quarta-feira, 25 de novembro de 2009

O Primeiro Dragão de Roder - versão da Velha



Roder não era apenas um guerreiro corajoso, hábil e incansável. Ele também era jovem e bonito. Mal chegou à vila, todas as moças se apaixonaram por ele. Mas Roder não estava interessado em garotas; estava interessado em monstros. Queria a emoção da batalha e a aclamação de uma vitória! Assim, a única garota que chamou sua atenção foi a que conseguiu ser capturada pelo dragão das redondezas. Chamava-se Fælyn, tinha quinze anos e tudo o que sabia fazer era cantar e encantar os garotos, mas o que queria mesmo era ser resgatada por um grande herói. Roder veio assim que ouviu a história pela primeira vez. Trazia só sua espada e sua coragem. Entrou na caverna sozinho, e percorreu inúmeras câmaras antes de encontrar a câmara do tesouro, onde a donzela estava amarrada com correntes de ouro num trono cravejado de rubis. Roder não reparou nos rubis nem na beleza da garota, porque não tinha olhos capazes de enxergar belezas, mas viu uma donzela em perigo e jurou que iria salvá-la e punir seu raptor, o dragão. Primeiro quebrou as correntes de ouro, depois gritou pelos túneis da caverna clamando o desafio do dragão. O dragão não veio. Roder era paciente e esperou três dias na sala do tesouro, gritando e chamando. Não passaram fome porque entre os tesouros do dragão havia fruteiras que nunca se esvaziavam e taças que estavam sempre cheias, e dormiram bem sobre cobertores trançados com fios de ouro. Fælyn era uma moça astuta e durante todo o primeiro dia reuniu tesouros e provisões para sair da caverna e viver ricamente no mundo de fora. Dizia que iriam viver em um palácio imenso, viajariam em elefantes, teriam panteras e tigres num grande jardim, e todos os príncipes viriam jantar em seus banquetes. Como o herói ignorasse suas fantasias, a donzela perdeu o ânimo, deixou de acreditar na alegria do seu imenso sonho, e no segundo dia tentava atrai-lo para fora da caverna com outra proposta: se estabeleceriam numa vila nas montanhas, teriam terras para cultivar e protager, defenderiam a vila de ataques de monstros e dragões e seriam recompensados com o amor dos vilãos e com fartos banquetes. Roder, na sua obcessão pelo inimigo que não aparecia, não dava ouvidos às fantasias da donzela. No terceiro dia, Fælyn decidira que iria embora sozinha, com o ouro que pudesse carregar, e procuraria um homem mais sensato, junto ao qual pudesse comprar terrar, construir uma casa e viver em paz e conforto, rodeada de servos. Foi só quando já saía da imensa galeria que se deu conta de que o tesouro que realmente a atraía não era o ouro, nem as pedras preciosas, mas o homem destemido que viera resgatá-la. Então largou o ouro e as pedras e chamou-o outra vez, agora dizendo que iriam juntos resgatar donzelas e lutar contra monstros, que juntos salvariam vilas e reinos, que todo o mundo conheceria Roder o matador de dragões, que ela contaria como ele a salvara das garras do monstro cruel, e que ele ainda a salvaria muitas outras vezes. A isso Roder finalmente cedeu. A imagem dos muitos dragões que ainda ia enfrentar o fez esquecer momentaneamente o que não tinha enfrentado, e ele aceitou sair acompanhado da moça. Os dois estavam felizes com a perspectiva de sua vida futura. Saíram da caverna fazendo planos e discutindo rotas. Roder se animara com a visão de seu futuro, e agora contava incríveis histórias de todos os feitos que pretendia realizar. Porém, mal chegaram à vila, ouviu-se um urro bestial vindo da cova atrás deles.
O sonho de Roder e Fælyn não era tão forte quanto aquele urro.
— Voltarei para te buscar, — ele disse, e então mergulhou novamente na caverna.
Fælyn esperou por ele, aqui onde nós estamos, por dias, semanas, meses. O herói não voltou. As pessoas na cidade diziam que ele havia derrotado o dragão, e que partira para enfrentar outro. Mas algumas poucas pessoas, nesta vila ou em outras, inclusive a própria donzela, sabiam que isso era mentira. Algumas pessoas, notadamente a donzela, sabiam que naquela caverna não havia um dragão, não havia um Inimigo: havia apenas uma garota chamada Fælyn.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Desânimo

Mas não é só isso. Quer dizer, não é só a frustração dos trabalhos que não dão mais prazer, das aulas em que não se faz nada nem se aprende, da rotina que gira em falso, que não significa nada, nem a dificuldade filha da puta de se ter amigos que no mínimo apareçam numa festa de aniversário (uma vez por ano, porra, com garantia de diversão), nem a resistência interna cada vez maior de se considerar uma designer que é cada vez mais parecida com dor, nem apenas também o horário noturno que que torna o sacrifício muito maior. É tudo isso, sempre foi, ainda é, mas eu sei agora que é algo mais, algo que vem não apenas da vontade de realizar os sonhos de infância mas também do outro lado, do lado que quer vencer, do lado que quer chegar ao fim de alguma coisa, que não agüenta mais estar alheio a tudo isso. Não é só isso — é que agora cada vez que eu vejo uma pessoa feliz com suas conquistas, uma pessoa se formando, uma pessoa fazendo iniciação, uma pessoa estudando ou trabalhando (na verdade, mesmo se a pessoa não estiver feliz) eu sinto uma dor no peito, um desejo de ser assim também, de estudar, de trabalhar, de ir em frente, de fazer grandes coisas.

Mas eu não posso ser assim na FAU. Eu não sei ser assim. Eu não posso trabalhar sozinha e eu também não tenho o pique para acompanhar o ritmo do resto da turma. Eu não posso vencer na FAU. Eu nunca vou vencer. Eu continuo me perguntando por que eu escolhi justamente um dos poucos cursos que ia me fazer me sentir amarrada ao mesmo tempo que ofereceria os maiores de todos os desafios. Não há como eu honestamente acreditar que eu vou conseguir me formar nesse curso. Mesmo se eu conseguisse fazer umas sete ou oito matérias por semestre (sem optativas) eu me formaria em no mínimo seis anos. Ou talvez o mínimo, contando os conflitos de horário e whatnot, já tenha chegado em sete. E aí, mesmo me esforçando ao máximo ou desistindo de todas as optativas, eu teria que pedir por favor pra comissão não me jubilar. Mas eu não quero mais me esforçar ao máximo para aprender quase nada, eu não quero ter que convencer a comissão de nada. Eu quero estudar mecânica, programação, didática, arte, história; eu quero conseguir tirar um sentido disso tudo. O design na verdade faz sentido. O que não faz sentido é este curso de design.

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PS.:
Meus sonhos de infância são:
. viver na selva
. ser um animal selvagem
. lutar muito bem
. construir brinquedos
. fazer brinquedos de controle remoto
. escrever livros
. fazer histórias em quadrinhos
. fazer jogos de videogame
. saber muitas coisas
. ensinar
. velejar
. viajar
. viver com muitos bichos e muitas plantas
. andar a cavalo
. jogar bola bem

Acho que o design é uma boa forma de amarrar tudo, sem problemas.
Bem, o problema é que eu não tenho nada pra amarrar.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

buuh

Eu tentei colocar aqueles marcadorezinhos no fim do post e não consegui. Ou pelo menos eu não tô vendo. Que droga.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Cinco Músicas dos Beatles

I am the Walrus
A Day in the Life
Strawberry Fields
While My Guitar Gently Weeps
Come Togheter

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Resumindo

Talvez eu te deva uma explicação sobre o que escrevi antes, Ugo. Talvez eu me deva uma promessa de voltar a Escrever.

Fuck-it. Vou passar na seção de graduação e trancar metade das minhas matérias. Se eu parar de mentir pra mim mesma e pros meus colegas, atlvez eu ainda tenha uma chance.

Digam "longas noites e belos dias" pra mim.
Me digam que um dia eu terei dias longos e noites belas. Um dia...


(quando eu escrevo este tipo de post, eu realmente me pergunto porque alguém leria)

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Vício

Ah, não que eu seja digna de flara qualquer porra, mas eu vou tentar.

Em primeiro lugar, é uma merda se viciar em coisas que são necessárias pra sua sobrevivência cultural e social. Eu detesto me viciar em livros, quadrinhos, histórias. Entretanto não posso evitar. Será que eu detesto a minha vida tanto assim que a ficção seja realmente a única coisa que eu faço que faz sentido? Tive a sensação recentemente que tinha acabado de acabar um melhor-ano pra mim. Um ano de amor, aventura e descoberta. Um ano de Verdade. Mas agora só restam migalhas, molho esparramado na toalha de mesa, copinhos de plástico amassados, essa merda toda. Um salão de festas vazio, é o que estou dizendo. Cacos de vidro em algum lugar.

Muito pouco e estamos no Inferno de novo. É muito fácil se tornar um tolo.

Em segundo lugar, eu fico pensando se eu devia parar de ler a droga do blog do bruno porque cada vez que eu leio eu sinto que eu fico verdadeiramente com raiva. Me lembra um pouco o que aconteceu quando eu fui amiga (a parte mais dopada de mim quase disse ka-tet) do tu, eu sentia cada vez mais raiva dele, raiva da sua dor, raiva por sob um oceano de amor, sim, mas raiva nonetheless. A diferença entre os dois, provavelmente, é a idade. E que o bruno não está apaixonado. Parte de mim geme porque eu também não tenho nenhuma resposta, nem pra mim. Aliás

acho que vocês são amigos bastante bons. Também acho que ninguém ousa me mostrar o pior dentro de si.

Um me disse o pior, ié, me rejeitou como um cara rejeita uma cadela vadia, e eu gani em resposta um vômito de todas as minhas ânsias. MAS O mundo é um lugar ridículo! Nada tem importância! Nossa dor virou sopa, nossas questões existenciais foram simplesmente desprezadas! O mundo real é completamente covarde!

Eu me lembro de ter dito pra ele (naquele dia que fomos passear na chuva, vocês dizem) algo como não seja ridículo! porque eu e ele partilhamos o khef, e não há segredos dentro do ka-tet (eu desisti de lutar contra essas palavras - maldito stephen king). "Eu devia ter percebido que você tinha um problema com segredos", foi a resposta. (vai se fuder, respondeu minha mente, subitamente revelada sua máxima covardia) Essa conversa ainda me devora por dentro. Por isso a necessidade estúpida de revelá-la.

Mas sabe, também estou sozinha. Isso dói por dentro, e eu não tenho vontade nenhuma de continuar em frente. Foda-se a minha vida. Só mais quinze páginas. Só mais um capítulo. Não consigo pensar em nada enquanto espero chegar em casa e pegar o próximo livro. Pensando bem, que bom, não quero mais pensar em nada mesmo.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Resposta

Eu não quero ser você.

Por que não?

Porque dói. É só isso. Me pesa sobre os ombros. Por que eu tenho que ser algo que não me é naturalmente? Porque seguir em frente tem que ser um sofrimento? Eu quero poder andar com os meus próprios pés.

Mas eu não sou Dor. Eu sou o Mundo. Eu sou o Humano dentro de você. Eu quero ser você. Você é poder, você me alimenta, me permite ir em frente um passo de cada vez, me permite resistir às interpéries. Você é a minha esperança. Se você desistir de mim, eu morro. Não, não morro, pior: eu perco. Se você resistir a mim, eu serei derrotada. Você não precisa sofrer. Você só precisa ser forte. Forte para ag"uentar as infindáveis batalhas que temos pela frente. Se formor fortes e rápidas, venceremos uma guerra! Sairemos vitoriosas, eu prometo. Nós podemos ser grandes. Nós podemos fazer tudo. Nós podemos inclusive ser as melhores de todas. Nós só precisamos persistir. Você precisa persistir. Precisa ter disciplina, ter força de vontade, ter coragem. E você vai se tornar Humana no final. No final, sem dúvida você fará parte dessa massa. Você não precisa estar sozinha. Eu não preciso estar sozinha. Vamos vencer!

Mas eu não quero vencer. Vencer o quê? Quem é o inimigo? Eu não estou sozinha — eu tenho amigos. Eu tenho quem morreria por mim, se eu precisasse. Eu tenho quem se divertiria comigo. Eu tenho amigos.

Mas não tem quem possa contar com você. Isso é o que eu posso te dar. Confiança. Reconhecimento. Eu também só quero ter bons amigos, como você. Em verdade eu te invejo. Eu invejo suas amizades, suas felicidades. Eu também só quero ser feliz. Eu preciso da sua força para ser feliz. Eu preciso da sua vida. Você poderia me permitir chegar às alturas, chegar à vitória final sobre as nossas fraquezas. Entretanto você prefere ser fraca. Fraca, incompleta e pouco confiável. É isso o que você é!

Não! Eu sou Forte. Se apenas eu não quiser vencer, eu posso ser forte. Você quer sugar minha vida para dentro de você, transformar minha magia em técnica, minha imaginação em criatividade, mas eu não preciso deixar. Eu posso morrer se eu quiser, eu posso pular no poço do esquecimento, eu posso abandonar você, e você morre, mas eu não preciso deixar você me matar. Eu não vou virar mão de obra para a sua guerra pelo mundo. Eu tenho planostambém! Eu posso ser Pequena. Se você me deixasse, eu chegaria a um sucesso próprio pelas minhas mãos. Mas você não quer só felicidade, você quer sentar na pilha de ossos, você quer reinar sobre a minha libernade. Não. Eu quero mais que ser escrava das suas ambições. A dor que eu sinto toda vez que você me monta é muito maior que a satisfação que vem depois. Nunca vem verdadeira satisfação depois! Você me diz que estamos construindo algo, mas estamos construindo só a sua pilha de ossos. São os meus ossos, os ossos dos meus sonhos. Você pode travar suas batalhas em outro lugar.

Não é uma pilha de ossos, é uma pilha de trabalhos. Os deveres que você quer esquecer é que fazem a sua pessoa. Eu quero montar um portfólio, uma cara com que se mostrar ao mundo. Ou vão dizer: aí vai aquela que nunca fez nada. Eu quero fazer alguma coisa, não é tão horrível. Eu quero fazer uma reputação também.

Foda-se a sua reputação. Vou me jogar num buraco e fazer os meus próprios trabalhos. Eu posso esquecer de você, dos deveres, até dos amigos, e aí Eu vou poder fazer alguma coisa, como você diz. Longe das suas guerras, eu posso construir um mundo de verdade.

Você precisa dos amigos, e eles nunca te acompanhariam aonde você quer ir. Admita, você precisa de mim. Precisa de mim porque eu posso te dar esse sabor da construção sem que você tenha que abandonar seus amigos. Tudo o que eu preciso é que você abandone a sua liberdade. Que prostitua sua alma sim, seus desejos e tudo mais, mas você certamente consegue lidar com isso. Afinal a magia não é tudo — o que se faz em vida é que realmente determina o seu destino.

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Estou lendo Lirael... : será que eu posso simplesmente não ser uma Clayr?

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Ei!!!

Hoje eu entrei no Casa de Algodão e descobri que o cara misterioso havia feito um comentário que comentava o meu comentário. Aquele comentário me deixou extremamente embaraçada! Que direito tinha ele de comentar tão abrintemente meu comentário? Se eu comento, e você comenta o que eu comento, então você me comenta. Você me come; você come meu comentário. Você me engole. Eu viro matéria prima, e você, o argilista. Eu viro títere. Eu viro massa amorfa. Eu deixo de ser gente para virar personagem. No final, como sempre, tudo vira literatura e música.

/* NOTA: Será que as pessoas se sentem assim massaamorfa quando eu falosobre elas neste blog? */

Acho que me senti tão usada e falada porque de fato aquele comentário que eu tinha escrito tinha sido especialmente emotivo. Acho que eu estava de TPM == hormônios causando e meio emocionada por estar saindo do estágio do qual eu gostava e de qualquer forma os escritos, aliás, os pensamentos do Bruno de modo geral sempre me revoltam. E quando as pessoas usam suas emoções pra construir seu argumento você naturalmente se sente usado, ou invadido. Afinal:

Como é possível que alguém se aproprie das minhas emoções? Se alguém se apropria delas, elas deixam de ser minhas. Mas que sentido têm minhas emoções se elas não são pessoalmente minhas? Isso quer dizer que elas não são pessoais — então, minhas emoções são gerais, são só um indício de que eu sou como todos os outros, não são um indício da minha individualidade! Você usa minhas emoções que são criadas pelo meu próprio âmago e prova que elas são a argila da população! O que tenho de mais íntimo é o que compõe igualmente toda a humanidade! Então, eu não sou eu por causa das minhas emoções. Então, se não sou o que sinto, o que sou eu? Sou o que penso? Sou como vejo? Sou o ver-através-dos-olhos? Mais que isso, se as emoções não são minhas, então nossa amizade, que é um sentimento tanto quanto uma relação, também não é minha. Então, eu não sou eu — porque não posso ser eu se não sou minhas amizades. Então eu inteira sou personagem, sou massa morfa, sou tipo. Isso é violento porque me descaracteriza. Você me descaracteriza toda vez que me compreende? Perceber o que estou sentindo é roubar de mim o sentimento? Viver em conjunto, então, que só é possível pela compreensão mútua das emoções, viver em conjunto é uma destruição sistemática da individualidade? Não, não é isso ainda. Minha revolta é porque quem falou de mim não me conhece (não importa se a pessoa real conhece; quem falou de mim era um personagem), e se não me conhece não compreende minhas emoções. Eu sou tipo porque sou a partir da fala de quem só conhece de mim o tipo. Se você não me conhece, se não me emociona, vê em mim as emoções listadas na sua compreensão vaga e sistêmica do rol das emoções humanas. As emoções humanas da sua lista servem para compôr a sua compreensão sistêmica dos humanos, são o barro ou a massa da sua concepção do humano, mas não são para absorver a compreensão das pessoas com quem você convive, as pessoas que você ama, as pessoas que são através das suas emoções. Assim através de você eu sou só uma concepção genérica do humano. Toda vez que um desconhecido fala do meu eu real, que só é conhecível através do contato real, ou melhor, toda vez que alguém me descreve a partir da generalização, eu me torno essa coisa barro, tipo, rosto inexpressivo do desconhecido sem rosto, elemento da massa.

Todas as pessoas têm uma individualidade, cuja complexidade esperamos que seja não-indexável. Toda vez que falamos sobre o desconhecido, estamos desconhecendo ele.

E desconhecer uma pessoa é perder a oportunidade de conhecê-la. A princípio. Porque também é, sempre, uma espécie de contato, capaz de criar novas interações.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Sobre o sonho que eu mencionei no twitter (e no blog do Bruno?)

O curioso foi que todo o sonho tinha, sim, um sentido geral. Assim: a espada, o projeto e a viagem são faces diferentes da mesma pulsão que é a luta pelo sentido da própria individualidade. O Dalprá é um símbolo, o Poro é um símbolo, o Renato e o Bruno são símbolos.

Nós estávamos sentados no escuro ao redor da mesa numa festa aqui em casa, e eu havia sentado na mesa dos amigos da Talita. Eu disse alguma coisa, eu havia feito alguma coisa e disse que o Dalprá me decapitaria por causa disso. O amigo dele (Homem Preto(cabelo curto, olhos, roupas)(pele bastante clara)) disse que eu entendera tudo errado, que ele não era o tipo de gente que arrancaria cabeças. A mesa estava na FAU, era noite e estava tudo apagado, a mesa ficava na cantina vazia e no balcão mais amigos da Talita conversavam enquanto o cara montava um rádio. Eles tinham equipamentos e logo descobri que estavam montando uma rádio (pirata) que era voltada para os jogadores de RPG. Me pareceu uma idéia fantástica! Mas então mais amigos meus chegaram, aconteceram coisas que eu não entendi direito, muitas coisas, tudo mudou, cresceu, sei lá. Ninguém agrediu ninguém, nem com motivo.

O plano era o seguinte: vinte pessoas, todas muito amigas, viajariam para outra cidade e se estabeleceriam lá, todas na mesma vizinhança, talvez até na mesma casa. Ficaríamos lá dois, três meses, trabalhando, pagando o aluguel, vivendo como as pessoas de lá, fazendo bicos, e então um belo dia levantaríamos acampamemto, todos os vinte, e iríamos para a próxima cidade. Repeat.

Eu quero muito:
perder o mêdo dessa espada que me ameaça
poder efetivamente te conhecer, depois do mêdo
assumir a tara e concretizar um projeto no que me empolga
assumir o amor e construir uma vida junto com meus amigos
expôr-nos ao risco (a partir daqui somos todos-um) e viver coisas novas
conhecer cada mundo com intensidade e entrega

É muito importante pra mim esse lance de conhecer a fundo um modo de viver a princípio desconhecido. Entrar na vida da cidade e viver como parte integrante por algum tempo. Ao mesmo tempo meus amigos são indispensáveis. Não é a primeira vez que eu sonho com algo desse tipo, mas só agora sou capaz de fazer essa interpretação. Antes os ônibus de viagem eram um elemento intrigante dos meus sonhos. Os sonhos eram mais investigativos. Os signos estavam mais confundidos. Ainda aqui os signos estão misturados. Qual a relação entre espada, Dalprá e RPG? (na verdade, eu sei qual a relação, mas não sei se posso admitir). Principalmente, qual a relação entre a viagem, a amizade, e o cenário de mêdo e insegurança que veio antes? E porque eu levava o Renato na viagem?

Na verdade essas perguntas não são difíceis de se responder, eu só me pergunto se as respostas óbvias dizem toda a verdade, ou se os símbolos estão um pouco mais pro fundo do que queremos admitir.

Ontem na aula Renato disse que como eu estava associada ao número 16 ele achava que eu devia ter importância pra vida dele. Eu sei que ele tem uma certa importância na minha vida. Por isso mesmo eu gostaria de carregá-lo com o resto do meu clã, mas. Há sempre um mas. O mas é a espada? Não, a espada é o mêdo puro, o mêdo que vem de algum lugar anterior, como o desconhecido. Se eu te conhecer, você não vai mais querer me matar. Mas e se eu não for o tipo de pessoa de quem você é capaz de gostar? É essa a questão no fundo, Não é? Quando conhecemos pessoas novas, corremos sempre o risco de sermos pessoas incrivelmente chatas.

Tive um sonho outro dia no qual eu encontrava a casa de uma Bruxa. Para que eu pudesse entrar, ela abria duas portas; uma invisível. Quando passava pela porta invisível podia ver o interior verdadeiro da casa, no qual as paredes haviam sido pintadas de outra cor. A casa era muito interessante e aconchegante e a velha era uma pessoa deliciosa, diria minha mãe. Do lado de fora dois moleques tentavam encontrar a entrada secreta na casa. Olhei pela porta e podia ver os olhos deles através das persianas. Um deles era um Poro muito jovem (mas com o cabelo que ele tem hoje). Me assustei (traição?) e me escondi das vistas deles. "Não se preocupe", disse a velha, "que eles não podem ver através da parede invisível." Nós estávamos dentro da casa invísivel e por isso éramos invisíveis para eles. Mesmo assim os deixamos entrar, e eles se sentaram para comer bolo de nozes e canela conosco. Qual o sentido de se ter uma casa invisível se você deixa todo mundo entrar?

Uma vez sonhei com o Bruno, foi uma coisa assim: nós ficávamos nos encarando. Foi um sonho muito longo, muita passagem de tempo, e só um olhar fixo. Acho que nossa amizade é um pouco assim. Menos perigosa que com o Dalprá ou o Renato, menos inquietante que com o Poro, mas, de certa forma, mais exigente.

Relatório de resultados do estágio na Unna Comunicação

Trabalhar com o Thio e o Fê me tornou mais "zen", como as pessoas dizem. Isso de ter um local de trabalho, um lugar específico pra fazer só aquilo, onde não dá pra fazer mais nada e justamente por isso eu posso não ter que fazer mais nada. Eu atrasei trabalhos, desisti de trabalhos e perdi muitas horas de sono, muito dinheiro (é claro que o pagamento compensou) e muito tempo da minha vida em ônibus, ou andando debaixo do sol, ou esperando o computador trabalhar, mas no final acho que o balanço é positivo, acho que eu sou uma pessoa mais feliz por ter vivido os últimos quarenta e quatro dias, por ter ido lá umas 18 vezes, por pegar todos aqueles ônibus, andar todas aquelas quadras, me perder, passar pela rua Balthazar, pela Baluarte, pela Avenida Pavão, pelas calçadas reformando e todos aqueles faróis.
Aprendi a mexer no Mac, aliás aprendi a detestar o Mac, aprendi a brincar no Illustrator, a assumir responsabilidade, a pedir ajuda, a viver um espaço recluso, com poucas pessoas, a conviver com quem é diferente de mim, a rir, a estar, a sair no horário, a trabalhar ininterruptamente até a hora de sair.

Foi muito divertido estar lá. Muito tranqüilo. E o Thio e o Fê foram muito legais comigo (ou talvez eles só sejam pessoas muito legais mesmo). Em muitos momentos eu até pensei que poderia trabalhar por muito tempo lá. Pena que é tão longe. E tão difícil chegar lá. E eu ando tão sem tempo. É uma pena mesmo.

Hoje quando estávamos saindo para o almoço eu me dei conta de que esse estágio foi a coisa mais desanuviante que eu fiz no último semestre. Que trabalhar ali seria mil vezes mais agradável do que estudar. Mas, ao mesmo tempo, tão menos futuro! Acho que é isso que a Universidade te dá: uma crença de que existe um futuro, um futuro radiante, no qual nós somos cada vez mais. Será que é verdade?

Novo post

Na verdade é só, tipo, que faz muito tempo que eu não escrevo. Eu sinto falta. Tenho pensado várias coisas ultimamente. Não sei bem o que dizer.

domingo, 27 de setembro de 2009

Alarara

Você me disse que era bom
Eu acreditei, por que não?
Vamos voar, vamos nos despedaçar
quando cairmos nos nossos braços
nos nossos passos vamos viajar
vamos desafiar a concorrência
Você me disse que valia a pena
agora eu só quero ir embora
vamos embora
Meus desejos são: ficar pra trás,
perder o trem e esperar na chuva
e o próximo nunca chegar
meus desejos são sofrer um acidente
pra ter uma desculpa pra parar
Você me disse que eu ia ser forte
agora que eu sou forte eu não quero lutar
dinheiro, sucesso, tudo isso é mentira
carreira, currículo, tudo isso é mentira
Eu tenho gatos manhosos e cães independentes
Aqueles que não estudam passam no vestibular
Se estressar pra quê? Tudo isso é mentira
Você vai vencer na vida, eu vou ficar pra viver
Você vai ser feliz, você vai ser genial
eu vou ser uma pessoa normal
vou viver cada dia do jeito que eu quiser
Vou viver o máximo que eu puder
no fim do dia a gente se encontra
Você diz que sente falta de mim
Mas eu que não sou urgente
Eu que não consto no currículo
Eu não sou uma prioridade
Eu sou secundária pra você
Você que vai ser uma profissional
Você que vai pagar os seus estudos
Você que não vê que nada disso é motivo pra esquecer
Você que quer ser o SuperHomem, você que quer ser Deus!
De vez em quando até esqueço de você.

sábado, 26 de setembro de 2009

Liberdade e Libertação II

— Eu te odeio
— Eu sei que você me ama
— Eu sou mau
— Não, você é bom

Eu não sei a resposta para minha pergunta

Libertação passa sempre pela destruição do eu? Ou é a destruição das coisas acessórias ao eu? Ou a libertação é justamente esse movimento de negar, de ultrapassar os limites impostos da vida mas também do ego? O eu é um limite, o eu pode ser preservado ou destruído, o meu eu está integrado a essa barreira, essa rede indissociável que me amarra, que me define, que me aprisiona. Liberdade é a ausência do eu?

Como você reage àquele beijo? Grita, se enfurece, agride, bate, machuca? Ou o mundo pára por um instante, aquele tipo de instante em que todas as lágrimas misteriosamente convertem-se em todos os sonhos reais? Abandona a dor e a raiva? Entrega-se, abandona-se, liberta-se da derrota mas também perde qualquer chance de vitória, isto é, se é que há um caminho para a vitória? Se é que há verdade? Será que há? Será que não é tudo uma rede de ilusões, de imagens, uma rede de apropriações que concebemos, que construímos? Imaginar é definir-se, falar é definir; As coisas sequer existem antes que as chamemos? Existe qualquer coisa anterior à nossa história? A narrativa não é o que define nossa trajetória? E se sim, então somos apenas personagens, que fazem isto ou aquilo dependendo basicamente do que aconteceu antes; tudo que é causa tem efeito, tudo o que é efeito tem causa? Mas então, o que é o eu? Existe eu? Ou somos apenas um apanhado de memórias, uma construção a partir de acontecimentos, somos personagens bem construídos mas certamente desprovidos de alma? Temos eu? Somos? Nesse caso libertar-se não é justamente fazer o inesperado? Agir como um louco? A liberdade não é em último caso a loucura? Então, que relevância têm as situações em que estamos? Qual a importância da forma como vivemos? Um personagem é melhor ou pior que o outro? Mas se nos libertamos das memórias, se largamos a máscara, então o que somos, e que diferença faz o que fazemos? Existe qualquer princípio que reja nossa verdade? Existe qualquer sentido para se dar à liberdade?

Liberdade e Libertação

Eu não sei mais o que estou fazendo.

Eu não sei mais o que estou fazendo, gritou Will puxando a espada e e batendo na mesa, Não tenho mais controle sobre nada, não sei mais para onde estamos indo! Então liberdade é isso, essa deserção, essa vida que se parece tanto com Morte?! — Júlia, Lúcia e Pedro olhavam pra ele assustados, os corações fracos para tanta ferocidade, as mentes nervosas diante do desespero — Não tenho mais parâmetros, metas, formas de saber se vou para frente ou para o lado; como posso imaginar se estou fazendo o Certo ou o Errado; como posso imaginar se estamos vencendo ou sendo mais uma vez derrotados, disse Will, chutando a cadeira, Me sinto tão derrotado agora, a cada nova vitória, como se o mar da derrota tivesse engolido nossa frágil corrente de vitória.

Estou tentando me libertar?

Estamos nos libertando, perguntou Will, estamos realmente nos libertando ou mergulhando mais fundo em uma nova prisão? Estamos nos libertando ou simplesmente fugindo para nos tornarmos peixes num mar de tubarões? O que você acha, Lúcia?
Will tinha se aproximado e seu rosto estava a dois centímetros dos olhos dela. Pedro e Júlia estavam apavorados. Nada disso parecia bom, nada disso parecia normal. Eles só queriam desamarrar as velas e percorrer o mar, aproveitando o vento, quem sabe vivendo algumas pequenas aventuras. O mundo não era um playground? Lúcia, confusa, deu um beijo na boca de Will. Esperava que isso cortasse o efeito do desespero? ou simplesmente estava cedendo a um impulso?

Entretanto sinto que mais que libertação estou causando minha própria destruição. Não é possível mais parar, não há mais espaço para descansar, e rir, e perder tempo. Estou me tornando um amontoado de fazeres. De impulsos. Estou cortando as relações com qualquer parte da minha tomada de decisões. Tenho os braços e mãos atados, tenho os olhos vendados, estou seguindo sem saber o quê, estou seguindo tudo, como uma brisa, Uma brisa se espalha por onde houver lugar. Ou isso é que é libertação? Esse viver tão parecido com sobreviver? Essa alegria tão parecida com morte? Libertação é destruição? Libertar-se é sempre abdicar?

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Cães e gatos vivendo juntos{`Ç>:

http://www.youtube.com/watch?v=-fAGzY9rnaA&feature=related

http://www.youtube.com/watch?v=L1BSvoz96po&feature=related

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

O que é amor pra mim

(este post não é sobre amor)



Sábado eu encontrei a galera e (uau, como eu estava ensiosa para encontrá-los!) ainda, digamos, não parece que foi suficiente, quero conversar mais, jogar mais, sair talvez, ir andar no parque, ver filmes, fazer essas coisas que amigos fazem. Me sinto feliz, exuberante, isso é estar apaixonada. A paixão não requer que seu objeto seja uma só pessoa ou objetivo, que seja homem, que seja belo, mas que seja bom, que seja incrível, que seja difícil e delicioso. Porque os conheço tão pouco, ou porque nos reunimos tão pouco, me sinto como num começo de namoro. É sempre assim? Isso é amor? Acima de todas as outras coisas de que falamos, isso é amor? Podem regras de RPG e receitas de culinária com Pokémons serem tão românticos quanto beijos? A ponto de me fazer esquecer a inauguração da casa nova de mamãe, ignorar o sono e rir como uma idiota até horas estúpidas da noite? A ponto de eu já me sentir ansiosa pelo próximo sábado?

Por outro lado, de modo geral, me sinto exultantemente feliz! Tudo parece praticamente impossível mas nada é difícil demais. É isso que bons amigos fazem comigo? Ou é isso que a atitute experimentadora me permite viver? Sou uma borboleta recém saída da crisálida, um bebê de pássaro saindo do ninho! Praticamente em todos os lugares onde vou encontro alguém que quer estar ao meu lado ao menos por alguns segundos, alguém que ainda não conheço por inteiro, mas que posso conhecer, alguém com quem posso conversar, alguém cujas portas estão abertas se eu tiver vontade de entrar; Aliás, não sinto sequer o mêdo, mais, de encontrar essas pessoas novas! Sexta mesmo invadi o bandeijão à procura do cara com quem eu conversava na aula mas que de repente eu queria que fosse meu amigo! Tudo é tão divertido! Tem tantas exclamções neste texto! !!!!!!! !

Porque o Bruno está sempre perguntando qual é a do apaixonar-se, eu mais do que nunca tendo a estar sempre respondendo. Quando a gente se diverte muito, e enxerga no outro a possibilidade de viver muito mais coisas boas, isso é paixão? Quando a gente imagina que quanto mais conviver com uma pessoa, mais coisas boas acontecerão, isso é amor? Quando toda vez que nos encontramos nos divertimos mais do que se estivéssemos separados, isso não é motivo para vivermos juntos cada vez mais?

E se isso tudo acontecer com uma única pessoa, que sente o mesmo em relação a você, então, como viver afastado dessa pessoa? Seria sequer possível não construir com ela uma vida, uma existência, sem negar sua própria felicidade?

domingo, 23 de agosto de 2009

Nervoso

Eu fico nervosa porque não sei fazer algumas coisas. Muito nervosa. Meu /mundo está, não sei, chovendo em mim. Eu/ //olho ao redore, não sei , ão sei /o qu/e /fazer, e, que porra é essa de aparecerem barras em /tudo o que eu escrevo?

Por exemplo, eu gosto do Jack, meu personagem alegre, amigável e assassino do rpg, mas sinto cada vez mais que não tenho a força necessária para interpretá-lo. E de que adianta ter um bom personagem se não sei interpretá-lo? E de que adianta jogar se no fundo eu sempre me divirto mais com o que os outros fazem? Se nunca consigo realizar o que realmente quero? Se só depois percebo que deveria ter agido dessa ou daquela forma? Não me sinto uma jogadora de rpg, mais, não tenho vontade de fazer ficha. Me irrita isso. Hoje eu /estava pensando seriamente em começar a beber antes das sessões, para ver se eu começo a agir, não sei se melhor, mas pelo menos mais. Mas isso tudo é bem fútil . Não é?

Não sei como os outros blogueiros conseguem falar tanto de assuntos gerais se só os assuntos particulares me são sequer alcansáveis. Me pergunto coisas. As coisas que sei não me interessam. Talvez só o que me apavora me interesse. Tenho mêdo de perder o Jack, de transformá-lo num personagem vazio, sem futuro, que nunca muda.

E eu acho que eu nunca me irritaria com um personagem bom que fosse chato. Entende? Por ele ser bom. Se ele fosse ineteressante, eu ficaria interessada nele, e seria isso. Não me importa tanto o jogo. Me importa os personagens. Eu queria poder explorar mais esse lado dos personagens. Parece que num jogo de rpg o que importa mesmo é a história, não os personagens. Sei lá. Talvez eu nem goste de rpg, na verdade. Talvez eu só esteja aproveitando a mesa para ouvir algumas boas histórias. Se fosse para participar delas, eu faria tudo diferente.

Ou eu deveria fazer tudo diferente? Será que eu deveria fingir que estou numa história, jogando com meus próprios personagens? Será que deveria ser tão impulsiva e verdadeira quanto sou quando estou sozinha? Mesmo se isso me levasse à morte? Se eu adoro a morte, talvez fosse inclusive mais justo perder as estribeiras. Talvez fosse completamente justo eu correr grandes riscos.

Mas eu, jogadora, não adoro a morte.

Bem.

Talvez eu jogadora tenha que me render ao meu personagem.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

A Morte (liberdade)

"Nós tínhamos essa idéia, e mesmo depois de tudo continuo achando que a liberdade é o mais fundamental para a formação de qualquer pessoa, inclusive a liberdade de morrer, sem esse risco não somos senhores, mas escravos."

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

A Velha da Pedra

Andei quatro dias para chegar a Vilania, e quando cheguei sentei na areia quante da praça principal e ali fiquei. Podia ver logo à frente a famosa pedreira onde Roder entrara para enfrentar o dragão, fechada agora pelos blocos de rocha que desabaram depois que o herói partiu. Conhecia tão bem aquelas pedras das histórias que encontrá-las frente a frente era como rever um amigo de quem se tem saudades. Levantei-me e andei em direção à pedreira, mas meu caminho foi interrompido por uma voz bonita mas cansada que vinha de uma velha em cima de uma pedra. "A caverna está fechada", disse a voz. Ela tinha cabelos prateados e muito longos, e vestia uma capa verde desbotada por cima de um vestido velho. Não estava olhando para mim, e sim para o horizonte. Seus olhos cinzentos pareciam estranhamente opacos. O rosto não era enrugado, mas era cheio de manchas. Senti uma imensa vontade de falar com ela. Não poderia ir à pedreira antes disso. Então eu disse a ela que já sabia que a caverna estaria fechada; que entretanto ainda queria ver o lugar onde o grande Roder havia matado um dragão.
Ela riu das minhas palavras. Riu sem olhar para mim, riu uma risada cheia, rude, velha, sem tirar os olhos do horizonte. "Está procurando no lugar errado", ela disse, com a voz melodiosa quase num sussurro. "Aqui nenhum dragão morreu", ela disse. "Vá embora", ela disse, jogando os cabelos sobre os ombros.
Eu queria ir em frente mas não conseguia me afastar daquela mulher. Enfeitiçado, me ofereci para contar-lhe a maior história de todas, a história dos sete dragões de Roder e da salvação do mundo. A mulher explodiu numa risada que a derrubou da pedra, e caiu graciosamente no chão diante de mim. Agora ela estava de pé, os olhos muito abertos olhando nos meus olhos, um sorriso brincando nos lábios, e naquele momento seu feitiço sobre mim a tornou a mulher mais bela que já existiu. E então ela disse:

"Não. Deixa que eu te conto a história do grande herói, menino."

terça-feira, 4 de agosto de 2009

A Morte (II)

(ou: a morte dos ritos)



Se fosse Jack, e não eu, naquele dia, teria ficado provavelmente louco e destruído tudo o que seus braços humanos pudessem. Se fosse a Lôhba, não eu, teria engolido o cemitério inteiro com o poder dos diamantes que purificam. Adulta, a Lôba teria convocado as plantas a consumirem toda aquela parte da cidade. Esse era o poder que eu mais queria ter.

Mas não era um personagem, porque não era ficção; mas era tão incrível quanto se fosse. Apenas mais estúpido. Menos significado.

Em São Paulo, quando uma pessoa morre, chamam-se os familiares e os familiares chamam os amigos. Todos se encontram no lugar da morte, vestindo as roupas de sempre, e falando coisas triviais como se fosse um dia trivial. O corpo é lavado e vestido por membros da comunidade que se dedicam a isso ou pelos familiares mais próximos. Vestem-no com suas roupas favoritas ou com roupas de festa, como a criar um personagem no qual fixar a imagem do morto. Escolhem um caixão entre os vários produzidos por outros membros dedicados da comunidade. Deitam o corpo, vestido e perfumado, dentro dele, e o cobrem com flores e véus, e o rodeiam com conjuntos enormes de flores com faixas onde estão pintadas as frases tradicionais. Alguns se despedem do morto beijando sua testa, outros o evitam. Põe-se a tampa no caixão e se a lacra com sete chaves, para evitar que algum dia seja aberta. Acredita-se que o morto está ali naquele corpo, que deve dormir seu sono eterno junto à sua família, e que deve dormir lacrado, trancado, cimentado, sob a terra. Guardemos os mortos. Temamos os mortos. Um grupo de pedreiros carrega o caixão sobre um veículo primitivo de rodas e tubos de ferro, pelas ruas da cidade miniatura, entre as plaquetas de bronze, entre caixas de pedra, até a que tem o nome da sua família. Abrem uma porta minúscula na caixa de pedra. Um pedreiro desce, joga para fora as ferramentas, recebe dos outros o caixão, eincaixa-o numa prateleira, pega de volta a colher-de-pedreiro, recebe uma porção de cimento, uma porção de tijolos. Outro pedreiro entra, juntos os dois controem uma parede entre o morto e os parentes junto aos quais ele deve permanecer. Conversam enquanto trabalham, sobre o trabalho, o cimento, a chuva. Quando terminam, devolvem para o túmulo as caixas onde estão os ossos da família. Saem e fecham a porta. Cumprimentam os familiares e vão embora. Apenas mais um dia de trabalho.

Existe um velho mito Ibo segundo o qual o Grande Espírito, Chuku, manda o cachorro dizer aos homens como reviver os que morrem. Porém o cachorro se distrai pelo caminho, e Chuku envia então o carneiro para passar a mensagem. O carneiro diz aos homens para enterrar os mortos, e é isso que os homens fazem. Mas o carneiro havia confundido a mensagem. Quando o cachorro chega, diz que o corpo de um homem morto deve ser deitado sobre a terra e coberto com cinzas, e então ele reviverá. Os homens não acreditam porque acreditaram no carneiro. E assim os homens conhecem a morte.
Nunca entendi porque os Ibo, que conheciam a lenda, não espalharam a mensagem verdadeira do cachorro, por que continuaram enterrando seus mortos e não os cobriram com cinzas. De modo geral nunca entendi a idéia de sepultar os mortos, de guardá-los sob a terra. Uma grande cidade de mortos. Pra mim é um grande mistério.

Por via das dúvidas, quando eu morrer, não me enterrem. Não guardem meu corpo - se quiserem, destruam-no.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

A Morte (I)

(ou: descobri que odeio cemitérios)



Na região de Canzara os ritos fúnebres sempre foram levados muito a sério. Quando uma pessoa morre, parece que até o ar muda subitamente de cheiro. A notícia se espalha como sementeira alada, corre no vento, e todos os que ficam sabendo vestem imediatamente o manto amarelo de couriú, que em um dia se alaranja, em dois se avermelha, em três se amarronza, em quatro anegra. Assim os campos de Canzara vão se colorindo gradualmente, de dentro pra fora, e ao mesmo tempo de dentro pra fora vão perdendo a cor.
Durante uma semana cada pessoa age de acordo com as regras do couriú: os que vestem o manto amarelo lavam a casa, as roupas e os cabelos, não podem comer e também não podem falar; os de manto laranja comem pão-de-frango e folha de canhacheira lambida no fogo de vela (é o dia favorito de todos), passam o dia cantando ou rezando, e dependendo da lua têm que cortar os cabelos; os de vermelho pintam o corpo, saem de casa com lanças e só podem comer o que puderem matar; os de marrom quebram suas lanças e se alimentam de cascas de árvores, raízes, folhas e flores, se houverem; os de negro se banham na lama e voltam para casa, onde, depois do último canto, voltam às suas vidas normais. Poucos dias depois o couriú se desprende do manto e só aí as pessoas param de usá-lo. Dizem que é o sinal de que o mundo pode continuar como era antes.
As cores do couriú regem também a preparação do corpo. Os mais próximos do morto clamam para si, através dos versos tradicionais, os deveres para com o corpo. Quando é necessário, o resto da comunidade executa as regras do couriú no lugar dessas pessoas, que têm deveres diferentes. No dia amarelo, é preciso lavar o corpo e preparar a madeira para o caixão. A madeira precisa ser de três árvores diferentes, escolhidas pela primeira pessoa. No dia laranja, usando velas laranjas, deve-se queimar os cabelos e todos os pêlos do morto e preparar as tintas para o caixão. As tintas também devem ser feitas com três pigmentos diferentes, escolhidos por uma segunda pessoa. No dia vermelho, enquanto todos os outros deixam suas casas, os preparadores pintam cada milímetro de pele do corpo e constroem o caixão com todos os cuidados. No dia marrom, ainda mais sozinhos, os preparadores terminam os detalhes finais do caixão, cobrem-no de pinturas, forram-no com terra, põe o corpo dentro dele e o fecham com sete fechos. Depois limpam a bagunça, a si mesmos, uns aos outros. Esperam sozinhos pela chegada dos outros. Choram, talvez.
No dia negro todos voltam para a cerimônia da morte. Voltam cobertos de lama, vestindo mantos negros, famintos e ferozes. Nos outros lugares esse é um dia tranquilo em que tudo volta ao normal assim que a lama se dissolve na água do banho, mas, aqui, onde um homem morreu, é um dia muito estranho. Das sombras das casas surge um grupo de homens (?) vestidos de preto com máscaras pretas de feras. Não se vê nenhuma parte de seus corpos, e ninguém se aproxima por causa do mêdo e do cheiro de morte. Ninguém diz nada: eles levantam o caixão pintado e carregam-no até um lugar vazio decidido por eles, enquanto os outros seguem, silenciosos. Pousam o caixão no chão. Tiram de dentro do manto armas colossais --- machado, facão, picareta, foice, martelo, enxada, forjados, polidos e afiados para serem grandes, negros e brutais. Com um guincho de fúria o primeiro machado desce sobre o caixão dividindo-o no meio, seguido pelo urro da picaretada, pelo estrondo do martelo que lança pedaços de madeira sobre os demais; a comunidade urra, recua, se excita e se assusta, as lâminas sobem e descem, as feras gritam e rugem e saltam sobre o corpo enquanto despedaçam-no com sua fúria, o camunidade grita e canta os cantos de morte, de liberdade, de mêdo, a carne, a terra e a madeira voam, a fúria e a morte voam, os ossos se partem junto com as tábuas, e quando acaba as feras rugem levantando as armas e a comunidade pula sobre os restos (carne osso madeira terra tinta) e os agarra, os disputa, cada um ansioso por enterrar um pedaço, o maior, mais fundo.

De repente a comunidade se dispersa. Banho, comida, a vida segue em frente. As feras já desapareceram faz tempo. As pessoas estão cansadas. A terra mexida e novamente vazia (ao menos na superfície) ficará abandonada até que couriú se desprenda das nossas roupas. Então, tudo será como sempre foi.

sábado, 25 de julho de 2009

Mood

I don't know what I am for



All around me are familiar faces
Worn out places - worn out faces
Bright and early for their daily races
Going nowhere - going nowhere
And their tears are filling up their glasses
No expression - no expression
Hide my head I want to drown my sorrow
No tommorow - no tommorow

And I find it kind of funny
I find it kind of sad
The dreams in which I'm dying
Are the best I've ever had
I find it hard to tell you
'Cos I find it hard to take
When people run in circles
It's a very, very Mad World

Children waiting for the day they feel good
Happy Birthday - Happy Birthday
Made to feel the way that every child should
Sit and listen - sit and listen
Went to school and I was very nervous
No one knew me - no one knew me
Hello teacher tell me what's my lesson
Look right through me - look right through me

And I find it kind of funny
I find it kind of sad
The dreams in which I'm dying
Are the best I've ever had
I find it hard to tell you
'Cos I find it hard to take
When people run in circles
It's a very, very Mad World

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Eu sou uma pessoa constante

Eu estou aplicando os marcadores do blogger aos meus posts antigos. Queria fazer isso faz tempo, mas sempre soube (ainda sei) que dá um trabalho do capeta, por isso não tinha feito ainda. Criei muitos marcadores, mas não foram exatamente suficientes porque nem tudo pode ser classificado, e tal. Além disso havia coisas que eu não queria agrupar, como todos os posts depressivos, imagina?

Enfim, um dos posts era esse resultado de quiz sobre mim:


You rank up there with your seduction skills, though you might not know it.
That's because you're a natural at seduction. You don't realize your power!
The root of your natural seduction power: your innocence and optimism.

You're the type of person who happily plays around and creates a unique little world.
Little do you know that your personal paradise is so appealing that it sucks people in.
You find joy in everything - so is it any surprise that people find joy in you?

You bring back the inner child in everyone you meet with your sincere and spontaneous ways.
Your childlike (but not childish) behavior also inspires others to care for you.
As a result, those who you befriend and date tend to be incredibly loyal to you.


Três anos depois, ainda acho que essa resposta tem tudo pra ser verdadeira. É claro, eu teria que perguntar pra eles pra saber a verdade ^^

Enfim, como será que eu vou marcar este post?

domingo, 19 de julho de 2009

Manual do Minotauro - Missão




A vida é linda, não é, Laerte?

E os desejos confusos

(porque, foda-se o mundo, I get off on being completely sincere)



Então a vontade de transar com todos os caras do mundo passou. Não sei explicar como, nem porque. Foi suave. Foi de repente, você passou por trás de mim e eu senti o seu cheiro, e dali a pouco tudo o que eu queria era dormir nos seus braços. Eu abracei você e pedi pra você ficar, e dessa vez era você, só você, e mais ninguém poderia me abraçar naquela hora, ninguém mais tem o seu cheiro, o seu calor, o seu carinho. É isso que eu quero dizer quando digo que eu te amo.

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Least I Could Do


Questões de cunho moral e filosófico

"Desde muy temprano se sufre, pero sólo desde cierta edad se aprovecha." - Alfonso Reyes, Tertúlia de Madrid, III



Há um ditado que diz que "mais vale um pássaro na mão do que dois voando", outro que diz que "quem não arrisca não petisca", outro que diz que "tudo está bem quando acaba bem" e outro que diz que "de boas intenções o inferno está cheio". Cresci ouvindo essas coisas, muito bem usadas, muito bem argumentadas, e acho que a meu modo sigo as duas primeiras mas não as duas últimas.

Recentemente corri um risco para evitar ter apenas pássaros voando, e posso dizer de certa forma que tudo acabou bem, mas essa resposta não é suficiente para minha filosofia. Não consigo avaliar precisamente se foram boas ou más minhas intenções, para não mencionar os métodos. Não sei dizer se foram os fins que justificaram os meios, ou se foram os meios que justificaram os fins. Se esta é uma história a que bem e mal talvez não se apliquem, então as duas coisas são verdadeiras. Dá na mesma se tanto os meios como os fins foram por um lado bons por outro maus. Assim a questão só se propõe justamente porque, na questão de um risco cuja validade é questionável, a ceitação final desse risco depende inteiramente do resoltado (que pode ser tanto petisco quando desgraça); como podemos tomar decisões razoáveis quando há uma questão assim em aberto?

É como a questão do House, que toma decisões sem antes confirmar suas teorias e faz todo tipo de coisa que pode "matar ou salvar". House é respeitado, embora não pela comunidade médica em geral, apenas porque está sempre certo. Se um dos seus palpites estiver errado, e ele matar uma pessoa, sua carreira, sua ideologia, sua vida vai por água abaixo? Será que a Cuddy, que sempre apoia suas loucuras, embora com limites, conseguiria perdoá-lo se ele matasse um paciente com um tratamento errado? O House pode tomar decisões potencialmente más porque ele é foda, mas e o resto de nós, pessoas reais? Será que seguir nossas intuições é o suficiente para fazer a coisa certa? Ou será que, tentando seguir uma ideologia perigosa, nos tornaremos eventualmente os vilões?

Se eu faço uma coisa que pode ser imperdoável, e por acaso essa coisa não tem conseqüência negativas, não seria moralmente correto que de qualquer forma eu não fosse perdoada?

Por outro lado, se eu faço uma coisa que pode ser a salvação, e por azar essa coisa só tem conseqüência negativas, seria moral que eu fosse condenada?

Talvez fosse mais justo se, nessas situações em que os resultados determinam a validade de uma ação, os julgamentos fossem baseados nas informações que o ator tinha antes de atuar; afinal, se duas pessoas fazem a mesma coisa, e uma destrói a cidade enquanto outra salva um ônibus escolar, as duas são igualmente boas ou más. Não?

O problema, que é o mesmo problema que existe para o ator, é como avaliar as possíveis conseqüência dos seus atos. Muitos, como eu, escolhem a partir de sonhos e intuições. Como colocar essas coisas na balaça?

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Sonhos

"Não te preocupes com sonhos: pois o espírito do homem julga ver no sono como verdade o que deseja em estado de vigília." - Dionísio Catão, Dísticos



Quando sonhei com você, foi como o sol
me iluminando e me aquecendo dentro do dia
foi como a chuva grossa do verão
levantando o cheiro da grama e enchendo meu peito de vida
(por que é que a chuva me faz tão feroz, tão alegre?
por que a chuva me traz de volta a infância?
por que a chuva me torna loba, me torna vento, me torna deusa?)
como se eu chegasse naquela cabana da floresta onde eu sonhei morar
no coração da floresta que é como o seu coração
onde eu tenho uma cama, uma faca e a fonte da vida
foi como "para sempre"
foi como estar em casa
foi como ter um amigo
foi como um abraço.

Quando eu sonhei com você, foi como um pecado
fervendo meu sangue e gelando meus dedos famintos
Foi como uma guerra travada num ermo, num túmulo
sob a noite cerrada, num descampado
um cavaleiro negro, um animal negro, contra a lua minguante
seus olhos eram segredo; seus olhos brilhavam.
Foi como uma espada vertendo sangue do meu peito
um inimigo, um demônio dentro do meu peito
dizendo "foda-se o mundo, eu só quero você"

Quando eu sonhei com você, foi como uma estrada
que subia uma montanha imensa e que eu percorri
(porque vovó dizia que sua estrada contorna a montanha
minha estrada percorre a montanha e outra montanha
não há só um pico, só uma luz: há a Perdição;
o caminho para o topo é o caminhar: há só o Infinito)
No topo, no cume encontrei um fantasma brilhante de mim
ou um espírito que faltava dentro do meu próprio espírito
ou um espectro do reflexo
do reflexo do reflexo de mim
Foi como ser devorado por um urso mau
e como ser abraçado por um golem gigante
Foi como a Imensidão
e como um coração imenso batendo por mim
foi como violar minha própria castidade
foi como amar a terra, foi como DEUS.
foi como tornar-me humana a partir do barro.
foi como tornar-me Outra.
foi como o incesto.

Quando eu sonhei com você, foi como a paisagem
que vem antes e cria a linha do horizonte
foi como nascer de novo, num mundo mudado
Foi como o prazer de caminhar sobre a lama que passa entre meus dedos dos pés
foi como a brisa e o vento que carregam meus espíritos
apenas soprando bem, muito bem
foi como o prazer de descer uma ladeira de bicicleta sem segurar o guidão
Foi como a liberdade.

Quando eu sonhei com você, foi como uma mensagem
Aquela mensagem do velho da taverna
"adentre a caverna e liberte a donzela das garras do dragão
e não se esqueça de trazes seis cabeças de orcs"
Sim, foi bastante como um video-game
Foi como uma missão, um desafio, um sentido de vida
Foi como uma certeza no futuro
Cada vez mais, a cada você, foi amadurecer.
Foi como rir com você e ser seu amigo.
Foi como adorar você.

Quando eu sonhei com você, foi como a realidade
ou como se o sonho fosse a realidade
De repente verdade era mentira e mentira era verdade
Foi como se a realidade fosse um espectro do sonho
e a loucura fosse sã e a sanidade, loucura
Foi como um sonho
Foi como chegar ao horizonte
foi como o impossível
Foi como a verdade
fazer a verdade tornar-se o que a verdade é
(ou concretizar o mundo das idéias
para não idealizar o mundo concreto)

Quando eu sonhei com você, foi como uma resposta
dizendo "foda-se tudo, eu só quero saber!
a resposta para todas as coisas, todas as perguntas
eu quero me tornar o que eu quero ser"
Foi como baixar as cortinas, sair do teatro
Foi como deixar os enigmas e sair para a vida
Foi como cuspir na cara da esfinge
ou devorar a esfinge
e cuspir os ossos da esfinge no mundo ignorante
Foi como montar um cavalo descontrolado
foi como subir no alto do pédrão e me jogar de lá
(e por mais que me assuste o pédrão e a dor lá em baixo
e por mais que me aflija esse mêdo que tenho dos saltos
e por mais que nunca eu salte sem saber como será o fim do salto
esse sonho, certamente, foi um salto)
Foi como um amigo, um demônio, voando com meus espíritos
dizendo "foda-se tudo porque eu quero você"

Again?

Just because I'm losing
Doesn't mean I'm lost
Doesn't mean I'll stop



Sobre a história anterior: eu escrevo só porque você lê.

PS para o Charles.:

Quando os velhos de Alanraia morrem, são enterrados num imenso mausoléu subterrâneo sem caixões. Buracos nas sarjetas permitem que entrem nesse mausoléu água, sol e pessoas distraídas. O mausoléu assim se torna um grande jardim subterrâneo, cheio de plantas escuras, fungos e outras criaturas. O solo de Alanraia, construída sobre esse campo imenso, é o que há de mais sagrado para os Alanreses. Os jovens de Alanraia, quando morrem, são queimados até que só reste o pó, e o pó é soprado sobre um bando de pássaros migratórios, para que seja levado para outra parte do mundo.

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Fazendo Matrícula (2)

Finalmente recebi a resposta do meu professor de MAC para a pergunta "e aí, o que eu faço agora?"

A resposta foi a seguinte:
Sobre outras disciplinas para continuar estudando programação. A continuação natural seria fazer as disciplinas de laboratório de programação (são duas, com nomes com terminação I e II). Elas são disciplinas interessantes pois focam em ferramentas de programação e também na confecção de projetos maiores e não apenas pequenos EPs isolados. São as disciplinas de programação feitas pelos alunos do segundo ano de computação no IME.

Deixem eu contextualizar essa matéria "Laboratório de Programação I": semestre passado eu queria fazer coisas muito legais e me inscrevi nela, mas não peguei, e na minha ingenuidade não fiz requerimento nem nada disso. Teria sido legal porque eu teria feito junto com o Nando, mas isso não vem ao caso. Semestre que vem essa disciplina não existe. É o que acontece quando você consegue ser idiota por uma ano e meio, e não só um ano, e acaba fazendo as matérias todas nos semestres errados. Pelo menos eu conheci o Paulo, que é um cara legal, e tive a mesma matéria que o Diogo, mas, bem, acho que nada disso compensa. Estou bastante irritada. E não quero ficar pra trás de jeito nenhum.

Então: eu mandei um e-mail pro cara responsável pela matéria perguntando se é sussa eu fazer Lab 2 sem ter feito Lab 1. Espero que sim. Uma pena é que decidir fazer essa matéria não muda nada nas minhas dúvidas e inseguranças; só deixa claro que eu não vou fazer Cálculo II.

O que é uma pena. Era a única matéria que eu tinha certeza que ia ser legal.

PS.: pensando bem, ela também deixa claro que eu não vou fazer MecFlu, pelo menos não de manhã. Mas isso acho que eu já sabia...

Fazendo matrícula...

É muito difícil. Talves o difícil seja conseguir especificar exatamente o que eu quero. O que eu quero da vida, do futuro, da faculdade, de mim. A minha maior dúvida atual é entre Álgebra Linear para Computação e Introdução à Manufatura Mecânica. A primeira me daria uma grande chance de fazer Computação Gráfica no futuro, me tornaria mais habilidosa para uma porção de coisas, e é a única das matérias de álgebra linear que não têm pré-requisitos ; todas as outras requerem que eu tenha feito geometria analítica ou vetores e geometria, e nenhuma dessas matérias está disponível. A segunda me ensinaria sobre processos de produção, supostamente me daria grandes conhecimentos e habilidades úteis para o projeto de produtos. De certa forma, é como se eu estivesse fazendo uma escolha entre o mundo real e o virtual. Mas apenas de certa forma.

Escolher AlgeLin também me impediria de fazer várias outras matérias, como Cálculo II (eu achei que faria sentido fazer a seqüência de uma matéria que eu gostei de fazer) e Microprocessadores e Controle Digital, que é sobre sontrole de sistemas dinâmicos.

O que mais me irrita nessa questão toda é que eu vou ter que ralar e correr atrás de um monte de coisas se eu quiser ter a menor chance de fazer qualquer coisa. Eu não sei se dá pra quebrar requisitos. Eu não sei quantos requerimentos e recursos de requerimentos eu vou ter que fazer. Por isso, eu tenho que tomar uma decisão definitiva. Eu preciso ter certeza. E eu não sei de onde tirar essa certeza.

Não seria mais fácil se estudar fosse como em jogos de computador, em que novas opções vão aparecendo à medida que você vai conseguindo os requisitos para elas, e em que você sempre pode conseguir mais níveis naquilo que você gosta até chegar ao nível máximo?

Outra dúvida minha é fazer ou não Laboratório de Desenho e Cor, na ECA. Eu acho que é o tipo de coisa que me fazria mais feliz, mais tranqüila, mesmo se fosse difícil. Mas para isso eu teria que desistir de Cálculo II, Análise de Algoritmos e Arquitetura de Computadores. Acho que neste caso a dúvida é: eu quero ser feliz ou eu quero ser foda? (a propósito, se eu decidir fazer Cálculo II, as escolhas subitamente se tornam muito simples).

O problema é que eu não tenho nenhuma garantia de que eu vou ser feliz ou foda. Eu não sei o que eu vou aprender. Eu não sei o quanto eu vou sofrer com essas coisas. Eu tenho duas diretrizes básicas: eu quero ter aulas à tarde, eu quero ter aulas das quais eu goste, e eu quero chegar mais perto de descobrir um caminho que eu possa seguir. No fundo, não é tão ruim. É só extremamente confuso. E eu me sinto extremamente insegura.

Eu também tenho vontade de fazer aquele curso de C# que custa R$500,00 e vai tomar duas semanas das minhas férias. Eu não sei o que fazer, na verdade. Eu quero programar. Eu quero alguém que me aponte um caminho, que diga, vai por aqui, por aqui há coisas legais. Eu sinto que eu vou ficar pra sempre na faculdade. Meus amigos estão fazendo várias coisas, iniciação científica, trabalho na área, projetos diversos, e eu, bem, eu estou patinando, sem saber que tipo de vida eu posso levar.

Me parece tarde demais para coisas tão fúteis quanto "férias".

segunda-feira, 6 de julho de 2009

domingo, 5 de julho de 2009

Esquecer

Porque vivia em Alanraia, sempre soubera que um dia ficaria velho e precisaria partir. Quando a idade certa chegou, deixou suas coisas e foi. A partir daquele dia não teria mais nome. Seria um peregrino cuja terra prometida era também o ponto de partida. Trinta anos na estrada. Em Alanraia fora general e senador, e respeitado por todos os conterrâneos. Começara como chefe de guarda na periferia da cidade e ganhara uma tropeta após capturar todos os bandidos da região próxima. Trabalhara por um ano capturando bandidos em terra antes de começar a lidar com os piratas. Comprara do capitão do porto seus primeiro navio por uma picanha, quinhentos luares e cinco barris de cerveja. Três meses depois, já conhecido até em outros mares, conseguira seu segundo navio, sem picanha, mil e duzentos luares. Armou uma arapuca para os bandidos das águas que lhe valeu sua própria frota com cinco galeões e os melhores canhões da cidade. Seus homens o amavam porque alguns estavam com ele desde o início e porque ele sempre exigia deles exatamente o melhor que poderiam lhe dar. Em cinco anos, comandando quarenta navios, capturara Scarânia, antiga Levante, cobrira suas leoas de piche e lhe rebatizara Alanteni(o Pátio). Nessa batalha, aquela cujos detalhes se tornariam parte de todos os seus sonhos até o fim de sua vida, nessa batalha perfeita fora ferido na perna e conseqüentemente afastado dos seus serviços. Em Alanraia nenhum soldado ficava afastado de casa por mais de seis meses, mas dois anos inteiros na cidade era mais que qualquer marujo poderia esperar. A fama ou a confiança lhe dera assim que pisara em terra a cadeira de senador. Como senador fora justo, mas não fizera nenhuma proposta. Ou talvez seria melhor dizer que nos dois anos em que servira à cidade como senador, não fizera nenhuma lei, nenhuma reforma, mas julgara as propostas dos outros e os argumentos que ouvia com coragem e justiça, sem nunca perder de vista o benefício total à cidade. Porém, mal a perna se recuperara totalmente, já estava de novo nos mares, reformando as regras da marinha, se livrando de novos piratas; além disso recapturara Levante e desta vez dera-lhe o nome de Alanfera(a Morte). Partindo de Alanfera acuara os defensores da cidade, capturara o capitão B. Leão e o trocara por 34 prisioneiros de guerra num opressivo acordo de rendição. Fizera de Anlanfera sua base, e vivera nela por cinco anos, estendendo um exército sobre a terra como havia estendido um sobre o mar. Passava em Alanraia apenas uma semana por ano, em duas viagens apressadas, para abraçar suas filhas e beijar sua terra vermelha pedindo a bênção dos seus. Em Alanfera era sempre revoltas e carnavais, festas e rebeliões. A pantera de piche porém já nem era mais chamada de leoa. Seu exército continuava vencendo batalhas. Sua cidade tinha muito do que se orgulhar. E esse foi o fim da história.

Porque sempre vivera por Alanraia, sempre soubera o dia em que ficaria velho e teria de partir. Quando esse dia chegou, como chegava para todos, saudou seus companheiros na cidade, abraçou todos o que respeitava, caminhou pelos pátios nos quais brincara em criança, e embarcou num veleiro branco para Alanfera. Seus coronéis fizeram-lhe uma homenagem, seus soldados por toda a cidade se perfilavam à sua passagem. Numa última reunião de conselho apontou seu sucessor no posto e fizeram uma festa. Então tudo acabou. Saiu da festa sem uniforme, vestido como um dos civis daquela cidade que era tão diferente do que queria que fosse. Nenhum soldado raso ou oficial sequer olhou para ele. A partir daquele dia estava morto; não tinha nome, não tinha patente, ninguém o conhecia. Quando caminhou até o porto, era como se fosse um fantasma. Quando o veleiro branco estendeu suas velas, era como se fosse invisível. A parte mais difícil de morrer era esquecer da vida que chamara de sua. Enquanto o veleiro branco seguia o vento que não sabia para onde ia, tentava esquecer de todas as suas batalhas. Só estaria realmente livre quando não houvessem mais pronomes possessivos. Temia perder a noção do tempo, temia esquecer também de onde viera e para onde ia; o veleiro branco não tinha biruta mas tinha um relógio que marcava o tempo ao contrário e uma bússola que não apontava para o norte. E seguia para o mar do esquecimento, que também se chamava o mar da memória.
Dali a trinta anos chegaria a Alanraia apenas um peregrino. Ele diria que viera seguindo uma bússola louca e um relógio que marcaria zero. Ele contaria sonhos estranhos, histórias antigas cujos heróis pareceriam não ter nome. Ele contaria para as crianças assustadas de uma cidade que se chamava Morte, e que talvez existisse, em algum lugar. A maior parte de suas histórias seria maravilhosa, coisa de terras estranhas, de mundos estranhos, coisas que as pessoas da cidade mal poderiam imaginar.
Os peregrinos, os velhos, são bem recebidos em Alanraia. Eles recebem casa, comida, e o direito de andar livremente por onde quiserem. São consultados por todos os cidadãos em busca de conselhos ou presságios. Além disso, nunca deixam a cidade. Se tornam parte dela, como as ruas e as casas. Quando são questionados a respeito de sua vida pregressa, respondem quase sempre que acabaram de nascer.

Pronome pessoal possessivo de primeira pessoa

Um dia Liane perguntou para Zacharias o que mais lhe fazia saudade de sua antiga vida no rancho. Zacharias não parou para pensar, nem por um instante.
"Sinto falta de Lúcia, de nossa casa, de nossos filhos. Sinto falta do pôr do sol atrás da colina e de Turo, o pônei que demos para Alina quando ela fez seis anos. Sinto falta de sentar com Lúcia na varanda e conversar olhando para a lua."
A isso, Liane teve que perguntar:
"Você seria mais feliz se nunca tivéssemos partido? Se tivéssemos continuado no rancho até o fim?"
Não. A resposta era sempre não. Mesmo em seu coração não havia redenção para todos os erros da sua vida pregressa. Não havia escapatória para o fim que lhes era reservado. Viveriam ali até que fossem encontrados. Então partiriam, quem sabe mudando de nome, quem sabe com outras pessoas... o futuro que ele enxergava era uma repetição do passado, porque o fim lhe parecia sempre o mais certo. Mas não era isso que ele diria a Liane.
"Sinto falta de Lúcia, mas apenas porque não a vejo há anos. Se a visse agora, quem será que me olharia através dos olhos dela? Quem falaria através da sua boca? Se eu estivesse lá, nós não estaríamos aqui. Se eu estivesse no passado, não existiria o presente. Se tívessemos ficado no rancho, não haveria estas pedras, estas colinas; nós não poderíamos assistir ao nascer do sol atrás da velha árvore. As pedras do passado nunca vão criar limo; as nossas, é possível amar. Eu não te deixaria se encontrasse minha mulher e meus filhos, querida. Eles são boas pessoas, e eu os amo, mas não são mais meus. Aquela não é mais a minha vida; está é."



Às vezes eu me pergunto o que queremos dizer quando dizemos "minha vida". A vida é minha mesmo? Tenho algum poder sobre ela? Ela faz parte de mim? Ela define alguma coisa em mim? Eu defino alguma coisa nela? Será que sou eu a parte mais importante dessa vida, ou será que o protagonista é outro? Será que sou apenas a câmera, o diretor, o ator, tentando criar alguma coisa maior para chamar de "meu filme"? Será que através dos meus olhos acontecem coisas? Será que meu olhar cria significado?

Será que tenho qualquer poder sobre o que eu vivo?

sábado, 20 de junho de 2009

Design e Semiótica

Vocês se importam se eu pensar em voz alta um pouco? É que eu me organizo melhor quando escrevo, e não quero sair do computador e ir efetivamente trabalhar, então pensei em escrever aqui mesmo. Tudo bem?

Tenho que fazer um trabalho de semiótica sobre qualquer objeto de design. Ou seja, qualquer coisa feita por um designer, ou que poderia ter sido feito por um. Ou seja, virtualmente qualquer coisa.

As pessoas não entendem o que é o campo do design. Ontem o Bruno se impressionou quando eu disse que design é muito amplo (eu estava tentando explicar que é possível gostar das matérias do design sem realmente querer ser designer). A verdade é que o designer não tem um campo muito definido. Um designer pode trabalhar com qualquer coisa. Trabalhar com pesquisadores (cientistas) é um pouco difícil, mas não completamente impossível. O mais fácil é trabalhar com empresas, artistas, publicitários, criadores, engenheiros, indústria, internet ou meios de comunicação, mas existem inúmeras possibilidades.

O característico do design não é o campo, mas o método. Podemos trabalhar em qualquer campo. Há restrições: o método do designer é um método de projeto. Ele até funciona para outras coisas, mas não é o ideal. Existem coisas que um designer não pode fazer. É claro que não há quem possa fazer tudo. Mas um designer poderia solucionar problemas em qualquer situação. Um designer poderia projetar qualquer produto. Se for possível ensinar a ele como as coisas funcionam, então ele é capaz de fazer seu trabalho. Obviamente, nem sempre é possível ensinar a ele como as coisas funcionam.

Outra limitação, embora nem de longe tão sólida, é que o designer é treinado para projetar para seres humanos. Não que ele saiba as medidas e proporções ideais de cor (o designer a princípio não sabe nada), mas ele está acostumado com os seres humanos, com a forma como aprendem, com as fórmulas da gestalt, com sua noção de estilo e beleza, com a forma como respondem a suas perguntas. No curso que eu faço, metade do trabalho é sempre pesquisa. Pesquisa envolve encontrar as opiniões, os tamanhos, a legislação, os desejos e as dificuldades relevantes. O designer iria ficar confuso ao projetar para máquinas. O designer iria parecer maluco ao projetar para bichos (eu acho que eu adoraria trabalhar para bichos). (nota.: isso é questionável porque as pessoas que fazem casas, coleiras e brinquedos para animais são designers... mas ainda acho que esse é um campo de baixa qualidade, e que a pesquisa feita é meio porca)

Olhem ao redor. Assumindo que vocês estejam dentro de uma casa ou na faculdade, posso dizer sem muito mêdo que quase tudo o que vocês vêem foi feito por um designer. O que não foi, foi feito por um artesão, por vocês mesmos ou pela natureza. Pode ser que as pessoas que fizeram esses objetos não se considerassem designers, e sim artistas, ou editores, ou engenheiros, ou arquitetos, ou apenas uma pessoa com um trabalho a fazer. Mas, a partir do momento em que se puseram a fazer o projeto de um abjeto, identidade ou composição gráfica, com a preocupação real de tornar a sua interação com o usuário ou sua comunicação o mais azeitada e eficiente e até mesmo agradável possível, então ele é um designer. (obs.: a gente costuma dizer que projetos que não levam em conta o usuário são "projetos de engenheiro". isso não é um preconceito, é só uma definição, já que o engenheiro não é treinado para lidar com o usuário, e sim com o mecanismo — é por isso que tantos polis vêm fazer fau-poli!)

Acho que uma das coisas que mais me incomoda no meu curso é que não nos tornamos realmente aptos a estudar qualquer campo em que queiramos trabalhar. Uma das coisas que aprendi com meu curso é que antes de fazer um projeto é preciso se tornar especialista na área correspondente. Por exemplo: para projetar uma lâmpada, eu preciso estudar iluminação. Para fazer um projeto para cegos, eu preciso entender a vida dos cegos. Para projetar carros, eu preciso entender como funciona um carro, como funciona a aerodinâmica, como o material se deforma em uma colisão. Em muitos casos é possível aprender em alguns meses o duficiente para se fazer um bom projeto. Em alguns casos, como no do carro, é necessária necessàriamente a associação com um engenheiro, mas para que haja boa comunicação com o engenheiro também é preciso entender a engenharia. No curso de arquitetura, assim como em alguns cursos de design gráfico ou desenho industrial mais especializados, existe a preocupação de ensinar ao graduando as técnicas, as características dos materiais, a matemática e a física de tudo com que esses cursos propõe que o seu graduado trabalhe. Não com muita profundidade, talvez, em direção à engenharia, mas o suficiente para que o projeto não saia absurdo demais. O meu curso não ensina isso, porque não seria possível ensinar todas as técnicas específicas de cada uma das áreas nas quais eles esperam que nós trabalhemos. Nós aprendemos uma coisinha aqui, outra ali, apenas para que não sejamos totalmente ignorantes. E o resto é por nossa conta.

Meu problema com essa estratégia é que sempre nos falta, a princípio, uma área comum de entendimento com profissionais de outras áreas. Eu gostaria que meu curso tivesse, embora numa proporção menos... absoluta, uma proposta que encontrei no curso do Diogo: a de criar uma linguagem que abranja diversas áreas do conhecimento.

(Me incomoda no curso do diogo que eles achem que estão estudando todas as áreas do conhecimento quando na verdade estão estudando apenas física, química, matemática, computação e um pouco de biologia, e me incomoda ainda mais a defesa que fazem à essa acusação porque dá a entender que o que estudam no ciclo básico é apenas o mais difícil -- e é mesmo, é o tipo de coisa que não se pode tentar explicar aos amigos como eu tento explicar a vocês o que é design, o que é semiótica, o que eu estou pensando, mas, veja bem, isso me incomoda ainda mais, porque de qualquer forma eu não posso sonhar em fazer vocês entenderem exatamente qual é a do Peirce ou a do Max Bill, e eu imagino que seria ainda mais difícil para o Yuri ou o Ugo explicarem o que estão estudando, e entretanto existe alguém que acha que é possível estudar até mesmo as sciências humanas partindo de uma base puramente científica!)

Acho que terminei o que eu queria dizer sobre design. Aproveitando o ensejo, eu queria tentar dar uma leve noção do que é semiótica. E já que estou usando bastante esse termo, o que é gestalt.

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Pensando bem, vou primeiro verificar se não estou dizendo nenhuma bobagem. Me digam, aliás, se isso realmente interessa. Até logo, amigos.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Como uma parede atrás de uma porta aberta

Quase todos os dias Zacharias encontra uma porta nova em sua casa. Uma porta ou um canto novo. Ou um risco no vidro da janela. Ele passa pela porte e se impressiona muito com as coisas lá dentro. Não com a mesa, com o computador ou com a estante de livros. Ele se impressiona com aquele bloco de pedra que é um pouco menor do que os outros, deixando uma linha de cimento um pouco mais grossa. Ele passa horas admirando uma mordida de rato na base do pé da cadeira. Quando fecha uma porta que permanece sempre aberta, sempre se assusta com a parede que de repente existe. Quando Ilina lhe perguntou se ele gostava mais da sua casa no rancho, ele respondeu rapidamente:
— Como, se, no rancho, atrás das portas não há nenhuma parede!


Hoje durante a aula de cálculo eu súbito levei um susto ao perceber algo completamente inesperado. O que eu percebi é que eu estava acordada. Mais que isso, eu estivera acordada desde o começo da aula. Eu não ficara sequer com sono! Eu não fora para a cama especialmente cedo (na verdade, ficara assistindo TV até a uma da manhã) nem dormira mais do que o normal (na verdade, sexta-feira eu tenho a aula mais cedo da semana, e eu acordara às sete da manhã), nem tomara o mate com guaraná que muitas vezes me permitiu assistir à primeira metade da aula. O dia fora como qualquer outro dia, entretanto em qualquer outro dia eu teria dormido na aula pelo menos até as nove horas, enquanto hoje às nove da manhã eu olhava no relógio e me assustava com o fato de que eu estava completamente desperta.

Nos outros dias também eu estaria extremamente mau-humorada e pensaria para mim várias vezes em como eu detesto a minha vida; hoje, essa frase parecia absurda, e nada mais me incomodava, e eu estava entendendo a matéria, e tudo parecia bom e feliz. Além disso, quando eu saí de casa eu não estava atrasada, ou com preguiça de pegar a bicicleta, e enquanto eu pedalava para a Física eu sentia dores horríveis nas pernas e o buraco na minha boca latejava, mas eu não me sentia miserável por ter que agüentar as dores e os incômodos e seguir em frente com as minhas missões impossíveis. E quando eu voltava para casa eu lembrei das coisas que eu costumo pensar enquanto faço aquele mesmo caminho, e em como eu costumo andar devagar, e tive vontade de rir de mim e pedalar mais rápido apesar da dor e me tornar mais forte e fazer o melhor caminho possível. E acho que foi mais ou menos aí que eu entendi o significado da palavra "estresse".

Sim, a vida é dura, a vida é um inferno, e às vezes parece que não importa o quanto nós queiramos sorrir nós ainda somos obrigados a fazer cara séria e meter a cara naquilo que depois de um tempo nós passamos a odiar. Às vezes tudo dá errado e o tempo é muito curto e a gente perde todas as esperanças de fazer a coisa certa e nossas responsabilidades nos afogam e nos parece impossível cumprir todas as obrigações e satisfazer todas as expectativas. Sim, às vezes nós somos fracos, e tolos, e incapazes, e sacrificamos tudo o que não é urgente e indispensável para cumprir nossas metas que nunca sabemos se um dia poderemos conquistar. E em todos os momentos em que tentamos descansar, sentimos pressa, e ânsia e culpa por não estarmos nos esforçando para fazer o que não teremos tempo para fazer depois. E tudo é muito justificável, e tudo faz muito sentido, e nós gostaríamos de poder investir toda a nossa energia em cada coisa que fazemos. Pelo menos a minha vida é assim.

Mas isso não é motivo para se transformar num escravo de si mesmo. A culpa na verdade só existe porque além de tudo nós sentimos raiva e frustração e não conseguimos fazer tudo o que queremos, e por tudo isso nos sentimos péssimos mesmo achando que estamos fazendo a coisa certa. Esse não é um bom jeito de se viver.

O jeito bom de se viver é se esforçar
em primeiro lugar pra ser feliz
e em segundo lugar para ser capaz.

Resposta ao texto do Rafael (O Aleph, 18/06/09)

Uma parte de mim quer voltar à velha discussão da mitologia moderna sobre a racionalidade não-humana... Mas outra, a maior parte, está quase completamente comprada por essa idéia de que a racionalidade humana nasce no arbítrio. É uma idéia tão bem acabada por princípio! Porque é da necessidade de se tomar uma decisão que nasce a dúvida e a racionalização da situação e seguinte raciocínio que leva a uma solução (ou a mais dúvidas).

Queria muito saber quais foram as tuas perguntas! Assim talvez pudesse ter uma vaga idéia de a que se refere a última afirmação do artista. Já passei por discussões qie me deixaram completamente convencida, mas apenas por algumas horas, até que eu voltasse a pensar no assunto e não conseguisse lembrar de forma alguma o que me convencera. No meu caso foi perturbador porque até hoje discordo daquela idéia, mas como fui convencida dela por algum tempo me pergunto se não é minha ignorância que me impede de ver que ela está, sim, certa. O esquecimento é um demônio particularmente cruel, não?

Sobre as formas da natureza: não, elas não têm nenhuma relação direta e necessária com a racionalidade humana. Na verdade a maior parte das coisas não está necessariamente relacionada, e ainda assim, na nossa mente, se relaciona. Talvez não seja uma questão de gestalt, porque por exemplo a proporção áurea é uma abstração e um ideal de beleza aparentemente arbitrário que entretanto é encontrado nas conchas de diversos animais. Mas, enquanto não encontramos uma explicação perfeita para a beleza do número fi (que talvez seja justamente a sua presença na natureza), podemos aceitar a forma como nossa racionalidade encontra espelhos de idéias em coisas, enxergando imagens como esquemas e manchas como figuras. O artista olha para todas as formas da natureza, e em muitas delas não vê significado; quando consegue encaixar um pouco de significado em um trecho de uma forma, imediatamente estende o encaixe como pode e propõe a si mesmo o significado possível daquele encaixe. O artista vislumbra uma metáfora e se pergunta: será que é uma metáfora minimamente válida? E, ao pensar nisso, ele relaciona signos, cria novos signos, com novos significados, e assim ele aprende algo sobre o mundo. (ou isso, ou eu tenho que me desvincular um pouco da semiótica...)


PS.: vocês acham que eu estou explicando demais o que eu digo?

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Eu recebi inúmeros textos a respeito da greve e afins hoje, como acontece todos os dias desde terça-feira, mas esse de alguma forma eu me senti compelida a publicar. Acho que foi o contraste com o texto anterior, que xingava o Antônio Cândido e Marilena Chauí de todas as formas possíveis sem nenhum respeito por ninguém, e pra falar a verdade naquele site todos os comentários eram tão agressivos que eu comecei a me sentir agredida pessoalmente, só porque eu não concordo com ele. Eu também não concordo com este texto, na verdade. Só acho que foi mais bem articulado que os outros, que fala menos merda. Mas acho que essa questão das assembléias é meio complicada.



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MARCELO COELHO

Sombras sobre a USP
Se as "minorias radicais" conduzem o processo, onde estão as maiorias moderadas?

UM GRUPO de provocadores ameaça a ordem e o Estado de Direito. Impossível negociar com extremistas desse tipo, dado o irrealismo de suas reivindicações. Para preservar a paz da comunidade e o império da Lei, a saída é a intervenção de uma força militar.
Esse raciocínio pode ser aplicado, sem grande irrealismo, à crise vivida na Universidade de São Paulo. De fato, há minorias radicais. Tudo indica que é impossível negociar com elas. De fato, a ordem deve ser preservada. Tudo indica que o patrimônio público precisava ser defendido de invasões e quebra-quebras.
Só que a fraseologia não difere muito da que justificou o golpe militar de 1964.
Aquela época tinha seus extremistas, dispostos, por exemplo, a fazer a reforma agrária "na lei ou na marra". Eram, certamente, minoritários na população. Havia uma ordem a ser preservada, e uma legalidade para a qual os movimentos de massa não conferiam grande importância. Só uma intervenção militar daria conta da "baderna".
É triste ver pessoas de belo currículo democrático, notoriamente perseguidas pelo regime militar, apoiando a ocupação da USP pela PM. Sem dúvida, a polícia age agora com autorização judicial e o golpe de 1964 foi, afinal, um golpe.
Do ponto de vista político, entretanto, as situações se assemelham. Como em 1964, muitos "democratas" agora acham que é preciso reprimir pela força as "minorias radicais", contando com o aparato militar para defender a ordem, contra a "baderna".
Este artigo -prometo- será imparcial. Não vejo valor em alguns argumentos do lado contrário. É muita abstração condenar a presença da PM porque a universidade é um local "de pensamento, não de violência", "de ideias, não de barbárie".
A USP é isso, mas não é um jardim peripatético: é também um lugar de trabalho, onde pessoas ganham salário, reclamam, fazem greves, piquetes e invasões.
Piquetes e invasões não são atos isentos de violência, e palavras de ordem não costumam ser obras-primas de reflexão e de pesquisa. De resto, há uma diferença óbvia entre intervenções armadas que se dedicam a sufocar o pensamento e a liberdade de cátedra, e as que se encarregam de reprimir militantes sindicais.
Convocar a PM foi um erro. Só serviu para acirrar, e não pacificar, os ânimos na USP. A retirada da PM é o primeiro passo para a superação da crise.
O problema é saber por que se chegou a esse ponto -em que pessoas respeitáveis acabam achando que "só a PM resolve essa baderna". Quando acontece isso, um sistema de representação e de poder se revela disfuncional. A política deixa de funcionar e a força prevalece.
Se "minorias radicais" conduzem o processo, cabe perguntar onde estão as maiorias moderadas. Deveriam estar presentes nas assembleias (e piquetes) que decidem mobilizações em nome de todos.
Nada mais alienado do que condenar o fato de uma assembleia "de gatos pingados" ter decidido uma greve quando não se participa dela.
Estivesse presente nas assembleias, a "maioria ordeira" da USP negaria legitimidade aos movimentos de reivindicação. Em última análise, prefere delegar a defesa da ordem à PM.
Diante de dezenas de ativistas enraivecidos, quatro policiais (que não são "a repressão", mas têm nome, estado civil e endereço) foram cercados e humilhados moralmente. Quando chegou o reforço, professores, funcionários e estudantes (que têm nome, estado civil e endereço) foram atacados com gás e balas de borracha.
Tudo se desumaniza, porque está em jogo uma contradição estrutural. Temos uma máquina burocrática -a da reitoria e seus órgãos ossificados de decisão- contra uma máquina sindical -que segue a lógica da mobilização de massas.
Acontece que as massas são imaginárias (reduzem-se a uma minoria) e que a estrutura de poder na USP, supostamente defensora da lei e da ordem, é tudo menos democrática. Quando ninguém representa ninguém, ou representa mal, não há negociação humana possível, e a violência prevalece.
O mesmo dilema levou a crises violentas no sistema político brasileiro, tempos atrás. Minorias "extremistas" se iludem com a omissão da maioria "ordeira", que não se dá ao trabalho de mobilizar-se pela "ordem" e pela "moderação". Afinal, tem as tropas a seu dispor.

coelhofsp@uol.com.br

Bom, então...

Eu li um blog que nasceu hoje e fiquei um pouco envergonhada com o meu. Mais que isso, eu vi meu próprio blog muito tempo atrás e fiquei envergonhada com o meu presente. Além disso, hoje um cara me mandou um e-mail dizendo que a existência de pessoas como eu, meu amigos, meus colegas e o retso de nós, é bastante medíocre. E eu me sinto medíocre. E isso me dá raiva. A gente precisa passar pelos momentos chatos para chegar ao fim das coisas. Eu não estou feliz com viver assim, mas eu tenho uma fé inabalável no futuro.

Mas eu admito que preferia ter continuado seis meses atrás.

Por outro lado, eu nunca estive tão apaixonada.

domingo, 14 de junho de 2009

Eu não acho.

Eu não acho que as pessoas estejam sempre tentando esmagar os outros. As pessoas também se diminuem para os outros subirem em cima, e também estendem suas mãos para os outros, e também se sacrificam pelos outros. As pessoas não são essencialmente competitivas; isso é só um aspecto. Algumas pessoas precisam pisar nos outros a cada oportunidade, e muitas acham que pisar no outro ajuda o outro a querer se revoltar, mas eu não sei se isso é realmente bom, eu me pergunto se não seria melhor abraçar o outro e ir caminhando com ele. Não precisamos sempre exigir em todos as qualidades que nós achamos necessárias. Algumas pessoas são de um jeito, outras são de outro. Você escolheu ser forte e gostosão e ter opiniões sobre tudo e estar acima de todo mundo, mas, embora eu ache que todos nós queiramos em algum nível ser perfeitos, eu não sinto a vontade específica de ser melhor que você, ou melhor que o Márcio, ou que o Henrique, ou que o Zézinho ou Luisinho. Eu me sinto feliz com o poder próprio que cada um tem, com as características únicas que não são forças nem fraquezas. Dá pra pensar que eu simplesmente desisti de perseguir o poder por achar que eu nunca ia alcançá-lo, e isso provavelmente é verdade, mas acho também que toda a perseguição do poder é um nome errado, é uma forma errada de ver e pensar a vida. A gente não precisa ser melhor ou pior do que ninguém. A gente só precisa impressionar a si mesmo.

No mundo em que eu vivo, é sim reconfortante achar defeitos nas pessoas quando você está se sentindo um lixo, porque isso faz você ser um pouco mais conivente, um pouco mais lasso na sua avaliação, você permite mais erros e isso faz com que seja mais fácil alcançar os seus parâmetros, mas também é libertador encontrar qualidades nas pessoas, porque isso não apenas te dá esperança, isso também faz o seu mundo melhor, isso permite aliás que você encontre outras qualidades, muitas vezes não são boas ou ruins, são apenas qualidades, o tipo de coisa que te faz feliz por ser você independente de quem você seja, porque mesmo se você não tivesse nenhuma habilidade, não fosse gostosão e não soubesse nada, você ainda teria sua personalidade, suas particularidades, e sempre seria no mínimo interessante.

Existem muitas pessoas por aí que quando verem sua guarda aberta vão te dar um abraço, vão te proteger, vão entrar cortesmente no seu espaço pessoal e saudar os animais fantásticos que vivem no sua alma. Eu particularmente não me orgulho de nenhum dos momentos em que eu pisei em alguém que estava com o coração aberto. Eu me orgulho das vezes em que eu abracei o coração de alguém, em que eu me arrisquei por alguém, em que eu fui legal com alguém só porque era uma pessoa. Eu nunca me sinto bem por deixar alguém desconfortável (embora em alguns casos seja muito engraçado). Inclusive, Ugo, foi você que me mostrou que nem sempre é bom lutar contra as esquisitices das pessoas.

sábado, 13 de junho de 2009

Naturalmente, outro texto egocêntrico e emo.

Eu tenho mêdo de não ser forte o suficiente, Di. Eu tenho mêdo de não conseguir chegar no final do semestre. Eu sei que é mentira que tudo sempre dá certo no final, a menos que a gente se recuse a reconhecer que é o final até que alguma coisa dê certo. Eu não quero saber nada disso. Eu quero não ter mêdo de nada, eu quero não saber nenhuma das coisas que deixam a gente com mêdo, eu quero achar que eu posso ser mais forte que todo mundo, eu quero ter poderes. Eu tenho mêdo de ser uma pessoa muito fraca ao lado de uma pessoa muito forte. Eu estou cansada de ouvir gente me rebaixando, me insultando, estou cansada de ouvir que eu sou relapsa, que eu sou irresponsável, que eu sou preguiçosa, sim, eu sei que eu fui idiota e infantil nos últimos dois anos, mas agora eu quero ser mais forte, e é tão difícil quando todo mundo fica me lembrando das minhas derrotas, porra! Sim, eu sei, eu não conheço nada de música, eu vivi embaixo de uma pedra, eu quero jogar uma pedra em quem me diz isso, eu sei que eu sou ignorante, eu sei que a única coisa que eu sei direito é amar, e falar talvez, e que a maior parte das coisas que me importam importam só pra mim, e que ninguém deveria ter o direito de formar minha opinião a respeito de mim mesma, mas é tão difícil acreditar nisso quando tudo o que eu tenho são as pessoas, quando no fundo eu joguei fora meus mundos inventados pra ter alguma chance no mundo real, eu sacrifiquei tanta coisa para poder viver com as pessoas reais, e parece que o mundo cobra que eu sacrifique ainda mais, que eu sacrifique tudo, meus sonhos, meus ideais, minha personalidade, o que eu mais detesto é gente como o Ugo dizendo que nada dá certo se eu for tão idealista quanto eu sou, e eu tenho vontades de abrir a cabeça dele com uma pedra, e é muito difícil lidar com eu ter muita raiva de um meu melhor amigo, sabe? Eu estou cansada de ouvir que eu sou uma pessoa incrível mas que eu preciso ser menos eu pra poder ser feliz. Eu não quero isso, eu quero seguir em frente, eu quero vencer, porque eu tenho aquela característa dos Sims "loser", eu sempre fui ruim em quase tudo em que os termos vitória e derrota se aplicam, eu cresci perdendo todas as partidas de todos os jogos, menos quando eu tinha muita sorte, e muitas vezes meu irmão jogava mal de propósito para eu ganhar, mas eu desenvolvi essa indiferença em relação à vitória, eu não quero ser o centro do universo, e eu queria criar um personagem de RPG cujo objetivo de vida fosse ajudar as pessoas, ele teria habilidades diversas mas não seria especialmente bom em nada, não teria exatamente uma postura política, não teria tendência, ele só ajudaria quem estivesse perto dele, e embora eu tenha sim uma moral acho que foi o mais próximo de um personagem que me representasse que eu consegui chegar. Eu não quero mais ser a protagonista, eu só quero ser parte de uma boa história, mas eu quero ser respeitável, e eu sei que pra ser respeitável você tem que ter algumas vitórias, por isso eu quero sim ser forte (e eu ainda tenho resquícios da eu Lôba de antes, que não tem mêdo de nada, diz sempre a verdade e tem poder potencialmente ilimitado) e sim eu sou competitiva nos jogos nos quais eu tenho um mínimo de habilidade (quer dizer, Smash), mas eu prezo mais o estilo que o poder, eu nunca me divirto realmente se eu ganhar demais, eu me acostumei a pensar em mim como uma pessoa que não tem talento pra nada (especialmente depois que eu descobri que eu não desenho nem escrevo tão bem assim - porque eram essas habilidades que as pessoas viam em mim quando eu era pequena). Às vezes eu penso que eu devia fazer como o Ugo e dizer foda-se pra tudo isso e passar a dizer que eu sou foda em tudo e que eu sou o máximo mesmo nas coisas que eu nem sei fazer até que eu me torne realmente bom naquilo, mas me irrita tanto quando o Ugo faz isso! Eu não quero ser uma pessoa agressiva, eu quero ser uma pessoa gentil. As pessoas que eu mais admiro hoje em dia são o Bruno, o Jesus, o SuperFlautas, que são pessoas gentis que nunca pisam nos outros. Eu tenho vontade de proteger o Bruno quando todo mundo pisa nele e ele detesta isso mas continua sendo legal com todo mundo. Eu não sei se eu sei ainda do que eu estou falando. O que eu estou falando é que o meu ideal de pessoa não é mais o Wolverine super forte, super selvagem e super fodão, e sim (oh fuck não temos personagens em comum pra isto) um Usopp, o cara que não é super foda mas fica lá até o fim, seguindo seus princípios, ajudando seus amigos, lutando no meio de coisas feitas para pessoas bem mais fortes que eles. Do que eu estou falando? Eu não sei, aliás, eu não vou mandar mais este e-mail pra você, eu vou, sei lá, publicar no blog, porque isso não tem mais a ver com você, tem a ver com outras coisas, coisas que não são tão importantes, coisas que talvez sejam apenas conflitos internos entre o que eu já fui, o que pensei ser, o que me disseram que eu era e o que eu talvez seja.

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Um texto sem nenhuma validade política, mais inda inevitavelmente moral

E agora? A gente vai pra casa? A gente pára por aqui mesmo? A gente senta e chora? A gente se bate, se debate, se espanca dentro da nossa própria casa?

Pra mim, o fim do mundo é isto aqui.

De um lado, minha casa está caindo aos pedaços, meus gatos estão velhos e doentes e nervosos sujando e destruindo tudo. As pessoas começaram a morrer e não pararam. Existe fim pra isso?

De outro, eu vou pra faculdade ouvindo absurdos e mentiras, acreditar em quem? Eu acho tudo ridículo, greves e policiais, eu entendo o que estão fazendo, mas é porque não consigo enxergar instituições, só consigo enxergar pessoas, e parece que estão todos apavorados.

Não temos tempo pra nada, não temos direito a nada, nós fazemos nossas escolhas sabendo de antemão que sempre estarão erradas. Não podemos parar de estudar, não podemos deixar de sonhar, não podemos deixar a casa cair, não podemos abandonar a família, não podemos parar de lutar por um mundo melhor, não podemos deixar de ver os amigos, não podemos nos perder no meio de todas as dificuldades e atribulações da vida.

Inevitavelmente haverão mais derrotas do que vitórias?

Será que a gente enlouqueceu ou quem enlouqueceu fui eu?