segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Livros debaixo dos livros

Li uma newsletter da Olivia Maia hoje, e eu devia estar escrevendo um e-mail pra ela, mas de qualquer forma que coisa boba imaginar que uma pessoa quer receber um e-mail comigo falando bobagens da minha cabeça e de como os pensamentos dela me impacaram (era pra ter um t ali entre o c e o a, mas não foi e acho que vai ficar assim mesmo, me empacaram), afinal eu sou só uma pessoinha meio boba que constantemente sente que não está conseguindo mergulhar num mar de histórias.

Ultimamente eu tenho lido pouco, e às vezes passado meses sem ler nada. Pra pessoas como eu (e, eu acho, Olivia), que meio que se construíram a partir de livros, isso é um pouco como... Passar dias e dias sem sair de casa, sem olhar pela janela. Você engana, vive, faz outras coisas, mas com o tempo começa a se sentir vazio por dentro, e percebe que naquela parte de você em que costumava haver uma floresta tropical de histórias e cenários e momentos e personagens, agora há uma seca brutal e quase que um deserto... Com o tempo a vida fica parecendo menos, e as palavras vão faltando, e as emoções ficam inacessíveis... 

O que me perturba é que ultimamente eu tenho evitado ler. Há livros e livros na minha estante que eu não li, e eu não pego nenhum deles. Eu leio webcomics, em momentos de cansaço ou tristeza ou quando o vazio fica muito grande eu leio um quadrinho inteiro de cabo a rabo, mas aí acaba e eu fico mordiscando as migalhas de webcomic que saem toda semana, e eu tenho que acompanhar uns vinte ao mesmo tempo pra conseguir sobreviver. Não tenho comprado quadrinhos porque é caro, e não tenho lido livros porque... Bom, muitas coisas.

Em parte porque eu sinto falta de ler em português, porque eu tenho lido demais em inglês e eu sinto que estou me expressando melhor em inglês que em português e quantas vezes eu fico tentando traduzir do inglês pro português alguma frase ou sentimento sem conseguir de verdade. Em parte porque eu não tenho mais saco pra livro mal traduzido, me dá umas ganas, incomoda, o livro tem que ser fenomenalmente bom pra eu conseguir continuar lendo. Em parte porque ás vezes eu começo a ler um livro e descubro o quanto ele é horrivelmente machista, e aí eu largo o livro no meio, e quão horrível é largar um livro no meio? Em parte é porque dos meus dezoito anos pra cá eu me esforcei mais e mais pra viver no mundo real e tentar impactar o mundo real e conviver com pessoas reais e fazer alguma diferença, sabe? E sabe o quê? Em algum lugar nos últimos anos eu comecei a me arrepender disso. Sério. No começo eu já questionava se tinha sido uma boa idéia, porque eu ainda não tinha ganhado nada e já estava perdendo muito. Depois por um tempo eu comecei a viver coisas incríveis que faziam tudo valer a pena. Mas depois de um tempo eu comecei a sentir mais e mais falta de quem eu era, e menos orgulho de quem eu sou. E eu comecei a passar por coisas estranhas como tédio e falta do que fazer, quando antes eu sempre teria coisas em que pensar e histórias para descobrir. E parte disso é que eu não tenho vontade sequer de ler livros... Não é que eu não leia livros, mas eu leio eles todos de uma vez e depois fico evitando ler livros porque "esse é um tempo que eu não tenho pra perder". Mas eu sinto um vazio brutal que vem diretamente de não estar lendo um livro... E ao mesmo tempo fica cada vez mais difícil escrever, desenhar e criar em geral.

Me ocorreu agora que também eu tenho quase que não assistido filmes e nem TV. Parece bobo, mas eu acho que talvez eu esteja sentindo os efeitos de não ter a oferta de séries e filmes, mesmo que bobos, histórias mesmo que bobas, todos os dias, o tempo todo. Em
Compensação, eu me regozijo com cada artigo bem escrito, científico ou jornalíslico, cada livro didático ou tutorial que me interessa. Eu tenho jogado pouco também, e dado cada vez mais importância aos jogos. Estou me agarrando às migalhas que me dou.

É isso, só.
Estou me sentindo bastante vazio por dentro, mas posso me obrigar a me alimentar melhor.

sábado, 27 de dezembro de 2014

Pilha de papéis

Estou tendo um acesso de filosofia adolescente, porque esta pilha de papéis está parecendo uma metáfora pra minha vida. Essa coisa no fundo da pilha, enterrada e inacessível, é meu diário da adolescência, cheio de histórias, reflexões, poemas, desenhos, viagens. Em cima estão listas de exercícios, cadernos de estudo, apostilas de cursinho, etc etc etc, simbolizando o tanto de conhecimento que eu tento obter e como eu sinto que aprendo tudo de forma rasa e desconeca, como num cursinho, e não como num livro aprofundado sobre o assunto. Eu sou uma apostila de cursinho, não um livro autoral que reúne todo o conhecimento novo e aprofundado num tema. Mais pra cima na pilha tem um bloco de papéis em branco, que simbolizam justamente a quantidade de papéis em branco que eu tenho, resultado de tentativas de preenchê-los com muitos projetos que eu demonstro não ser competente o bastante para realizar. Resumindo, eu tento cobrir a minha falta de profundidade com projetos novos que eu nunca consigo terminar a acabam se tornando mais provas da minha falta de aprofundamento; e no fim a coisa de que eu mais me orgulho são as minhas lembranças da adolescência, quando eu era capaz de mais profundidade, e de preencher folhas em branco. 

Este post em si apenas reitera o que estou falando.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Segregaçã Etária

Eu tava aqui pensando em como a segregação etária perpetrada pela escola é um problema. Deixe-me explicar.

Quando eu tava no colegial, eu tinha muites amigues, unides entre outras coisas por quão desajustades nós éramos à ordem social escolar. Algumes de nós tinham sofrido muito bullying na mesma escola. No colegial, quando começamos a nos envolver em romances adolescentes e outras situações novelescas, nossas inseguranças e imaturidades, misturadas com as nóias com que anos de exclusão social haviam nos imbuído, começaram a causar conflitos entre nós. Eu me lembro de um amigo que decidiu sabotar meu namoro com outro cara, por exemplo. Na época eu morri de raiva dele por que a atitude dele me fez tomar decisões erradas e sofrer. Muitas pessoas pareciam querer que eu fosse mais "puritana" ou sei lá. Vários dos nossos amigos estavam "no armário", ou saindo dele e ainda meio perdidos. Hoje em dia eu olho pra trás e penso que a pessoa que eu sou hoje teria lidado com tudo aquilo, dialogado, resolvido os problemas. Mas aí eu penso que eu hoje em dia não posso nem ajudar adolescentes a entender os problemas confusos nos quais eles se metem. Será que teria ajudado se na época nós pudéssemos ter tido amizade com pessoas mais velhas? As pessoas mais elhas na nossa vida eram sempre parentes e professores e colegas de trabalho dos nossos parentes -- boa parte eram que pessoas com quem eu não conversaria sobre nada pessoal, nem no passado, nem hoje. Nós estávamos constantemente inventando o mundo em que vivíamos, ou tentando sobreviver às complicadas hierarquias sociais da micro-sociedade adolescente da escola. Isso poderia até ser libertador, mas na prática a micro sociedade era tão hostil quanto nós esperávamos que o mundo lá fora fosse. Eu não sabia que eu ia conseguir me libertar das inúmeras correntes que me prendiam na escola. Eu não sabia que a vida ia ser maior e melhor e mais livre, e que eu ia concluir que não valia a pena ter nenhuma daquelas nóias, e que eu ia ter vergonha dos meus preconceitos bobos da adolescência. Eu não sabia que eu ia ter uma comunidade queer, não-mono, não-binarista de amigues que iam prezar pela miberdade e segurança de todo mundo. O mundo humano parecia desinteressante e limitado. Eu preferia a solidão à interação social. Naquela época, meu amigo fez uma piada, quando eu estava brincando com um pedaço de pau ele olhou pra mim e falou "você gosta de um pau, hem?" E eu tive que juntar 200% da minha força de vontade pra encarar de volta e falar "claro! Você não?".. Eu lembro porque foi extremamente significante. Hoje eu dia eu faço essas coisas sem nem pensar. Eu também lembro da minha primeira conversa sobre sexo, quando eu tinha 18 e fui numa viagem com amigues da minha irmã mais velha (todos e todas cis e hétero). Pensa só, no colegial eu tive que defender a minha honra e de meus namorados e amigos inúmeras vezes, mas eu nunca tinha tido uma conversa de verdade sobre sexo, na qual eu pudesse falar e perguntar e rir das piadas bobas e ouvir histórias boas e ruins e verdadeiras. Eu só tinha participado de piadas, zueiras, ofensas e bullying. Eu tinha vontade de conhecer outros tipos de pessoas, outros estilos de vida, mas eu só consegui isso depois de sair da escola. De fato, depois da escola todo mundo foi ficando mais seguro de si e se descobrindo e saindo dos armários todos. Demorou um tempo, mas aconteceu.

Quando eu penso na minha história de vida tudo parece meio surreal. Não sei se é só dissociação mesmo, porque eu passei tanto tempo sentindo que tudo era uma enganação, e porque eu dava tanta mais importância a histórias fictícias, ou porque falando objetivamente nada aconteceu, mas subjetivamente minha vida parecia um filme da Bridget Johnes. Acho que grande parte é porque nada bateu com o que era pra ser adolescência, com os relatos de adolescência que eu ouvi, tanto na época quanto depois. Eu ouvi relatos de adolescentes que tinham poucos amigos e odiavam todo mundo, e relatos de adolescentes que tinham vários amigos e iam em festas e bebiam escondido dos pais, e relatos de adolescentes que trepavam muito e passavam o dia na rua, mas nenhum relato era de adolescentes que não bebiam, não trepavam, não fumavam (essencialmente por moralismo barato, me parece), tinham infinitos amigos, gostavam de várias pessoas, inventavam histórias fofas e malucas e horríveis e não sabiam se comunicar direito com os outros adolescentes. Ainda fico me perguntando se não há adolescentes como nós na minha velha escola, perdidos e empolgados e se machucando uns aos outros por pura ignorância coletiva.

Enfim eu desviei um pouco do assunto original, mas eu acho que teria ajudado se nossas ofertas de amizade não fossem tão limitadas em faixa etária, se pudéssemos ter mais contato com pessoas mais novas e mais velhas com quem nos déssemos bem. Acho que teríamos ficado menos à mercê dos moralismos que os adultos da geração de nossos pais queriam que acreditássemos.

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Hoje

Ack

Blargh

Uck

Rosa

Dirgh

Mleck

Wok

Puff

Aaack


"Use o seu poder feminino"

Glaaagck

Muck

Sooork

Yuk

"Mesmo sendo menina"

...

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

I'm drunk and I had so much fun

Não sei se eu devia admitir que ficar comigo não é exatamente prova de ginosexualidade; que dos meus últimos quatro namorados, um namora com homem, um namorou com um homem trans, e outro é bi... E das minas que me pegaram uma disse que eu era um misto entre homem e mulher, e, sabe o quê? Acho dahora isso tudo.

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Quzstões sobre a caatinga

Quando fomos pro curso de probabilidade, num pequeno grupo de amigos, em outra cidade, nos organizamos mais ou menos numa república. Rapidamente, como acontece em repúblicas de amigos, desvolvemos uma unidade peculiar, hábitos próprios e piadas internas. Nos últimos dias decidimos que nossa apresentação final ia ficar melhor se incluíssemos uma seção piada sobre os membros do grupo, e nos vestíssemos com um uniforme. Encomendamos os uniformes, que eram essencialmente pijamas laranja-e-brancos com orelhinhas e coisas do gênero, feitos de tricô (aparentemente havia uma empresa na cidade que fazia tricô por encomenda, bastava mandar um desenho do padrão desejado que em menos de uma semana ficava pronto). Nossa apresentação ia incluir uma sessão de perguntas humorísticas sobre a especialidade de cada membro do grupo. No dia, montamos um projetos de slides na sala da república, e nossos professores, colegas, mães e amigas das mães sentaram em pufs e cadeiras de praias e talvez caideiras de balanço que havíamos pegado por aí. No fim da apresentação vieram as pergunas: uma pergunta sobre linhas de trem pro engenheiro, sobre resistência dos materias, sobre fissão nuclear pro físico, essas coisas. Decidiram que minha especialidade era biologia, e me fizeram a seguinte pergunta:

"Por que é que na caatinga o gato do mato, em vez de ser grande e fofo como a maior parte do felinos, tem aquela cara feia de bicho mau?"

(Não me lembro os termos exatos, mas acho que aproxima bem)

Me lembro que haviam me avisado que haveria ima pergunta sobre a caatinga, mas eu não aproveitara pra estudar o ecossistema. Eu nem sabia se na caatinga havia gatos do mato (aparentemente não só eles existem, como são absolutamente adoráveis e estão em extinção, como na verdade o eossistema inteiro: <a href:"http://www.pensamentoverde.com.br/meio-ambiente/fauna-brasileira-especies-em-extincao-na-caatinga/">olha só</a>). Então o que eu fiz? Enrolei pra caralho. Eu comecei a explicar que a caatinga sendo um ambiente desértico (??) não consegue sustentar predadores grandes como um leão fofo; aí decidi voltar pra base e explicar o conceito de produtividade primária, cadeia trófica, blablabla; aí me cortaram falando "mas a pergunta era sobre a cara feia do gato da caatinga!" Aí eu n sabia nada sobre esse gato, mas imaginei que ele devia parecer uma raposa, com umas sobrancelhas enormes, e comecei a delirar sobre as sobrancelhas enormes serem uma coisa que protege os olhos dele da poeira, e outras bobagens do gênero. Depois a Chris disse que tava gostando que eu tinha tentado explicar tudinho detalhadamente, a partir do começo; então eu voltei a falar de biomassa e fotossíntese e essas coisas todas.

Aí eu acordei.

terça-feira, 21 de outubro de 2014

Privilégio hétero e essas bostas

Eu acho meio estranho quando alguém pensa que eu tenho um relacionamento hétero. Eu até entendo de onde essa idéia vem, sabe, a gente faz umas coisas meio héteras tipo ir em eventos de família, inclusive na igreja, discute com parente reaça, ouve bosta heterossexista falada em tom amigável.

Passar como hétero é um privilégio meio bosta, porque as pessoas hétero tendem a achar que a gente é também e não têm aquela auto-contenção que é resevada para Os Outros. É mais ou menos como ser visto como um bróder pelos caras escrotinhos do colégio: por um lado eles não batem em você, por outro, eles falam pra você tudo o que eles não falariam pruma mina ou prum viado. Recentemente, na casa da minha própria irmã, um mala perguntou pra roda de amigos: "é namorada de quem?". A pergunta me soou tão desrespeitosa que eu fiquei sem reação. Por ser uma pessoa muito de esquerda ("radical" segundo minha mãe), eu nunca sei quando é socialmente viável ficar puta da vida com uma merda que alguém fala. Eu devo xingar quando alguém fala uma coisa machista? E quando alguém fala uma coisa reaça? E quando alguém propõe desmatar 25m2 de beira de rio?Quando que eu posso não aturar mais e mandar pro inferno? Então eu só não reajo. Eu sei que é pior ainda, mas eu morro de medo de errar e cair num vortex de briga de família. Aí depois desse cara fazer essa pergunta escrota, seguida de uma piada escrota, um tempo depois eu tirei um sarro de leve de uma piada besta que ele fez sobre parecer gay, e ele vira pra mim e aponta que minha roupa é super gay. Eu ri. Que bom que eu não pareço ht, né, imagina que pira? Mesmo meus amigos hétero em geral não são super fãs da indumentária heteronormativa.

Outra coisa que me vêm à mente é que é um relacionamento hétero que não envolve nenhuma pessoa hétero. Na verdade mesmo se alguém vier falar que ele é homem e eu sou mulher eu já vou olhar muito torto pra essa pessoa. Tira a sua obcessão com gênero do meu corpo, que nojo! 

Ultimamente eu tenho evitado sequer falar sobre sexo e gênero, porque, sabe, eu não quero ter que ficar noiando sobre o meu papel no mundo, a vida já tá bem foda só com os compromissos que eu escolhi ter. Mas às vezes essas coisas vêm à toa, e às vezes eu quero bater em cada homem que se recusa a apertar minha mão. Ugh.

Eu diria que eu tenho em muitos aspectos os privilégios de ser lide como uma pessoa cos. Mas no meu casp isso quer dizer que eu sou lido como uma mulher cis, e que as pessoas vão me tratar desse jeito. Com mulheres às vezes é mais de boa, às vezes menos, depende do quanto elas ligam pra gênero. Mas homem parece que liga sempre muito pra gênero. Inclusive homem trans. Parece que poder discrimiar as pessoas por gênero faz parte dos privilégios do macho. E eu tenho vontade de morrer toda vez que eu sinto que o macho tá me tratando como uma fêmea, e portanto um bocho estranho e inferior. Infelizmente eu sinto isso a partir de coisas muito pequenas. Alguns homens ficam realmente ofendidos se você tenta dar um aperto de mão, mas ao mesmo tempo você vê a importância que eles dão praquilo quando apertam a mão de outros homens. É como se eu me recusar a ser mulher como eles esperam fosse uma ofensa pessoal contra eles.

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

--- E pra quê eu preciso saber disso?

Então, tipo, esta semana eu tava dando aula e apareceu um exercício de vestibular que tinha umas funções logarítmicas deslocadas, com as assíntotas verticais em tracejado. Aí eu pensei "poutz, é melhor eu explicar pressas pessoas o que que é uma assíntota!"

Eu falei pra turma que eu ia explicar isso pra elas, e imediatamente a menina super dedicada que quer prestar poli me pergunta:

--- E pra quê eu preciso saber isso?

Hm.

Olha, eu entendo que com o vestibular se aproximando é normal a gente começar a ficar na pira de não querer estudar nada que não for ser imediatamente útil. Mas acho que a questão é mais profunda aqui, é uma questão que eu sinto mais forte, que é a questão de querer sempre justificar o aprendizado de matemática. Sempre. Quantas vezes eu já não ouvi gente reclamando que estudar essa ou aquela matéria de matemática era inútil, por que nunca ia usar aquilo na vida?

Imagina que eu estivesse dando aula de biologia, e eu começasse a falar sobre o ornitorrinco, e eu começasse a descrever como ele é, onde ele vive, que tipo de bicho ele é. Alguém na turma ia perguntar pra que saber do ornitorrinco ia servir? Ou imagina que eu começasse a falar de, sei lá, de quelíceras, que é essa parte do corpo das aranhas, sabe, que vários artrópodes têm, que elas usam por exemplo pra te picar. Alguém ia perguntar "mas pra quê que isso serve?". Ou imagina que eu desse aula de história, e eu quisesse explicar sobre relações de servidão, ou eu quisesse contar a história da Alsácia-Lorena. Ou mais ainda, imagina que eu desse aula de artes, e que eu quisesse explicar que existe essa cor, que chama azul.

Pra quê servem assíntotas? Sei lá, possívelmente pra nada, pra que serve azul? Assíntota é uma coisa que algumas funções têm; algumas funções têm comportamento assintótico, é algo que acontece, é interessante em alguns casos, é legal, funções assintóticas representam bem alguns tipos de idéias, por exemplo a idéia de se aproximar de um ponto de equilíbrio; sem contar que boa parte das funções mais comuns que tem são assintóticas. Pra que serve estudar assíntotas? Bom, em primeiro lugar, serve pra você ler a palavra "assíntota" em algum lugar e saber o que significa. Também serve pra você ver uma linha tracejada num gráfico e saber o que aquela linha é. Serve pra você identificar que aquela função super conhecida tem uma assíntota vertical no zero, e ver um gráfico de função com essa assíntota deslocada, e perceber que teve um deslocamento da função. Pra que serve saber o que é uma pata, uma orelha, um estômato? Pra que serve saber o que significa "antípoda"?

Eu fico pensando por um lado que matemática deve ser um saco absoluto pras pessoas, claro, que ninguém tem a menor vontade de estudar curvas, funções, transformações, derivadas, assíntotas, limites. Quando a minha professora de história começou a falar da história das termópilas, no colegial, ninguém interrompeu ela pra perguntar por quê ela achava que ela tinha que contar aquela história. Mas ao mesmo tempo isso é porque a história era interessante.

Por outro lado a gente devia mesmo parar o tempo todo e se perguntar "mas o que que eu tô fazendo aqui? Por que eu tô fazendo isso?"... Só que assim, é preciso se perguntar, mais do que "por quê aprender isso?", é preciso se perguntar "o que eu quero aprender?". Então eu não sei o que eu tenho que falar quando eu tô dando uma aula de cursinho e uma pessoa vem me perguntar o que eu tô fazendo ali. Eu penso: bom, eu tô tentando mostrar os comportamentos de funções pra vocês, pra fazer elas parecerem menos assustadoras, prelas fazerem um pouco mais de sentido, porque vocês vão precisar saber manipular essas coisas na prova que vocês vão fazer, e porque algumas de vocês vão inclusive usar um monte de funções ao longo da vida de vocês porque vocês vão estudar engenharia, física, essas coisas. Não é o sistema de ensino do qual eu gostaria de estar fazendo parte, e nem é o sistema de ensino que vocês querem, tb. Mas eu tava pensando que ultimamente o vestibular tem ficado cada vez mais dahora, cada vez mais misturando as disciplinas e fazendo perguntas inteligentes que exigem que a gente pare e pense e manipule os conhecimentos. E que o vestibular está mais dahora que o sistema de ensino das escolas. E que eu não tenho o menor saco pra dar uma aula enciclopedista, e nem eu acho que isso vai ajudar com porra nenhuma.

Além do mais, eu sou uma dessas pessoas que acha matemática uma das coisas mais lindas do mundo, e eu não ia conseguir mutilar completamente essa coisa que eu estudo.

terça-feira, 14 de outubro de 2014

Dinheiro vs Riqueza

Hoje eu me vesti, olhei pra mim e pensei: "heh, eu devo ter gasto menos de quinze conto nesse outfit bonitão... Bom, exceto pela camisa que custou vinte."

Aí eu olhei de novo pra minha roupa e percebi que eu estava vestindo uma bermuda de marca, um allstar, etc etc, e que se eu tivesse pago por tudo isso, eu teria gastado lá pelos duzentos reais. Mas eu ganhei a blusa da mãe, a bermuda que o tio não usava mais, o tênis veio de uma amiga da sogra, o cinto talvez de uma prima, a camisa eu comprei numa promoção na augusta.

No fim das contas, mesmo eu não ganhando muito dinheiro, eu ainda tenho um monte de gente rica na família que me dá coisas. E isso conta como privilégio de classe.

domingo, 12 de outubro de 2014

Compaixão

A pessoa do outro lado da mesa disse que os movimentos grevistas da USP eram "uma falta de patriotismo!"

Eu não seria a pessoa apropriada para questionar isso porque eu tenho a impressão de que usar a palavra "patriotismo" já é começar errado. Quando eu penso em nações patrióticas eu penso na Alemanha nazista. Pra não ficar muito <i>reductio ad Hitlerum</i>, eu penso também nos exércitos, todos, em jovens dando suas vidas para matar outras pessoas jovens. Eu penso em guerra. Eu penso na ditadura militar brasileira querendo que todo mundo ficasse quietinho e exaltasse o Brasil no hino nacional. Pra mim quem exige patriotismo é gente que apóia a ditadura, é militarista, é querer que não se critique um governo, que se aceite ser governado sem questionamentos. É uma palavra que não me traz boas impressãos.

Pra falar a verdade, eu tenho esse impulso de dizer que patriotismo é uma coisa errada. É errado porque significa amar à patria mais que aos outros. E se é pra "amar ao próximo" e ter compaixão e etc, é pra amar a todos, e a todas as coisas vivas, independente de onde elas estejam. Não é pra amar ao seu vizinho mais do que a um estrangeiro. Quando o padre diz pra amar o próximo, ele não quer dizer que é pra amar só quem está perto, entende, é só uma força de expressão. Inclusive se você pensar na imensidão do universo todas as pessoas da terra estão bem pertinho. Mas é claro que se aparecerem aliens na terra você pode tentar amar a eles também. Compaixão significa empatizar com todas as criaturas. Não é pra respeitar o parecido e cuspir na cara de quem é diferente.

Acho que passar tempo com gente católica acaba ativando minha criação católica e eu fico pensando sobre todas essas coisas. Se você pensar a Bíblia soa o tempo todo como um clubinho bairrista. É pra amar seu vizinho e Deus vai destruir seus inimigos. "O povo de Deus", dizem os religiosos, quando não "o povo escolhido". Os filhos de Abrão. Não admira muito que tantos povos tenham feito guerras por "terras prometidas". Mas ao mesmo tempo quando Cristo morre na cruz ele não condena nem mesmo os infiéis romanos que o matam. Hoje em dia fala-se muito nisso, nessa compaixão. Eu penso um pouco na compaixão que me foi ensinada, e acho que é uma compaixão que tem algo de budista, nesse jeito de ter respeito e amor por todas as coisas. As nações e as bandeiras não fazem sentido, porque todos somos um perante o sagrado ("sob Deus" ou "no amor de Cristo", ou o que você quiser). Nesse sentido o patriotismo é um tanto anti-cristão, ou é uma religião em si, uma heresia de certa forma. Acho que os papas medievais concordariam comigo.

Por outro lado, se não fosse toda essa conotação facista que a palavra "patriotismo" tem, eu falaria sobre como os rebeldes, os grevistas, são na verdade os maiores patriotas. Porque amar ao seu país não significa amá-lo quando ele vai bem e abandoná-lo quando ele vai mal, nem significa amá-lo todo o tempo e ignorar seus problemas. Amar seu país significa lutar para melhorá-lo e fazer dele o melhor país possível. Os professores universitários em greve querem de fato que sua universidade seja a melhor possível, que haja professores o bastante para dar todas as aulas, e que as contas da universidade sejam abertas para que todos possam garantir que a universidade está sendo bem-gerida. Muitos deles estão em greve apesar do custo que isso tem para eles (apesar do esforço contra isso, quase sempre o custo da greve de professores é maior para os professores do que para reitores e governantes - que ultimamente têm tentado dar a entender que eles nem ligam). Pode-se discutir quão adequado e eficiente é esse método, nesse caso, mas dizer que greves são antipatrióticas, que um povo está contra sua pátria, é fingir que esse povo não compõe a pátria. A impressão que eu tenho é que patriotismo em si é antipatriótico, porque o patriotismo não faz bem pro povo. Eu diria que querer extingüir as divisas entre as nações pode ser patriótico.


sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Utilidade

Faz algum tempo tive uma discussão com um colega sobre a impressão que a população em geral tem da ciência e da universidade. Se um governo investe em ciência, é provável que a população se sinta injustiçada. A universidade tem essa fama de ser composta por vagabundos que nada fazem de útil, e estudar é visto como um privilégio. Isso transparece nos discursos de que mestrandos e doutorandos não devem exigir bolsas que os sustentem -- como estudar é um benefício em si, não é justo que o estudante receba além disso um benefício monetário. Mesmo quando o investimento é diretamente em pesquisa, questiona-se a necessidade desse investimento. Meu colega me explicou que o que acontece é que a população não vê a utilidade da ciência porque ela de fato não lhe beneficia.

Acho que uma parte disso é um erro, já que as pesquisas feitas com incentivo público nas universidades públicas são as responsáveis pelos maiores avanços a longo prazo nas questões de interesse da população carente. Outra parte disso é causada por uma visão extremamente individualista - porque o único benefício reconhecido do estudo é aquele para o estudante, que pode se tornar uma pessoa mais capacitada e no futuro conseguir empregos melhores - e utilitarista - ou seja, não se enxerga a importância da manutenção da comunidade científica em si. Ao que me parece, a aparente utilidade prática da pesquisa científica serve para obscurecer a natureza artística e cultural da ciência. Seria mais coerente, eu acho, que programas de pesquisa em algumas áreas de ciência teórica abstrata fossem financiados por programas de incentivo a cultura. Porém, como supõe-se que a ciência é útil, passa-se a se exigir que ela seja valorizada apenas enquanto é perceptivelmente útil.

De um ponto de vista mais prático porém, eu acho que o cerne da desconfiança com as instituições científicas é justificado. Se uma sociedade sustenta uma instituição que não se preocupa em criar benefícios para a sociedade, essa instituição se torna como um mosteiro, ou como talvez fossem algumas antigas universidades, ou bibliotecas, lugares onde o conhecimento é armazenado e mantido vivo e refinado, que têm a própria continuação e aperfeiçoamento como seu único objetivo. Eu adoraria viver numa universidade assim, mas eu não sei até que ponto eu acharia justo investir numa instituição cujos frutos são intangíveis para quem a sustenta.

A universidade que temos hoje é composta em grande parte por artistas que se dedicam apenas à sua arte, mas em outra grande parte por pessoas sonhadoras que desejam que sua pesquisa torne o mundo melhor. Algumas dessas pessoas se envolvem com projetos de extensão, que é o meio oficial de devolver para a sociedade os benefícios do estudo, algumas voltam-se para o ensino, e algumas procuram projetos de pesquisa que possam ser utilizados no futuro, por pessoas mais empreendedoras, para tornar as coisas melhores. Mas esse esforço é inútil se não houver quem aplique e distribua esse novo conhecimento. Muitas vezes, existem forças poderosas trabalhando justamente contra a aplicação do conhecimento. A universidade se torna um núcleo de resistência a uma cultura destrutiva... Mas uma resistência passiva pode ser simplesmente ignorada. É preciso uma articulação com as ruas.

Tudo isso pra dizer que muitas vezes os temas que mais me apaixonam na ciência muitas vezes me parecem incapazes de transformar o mundo de verdade. Isso me frustra, e me leva a investir cada vez mais energia em coisas cujo resultado eu possa ver. Talvez eu não seja a pessoa mais apropriada para fazê-las, mas pelo menos eu acho que elas precisam ser feitas. Mudar o mundo nos detalhes já é melhor que não mudar nada. Talvez isso faça de mim uma pessoa errada para pesquisar matemática: meu amor por ela é grande, mas eu tenho dificuldade de ver a importância do que eu faço por amor. Especialmente se quase ninguém pode compartilhar comigo a beleza do que eu estudo. É como escrever uma história e não poder contá-la a ninguém.

sábado, 23 de agosto de 2014

Conseqüência

Ontem eu assisti Maleficent, que foi a surpresa cinematográfica mais agradável dos... Hm possivelmente de toda a minha vida. Talvez o relato a seguir seja conseqüente disso.

---

O Condado era habitado majoritariamente por hobbits e saiajins, que viviam em perfeita paz e harmonia; porém, nas baías e istmos ao sul (que pareciam suspeitamente com a Cajaíba) haviam muitas comunidades de fadas, unicórnios, cavalos mágicos voadores, animais falantes e outras criaturas maravilhosas. As pessoas das cidades humanóides do Condado nem sempre acreditavam na existência dessas criaturas, muito embora elas visitassem suas cidades, às vezes passando despercebidas e influenciando suas vidas em segredo, outras lançando encantos e maldições desses que dão origem a contos de fadas. Mas vocês sabem que hobbits não são muito chegados a ter aventuras acontendo com eles. E os saiajins por seu lado não conseguiam entender a natureza pacífica e fabulosa das criaturas-fadas.

Mas tudo mudou quando grandes furacões e tempestades surgiram no Mar do Sul, derrubando árvores e casas e destruindo os lares das criaturas-fadas. Ondas gigantes carregavam pequenos animais para o mar aberto, morros desmoronavam sobre comunidades indefesas, e só sobreviveram aquelas criaturas que conseguiram escapar para as regiões mais centrais do Condado. Eu ajudei como pude, investindo todas as minhas energias em trazer duas criaturas queridas, uma égua alada (ou talvez fosse Asa Dourada?) e um centauro jovem que podia ter asas em seu dorso se precisasse (talvez um Unicórnio de Ziget?). Eles usaram suas asas para nos levar à frente das ondas terríveis. Durante o percurso muitas vezes tivemos que nos segurar uns nos outros; uma vez eu tive que agarrar o Unicórnio pelas duas mãos e puxá-lo com toda a força para que ele não fosse engolido por um abismo de onde um vento terrível o puxava para trás. Quando finalmente escapamos das ondas, eu ordenei que ele se livrasse das asas, porque os ventos poderiam levantá-lo por elas assim como uma tempestade destrói as velas de um navio no mar. A pégaso recolheu as suas o melhor que pôde, e seguimos juntos enquanto eu chamava todos os animais falantes com quem cruzávamos, afinal sobreviveríamos juntos. Conseguimos nos abrigar em uma cidade onde algumas construções mais resistentes abrigavam os sobreviventes -- porque as tempestades havia fustigado todo o Condado, e os hobbit (e saiajins) também haviam sofrido. Os sobreviventes eram poucos, e as instituições haviam ruído; todos se abrigavam num grande prédio que talvez tivesse sido um colégio ou uma universidade, e alguns homens mais velhos tentavam estabelecer regras e um comando que desse estrutura à sociedade. Por outro lado, alguns saiajins jovens, avessos à ordem, decidiram que, na falta de uma polícia para impôr conseqüências ao seus atos, eles podiam fazer quais maldades eles quisessem, e formaram uma gangue que aterrorizava e abusava dos outros sobreviventes. Por nossa vitalidade e experiência eu e meus colegas rapidamente nos tornamos um substituro precário de uma força policial, enfrentando e afinal capturando esses delinqüentes quando eles tentaram nos atacar. Nós levamos eles às salas de aula onde as pessoas tentavam estabelecer conselhos improvisados, e discutimos como fazê-los parar de atormentar as pessoas mesmo depois que soltássemos suas algemas (afinal não poderíamos manter nossos únicos adolescentes saiajins sob custódia permanente).

Outro problema era que os cidadãos se recusavam a acreditar na existência das criaturas-fadas que chegavam à cidade. Mais de uma vez um hobbit incrédulo veio questionar minha sanidade por eu estar conversando com meus amigos. Logo nas primeiras horas depois de chegarmos eu localizei um pequeno conselho em um antigo auditório: cinco ou seis pessoas que haviam tido certa influência tentavam discutir quais atitudes tomariam. Eu me juntei à discussão e assim que eles aceitaram minha autoridade eu chamei à palavra um líder dos roedores, um senhorzinho roedor de bastante idade, sabedoria e experiência. A reação dos conselheiros foi de choque e incredulidade, pois o meu companheiro saiu de debaixo de uma mesa e escalou os móveis com suas patas ágeis para discutir face a face comigo o futuro dos nossos povos. Alguns hobbits se revoltaram, decidindo que eu era uma pessoa louca por falar com ratos, mas a atitude serena e indubitavelmente compreensiva do meu companheiro acabou convencendo-os de que ele era um líder tão inteligente e capacitado quanto cada um de nós, e que o povo dele era tão racional quanto o nosso (senão mais). Ao longo dos dias mais e mais vezes ouvi hobbits e saiajins incrédulos por eu estar falando com bichos, mas todos eles acabavam aceitando a presença dos animais falantes. Havia porém uma porção dos cidadãos que era contrária a presença dos animais falantes na cidade, e esses queriam caçar meus companheiros, talvez até organizar grupos de caça. Por causa disso, tive que me dedicar a proteger as vidas deles, e me tornei uma espécie de intermédio militar entre os dois povos, enquanto o líder roedor se estabelecia como uma influência política. Eu tenho certeza que a longo prazo conseguiremos reerguer esta cidade com um povo misto de humanóides e criaturas fadas. Ainda não tivemos notícias do resto do Condado, mas, quem sabe? Talvez haja outras cidades, com mais sobreviventes, e talvez essa tragédia dê início a uma nova era de convivência entre os povos.

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Proposta de roteiro

O filme começa com um garoto aborígene cuja comunidade está sob ataque dos latifundiários e negociantes brancos. Circunstâncias complexas obrigam o garoto a se infiltrar numa fazenda, onde ele aprende sobre os costumes dos fazendeiros, consegue cargos de confiança e prova seu valor se tornando um negociante e administrador extremamente competente. Ele acaba se tornando herdeiro do dono da fazenda, para a inveja dos filhos legítimos, e quando o dono morre, numa cena extremamente dramática, ele implementa um novo plano de negócios que permite que ele acabe comprando todas as terras ao redor. No final, ele tem que escolher entre sua antiga família aborígene e sua nova família capitalista. De alguma forma muito mágica ele consegue resolver o conflito e trazer a paz, mas acaba morrendo no processo, e as pessoas da cidade nomeiam uma avenida em homenagem a ele.

---

Observação: eu pensei em substituir o protagonista por uma mulher, mas rapudamente descobri que esse plot com uma mulher se transforma em ou O Diabo Veste Prada ou Erin Brockovich -- porque uma mulher conquistar o sucesso é uma coisa muito incrível que merece um filme. Como minha intenção era reverter o plot de <a href:"http://tvtropes.org/pmwiki/pmwiki.php/Main/MightyWhitey">"o homem branco é melhor nativo que os nativos"</a>, não me interessava muito. 

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Sexualidade é uma questão familiar

Meu amigo Pizza disse que sexualidade é justamente aquilo que mais tem a ver com a família porque define casamento, filhos, quem vai fazer parte da família. Concordo plenamente. Acho que não tem nem o que elaborar em cima.

Minha grande questão com a minha sexualidade no momento é encontrar ginecologista com quem eu consiga falar sobre isso. Eu não fico muito confortável com o gineco da família, um homem branco engravatado, presumidamente hétero, indicado por minha mãe. Minha mãe que cada vez maos tenta me converter à monogamia, e que não acredita que eu seja bi. Eu tenho que explicar pra ela que ela não tem poder sobre a minha orientação sexual.

Eu tenho duas orientações sexuais, porque uma é ser bi, outra é ser poli. Essas duas coisas têm impactos muito semelhantes na minha vida. Eu tive que sair do armário sobre cada uma delas, porque afinal, essas duas coisas determinam como vai ser a estrutura da família que eu vou formar, né. Dado que ambos minha irmã e meu irmão são pessoas hétero e monogâmicas, eu sou tipo o patinho feio da família. Minha mãe acha que eu vou sofrer horrores. Ela prefere imaginar que eu vou espintaneamente "me curar" dessas coisas, eu acho. Não que ela diga isso. Mas ela acha que eu só não sei o que estou falando.

Eu sempre fui bi, eu sempre fui poly, e minha vida só melhorou depois que eu admiti essas coisas e passei a viver de acordo. Sair dos armários foi a melhor coisa que eu já fiz. Por outro lado, isso criou uma ruptura entre a minha vida social aberta e fora do armário, e a minha vida familiar, onde sou supostamente hétero e mono como as outras pessoas. Dada a importância das orientações sexuais para a vida familiar, não admira muito que seja tão mais difícil se abrir para a família que para os amigos, e que tantas pessoas não-hétero e não-mono vivam uma vida dupla, escondendo sua vida pessoal da família, ou mesmo que se afastem da família para poder viver a própria vida. Eu muitas vezes sinto que vivo uma vida dupla, dado quão pouco meus familiares sabem sobre mim, sobre o que eu faço e penso; é incrível o quão pouco eu consigo falar quando estou em família, mesmo com as crianças. Eu queria poder ser algum tipo de exemplo para as crianças, mas eu acho que tenho muito mêdo e insegurança que me impedem de ensinar qualquer coisa a elas. Parte disso é que meus ideais sejam considerados absurdos por uma porção tão grande da minha família.

Uma vez minha prima me perguntou o que minha mãe achava de eu ser bi, e eu não entendi a pergunta, porque minha mãe não parece achar nada. Ela parece que nem considera a hipótese de eu ser bi. Não importa que eu tenha falado para ela com todas as palavras pelo menos duas vezes.

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Unsent text

Do you think I'm pretty?

I mean
I know you're not a dyke and all
I swear I'm not still hitting on you
I think I'm over you
Maybe

But are you at least a little bit attracted to me?
I mean I fet it if you don't like cunts
But
I think the thing is
I could ask boys but, I've met so many men in my life that I can't tale them seriously at all
Like all they care about me is tits and cunt and looking cute and I know how to laugh at their jokes like an instinct
They think it's cute that I can think and have opinions
Yeah I know I shouldn't talk about them like that
i think I've met so pany straight men in my life that I can hardly think of them as human anymore
How fuckep up is that
And I mean I was one of those people that defended with all my heart that yes boys and gurls can be friends
But now
I don't even know what that means anymore
Can anyone be friends?
What do you think?

Oh that's my station.

What I am saying, I have a lot of boy-friends still
Haven't I ?
I guess I would have to ask them
I dunno
It's so confusing how political having friends is
How our relationship changes so much according to relationship statuses
Love
Attraction
And how they fight and fuck amongst themselves
I can't keep up
No, really.

The thing is, when I find someone attractive, it's either they are hot as hell or they are so amazing that I can see through the veil of silly preconceived expectations and actually just look at tem, waiting to see what they will do next

That's how it was with you
You were so amazing
That's probably why I got over you, too
It's too hard to be platonically in love with someone who just gets more and more awesome while I... don't.
You were still too far above me
That's the hard thing about you girls.
I could try to imagine that it was just that I found other people who were equally amazing and who liked me back
But
I think I could have been in love with all of you for a long time
My heart is a pretty good juggler
It's a good thing I dropped that one, though
I can probably be a much better friend now
Not that you need me

Anyway
Do you think I'm pretty?
And I don't want a motherly/sisterly answer
Just tell me if... No, wait
Don't tell me
Don't answer that question.

Dam and flood

Ultimamente tenho sentido um impulso de voltar ao que eu era antes, antes de eu sair de casa, antes de sair do armário, antes de aprender as coisas sobre as quais eu mais penso e falo no meu dia a dia. Voltar para a época em que eu não questionava a cisgeneridade e nem a minha heterossexualidade. Voltar para uma época em que minhas dificuldades de hoje em dia não existiam. Às vezes eu me sinto de. Volta, me sinto de novo com doze anos e me achando tão grande e tendo certeza de que eu faria todas aquelas grandes coisas antes dos dezenove. Eu tento pensar nas dificuldades também; na insegurança sobre tudo, nos terríveis arrependimentos, no silêncio, nos segredos. Se hoje em dia eu guardo segredos porque não quero criar conflito, naquela época eu guardava segredos porque queria ter amigos. Eu tinha tanta certeza de que meus amigos teriam mêdo dos meus pensamentos mais obscuros! Entretanto eu era criança sim, embora uma criança estranah. E hoje eu vejo como eu tinha poucas preocupações, muitas idéias utópicas, muita fé. Eu era uma pessoa forte, talvez mais forte do que sou hoje.

Às vezes eu quero voltar. Eu não quero discutir todas essas coisas a cada instante da minha vida. Eu só quero uma vida tranqüila, onde eu possa me dedicar ao que importa. O passado passou e eu não me tornei uma pessoa tão capaz quanto eu esperava, nem tão capaz quanto as pessoas que eu admiro. Eu mudei pouco demais, talvez. Mas eu mudei muito também, e mudei para algo mais difícil. E 

---

Às vezes eu me pergunto se o saceifício valeu a pena. Eu me perguntei, que saceifício? Às vezes eu me peguei pensando coisas como "se eu nm estou feliz, então de quê valeu o sarigício?" E eu me perguntei, "mas qual sacrifício?". E pouco depois ou pouco antes eu me peguei pensando em tudo aquilo que eu sacrifiquei, tudo aquilo que eu suprimi e afoguei apenas para que eu pudesse viver no mundo teal, apenas para que eu pudesse ser feliz e fazer amigos e quem sabe trabalhar e tentar mudar o mundo e batalhar para fazer alguma difeeença, para interagir com a realidade e fazer uma diferença na realidad em vea de apenas fugir dela.  Esse sacrifício. E eu estou aqui nos meus vinte e conco anos, aquela idade que todo mundo diz que é quando o metabolismo fica mais lrento e a gente pára de crzscer pra gomeçar a znvelhecer, e eu ainda não cheguei lá, eu ainda não cheguei no mundo real, nada do que eu fiz fez nenhuma diferença, e eu ajudei im pouco algumas pessoas que talvez venham a fazer um pouquinho de diferença, pessoas mil ezzes melhores do que eu, então  talvez eu devesse pensar que eu fiz alguma coisa, dando esse pouquinho de apoio a essas pessoas. Mas eu não estou feliz. E eu estou me enfiando num buraco cada vez mais fundo em que eu não tenho nem dinheiro nem merecimento mérito nem nenhum valor que me permita me fazer feliz. Por um momento, um pouquinho de tempo, alguns anos, eu achei que estava dando certo, que eu estava começando a me conectar com a realidade. Por um tempo, eu senti que eu estava melhorando, que eu estava me tornando mais forte, e que eu estava feliz também. Por algum tempo ali em 2010 e 2011 eu inclusive me senti realmente feliz. Mas agora eu não me sinto avançando, nem feliz, e não parece mais ter valido a pena, o quanto eu sacrifiquei de mim, daquilo que me compunha, pra me tornar isto.

Isto não serve de nada. Isto não vai trazer bem pra ninguém. Isto não vale o sacrifício daquele senso inabalável de quem eu era e qual era o meu propósito no mundo. Isto não vale nada.

Eu tenho tido momentos de felicidade. Um curso particularmente empolgante, um desafio novo, uma boa história, uma pessoa apaixonante. Momentos. Às vezes eu consigo me manter feliz por dois dias seguidos! Mas no demais... Eu acho que todos os meus amigos vão acabar desistindo de mim simplesmente porque eu não mereço. Ou que eu vou abandoná-los e só notar meses depois. Ou quee eu não vou mais tolerar o jeito como eles me olham, ou falam de mim, como se eu fosse uma pessoa completamente diferente do que eu quero ser.eu devo ser mesmo. Eu nunca vou ser uma pessoa respeitável. Sempre vai ter alguém pra me olhar dzsse jeito. 

Este texto não vai nem me aliviar na real. É só um registro idiota. Eu acho que a vida até aqui só não valeu a pena todos ossacrifícios. Será que eu posso voltar e reiniciar do save point?

segunda-feira, 2 de junho de 2014

Undertoe

Eu penso muito em ti, sabe, por mais inapropriado que isso seja. Tentando avaliar o erro e o acerto, o bom e o mau, o lógico e o ilógico, e o como saídos de lá viemos parar aqui.

Uns tempos atrás tu me disseste que a diferença entre nós era que tu se sentias confortável sendo homem, e que eu sempre quisera ser um homem. Às vezes eu me lembro e me deleito com o absurdo dessa idéia. Para mim, essa era justamente a semelhança entre nós. Nós dois queríamos viver grandes aventuras, capitanear navios, lutar contra dragões (ou a favor deles, talvez), subir a montanha correndo... Mas para ti isso era o teu papel designado, e o meu era lutar por isso usando um vestido longo, e no final rasgar esse vestido e mostrar que além de princesa eu era também guerreira. Estavas errado, sabe? Porque eu queria ser exatamente o mesmo que tu, sem vestidos, sem tiaras, nada de "princesa", "dama", "madame". Mas para ser o mesmo que tu eu precisava ser ainda mais selvagem do que eras, mais violento, mais rápido em provar o meu valor e defender minha honra. Quando nos separamos, eu me senti um pouco mais à vontade para ser tudo aquilo que querias tão insistenmtemente que eu fosse e que justamente por isso eu não podia ser. Mas logo a novidade passou e eu voltei aos meus modos adolescentes, mas agora sem ti, sem meus rivais e inimigos e principalmente demônios.

A vida do lado de cá é tão estranha e faz tanto sentido. É quase como se eu vivesse no mundo real. Mas ainda é estranho, e eu ainda sinto aquela falta, aquela desconexão, como se eu fosse apenas uma pessoa que aconteceu de ser, aconteceu de estar aqui, caída de paraquedas nesta vida, nesta história, e as lembranças, e mesmo os sentimentos, pertencessem a uma outra pessoa, uma outra versão de mim que eu tenho que me esforçar muito para imaginar que sou eu.

Às vezes eu penso que tudo aquilo era uma grande máscara e uma farsa, uma coisa que eu criei para enganar a eles, e a ti também; talvez para ludibriar-te e te fazer pensar que eu poderia talvez cumprir as tuas fantasias, porque te tendo eu tinha todo um universo, e ao te perder eu perdi parte de mim. Eu sinto que parte de mim, a maior parte de mim, ficou do lado de lá, rascunhado talvez em antigos cadernos e folhas soltas, mas em grande parte preso através de um portal que eu não consigo mais alcançar. Me tornei gente, talvez demais. E agora as farsas de esgarçam muito mais cedo, e a idéia de enganar alguém, ainda mais alguém como ti, por tanto tempo... Às vezes eu percebo que éramos tão semelhantes que apenas nossas máscaras e mêdos e mentiras nos separaram. Mas agora nos perdemos um pouco; eu me perdi; e aquilo que nos conectava não nos conecta mais. Ou será que foi uma máscara tua que me fez acreditar que éramos tão próximos? Não importa também, porque ao menos aqui eu posso ter uma parte de mim, e tê-la inteira, sem máscaras; ter tudo aquilo e me submeter aos teus desejos absurdos era uma traição que acabava por me desintegrar. Viver no mundo real tem seus benefícios.

Pelo menos agora somos ambos humanos, e temos uma chance qualquer de nos encontrarmos realmente. Duas pessoas, e não duas fantasias. Mas... eu também tenho a impressão de que pessoas não se dão tão bem quanto é tão fácil se darem as fantasias.

Melketh

Um dia um esporo caiu numa poça dágua e começou a germinar.
Uma haste alta de ergueu acima da água e duas cépalas enormes se estenderam da ponta.
Nas cépalas estavam desenhadas duas histórias paralelas, parecidas em alguns aspectos, muito diferentes em outros. Numa delas havia um cavalo branco chamado Lucas, em outra havia um grifo negro chamado Matheus, e coisas assim. Uma dessas histórias era sobre um rapaz. Esse rapaz se transportou para outro mundo e se transformou em quinze pessoas diferentes. Mas cada vez que essas pessoas se separavam, elas começavam a se divdir em outras pessoas, cada vez mais diversas, até que o rapaz era metade da população de um mundo, um mundo muito grande, muito complexo. Nesse mundo as pessoas que eram o rapaz às vezes se recenheciam brevemente, como pessoas que se reconhecem num sonho, sem querer sabendo que aquela pessoa é importante, mas sem saber porquê, ou de repente sabendo o nome dela sem perguntar; essas pessoas se atraíam e se juntavam, mas elas não sabiam que elas eram a mesma pessoa, porqe elas eram tão diferentes. Às vezes uma delas estava pegando um ônibus numa cidade do interior, e quando olhava através do corredor encontrava uma mulher de meia idade que lhe chamava a atenção, alguma coisa no olhar dela, ou no cabelo, lhe dizia que ela pertencia à sua tribo. Essas pessoas viviam sem se conhecer exatamente, mas sabendo que elas pertenciam a alguma coisa, que elas eram iguais e que, se chegasse o dia, elas se ajudariam e lutariam juntas umas pelas outras. Às vezes elas se uniam, em pequenos grpos de amigos ou de amores. Elas se uniam e tinham filhos. Elas levavam a vida, se sentindo ao mesmo tempo desconectadas, como se houvesse algo faltando no mundo o tempo todo, e unidas, como se somente aquelas pessoas, as pessoas mais próximas e aquelas pessoas desconhecidas que também pareciam tão próximas, pudessem compartilhar o qe elas viviam e sentiam e eram. O resto do mundo inteiro parecia estranho e alienígena. Essas pessoas nunca se sentiam realmente confortáveis, porque no fundo elas sentiam a dor de estarem vivendo tão separadas e incompletas. Mas, por outro lado, apenas por estarem separadas é que elas podiam ser tudo aquilo, toda aqela diversidade de coisas tão diferentes e contraditórias, e saber todas aquelas coisas diferentes, e viver todas aquelas vidas diversas. Ser um milhão de pessoas ao mesmo tempo, era difícil, mas elas viviam coisas que uma única pessoa nunca poderia viver. A paz e a felicidade que seria ser uma coisa só e una era compensada pelas incontáveis aventuras e experiências, pela diversidade de sentimentos. Cada pequena sensação, como a beleza daquela luz de fim de tarde que dora ligeiramente o adorno de uma cadeira de um bar de uma esquina, tinha uma aura, uma importância; era sagrado, de certa forma, porque era visto através do sacrifício dessa paz. Essas pessoas sentiam que tinham uma missão na vida, muito embora nunca soubessem exatamente qual. Quase nunca dedicavam sas vidas completamente a um grande objetivo (como viam algumas pessoas externas fazerem), porque seus corações estavam demais envolvidos em apreciar toda a beleza do mundo, e construir o mundo, e às vezes se espalhar e se tornar ainda mais pessoas, com gostos e qualidades e características diferentes, novas, que só seriam possíveis naquele instante, naquele lugar. E essas pessoas mudavam, e adoravam mudar; mas sentiam também uma perda, uma dor de abandonar o que eram antes, como se isso fosse cortar fora uma parte de si mesmo. Mas o rapaz mudava, e se dividia, e se distraía, e se apaixonava, e todas essas coisas eram ele ao mesmo tempo. No final, ele voltou para casa, mas ao chegar lá ele percebeu que se sentia vazio, e sozinho, e que as pessoas pareciam estranhas, e distantes, e que ele não consegia realmente se conectar com elas... Aos poucos ele notou que ele não voltara realmente, e sim que ele se divdira mais e mais até se tornar, em parte, ele mesmo; e que apenas essa parte voltara, e que essa parte estava em casa, no seu mundo, e que nenhuma das outras pessoas era ele, e que todas as outras pessoas eram estranhas e externas e feitas de pedaços de outras pessoas diferentes dele. E ele começou a se esforçar para enxergar no seu mundo as mesmas pequenas beleza -- o sol e o vento e os pequenos detalhes das cascas de árvore e das frases que os padeiros usam nas padarias -- e algumas, às vezes, lhe lembravam um pouco de coisas que ele havia visto no outro mundo... mas algumas eram novas, e eram lindas mesmo assim, e ele tentava se dividir e se tornar muitas pessoas para melhor apreciar todas essas coisas, mas não conseguia. Ele tentou voltar para o outro mundo, mas também não conseguiu. Então, ele continuou vivendo, ainda desconectado e sozinho, tentando o melhor que podia apreciar toda a diversidade do mundo sendo apenas uma pessoa, um aspecto de si mesmo.

A outra história era a minha história.

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Eu existo.

Eu sempre me impressiono com a freqüência com que eu tenho que olhar pruma pessoa e tentar convencê-la de que eu sou uma pessoa humana de carne e osso. Isso acontece em todos os ambientes, em todas as bases, exceto talvez aquelas em que eu me sinto tão debaixo de uma pilha de pedras que não enho a força pra falar qualquer coisa sobre mim.

Eu existo.

Algumas coisas eu sou, outras eu faço, mas além disso eu sou uma pessoa real, eu estou na sua frente, falando com você. Você não precisa me olhar com essa cara, não precisa me tratar como um objeto, como uma curiosidade, nem com nojo.

É isso o que as pessoas fazem, por exemplo, quando eu falo que estudo matemática. Vocês deviam ver a cara e as reações das pessoas! Olha, eu já estive em três cursos diferentes, eu sei que não é assim sempre. Quando eu fazia Design, as pessoas ficavam animadas, me perguntavam mil coisas, queriam saber o que eu fazia, o que eu estudava, do que eu gostava mais, me pediam pra contar coisas sobre o curso e etc. Quando eu fazia computação, as pessoas me olhavam com admiração, comentavam como computação é importante, me tratavam como uma pessoa superior que sabia das coisas, me pediam ajuda (exceto os homens de TI, que tentavam me convencer de que nós tínhamos "algo em comum"); quando eu dizia que eu estava me aprofundando mais na parte teórica, as pessoas me olhavam com confusão, com um olhar vazio de quem não conseguia entender, como assim uma pessoa tem a oportunidade de ter uma profissão tão promissora e a joga fora pra estudar uma coisa tão inútil quanto teoria? Agora que eu faço matemática, eu recebo apenas a última parte, mas mil vezes pior. As pessoas me olham com raiva, com desgosto, com nojo, com incompreensão --- no melhor dos casos elas se esforçam pra não deixar transparecer muito o quanto elas acham matemática horrível, o quanto nossa amizade sempre será entravada pelo fato de eu gostar dessa coisa repulsiva que é a matemática.

Eu em geral sustento o olhar, respiro fundo, e tento manter a postura. Estou trabalhando cada vez mais na minha poker-face. Eu já entendi que todo mundo odeia matemática, que é um trauma na vida de todo mundo, mas eu quero mais é que se foda. Eu quero que seus preconceitos imbecis que você adquiriu nas suas aulas (péssimas, tenho certeza) da escolinha sejam completamente obliterados. Eu sou real. Eu estou aqui. E eu não me encaixo em nenhum dos seus preconceitos idiotas. Olha pra mim! (eu digo na minha mente enquanto eu sustento o olhar horrorizado da última pessoa); eu não sou homem, eu estou usando três brincos diferentes hoje, eu tenho cabelo curto com uma mecha comprida de um lado e penteado pra cima, eu não sou japonês, eu não uso camisa de gola nem óculos, eu tenho pernas peludas, eu uso roupas coloridas, e até um minuto atrás nós estávamos conversando sobre alguma coisa altamente política ou queer. Eu não sou uma pessoa maluca que por algum motivo decidiu se torturar, e eu também não tenho a intenção de torturar criancinhas com a horribilidade da matemática. Eu só amo ela. Eu amo a matemática que você nem conhece, a matemática que é lógica, que se expande, que revela coisas inesperadas, que torna iguais coisas diferentes, que se entrelaça, gerando técnicas novas, construindo-se. Eu gosto da matemática porque ela me conta histórias, porque ela é um grande livro de contos borgescos que se relacionam, se aproximam e se afastam. E ela tem muito pouco a ver com aquilo que você estudou na escolinha.

Então é isso, eu sustento o olhar, admirando a mais nova pessoa que me olha como se eu fosse subitamente me metamorfosear em um monstro. Eu agüento enquanto ela demonstra que ela acha que tudo no mundo é mais legal do que o que eu faço. Eu não quero que ela ache que isso me abala. Eu não quero que ela imagine que isso machuca. Eu só quero que ela perceba que eu não vou virar um monstro, que eu continuo sendo uma pessoa. E então podemos prosseguir com o diálogo.

Eu aplico mais ou menos a mesma técnica em todos os muitos outros casos em que as pessoas olham pra mim com repulsa.

quinta-feira, 13 de março de 2014

Seios (SEIOS!)

(mais um roteiro pra hora em que eu largar mão da preguiça e ir executar esses zines)

*** imagem no espelho, fazendo uma dessas coisas tipo escovar os dentes, calça jeans, sem camisa, postura masculina, seios ***

Às vezes eu me olho no espelho e não acho meu corpo nada feminino.

** seios **

Eu tenho seios, é verdade.

* ventre, calça jeans, talvez pêlos da barriga *

Existem também homens cis que têm seios

*(as próximas imagens, lado a lado)*

Ou porque sofrem dessa condição hormonal que os homens, muito engraçadamente, chamam de "ginecomastia"

** imagem de homem com seios, desesperado e tentando escondê-los ***

Ou porque são gordos.

** imagem de homem gordo com peitos grandes **

** homens (um pra cada parte) com peitinho, super envergonhados **

Quando os homens têm seios / mesmo que muito pequenos / eles sentem muita vergonha

** ? **

E são encorajados a remover essa parte de seus corpos cirurgicamente

Por que, afinal

Pra quê serve um homem ter seios?

---

** olhando pra baixo, imagem triste, segurando os seios com as mãos **

Às vezes eu queria fazer essa cirurgia também

** sequência a respeito de usar um binder, eu acho, ou talvez imagens de eu sem seios **

Imagina

Imagina!

Acho que

Em algum momento, eu cheguei a pensar que eu era um homem

Se eu fosse um homem, então todo mundo acharia que eu não deveria ter seios

** eu, homem **

Imagina

---

Não é nem que eu ache eles feios

É mais a sensação, quando eles balançam

Ou quando eu deito

Ou quando eu os toco

O tempo todo

O

TEMPO

TODO

Tem dias em que eu não consigo sair de casa com essas coisas balangando no meu peito, com essas coisas enormes deformando minhas roupas, gritando alguma coisa pro mundo que eu tenho nojo de ouvir, eu não quero ouvir, CALA A BOCA, CORPO!

** imagem com os olhares de outras pessoas, aqui, ainda na sensação de barulho, muito ruído visual, eu se encolhendo, talvez algumas frases machistas voltadas pra mulheres **

Eu só queria que meus seios ficassem quietos...

Mas tem outros dias, como hoje, em que eles ficam quietos.

** imagem de paz e tranquilidade, sem camisa e sem pessoas **

Aí eu sinto que meu corpo não é realmente feminino

** auto-inspecionando o corpo **

E por mais que eles incomodem um pouco

É só um inconvenientezinho, como uma gordurinha localizada

** quadro sem falas, ainda autoinspecionando, do quadril pra cima, ruído surgindo da parte debaixo do quadro, olhando para baixo com curiosidade **

** quadro com o corpo todo, sem calças, mostrando a bunda e as pernas, ruído saindo das partes mais feminilizadas, expressão de choque/desagrado **

Tem outras partes do corpo que não calam a boca NUNCA.