eu lembrei que um dia eu quis com muita convicção fazer Física, e fiquei imaginando que coisas estranhas poderiam ter acontecido se eu tivesse feito essa opção. Será que eu teria vários amigos Físicos, conheceria toda a USP e teria tido um primeiro ano feliz? Será que eu teria me dado bem com os físicos que são meus grandes amigos hoje? Talvez isso tivesse sido ótimo, ou talvez fosse péssimo, não dá pra saber. Mas agora não importa muito, eu acho. Esses três anos não foram em vão, eu aprendi muita coisa neles, embora talvez eu tenha me tornado muito menos do que eu esperava.
...
... Acho que tudo está bem quando acaba bem.
sábado, 27 de fevereiro de 2010
O Engenheiro e o Cientista
Ontem enquanto estudava na Física, tive uma conversa interessante com o Jesus e o Léo. Como era de se esperar a princípio os dois tentaram me dissuadir de fazer Poli, mas no final me deram bons conselhos e me ajudaram a ver a coisa pelo meu lado. Durante a discussão sobre a diferença entre os cursos da Poli e os cursos científicos como Física e CM, ocorreram os seguintes diálogos:
I
— O que mais te fazia falta no Design?
— Bem, — eu comecei, ganhando tempo para pensar com cautela. — Eu sentia muita falta da parte técnica dos projetos. Na verdade eu sentia falta da matemática — descobri que não consigo ficar sem matemática na minha vida — e também de pesquisa: pesquisávamos um pouco sobre alguns projetos e outros designers, isso é legal, mas não é incrível. Acima de tudo, eu sentia falta de entender como as coisas funcionam. Eu queria trabalhar mais na estrutura das coisas.
— ... Você ainda tá matriculada no Design, né?
— Sim, por quê? — eu perguntei. Será que ele ia dizer que eu devia mesmo era continuar no Design, que eu o amava apesar dos defeitos do curso?
— Por que aí quando você finalmente perceber que você quer fazer CM, vai ser só fazer a transferência!
É claro! O pessoal do CM sempre me diz que eu devia ir pra lá, o que eu esperava! Mas será que ele tinha razão? Pensei um pouco, e lembrei: que a estrutura, para um cientista, é a ciência, a física. Repliquei:
— Não sei se você entendeu: eu fazia um projeto de máquina, eu me envolvia, queria mudar a posição do motor para abrir um espaço aqui, e transferir aquela alavanca pra lá que é melhor para a mão, e acho que vou ter que mudar o sistema de transmissão para isso... Mas eu não sei se o peso do motor aqui atrás vai ser demais para essa coluna que o sustenta, ou se vai desalinhar a correia de transmissão, e afinal que outros tipos de transmissão são possíveis pra resolver o problema da alavanca?
(Nota: quando finalmente resolvemos ir atrás dessas informações, lembro que o professor reclamou que estávamos focando apenas na mecânica da máquina. "E o design? Cadê o design?" E eu pensando: pode haver design sem mecânica? Porra, como eu guardo raiva desse dia...)
II
— Vamos esquecer os fins por enquanto e pensar nos meios. Você fez cálculo, não fez?
— Sim, mas não passei. Vou ter que fazer de novo e--
— Mas você lembra do Teorema do Valor Médio, por exemplo?
— Lembro. Por quê?
— Quando você aprende um teorema como esse, você prefere que ele seja demonstrado e provado ou que seja só apresentado como verdade e aplicado exaustivamente para que seja fixado na sua cabeça?
Passei vários segundos pensando nessa pergunta. Por um lado, se o teorema não é muito usado, ele acaba sendo esquecido. Por outro lado, se ele é demonstrado com cuidado, ele pode ser relembrado pela sua demonstração.
— Acho que eu prefiro que haja demonstração. Não me lembro de quase nenhuma demonstração, na verdade, mas lembro que nas aulas da escola eu ficava fascinada pela história do conhecimento: como foi inventado o Teorema de Pitágoras, de onde veio a Fórmula de Báskhara, quem primeiro pensou na idéia de Índice de Refração...
— Se você vê uma demonstração uma vez, e a entende, ela fica pra sempre em algum lugar da sua mente — disse o Jesus.
— Se você gosta de entender de onve vêm as coisas, você vai odiar o Cálculo da Poli.
III
— Eu não quero fazer Cálculo de novo agora, mas estava pensando em pegar a matéria de Física da Poli.
— Por que vai fazer Física e não Cálculo?
— Bom, eu dei uma olhada nas matérias do primeiro semestre, e Física me pareceu a mais "engenheira" depois de Introdução à Engenharia.
— Mas Cálculo é que é a essência da Poli.
No fim das contas, vou fazer o máximo possível de matérias na Poli, quer dizer, todas que eu puder sem sacrificar as duas de computação. Não sei o quanto eu vou amar ou odiar o lugar. Espero que no final eu saiba exatamente o que eu amo e o que eu odeio.
quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010
O Bom, o Ótimo e o Necessário
Ultimamente eu tenho tido umas dúvidas mais objetivas que as de sempre. Por exemplo: será que eu devo fazer cursinho? (não é uma merda que eu tenha que decidir isso até no máximo amanhã?) Ou então: eu devo estudar matemática? A sensação que eu tenho é que qualquer opção sem poréns que eu escolher vai me manter insatisfeita. Por exemplo, se eu estudar só computação vou me incomodar por não estudar mecânica, se eu for fazer mecânica vou odiar ter aulas toscas de computação, e se acabar chutando o balde e indo fazer cm (talvez seja uma idéia boa, não sei) eu vou ficar aflita por não estudar nenhum dos dois direito, mas pelo menos eu vou estar estudando biologia pra compensar. (e química também, mas isso é irrelevante).
A longo prazo talvez essas dúvidas sejam esquecidas, porque eu vou ter muito tempo pra fazer uma porção de matérias extras. Mas eu me pergunto se em cinco ou dez anos eu não vou estar aflita por não estar me especializando. Não que isso seja importante agora. Eu evito pensar a longo prazo porque a incerteza é muito grande; prefiro tentar sobreviver por agora, e pensar em prazos de no máximo três anos.
Eu não sei, três anos atrás a idéia de que eu poderia ficar três anos num curso que não me faz nem um pouco feliz era uma coisa vaga e absurda; eu achava que se não gostasse ia perceber em apenas seis meses e que ia sair logo do curso pra fazer outro. Acho que eu esqueci de levar em conta a minha estupidez natural; acho que esqueci que eu ia evitar a qualquer custo tomar uma decisão que pudesse não ser a certa, ou que não escolher é escolher que não. Eu tenho um pouco de mêdo dessa dor nunca mais passar, sabe? Hoje o que me dói e envergonha não é ter feito design, é não ter saído assim que as coisas começaram a dar errado, é ter insistido quando o melhor era desistir; eu e minha absoluta incapacidade de desistir! Eu poderia ter feito tantas coisas, biologia, pedagogia, artes plásticas, física, eu poderia ter conquistao o mundo se eu tivesse me dado o direito de abrir mão. Que raiva agora! Que arrependimento cruel! Quando eu era pequena, eu detestava a tal ponto o arrependimento que decidi não me arrepender mais, e lacrei esse sentimento. Lacrei tão bem que ele só voltou na faculdade, e com força total — de quantas coisas terríveis eu me arrependo! Como dói por dentro! Como anseio por esquecer esses erros, esquecer as dores e viver numa espécie de sonho de que todas as coisas deram mais ou menos certo! Como odeio a dor de ter me causado (de ter lhe causado) tão intenso sofrimento!
Eu queria mesmo estudar matemática e física suficientes para poder estudar computação e engenharia. Não! O que eu queria mesmo era estudar computação e engenharia, a física, a matemática etc são legais mas acho que não são realmente incríveis, são mais como meios para um fim pra mim. Ou melhor, eu não estou tão incrivelmente interessada assim nas partes mais legais delas. Biologia é outra coisa incrívelmente legal, mas acho que já me afastei demais dela para conseguir voltar atrás e ir atrás dela. É isso que eu acho, que não tenho mais todas as opções, agora eu sinto que o que eu tenho é o design, a mecânica, a eletrônica e a programação. Eu sinto dor nesse pensamento, eu me sinto encurralada.
Eu queria fazer só as matérias de programação do bcc, mas acho que isso é uma armadilha, eles têm uma matemática fudida e superespecífica e acho que eles provavelmente usam ela nos programas. Um dos problemas é que cada instituto tem sua própria matemática e sua própria física, eu não vou conseguir realmente estudar cada coisa uma vez só sem perder um monte de coisa. Eu não sei o que fazer em relação a isso. Eu me dei bem com a computação porque as matérias que eu fiz eram bem introdutórias e eu conseguia entender tudo, mas a maior parte das matérias da poli eram ou muito fáceis ou completamente impossíveis de se entender, então eu ainda não sei se eu posso gostar de estudar na poli, na verdade. Eu espero descobrir, mas por outro lado sinto que vou pegar todas as matérias legais e deixar as chatas, o que é uma merda.
Eu queria não fazer cursinho pra ter tempo pra estudar mais as coisas que me interessam. Mas não vou conseguir me decidir a tempo. E o que meus pais vão dizer se eu começar o cursinho e depois desistir no meio depois de pagar três mensalidades? Eu imagino minha família franzindo a testa pra metade das minhas opções, a pior delas seria fazer CM nesse sentido, e também seria um saco passar dois anos sem poder estudar mecânica e eletrônica e computação direito, o que são bons motivos pra não fazer, os motivos pra fazer seriam que como as matérias lá são fudidas talvez eu conseguisse ter que fazer menos matérias depois, economizar umas matérias se pá (e eu poderia estudar biologia) (e, pensando bem, é um lugar legal).
A vurto prazo, eu fico pensando será que eu devo estudar cálculo? Ou álgebra? Ou física? Ou estatística? Todas essas coisas seriam úteis no futuro, e se eu não fizer agora talvez não consiga fazer depois, mas ao mesmo tempo todas dariam muito trabalho. Será que eu devo fazer todas as matérias legais dos cursos que eu quero, pra ver como é? Laboratório de física para engenharia? Estrutura de dados? O que eu faço? Cursinho? Eu acho que vou odiar o cursinho; será que eu desisto e faço só em agosto?
A longo prazo talvez essas dúvidas sejam esquecidas, porque eu vou ter muito tempo pra fazer uma porção de matérias extras. Mas eu me pergunto se em cinco ou dez anos eu não vou estar aflita por não estar me especializando. Não que isso seja importante agora. Eu evito pensar a longo prazo porque a incerteza é muito grande; prefiro tentar sobreviver por agora, e pensar em prazos de no máximo três anos.
Eu não sei, três anos atrás a idéia de que eu poderia ficar três anos num curso que não me faz nem um pouco feliz era uma coisa vaga e absurda; eu achava que se não gostasse ia perceber em apenas seis meses e que ia sair logo do curso pra fazer outro. Acho que eu esqueci de levar em conta a minha estupidez natural; acho que esqueci que eu ia evitar a qualquer custo tomar uma decisão que pudesse não ser a certa, ou que não escolher é escolher que não. Eu tenho um pouco de mêdo dessa dor nunca mais passar, sabe? Hoje o que me dói e envergonha não é ter feito design, é não ter saído assim que as coisas começaram a dar errado, é ter insistido quando o melhor era desistir; eu e minha absoluta incapacidade de desistir! Eu poderia ter feito tantas coisas, biologia, pedagogia, artes plásticas, física, eu poderia ter conquistao o mundo se eu tivesse me dado o direito de abrir mão. Que raiva agora! Que arrependimento cruel! Quando eu era pequena, eu detestava a tal ponto o arrependimento que decidi não me arrepender mais, e lacrei esse sentimento. Lacrei tão bem que ele só voltou na faculdade, e com força total — de quantas coisas terríveis eu me arrependo! Como dói por dentro! Como anseio por esquecer esses erros, esquecer as dores e viver numa espécie de sonho de que todas as coisas deram mais ou menos certo! Como odeio a dor de ter me causado (de ter lhe causado) tão intenso sofrimento!
Eu queria mesmo estudar matemática e física suficientes para poder estudar computação e engenharia. Não! O que eu queria mesmo era estudar computação e engenharia, a física, a matemática etc são legais mas acho que não são realmente incríveis, são mais como meios para um fim pra mim. Ou melhor, eu não estou tão incrivelmente interessada assim nas partes mais legais delas. Biologia é outra coisa incrívelmente legal, mas acho que já me afastei demais dela para conseguir voltar atrás e ir atrás dela. É isso que eu acho, que não tenho mais todas as opções, agora eu sinto que o que eu tenho é o design, a mecânica, a eletrônica e a programação. Eu sinto dor nesse pensamento, eu me sinto encurralada.
Eu queria fazer só as matérias de programação do bcc, mas acho que isso é uma armadilha, eles têm uma matemática fudida e superespecífica e acho que eles provavelmente usam ela nos programas. Um dos problemas é que cada instituto tem sua própria matemática e sua própria física, eu não vou conseguir realmente estudar cada coisa uma vez só sem perder um monte de coisa. Eu não sei o que fazer em relação a isso. Eu me dei bem com a computação porque as matérias que eu fiz eram bem introdutórias e eu conseguia entender tudo, mas a maior parte das matérias da poli eram ou muito fáceis ou completamente impossíveis de se entender, então eu ainda não sei se eu posso gostar de estudar na poli, na verdade. Eu espero descobrir, mas por outro lado sinto que vou pegar todas as matérias legais e deixar as chatas, o que é uma merda.
Eu queria não fazer cursinho pra ter tempo pra estudar mais as coisas que me interessam. Mas não vou conseguir me decidir a tempo. E o que meus pais vão dizer se eu começar o cursinho e depois desistir no meio depois de pagar três mensalidades? Eu imagino minha família franzindo a testa pra metade das minhas opções, a pior delas seria fazer CM nesse sentido, e também seria um saco passar dois anos sem poder estudar mecânica e eletrônica e computação direito, o que são bons motivos pra não fazer, os motivos pra fazer seriam que como as matérias lá são fudidas talvez eu conseguisse ter que fazer menos matérias depois, economizar umas matérias se pá (e eu poderia estudar biologia) (e, pensando bem, é um lugar legal).
A vurto prazo, eu fico pensando será que eu devo estudar cálculo? Ou álgebra? Ou física? Ou estatística? Todas essas coisas seriam úteis no futuro, e se eu não fizer agora talvez não consiga fazer depois, mas ao mesmo tempo todas dariam muito trabalho. Será que eu devo fazer todas as matérias legais dos cursos que eu quero, pra ver como é? Laboratório de física para engenharia? Estrutura de dados? O que eu faço? Cursinho? Eu acho que vou odiar o cursinho; será que eu desisto e faço só em agosto?
segunda-feira, 14 de dezembro de 2009
Sonho revelador
Tive um sonho hoje. Quer dizer, tive muitos sonhos, mas quero falar sobre um só. Os outros sonhos, bem, não escolhi lembrar deles, sabe? Não foram especialmente relevantes, foram só... sonhos. Desses que a gente tem à noite.
O que quero contar do meu sonho foi uma parte em que nos deparamos com um monstro mecânico, um clank ou um robô. Ele tinha a forma e o comportamento de um animal (eu acho) e era tão interessante quanto um animal verdadeiro. Eu não conseguia tirar os olhos dele: queria decifrá-lo, entender como suas peças se encaixavam, ler seu código-fonte, entender como ele fora feito! Enquanto todas as outras pessoas (eram meus amigos/família, ou seja, Ugo, Marco, Poro, Mãe, não sei bem quem porque tinha muita gente) queriam seguir em frente naquela espécie de Dungeon Sci-Fi de onde estávamos tentando sair (acho que tirei a imagem de Tales of Symphonia), eu queria parar e estudar aquela criatura mecânica. Então, alguém me disse que, se aquilo era tão importante assim pra mim, eu deveria largar o design e ir estudar Engenharia Mecatrônica, que tem como subárea a Robótica. Na hora isso foi uma revelação, todas as minhas dúvidas desapareceram e eu fiquei feliz de saber que eu tinha uma vocação a buscar.
Enfim. Eu detesto sonhos-revelação porque na hora eles são extasiantes mas quando você acorda e pensa direito, vê que nenhuma das suas dúvidas foi sequer comentada no sonho. O que parece óbvio no sonho em geral parece estúpido no Mundo Acordado. Eu realmente prefiro realidade-revelação. Epifanias reais. Daquele tipo que não existe.
Mas, como diria o Ringo, "nothing ever happens to me".
PS.: Eu realmente estava considerando fazer engenharia mecatrônica. É claro! Combinar mecânica e eletrônica, que são coisas que eu sempre quis dominar apesar da minha ignorância total em relação a ambas, com programação, que é uma coisa que me apaixonou instantâneamente? Não parece uma resposta de sonho? Bem, justamente, parece o tipo de coisa que é feita de sonhos mesmo, e eu tenho mêdo de que uma carreira nessa área envolveria um conhecimento porco de mecânica, um conhecimento porco de eletrônica, um conhecimento porco de (controle e automação) programação (eu conheço a Poli, eu sei como as coisas podem ser porcas por lá) e muitas, mas muitas horas mesmo de trabalho ingrato, provavelmente sem nenhum apoio moral ou intelectual bem como é no Design. Eu não quero ter matérias ruins e muita exigência. Claro que parte de mim tem esperança de que eles sigam o mesmo preceito daquele curso absurdo e robado que o Diogo faz: pra aprender sobre várias áreas e não virar um generalista porco, você tem que ter três vezes mais matéria no total que uma pessoa normal. Outra coisa que me ocorre é que talvez o fato de eu me interessar por mecânica, eletrônica e computação seja um bom motivo pra eu fazer um curso técnico mas um mai motivo pra fazer uma faculdade.
Mas como qualquer coisa me parece melhor que o meu curso, eu provavelmente vou mudar pra uma dessas áreas.
O que quero contar do meu sonho foi uma parte em que nos deparamos com um monstro mecânico, um clank ou um robô. Ele tinha a forma e o comportamento de um animal (eu acho) e era tão interessante quanto um animal verdadeiro. Eu não conseguia tirar os olhos dele: queria decifrá-lo, entender como suas peças se encaixavam, ler seu código-fonte, entender como ele fora feito! Enquanto todas as outras pessoas (eram meus amigos/família, ou seja, Ugo, Marco, Poro, Mãe, não sei bem quem porque tinha muita gente) queriam seguir em frente naquela espécie de Dungeon Sci-Fi de onde estávamos tentando sair (acho que tirei a imagem de Tales of Symphonia), eu queria parar e estudar aquela criatura mecânica. Então, alguém me disse que, se aquilo era tão importante assim pra mim, eu deveria largar o design e ir estudar Engenharia Mecatrônica, que tem como subárea a Robótica. Na hora isso foi uma revelação, todas as minhas dúvidas desapareceram e eu fiquei feliz de saber que eu tinha uma vocação a buscar.
Enfim. Eu detesto sonhos-revelação porque na hora eles são extasiantes mas quando você acorda e pensa direito, vê que nenhuma das suas dúvidas foi sequer comentada no sonho. O que parece óbvio no sonho em geral parece estúpido no Mundo Acordado. Eu realmente prefiro realidade-revelação. Epifanias reais. Daquele tipo que não existe.
Mas, como diria o Ringo, "nothing ever happens to me".
PS.: Eu realmente estava considerando fazer engenharia mecatrônica. É claro! Combinar mecânica e eletrônica, que são coisas que eu sempre quis dominar apesar da minha ignorância total em relação a ambas, com programação, que é uma coisa que me apaixonou instantâneamente? Não parece uma resposta de sonho? Bem, justamente, parece o tipo de coisa que é feita de sonhos mesmo, e eu tenho mêdo de que uma carreira nessa área envolveria um conhecimento porco de mecânica, um conhecimento porco de eletrônica, um conhecimento porco de (controle e automação) programação (eu conheço a Poli, eu sei como as coisas podem ser porcas por lá) e muitas, mas muitas horas mesmo de trabalho ingrato, provavelmente sem nenhum apoio moral ou intelectual bem como é no Design. Eu não quero ter matérias ruins e muita exigência. Claro que parte de mim tem esperança de que eles sigam o mesmo preceito daquele curso absurdo e robado que o Diogo faz: pra aprender sobre várias áreas e não virar um generalista porco, você tem que ter três vezes mais matéria no total que uma pessoa normal. Outra coisa que me ocorre é que talvez o fato de eu me interessar por mecânica, eletrônica e computação seja um bom motivo pra eu fazer um curso técnico mas um mai motivo pra fazer uma faculdade.
Mas como qualquer coisa me parece melhor que o meu curso, eu provavelmente vou mudar pra uma dessas áreas.
domingo, 13 de dezembro de 2009
Potencial e Escolha
Um dos trabalhos que estou fazendo é um ensaio com tema Sustentabilidade. Eu detesto esse tema, detesto a forma como ele foi imposto a nós desde que inventaram o termo, como o estudamos na escola na época em que nossos pais nem haviam ouvido falar nisso, em como se prega, estúpida e acríticamente, que ele é mais importante que quase tudo o mais. Em como se fala merda sobre isso. Em como as discussões sobre isso são irritantemente hipócritas. Então eu resolvi falar sobre outra coisa, disfarçadamente. Estou, digamos, tentando elaborar o tema. Tenho muita dificuldade com isso. Vou deixar aqui alguns pensamentos preliminares.
Acho que o nosso problema com o mundo é... ok, esse é um jeito péssimo (péssimo, eu digo!) de começar uma discussão. Mas eu acho que há uma série de problemas na forma como a gente pensa o mundo. Sério. Nossa visão de mundo, como é natural, se estrutura sobre o conflito fundamental entre o nosso poder e a nossa impotência. Qualquer livro de auto-ajuda, dicionário de pérolas da sabedoria ou coleção de filosofia em algum momento passa por frases como:
"É preciso convicção para mudar o que está errado, paciência para se agüentar o que não se pode mudar e sabedoria para saber a diferença." (ok, eu inventei o é preciso pra cada coisa pq eu não me lembro do original — costumava receber dezenas de frases desse tipo naqueles ppts da época de ouro das correntes de e-mail (sim, aqueles com fotos bonitinhas e ditados espirituosos))
e
"O ser humano vive cavalgando com cada pé sobre um cavalo: um é o cavalo do Destino, outro do Livre-Arbítrio. A chave é saber diferenciá-los, saber em que devemos investir nossos esforços e contra o que devemos parar de lutar, pois está fora de nosso controle." (eu não me lembro da frase exata, mas juro que tem algo com esse sentido escrito num dos top 10 livros de auto-ajuda na matéria da Veja)
De fato existem coisas que podemos fazer e coisas que podemos não fazer. Mas o que define a diferença entre elas? Será que a maior diferença entre uma coisa e outra não é justamente o fato de querermos ou não fazê-las? Eu não acho que seja possível saber se uma coisa está ou não dentro de nossos limites enquanto não chegarmos nesses limites, e isso significaria se esforçar ao máximo para conseguir chegar a esse objetivo. O problema é que nossa avaliação de se devemos ou não fazer alguma coisa depende em parte de se nosso esforço vai gerar resultado ou não, e se esse resultado vai ser suficiente para compensar o esforço. Essa é uma informação que em um grande número de casos está muito, mas muito distante do nosso alcance (na maior parte dos outros casos ainda está um pouquinho além do nosso alcance) mas como somos todos naturalmente otimistas (eu posso usar como axioma que todo mundo é naturalmente otimista?) — ou talvez naturalmente orgulhosos — sempre achamos que se realmente nos empenhássemos em alguma empreitada, ela seria bem sucedida, com certeza. Eu vou reescrever esse parágrafo de uma forma mais organizada:
Não temos como saber com certeza se somos ou não capazes de realizar qualquer coisa. Na maior parte dos casos, não temos a menor idéia disso. Porém — talvez porque nossa cultura, a sociedade e nós mesmos exijamos sempre que sejamos o melhor que pudermos ser, e, considerando que não temos a menor idéia de quão bons podemos ser, isso significa grosso modo o melhor que podemos imaginar — nós tendemos a achar que podemos realizar qualquer coisa.
Mas é claro que não podemos. A contradição está logo dentro do raciocínio: poderíamos realizar qualquer coisa se nos dedicássemos intensivamente a isso e se tivéssemos a capacidade para isso. Consideremos que todo mundo tenha todas as capacidade básicas, ainda assim não poderíamos nos dedicar a todas as coisas que queiramos fazer. Tentar fazer todas as coisas que se quer levaria inevitavelmente ao fracasso, segundo esse raciocínio. Escolher um determinado caminho e abdicar dos outros também não é muito melhor porque, no fundo, cada um de nós sabe que poderia fazer muito melhor do que o que está sendo feito hoje em dia em quase qualquer situação (isso é a primeira decorrência lógica dos nossos axiomas), e isso significa que cada renúncia é um peso terrível, o de estar abdicando de uma façanha incrível que eu certamente poderia realizar.
Eu estou achando muito difícil me expressar hoje, estou repetindo as coisas como um bêbado. O que eu quero dizer, na verdade, é que faz todo sentido achar que você é capaz de salvar o mundo e resolver tudo o que está de errado. Mas isso não quer dizer que isso seja possível. As fronteiras entre o que podemos e o que não podemos fazer estão nas nossas escolhas e nas escolhas dos outros sobre nós — e naquelas coisas que chamamos de acaso e destino. Não são coisas que podemos ver, não são caminhos traçados na terra que podemos seguir ou não seguir. São mais picadas e trilhas que fazemos caminhando, e que podem dar em qualquer lugar. Não, é pior que isso: não existe um caminho, não existe ir, seguir, voltar. O que podemos fazer é o que fazemos, não podemos fazer nada até que façamos algo.
A questão é: eu devo achar que posso tudo, ou que não posso nada? Uma pessoa que se acha capaz de tudo, se for uma pessoa minimamente idealista, vai se afogar em culpa por não fazer todas as mil coisas que ela deve fazer e pode fazer bem; mas uma pessoa que se considera incapaz vai se sentir um merda e ficar deprimido, ou virar uma daquelas pessoas que riem amarelo de si mesmas e que fazem os outros se sentirem desconfortáveis com algo entre dó e desprezo. Na verdade, as pessoas mais felizes e agradáveis provavelmente são aquelas que não pensam nisso, não questionam suas escolhas, simplesmente são e fazem e pronto. As pessoas mais interessantes são aquelas que conseguem pensar nisso de vez em quando.
domingo, 23 de agosto de 2009
Nervoso
Eu fico nervosa porque não sei fazer algumas coisas. Muito nervosa. Meu /mundo está, não sei, chovendo em mim. Eu/ //olho ao redore, não sei , ão sei /o qu/e /fazer, e, que porra é essa de aparecerem barras em /tudo o que eu escrevo?
Por exemplo, eu gosto do Jack, meu personagem alegre, amigável e assassino do rpg, mas sinto cada vez mais que não tenho a força necessária para interpretá-lo. E de que adianta ter um bom personagem se não sei interpretá-lo? E de que adianta jogar se no fundo eu sempre me divirto mais com o que os outros fazem? Se nunca consigo realizar o que realmente quero? Se só depois percebo que deveria ter agido dessa ou daquela forma? Não me sinto uma jogadora de rpg, mais, não tenho vontade de fazer ficha. Me irrita isso. Hoje eu /estava pensando seriamente em começar a beber antes das sessões, para ver se eu começo a agir, não sei se melhor, mas pelo menos mais. Mas isso tudo é bem fútil . Não é?
Não sei como os outros blogueiros conseguem falar tanto de assuntos gerais se só os assuntos particulares me são sequer alcansáveis. Me pergunto coisas. As coisas que sei não me interessam. Talvez só o que me apavora me interesse. Tenho mêdo de perder o Jack, de transformá-lo num personagem vazio, sem futuro, que nunca muda.
E eu acho que eu nunca me irritaria com um personagem bom que fosse chato. Entende? Por ele ser bom. Se ele fosse ineteressante, eu ficaria interessada nele, e seria isso. Não me importa tanto o jogo. Me importa os personagens. Eu queria poder explorar mais esse lado dos personagens. Parece que num jogo de rpg o que importa mesmo é a história, não os personagens. Sei lá. Talvez eu nem goste de rpg, na verdade. Talvez eu só esteja aproveitando a mesa para ouvir algumas boas histórias. Se fosse para participar delas, eu faria tudo diferente.
Ou eu deveria fazer tudo diferente? Será que eu deveria fingir que estou numa história, jogando com meus próprios personagens? Será que deveria ser tão impulsiva e verdadeira quanto sou quando estou sozinha? Mesmo se isso me levasse à morte? Se eu adoro a morte, talvez fosse inclusive mais justo perder as estribeiras. Talvez fosse completamente justo eu correr grandes riscos.
Mas eu, jogadora, não adoro a morte.
Bem.
Talvez eu jogadora tenha que me render ao meu personagem.
Por exemplo, eu gosto do Jack, meu personagem alegre, amigável e assassino do rpg, mas sinto cada vez mais que não tenho a força necessária para interpretá-lo. E de que adianta ter um bom personagem se não sei interpretá-lo? E de que adianta jogar se no fundo eu sempre me divirto mais com o que os outros fazem? Se nunca consigo realizar o que realmente quero? Se só depois percebo que deveria ter agido dessa ou daquela forma? Não me sinto uma jogadora de rpg, mais, não tenho vontade de fazer ficha. Me irrita isso. Hoje eu /estava pensando seriamente em começar a beber antes das sessões, para ver se eu começo a agir, não sei se melhor, mas pelo menos mais. Mas isso tudo é bem fútil . Não é?
Não sei como os outros blogueiros conseguem falar tanto de assuntos gerais se só os assuntos particulares me são sequer alcansáveis. Me pergunto coisas. As coisas que sei não me interessam. Talvez só o que me apavora me interesse. Tenho mêdo de perder o Jack, de transformá-lo num personagem vazio, sem futuro, que nunca muda.
E eu acho que eu nunca me irritaria com um personagem bom que fosse chato. Entende? Por ele ser bom. Se ele fosse ineteressante, eu ficaria interessada nele, e seria isso. Não me importa tanto o jogo. Me importa os personagens. Eu queria poder explorar mais esse lado dos personagens. Parece que num jogo de rpg o que importa mesmo é a história, não os personagens. Sei lá. Talvez eu nem goste de rpg, na verdade. Talvez eu só esteja aproveitando a mesa para ouvir algumas boas histórias. Se fosse para participar delas, eu faria tudo diferente.
Ou eu deveria fazer tudo diferente? Será que eu deveria fingir que estou numa história, jogando com meus próprios personagens? Será que deveria ser tão impulsiva e verdadeira quanto sou quando estou sozinha? Mesmo se isso me levasse à morte? Se eu adoro a morte, talvez fosse inclusive mais justo perder as estribeiras. Talvez fosse completamente justo eu correr grandes riscos.
Mas eu, jogadora, não adoro a morte.
Bem.
Talvez eu jogadora tenha que me render ao meu personagem.
sexta-feira, 17 de julho de 2009
Questões de cunho moral e filosófico
"Desde muy temprano se sufre, pero sólo desde cierta edad se aprovecha." - Alfonso Reyes, Tertúlia de Madrid, III
Há um ditado que diz que "mais vale um pássaro na mão do que dois voando", outro que diz que "quem não arrisca não petisca", outro que diz que "tudo está bem quando acaba bem" e outro que diz que "de boas intenções o inferno está cheio". Cresci ouvindo essas coisas, muito bem usadas, muito bem argumentadas, e acho que a meu modo sigo as duas primeiras mas não as duas últimas.
Recentemente corri um risco para evitar ter apenas pássaros voando, e posso dizer de certa forma que tudo acabou bem, mas essa resposta não é suficiente para minha filosofia. Não consigo avaliar precisamente se foram boas ou más minhas intenções, para não mencionar os métodos. Não sei dizer se foram os fins que justificaram os meios, ou se foram os meios que justificaram os fins. Se esta é uma história a que bem e mal talvez não se apliquem, então as duas coisas são verdadeiras. Dá na mesma se tanto os meios como os fins foram por um lado bons por outro maus. Assim a questão só se propõe justamente porque, na questão de um risco cuja validade é questionável, a ceitação final desse risco depende inteiramente do resoltado (que pode ser tanto petisco quando desgraça); como podemos tomar decisões razoáveis quando há uma questão assim em aberto?
É como a questão do House, que toma decisões sem antes confirmar suas teorias e faz todo tipo de coisa que pode "matar ou salvar". House é respeitado, embora não pela comunidade médica em geral, apenas porque está sempre certo. Se um dos seus palpites estiver errado, e ele matar uma pessoa, sua carreira, sua ideologia, sua vida vai por água abaixo? Será que a Cuddy, que sempre apoia suas loucuras, embora com limites, conseguiria perdoá-lo se ele matasse um paciente com um tratamento errado? O House pode tomar decisões potencialmente más porque ele é foda, mas e o resto de nós, pessoas reais? Será que seguir nossas intuições é o suficiente para fazer a coisa certa? Ou será que, tentando seguir uma ideologia perigosa, nos tornaremos eventualmente os vilões?
Se eu faço uma coisa que pode ser imperdoável, e por acaso essa coisa não tem conseqüência negativas, não seria moralmente correto que de qualquer forma eu não fosse perdoada?
Por outro lado, se eu faço uma coisa que pode ser a salvação, e por azar essa coisa só tem conseqüência negativas, seria moral que eu fosse condenada?
Talvez fosse mais justo se, nessas situações em que os resultados determinam a validade de uma ação, os julgamentos fossem baseados nas informações que o ator tinha antes de atuar; afinal, se duas pessoas fazem a mesma coisa, e uma destrói a cidade enquanto outra salva um ônibus escolar, as duas são igualmente boas ou más. Não?
O problema, que é o mesmo problema que existe para o ator, é como avaliar as possíveis conseqüência dos seus atos. Muitos, como eu, escolhem a partir de sonhos e intuições. Como colocar essas coisas na balaça?
quarta-feira, 10 de junho de 2009
Um texto sem nenhuma validade política, mais inda inevitavelmente moral
E agora? A gente vai pra casa? A gente pára por aqui mesmo? A gente senta e chora? A gente se bate, se debate, se espanca dentro da nossa própria casa?
Pra mim, o fim do mundo é isto aqui.
De um lado, minha casa está caindo aos pedaços, meus gatos estão velhos e doentes e nervosos sujando e destruindo tudo. As pessoas começaram a morrer e não pararam. Existe fim pra isso?
De outro, eu vou pra faculdade ouvindo absurdos e mentiras, acreditar em quem? Eu acho tudo ridículo, greves e policiais, eu entendo o que estão fazendo, mas é porque não consigo enxergar instituições, só consigo enxergar pessoas, e parece que estão todos apavorados.
Não temos tempo pra nada, não temos direito a nada, nós fazemos nossas escolhas sabendo de antemão que sempre estarão erradas. Não podemos parar de estudar, não podemos deixar de sonhar, não podemos deixar a casa cair, não podemos abandonar a família, não podemos parar de lutar por um mundo melhor, não podemos deixar de ver os amigos, não podemos nos perder no meio de todas as dificuldades e atribulações da vida.
Inevitavelmente haverão mais derrotas do que vitórias?
Será que a gente enlouqueceu ou quem enlouqueceu fui eu?
Pra mim, o fim do mundo é isto aqui.
De um lado, minha casa está caindo aos pedaços, meus gatos estão velhos e doentes e nervosos sujando e destruindo tudo. As pessoas começaram a morrer e não pararam. Existe fim pra isso?
De outro, eu vou pra faculdade ouvindo absurdos e mentiras, acreditar em quem? Eu acho tudo ridículo, greves e policiais, eu entendo o que estão fazendo, mas é porque não consigo enxergar instituições, só consigo enxergar pessoas, e parece que estão todos apavorados.
Não temos tempo pra nada, não temos direito a nada, nós fazemos nossas escolhas sabendo de antemão que sempre estarão erradas. Não podemos parar de estudar, não podemos deixar de sonhar, não podemos deixar a casa cair, não podemos abandonar a família, não podemos parar de lutar por um mundo melhor, não podemos deixar de ver os amigos, não podemos nos perder no meio de todas as dificuldades e atribulações da vida.
Inevitavelmente haverão mais derrotas do que vitórias?
Será que a gente enlouqueceu ou quem enlouqueceu fui eu?
domingo, 31 de maio de 2009
Para a seção "A vida imita..."
Então eu comecei a pensar em tentar virar uma loremaster. Tudo o que eu preciso é de muitos ranks em knowledge, aprender a fazer alguns itens e desenvolver muitas habilidades de dedução e chute. É claro que é um pouco degradante para alguém que acredita fortemente no poder da verdade e do conhecimento verdadeiro, mas talvez eu possa chegar lá por caminhos menos, bem, sujos. Acho que saber praticamente qualquer coisa é simplesmente válido.
Eu não me incomodaria de me tornar uma velha dessas que sabem tudo e estão sempre contando histórias. Eu posso viver para sempre se for pra viver assim. Eu posso perseguir histórias e criar histórias e dominar o mundo, quer dizer, influenciar os outros a acreditarem no que eu acredito e continuar aprendendo loucamente sempre. Talvez essa seja uma espécie em extinção, mas eu não acharia chato ser assim.
Ou acharia? Eu me pergunto isso sempre, se seria chato demais me dedicar tanto assim ao conhecimento, se eu não deveria deixar isso para personagens baseados em Int em vez de tomar isso como minha responsabilidade, já que, por mais que poucas coisas me deixem tão feliz quanto aprender, eu não sei se eu poderia ser feliz se aprender fosse a coisa mais importante.
Ontem quando o Kim começou a falar sobre biblioteconomia eu lembrei que eu queria fazer esse curso porque achei que ia ser um curso de passar muito tempo em bibliotecas, mas acabei desistindo porque isso parecia idiota e eu imaginei que devia ser alguma outra coisa, mas agora que eu descobri que realmente é um curso de passar muito tempo dentro da biblioteca, aprendendo muito sobre todas as coisas sobre as quais se escrevem livros, eu comecei a considerar se teria sido mais legal se eu tivesse mesmo ido fazer esse curso.
Eu não sei. Não consigo enxergar com clareza nenhuma das possibilidades. Por enquanto me parece lógico continuar onde estou, onde tenho amigos, embora não consiga me aproximar deles (talvez eu mesma não me permita uma aproximação?), onde aprendo coisas interessantes, embora sinta que não me serão úteis senão da forma que qualquer coisa no mundo é útil (exceto, talvez, O Jogo), onde tenho desafios, que embora não me deliciem ainda assim me levam a diversos limites, e onde estou aprendendo a ser forte, embora talvez à custa da inocência, da tranqüilidade e de alguns sonhos. O importante é conseguir segurar com muita força os sonhos e não permitir que nada derrube minha determinação. Mas, por enquanto, não consigo ver como sair deste campo de batalha sem estar efetivamente fugindo com o rabo entre as pernas. É muito importante que eu possa olhar nos olhos das pessoas que me insultarão no futuro.
Não sei, às vezes eu me sinto meio ridícula... Mas como eu entendo porque eu penso e ajo assim, eu começo a achar ridículo me achar ridícula. Às vezes eu só queria ser uma bárbara no meio da savana, só pra extravasar.
Eu não me incomodaria de me tornar uma velha dessas que sabem tudo e estão sempre contando histórias. Eu posso viver para sempre se for pra viver assim. Eu posso perseguir histórias e criar histórias e dominar o mundo, quer dizer, influenciar os outros a acreditarem no que eu acredito e continuar aprendendo loucamente sempre. Talvez essa seja uma espécie em extinção, mas eu não acharia chato ser assim.
Ou acharia? Eu me pergunto isso sempre, se seria chato demais me dedicar tanto assim ao conhecimento, se eu não deveria deixar isso para personagens baseados em Int em vez de tomar isso como minha responsabilidade, já que, por mais que poucas coisas me deixem tão feliz quanto aprender, eu não sei se eu poderia ser feliz se aprender fosse a coisa mais importante.
Ontem quando o Kim começou a falar sobre biblioteconomia eu lembrei que eu queria fazer esse curso porque achei que ia ser um curso de passar muito tempo em bibliotecas, mas acabei desistindo porque isso parecia idiota e eu imaginei que devia ser alguma outra coisa, mas agora que eu descobri que realmente é um curso de passar muito tempo dentro da biblioteca, aprendendo muito sobre todas as coisas sobre as quais se escrevem livros, eu comecei a considerar se teria sido mais legal se eu tivesse mesmo ido fazer esse curso.
Eu não sei. Não consigo enxergar com clareza nenhuma das possibilidades. Por enquanto me parece lógico continuar onde estou, onde tenho amigos, embora não consiga me aproximar deles (talvez eu mesma não me permita uma aproximação?), onde aprendo coisas interessantes, embora sinta que não me serão úteis senão da forma que qualquer coisa no mundo é útil (exceto, talvez, O Jogo), onde tenho desafios, que embora não me deliciem ainda assim me levam a diversos limites, e onde estou aprendendo a ser forte, embora talvez à custa da inocência, da tranqüilidade e de alguns sonhos. O importante é conseguir segurar com muita força os sonhos e não permitir que nada derrube minha determinação. Mas, por enquanto, não consigo ver como sair deste campo de batalha sem estar efetivamente fugindo com o rabo entre as pernas. É muito importante que eu possa olhar nos olhos das pessoas que me insultarão no futuro.
Não sei, às vezes eu me sinto meio ridícula... Mas como eu entendo porque eu penso e ajo assim, eu começo a achar ridículo me achar ridícula. Às vezes eu só queria ser uma bárbara no meio da savana, só pra extravasar.
terça-feira, 21 de abril de 2009
II
Há ainda muita coisa, bem, esperando para fazer sentido.
Algumas coisas cansam e desistem depois de um tempo.
Algumas coisas crescem e coçam e incomodam terrivelmente depois de um tempo.
Algumas coisas dão um tempo e acabam aparecendo anos depois.
Outras se resolvem.
Rápido.
Como um homem com sede que simplesmente bebe água.
Simples.
Como dar uma volta pra esticar as pernas.
Lógico.
Como um exercício de matemática.
Como acender a luz quando começa a ficar escuro.
Como a gravidade.
Sem uma grande e confusa variedade de opções.
Algumas coisas cansam e desistem depois de um tempo.
Algumas coisas crescem e coçam e incomodam terrivelmente depois de um tempo.
Algumas coisas dão um tempo e acabam aparecendo anos depois.
Outras se resolvem.
Rápido.
Como um homem com sede que simplesmente bebe água.
Simples.
Como dar uma volta pra esticar as pernas.
Lógico.
Como um exercício de matemática.
Como acender a luz quando começa a ficar escuro.
Como a gravidade.
Sem uma grande e confusa variedade de opções.
quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009
Pequena Incursão Filosófica
Em dias como este, em que minha mãe me manda passar veneno pra cupim num banco/mesa/revisteiro; em que eu acordo com o despertador que misteriosamente tocou às 13:34, e não às 7:34 como seria o certo; em que eu me jogo na cama bagunçada e não tenho mais vontade de levantar dela, nunca mais; em que nada do que acontece comigo parece fazer o menor sentido, eu páro e me questiono a respeito do sentido da vida.
O problema é que o sentido da vida não é algo racional, algo fixo, que você poderia escrever num livro e ensinar a seus amiguinhos numa palestra. É algo que ou há, ou não há. Em dias astim, é claro, não há; não há nada. O cinzento do céu lá fora é a única coisa que não parece completamente estúpida. Eu preciso abrir a janela, para poder enxergá-lo direito, para poder sentir seu cheiro, o cheiro do vento, o vento pra compensar o meu calor. Eu queria derrubar essas grades para não haver nada entre eu e o mundo. Acho que seria legal sublimar e me dissolver no vento.
Falta alguma coisa em que acreditar. Eu páro e, para evitar pensamentos metafóricamente suicídas, me pergunto o que na minha vida é realmente uma razão pra se viver. O que faz sentido, o que eu não jogaria fora de jeito nenhum. Agora a chuva está entrando pela janela e eu não vou fechar a janela mesmo assim, porque eu não jogaria fora a cor do céu e o vento, de jeito nenhum. A porta se fechou com um estrondo e foi um som delicioso. Eu adoro sentir. Sentir é uma razão pra se viver.
Outras razões que me ocorrem são: amor, diversão, calor, árvore com folhas jovens contra o céu azul (ou: marrom-verde-azul), fazer as coisas certas, amigos, andar de bicicleta, dirigir, o Mar, transar, comida boa, ficar completamente exausto, a Noite (andar na rua à noite), chuva (mesmo a chuva tipo 17), poder imaginar o que quiser, roupas confortáveis, roupas bonitas, cabelo de homem molhado, desejo e flerte, Twix, festa à fantasia, gente bonita, paisagens imensas, work hard-work worth doing, euforia, luta, ser respeitado, andar sozinha por aí, compartilhar prazeres e lugares secretos, estar apaixonada, saber o sentido da vida, dançar, correr e brincar na chuva.
A gente tem que saber o que é importante pra poder saber o que é completamente irrelevante. Pra mim é difícil fazer essa distinção. Eu imagino muito, e aí qualquer coisa parece legal. Por exemplo: eu tenho esse velerinho da ABN-AMRO que eu não compraria nem de graça (o Diogo sugeriu que se eu estivesse em dúvida sobre o que fazer com algum objeto, eu avaliasse se eu levaria ele de graça pra casa, se eu não o tivesse), mas eu imagino que eu poderia pintá-lo de outras cores e aí ele ficaria mó bonito, mas, pensando bem, eu não tenho onde deixar esse veleiro mesmo se ele fosse bonito, ele ia ser uma dessas coisas que a gente não tem coragem de jogar fora mas não sabe o que fazer com ele, então eu penso que como ele seria legal eu poderia dá-lo pra alguém, mas aí, quem gosta de veleiros e teria espaço sobrando em casa para ter um veleiro que aliás eu nem sei se bóia, seria no máximo um brinquedo ou objeto de decoração, então eu poderia deixá-lo com os brinquedos, mas ele não caberia na caixa de brinquedos lotada, e não tem espaço no armário igualmente lotado, e de qualquer forma ninguém brincaria com ele se ele estivesse separado dos outros brinquedos de sempre, então eu penso que eu poderia pintá-lo e dá-lo de presente pros meninos da Cajaíba, que provavelmente nem gostariam dele, mas só se meus irmãos quisessem dar os deles também, e será que meus irmãos têm os mesmos problemas que eu?
(nossa, eu estou arrependida de ter escrito esse parágrafo)
Resumindo, eu sempre escolho fazer a coisa mais complicada. Acho que é porque eu tenho esperanças de poder fazer algum tipo de trabalho que não seja completamente inútil. O que me leva de volta à questão da faculdade, de como eu posso continuar fazendo um curso que não me dá nenhuma esperança de futuro, já que eu não consigo de forma nenhuma me imaginar designer, e por que me parece que meus amigos estão determinados e seguir com suas vidas enquanto eu tenho certeza de que não quero terminar a faculdade e me tornar uma sei lá o quê. E isso faz de mim uma pessoa desesperada. Se você jogar na minha cara o fato de que eu sou infeliz na minha vida acadêmica e talvez até familiar, eu provavelmente vou te agredir, então, acho que você deveria fazer isso mesmo, e a gente deveria lutar; é isso aí, eu vou abrir o Clube da Luta e voltar pra casa sangrando todos os dias. Outra coisa que faz a vida parecer mais certa é....
... hm, acabou de chegar um e-mail dizendo que as aulas vão começar só dia 26, e não 16 como estava sendo anunciado. Isso muda tudo...
enfim, outra coisa que faz a vida parecer mais certa é se machucar um monte e saber que foi por um bom motivo, e se sentir feliz com isso. Ou ser arremessado de uma bóia em alta velocidade. Ou se agarrar com todas as suas forças. Ou simplesmente tomar uma decisão e ir até o fim com ela (que é algo que eu nunca faço.)/
Enfim, eu estou tentando chegar a uma conclusão mas eu não estou conseguindo. Então vou desistir dessa bobagem e ir fazer alguma coisa de útil (sim, eu já perdi as esperanças de criar qualquer coisa através deste blog).
O problema é que o sentido da vida não é algo racional, algo fixo, que você poderia escrever num livro e ensinar a seus amiguinhos numa palestra. É algo que ou há, ou não há. Em dias astim, é claro, não há; não há nada. O cinzento do céu lá fora é a única coisa que não parece completamente estúpida. Eu preciso abrir a janela, para poder enxergá-lo direito, para poder sentir seu cheiro, o cheiro do vento, o vento pra compensar o meu calor. Eu queria derrubar essas grades para não haver nada entre eu e o mundo. Acho que seria legal sublimar e me dissolver no vento.
Falta alguma coisa em que acreditar. Eu páro e, para evitar pensamentos metafóricamente suicídas, me pergunto o que na minha vida é realmente uma razão pra se viver. O que faz sentido, o que eu não jogaria fora de jeito nenhum. Agora a chuva está entrando pela janela e eu não vou fechar a janela mesmo assim, porque eu não jogaria fora a cor do céu e o vento, de jeito nenhum. A porta se fechou com um estrondo e foi um som delicioso. Eu adoro sentir. Sentir é uma razão pra se viver.
Outras razões que me ocorrem são: amor, diversão, calor, árvore com folhas jovens contra o céu azul (ou: marrom-verde-azul), fazer as coisas certas, amigos, andar de bicicleta, dirigir, o Mar, transar, comida boa, ficar completamente exausto, a Noite (andar na rua à noite), chuva (mesmo a chuva tipo 17), poder imaginar o que quiser, roupas confortáveis, roupas bonitas, cabelo de homem molhado, desejo e flerte, Twix, festa à fantasia, gente bonita, paisagens imensas, work hard-work worth doing, euforia, luta, ser respeitado, andar sozinha por aí, compartilhar prazeres e lugares secretos, estar apaixonada, saber o sentido da vida, dançar, correr e brincar na chuva.
A gente tem que saber o que é importante pra poder saber o que é completamente irrelevante. Pra mim é difícil fazer essa distinção. Eu imagino muito, e aí qualquer coisa parece legal. Por exemplo: eu tenho esse velerinho da ABN-AMRO que eu não compraria nem de graça (o Diogo sugeriu que se eu estivesse em dúvida sobre o que fazer com algum objeto, eu avaliasse se eu levaria ele de graça pra casa, se eu não o tivesse), mas eu imagino que eu poderia pintá-lo de outras cores e aí ele ficaria mó bonito, mas, pensando bem, eu não tenho onde deixar esse veleiro mesmo se ele fosse bonito, ele ia ser uma dessas coisas que a gente não tem coragem de jogar fora mas não sabe o que fazer com ele, então eu penso que como ele seria legal eu poderia dá-lo pra alguém, mas aí, quem gosta de veleiros e teria espaço sobrando em casa para ter um veleiro que aliás eu nem sei se bóia, seria no máximo um brinquedo ou objeto de decoração, então eu poderia deixá-lo com os brinquedos, mas ele não caberia na caixa de brinquedos lotada, e não tem espaço no armário igualmente lotado, e de qualquer forma ninguém brincaria com ele se ele estivesse separado dos outros brinquedos de sempre, então eu penso que eu poderia pintá-lo e dá-lo de presente pros meninos da Cajaíba, que provavelmente nem gostariam dele, mas só se meus irmãos quisessem dar os deles também, e será que meus irmãos têm os mesmos problemas que eu?
(nossa, eu estou arrependida de ter escrito esse parágrafo)
Resumindo, eu sempre escolho fazer a coisa mais complicada. Acho que é porque eu tenho esperanças de poder fazer algum tipo de trabalho que não seja completamente inútil. O que me leva de volta à questão da faculdade, de como eu posso continuar fazendo um curso que não me dá nenhuma esperança de futuro, já que eu não consigo de forma nenhuma me imaginar designer, e por que me parece que meus amigos estão determinados e seguir com suas vidas enquanto eu tenho certeza de que não quero terminar a faculdade e me tornar uma sei lá o quê. E isso faz de mim uma pessoa desesperada. Se você jogar na minha cara o fato de que eu sou infeliz na minha vida acadêmica e talvez até familiar, eu provavelmente vou te agredir, então, acho que você deveria fazer isso mesmo, e a gente deveria lutar; é isso aí, eu vou abrir o Clube da Luta e voltar pra casa sangrando todos os dias. Outra coisa que faz a vida parecer mais certa é....
... hm, acabou de chegar um e-mail dizendo que as aulas vão começar só dia 26, e não 16 como estava sendo anunciado. Isso muda tudo...
enfim, outra coisa que faz a vida parecer mais certa é se machucar um monte e saber que foi por um bom motivo, e se sentir feliz com isso. Ou ser arremessado de uma bóia em alta velocidade. Ou se agarrar com todas as suas forças. Ou simplesmente tomar uma decisão e ir até o fim com ela (que é algo que eu nunca faço.)/
Enfim, eu estou tentando chegar a uma conclusão mas eu não estou conseguindo. Então vou desistir dessa bobagem e ir fazer alguma coisa de útil (sim, eu já perdi as esperanças de criar qualquer coisa através deste blog).
domingo, 10 de setembro de 2006
Comentário... - II
Agora de repente tudo ficou muito difícil. Antes era só uma escolha besta, essa, ficar ou ir embora, tudo parecia prestes a se resolver. Agora de repente eu entendi, não é apenas uma escolha do que eu quero fazer do que eu quero estudar pelos primeiros seis meses de 2007, é algo muito maior que isso, porque em seis meses eu vou mudar muito, eu vou aprender a ser alguém que eu nunca poderia ser antes, porque em cada possibilidade eu vou ter um espaço diferente para crescer...
Por isso, fazer essa escolha é insuportavelmente difícil, por isso eu posso mudar de idéia de uma hora para outra (como agora...), por isso a última coisa que eu precisava ouvir é que era ridículo eu pensar em fazer faculdade no mesmo lugar que meus irmãos, quando finalmente eu estava começando a achar que poderia ser muito divertido... E como se já não bastasse, ela ainda disse que se eu fizesse Desenho eu ia morrer de fome, quando na verdade eu tinha feito essa escolha justamente porque eu achei que poderia não morrer de fome... Eu não entendo por que as pessoas têm que ficar questionando minha escolhas, por que elas têm que ficar me fazendo me questionar, quando eu sozinha já sou mais questionadora do que seria saudável para meu modo de vida... Eu não entendo como as pessoas acham que estão me ajudando quando me deixam mais insegura e indecisa, quando me fazem mudar de idéia subitamente, quando na hora de preencher a ficha de inscrição eu sou invadida por uma vontade louca de desistir de tudo e ir... ir pra Pira, pô. Como eu queria três anos atrás. Jogar esses últimos anos de considerações fora. Ou ir pruma festa, ficar bêbada e fazer merda; tudo isso. Eu posso me dar mais uma semana de indecisão se eu quiser. Mas isso não vai mudar o fato de que eu não tenho idéia do que eu quero da vida. Minha vida não tem sentido, tudo o que eu faço é o que me mandam fazer... Além de, é claro, procurar por vocês...
Never thought so many
Thought me so dear
I'd be happy any place but here
E é estranho porque de fato quando eu fui preencher o raio da ficha da fuvest minha decisão em fazer Desenho já havia definhado, basicamente por causa daqueles comentários, e eu me senti extremamente tentada e colocar gestão ambiental (:þþ) no lugar. Parece tão divertido!... mas... não sei, tudo isso parece muito interessante, mas é uma decisão tão esmagadoramente grande sair da cidade, ir morar em outro lugar, com pessoas desconhecidas (e eu nunca faria um curso assim em sampa), longe de todos vocês, fora da USP que agora eu até que já conheço mais ou menos bem, fora de São Paulo que eu demorei tanto tempo pra aprender a amar de verdade, fora daqui... Eu não sei, eu não estou preparada pra tomar uma decisão dessas, simplesmente; eu não estou preparada pra escolher como vão ser os próximos seis meses, muito menos os próximos quatro anos... Tudo é tão absurdo, que eu às vezes quero ceder a um impulso qualquer e preencher logo a droga da ficha e entregar logo só pra ninguém mais poder me encher o saco, só pra.... .....
One way ticket take me anywhere
Northbound southbound I don't even care...
Eu sei que não vai ser melhor ou pior, eu sei que de qualquer forma eu vou ser feliz, mas de qualquer forma eu vou ter que arranjar meu lugar ao sol, eu vou ter que batalhar e me modificar pra poder ter sucesso nessa empreitada que eles chamam, por algum motivo, de "carreira". Eu sei que meu futuro vai ser incompreensível, eu sei que eu vou continuar indecisa, eu sei que eu vou me esforçar e amar e aprender a não me empenhar demais nem relaxar demais e eu sei que um dia eu vou conseguir conquistar um reino meu... Mas não é nisso tudo que eu estou pensando, é só nos próximos dez meses, é só em como eu vou viver, em quem eu vou me tornar, eu que trejeitos eu vou absorver e que atividades eu vou ter prazer em fazer... e, não, eu não posso tomar uma decisão assim neste estado, em que tudo o que eu quero é viajar... porque assim essas carreira que envolvem mato e mar me atraem irracionalmente... Na verdade eu só de pensar no cheiro do mato e do suor dos animais tenho vontade de desistir de toda essa idéia de viver na cidade, de ter uma profissão liberal, urbana, de produção. Tudo parece ilógico, inválido. De fato, eu odiaria passar minha vida desenhando móveis... Mas eu sei que se eu pensar que eu vou fazer uma coisa só, eu vou odiar de qualquer forma... Eu quero mais... capivaras...
Help- I'm falling, I'm crawling
I can't keep away from its clutch
Can't have it, this habit
It's calling me back to my home
And it doesn't change a thing
Everyday the same old dream
The same games we always play
and we still never wanna go away...
Então acho que eu vou acabar me dando mais uma semana, e encarando fila semana que vem... e então nessa uma semana (mas não posso esquecer de ir ao banco!) eu vou pensar se é melhor jogar tudo para o alto agora ou se eu devo esperar pra ver se daqui a seis meses eu ainda vou querer simplesmente ir embora. Então, se eu resolver jogar tudo pro alto agora, eu vou deixar o coração bater sem mêdo (de Mêdo, é claro), e foda-se tudo o mais. E acho que vou prestar uma faculdade fora da cidade, independente do que minha mãe disse sobre eu ter que arranjar casa etc (eu sei que ela vai ter que me apoiar no final das contas). E se eu decidir ficar em Sampa e esperar mais seis meses, eu vou me esforçar pra entrar na USP, e vou procurar uma porção de cursos matutinos, de línguas e artes corporais (de dança e luta, basicamente), e com sorte eu vou conseguir um estágio (ou mesmo um trabalho) que ocupe algumas das minhas manhãs, já que o curso é noturno. E aí, se o curso for chato, ou ruim, ou se eu não gostar muito, eu vou me increver pra outra faculdade, talvez de um curso completamente diferente, talvez em outra universidade, talvez em outra cidade. Mas eu vou ter tido mais seis meses. Isso é se eu decidir que eu preciso de mais seis meses. Senão... senão o quê? Eu quero tanto me arriscar a fazer algo completamente diferente...
Sometimes I drive so fast
Just ro feel the danger
I wanna scream, it makes me fell alive!
Por isso, fazer essa escolha é insuportavelmente difícil, por isso eu posso mudar de idéia de uma hora para outra (como agora...), por isso a última coisa que eu precisava ouvir é que era ridículo eu pensar em fazer faculdade no mesmo lugar que meus irmãos, quando finalmente eu estava começando a achar que poderia ser muito divertido... E como se já não bastasse, ela ainda disse que se eu fizesse Desenho eu ia morrer de fome, quando na verdade eu tinha feito essa escolha justamente porque eu achei que poderia não morrer de fome... Eu não entendo por que as pessoas têm que ficar questionando minha escolhas, por que elas têm que ficar me fazendo me questionar, quando eu sozinha já sou mais questionadora do que seria saudável para meu modo de vida... Eu não entendo como as pessoas acham que estão me ajudando quando me deixam mais insegura e indecisa, quando me fazem mudar de idéia subitamente, quando na hora de preencher a ficha de inscrição eu sou invadida por uma vontade louca de desistir de tudo e ir... ir pra Pira, pô. Como eu queria três anos atrás. Jogar esses últimos anos de considerações fora. Ou ir pruma festa, ficar bêbada e fazer merda; tudo isso. Eu posso me dar mais uma semana de indecisão se eu quiser. Mas isso não vai mudar o fato de que eu não tenho idéia do que eu quero da vida. Minha vida não tem sentido, tudo o que eu faço é o que me mandam fazer... Além de, é claro, procurar por vocês...
Never thought so many
Thought me so dear
I'd be happy any place but here
E é estranho porque de fato quando eu fui preencher o raio da ficha da fuvest minha decisão em fazer Desenho já havia definhado, basicamente por causa daqueles comentários, e eu me senti extremamente tentada e colocar gestão ambiental (:þþ) no lugar. Parece tão divertido!... mas... não sei, tudo isso parece muito interessante, mas é uma decisão tão esmagadoramente grande sair da cidade, ir morar em outro lugar, com pessoas desconhecidas (e eu nunca faria um curso assim em sampa), longe de todos vocês, fora da USP que agora eu até que já conheço mais ou menos bem, fora de São Paulo que eu demorei tanto tempo pra aprender a amar de verdade, fora daqui... Eu não sei, eu não estou preparada pra tomar uma decisão dessas, simplesmente; eu não estou preparada pra escolher como vão ser os próximos seis meses, muito menos os próximos quatro anos... Tudo é tão absurdo, que eu às vezes quero ceder a um impulso qualquer e preencher logo a droga da ficha e entregar logo só pra ninguém mais poder me encher o saco, só pra.... .....
One way ticket take me anywhere
Northbound southbound I don't even care...
Eu sei que não vai ser melhor ou pior, eu sei que de qualquer forma eu vou ser feliz, mas de qualquer forma eu vou ter que arranjar meu lugar ao sol, eu vou ter que batalhar e me modificar pra poder ter sucesso nessa empreitada que eles chamam, por algum motivo, de "carreira". Eu sei que meu futuro vai ser incompreensível, eu sei que eu vou continuar indecisa, eu sei que eu vou me esforçar e amar e aprender a não me empenhar demais nem relaxar demais e eu sei que um dia eu vou conseguir conquistar um reino meu... Mas não é nisso tudo que eu estou pensando, é só nos próximos dez meses, é só em como eu vou viver, em quem eu vou me tornar, eu que trejeitos eu vou absorver e que atividades eu vou ter prazer em fazer... e, não, eu não posso tomar uma decisão assim neste estado, em que tudo o que eu quero é viajar... porque assim essas carreira que envolvem mato e mar me atraem irracionalmente... Na verdade eu só de pensar no cheiro do mato e do suor dos animais tenho vontade de desistir de toda essa idéia de viver na cidade, de ter uma profissão liberal, urbana, de produção. Tudo parece ilógico, inválido. De fato, eu odiaria passar minha vida desenhando móveis... Mas eu sei que se eu pensar que eu vou fazer uma coisa só, eu vou odiar de qualquer forma... Eu quero mais... capivaras...
Help- I'm falling, I'm crawling
I can't keep away from its clutch
Can't have it, this habit
It's calling me back to my home
And it doesn't change a thing
Everyday the same old dream
The same games we always play
and we still never wanna go away...
Então acho que eu vou acabar me dando mais uma semana, e encarando fila semana que vem... e então nessa uma semana (mas não posso esquecer de ir ao banco!) eu vou pensar se é melhor jogar tudo para o alto agora ou se eu devo esperar pra ver se daqui a seis meses eu ainda vou querer simplesmente ir embora. Então, se eu resolver jogar tudo pro alto agora, eu vou deixar o coração bater sem mêdo (de Mêdo, é claro), e foda-se tudo o mais. E acho que vou prestar uma faculdade fora da cidade, independente do que minha mãe disse sobre eu ter que arranjar casa etc (eu sei que ela vai ter que me apoiar no final das contas). E se eu decidir ficar em Sampa e esperar mais seis meses, eu vou me esforçar pra entrar na USP, e vou procurar uma porção de cursos matutinos, de línguas e artes corporais (de dança e luta, basicamente), e com sorte eu vou conseguir um estágio (ou mesmo um trabalho) que ocupe algumas das minhas manhãs, já que o curso é noturno. E aí, se o curso for chato, ou ruim, ou se eu não gostar muito, eu vou me increver pra outra faculdade, talvez de um curso completamente diferente, talvez em outra universidade, talvez em outra cidade. Mas eu vou ter tido mais seis meses. Isso é se eu decidir que eu preciso de mais seis meses. Senão... senão o quê? Eu quero tanto me arriscar a fazer algo completamente diferente...
Sometimes I drive so fast
Just ro feel the danger
I wanna scream, it makes me fell alive!
quarta-feira, 16 de agosto de 2006
De fato, o mundo vira devagarzinho...
Os dias têm sido esquisitos. Por que eu me sinto tão tranqüila... Parece que não preciso mais me preocupar, que tudo vai acontecer e que o que quer que seja vai ter seus momentos bons. Não tenho mais mêdo do futuro. Vai dar tudo certo... Todas as possibilidades são plausíveis, todas são interessantes. Não sei o que vai acontecer, mas não tenho mêdo de falhar. Mesmo que eu esteja prestes a tomar uma decisão que provavelmente vai definir como será minha vida nos próximos anos.
E sabe o quê? Não querer realmente fazer USP é um sentimento totalmente alienígena. Eu me sinto uma desertora da raça humana toda vez que me vem essa idéia esquisita. Mesmo assim, ela parece tão interessante... E na verdade eu sei que eu teria que querer isso com todas as minhas forças pra acontecer... ainda estou pesando as possibilidades...
O melhor sentimento, na verdade, é esse de que tudo está no presente, aqui, agora, assim. Nada me surpreende de verdade, porque tudo está tão equilibrado, tão perfeitamente balanceado, que não consigo sentir desespero, e não me preocupo mais. Meus pensamentos e meus problemas são todos presentes, o tempo prsente, os homens presentes. Nada no meu passado quer me engolir, e o futuro também não propõe nenhum apocalipse. E acho que mesmo o apocalipse haveria de ser divertido. Tudo está tão certo...
Só os carros ainda me torram a paciência, fazer o quê.
Estou um pouco distraída, aulas e mesmo blogs não chamam muito a minha atenção. Mesmo assim, acho que estou entendendo quase tudo. História continua sendo um problema, e o trabalho de geografia tem de ser começado, mas o resto está indo bem. Meus objetivos primários são começar a arranjar exemplos pros causos que conto e prestar vestibular. Mas não estou realmente aflita com um ou outro...
E não sinto saudades de nada. O que é estranho, porque tenho vontade de cantar, e canto músicas de saudades, mas não as sinto, não dá tempo de sentir saudade... Acho que vou ser feliz, acho mesmo. Tudo está tão bonito...
Por fim: recomendo o filme Zuzu Angel, que está nos cinemas agora. É lindo, por mais estranho que seja, é trite mas cheio de esperança, e esclarece coisas inesperadas... além do mais, aquelas roupas são o máximo :þ
Boa noitee ^^
E sabe o quê? Não querer realmente fazer USP é um sentimento totalmente alienígena. Eu me sinto uma desertora da raça humana toda vez que me vem essa idéia esquisita. Mesmo assim, ela parece tão interessante... E na verdade eu sei que eu teria que querer isso com todas as minhas forças pra acontecer... ainda estou pesando as possibilidades...
O melhor sentimento, na verdade, é esse de que tudo está no presente, aqui, agora, assim. Nada me surpreende de verdade, porque tudo está tão equilibrado, tão perfeitamente balanceado, que não consigo sentir desespero, e não me preocupo mais. Meus pensamentos e meus problemas são todos presentes, o tempo prsente, os homens presentes. Nada no meu passado quer me engolir, e o futuro também não propõe nenhum apocalipse. E acho que mesmo o apocalipse haveria de ser divertido. Tudo está tão certo...
Só os carros ainda me torram a paciência, fazer o quê.
Estou um pouco distraída, aulas e mesmo blogs não chamam muito a minha atenção. Mesmo assim, acho que estou entendendo quase tudo. História continua sendo um problema, e o trabalho de geografia tem de ser começado, mas o resto está indo bem. Meus objetivos primários são começar a arranjar exemplos pros causos que conto e prestar vestibular. Mas não estou realmente aflita com um ou outro...
E não sinto saudades de nada. O que é estranho, porque tenho vontade de cantar, e canto músicas de saudades, mas não as sinto, não dá tempo de sentir saudade... Acho que vou ser feliz, acho mesmo. Tudo está tão bonito...
Por fim: recomendo o filme Zuzu Angel, que está nos cinemas agora. É lindo, por mais estranho que seja, é trite mas cheio de esperança, e esclarece coisas inesperadas... além do mais, aquelas roupas são o máximo :þ
Boa noitee ^^
quinta-feira, 3 de agosto de 2006
brisa gélida num dia escuro - 1
No fundo, o risco é tão grande que eu não consigo imaginar o mundo sem ele.
Digo que estou apostando em algo em que não acredito. Mas, de qualquer forma, eu não acredito em quase nada.
Você sente essa corrente de ar batendo de leve no seu rosto? Percebe como ela quase faz parte de você? Bom, hoje eu queria molhar o cabelo por causa do frio, então meu banho foi basicamente alguns minutos de olhar a água quente escorrendo por entre meus dedos. Às vezes eu acho que a água é tudo o que eu tenho. Todo o resto é vago, é indeciso, mas a água é real, é em si. A água não precisa de outra razão de ser -- ela é como que a base de tudo, a primeira coisa genuinamente real que existiu no mundo, ainda mais que a terra e as pedras.
Todo o resto é vago e indeciso. Todo o resto precisa de uma razão de ser. Eu acho que tenho uma razão de ser, assim como este mundo. Acho que o mundo, sendo assim tão grande e majestoso, tem razões que não podem ser questionadas. As coisas existem, não é necessário mais que isso. Mas e quanto a todas as coisas incompletas que criamos? E quanto a tudo o que fazemos?
... Eu nunca sei bem o que estou fazendo. Quando sei, não sei por quê. Se sei ambas as coisas, provavelmente é porque tenho uma motivação muito forte. Uma paixão de algum tipo. Por isso eu prefiro me apaixonar a ter segurança. A paixão é uma razão indiscutível para se fazer qualquer tipo de loucuras... mas eu não me apaixono...
O ano está acabando, e eu sinto dor toda vez que penso isso. Sair do santa seria fechar uma porção de portas, das que mostram as mais bonitas paisagens além... e talvez seja até esse mêdo estranho de não aproveitar essas oportunidades, que vào se acabar no devido prazo, que me faz procurar cada vez mais desesperadamente uma razão indiscutível para tomar alguma atitude...
Digo que estou apostando em algo em que não acredito. Mas, de qualquer forma, eu não acredito em quase nada.
Você sente essa corrente de ar batendo de leve no seu rosto? Percebe como ela quase faz parte de você? Bom, hoje eu queria molhar o cabelo por causa do frio, então meu banho foi basicamente alguns minutos de olhar a água quente escorrendo por entre meus dedos. Às vezes eu acho que a água é tudo o que eu tenho. Todo o resto é vago, é indeciso, mas a água é real, é em si. A água não precisa de outra razão de ser -- ela é como que a base de tudo, a primeira coisa genuinamente real que existiu no mundo, ainda mais que a terra e as pedras.
Todo o resto é vago e indeciso. Todo o resto precisa de uma razão de ser. Eu acho que tenho uma razão de ser, assim como este mundo. Acho que o mundo, sendo assim tão grande e majestoso, tem razões que não podem ser questionadas. As coisas existem, não é necessário mais que isso. Mas e quanto a todas as coisas incompletas que criamos? E quanto a tudo o que fazemos?
... Eu nunca sei bem o que estou fazendo. Quando sei, não sei por quê. Se sei ambas as coisas, provavelmente é porque tenho uma motivação muito forte. Uma paixão de algum tipo. Por isso eu prefiro me apaixonar a ter segurança. A paixão é uma razão indiscutível para se fazer qualquer tipo de loucuras... mas eu não me apaixono...
O ano está acabando, e eu sinto dor toda vez que penso isso. Sair do santa seria fechar uma porção de portas, das que mostram as mais bonitas paisagens além... e talvez seja até esse mêdo estranho de não aproveitar essas oportunidades, que vào se acabar no devido prazo, que me faz procurar cada vez mais desesperadamente uma razão indiscutível para tomar alguma atitude...
Uma Pequena Contradição
(desculpe, não é bem de propósito...)
Não confie em mim.
Digo isso de antemão porque hoje meus sentimentos vieram todos em doses embaralhadas. Tudo o que me fazia feliz de certa forma também me preocupava, e o que me alegrava era também um pouco doloroso.
Hoje eu recebi a resposta que eu esperava. Mais ou menos do jeito que eu esperava. Foi tão aliviante quanto eu esperava que seria. Mas, sabe...
Eu recebi a tua resposta, mas ainda não recebi a minha.
Tenho a impressão de que não a receberei tão cedo, e isso me preocupa. Eu não sei o que fazer, não sei mais o que é certo e o que é errado, não sei o que é verdadeiro e o que é falso. Por enquanto, tudo tem sido apenas palavras e olhares... mas veja, eu quero saber o que disso tudo vale a pena.
Porque eu não sei se vai adiantar, se um dia eu vou aprender a amar, se um dia eu vou realmente encontrar meu Tigre. Agora eu fecho os olhos e vejo vocês tigres disfarçados rondando ao redor, em todos esses olhares, gestos, cartas. Conforme o dia avança se torna impossível evitar, não perceber as inúmeras possibilidades que você me dá, as inúmeras oportunidades que, por mêdo ou timidez, eu desisto de aproveitar...
Claro, eu poderia finjir que eu sou uma pessoa de princípios, mas eu não sei se ainda sou. Eu não quero parar. Quando você me olha, eu quero o seu olhar.
Me desculpa dizer tudo assim, mas eu achei que devias saber. Não confie tanto em mim - pois mesmo se confiares, eu ainda procurarei, mesmo que instintivamente, os olhos e os passos de um tigre na multidão. Não acredite nas minhas palavras. Eu não te amo, eu preciso te ver...
Eu tenho mêdo. Estou como que acorrentadas a enormes asas que me fazem querer seguir em outra direção. Mas tenho mêdo de seguir em qualquer direção. Vamos, por favor, vamos andar... devagar...
Parece que eu nunca vou saber o que eu quero na vida... e as apostas parecem todas insuportavelmente altas... quão boas são minhas cartas?
Não confie em mim.
Digo isso de antemão porque hoje meus sentimentos vieram todos em doses embaralhadas. Tudo o que me fazia feliz de certa forma também me preocupava, e o que me alegrava era também um pouco doloroso.
Hoje eu recebi a resposta que eu esperava. Mais ou menos do jeito que eu esperava. Foi tão aliviante quanto eu esperava que seria. Mas, sabe...
Eu recebi a tua resposta, mas ainda não recebi a minha.
Tenho a impressão de que não a receberei tão cedo, e isso me preocupa. Eu não sei o que fazer, não sei mais o que é certo e o que é errado, não sei o que é verdadeiro e o que é falso. Por enquanto, tudo tem sido apenas palavras e olhares... mas veja, eu quero saber o que disso tudo vale a pena.
Porque eu não sei se vai adiantar, se um dia eu vou aprender a amar, se um dia eu vou realmente encontrar meu Tigre. Agora eu fecho os olhos e vejo vocês tigres disfarçados rondando ao redor, em todos esses olhares, gestos, cartas. Conforme o dia avança se torna impossível evitar, não perceber as inúmeras possibilidades que você me dá, as inúmeras oportunidades que, por mêdo ou timidez, eu desisto de aproveitar...
Claro, eu poderia finjir que eu sou uma pessoa de princípios, mas eu não sei se ainda sou. Eu não quero parar. Quando você me olha, eu quero o seu olhar.
Me desculpa dizer tudo assim, mas eu achei que devias saber. Não confie tanto em mim - pois mesmo se confiares, eu ainda procurarei, mesmo que instintivamente, os olhos e os passos de um tigre na multidão. Não acredite nas minhas palavras. Eu não te amo, eu preciso te ver...
Eu tenho mêdo. Estou como que acorrentadas a enormes asas que me fazem querer seguir em outra direção. Mas tenho mêdo de seguir em qualquer direção. Vamos, por favor, vamos andar... devagar...
Parece que eu nunca vou saber o que eu quero na vida... e as apostas parecem todas insuportavelmente altas... quão boas são minhas cartas?
segunda-feira, 22 de maio de 2006
Principalmente sábado.
A bem da verdade eu estou feliz que tudo isso tenha acontecido. Eu entendi que é possível ser feliz. Obrigado.
Assinar:
Postagens (Atom)
