Como eu achei que deveria fazer, estou aqui para comentar no post de ontem. Pra dizer que exagerei, que não é bem assim. Que na verdade, já aconteceu uma vez de eu conhecer um cara no ponto de ônibus e confiar que eu podia sair com ele. Ele era da minha idade, tinha estudado junto com meus amigos e estudava junto com outros meus amigos. Ele tinha aquele jeito familiar, seguro. Até hoje ainda o encontro e falo com ele. Tem gente que conheci a vida toda e de quem fujo, mas ele, mal o conheço e confio, sei que é gente do bem.
O problema todo é que meu mêdo não é apenas psicológico, não é apenas emocional. É que eu não consigo me convencer de que é só emocional. Se o perigo não existisse, eu ia me obrigar a encarar. Eu sempre me obrigo a encarar mêdo ididotas pelo menos uma vez. Eu me obrigo quando acho que é importante vencer o mêdo. Mas eu acho perigoso andar na rua sozinha à noite, eu acho perigoso confiar demais em homem desconhecido, e é isso. Eu acabo andando sozinha na rua, porque acho perigoso mas não tenho medo. Se eu tivesse mêdo, achando perigoso, eu nunca conseguiria enfrentar o mêdo. Do mesmo jeito que não se enfrenta mêdo de leão. Do mesmo jeito que ninguém tenta curar leophobia.
É verdade, eu sou insegura. Mas eu enfrento minha insegurança, e aos poucos, com resiliência, eu consigo vencê-la ou contorná-la. Eu me sentia oprimida na empresa que eu trabalhava, mas eu ainda falava a verdade. Quando a galera no bar começou a falar sobre como todo mundo trai e todo mundo tem que trair mesmo, mas que se pegar o outro traindo não pode ficar quieto, eu consegui dizer que isso não fazia sentido pra mim, que eu preferia ter um namoro aberto, que eu tinha um namoro aberto, e era bem mais legal. Eu consegui dizer uma coisa que pra eles era inimaginável, e que eu achei que ia soar mal naquela roda, porque não era perigoso de verdade, era só assustador. Eu não soltei os leões em cima deles dizendo que eles eram um bando de falsos que só tinham relacionamentos para se encaixar na sociedade, e que ninguém com um mínimo de coerência e respeito próprio aceitaria namorar com um deles sabendo o quanto toda aquela farsa é cínica. Não é uma obrigação moral questionar as vidas absurdas das pessoas. Eu não acho que eu poderia mudar as vidas deles com minhas palavras esboçadas, inseguras, com mêdo de virar raiva de inconformação. Mas eu defendi a minha opção de vida. Não era perigoso.
É verdade que eu sou medrosa e tenho pavor do que pode acontecer comigo se eu revelar algumas coisas em alguns grupos sociais. É verdade que freqüentemente eu escondo o que acontece comigo porque as pessoas ao meu redor me falariam coisas que me fariam me sentir mal. E eu vejo como tudo isso é um desfavor para a sociedade como um todo, porque se eu me revelasse, as pessoas começariam a aceitar, pelo menos, que existe uma possibilidade de que eu realmente acredite nessas coisas, e, se mais gente falasse a mesma coisa, eventualmente todo mundo começaria a aceitar que essas coisas são possíveis de se pensar, e eventualmente as pessoas não teriam mais vontade de falar coisas que me fazem me sentir mal. E nesse sentido eu admito que minha insegurança é um problema. Mas eu luto, pequenamente. Cada dia um pouco. Com o tempo, eu vou ganhando coragem de olhar pros esqueletos no armário com frieza, e aos poucos eu vou mostrando eles pras pessoas. Eu sou insegura, mas já fui muito mais. Eu demorei 20 anos pra reunir a coragem de contar pra alguém que já não soubesse o motivo de eu ter feito terapia quando eu tinha 4 anos. Agora eu não tenho mais mêdo de contar. Eu não sei mais se importa de verdade. Esse virou pó; próximo esqueleto!
Ao mesmo tempo, quando eu era criança, eu não tinha mêdo de morrer, não tinha mêdo de bicho nem de queda nem de dor nem de ficar perdida nem de me afogar nem de passar frio nem de ficar doente nem de me queimar. Eu achava que não tinha mêdo de nada. Hoje em dia tenho mêdo de morrer de câncer, e de ficar velha. Tenho mêdo de falhar na vida, de ficar doente, de ficar sem dinheiro. Tenho mêdo de ser ridícula, de ser estúpida, de estar no grupo dos que menos contribuem, de ser irritante, de atrapalhar. Tenho mêdo de fazer com que as pessoas não gostem de mim. Talvez quase tudo o que eu faça seja motivado pelo mêdo de que um dia as pessoas percebam que eu não sou tudo isso que elas parecem achar. Que na verdade, por dentro, eu sou irresponsável, eu sou preguiçosa, eu sou mimada, eu não sei fazer nada, eu nunca aprendi a tomar conta de mim mesma, o tempo está passando e eu não estou realizando nada. Eu sou um fracasso. Hoje eu acho que eu tenho mêdo de tudo.
Eu ainda não tenho mêdo de queda nem de dor nem de fome nem de ficar perdida nem de me afogar nem de passar frio nem de me queimar. Mas agora eu tenho um pouco de mêdo de motos e de ônibus e de caminhão, e de ser atropelada, e de ser assaltada, e de quebrar o pescoço, e ser sequestrada, e de ser fisicamente forçada a fazer coisas que eu não quero, e de levar tiro de arma de fogo. Contaram muita história de terror pra mim a vida toda, e eu acreditei em algumas delas. E eu admito que tenho um pouco de mêdo de cair, quando estou escalando. Mas se tenho uma corda de segurança, eu venço o mêdo e sigo em frente enquanto minhas pernas tremem. Eu não sou uma covarde, quando eu sei que não preciso ser.
E pensando bem, eu deveria botar mais fé na minha capacidade de avaliar os perigos. Eu não acho mesmo que eu devo ir na casa de um cara que me chama pra casa dele quando eu ainda não confio nele direito. Se o cara faz uma coisa dessas, ou ele é perigoso ou ele é muito tapado. E se pá se ele não ganhou a minha confiança ainda, ele nunca vai ganhar. Não é necessariamente culpa minha, pô.
Eu também acho que eu devia voltar pro aikidô. Esse negócio de saber se defender aumenta violentamente a sua auto-confiança ao conviver com homens. Você deixa de se preocupar com se o cara é capaz de te machucar fisicamente pra se preocupar só com se ele é capaz de te machucar com uma arma (ou com outros caras) e as chances são muito menores. Embora, eu deva dizer, eu não seja capaz de avaliar se alguém é capaz de cometer esse tipo de atrocidade que envolve várias pessoas. Vocês podem dizer que eu estou sendo paranóica, se quiserem. Não é muito difícil me convencer de que o mundo é melhor do que o que me ensinaram a acreditar (mas, curioso, ninguém tentou até agora).
Acho que o que eu quis dizer com aquele parágrafo sobre tudo o que pode ser horrível ao se ir na casa de um cara, é que numa situação dessas, existe um improvável resultado bom, um improbabilíssimo resultado horrível, e muitos resultados ruins que são bastante prováveis. Mas se eu tivesse certeza que é só uma coisa moral, contra a qual eu posso aprender a lutar, eu arranjava a força. Não tenho certeza, eu tenho mêdo.
Eu tenho mêdo de que, tendo que lutar pelos meus direitos, na hora em que eu perdesse o controle e, na minha insegurança, começasse a chorar, ele veria a minha fraqueza e daria um jeito de se aproveitar dela do pior jeito.
Então aí está, pra você que duvidou até agora: meu verdadeiro mêdo é ter que mostrar meu lado mais fraco para pessoas que vão usá-lo contra mim, e acabar comigo por dentro.
... Será que eu assumo como predicado que uma pessoa qualquer, com probabilidade um, me odeia? Mas sim, acho que é essa a sensação que eu tenho sobre o mundo: que as pessoas quaisquer, de modo geral, não têm nenhum amor ao que eu sou por dentro. E pessoas sem amor só sabem ser horríveis. Elas nem sabem como não ser.
....... Mas, essa violência à alma, não é, também, a coisa mais assustadora a respeito de um estupro? E, nesse caso, não é essencialmente o mesmo mêdo? Eu sou uma pessoa fraca e indefesa. Eu sou uma garota pequena e fraca. Eu não sou nada como os meus sonhos, forte e invencível. Qualquer um pode me subjugar. Qualquer um pode pôr as garras na minha alma e me fazer me sentir suja e horrível por algum tempo. Não é a mesma coisa?
Depois dessa longa reflexão, estou me perguntando se eu deveria enfrentar meu mê... mas, pensando bem, e se o perigo for real?! Ah. Merda, não chegamos a lugar algum.