terça-feira, 20 de abril de 2010

Livro Um: Fera

"I was a wolfness in those dead days
and I thought only of mates and preys"



Eu não sei se é muito decente eu falar sobre o que aconteceu comigo nos últimos dias. Eu poderia guardar tudo pra mim, me contentar em escrever num diário, e quem sabe daqui a cinqüenta anos confessar para meus filhos que um dia eu me tornei uma fera...
É claro que eu não vou fazer isso. Eu nunca fiz. Pra mim, minha imagem pública não é tão importante quanto a comunicação. Mamãe talvez dissesse que eu poderia falar dessas coisas com meus amigos mais íntimos, mas será que eu teria coragem? Meus amigos mais íntimos são tão íntimos assim? Hell, há coisas que eu não consigo contar para pessoa alguma, não sem muito muito esforço. Ultimamente não tenho contado tudo nem ao Di, que era meu melhor amigo. É que há coisas dentro de mim que me deixam meio nervosa. Bom, ao assunto:

Descobri muitas coisas novas sobre mim estes dias. Por exemplo, descobri que eu não sou racional. Nada do que faço é derivado de uma conclusão racional. O máximo de racionalidade que eu consigo manter é: já que meus instintos estão pedindo tão intensamente por isso, o mais sensato é obedecer. Eu preciso de emoções, de intuições, para me dizer para onde ir. O pensamento define apenas o como.

Descobri também que eu posso ser outra coisa. Uma coisa que sente com os dentes, não com os olhos. Uma coisa que quer com os dentes, não com o estômago. Uma coisa que vê através de cheiros, que não vê céu, só carne. Uma coisa que tem olhos voltados para a frente para melhor perseguir a presa.

É incrível como de repente todas as coisas perderam a importância. Eu esqueci a prova de terça, eu esqueci o EP pra semana que vem. Eu esqueci a matéria que eu queria fazer e até a necessidade de subir em árvores — essa sim é a parte mais assustadora.

No domingo eu ainda conseguia querer desesperadamente velejar. No domingo à noite, nem o vento importava.

Eu fui uma lôba por quatro dias
Mordi o silêncio e cacei sozinha
Larguei minha mente e o meu dever

Meu celular também sempre escreve "quero te ter". Eu não escrevi nada nesses dias que não quisesse dizer quero te ter. Eu mordi o ar e engoli saliva tentando conter minha fome. Eu arreganhei os dentes quando você se aproximou... Eu rosnei, num anúncio, quando soube que te teria.

I was a wolfness again one day
I felt alive when I scented "prey"
My preys were trying to hunt me too...
But I'm no kill — I'm not for you

Este texto parece louco, mas não tão louco quanto eu me senti! Eu era uma fera! A god of old! They spoke of me, all tales told! Eu que me preocupo tanto com o céu e o chão, eu andei de cabeça erguida, sempre olhando e procurando, sempre à caça.

My claws were keen to cut
My teeth were keen to kill
And all the creatures great and small
Were subject to my will

Eu te assustei quando rosnei pra você? É o que eu me pergunto? Minhas lembranças estão um pouco confusa, porque toda a minha mente estava concentrada em um ponto só. Eu nunca soube que seria obcessiva. Eu me assustei com a minha fúria. Como todos os meus pensamentos continham as palavras Caça, Fome, Corpo, Dentes. Ah, é, estou falando sobre Sexo. É claro que é só por isso que eu não deveria estar escrevendo isto aqui. Não é educado falar tão abertamente sobre sexo. Mas como não falar?

As outras coisas da vida foram perdendo gradativamente a impôrtância. Primeiro desapareceu tudo o que era inteiramente intelectual, como os estudos. Em Ibiúna eu já estava plenamente dedicada às emoções físicas: ousei mais do que nunca no wakeboard e senti arrepios de alegria quando me agachei na prancha e pus a mão na água que passava rápida ao meu redor. Dirigi a lancha como um homem dirigindo um carro foda. Senti o peso da moto embaixo de mim. Bebi uma cuba livre e me assustei com o gosto do álcool, subitamente muito consciente do quanto eu precisava me controlar. Dancei. Sequer me incomodei com as insinuações dos mais velhos sobre nós. Eu estava cedendo cada vez mais aos instintos, e a qualquer momento qualquer coisa podia ser verdade. Olhando pra trás, é incrível como eu estava me comportando bem.

Quando cheguei em casa a consciência da minha obcessão já era dolorosa. Aquilo tinha me afligido a semana inteira, mas de repente era uma necessidade. Eu precisava sair, eu precisava de ar puro. Meus pensamentos não eram sobre isso, meus pensamentos maquinavam armadilhas, procuravam a melhor forma de te atrair, de te enganar, de te aprisionar entre minhas garras. Eu precisava de algo que me distraísse, de risadas, de álcool, de pessoas. Duas forças lutaram dentro de mim: uma queria amigos, e outra queria presas.

Segunda foi ainda pior porque eu encontrei pessoas com as quais eu queria construir uma amizade. Eu estava me sentindo mal, talvez de fome, de sono (eu não conseguira dormir mais de cinco horas), da consciência de que teria que usar aparelho por um tempo, e principalmente da fúria que ainda queimava, faminta, dentro de mim. O mundo parecia tão frio! Quase não ouvi a aula, tão concentrada que estava em me manter longe do homem ao meu lado. A pior parte de mim não conseguia apreciar a vida se não estivesse caçando. Me impressionei com meus comentários mau-humorados; fugi no meio da segunda aula, fui encontrar o Bruno. No fundo, eu ia pedir ajuda pra ele. Mas não sei se não seria só uma ajuda na minha caçada.

Foi uma noite boa, eu acho, que acabou muito cedo. Se... (...)

Então na terça eu tive um lampejo de lucidez e lembrei do Diogo. Não, eu não tinha esquecido do meu namorado. Eu só tinha esquecido, como acontece com freqüência, de como ele me faz bem. Aquilo estava indo longe demais e eu precisava de um pouco de paz. Eu precisava conseguir lembrar das minhas prioridades. Então eu (...) o encontrei no CM e o abracei forte. Sempre me surpreendo com o efeito dele sobre mim. Senti a febre baixar, senti a fome se acalmando conforme eu o apertava, me encolhia no abraço dele, me deixava proteger. Lembrei das coisas que eu tinha esquecido, começando pelo amor. Eu precisava dele. O abraço de qualquer outro homem (eu acho) me deixaria apenas mais faminta. O beijo de qualquer outro homem apenas atiçaria minha voracidade. O abraço dele me deixou lúcida. O beijo dele começou a me saciar. Eu pedi pra ele me obrigar a ir embora ou eu não iria nunca.

A pessoa que eu poderia ser se eu decidisse ficar solteira me fascina e me assusta. Uma parte muito grande me mim se deliciou com todos os meus pensamentos e ações lupinas. Quando eu me afastei do Diogo, senti um alívio tremendo por poder controlar que tipo de coisa eu ia fazer. Por poder achar as árvores bonitas, por poder me interessar pelos meus estudos. No final do dia, eu me assustei com tudo o que eu tinha protelado quando minha mente estava voltada para a caça. Mas também senti falta: o poder que amanava dos meus impulsos... Mesmo a ferocidade que eu desenvolvera...

Eu não sabia que eu tinha isso em mim: essa coisa em mim que age não por amor, mas por fome; não com carinho, mas com fúria. Eu já havia sentido em mim uma fera que está sempre agitada, mas... mas nunca imaginei que ela pudesse ser tão violenta. Não sabia que ia ser tão difícil contê-la. E uma parte de mim, uma parte daquele lado negro de mim, se pergunta se eu deveria ter mesmo me contido. Outra parte acha que eu nem tentei conter, na maior parte do tempo. Que eu só estava com mêdo demais para ceder.

...agora, alguns daqueles meus impulsos me parecem simplesmente idiotas.

Acho que eu devia tentar encontrar uma forma de associar esses meus dois lados. A auto-confiança, objetividade e inteligência da lôba com a temperança, tranqüilidade e abertura da humana? Mas, de alguma forma, eu suspeito que a lôba em mim não aceite ser domada. Eu não sei até que ponto para conseguir sua força eu precisaria... alimentá-la.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Gather weary travellers,

I have a tale to tell: it might just save your lives but only if you listen well, for there before the breakers, and just around the way, there's a sign that says "Beware the beast of pirate's bay"

Well, don't you sail and don't you row
And certainly don't you swim!
For if you are uncarefull you'll end up inside of him
He'll eat you up and spit you out — you better stay away...

Heed the sign that says "Beware
The beast of pirate's bay!"

Quando.

Eram passos escuros
Como se eram sombras
Haviam dentes
Havia dentição
e mordedura

Eram os olhos rubros
Era outra era
Agora
Havia fome vera, engolidora

Quando eu

Não se era então
Dever, devorar
Não se pensava então
O que não se pensa não se come

Comer, mastigar

Era.

Havia riso.
Era tudo muito doce e muito

Preso

Era tudo vôo, mas.

Mas:
Onde não há caça não há presa
Onde não há presa não há terra
Onde não há terra não se explora
Onde não se explora não se.

Tudo vôo só céu.

Acho

Um beijo
Havia presas, sangue dos lábios
Um sonho é como ser tudo
Ter-poder
tudo.

Quando.
Um rosnado de fome
De vitória
De raiva antecipação
Fulva
Ígnea.

"Esta é a minha presa."

Quando:
Próximo
Concienciosamente
Toca
Um...

R

domingo, 18 de abril de 2010

Desejos horrivelmente objetivos

Ontem eu estava conversando com o Ugo sobre como eu basicamente uso minha inteligência a serviço de metas estipuladas pelas minhas emoções e intuições. Inclusive, se eu não consigo sentir qual a opção certa eu tendo a não fazer nenhuma opção. É terrível. Em geral eu faço muita bobagem porque meus desejos são incrivelmente confusos e contraditórios e eu ora vou para um lado, ora para o outro. Ultimamente tenho sofrido de um outro mal:

Meus desejos estão se tornando terrivelmente objetivos. Eles não se contradizem mais, na verdade eles sequer se interagem. Estão virando obcessões, daquelas bem feias. Há coisas nas quais eu não consigo parar de pensar. Coisas e pessoas. E há limitações por todos os lados que não me permitem descobrir como saciar esses desejos, nem como me livrar deles.

Me sinto uma idiota. E uma idiota sem muita dignidade, inclusive. Daqui a pouco vou perder toda a discrição também.

Que merda. Preciso de uns amigos, umas amigas, talvez uma caipirinha, umas risadas.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

caralho, eu escrevi muito mais do que eu pretendia.

Estar apaixonado

Lembro de uma vez estar sentada no colo do meu namorado, os braços dele à minha volta, e de olhar o cara por quem eu estava apaixonada bem na minha frente. Lembro de pensar que eu só precisava me esticar um pouco, me mover um nada, eu estenderia a mão e tocaria nele. Apenas tocar nele seria um ato mágico, era como se as coisas dependessem apenas disso, e as peças se encaixariam perfeitamente no momento em que eu tocasse nele e ele olhasse nos meus olhos.

Vocês não podem se lembrar disso, vocês não estavam lá. Mesmo meu namorado na época não estava lá, não, você não fazia parte daquela história, você não sabia o que estava acontecendo, você era uma parte do cenário (talvez ele fosse também), e essa era uma história que só existia para mim. Mas era uma bela história.

Pensando bem, havia alguma coisa entre nós, acho que era uma fogueira; sim, era uma fogueira: lembro de pensar que era só isso, me soltar do abraço do meu amor, atravessar o fogo e chegar até ele. Lembro claramente da sensação que me dava pensar que ele estava tão perto que podia chegar a ele num segundo, antes que ninguém percebesse. A sensação de liberdade.

Sabe aquela cena de desenho animado em que a câmera está em primeira pessoa e essa primeira pessoa estica a mão em direção a algo, então percebe que está fora de alcance e dobra ligeiramente o braço e os dedos? Eu fiz exatamente isso. No instante exato eu desisti do meu plano, engoli minha paixão. Tentei me convencer dos meus ideais nobres, de que eu tinha um namorado e não podia magoá-lo, de que eu não podia traí-lo, etc — na verdade acho que eu só não queria fazer um escândalo. Naquela hora eu já tinha admitido para mim mesma que o queria, que não podia negar isso: já tinha sussurrado para mim mesma o nome dele em voz alta. Acho que pensei no que as pessoas iam pensar: no que meus amigos iam dizer, eles que sempre tinham tanto a acusar. Mas pior ainda foi pensar nos amigos dele, aqueles que eu não conhecia o suficiente pra entender, e talvez... sim, sem dúvida eu tinha mêdo do que ele diria. E se o toque não fosse tão mágico quanto eu imaginava?

Entretanto mesmo se não o toquei naquela hora, mesmo se a dúvida me amarrou ao meu lugar, eu ainda o desejei, mesmo nos braços do meu amor. Eu seguia seus passos, meus olhos como uma sombra. Lembro de passar a manhã toda olhando para ele, na esperança de que ele me desse um sorriso. Lembro com clareza cada sorriso e como toda vez eu achava que isso era um sinal de que ele gostava de mim, para em seguida me repreender por alimentar esperanças. Lembro mais intensamente ainda dos sonhos, e de acordar desapontada por ele não estar mais ali, trabalhando ao meu lado, conversando ou às vezes só me olhando: eu tinha sonhos que eram só uma longa troca de olhares. Eu lembro de fazer um desenho dele, de escrever poemas sobre ele. Eu lembro de como a voz dele me fazia tremer, de como o cheiro dele me deixava completamente inútil. Tudo isso durou apenas uns poucos meses, mas foram muitos dias de doçura flutuante alternada com dúvidas atrozes.

Algumas vezes na minha vida eu me perguntei se eu era uma má pessoa por eu ter ido tão longe na minha fantasia. Talvez eu seja até certo ponto uma felina cujas garras lanham o coração dos homens, mas se eu espalhei muita dor, também espalhei prazer. E acho que aqueles que se sentem capazes de condenar meus pensamentos naquele momento são as que não entendem a beleza inebriante de se estar apaixonado. Quando eu lembro dessas coisas, eu sei que eu sofri muito, e que houve muita dor ao meu redor, mas eu escolho lembrar das coisas boas, daquela leveza que havia em meu coração mesmo quando o remorso, a indecisão e as faltas todas me faziam arrastar os pés no chão, cabisbaixa.

A paixão é uma loucura. A paixão é uma corrente libertadora, pois faz todas as outras coisas parecerem sem importância. Eu lembro de perder aulas e esquecer de fazer trabalhos finais porque não conseguia me concentrar em mais nada. Às vezes era a dor, outras era a euforia que me distraía. Como era bom seguir com os olhos os movimentos dele com os olhos, apenas por ver seu corpo se mexendo! A paixão faz tudo parecer passageiro e sem importância. É muito difícil lembrar das outras coisas da vida quando aquela pessoa está ali, consumindo todos os seus pensamentos. Quando você está triste, sempre espera que ele lhe conforte; quando está feliz, quer dar essa alegria a ele. A vida não precisa de um sentido se você está apaixonado. Até a dor, no auge do sofrimento amoroso, não precisa de razão: tudo faz sentido para quem está apaixonado. As peças fundamentais da minha vida se encaixaram quando o Charles disse: "eu não acho mais que estar apaixonado é uma coisa ruim". Se eu pudesse mostrar a todas as pessoas essa mesma coisa, por mais infinito doloroso que fosse todo o processo, isso me faria sentir que eu ganhei o jogo da vida (...!).

Talvez... talvez tenha havido mais do que o que eu consigo expressar aqui. Eu provavelmente poderia fazer um conjunto de contos água-com-açúcar chamado "Minha histórias de amor". Há tanta doçura para lembrar: os primeiros beijos, uns finais de tarde.. As histórias parecem mais doces quando vistas fora de contexto — acho que meus sentimentos sempre estiveram descontextualizados. Dentro do contexto, elas ficam mais... interessantes, mas aí não funcionariam mais como um livro de contos; talvez como um romance, mas não tão adorável e mais cheio de aporrinhações. É claro que eu prefiro lembrar dos contos: a chuva na pele, o toque das mãos, o amor. Alguns contos são infantis, outros são mais adultos. Alguns englobam apenas um final de tarde, outros se esticam até a manhã seguinte, outros se espalham por semanas de segredo e delícia. Você pode até dizer, se quiser, que quase todos os contos, se se estendessem na história real, acabariam em raiva ou dor. Talvez. Mas quem se importa? Eu estava lá, eu vi, eu chorei também. Hoje eu sinto saudade dos dias bons. Eu penso às vezes nos maus, mas não importa. Mesmo nos nossos piores momentos, havia um sentido ali, se construindo. Espero que aqueles que viveram os outros vários lados das minhas histórias também consigam perceber pelo menos isso: que mesmo nos piores momentos havia um sentido ali. Daqui a cinqüenta anos, eu vou olhar todas as minhas sacanagens e pensar, "ah, que se dane! Pelo menos eu vivi. Pelo menos eu segui meu coração. Pelo menos nós vivemos isso intensamente, da melhor forma que pudemos." Eu quero que mais pessoas no mundo consigam sentir isso também: que mesmo depois do desespero, ainda resta a alegria daquele momento perfeito.

Um momento em que tenho pensado muito ultimamente aconteceu num dia seguinte. Ele, que tinha insistido tanto na casualidade, na falta de amor, aproveitou um momento em que os outros estavam dormindo e me deu um abraço, entre gracejos sarcásticos. Eu não olhei em seus olhos. Eu senti seu cheiro. Eu pensei em tudo o que ele dissera e me lembro de ter pensado que pelo menos aquela frieza toda era falsa. Pelo menos isso. Foi um bom abraço.

terça-feira, 13 de abril de 2010

Contatos no Blogger

Este foi um fim de semana muito divertido. Encontrei gente de quem eu sentia saudades. Tive conversas interessantes. Queria que mais fins de semana fossem assim. Bem, talvez não todos, porque tive pouquíssimo tempo com a família, e tive que dividir esse tempo com alguns amigos, que me pareceram insatisfeitos com a situação. Mas vou falar sbre isso depois.

Uma coisa que eu achei engraçado foi a curiosidade recíproca de vocês dois. Na sexta encontrei o Rafael e ele me perguntou algumas vezes quem era esse tal de Peçanha Leitão, e no sábado o Márcio perguntou, com praticamente o mesmo tom de voz, quem era essa tal de Rafael F. Estando aqui no nosso ponto de encontro comum, me sinto meio ridícula. É ridícula toda a apresentação de conhecidos; me sinto numa festa formal. Mas é interessante, socialmente, eu acho. E de forma alguma inútil.

Eu não soube descrever os dois, como eu saberia descrever minha pequena blogcomunidade? Este é o Yuri, fomos inseparáveis no colegial e agora que nos falamos menos só consigo entender o que ele fala se for com as emoções. Este é o Ugo, nos conhecemos desde que ele (ok, e eu) era um pirralho e nos tornamos algo como irmãos nos últimos tempos, mas eu ainda tenho dificuldade pra entender o que ele pensa, apesar de que vale a pena discutir com ele. Este é o Bruno, um dos meus amigos mais próximos, ele é genial, imprevisível e freqüentemente muito engraçado, mas está sempre tendendo para pensamentos sérios e negros demais. Este é o Márcio,... você precisa conversar com ele pra saber, é claro; ele faz mais coisas do que me parece possível, insere ora gracejos ora discussões sociológicas em tudo e obviamente dá muito valor ao seu senso estético. Este é o Dobz, ele é um mistério pra mim, mas é um bom amigo, é inteligente pacas e tudo o que ele se dá ao trabalho de publicar é interessante. Esta é Talita, ela é minha irmã, alguns dos meus amigos têm um pouco de mêdo dela, ela defende ferrenhamente suas convicções quando não está em dúvida, e é a pessoa com quem tenho mais em comum. Este é o Charles, vivi coisas incríveis com ele desde que nos conhecemos há uns sete anos, ele é às vezes meu escritor favorito, na última vez em que o entendi ele perseguia sonhos como Liberdade, Conhecimento, Verdade, Amor, mas não temos nos falado tanto assim. Esta é a Denise, ela gosta de leituras incrivelmente poéticas, mistura poesia e realidade, e foi uma das que foi uma girlfriend pra mim quando eu estava realmente precisando, sem que ela soubesse. Este é o Laerte: eu não o conheço, na verdade, e também não entendo as tiras dele.

Eu escrevi isso tudo e não tenho vontade de apagar mas ainda me sinto meio ridícula. O que são as pessoas. Como descrevê-las? Eu poderia passar horas falando sobre cada pessoa, cada lembrança que tenho dela, cada opinião que tenho sobre ela, cada coisa que ela criou e que já saiu de suas mãos. No final, eu acabo respondendo coisas vagas como "Ah, ele é meu amigo... nos conhecemos em tal lugar, em tal ano... ele faz tal curso e gosta de tal coisa... e tal..." É bastante frustrante. Você sabe que é uma mentira, mas não pode evitar. Como dizer a verdade, sem dizer mais que o necessário? Como fazer a verdade caber em algumas palavras? Isso entra naquela discussão sobre se poderiam haver Nomes Verdadeiros para as pessoas. O que é mais importante? Com certeza não fiz o melhor que pude com essas descrições. Talvez meus amigos inclusive se sintam diminuídos. Mas como explicar, em poucas linhas, como o Yuri mudou minha visão do mundo, do amar, da música, da poesia, da Verdade? Como explicar em claras palavras minha complexa opinião sobre a personalidade do Márcio, que já passou por tantos extremos contrários? Como ser sucinto e sutil, quando se fala de coisas que tem a ver com a alma, de coisas que se eu páro para pensar eu dificilmente entendo, como a amizade, como o gostar? Como descrever uma pessoa, se não se consegue compreender nem questionar o que ela está fazendo ao seu lado? Qualquer descrição puramente objetiva que eu fizesse seria idiota, e provavelmente deixaria de lado o melhor e o mais importante. Por outro lado, uma descrição verdadeira seria pessoal demais, e por isso mesmo seria, sob outro ponto de vista, uma inverdade.

Por outro lado, se eu fosse explicar porque eu leio o que vocês escrevem, provavelmente os fatores pessoais teriam tanta importância quanto os que se aplicariam a outras pessoas. Acho que me interessar pelo que você se interessa em publicar está relacionado com me interessar por quem você é, por que toda escrita é de si para o papel e porque todo leitor quando lê, lê a si mesmo (eu percebo claramente os pontos fracos dessa argumentação, mas não quero entrar neles. mó pregui)

domingo, 11 de abril de 2010

Designer

Hoje eu li o blog da minha irmã e resolvi deixar um comentário. É meio engraçado como mesmo que não nos encontremos ou conversemos tanto assim sinto que nós duas estamos sempre em sincronia. Vivemos coisas diferentes, tomamos decisões diferentes, mas eu quase sempre me identifico muito com o que ela pensa. É meio difícil isso de estar tão próxima de alguém que tem uma vida diferente. Acho que é difícil não querer às vezes estar na pele dela. É claro que sinto esse tipo de coisa em relação a todas as pessoas que admiro, mas é mais freqüente neste caso.

Bom, quando eu fui deixar o comentário eu comecei a chorar. Assim, lágrimas começaram a correr pelo meu rosto, o que eu poderia fazer. O que eu queria dizer era bem simples: eu queria sentir isso também. Eu sinto às vezes. Esse prazer de ser designer. Depois me sinto mal por isso. Porque não. Não mesmo.

O Gil, monitor de computação no Design, fez arquitetura e depois virou programador e agora é designer de software. Eu queria fazer isso. Essa formação que permite que você seja qualquer coisa. Eu quero ser qualquer coisa. Eu quero poder escolher. Deixar a vida me levar, seguir as correntes dos impulsos. Ter sempre em mente o projeto, as pessoas, perseguir a solução.

Eu sinto dor porque eu odeio o curso que eu tentei fazer pra entrar nesse caminho-não-caminho. Eu sofri lá. Eu chorei. Eu não quero mais pensar nisso, a Ixa disse "larga o design e põe uma pedra em cima", eu quero pôr uma pedra em cima e não pensar nisso, dói demais. Não quero lembrar do quanto isso me machuca. Dos piores anos da minha vida, ou pelo menos da última década. Da minha fraqueza. De todas as frustrações, os fracassos, os trabalhos que eu queria jogar no lixo ao invés de entregar, das apresentações que me fizeram me encolher de vergonha. Da inveja. De como se eu tivesse feito outra coisa eu talvez já estivesse me formando, de como eu vou demorar vários anos pra chegar perto de me formar. De como eu falhei em quase todas as matérias de projeto. Botar uma pedra em cima. Disso tudo eu não quero lembrar.

Mas uma parte de mim, a que se recusa a desistir, não quer esquecer. Eu quero lembrar de cada dor, de cada derrota, e me obrigar a ser mais forte por cada uma delas. E cada sonho: eu quero nunca esquecer minha paixão pelo design finlandês, nunca esquecer que ano passado eu tinha planos incríveis para um tcc, e nunca esquecer do que eu aprendi. Principalmente, a conclusão de que design é tudo. Design é o que faz sentido. Design é projeto. É o que separa os homens dos animais. O que quer que seja que eu faça no futuro, provavelmente vai ser um tipo de design, ou vai estar totalmente envolto em design.

Me incomoda muito que eu não esteja mais num curso voltado para o projeto. Que eu saiba que aquele não é o meu lugar. Que eu queira mais da vida que ser forçada a fazer tudo o que eu não sei. Me incomoda que eu tenha falhado nesse aspecto.

Mas quem sabe? Talvez um dia eu possa voltar, menos frágil, menos despreparada, e terminar aquele projeto que comecei.

terça-feira, 6 de abril de 2010

Ovo de Páscoa

CHOCOLATE AO LEITE EM FORMA DE OVO COM
RECHEIO DE GANACHE DE CHOCOLATE AO LEITE
BELGA E RECHEIO DE GANACHE AMARGO BELGA
RECHEADO COM CHOCOLATE AO LEITE
EM FORMA DE BOMBOM COM RECHEIO
AO LEITE BELGA E AMARGO BELGA

Juro que é isso que está escrito na caixa do meu ovo de páscoa. Eu tiraria uma foto se pudesse. Não sei se é poesia concreta ou se é um daqueles exercícios de gramática: ponha a pontuação e as vírgulas.

Cada vez mais acho que as pessoas entenderam errado como funciona essa história de se comunicar através da linguagem...

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Ir?

A característica que mais me assusta em minha família é esse mêdo constante de ir em frente, de terminar, de mudar. Adoramos comer coisas, mas nunca chegamos a ver o fim delas. Nunca concluímos nada. Na verdade muitas vezes nem embarcamos nos nossos projetos. Projetos, projetos, execuções à parte, a casa está vez mais afogada neles. Tanta coisa pra fazer.

(olha, meu firefox est´a corrigindo meu texto em português de portugal)

Eu tenho essa projeto de um dia me formar no segundo grau. É um projeto que me dá muito mêdo. Tudo o que eu faço na faculdade eu faço com o coração na mão. Cada pequeno requerimento. Às vezes eu choro, de raiva ou de mêdo. Eu brigo com meus amigos, com meu namorado, é sempre assim. O que me irrita neles é que eles não estão nervosos com essas coisas que me fazem passar mal. Às vezes eu me encolho num corredor escuro e rezo pra ninguém passar por lá, pra ninguém ver a minha miséria. Eu não pertenço a lugar nenhum, eu não pertenço a ninguém. Não peço a ninguém que me adore, só peço que não me odeie. Quer dizer, menos os meus amigos. Meus amigos eu quero que me amem.

No momento meu mêdo maior (está finalmente se tornando maior do que o mêdo de ser uma incompetente nata) é o de estar indo na direção errada. Eu digo pra todo mundo que quero ir estudar computação, programação corre nas minhas veias, quase nada é tão lindo quanto um código limpo e otimizado ou um circuito impresso bem projetado, eu imagino coisas, minha imaginação é tão bela! Porém...

Porém é claro que há mais lindo, há em todas as partes. Por mais que eu me emocione com a idéia de um projeto moderno, bem século 21, integrar a vida da gente com a tecnologia, transformar o universo numa coisa só, ainda assim não é o que mais me emociona.

Você sabe o que mais me emociona.

A textura das árvores ("abraça a árvore", eles riem)

O barulho das ondas quebrando nas pedras ("tome cuidado", eles pedem)

Às vezes me vêm essa convicção súbita de estar na face de Deus, sabe? Quando ouço ou vejo ou cheiro uma coisa, uma magia que existe nas coisas que existem desde sempre e ainda assim surgiram neste instante (como as ondas)

Entretanto me ocorre que a computação também nunca será mais importante que um cheiro de homem, e isso não me incomoda (estou divagando...)

Me aflige que isso seja o que eu amo, o que me empolga, mas que não seja importante. Será que eu posso mesmo entrar em encontro com as pessoas apenas afinando-as ao mundo contemporâneo? E será que isso importa tanto quanto saber que São Paulo é habitada por cobras? Será que eu terei tanto prazer em aprender qualquer coisa como eu tenho em observar as capivaras do Pinheiros? Será que qualquer emoção que a faculdade me ofereça será tão forte quanto o desejo que eu tenho de protegê-las?

É isso que me aflige quando eu deixo minha mente vagar... Porque eu sei que se eu mergulhar em outra coisa agora, vai ter que ser pra valer. E eu sei que vai ser terrível, horrível, nervoso, se eu me desapaixonar.

É como correr de olhos fechados!

terça-feira, 30 de março de 2010

Não consigo parar

Eu queria escrever um pouco sobre... Sei lá.

Estou lendo Crepúsculo agora. Envolvente, o livro. Bastante mal escrito ou mal traduzido, não sei, mas envolvente. Me identifico muito com o que acontece, já senti aquilo tudo, acho que só significa que já estive apaixonada. O tal do Edward me lembra um milhão de homens insuportáveis que conheci, inclusive você. Sempre me pergunto se se eu não estivesse namorando, se eu não estaria vivendo uma história de amor como essa. Mas acho que eu sei a resposta para essa pergunta.

Sempre que me distraio lembro de velhos e intensos sentimentos. Eu gosto de sentimentos. Queria mergulhar neles.

Infelizmente agora não é hora de sentir, mas de trabalhar. Qual é a minha salvação? Conversamos por muitas horas, mas eu sequer senti seu cheiro. Algumas coisas me intrigam, como conhecer pessoas novas. A vida é um mistério. Quem poderá dizer quais das pessoas que conheço agora serão meus amigos daqui a digamos três anos? Eu sei algumas respostas. O resto mergulha na brisa.

De vez em quando me pergunto o que estou fazendo. Quando páro pra pensar, olhares doces famintos assombram meu cair no sono.

E sinto saudades de algumas pessoas. Vontades de voltar atrás, de estar mais presentes.

Se eu pudesse escolher, com quem eu quereria estar agora? Minha mente fervilha, incríveis opções. Mas hoje eu devo estar sozinha, não?

Quando fecho os olhos minha vida parece um sonho. Meu passado não parece possível. É verdade mesmo que viajamos, que choramos, que amamos? É verdade essa memória vaga do seu cheiro, dos seus dentes?

Cinco anos atrás, este futuro não existiria. Eu lutei por ele, eu o construí, eu o sofri também. Eu sou muito parecida com o que sonhei ser, na verdade. Apenas menos forte, mas... No fundo, não foi difícil falar as mesmas palavras que imaginei. Eu olho nos olhos de um homem, e freqüentemente é a Lôba que fala. Freqüentemente é Labwa. A parte de mim que ainda é humana pergunta porque essa história continua se repetindo. Porque eles continuam vindo a mim.

Sem perceber, estou de repente me comparando ao vampiro. É fácil demais. E de qualquer forma não é isso que eu busco. O que eu busco é um pouco mais difícil.

De tempos em tempos me assombram os amores que eu não pude viver e as presas que eu não matei. No resto do tempo, consigo ser um pouco mais coerente.

domingo, 28 de março de 2010

O Viajante e o Cavalariço

— O que aconteceu? Por que ele não voltou para buscá-la? Como podia não haver um dragão na caverna? Então o que aprisionara Fælyn? —, perguntei ardentemente ansioso, mas nesse momento o véu mágico que nos envolve nas histórias... sim, este mesmo véu que te aprisiona agora... se ergueu suavemente e eu vi que minha narradora, por um instante uma garota ainda não adulta, envelhecia sob o meu olhar ingênuo e jovem, dez, vinte, cinqüenta, talvez cem anos num minuto. — Vá agora! —, disse ela, me dispensando com uma ameaça da mão incrivelmente velha. Eu fui; assustado, me virei e comecei a andar enquanto ela falava atrás de mim:
— A história é importante e antiga, e parece que não consigo contá-la toda de uma vez. Mas volte!, volte num dia bom, e eu lhe contarei a verdade sobre a história de Fælyn.
Nesse momento ela irrompeu em soluços que poderiam ser de uma criança. Não me virei nenhuma vez, por respeito, mas também por mêdo daquela súbita fragilidade. Dentro de mim fervilhavam incontáveis emoções, confusas e contraditórias, pois eu sabia que tinha presenciado uma coisa verdadeiramente poderosa. Eu estava arrepiado e minha pele tinha pequenos espasmos que muito mais tarde aprendi a associar com a verdadeira magia. Eu não sabia bem o que tinha acontecido, mas sabia que não esqueceria de nenhum instante daquele encontro.
Naquela noite convenci um cavalariço ainda mais jovem que eu a me deixar dormir numa baia vazia, e ele por hospitalidade dividiu comigo parte de seu jantar. Também foi a primeira vez que contei uma história para alguém que tinha interesse em algo mais que monstros e heróis. Eu mesmo mal acreditava nas minhas histórias, e eu estava lá; mas ele, o cavalariço, ouvia tudo com atenção e cuidado, percebendo minhas emoções em cada parte e respondendo quando achava importante. Foi incrível! Contei a ele tudo, desde a minha decisão de sair da vila, minha admiração apaixonada pelo Grande Herói, Jennie, Tia Ida, o Ogro, e enfim toda a minha viagem até Vilania e o encontro com a Velha. Contei cada detalhe insignificante que parecia ter importância, cada refeição, cada dúvida que me atormentou no caminho. Ele me completava contando coisas da sua vida, decisões difíceis que tivera que tomar, e explicou que virara cavalariço depois que seu primo, de quem herdara o serviço, tropeçara de mau jeito e batera a cabeça numa pedra dura. Quando eu terminei a história do ogro, ele me disse com um olhar muito sério:
— O que você fez foi impressionante, mas as histórias de ogro são comuns por aqui. Você devia falar com Horzt, o marceneiro. Antes de morar aqui, parece que ele foi um herói profissional e ganhou a vida matando monstros.
Conversamos a noite toda, sobre essas coisas e outras das quais esqueci. Eu e o cavalariço nos tornamos melhores amigos num instante, e só muito depois eu me arrependi de nunca ter perguntado seu nome.

No dia seguinte voltei à pedra e lá estava a velha, encolhida e encurvada como uma velha águia, ou como uma gárgula. Me aproximei relutante e perguntei se hoje era um dia bom.
— Todos os dias são bons para se contar uma história — ela respondeu, se desenroscando e e estendendo a mão para mim.
Fiquei assustado e confuso por um momento, mas depois segurei a mão, e ela me puxou para cima da pedra com uma força inesperada. Meu coração batia rápido de mêdo de estarmos tão próximos, eu sentia a aspereza de sua pele e o cheiro estranho, como o de coisas muito antigas e abandonadas, que vinha da velha. Mas ela, a depeito de mim, pôs as mãos nos meus ombros, aproximou nossos rostos e disse: "Escute bem."

quarta-feira, 24 de março de 2010

Por fim, RPG:

Resolvi não comentar muito antes, mas no fds eu mestrei sete jogos de rpg. Foi isso? Acho que sim. Seis de menos de uma hora e um de mais ou menos uma hora e meia. Foram jogos rápidos, mas eu me diverti pra caramba. Quando voltei pra casa, estava me sentinfo intensamente não-sou-mais-virgem. É aquela sensação que você só tem quando tinha uma expectativa muito intensa sobre alguma coisa e finalmente a faz e se acostuma com ela, e demora um pouco para se acostumar com esse costume. Você só tem a chance de se sentir assim algumas vezes na vida, e todas elas devem ser valorizadas.

Quando o Paulo me convidou pra mestrar com ele, senti um frio na barriga e fiquei com muito mêdo. Mas repeti (você não sabem o quanto eu tenho repetido esta frase pra mim nos últimos anos) "Mali, você tem que ter coragem", e disse que sim, eu queria muito, estava com mêdo mas queria, preciso de ajuda, mas quero, sim.

Ele disse "Você tem ajuda, e pode usar a minha aventura se quiser".

Quando chegou a hora, me senti zonza e apavorada. Tinha imaginado várias alterações na história, várias formas de me sentir mais confortável com ela, mas não conseguia me forçar a sentar e mestrar. Para minha sorte na primeira rodada vieram poucos pioneiros e eu pude ficar observando por algum tempo. Fiquei observando o Cardellos mestrando a sua história sobre o Baden-Powell e a guerra de Mafeking (procurem a história, é muito legal), e tive tempo pra organizar meus sentimentos e me tranquilizar.

Logo chegou um grupo novo e eu os chamei e conversei com eles sem mêdo nem timidez. Com esse primeiro grupo tentei usar as fichas que o Luís (o físico) tinha preparado, mas as pessoas não estavam entendendo nada do sistema, e chegaram, só até a metade da história, e suspeito que nem gostaram muito. Além disso, eu levei uma bronca de uma das jogadoras por ter falado que as masmorras ficavam no subsolo do castelo (quando pela definição ficam no alto).

Com o segundo grupo eu joguei pro alto as fichas e joguei sem dados e com personagens criados na hora. Eles chegaram até o final da história mas de uma forma bem inesperada, enganado pessoas e se infiltrando nos lugares. Fiquei feliz porque eles interrogaram o conde apenas até onde era possível, e depois partiram pra passar por trás dele. Aliás, esse interrogatório me obrigou a criar muitos outros detalhes da história, que deram mais sentido e consistência a ela, o que me ajudou muito mais tarde. Foi um grupo legal, mas assustador: tinha uma menina super bonitinha mas terrivelmente séria que quis ser uma feiticeira elemental. E para quê ela usou esse poder? Para: criar um buraco na terra embaixo de uma pessoa - legal; tocar fogo no cabelo de um homem que fugia - questionável; causar azia no mesmo homem depois que ele caiu no chão (não sei por que eu permiti isso, acho que estava com mêdo do olhar dela) - cruel. Mas não foi só isso. Depois que o cara já tinha se ajoelhado diante deles e contado tudo o que ele sabia, ela disse: "Agora eu jogo álcool nas queimaduras dele, pra deixar ele sentindo dor". Que menina medonha! Depois ela quis usar os poderes para transformar o chão em lava e aprisionar o conde malvado nela. Isso eu não permiti. Ela repetiu seu desejo várias vezes, cada vez com mais intensidade! "Eu controlo os elementos! Eu crio lava embaixo dele e queimo ele até não sobrar nada!" Embora ela continuasse calma e séria, os olhos dela foram ficando cada vez mais intensos. Foi uma reação digna de um dragão, que não consegue compreender que ele não é o ser mais poderoso do mundo. Acho que ela nunca abaixaria a cabeça pra ninguém. Também foi uma reação infantil, eu suponho.

Com o terceiro grupo eu decidi usar dados mas não fichas. Eu insisti que eles criassem personagens bem definidos com habilidades bem específicas, mas só um deles me atendeu, criando um anão bárbaro com um machado. Esse era o cara que se apresentara com um: "Eu sou um nerd entre os nerds! Eu jogo GURPS!"... Como metade do grupo já jogava rpg faz tempo, eles conseguiam prever os estratagemas simples do conde, mas a forma como eles reagiam era totalmente... cretina é a palavra. Os filhos da puta ficaram interrogando o conde dentro da casa dele até ele ter que expulsá-los de lá. Mas eles não abaixaram a cabeça em nenhum momento. Quando foram tentar embebedar o chefe da guarda para extrair informações dele, um dos caras o amarrou na cadeira e começou a torturá-lo! No meio dos soldados! Fiz uma cena de batalha mas já estava de saco cheio, os caras eram arrogantes demais. Mandei eles embora e admiti que, sim, o vilão era o conde, seus putos. O que aprendi com essa seção: nunca dê poder demais a pessoas que querem usá-lo.

O quarto grupo foi o mais legal, eram só três pessoas, um tímido, uma muito tímida e uma líder, com iniciativa e poder de decisão. A líder escolheu ser o ladino, e eu dei personagens pro outros dois (guerreiro com poder de fogo e mago ilusionista). A bem da verdade, quem jogou mesmo foi a líder, mas acho que o ilusionista também se empolgou com os personagens, e de modo geral acho que eles gostaram (a menina ultra-tímida não sei, não consegui entendê-la). Foi engraçado que no final o mago e a guerreira capturaram o conde e forçaram ele a falar, enquanto a ladina insistiu em perseguir o assassino, mesmo quando ele a atingiu com seus poderes mágicos e disse que ela seria morta se o seguisse. Terminei a cena dela dentro do gueto dos assassinos, com "quando ele se vira pra você, você ouve um som de facas sendo puxadas e repara que está cercada por todos os lados por homens ameaçadores vetidos de preto." E ela: "Bom, quais são minhas opções de rota de fuga?" Hahaha! Eu admirei o otimismo dela, mas a verdade é que eu não tinha tempo pra tirá-la dessa, o tempo já tinha acabado. Era uma garota legal.

O quinto grupo foi o do Mateus... o cara que atravessava paredes. Os caras desse grupo zoaram com tudo! Inventaram coisas, deixaram a mestra mó confusa, foram atrás da organização mão-negra (que eles mesmos tinham inventado), sequestraram o líder dos assassinos, convenceram um nobre a financiar o resgate, distribuíram machadadas pra todos os lados e no final eu acabei cedendo quando eles falaram "e aí a gente prendeu o conde e vivemos felizes pra sempre". O.o''

O sexto grupo foi engraçado porque todos eles já tinham jogado vampiro. Foi um jogo sem invasão de masmorra, sem batalha, só de investgação e de fazer perguntas pra personagens que de modo geral eu estava inventando na hora. A história ficou muito mais rica com esse grupo. Além disso, no final a aventura degringolou para um jogo de Enigma (sabe aquele jogo no qual vocês fazem perguntas até descobrir o que aconteceu?). Enfim, foi bem legal.

Depois disso trocamos algumas idéias com os outros mestres, batemos um papo, fizemos uma porrada de coisas, emfim, no dia seguinte de novo eu estava super nervosa, se possível eu preferia não mestrar, mas parece que os pioneiros queriam bastante jogar rpg, então eu fui obrigada a mestrar. Foi divertido, criei fichas de personagem minúsculas baseadas nos princípios do GURPS Ultra-Lite, passamos bastante tempo desenvolvendo essas fichas, depois começamos uma história de marinheiros em um navio mercante tentando escapar e depois enfrentar piratas. As meninas escolheram algumas habilidades divertidas, como invocar animais, ler o futuro, usar cordas, curar (embora elas preferissem lutar até ficar com muito pouca vida a usar esse poder de cura...). Duas delas se divertiram intensamente, uma até disse que ia tentar aprender GURPS (yay ^^), mas as outras duas se cansaram rápido, e aí a gente não pôde continuar. Se eu soubesse que não ia ter jogo depois do almoço, teria oferecido um jogo só com as duas que queriam jogar mais. Enfim. Eu tinha escolhido essa temática pra poder me preparar para criar um jogo com navios voadores — saiba que eu não esqueci, Kim.

Acho que agora eu não tenho mais mêdo de mestrar. Embora eu saiba que é muito mais nervoso mestrar pra quem já jogou antes, boa parte da ansiedade sumiu. Enfim, como eu disse antes, é aquela sensação de não ser mais virgem. Eu me sinto... maior, mais forte. Sabem?

Além disso, recebi convites pra jogar algum dia com o Luís (o físico), e com o Cardellos e o Caio ^^ Eu pretendo aceitar os convites, se for possível, alguma hora ^^

terça-feira, 23 de março de 2010

Sonho sobre o quê?

Há alguns dias, tipo uns quinze, eu tive um sonho incrível. Vou descrevê-lo rapidamente antes da aula começar:

O Jackie (/samurai/) nos mostrou seus desenhos. Eles não eram perfeitos, mas a coloração era linda, cheia de vida, e os personagens pareciam interessantíssimos! Ele descreveu cada personagem, nos contou como eles interagiam, quais eram os sonhos e temores de cada um, quais eram seus poderes. Depois explicou que tinha sido chamado para fazer um desenho animado com sua história.
Ficamos vibrantes! Aguardamos ansiosamente o lançamento do programa enquanto ele foi morar na sede da distribuidora de desenhos. Quando vimos o primeiro episódio... bem, não foi ruim. E o segundo, ah, foi meio chato. Depois de alguns dias, percebemos que as histórias eram clichés, que os personagens eram tão planos que eram quase retas, que até os poderes mais legais eram usados sem nenhuma criatividade. Ficamos revoltados e decidimos ir até a empresa interrogar o Jackie sobre isso.
Quando chegamos lá, os funcionários nos receberam muito bem, mas logo percebemos que eles faziam o possível para evitar que Jack nos atendesse! Enganamos os recepcionistas e nos esgueiramos até os fundos do edifício, onde encontramos Jackie... deitado numa rede, tomando refresco! Puxamos Jackie da rede e chacoalhamos seus ombros pra ver se ele entendia a seriedade da situação!
— Seu desenho é horrível, Jack!
— Seus personagens não tem a menor graça!
— Sua história é um lixo!
— Como você deixou isso acontecer?!
Jackie olhou super-pacífico pra gente e falou — Ué, vocês tinham gostado antes...
Aflitos, nós arranjamos uma tevê e mostramos pra ele os últimos episódios. Aí! Ele levantou num átimo e exclamou com toda aquela energia verídica do Samurai:
— Puta merda, esse desenho é um lixo!
E:
— Fui eu que desenhei isso?! Mas não era pra ser assim! Aqueles filhos da puta tão acabando com meu desenho!
Logo percebemos que os empresários estavam corrompendo o desenho do Jackie pra ele ficar menos original e mais "vendável". Nessa hora os donos da empresa nos avistaram e começaram a nos perseguir pelo edifício! Corremos, nos escondemos e montamos armadilhas pra eles, como jogar coisas escorregadias no corredor e depois atacar enquanto eles caíam. Conseguimos derrotar todos os empresários e no final fizemos uma grande festa com churrasco e piscina no edifício da empresa mesmo! O mundo dos desenhos estava à salvo!
Para comemorar, brincamos de lutar com espadas de palito de churrasco e fizemos até campeonatos.

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Adoro esses sonhos absolutamente shonen hahaha!

segunda-feira, 22 de março de 2010

The Wilderness

Every year, we gather around the Stone of the Frost
To seek the advice of Darkness
We circle the Stone, we round it and howl for it
And ask for the aid of Darkness
And that year, as we thrive through the frozen woods
As we hide and we wait for the Melting Moods
We will wait inside the Darkness

The Darkness is mother of all of us
We will wait inside her mouth
The shadows are siblings that hunt with us
And we will fight by their side

When it melts, we climb the branches of the Tree of the Song
To seek the comfort of Bluesky
We sing and we silence, we dance and stay still
And pray for our guide in Bluesky
And he comes with the spirit that fills us all
With his light as he fruitfies us all
And that year as we hunt through the chirping woods
As we run and forget of the Freezing Moods
We will run underneath the Bluesky

The Bluesky is father of all of us
We will run underneath his eyes
The shadows are siblings that hunt with us
And we will fight by their side

Every year, be it spring of fall, we know
Of our siblings of no eyes and no mouth
Though they can't eat with us when we take the kill
Though they can't see the rivers and birds that chrill
Still we will fight by their side

For our siblings, they live on the earth we step
The earth, she carries us all
And our siblings, they live on the trees we climb
The trees, they hide us from all
And our siblings, they live on the rivers springs
And they live on the animals out and in
And they live in the Darkness and under Bluesky
And they live in all that has life
And we fight by the side of life

Howl with me

"You find me sitting at this table
with my friend Fin and my friend John
My friend Murdaney tells us stories
of things long gone, long gone
And we may take a glass together
the whisky makes it all so clear
It fires our dulled imaginations
and I feel so near, so near

I feel so near
to the howling of the winds
I feel so near
to the crashing of the waves
I feel so near
to the flowers in the field
Feel so near...

The old man looks out to the island
He says this place is endless thin
There's no real distance here to mention
we might all fall in, all fall in
No distance to the spirits of the living
No distance to the spirits of the dead
And as he turned his eyes were shining
and he proudly said, proudly said

I feel so near
to the howling of the winds
I feel so near
to the crashing of the waves
I feel so near
to the flowers in the field
Feel so near...

So we build our tower constructions
There to mark our place in time
We justify our great destructions
As on we climb, on we climb
Now the journey doesn't seem to matter
The destination's faded out
But gathering out along the headland
I hear the children shout, children shout

I feel so near
to the howling of the winds
I feel so near
to the crashing of the waves
I feel so near
to the flowers in the field
Feel so near..."

Escotismo, Árvores, Lei da Jângal e homens

"Fly me to the moon and let me play among the stars
let me see what spring is like in jupiter and mars..."


Ahn, essa música não tem nada a ver com o que estou pensando, ela só é bonita e não sai da minha cabeça. Eu pretendo aprender a tocar ela no sax, acho que vai ficar bonito, mas antes preciso praticar bem mais; aliás, eu já disse que estou praticando sax? Bem, isso não deveria ser o que eu estava pensando. O que eu estava pensando era isto:

Ele segurou os dois galhos da árvore, como se testando sua resistência e imaginando o movimento que teria que fazer para se erguer para cima deles. Naquela hora eu olhei pra ele e pensei: esse cara tem o mesmo sangue que eu.

Esse fim de semana eu fui num evento de um grupo de escoteiros chamado Interclãs, no qual os pioneiros, que têm [18,21) anos, se reúnem, se conhecem e se misturam para fazer atividades programadas pelo Grupo sediador, que no caso era o Grupo no qual o Paulo (amigo meu, da poli) é chefe (que é a única forma de participar do movimento escoteiro se você tem 21+), o Grupo São Paulo - 001SP. O tema do evento era tribos urbanas — inclusive ganhei uma caneca e uma camiseta escrito "tribalize-se" — e havia grupos de chefes fazendo atividades para representar cada uma das tribos, no que eles chamaram de bases. Resumindo, em cada base havia uma atividade e cada atividade tinha a ver com uma tribo. O Paulo me chamou para ajudar a mestrar umas aventuras de RPG na base dos Nerds e Geeks.

Aconteceu muita coisa interessante lá, eu estou achando difícil escolher o que é mais importante. O que eu queria era mostrar o que mais me impactou, o que mais transformou o que eu era no que eu sou agora, por mais que as diferenças pareçam mínimas.

A primeira coisa foi a casa do Paulo. Resumindo, eu poderia ter decorado o lugar. Embora a arquitetura seja sem graça como em qualquer apartamento e não haja jardim. Há quebra-cabeças montados em todas as paredes, bichos de pelúcia de todos os tipos (inclusive dragões e pokémons), casa-miniaturas numa coleção, animais de brinquedo nas estantes, toda umas decoração lúdica, infantil até, mas sem perda de dignidade. Eu achei aquilo estranho e fascinante. O pai do Paulo era um cara muito alegre, descontraído e — que outra palavra usar? — fofo. Não na aparência, mas no jeito. O jeito como tratava os filhos especialmente. Parecia não ter uma preocupação na vida. A mãe do Paulo, Sandra, é uma pessoa agradável, tranqüila, divertida, e com todas as características mais marcantes de uma mãe, por exemplo querer cuidar de você e contar um monte de histórias. Ela me contou como a alcatéia dos lobinhos era baseada no Livro da Jângal, como Baden Powell era amigo de Rudyard Kipling, como os chefes dos lobinhos tinham títulos como Akela, Raksha, Baloo (os lobinhos a chamavam de Baloo). Isso me deixou intensamente nervosa.

No caminho para a casa dele, Paulo me perguntou se eu tinha religião. Eu não tenho religião, eu disse. Mas acho, eu disse, que minha fé tem algo de panteísta. As coisas pra mim são sagradas. Quando eu vi as ondas explodindo contra as pedras em Paúba eu pensei, isso é Deus para mim. As pedras são minha religião, e as árvores.

Quando eu era menor, a Jângal era a minha fé. O Livro da Jangâl, completo e na voz de Monteiro Lobato ("Olhai bem, ó lobos!") era minha Bíblia. Não tive coragem de dizer isso pra eles, mesmo quando Sandra (Baloo) me perguntou como eu tivera acesso ao livro, por que eu o lera sendo que ele é difícil para crianças, nem quando eu disse que já o tinha lido várias vezes; eu queria dizer que eu provavelmente sabia mais sobre o livro que ela, eu queria dizer que eu era mais lôba que os lobinhos, essa é a verdade. Fiquei nervosa pensando se ia encontrar um monte de gente que sabia tanto sobre essa história quanto eu. Não sabia como eu ia me comportar. O assunto em questão era muito close to heart pra mim, eu me sentia ameaçada sabendo que não detinha o poder sobre ele. Baden Powel era amigo de Kipling! Era como se eu estivesse perdendo alguma prerrogativa. Até hoje ninguém nunca foi tão obcecado pela Jângal quanto eu.

Felizmente meus mêdos não se concretizaram. Os chefes e pioneiros não tinham ligação com Mowgli, e na verdade nenhuma atividade foi muito mateira. Eu tive que defender minha posição poucas vezes, uma quando tive que mostrar que eu sabia o que era um spec de barraca, outra na hora de andar à noite pelo bosque. De modo geral fiz muitos amigos, e só fiquei na defensiva com um deles, que me pareceu o tipo xavequeiro-controlador. O dia mais interessante foi a primeira noite, em que o Paulo me deixou sozinha e eu sentei na mureta que marcava o espaço das barracas e fiquei conversando com os chefes responsáveis pela organização do campo e com todos os mais que passavam. Conheci nessas um rapaz de 20 anos que em dois minutos me convidou para me juntar ao movimento, e me explicou a segmentação por idades etc. O nome dele era Caio, e se eu tivesse que escolher alguém naquele evento para ser meu amigo, teria escolhido ele. Queria tê-lo conhecido melhor.

Me sinto ligeiramente tola. Durante boa parte da minha adolescência tive vontade de ser escoteira, mas não tive a quem fazer perguntas e achei que era impossível virar escoteiro sem antes ser lobinho, e eu obviamente era velha demais pra isso. Agora eu descubro que isso não era verdade, mas o decubro justamente na idade em que se torna verdade. Me sinto ligeiramente tola, mas quem hei de culpar?

Conheci duas pessoas que me interessaram intensamente, atrás de quem eu tendia a correr como um cachorrinho fazendo perguntas (mas na minha timidez violenta eu não fazia pergunta nenhuma). Um era um contador-de-histórias, um cara sem dono que sabia um monte de coisas interessantes. Eu queria sentar do lado dele e pedir pra ele contar histórias. Assim que o cara percebeu meu interesse ele resolveu mostrar tudo o que ele tinha pra mostrar. Isso foi legal por algum tempo, por algum tempo eu achei que ele ia conseguir a minha confiança e me ajudar a vencer a timidez, até porque ele era amigo do Caio, e porque ele também estava mestrando rpg. Por algum tempo as conversas foram interessantes, todos os caras me contaram e mostraram coisas legais que eu não conhecia, mas em algum momento... Em algum momento as coisas se reverteram e eu decidi ficar meio longe desse cara. Continuei conversando com ele, até, mas não era mais minha alma falando. Não havia mais timidez, só havia a Muralha. Me perguntei por que tantos caras interessantíssimos na minha vida de repente me causavam repulsa.

O outro foi tipo amor à primeira vista, e na verdade a existência desse cara iluminou um pouco a minha vida. Em relação a ele eu realmente me sinto como o filhote animado correndo atrás do animal mais velho e sério. O cara ainda consegue ser bastante sério, o que me fez me conter bastante na presença dele. Mas parece ser um cara legal, quem pode saber? Nada disso é importante, o importante é subir em árvores. Eu conheci o Amarelo quando uma garota apontou pra ele e pediu pra eu ajudá-lo, um cara alto e magro, cabelo máquina 2, corda de alpinista no ombro, andando a passos enérgicos (e enormes) recrutando pessoas com brados decididos sem parar de andar e sem hesitação. Não foi o que ele estava fazendo, foi o espírito com que estava fazendo isso. Eu me aproximei e ele pediu pra eu segui-lo. Andava e gritava pra quem quisesse ajudar que o seguisse. A ajuda de que ele precisava era para simular a base dos esportistas, na qual pessoas seriam içadas até um galho alto de uma árvore e depois desceriam de rapel. Ele já tinha passado uma corda pelo galho e amarrado a corda em outra ;arvore de forma que ela ficasse firme. Então ele começou a subir pela corda. Mas veja, ele não subiu pela corda com apenas a força dos braço e o jeito das pernas. Se ele tivesse feito isso, eu teria olhado pra ele com aquela inveja raivosa que eu sinto por aqueles que são simplesmente muito mais fortes que eu. Em vez disso, eu olhei para ele com a admiração de um discípulo. O cara estava amarrando outra corda menor na corda principal de forma que ele fazia laços com ela, subia pelo laço, deslocava o laço e subia novamente. Não sei nem exatamente o que ele fez. Se eu fosse outra pessoa, talvez eu tivesse querido correr até ele e pedir pra ele me ensinar ali mesmo. Uma chavinha dentro de mim mudou da posição "impossível" para "possível".

Alguém perguntou: "Você é escoteiro ou alpinista?"
E ele, sem hesitar: "Alpinista."

E, dois dias depois, depois que eu já tinha ido conversar com ele e combinado de ir no Grupo subir em árvore algum dia, quando ele estava no meu lado no bosque e ele pôs as mãos nos galhos da árvore exatamente com eu estava com vontade de fazer, eu pensei: será que ele é como eu? Será que ele vê as árvores e imediatamente pensa em como vai subir nelas?

...

...

Sabe, eu preciso tomar um pouco de cuidado, porque escrevendo isto eu notei como quando eu me interesso por uma pessoa em começo a agir como se estivesse apaixonada por ela. Não é nada disso! Eu só quero achar pessoas com as quais compartilhar paixões, como subir em árvores e contar histórias. Eu quero encontrar pessoas que uivem comigo e com as quais eu possa aprender o que anseio por saber. Eu quero pessoas que me ajudem a lembrar dos trechos esquecidos da minha Lei.

Vocês, que são meus amigos, são meus amigos porque já uivaram comigo.

Mas...

resumindo, o resto dos caras costuma se distrair demais com seus respectivos pênises pra conseguir ouvir este Chamado.

quinta-feira, 18 de março de 2010

Comunicado & Reflexão sobre as Estórias

Resolvi escrever isto aqui em parte por causa de um comentário que a Tá deixou, dizendo que gostaria de ler o que eu escrevo. Na verdade, eu tenho tentado escrever algumas coisas, não necessariamente histórias definitivas mas rascunhos e anotações para o futuro. Meu último projeto é escrever sucintamente tudo o que eu consigo ver da história que eu chamo de Soule V, a história de Marwa Macally e de todos os que se envolveram com ela no Hatsw. Essa Saga surgiu quando eu tinha uns onze ou doze anos, a partir da minha paixão por video-game e talvez da influência de Tolkien e dos caras da Exodus. Por muitos anos eu evitei descrevê-la porque sabia que eu não tinha a capacidade de cantá-la tão épica quanto ela merecia, ou porque eu não conseguiria descrever decentemente os cenários e os personagens. Depois de um tempo, eu decidi que não podia realmente contá-la por causa do seu conteúdo: porque era uma Soule, ou seja, os personagens eram em grande parte variações de pessoas reais, especialmente eu e meus irmãos e amigos mais próximos; e porque começava como um jogo de video-game e depois se tornava um épico sério e intenso. Passei anos da minha vida tentando encontrar uma forma de adaptar a história para que ela pudesse ser contada para qualquer pessoa. Esta semana, porém, decidi que estava me preocupando com as coisas erradas.

Acho que o mais importante é escrever a história, agora. Se eu puder escrever a história de Marwa, então poderei contar a história de Aragorn Scorpes, de Jolyn e de Idael. Poderei compreender como o Hatsw funciona e aplicar esse conhecimento em outras histórias passadas no mesmo cenário. De repente o video-game não me parece mais uma forma tola e infantil de começar um conto. Afinal, Nárnia não começa com crianças brincando pela casa? Meu conto pode ser menos infantil que Nárnia, mas ainda será lido por pessoas que gostariam de passear por outros mundos de qualquer forma que fosse, assim como eu. Eu quero escrever para essas pessoas, esses meus irmãos de fantasia. Eu quero expôr minha alma para eles, e pedir sua solidariedade.

Ontem um esquerdista vendendo jornal conseguiu atrair meu interesse e me fez descrever minha história como "sobre pessoas tentando encontrar seu lugar no mundo". Sejamos dragões ou executivos, não queremos todos a mesma coisa?

Por fim, eu escrevo para dizer que você pode ler o que eu escrevo, Tá. Parte do que eu escrevo está neste blog, no label La Cantadora. Outra parte eu posse contar a quem pedir. Algumas coisas me deixam um pouco perdida, como por exemplo a personagem que é irmã mais velha da protagonista e que em breve entrará na faculdade e terá pouco tempo para jogar com ela. Outras coisas me empolgam, como, por exemplo, o filho de meu filho. Tenho ao mesmo tempo vergonha e orgulho do que irei contar, mas se me pedir com vontade suficiente, eu contarei tudo. É claro que há partes que eu preferiria não contar por uma questão de surpresa, mas me peça para eu guardar a surpresa e eu guardarei.

Eu quero aprender todas as línguas, porque de alguma forma me parece que a verdade está nas palavras.

terça-feira, 16 de março de 2010

Essas pessoas da física.

Hoje eu estava conversando com a Gabi(óloga) e o Bruno (Iha) e confessei que estava viciada em livros, e descrevi como isso era horrível. A princípio eles não entenderam, tive que explicar melhor. Depois eles olharam pra mim meio confusos e disseram "É por isso que você não estuda aqui" e "Tudo bem, minhas amigas ficaram assim com Harry Potter durante toda a sexta série".

Nâo! Você não pode me comparar com suas amigas na sexta série, mas eu não sou uma pré-adolescente, isto não é uma paixonite, I am the real thing, a for-real book-junkie. Não é possível que não tenha nenhum desses na física, é?

E mais: quando perguntaram que livro era, eu falei e expliquei como me doía a tradução atroz em que todos os tempos verbais estavam errados, em que quase não havia pretérito mais-que-perfeito enquanto um de cada quatro parágrafos falava do passado-do-passado, eles: "o quê?"

"Oquê?"

Repeti meu problema para diversas pessoas e o mais próximo de compreensão que eu tive foi do Dobay, que disse: "eu nunca li um livro que tivesse esse tipo de problema."

...

Depois de algum tempo, murmurei frustrada que não precisava da compreensão deles, que eu ia me contentar em ter minha irmã, que sente exatamente o mesmo tipo de revolta de eu.

E falei isso olhando pro chão, me sentindo estranhamente solitária no meio de alguns dos meus melhores amigos.

segunda-feira, 15 de março de 2010

Dos últimos livros que tenho lido:

Por favor! Por favor! Eu imploro por pelo menos um préterito mais-que-perfeito!

sexta-feira, 12 de março de 2010

Essência

Estou na FAU, todos os meus amigos estão em aula, estou dividida entre filosofar, passear no sol, ler um livro ou estudar. Bem, aqui eu estou.

Há pouco tempo eu estive lendo Fight Club (que tem aspectos melhores e outros piores que o filme — notadamente o fato de o narrado não se chamar Tyler Durden) e tem aquela parte em que o narrador tem que dizer o que ele gostaria de mudar em sua vida antes que o carro batesse de frente, quer dizer, seu desejo final antes da morte, aquela coisa que você diria pro padre na hora da extrema unção se o seu padre só se sentisse vivo enquanto espanca outro homem no porão de um bar ou se esforça para destruir o mundo.

"Drunk drivers against mothers", kind-a-thing.

Eu estava no jardim, tinha um dia lindo na minha frente (é preciso observar que meu jardim em si é lindo) e minha vida parecendo escorrer das minhas mãos como um chumaço de plumas e me perguntei: o que eu quero, o que eu responderia ao mecânico dirigindo meu carro em direção à morte quando ele me fizesse essa pergunta?

— Eu quero escrever meus livros.

Sabe, não aquelas coisas amadorísticas que eu mostro pra vocês, eu quero escrever a história de Shaer, a guerra dos três demônios, a viagem de Aragorn. Eu quero mostrar a força da lida deles, eu quero declarar a que conclusão cheguei.

Tudo isso me parece impossível, como me parecia impossível velejar, me parece impossível eu um dia saber escrever e ter coragem de macular essas histórias com minhas palavras. Mas eu faço um esforço, embora débil, para que um dia isso se torne possível.

Eu sou uma escritora, uma Cantadora em essência? Nâo sei. Não tenho a mesma seiva criativa do Charles, e não há grandiosidade em meus poemas nem sabedoria em minha prosa, tudo que me resta é minha paixão, que se dilui no tempo conforme eu falho em escrever o próximo capítulo. Por exemplo, quando comecei as Histórias Sem Fim, pretendia escrever um capítulo por semana, e já se passou um ano e escrevi talvez quatro folhas.

Espero entretanto que ao menos a história seja interessante.

A Bia da Biblioteca um dia me disse "Não deixe os números confundirem você: você nasceu para as letras". Sim, sim, as letras, as palavras me encantam, mas a matemática também me encanta, tudo o que é linguagem me encanta, talvez nasça daí minha paixão por computação, mas meus interesses vão muito além desse encanto. Talvez a ciência, a arte, a fábera, e todas as coisas da vida sejam apenas hobbies, coisas do coração, coisas que são alimento mas que não são o objetivo final. Todo esse amor que eu tenho pelo mundo, talvez seja apenas a forma de devorá-lo.

Quem pode saber? Eu quero ter cento e dezoito anos e ser velha, forte e sábia. Eu quero levantar o mundo (me dêem uma alavanca!), eu quero acima de tudo enxergar. Entretanto, toda vez que me distraio do mundo e tento me concentrar no eu, eu sei que a forma como Eu gostaria de existir no mundo seria através das histórias.

quinta-feira, 11 de março de 2010

O que eu faço quando perco alguém

Quando eu te perdi
(lembro nitidamente)
chorei por anos, de tempos em tempos
a vida pareceu sem graça
as brincadeiras não foram as mesmas.
Por anos não tive ninguém pra mim como você.
Mas com o tempo, acho, fui te tornando menos que uma memória
te tornei meu sangue, te tornei meu core.
Quando me curei, era eu que havia faltado.

Quando te perdi, entrei em desespêro.
Não parecia certo te perder.
Eu não estava certa sem você.
Todas as coisas que eu fazia pareciam idiotas,
todas as piadas pareciam estúpidas,
todos os meus amigos pareciam bobões
por que nenhum deles era você.
Queria voltar pra você, queria te encontrar
Mas aos poucos
meus amigos
se tornaram estrelas mais brilhantes que você
(e quando me dei conta, era eu que havia me afastado)

Quando te perdi, eu entendi.
Minha dor era tão grande que parecia abarcar o universo, mas isso não importava, porque eu entendi.
Eu senti saudades, mas pensei:
"Vivemos tudo o que poderíamos viver"
Você viveu, viverá, para sempre.

Quando te perdi, eu observei
Eu observei até que você viesse à tona
eu observei os outros que também te perdiam
eu procurei por você nos olhos deles
eu procurei por você nos registros, nas lembranças
eu procurei por você na memória e em Deus
e talvez eu te encontre, não sei, na Morte.

Quando te perdi, eu te amaldiçoei
Eu gritei, eu urrei em silêncio
Eu xinguei sua família, seus sonhos
Aqueles amigos que a gente teve e que eu não tenho mais.
Quando te perdi, não te perdoei
Ainda não te perdôo.

Quando eu te perdi
(e como me dói pensar nisso)
eu mergulhei em coisas felizes, talvez pra esquecer
Amigos, amor, essas coisas
Porque foi tão definitivo!
No fim,
eu perdi tanto
mas consegui manter você
um pouco ao menos de você.

Quando te perdi
(acho que perdi metade do meu coraço junto,
por isso não sinto profundamente essa perda)
Sério, quando te perdi
Passei alguns anos sem saber direito o que fazer da minha vida.
Passei muito tempo sem saber se as outras pessoas que eu conhecia
poderiam de alguma forma preencher o espaço que antes era só pra ti
De verdade,
ainda não tenho certeza do que aconteceu
Não que eu sinta sua falta, é só que
...às vezes eu acho que ainda sobra em mim esse espaço vazio.

Quando te perdi
...
...
...
...
Bom...
...
..
.
.
É: quando eu te perdi, o vazio de não ter você foi tão avassalador que entrei em desespêro e tranquei o pensamento pra fora da minha mente. Toda vez que pensei em você meu mundo ficou negro, e quis chorar. Toda vez que ouvi de você, gritei em minha mente para abafar os urros dessa ânsia que não me deixava respirar. Tentei, com todas as forças, fazer minha vida fazer sentido sem você. Tentei me convencer de que sua história podia prosseguir sem mim. Tentei fechar meus ouvidos para qualquer traço de você, com mêdo da dor lancinante que me causava qualquer notícia sua. Chorei: chorei copiosamente, sem conseguir sequer enxugar as lágrimas. E nunca parei de sonhar com você.

Quando te perdi, sentei e olhei a noite, magoada,
pensando em todas as promessas que fizemos e que não iríamos cumprir,
pensando em todas as aventuras que não poderíamos fazer.

Vegetarianismo?

Hoje, eram cinco horas, aquela hora em que meu corpo começa a ficar incomodado com a falta de algo pra digerir, fui na cozinha e peguei um pedaço de frango. Aquilo tava gostoso e resolvi pegar mais um pedaço só pelo prazer. Enquanto me acomodava para ler enquanto comia, pensei:

— Estou comendo os músculos de uma galinha.

Galinha como? Penuda, branca, ciscando, aquele olhar arregalado de dinossauro, crista, garras, vôos curtos, voz estridente. Imaginei galinha na minha mente, chocando, ciscando, andando, gritando. Estava comendo um pedaço de galinha. Me imaginei arrancando um bife da galinha, e o fritando e o comendo. Porra.

De repente me pareceu idiota comer carne só porque eu tô com gula. Quando você está com fome, poucas coisas são tão gloriosas quanto a carne, e a carne realmente é saudável, e meu corpo às vezes clama por ela. Mas comer só porque sim? Comer outro animal só porque o gosto é bom? Eu não mataria uma galinha por alguns minutos de prazer, não se esse prazer não fosse glorioso o suficiente para dar sentido à minha vida.

O frango pareceu totalmente sem gosto de repente. Eu podia sentir que ele ainda tinha o sabor agradável, mas eu me senti mal por estar comendo. Mesmo assim, sem poder devolvê-lo à geladeira, comi até o fim.

sábado, 6 de março de 2010

Mudança dos nomes das ruas na USP

Vocês viram? Parece que vão mudar a Rua da Reitoria pra "rua da Praça do Relógio" (é aquela rua que passa da rotatória até a Praça do Relógio por dentro do quarteirão do CRUSP), e a Praça da Reitoria para "Praça do Relógio Solar". Acho que isso vai ficar muito confuso, as pessoas vão confundir ainda mais... se bem que na verdade ninguém usa os nomes de verdade das ruas; pra mim aquela praça chama "Praça do Calendário Solar" (porque é um calendário, não só um relógio). Também vão chamar uma rua de "Rua da Reitoria" lá perto da antiga reitoria. Isso é bem estranho, o bolsão já deixa todo mundo confuso, agora essa rua vai piorar as coisas. Aquilo tinha que chamar "rua dos bancos" ou algo assim. As coisas tinham que ser mais objetivas.

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Mais um capítulo na minha epopéia

Este capítulo vai ser um apanhado de pensamentos que me ocorreram ao longo do dia:

I

Embora eu tenha decidido há muito tempo não fazer Design, por todos os lado que eu via o problema eu chegava sempre à conclusão de que ainda era aquilo o que eu queria ser e fazer, o que era o mais legal, a minha essência. Eu olhava os problemas com olhar de designer, eu olho para o mundo com esse olhar. Eu defendo o design contra todos os ataques e insisto que ele é o mais importante. Eu sempre achei que o problema não fosse o tema em si, mas o método do curso, e que no fim eu ia acabar voltando, quem sabe com um diploma ou dois, para acabar me tornando Designer.
Nos últimos dias isso vem, lentamente, mudando. Não sei que mudança é essa, nas minhas prioridades e nos meus desejos. Nos últimos dias eu tenho sentido um interesse pela física, pela química e pela biologia que eu não sentia desde o colegial, quando eu cogitava me tornar cientista. Eu tenho desejado aprender com tanto fervor quanto naquela época, e não apenas para me tornar algo maior, mas também pelo puro interesse pelo conhecimento. De repente tenho ficado em dúvida se o mais importante é salvar o mundo, trabalhar no mundo, ou antes de tudo compreendê-lo.

II

Como disse no ítem anterior, no segundo colegial eu passei por uma fase em que Física e Química me pareciam os cursos mais empolgantes. Eu queria conhecer o mundo, queria estudar matemática, queria trabalhar em laboratório e enxergar trocas de energia em tudo o que eu visse, pois é. Por muitos anos depois disso lembrei dessa empolgação como um deslize, uma paixão passageira por uma coisa que pra mim era um hobbie, uma diversãozinha que eu podia praticar na escola, um jogo para jogar com os amigos. Não: eu queria mesmo saber de tudo, perguntava para os professores sobre as folhas anômalas da grama, fazia anotações sobre os insetos, tentava imaginar as fórmulas dos ingredientes do shampoo.

Esses dias minha mãe me disse que naquela época ela achava que eu ia fazer Física, que ela nunca entendeu por que eu fui fazer Design, e aí meio que tudo voltou com tudo, todas as questões daquela época, como Design tinha me parecido a mistura certa de ciência e arte (que ingenuidade a minha, não?), como ciência e arte eram próximas para mim e como na verdade eu queria descobrir mais sobre o mundo antes de poder mudá-lo com minhas próprias mãos! Eu não lembro de como foi começar a faculdade, mas deve ter sido mesmo terrível pra mim; eu lembro da empolgação de estudar Fotografia, Desenho, história do design, editoração, técnicas visuais (sim, o curso do SENAC me empolgava bem mais que o da FAU), história da arte (que eu tinha esperado a vida toda pra estudar), técnicas de gravura, e... Bom, não sei se tinha mais.

Hoje tudo me parece uma decepção tão grande, eu descobri que não ia ter cálculo nem física, parei o SENAC com todas as suas matérias legais, não houveram mais aulas de técnicas no Design, as aulas de ergonomia eram um saco, eu acabei não aprendendo o que eu queria aprender e aprendendo bem mal o que eles achavam que eu devia aprender. Mesmo assim, naquela época eu culpava minha má interação com os colegas e veteranos, minha falta de hábito de estudar, o choque de perder o jantar com a família (acho que acabei perdendo minha família nessa), minha dificuldade de interagir com a burocracia (e minha timidez de modo geral) — enfim eu julgava que se eu crescesse, amadurecesse e aprendesse a ser como eles, tudo ia se encaixar magicamente; eu achava que só dependia de mim.

III

Hoje eu percebo o quanto eu senti falta da pesquisa — esse espírito de procurar, de investigar, de modelar e imaginar possibilidades, de construir: como isso falta! O conhecimento associado ao Design deveria ser uma Tecnologia. Assim como ao longo dos séculos se desenvolveram novas estratégias de Go, ao longo do tempo mesmo os materiais e técnicas antigos podem ser reinventados em processos e produtaos novos! Se houver um esforço de reunir o que já foi feito e construir em cima disso, quão longe podemos chegar? Talvez nada longe, visto que existe um mercado imortal do design ruim (aliás, sempre me pergunto como essa persistência do ruim funciona). Mas talvez muito longe ainda assim! Queria que meu curso tivesse menos projeto e mais estudo, que aprendêssemos uma enorme variedade de técnicas e os detalhes de cada uma delas, para que soubéssemos o que estamos fazendo quando projetamos. Design não é apenas Método! Não quero de forma nenhuma fazer o curso Deisgn FAUUSP, mas ainda acho possível que eu volte para fazer uma pós, um mestrado ou doutorado em design ^^

IV

Enfim eu lembrei que um dia eu quis com muita convicção fazer Física, e fiquei imaginando que coisas estranhas poderiam ter acontecido se eu tivesse feito essa opção. Será que eu teria vários amigos Físicos, conheceria toda a USP e teria tido um primeiro ano feliz? Será que eu teria me dado bem com os físicos que são meus grandes amigos hoje? Talvez isso tivesse sido ótimo, ou talvez fosse péssimo, não dá pra saber. Mas agora não importa muito, eu acho. Esses três anos não foram em vão, eu aprendi muita coisa neles, embora talvez eu tenha me tornado muito menos do que eu esperava.

...
... Acho que tudo está bem quando acaba bem.

sábado, 27 de fevereiro de 2010

O Engenheiro e o Cientista


Ontem enquanto estudava na Física, tive uma conversa interessante com o Jesus e o Léo. Como era de se esperar a princípio os dois tentaram me dissuadir de fazer Poli, mas no final me deram bons conselhos e me ajudaram a ver a coisa pelo meu lado. Durante a discussão sobre a diferença entre os cursos da Poli e os cursos científicos como Física e CM, ocorreram os seguintes diálogos:

I

— O que mais te fazia falta no Design?
— Bem, — eu comecei, ganhando tempo para pensar com cautela. — Eu sentia muita falta da parte técnica dos projetos. Na verdade eu sentia falta da matemática — descobri que não consigo ficar sem matemática na minha vida — e também de pesquisa: pesquisávamos um pouco sobre alguns projetos e outros designers, isso é legal, mas não é incrível. Acima de tudo, eu sentia falta de entender como as coisas funcionam. Eu queria trabalhar mais na estrutura das coisas.
— ... Você ainda tá matriculada no Design, né?
— Sim, por quê? — eu perguntei. Será que ele ia dizer que eu devia mesmo era continuar no Design, que eu o amava apesar dos defeitos do curso?
— Por que aí quando você finalmente perceber que você quer fazer CM, vai ser só fazer a transferência!
É claro! O pessoal do CM sempre me diz que eu devia ir pra lá, o que eu esperava! Mas será que ele tinha razão? Pensei um pouco, e lembrei: que a estrutura, para um cientista, é a ciência, a física. Repliquei:
— Não sei se você entendeu: eu fazia um projeto de máquina, eu me envolvia, queria mudar a posição do motor para abrir um espaço aqui, e transferir aquela alavanca pra lá que é melhor para a mão, e acho que vou ter que mudar o sistema de transmissão para isso... Mas eu não sei se o peso do motor aqui atrás vai ser demais para essa coluna que o sustenta, ou se vai desalinhar a correia de transmissão, e afinal que outros tipos de transmissão são possíveis pra resolver o problema da alavanca?

(Nota: quando finalmente resolvemos ir atrás dessas informações, lembro que o professor reclamou que estávamos focando apenas na mecânica da máquina. "E o design? Cadê o design?" E eu pensando: pode haver design sem mecânica? Porra, como eu guardo raiva desse dia...)

II

— Vamos esquecer os fins por enquanto e pensar nos meios. Você fez cálculo, não fez?
— Sim, mas não passei. Vou ter que fazer de novo e--
— Mas você lembra do Teorema do Valor Médio, por exemplo?
— Lembro. Por quê?
— Quando você aprende um teorema como esse, você prefere que ele seja demonstrado e provado ou que seja só apresentado como verdade e aplicado exaustivamente para que seja fixado na sua cabeça?
Passei vários segundos pensando nessa pergunta. Por um lado, se o teorema não é muito usado, ele acaba sendo esquecido. Por outro lado, se ele é demonstrado com cuidado, ele pode ser relembrado pela sua demonstração.
— Acho que eu prefiro que haja demonstração. Não me lembro de quase nenhuma demonstração, na verdade, mas lembro que nas aulas da escola eu ficava fascinada pela história do conhecimento: como foi inventado o Teorema de Pitágoras, de onde veio a Fórmula de Báskhara, quem primeiro pensou na idéia de Índice de Refração...
— Se você vê uma demonstração uma vez, e a entende, ela fica pra sempre em algum lugar da sua mente — disse o Jesus.
— Se você gosta de entender de onve vêm as coisas, você vai odiar o Cálculo da Poli.

III

— Eu não quero fazer Cálculo de novo agora, mas estava pensando em pegar a matéria de Física da Poli.
— Por que vai fazer Física e não Cálculo?
— Bom, eu dei uma olhada nas matérias do primeiro semestre, e Física me pareceu a mais "engenheira" depois de Introdução à Engenharia.
— Mas Cálculo é que é a essência da Poli.






No fim das contas, vou fazer o máximo possível de matérias na Poli, quer dizer, todas que eu puder sem sacrificar as duas de computação. Não sei o quanto eu vou amar ou odiar o lugar. Espero que no final eu saiba exatamente o que eu amo e o que eu odeio.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Mimese

Por todas as mesmas coisas que me fizeram te amar, eu te odiei. Eu te odiei em segredo por muito tempo, com mêdo de você não entender que eu precisava te odiar. Eu te odiei por cada uma de suas qualidades. Eu te odiei por sua força, por suas convicções em todas as questões em que eu tinha dúvidas. Eu te odiei pela sua sagacidade, pela sua inteligência. Eu odiei cada frase brilhante, cada piada, cada vez que você fazia um amigo. Eu odiei todos os seus talentos, eu odiei cada instante de prazer que eles te deram. Eu odiei cada um dos seus sorrisos. Cada vez que você se empolgava com algo eu sentia raiva; cada vez que você criava algo lindo eu sentia dor. Eu odiei você, por cada momento bom que passamos juntos eu odiei você, sem nunca te dizer nada. Eu odiei cada sorriso que você me arrancava, cada convite que você me fazia. Eu odiei em segredo, mas intensamente, misturando o ódio com o amor, misturando momentos de horror com momentos de êxtase, confundindo num só sentimento faminto o desespero e a felicidade. Eu odiei o seu prazer, eu odiei o seu amor, eu odiei a minha imagem nos seus olhos, eu odiei te ver nos olhos deles. Cada vez que meu coração inchava de orgulho por você outra parte de mim vomitava o ódio por cada uma das suas vitórias. Eu odiei você por tudo o que você fez de bom. Eu odiei você por ter me salvado, eu odiei a felicidade que você me trouxe. Eu odiei você por ter tido que me trazer a felicidade, por tê-la me oferecido, por não ter me privado dela, me obrigado a conquistá-la. Eu odiei você por ter me dado forças sem me tornar forte, por ter me dado vitórias sem me tornar vencedora! Eu odiei você, acima de tudo, por ter me dado a felicidade sem me dar junto o orgulho.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

O Bom, o Ótimo e o Necessário

Ultimamente eu tenho tido umas dúvidas mais objetivas que as de sempre. Por exemplo: será que eu devo fazer cursinho? (não é uma merda que eu tenha que decidir isso até no máximo amanhã?) Ou então: eu devo estudar matemática? A sensação que eu tenho é que qualquer opção sem poréns que eu escolher vai me manter insatisfeita. Por exemplo, se eu estudar só computação vou me incomodar por não estudar mecânica, se eu for fazer mecânica vou odiar ter aulas toscas de computação, e se acabar chutando o balde e indo fazer cm (talvez seja uma idéia boa, não sei) eu vou ficar aflita por não estudar nenhum dos dois direito, mas pelo menos eu vou estar estudando biologia pra compensar. (e química também, mas isso é irrelevante).

A longo prazo talvez essas dúvidas sejam esquecidas, porque eu vou ter muito tempo pra fazer uma porção de matérias extras. Mas eu me pergunto se em cinco ou dez anos eu não vou estar aflita por não estar me especializando. Não que isso seja importante agora. Eu evito pensar a longo prazo porque a incerteza é muito grande; prefiro tentar sobreviver por agora, e pensar em prazos de no máximo três anos.

Eu não sei, três anos atrás a idéia de que eu poderia ficar três anos num curso que não me faz nem um pouco feliz era uma coisa vaga e absurda; eu achava que se não gostasse ia perceber em apenas seis meses e que ia sair logo do curso pra fazer outro. Acho que eu esqueci de levar em conta a minha estupidez natural; acho que esqueci que eu ia evitar a qualquer custo tomar uma decisão que pudesse não ser a certa, ou que não escolher é escolher que não. Eu tenho um pouco de mêdo dessa dor nunca mais passar, sabe? Hoje o que me dói e envergonha não é ter feito design, é não ter saído assim que as coisas começaram a dar errado, é ter insistido quando o melhor era desistir; eu e minha absoluta incapacidade de desistir! Eu poderia ter feito tantas coisas, biologia, pedagogia, artes plásticas, física, eu poderia ter conquistao o mundo se eu tivesse me dado o direito de abrir mão. Que raiva agora! Que arrependimento cruel! Quando eu era pequena, eu detestava a tal ponto o arrependimento que decidi não me arrepender mais, e lacrei esse sentimento. Lacrei tão bem que ele só voltou na faculdade, e com força total — de quantas coisas terríveis eu me arrependo! Como dói por dentro! Como anseio por esquecer esses erros, esquecer as dores e viver numa espécie de sonho de que todas as coisas deram mais ou menos certo! Como odeio a dor de ter me causado (de ter lhe causado) tão intenso sofrimento!

Eu queria mesmo estudar matemática e física suficientes para poder estudar computação e engenharia. Não! O que eu queria mesmo era estudar computação e engenharia, a física, a matemática etc são legais mas acho que não são realmente incríveis, são mais como meios para um fim pra mim. Ou melhor, eu não estou tão incrivelmente interessada assim nas partes mais legais delas. Biologia é outra coisa incrívelmente legal, mas acho que já me afastei demais dela para conseguir voltar atrás e ir atrás dela. É isso que eu acho, que não tenho mais todas as opções, agora eu sinto que o que eu tenho é o design, a mecânica, a eletrônica e a programação. Eu sinto dor nesse pensamento, eu me sinto encurralada.

Eu queria fazer só as matérias de programação do bcc, mas acho que isso é uma armadilha, eles têm uma matemática fudida e superespecífica e acho que eles provavelmente usam ela nos programas. Um dos problemas é que cada instituto tem sua própria matemática e sua própria física, eu não vou conseguir realmente estudar cada coisa uma vez só sem perder um monte de coisa. Eu não sei o que fazer em relação a isso. Eu me dei bem com a computação porque as matérias que eu fiz eram bem introdutórias e eu conseguia entender tudo, mas a maior parte das matérias da poli eram ou muito fáceis ou completamente impossíveis de se entender, então eu ainda não sei se eu posso gostar de estudar na poli, na verdade. Eu espero descobrir, mas por outro lado sinto que vou pegar todas as matérias legais e deixar as chatas, o que é uma merda.

Eu queria não fazer cursinho pra ter tempo pra estudar mais as coisas que me interessam. Mas não vou conseguir me decidir a tempo. E o que meus pais vão dizer se eu começar o cursinho e depois desistir no meio depois de pagar três mensalidades? Eu imagino minha família franzindo a testa pra metade das minhas opções, a pior delas seria fazer CM nesse sentido, e também seria um saco passar dois anos sem poder estudar mecânica e eletrônica e computação direito, o que são bons motivos pra não fazer, os motivos pra fazer seriam que como as matérias lá são fudidas talvez eu conseguisse ter que fazer menos matérias depois, economizar umas matérias se pá (e eu poderia estudar biologia) (e, pensando bem, é um lugar legal).

A vurto prazo, eu fico pensando será que eu devo estudar cálculo? Ou álgebra? Ou física? Ou estatística? Todas essas coisas seriam úteis no futuro, e se eu não fizer agora talvez não consiga fazer depois, mas ao mesmo tempo todas dariam muito trabalho. Será que eu devo fazer todas as matérias legais dos cursos que eu quero, pra ver como é? Laboratório de física para engenharia? Estrutura de dados? O que eu faço? Cursinho? Eu acho que vou odiar o cursinho; será que eu desisto e faço só em agosto?

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Notas

Outro dia eu tive uma disputa por notas com o Diogo. Ele disse que a média dele era X e eu falei, "nossa, sua média é pior que a minha". Todo mundo riu porque era pra eu ter uma nota muito baixa com o número de reprovações que eu carrego... Na verdade meu estórico escolar é uma vergonha, mas enfim... Aí eu fui olhar no Jupiter e descobri que minha nota tinha caído do semestre passado pra esse. Mas como, se eu ainda não tinha reprovado nenhuma matéria?? Olhei de novo e vi que eram as notas baixas, 5.0, 5.6, por aí... Por algum motivo eu sempre acho bem mais chato tirar um monte de notas baixas-mas-passa dessas que tirar zero em umas e nove em outras. Desde o começo da faculdade eu tava conseguindo melhorar sempre as minhas notas escolhendo umas matérias pra abandonar na hora do desespêro (no fim eu sou meio covarde na faculdade). No último semestre eu consegui trancar várias matérias pra evitar reprovações, mas mesmo assim fui meio mal e minha média baixou pelo menos meio ponto.

Depois o Diogo falou que a média dele considerando só o cm é bem mais alta, mas eu argumentei que a comparação é inválida porque eu não amo meu curso que nem ele e meu curso não tem game-shark que nem o dele.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Software de Celular é uma #@%$!!

Fiz umas gravações no meu celular e fui eu lá toda feliz tentar passar as gravações pro meu computador. Mas é claro que, como software de celular é uma merda, eu não consigo transferir as gravações pra nenhuma pasta que eu possa acessar do meu computador. Estou procurando uma forma há uma hora e ainda não consegui encontrar, e aceito qualquer ajuda ou sugestão. Esse é o tipo da coisa que me deixa muito irritada.

O problema é que quando você salva qualquer coisa no seu celular o padrão é gravar na memória do celular, que é um buraco escuro de onde nada nunca sai. O que está gravado no chip pode ser passado para outros celulares pelo menos, e o que está no cartão de memória dá pra acessar pelo computador. Se é assim, porque o padrão não é gravar as coisas no cartão de memória?

Também aceito se alguém conhecer um jeito de abrir os arquivos do celular usando outro software, quer dizer, um hack, para que eu possa mexer neles direito. Não tenho coragem de procurar esse tipo de coisa na internet.

Outra possibilidade que me ocorre é transferir para alguém por bluetooth e fazer esse alguém salvar em um lugar mais acessível.

Tinha outra coisa que eu queria dizer, o que era...?

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Você também acha estranho que dos quatro cavaleiros do apocalipse três sejam coisas que matam e o quarto seja a própria morte?

Shortfic - O Cavalo e Seu Menino

de vez em quando eu encontro um ou outro texto legal no meu arquivo. Este por exemplo. Eu imagino que o final de O Cavalo e seu Menino (que é sem dúvida o melhor livro da série) tenha me incomodado muito para que eu escrevesse isso. Eu gosto do final hehe



Ele era um garoto como qualquer outro. Tinha cabelos castanhos, assim como seus olhos, e sua pele era apenas um pouco mais escura de sol que a de seu pai. Como era comum para um garoto da sua idade. Ele era pouco diferente de Corin psicologicamente, e menos ainda em aparência. Gostava de cavalgar, correr nos campos de sua terra, sob o sol, subir nas árvores do pomar e ter aulas de esgrima no pátio do castelo. Gostava de ver a cara de seu pai quando os encontrava cobertos de terra, água, lama, de como ele ria de suas caras sujas e seus cabelos bagunçados. O que havia nele que o tornava tão diferente de qualquer outro garoto de sua idade naquela terra?
Ele era um garoto normal, embora seu povo provavelmente pensasse diferente. O fato de, ainda bebê, ter sido levado para a Calormânia e vivido lá por mais de dez anos não invalidava essa normalidade. Muito menos o fato de ser o príncipe herdeiro da Arquelândia. Ou o de ter acabado de concretizar uma profecia estranha sobre ele derrubar o rei da Calormânia, ou algo assim. Ele não se sentia especial por nada disso. Aliás, ele não queria ser especial. Queria apenas viver aventuras, correr pelos campos, subir nas árvores, ouvir as canções de Nárnia, estar nas festas da Arquelândia, dançando sob o céu de verão. Queria ser apenas Shasta, o humilde garoto que um dia montou um cavalo falante e enfrentou o leão. Não tinha necessidade de viver naquele luxo de príncipe, chamado por um nome que ele ainda não reconhecia como seu. Ele não queria ser Cor, o filho perdido do rei, o salvador da pátria. Ele não precisava daquilo. Shasta bastava.
O garoto suspirou, olhando perdidamente para os campos dezenas de metros abaixo. Talvez, pensou, desanimado, talvez ele fosse realmente mais calormano que arquelão. Claro, se ele não tivesse sido levado de seu país antes do que podia se lembrar por causa de uma maldita profecia, provavelmente seria como Corin, seu irmão. Um bom espadachim, um guerreiro, que montava com graça e firmeza, e ainda que muito jovem para ser chamado homem, não fazia feio em uma batalha de verdade. Shasta não era nada daquilo. Quando chegara à Arquelândia, desprevenido, mal conseguia segurar uma espada, e quase fora morto por tentar acompanhar Corin na batalha contra o rei Rabadash da Calormânia. Sorrindo, ele se lembrou de Rabadash preso no gancho do muro, Rabadash virando burro, a solenidade de Aslam, o Leão, ao contar-lhes toda uma série de verdades irrefutáveis, Aslam dizendo-lhe que nenhum dos leões da viagem faria mal a eles, pois todos eram o mesmo. Fora uma grande aventura. Sorrindo ainda mais, ele se lembrava de como conhecera Bri, das aulas de hipismo, dos tombos, de Huin e Aravis, a tarcaína que o acompanhara para fora da Calormânia, de quando fora confundido com Corin, as conversas do rei Edmundo e da rainha Susana de Nárnia, dos animais falante... Ele tinha que admitir que foram bons tempos aqueles. Para algumas pessoas, a aventura pode ser uma maldição. Para Shasta, fora uma bênção, um privilégio. Mil vezes melhor que viver com [Arsheesh], trabalhando muito e vivendo muito pouco.
Mas o que mais o irritava era sem dúvida ser considerado tão diferente dos outros. Era ridículo, do seu ponto de vista. Ele era uma garoto normal. Tinha os mesmos problemas que a maioria dos meninos da sua idade. As mesmas dificuldades e desafios. As mesmas alegrias e tristezas. Os mesmos amores platônicos, o mesmo desespero crítico, a mesma mania de auto-flagelação das pessoas que cometem erros. Talvez fosse um pouco ignorante, não tivesse grande habillidade com as armas da Arquelândia, se confundisse nos costumes e coisas afins. Mas, para todos os efeitos, era tão normal quanto qualquer príncipe herdeiro de um pequeno mas alegre reino poderia ser.
No final das contas, o que realmente importava para ele era ignorado. Os valores, os sentimentos, toda a verdadeira face de uma pessoa, era esquecido quando o comparavam com o resto do mundo. O que contava era seu passado. Só isso. Que diferença fazia então tudo o que ele era se o importante mesmo era o que ele fora? Ele poderia ter se tornado um garoto orgulhoso, cruel, que jogava na cara das pessoas tudo o que pensava mal delas, e o que não pensava, mal-educado, relaxado, egocêntrico. Quem sabe assim as pessoas percebessem a diferença? Entre ser e ter sido?
Suspirando, Shasta ainda observava a bela, mas vazia de significado, vista que tinha do alto da torre principal. Subira ali não para ver a bela cidade em que nascera, as pessoas da Arquelândia levando suas vidas felizes, e se sentir bem com isso. Seria mais provável que, ao contrário, subisse ali para poder se lacerar mais fácil e eficientemente. Doía-lhe pensar que as pessoas felizes lá embaixo o consideravam tão diferente. Era quase como se não fosse humano. Era quase como se não fosse alguém. Ser apenas mais um no mundo inteiro podia parecer triste para algumas pessoas, mas ser diferente dos outros todos era certamente mais desesperador, no mínimo. O desespero consistia em não poder falar como uma pessoa normal, por não ser ouvido como uma.
Mas também não subira ali para observar as pessoas que quase podia dizer que odiava e sentir-se mal. Seus motivos eram menos nobres. E mesmo refletir parecia ridículo na sua situação. Ele subira ali porque não pudera sair da cidade sem que o vissem. E porque queria observar o que havia além dela. As florestas, os rios, as colinas, as montanhas ao longe. A natureza parecia mais bonita sem as casas e ruas cercando-a.

Estilhaços do meu Único Tremor

It may not be that I don't love this path, but only that I cannot stand the thought of suffering another defeat — my heart is blank, weakened by the many times it has been beaten. To hold on enduring what has only given me honorless pain, even if I deserved it, would be to deny the instinct of survival — and therefore to spit in Nature's eyes. I will go, probably, but I won't go quietly. I don't care where to, if I can just get out of here.



Quando estávamos andando pelo bairro apagado e fantasmagórico sob a lua cheia, perguntou-me porque eu via tanta beleza nas árvores; eu respondi que que elas me agradavam, e só. Mas ontem, no apartamento asseado e sem espaço para fantasmas, teria dado meu sangue por uma árvore. Abri a janela apenas para olhá-la, e quase chorei ao ver seus galhos se bifurcando e ondulando para dentro de pequenas nuvens de folhas!

O Diogo diz que a gente não deve escrever com palavras épicas, porque isso deixa tudo meio ridículo. Mas de que outra forma eu poderia transmitir o que eu estou sentindo, que não se passa através de simples palavras? Naquela hora, meu coração se apertou ao ver os galhos da árvore, mais ou menos como ele se aperta ao ver você, e eu percebi que eu não quereria viver num mundo que não tivesse árvores. Se todas as árvores morressem, se eu não tivesse nenhuma forma de trazê-las de volta, eu provavelmente me mataria. Eu realmente não sei se a morte pode ser interessante, eu sou o tipo de pessoas que gostaria de viver para sempre, mas de que me valeria viver para sempre sem árvores? Naquela hora, eu entendi que árvores são a coisa mais importante.

Que tipo de pessoa sou eu se eu vivo sem lutar por aquilo que é mais importante? Matar para comer não me incomoda, matar insetos sem motivo me causa um certo desprezo frio que em geral eu ignoro, matar pessoas me provoca nojo e uma certa esperaça compassiva dolorosa; matar árvores me provoca ódio, puro, simples e inútil. No meu coração uma pessoa que mata qualquer ser vivo e não sente nada em relação a isso é uma espécie de psicopata. Eu suspeito que já tenha me afastado de uma pessoa inconscientemente depois que ela confessou ter matado um gato na inocência da crueldade infantil. A morte, mesmo que de um mosquito, é uma coisa séria. A morte de uma árvore é um pecado tão grande que apenas a vida de outras árvores podem pagar aquela que foi tomada. A pessoa que corta árvores, assim como a pessoa que mata os bois, precisa ter consciência de que seu trabalho é assunto de Deus.

E digo Deus mesmo, para bater de frente com o ateísmo de vocês, porque pra mim a vida é uma coisa tão sagrada que se torna fútil negar a religiosidade. Que me importa que eu não acredite em um velho barbudo que nos dá leis e punições, se eu acredito na vontade intrínseca das coisas, na diferença entre o certo e o errado, no sagrado? Se eu não teria coragem de derrubar uma árvore grande nem que fosse para construir minha casa no lugar?

Eu vivo perguntando às pessoas se elas acham mais certo fazer o que eu gosto, fazer o que eu faço bem ou fazer o que eu acho importante. Em geral elas dizem que eu devo fazer o que eu gosto. Ultimamente eu tenho me perguntado se eu poderia ser feliz fazendo o que eu não considero importante. Eu não estou feliz agora, mas agora eu não estou fazendo nada. Como eu posso saber como eu posso fazer o que é importante?

Nos últimos meses o futuro tem me parecido cada vez mais negro.