quinta-feira, 29 de setembro de 2005

"Todo fim é um triste novo começo"

Estou me sentindo muito tranqüila, como se um peso imenso tivesse sido tirado das minhas costas. Tudo parece estar entrando nos eixos, de uma forma talvez dolorosa mas pacífica, deixando aquela sensação gostosa e quentinha (ou muito fria e perdida) de fim de temporada de série de TV...

"Os dias vão passando devagar
As coisas encontrando seu lugar
Tudo muda
Menos o que eu sinto por você...
"

Meus amigos parecem estar razoavelmente felizes... Dois deles se acasalaram (no sentido de formaram um casal) e outro voltou do hospital... Estar na classe do Luque e da Luda tem sido um inferno (ouvir piadas infames, encheções de saco críticas extremamente repetitivas e conversas séria sobre assuntos que eu não tenho chance nenhuma de eventualmente entender está realmente me irritando), mas a Lori, o Digo e o Dobs têm sido extremamente simpáticos. Tenho a sensação de que estou me aproximando cada vez mais de algumas das meninas, o que me alegra, e não só entre os meus amigos como no colégio em geral. E tenho falado mais com o JP e recebido menos mordidas do Artur, o que é algo positivo.

Além disso, ontem eu e a Clara adotamos um par de bebês-passarinhos! Eles são mto fofos, e parecem ter um ou dois dias de vida. Aparentemente eles ganharam uns nomes como Pequena Neyleen e Guimarães Rosa e Clarice Linspector e Macabéia e Piu... E segundo a Clarinha eles comem bastante e crescem rápido... É engraçado como são barrigudinhos...

Acho que meu grande objetivo durante estes meses próximos será tirar um A em História, em Física e se possível em Português e P.T., além de impedir que as pessoas entendam direito do que estou falando.

De resto, acho que está tudo mais ou menos certo. Acho que simplesmente as coisas têm que dar certo. Acho que nós temos que seguir em frente, sabe? Não havia outra maneira. Está tudo bem, tudo bem (é incrível como isso faz tudo melhor).

"Vamos descobrir o mundo juntos
Quero aprender com o seu pequeno grande coração...
"

Acho que hoje eu descobri algo de absolutamente fantástico a respeito da vida, que talvez eu soubesse racionalmente mas em que nunca realmente acreditara. Nem tudo precisa ser concreto para existir. Muitas amizades se sustentam num olhar, numa confiança, num sentimento. Acho que o mundo é uma bruma que se esgarça na distância. Somos gotas d'água, vapores, suspiros. Não adianta firmar a amizade — o mais importante é a marca do outro na nossa existência.

"Não basta o compromisso
Vale mais o coração...
"

No fim, somos todos lobos em busca de caça, água, lar e amor. Então não resta nada a dizer. Podemos simplesmente ser o que somos, podemos ser o que sempre fomos. Diante de mim, o futuro se estende escuro e imperscrutável. Estamos numa estranda cujos passos não podemos ver, e a escuridão não diminui. Não tenho outro desejo além de viver intensamente. Os dias passam vagarosos e provavelmente repetitivos, mas não é isso que sinto: sinto que canto as canções que meu coração escreve de repente, sinto que luto a cada dia pela vida e pela beleza. Escrevi algumas dessas canções, mas elas são estranhas demais. O universo se debruça sobre nós. O infinito.

"O que fazes por sonhar
é o mundo que virá
Para ti
Para mim
"

Enfim, em frente.

E boa caçada a todos que à Lei da Jângal se agarram.

quarta-feira, 28 de setembro de 2005

...

* O orgulho dos poetas não passa de defesa; a dúvida atormenta até mesmo os melhores; eles necessitam de nosso testemunho para não se desesperarem. (François Mauriac)



* Escrever verso livre é o mesmo que jogar tênis com a rede arriada. (Robert Frost)



* Eu preferia ser vaiado por um bom verso a ser aplaudido por um verso ruim. (Victor Hugo)

domingo, 25 de setembro de 2005

Uma coisa qualquer

Uma coisa qualquer que me move além das estrelas
me carrega para além do mundo e do seu olhar
Não vejo nada, mas sei que se pudesse vê-lo
eu não o amaria menos, nem mais, do que sei amar

Uma coisa qualquer me carrega, me tira do mundo
eu apenas escorrego nestas gotas de luar
Se é lembrança, saudade, presença, distanciamento
não temo nada, nem devo - hei de andar e andar

Uma coisa qualquer me consome, muda meu intento
eu não falo nada, eu deixo ela vir me levar
nuvens e estrelas, dragões e sereias, e a chuva
lá fora tão doce, no escuro, ela cai sem parar


...

Em dias assim chuvosos, não sei em que pensar. Lembranças de outros dias assim chuvosos me invadem, e eu suspiro e vou levando. A vida é linda, eu acho.

Agora percebo que não disse nada do que queria.

Odeio computadores. ¬¬

Afinal eu gostaria de corrigir vários erros de posts passados, e terminar um que comecei, mas não consigo entrar na página de posts... ¬¬

como o chão do mar

Há coisas que me deixam triste.
Uma delas é te ver chorando, ou a ponto de chorar. Às vezes eu queria te abraçar, te segurar junto de mim e te proteger de todos os males do mundo. Mas aí, eu acho, eu seria todos os males do teu mundo, e isso seria pior que qualquer outra coisa. Foste tu que me fizeste entender que a dor dos outros é pesada demais para que eu a carregue. A tua dor, especialmente, pesou sobre mim como o enorme e cansado corpo de um cavalo de guerra. Mas um... uma pessoa importante para mim... me disse uma vez que cada um tem que lutar a própria batalha, e não há nada que nós possamos fazer para nos ajudarmos. Afinal, "cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é".
É por isso, então, que me afasto e te olho de longe, sem saber de fato o que fazer. Tudo o que eu queria era que pudesses tirar do olhar essa escuridão, essa desrazão, esse vazio todo. Existem coisas que fazem o maior dos homens olhar para o chão. Não és o maior dos homens, mas és para mim um gigante de qualquer forma - acho que mesmo os gigantes não sabem o que fazer com a dor...

---

Acho que às vezes, é o vazio inconformado do seu olhar que me derruba no mundo. 25 de março. Você se recusava a ser tão livre nesse aspecto quanto eu, e eu, com raiva e frustração, atravessava a sala e grunhia, por que não pode sorrir de vez em quando?! Não o conheço, o amo e não o compreendo. E quando eles me perguntaram a razão de um meu já-volto agressivo, eu, sem querer chorar, mas em brasa, disse que não entendia porque algumas pessoas têm que ser tão infelizes — e cantei, porque não via opção além de cantar e sorrir, já que estava em festa. E tentei mais uma vez convencê-lo de que não adiantava ficar mal, mas você com suas respostas parecia me desprezar profundamente, naquele momento.

Mas acho que no fundo tinham ambos razão. Não importa o que eu diga ou pense ou diga que penso, o mundo vai continuar sendo o lugar terrível que é. Pessoas passando fome. Pessoas passando frio. Pessoas sem onde cairem mortas. Pessoas que não se consideram gente. Pessoas sem os filhos, sem os irmãos, sem amigos. Pessoas sem amigos. Pessoas sem objetivo na vida. Pessoas destruindo vidas. Pessoas que não se importam. Pessoas que morrem por se importar. Pessoas que não vêem. Pessoas que não vêm. Pessoas que não ouvem. Pessoas que não sabem. Pessoas que não querem entender. Pessoas que não conseguem entender. Pessoas que não conseguem sorrir. Pessoas que não conseguem andar. Pessoas que não vêem o sol. Pessoas que odeiam. Pessoas que se matam. Pessoas que morrem na rua. Pessoas que não podem sair na rua. Pessoas que não podem sair de uma cela. Pessoas que não fizeram nada. Pessoas culpadas. Pessoas convictas. Pessoas inocentes. Pessoas limítrofes. Pessoas azaradas. Pessoas condenadas. Pessoas sem esperança. Pessoas atormentadas. Pessoas incrédulas. Pessoas vazias. Pessoas frias. Pessoas cruéis. Pessoas tristes. Pessoas agressivas. Pessoas rancorosas...
Qual o problema com todas elas? Será que são fadadas a serem infelizes para o resto da vida? Ou será que podem "fazer de suas vidas obras de arte"?

Mais longe vou, mais perto chego
Não chego a lugar algum
e quanto menos sou, mais ser almejo
sem realizar nenhum
dos meus grandes desejos

Eu fico aqui a escrever poemas. Mas de que me vale escrever poemas? Por que eu tive de me fazer poeta?! Não podia ter nascido em mim o amor à matemática (tão simples e linda, a matemática...) ou à física, ou à biologia, ou à psicologia, ou mesmo à filosofia?! Porque tudo o que penso, gosto, quero ou almejo parece de uma indesejável inutulidade para a humanidade? Há coisa mais inútil que a poesia?! Ainda se eu fosse um Pessoa, um Camões, um Drummond, um... (esqueci), ou uma Cecília... Mas realmente não me vale de nada parar meu caminho até a escola para anotar alguns versos antes que eu os esqueça, ainda mais quando estou (como sempre) atrasada. Então por que o faço..?
Acho que eu sempre terei a esperança de que a sobrevivência não seja o mais importante. Além do mais, por que eu deveria achar queir a atendimentos para bem refazer uma pá de redações para tentar tirar um B em vez de um D é mais útil que escrever um poema para o meu amigo tentando fazê-lo entender por que eu queria protegê-lo, ou escrever uma canção que tenta dizer que a vida vale a pena se vivida intensamente. Ou simplesmente um poema triste tentando desbafar ou me fazer parecer feliz por comparação. Ou simplesmente... tentar alegrar as pessoas, sabe? Falar bobagens como "Im Rum Lifeh?", "Qual é a sua demência?", "Você já olhou pra cima hoje?", "São precisos muitos coelhinhos para isso..." ou "Here's a llama There's a llama And another little llama Fuzzy llama Funny llama Llama llama duck"...

Preciso-me ir, inutilmente mas com boas intenções. Llama heil!
And good hunting all who keep the jungle law.

quinta-feira, 22 de setembro de 2005

BUM!

(Só manifestando minha vontade de explodir...)

Apesar de tudo, continuo achando que é possível, talvez até mesmo imprescindível, transmitir a vocês por estíssimas palavras vazias o fingimento da dor que deveras sinto. Não sou precisamente eu que vos falo: tenho nome, mas ainda assim extravaso, sendo maior que o invólucro nominal a que teoricamente caibo.

Se me matares, nem por isso eu morro.
Sou forte sim - irrascível. Mas não vejo como pode ser a força uma virtude. Acho que estou mal-interpretando o que me disseste. Sou forte, sim, como vós; e os fortes são os que mais sofrem.

Sou um resto de qualquer coisa múltipla - a exemplo, aliás, de Deus e de todos os outros seres ultra-mega-fucking-sagrados.
Por um lado sou Cã submissa (o que parece contraditório, e provavelmente é, mas não mais que o meu olhar) que espera o dono à porta da casa, e que o protegerá contra tudo. Esta cadela amorosa há de fazer as vezes de cão-de-guarda e defender meu coração contra o Demônio, mas quem será mais forte? E sou então feliz, mas apenas quando estás comigo, quando te afastas, sinto dor e mêdo de afastar-me. Então, quando me separo de ti, sinto a dor verdadeira da separação, e aos poucos deixo de ser cã, para ser algo mais cruel, contigo e com todos.
Por outro lado sou lôba feroz, Raksha rancorosa incapaz do perdão e do esquecimento. Agarro-me ao que quero ou quis e não largo sem destruir, demoniacamente. Tenho sobretudo ódio do sentimento de submissão e entrega próprio de amor que por meu dono de cã cultivo, e nesse ímpeto de rancor subverto o amor em desprezo, e a amizade em desejo (isso está começando a ficar poêmico) e deliberadamente confundo os sentimentos para que eu possa ceder ao impulso de quebrar tudo e fugir para onde haja um tobogã.
Por outro lado ainda sou qualquer coisa de livre e alegre e serpente, querendo dominar e devorar a todos com carinho e divertidamente, com esperança no futuro e no agora. Assim sou leoa altiva, confiante, senhora de mim e de todos. Não me submeto a nada, pois quando me subjugam já não sou Bagheera, sou fogo puro, queimando com certo vazio.
E agora, vedes, sou Poeta, fingindo coisas que não sinto e sentindo coisas que não finjo, e fingindo principalmente que finjo, a dor que deveras sinto. Tento falar por mim, mas isso é bastante difícil. Vamos em frente, Malikath.

Acho que Fernando Pessoa não sabia muito bem quem ele era. Acho que nenhum de nós é qualquer coisa de fato, ainda mais quando se engana os outros.
Já paraste para pensar que tua essência está, na verdade, nos olhos do outro?

quarta-feira, 14 de setembro de 2005

Now that made me angry:

Marina C. Salles, your Elfwood ticket #444215 was processed by a moderator.

This is the result:


* Sorry, but some of the items you chose to submit to Elfwood was not accepted by a moderator. We have deleted them from our storage space, and you will recieve a copy of all removed items in a separate email.

Sunset in Curuca has no fantasy/sci-fi element neither in picture nor in its description so it is not suitable for Elfwood. If there is no visible fantasy-sci-fi in the picture you need to use description to explain clearly why is the picture still fantasy. "Incatchable Blue" needs to be cropped so that no sheet border, scanner bed is visible (right and bottom side, possible left as well).Besides every text which is not in english needs to be translated in the description. "One Drop of Blood" needs quality cropping as well, since sheet border is visibe on all 4 sides. "Ride to the Sun" needs scropping on the upper side, besides there is untranslated text in the picture. Either it has to be removed or translated. Same text issue (and maybe cropping on the upper side?) for Wanaifly. Elfwood Ticket #444215 was processed by a moderator at Mon Sep 12 14:35:27 2005




==> curuca.jpg was rejected! Reason: Does not fit in this area.


==> curuca.jpg will be deleted from Elfwood and emailed to: marinacs@uol.com.br.



==> pegaso.jpg was rejected! Reason: Item quality not acceptable.


==> pegaso.jpg will be deleted from Elfwood and emailed to: marinacs@uol.com.br.



==> pegasolobo.jpg was rejected! Reason: Item quality not acceptable.


==> pegasolobo.jpg will be deleted from Elfwood and emailed to: marinacs@uol.com.br.



==> pegazul.jpg was rejected! Reason: Item quality not acceptable.


==> pegazul.jpg will be deleted from Elfwood and emailed to: marinacs@uol.com.br.



==> wanaifly.jpg was rejected! Reason: Other reason...

.


==> wanaifly.jpg will be deleted from Elfwood and emailed to: marinacs@uol.com.br.


A Clara tinha razão: eu devia sair da Elfwood. Que lugar mais cri-cri!

As palavras de uma Talita

"Presa na caverna
Olhando uma fresta
Que luz será essa?
Mostrando um caminho
É como uma seta
Ainda enxugo as lágrimas da noite,
Que esperavam essa luz."
Talita Larini


Incrível, não é? Como ela se assemelha a mim. Só para constar no registro do meu assombro, um trecho de um poema recentíssimo meu:

"Um veleiro no lago - vários destinos
Numa caverna escura, uma fresta
para uma nesga de luz."
(Me irrita a forma como o blogger não permite
repruduzir a diagramação dos meus poemas...
Grumble grumble...)

E repete-se a medonha semelhança:

"Eu sou uma gota d'água, salgada e escondida,
atrás dos olhos de uma mulher sofrida.
Eu sou uma gota d'água, me identifico melhor
como lágrima e cada sofrimento que o coração
passa, ascorro pelo rosto assustado tentando
abafar a dor."

Não preciso, dizer, preciso? Que eu sou um fantasma?

"Eu ainda sou um fantasma
Andando perdido na noite
Sou feita de carne e de plasma
(e leucócitos, plaquetas, hemáceas)
Sangue e lágrimas
Eis o que me compõe"

Talvez... Talvez, eu penso, a grande semelhança esteja na idade. Ela tinha quinze anos quando publicou o livro que tenho em mãos. Eu estou para fazer dezessete, mas já tive quinze, assim como já tive quatorze e, antes disso, uns sete, e me lembro que não é de hoje que o despreparo dos adultos para lidar com a inteligência das crianças e dos adolescentes me dá diversão e desprezo. Não me entendo nesse aspecto...
Essa menina, Talita, deve saber quão sombria é a infância - quão terrível. Crescer não é coisa para criança. E adolescer? Apaixonar-se???
Metade do livro fala apenas do amor, do coração partido, esses lugares-comuns. Mas uma dor tão profunda, tão absurda e esperada, que dói no coração dos outros, dos nossos. As pessoas mais densas que conheci tinham entre treze e dezessete anos...

Ela reacendeu em mim o desejo do começo do ano, o de escrever um livro de poemas. Não falta material - falta tempo. Numa pesquisa rápida pela pasta de Poemas no computador encontro pelo menos 120 poemas digitados. E eu nunca conseguiria delegar as primeiras etapas do processo a outrem, pois só na digitação corrijo, altero e completo muitos dos meus poemas. Agora mesmo, digitando um pedacinho de A Devil (meu mais novo poema parcelado), troquei um "'till he sees I bleed" por um "before I bleed". Uma mudança pequena, é verdade, mas que para mim faz diferença. Também a capiltalização e a pontuação faz diferença.

Acho, porém, que aquela menina não se assemelha a mim nesse ponto. Minha alma de gramática foi se amuando e enraivecendo com as incontáveis distorções de tempos verbais e sujeitos e objetos e minha alma de parnasianista foi se enfurecendo com o que podia ser tanto prosa quanto poetria e ficava num pseudo-meio termo mas ao mesmo tempo que execrável era delicioso desde que não se lesse tudo de uma vez assim devagarzinho saboreando cada frase tudo ficava muito, muito gostoso...

Vou colocar uns poemas meus para acalmar os (meus) ãnimos antes que eu volte a falar de demônios de dentro da gente. Aleatoriamente; o último da lista, vai:

Onde está você?
Onde está, você?

Você que foge, some sem dizer
Você que escolhe a hora de viver
e vive sem falar
e fala sem matar
e sem morrer.

Onde está você?
Aonde vai, você?

Você que escapa, acaba, abarca o ser
Você que engana, emana, ama saber
e esquece que é alguém
e sonha em ir além
e se perder.
[6/9/2005]

e o primeiro:


A chuva cai lá fora
e cada gota que cai
Me lembra a toda hora
que a gente não sai
da vida
que a gente não perde
a trilha
que a gente não cai
da linha
e a gente encontra
saída
a gente jamais
se ilha
a gente nem
desalinha
pra ser feliz...
[para yuri - 17/12/2004]

domingo, 11 de setembro de 2005

Mundos Fantásticos - II

Qual é o pecado de Evanael?

Então, então. Dor e inveja. A própria incompreensão. Tentei mergulhar em outro mundo, um mundo de sonhos, mas a incompreensão me seguiu até lá. E o mistério. E a impossibilidade.
Raios! Realmente eu não consigo me fazer rir, e isso me irrita.
Então, em algum momento, tentei me tornar um deles, um destes que fazem rir quase sem pereceber que tentam. Tentei desenhar - sempre quis desenhar, assim, sempre, e não só às vezes. Então mostrei-lhe meus desenhos, e não ter quase nada novo para mostrar me deu raiva e inveja. Começava a compreender que eu não tinha jeito para os quadrinhos, mas refutava, enraivecida, a idéia.

Não sei qual o meu lugar no mundo, no sistema.

Não ia chorar. Na hora, estava muito feliz - ele queria ser meu amigo! Então ele propôs que eu desenhasse o mistério, e eu aceitei a proposta desafiadora. Só longe dali compreendi o que sentira. O não poder "mostrar o que fiz". Mas "toda pérola tem seu dia de ostracismo", disse Leminsky, e eu perguntei à Mama o que ela achava. Ela disse algo que me fez rir, não do algo, mas de sua possível (e imaginária) reação. Ao fazer o desenho, entretanto, fui aos poucos desvendando a dimensão do problema: a vida é apenas mistério -- todo o resto não é vida. Que mistério pretenderiam Mara, Lyserg, Evan, Aracron, Jolyn, Idle, Akira, Shïr e Bérual desvendar em Pellasith? A vida, meus amiguinhos, é apenas, apenas mistério.

Corta.
Outro dia.

Em que olhava abismada para o mapa e tentava não ver a irrefutável semalhança daquele mundo com este. Estaria eu, então, apenas a reproduzir num mundo mais improvável a existência detse? Por isso então a vida havia de ser terrível, e a verdade, inalcansável! "Madame Bovary c'est moi", há dito Flaubert um dia. Direi eu "Mikai Hwimiktei c'est moi", e temo que seja verdade a verdade. A narradora dessa triste história é também a mãe de seus falíveis filhos, e de seus incompletos mestres e inimigos. Principalmente, é a tutora de seus mortais e letais pretendentes. Matar é a forma mais dura de morrer. "A fome dos outros, sabe?", disse o Hoederer conciliador "também não é fácil de se agüentar."

E aí Ziget --- Ziget.

Qualquer outra pessoa seria a corrupção de Ziget. Ziget não é propriamente um mundo: talvez seja mais próprio ajuntá-lo aos sentimentos, com os quais partilha a inconstância, ou aos ideais, que partilham com ele a distância. Por mais que tenha regras e caminhos, ainda é, de forma fascinante, imapeável na realidade - pois que em seus domínios afloram mapas de todo tipo e de todo lugar sobre sua superfície. O planeta de Ziget é tão uncroiable quanto o do Pequeno Príncipe, e por isso mesmo afirmo que existe: tão absurdo quanto os sonhos e as utopias, é assim implausível demais para unir-se à matéria morfa que compoem os cenários deste mundo e do próximo. Se existisse em outro mundo, eu diria que era o mesmo que não existisse, mas não é assim que acontece: Ziget é por demais livre para prender-se a um mundo; seus absurdos normalizados permitem que ele se prenda como um parasita emtre os dois mundos, e os todos, desafiando meu senso de realidade. Mas não repetem os sábios que tudo é possível? Precisamente por ser possível, Ziget teima em existir, tornando-se fraco e distante, mas perene. Perene.

quinta-feira, 8 de setembro de 2005

Mundos Fantásticos

"É engraçado que quando você pensa em escrever ficção, sempre pensa em magia e dragões e fantasia... Nunca pensa em ficção realista, tem que ser sempre algo fantástico" - Regina Saracenni, mais ou menos

Que é, afinal, que nos leva a criar tantos mundos e tantas perguntas?

Contendo umas lágrimas.

Eu estava pensando, pensando muito. Na verdade, estava lendo Shaman King.

E não achem que venho postar apenas porque são estes pensamentos tristes. Apenas desta vez eu sabia o que vinha dizer.

Entre outras coisas...

Quero compreender Tolkien, que foi como eu, e Lewis, mas também os vivos, como o Oda, o Shirow, o Watsuki, o Samura e o Takei... E também os brasileiros, até mesmo o Lobato e o Pedro e aqueles todos que vocês já sabem. E até (pasmem) meus amigos, até O Bruno, e o Charles, e o MADS (que aliás não mais conheço), e eu mesma. Principalmente eu mesma. E a dor disso tudo. E os mapas. Os mapas...

Por que fiz aquele mapa? acho que foi por inveja. Inveja não do Tolkien, do Lewis, do Pratchet ou dos outros vencedores. Inveja dos aprendizes como eu. Ninguém tem inveja dos mestres... Eu apenas queria ser como eles, pô. Como ele, o cara dos mapas. Dos personagens. Que cobra.

Mas talvez - apenas talvez - tenha sido uma tentativa de fazer um mundo mais detalhado, como o é a terra média. Eu já contei que existe um lugar chamado Dúnedain em algum lugar das ilhas do Mar Oriente? Significa Deserto de Cinzas... Ah, sei lá... então...

Então eu estava desenhando, pelo mesmo motivo anterior, mas mais feliz; desenhando o Aragorne Scorpes e o Jolyn atravessando o Üdain no lombo de um bicho esquisito. E o Charles disse "você não pode fazer isso: o Christopher Tolkien não vai deixar" e talvez ele até tenha razão, mas quem se importa... E eu percebi que eu não me importo muito mesmo, em parte porque eu estou acostumada à idéia de não poder publicar o que eu escrevo, por ter sido discípula de Narizinho e da Emília, e não dos mestres da criação de mundos... Também porque muito do que inventei são Soules, que não podem ser livrinhadas... Mas Marwla... Milkath... Eu até queria fazer um livro. Desde o início da loucura de Mara até a maturidade de Aragorne Scorpes. Mas, se eu não puder publicá-lo, bom, tanto faz. O Hatsw não é Ziget. Evanael não é Bérull. Eu vou sobreviver.

Mas existe outro motivo para eu nunca conseguir criar as histórias de fato... E não é só porque o biólogo gelf Derin Merk nasceu em Bale, ou porque a procissão de escravos ruma para Mecca. Minha procupação é mais abrangente.
...
Vocês, por exemplo, não devem ter reparado em como aquele mapa se assemelha ao nosso mapa-múndi.

quinta-feira, 25 de agosto de 2005

"O mundo vira"

, disse a menina do Comênius. Ou foi a Tainá?

De fato o mundo continua virando... A diferença é que agora eu tenho um pouco mais de consciência da minha posição no globo. Tenho um pouco mais de noção do que acontece comigo. E, de fato, me odeio por isso. Mas não agora. Agora estou mais tranqüila, porque "vai ser, vai ser, vai ter que ser, vai ser, faca amolada".

Dry leaves crushing under my feet.

Não sei muito bem o que dizer. Cara a cara, eu diria tudo o que me vêm à mente (e acho que nos últimos e próximos hojes seria tudo verdade), mas me parece tão insípido falar de tudo tão saboroso por meio de linhas tão virtuais...

Não, não quero lembrar dos sabores. It makes me wanna puke.

It's more complex to be in love with the right guy.

De fato, muitas coisas têm causado em mim repulsa ultimamente. A maior parte das coisas. Não tenho muita vontade de prolongar-me neste assunto. Mas quero dizer: da próxima vez, qualquer motivo valerá a pena. Pena de quê, afinal?
Não tenha dó dos seus sentimentos, Mali, eles servem exatamente para isso.
Farei de meu coração um escravo, um cavalo.
E o mesmo do meu estômago.
Um filósofo (talvez Platão) diria: cavalos brancos e negros. Eu postei sobre isso uma vez. Negro, definitivamente.

Quero explodir, BUM!
Você recolheria os pedaços?

O curioso das cartas de amor é que não importa muito para quem foram mandadas. Quero dizer, às vezes eu tenho dificuldade de entender com quem eu estava falando quando encontroum escrito desse tipo.

Festa, festa, festa. Queria falar com o Ed francamente, mas parece que não nos conhecemos mais. Eu falaria com o Cham, mas no fundo não vejo porque nos falaríamos. Talvez eu pudesse falar com o Bruno ou mesmo o Dalprá — mas sobre o quê? Quero ir a uma festa. Um baile, na verdade, mesmo que bailes não existam mais. Um dia eu terei meu baile, e os rapazes serão cavalheiros, e nós, damas. Quero dançar, virar, rodar e ser rodada, cantar e ser cantada (eu sempre achei razoavelmente divertido o esforço de homens e mulheres de se vender como peixe numa feira durante as festas). Mas principalmente dançar, desvairar, relaxar um pouco.

Queria que o mundo dormisse um pouco para eu poder acordar.

Estou num estado esquisito. Tenho vontade de seguir em frente, mas o que faço agora me importa muito pouco. Ele venceu, mas ainda assim não saberá que venceu. Não sei porque. É, meu coração precisava aprender: a vida não precisa ter sentido, mas precisa ser vivida. Navegar É preciso, não adiante discutir. Portanto, marujo, jogue os remos n'água e para de nhémnhémnhém. Não seja infantil: vá até o infinito. O infinito.

But "something in your eyes
makes me wanna lose myself
makes me wanna lose myself
in your arms"


*suspiro*

I guess I haven't changed at all.
Mais il ai une diferénce: je sais combien je t'aime. Je sais qu'il serais dificile. Je sais comme tu est un piéce de mon coeur... Quel piéce tu est... Eu até mais ou menos sei o que devo saber e fazer...

"And if you knew how I wanted someone to come along
And change my life the way you've done"


Somehow I hoped everithing I said would make sense...
Agora, o que eu posso fazer...

é ir em frente... é ir levando... e deixar rolar com todo o mundo...

o pior de tudo é saber que eu ainda te amo... Eu ainda te amo... A vida não precisa fazer sentido... A vida não faz mesmo muito sentido... Mas talvez... se fizesse... Talvez fosse menos doloroso...

"Hoje pensar em você me faz chorar" - eu mesma, num contexto muito diferente(mas não tanto, se pararmos para pensar...).

quarta-feira, 24 de agosto de 2005

Fome

No momento, não quero sentir mais nada.
Não sei do que posso falar agora.
Não quero falar de amor. Nem sei se amo ou se quero amar. Estou apenas raivosa, desenganada. Mas não quero falar de amor.
Não quero falar de política. Estou pouco me lixando pra porra de redação que eu vou tirar um puto dum D. Não quero falar de leviandades.
Não quero falar da morte, que morte e vida é tudo a mesma coisa. Não quero falar do que sempre falo.
Não quero falar de Evanael, Mara ou Melishkaro. Vocês já devem ter entendido todo o princípio das histórias que vos conto. Chuvas de sangue, destinos trágicos, a coisa toda. Não quero falar de morte.
Não quero falar do passado. O passado me lembra do quão estúpida eu sou, e de como achei que era forte apenas para poder chorar. Não quero falar de suposições erradas, ilusões e desilusões.
Não quero falar de conquistas. Acho que é porque não conquistei nada nos últimos meses. O que conquistei, sinceramente não precisava ter conquistado. Não quero falar do que há além do vazio, não quero abrir os olhos.
Não quero falar de planos. E sonhos não os tenho, nenhum. Não quero falar do que não existe.
Não quero falar da escola. Preciso estudar e isso me tira do sério. Não quero falar de frustrações, do inexorável.


Há qualquer coisa corroendo-me por dentro. Por que dói? Sempre a mesma história idiota. Hoje me sinto bem idiota. O mundo está de ponta-cabeça. Quero atirar-me num rio lamacento. Qualquer coisa que me impeça de existir esta existência fútil amanhã. Quero fugir, ir para uma cidadezinha no interior onde dê pra respirar e, principalmente, ninguém me conheça. Onde eu não tenha motivo pra ser feliz.

Afinal, aparentemente a única coisa capaz de me fazer feliz é ver meus amigos felizes.
Mas não sempre.

Sempre. Idiota. Droga. Raiva. Queria deixar aquele cachorro roer minha mão, que saísse sangue! Perturvador, absolutamente perturbador. Amar, por exemplo, é idiota. Na verdade só para mim e mais umas meias dúzias de céticos. Não sou cética. Apenas, como disse um grande amigo uma vez, eu amo demais, mas não consigo ser feliz com isso.

Mas também, como disse a Cláudia, a felicidade é histórica. Fosse eu inteligente procuraria algo melhor. Destino. Existencialissimamente porém eu escolho meu próprio destino e não há como fugir disso. Existencialismo. Não é difícil lidar com qualquer uma das escolhas, mas, vejam bem, como escolher qual o sentido da vida? A vida não tem sentido, nós é que dizemos o sentido que queremos que ela tenha. Qual destino eu quero perseguir?

Será que quero, como Marwa, viver e morrer na busca por um reencontro no infinito com o amor verdadeiro e o que quer que seja felicidade? Será que quero jogar tudo para o alto e ser feliz apesar dos outros? Será que quero me sacrificar para ver os outros sorrirem? Será que...















Esquece.













Eu não sei muito bem porquê estou chorando. Acho que é essa porra de vida que eu construí com minhas mãos fracas de goleira que deixa a bola entrar mesmo quando acerta a bola. Acho que é essa vida de mentiras. Acho que... não aconteceu nada... nunca... mesmo.













Acho que eu poderia dar uma explicação, se você me perguntasse. Mas seria uma explicação que mudaria a sua vida e a minha, inevitavelmente. Qualquer coisa que mataria o dragão, o príncipe e o lobo mau. Acho que, quando eu choro, é porque penso "droga! fiz de novo".

Mas, afinal, não é a vida apenas a conseqüência de nossas escolhas imbecis?

Qualquer que seja a verdade, eu preferia que....




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É, tem razão, não vamos pensar mais nisso.

quinta-feira, 18 de agosto de 2005

Porque escrevo, sou apenas mais uma dentre tantas que não sabe se pensa, conta, fala ou apenas deslija acidentalmente.

Na verdade todos os deslijes são acidentais.
Desde quando sou admin do Pato?

Bom, vamos voltar ao assunto:

Por que escrevo?

Na verdade esse assunto veio meio por acaso. Originalmente o texto não seria sobre este assunto. Mas o escrever em si é uma arte tão sublime que seria pecado não comentar seus sentidos mais profundos e declamá-los, assintosamente, na mais pública das praças.

Não, não! Escrever é atividade manual. Trabalho braçal. Mecânica bruta. É a criação das frases que se faz sublime. O escrever em si é conseqüência.

Mas o que é escrever? Escrever não é o ato de dispôr palavras, contruindo textos? Ou seria isso falar? Ou seria viver? Através de palavras, concretiza-se a vida.

Talvez não. Talvez seja o mundo maior que eu, que nós todos. Escrever é um registro, minha contribuição para o material dos historiadores do futuro. Estes impulsos elétrico que vos mando, naturalmente, serão em algum momento perdidos. Mas não podemos perder a esperança! Quem sabe, no futuro, o mais distante dos meus descendentes venha a concluir algo de fundamental sobre nossa época, nosso mundo e sua própria vida quando reencontrar o caminho destes símbolos arcaicos?

Ou talvez seja apenas um registro para mim mesma. Talvez eu espere que quando eu tiver a idade de meus pais, estes textos cifrados sejam a chave da minha auto-consciência. Talvez através deles eu consiga resolver todos ou meus problemas emocionais.

Ou talvez eu espere que algum dia eu possa mostrá-los para um psicólogo e perguntar ingenuamente: "O que você acha, doutor? É grave?"

Ou talvez (nisso vocês não pensaram), talvez eu esteja escondendo aqui por meio de um código complexo instruções e anotações precisas do meu plano de dominação do mundo — juntamente, é claro, com a receita do Feijão Azul que aprendi no Livro dos Feijões.

Ou talvez eu me divirta muito com meus próprios pensamentos, e goste de ficar lendo o que escrevo de novo e de novo e de novo tentando compreendê-los, assim como repenso mil vezes cada coisa que faço numa tentativa desesperada (aliás, aficiente) de explicar porque fiz todas aquelas besteiras. Até me convencer de que fiz tudo certo.

Acho que vale considerar que imaginar a reação dos meus queridos amigos quando me lerem pode ser também um elemento de diversão e aventura — algo meio fundamental na minha vida. Sempre fico vagamente apreensiva, pensando em como posso mudar nossas vidas com meras palavras. Mudar me traz uma fascinação terrível.

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Mas acho que nenhuma dessas respostas satisfaz. De fato o mais importante é que eu acho divertido escrever. Gosto de todas as etapas do processo. Gosto de sentir o poder oculto nestes tipos eletrônicos, o qual me permite a comunicação através da rede.
Ouso dizer que escrever para vocês é como tocar para uma cidade de anjos, cujos ouvidos sensíveis compreendem a sutilezas dos quartos e oitavos de notas, e cujas mentes incorruptas não podem extirpar da malodia nenhum mal, nenhuma heresia, por não serem capazes de adivinhar tal vilania; a cidade de santos que dança serenamente a cada ruído melódico que a natureza emite em sua completude.
Mas a cidade dos anjos está em silêncio. Eles não podem falar, pois é muito fresca a lembrança do caído. Eles não vão continuar sua lembrança. Ele deve ser esquecido e enterrado, junto com todos os mortos e perdidos que a cidade possa ter um dia visto tombar.
Evanael. O orgulho de Evanathea. A águia dos olhos dourados, cujo coração era pura bravura e paixão. Cuja paz consistia na perfeição. Evanael. O mais humano dos anjos, cuja sede de conhecer não se saciava com as maravilhas da utopia — para quem a cidade perfeita não era o suficiente. "Eu quero o mundo", dissera ele antes de partir.
"Você tem o mundo, Evanael", responderam os sábios: "O mundo de Evanathea, a verdadeira cidade dos sonhos!"
Mas não adiantou. O que o rapaz queria era a única coisa que ele jamais poderia ter. "Eu não quero sonhos", ele dissera aos sábios; "eu quero a realidade".

Mas o que é real, o que é real??? Viajando por um mundo de demônios, Evan descobre que mesmo fora da cidade dos anjos é impossível encontrar a realidade em sua essência. O mundo que se lhe apresenta é apenas de aparências. Mesmo nas Lápides de Pellasith o anjo encontra apenas dúvidas e mistérios. Antes que possa ouvir o dobrar dos sinos, Evan parte em busca da inocência e da paternidade. Um rapaz muito jovem o atrai com suas mãos cobertas de sangue. Então ele retorna a Pellasith, e as badaladas revelam a ele o sincero e o verdadeiro. Mas seria a verdade a realidade?

Acho que Evan morre antes de cumprir seu objetivo. Mas não acho que ele teria alcançado o moksha se tivesse continuado vivo. Para todos os efeitos, ele ainda é o anjo mau, o anjo pecador. E qual o pecado de Evan?

domingo, 14 de agosto de 2005

"Never look back"

As pessoas vivem dizendo coisas assim, "Não chore pelo leite derramado", "Seguir em frente sem olhar para trás", "Águas passadas não voltam mais". Pois é, não voltam. Ainda assim, perdemos tempo e energia procurando coisas pelas quais nos apaixonamos quando éramos crianças. Por exemplo, quando eu era criança inventei histórias demais. Tantas, que nenhuma delas era lá muito interessante. Na verdade, até que eram bem legais. Mas aos poucos eu fui me dando conta de que elas eram impublicáveis, pois só falavam de mim, da minha vida, e de como eu queria que ela fosse. A Louba Zaty nada mais é do que uma projeção de como às vezes eu queria que minha vida fosse. O interessante é que em certo momento a Louba torna-se cansada e amargurada por todo o sangue derramado e todo o horror que presenciou ou do qual tomou parte. Talvez fosse uma espécie de consolo, como um dizer: se você vivesse assim, seria infeliz também. Mesmo assim, eu sonhava com Ziget, terra da liberdade, onde eu podia tudo, e tudo era um sonho infantil. Sempre que me refugiava lá, o planeta inteiro me recebia amorosamente, como uma velha companheira que há muito não voltasse para casa. Acho que era essa toda a idéia. Por isso várias vezes eu deixei Ziget, para retornar anos mais tarde. Acho que de quando em quando eu fazia um amigo no mundo real, que fazia a voda um pouco menos terrível. Agora, porém, estou matando essa criança, e abandonando a Velha Floresta, onde procuramos cristais e em cujos rios nos banhamos tranqüilamente, mais uma vez.

Hoje, estou assassinando sonhos infantis. Estou quebrando minha coleção de espadas, e é com dor no coração que vejo-as se desfazendo em pó. Sentirei falta de Ziget, dos gigantes azuis, das casas na floresta ou na montanha, daquele gosto de sangue. Mas são águas passadas. Não há nada à minha frente, mas morro se olhar para trás. Hoje, mato uma criança. Hoje, não sou mais quem fui. Quero superar minha incapacidade de deixar para trás quem me amou mais do que eu sabia amar. Quem, aliás, me fez notar o quanto eu não sabia amar. Estou iniciando uma guerra contra um sentimento ao qual não posso me apegar. Estou apagando-o. Oficialmente, vou lutar por ir além do que sempre fui. Vou dar um significado aos meus desenhos. Vou escrever minhas histórias, mas não aquelas que não posso publicar. Não quero mais fazer fics. Não quero mais chorar. Vou devolver o demônio ao seu inferno. Acho que pela primeira vez quero fazer um amigo, de verdade. Sem enganar a ninguém, nem a mim mesma.

- O que não significa que Aragorn Scorpes vai mudar de nome. Espero que não haja copyright sobre o nome. -

Uma reportagem na VEJA dizia que as mulheres são capazes de reviver intensamente suas experiências emotivas, enquanto os homens se esquecem das coisas rapidamente. Acho que está certo. Metade da minha dor consiste em reviver aqueles momentos passados e saber que eles pertencem ao passado, que o que estamos vivendo agora não inclua o que já vivemos. Eu queria poder viver tudo de novo: me apaixonar de novo, te conquistar de novo, o primeiro abraço, o primeiro eu-te-amo, o primeiro beijo. Lembro do que senti, de quão mais doce pareceu o aroma do mundo naquele momento. O quão perdida me senti, por saber estar abraçando um coração, e ao mesmo tempo lacerando outro. O quanto, entretanto, me pareceu certo mesmo assim. É difícil deixar algumas lembranças para trás. É difícil não ficar pensando nelas, pensar em como as coisas poderiam ter sido diferentes. Mas isso não só não leva a nada, como também machuca.

Por isso, hoje estou deixando o passado para trás. Combinei comigo e com o O'Boy viver no presente, o tempo presente, os homens presentes, e deixar o passado e o futuro com os outros tempos desinteressantes do sistema, como a eternidade e o nunca.

"O passado e o futuro são fúteis."

Why Hearts Shouldn't Twirl

Sexta, na festa da Clara, tudo o que eu queria era estar feliz e ter idéias boas e falar coisas inteligentes e ser divertida, mas nisso fracassei tremendamente. Não havia definição melhor para Tristeza. Queria me jogar num poço, adormecer para sempre. Não foram as pessoas, realmente. As pessoas com quem eu estava eram legais, carinhosas, inteligentes, bonitas, e eu as adoro.
Acho que foi toda essa situação, sabe? Essa situação confusa de transformar uma relação que havia se transformado desesperadamente em algo íntimo e secreto em algo anterior ao que era há alguns anos, já. Reverter uma amizade. Ou criar uma. Criar uma amizade em moldes que eu nunca usei. Estou tentando resolver asse situação há alguns meses, mas tudo fica sempre um pouco difícil, sabe? Sorrir, brincar, lutar, finjir que nada aconteceu. E, no fundo, quando estou sozinha, não conseguir parar de pensar nisso. Na verdade, hoje vejo que nem tentei. E não foi só porque não via realmente o objetivo. Acho que era porque não tinha caído a ficha, eu não tinha me dado conta de que tudo o que fizemos não só é irreversível, como é passado. Estamos numa nova era, agora. Uma era em que a liberdade se define por estranhos, incoesos desafios.
Ocorreu-me que o grande mal era eu não parar de pensar nele. Afinal, se ele havia me superado, o que é que me impedia de superá-lo? Ainda mais considerando que foi minha opção não estarmos juntos? Isso estava errado, confuso, não devia ser assim. Criar histórias, "apenas minha imaginação fértil", era divertido, sim, mas eu estava apenas brincando com fatos surreais, apenas distorcendo a realidade, distorcendo meus próprios sentimentos. Acho que eu achava que podia fantasiar com tudo o que me fosse proibido para pseudo-saciar-me, me impedindo de quebrar minhas próprias regras. Deus... Como pude ser tão hipócrita?
Lentamente, minha compreensão das coisas mudou: comecei a compreender que certos estímulos levam-me a inventar histórias sobre um tema que me interesse (e que ultimamente tem sido relacionamentos amorosos), que automaticamente minha mente evoca personagens para representar a peça. Isso tudo seria razoavelmente legal, se os personagens não fossem corruptelas de pessoas reais da minha vida. E se isso não fosse uma forma desleal de afastar-me da realidade. E se ele não fosse um dos personagens.
Afinal, essas histórias não eram apenas uma inocente e desesperada fuga da realidade. Eram uma forma de encarar a realidade - pôr à prova meus sentimentos - porém sem compromisso e sem sonseqüências. Uma forma de entender a realidade, sem permitir que ela me entendesse. O pior lado disso, eu diria, é que essa exposição de sentimentos a todo tido de situação hipotética faz com que o coração (aqui símbolo do conjunto de sentimentos e amores de um ser humano) se atenha a sentimentos incoerentes com a realidade não-hipotética.

"So you can't go on creating those stories because, as you already know, stories like those make you heart twirl. And you have said it yourself: twirling is not the kind of thing that hearts should do. Twirling is what the planets do and what twisters do. But hearts shouldn't twirl - unless, of course, you're dancing. Hearts must be somewhat steady" - I told myself. And I believed it alright.

Naquele momento, voltando do colégio num sábado à tarde, fiz uma promessa a mim mesma (e ao O'Boy): não mais eu criaria histórias nas quais eu e pessoas da minha vida real fossem personagens. Não mais brincaria com meus sentimentos. Não mais testaria em pensamentos várias opções. Se quiser testar uma possibilidade, como decidi, tenho de estar preparada para as conseqüências. Tenho que pagar para ver.

Na verdade, me proibi de criar histórias de caráter pessoal, mas seguir essa regra está sendo extremamente difícil. Várias vezes já me peguei criando um começo de história sobre qquer coisa. Mas como o importante não é o começo (um mero pensamento), mas o desenvolvimento da história, não me preocupo muito. Além disso, pretendo reverter meu potencial narrativo para ficção - até comecei um caderno novo para anotações a respeito de quatro mundos diferentes: HatsW, Ziget(pré-história), Nimeran e a Terra na versão de Arflack (com estes dois últimos não estou muito confiante...). Acho que pode dar certo. Pode dar certo.

Agora posso esquecer tudo... *suspirando de alívio*

"Amanhã farei grandes coisas."

"Eu fui sempre assim."

Ontem foi um dia estranho. Acordei cansada, queria dormir a manhã inteira (mais ou menos como fiz hoje), tomei banho e café e logo o Marco e o Dan me chamaram para trabalhar (guardar coisas no forro). Uma hora depois, ainda mais cansada, fui para a escola com vontade de não ser ninguém. Lembranças de todo tipo passavam por minha mente, e quando lembro de alguma coisa realmente eu vivo ela outra vez. Lentamente, meu desejo de ir em frente diminuia. Eu não queria fazer aquela prova idiota, não queria falar com ninguém, o dia inteiro. Fantasiava, historiava fugir por um dia para o Jardim da Luz, encostar-me numa árvore e passar a tarde desenhando. Voltar antes do sol se pôr, almoçar na lanchonete da Pinacoteca. Ficar desenhando, desenhando... Lentamente, minha vontade de seguir com a minha vida ia morrendo, acabando. Mas meu anseio pela vida, não. Queria ainda existir, tinha um pouco de fé, ainda! Cheguei no colégio. Andando despreocupada até cruzei com o JP, a Paulinha, a Gabi. Nem um cumprimento: passei reto. Eles não me viram, e eu não precisava de que me vissem. Foi como se não os conhecesse, como se fossem apenas colegas de escola, como tantos outros por quem passo sem cumprimentar. Não me interessava por amigos. Minha vida estava vazia. Tinha perdido a fé em mim. Não que não acreditasse em mim, que não me achasse capaz - simplesmente não gostava da mim, queria ser mais divertida, mais inusitada, mais surpreendente. Queria ser engraçada como o Charles e a Clara. Também queria ser misteriosa. Queria despertar curiosidade. Queria dar prazer, diversão, certeza. Estava tudo errado. Não queria mais ser eu mesma. Não queria mais ser sincera. Não queria mais finjir que eu era especial simplesmente por ser eu mesma. Queia ser especial de verdade. Queria poder entender porque meus amigos gostam de mim. Queria ser legal, eu acho. Queria fazer amigos. Queria me superar. Queria parar de imaginar cenas de lutas toda vez que me distraía.

Acho que eu estava triste. Sim, eu estava triste, é óbvio.

Acabei cumprimentando o Yuri e o Dobay, mais por dever do que por qualquer outra coisa. "Que foi?", perguntou o Yuri, e acho que eu repondi que não era nada, que... *suspiro*. E mesmo depois da prova eu continuava triste, apenas triste, apenas Malikath. Queria a solidão, o desapego de todas as coisas vivas. Ou talvez um abraço de árvore. Ou chorar. Tudo parecia inútil.
Ficava lembrando do Evan e do Lay (os anjos que matei em uma de minhas histórias) e pensando em quão desesperador seria encontrá-los de novo e de novo perdê-los, pois o tempo e a distância impediriam que encontrassem-se em liberdade, e que pudessem amar livremente. Essa história é bastante emblemática: hoje vejo que matei os dois lindos anjos porque, apesar de tudo, não sou loba de verdade, e também porque não consegui decidir qual dos dois deveria viver. Uma loba teria deixado que lutassem até a morte, e festejado a vida do vencedor. E se tivesse verdadeiramente feito a escolha, teria protegido o escolhido com garras e dentes. Quando criei essa história, ainda não tinha realmente me apaixonado por ninguém (ou seja: foi antes do colegial), mas ainda assim...

E aí, no caminho de volta para casa, fui me dando conta de que eu não estava infeliz, eu era infeliz. Passava os dias assim, remoendo dores e perdas, a maior parte conseqüência de opções conscientes. Ficava assim divagando sobre a vida sem muita vontade de vivê-la. Ficava chorando por não conseguir ser diferente, por não querer pagar o preço por ser diferente. De repente me vi extremamente perdida, desiludida, desenganada, e não compreendi. Me perguntava como e quando ficara assim, o que havia em mim e em minha vida que me fazia tão triste, tão só, tão desgarrada. Tantava entender minha prórpia solidão e desalento e não conseguia. Me perguntava quando deixara de ser uma menina feliz. Quando que meu sorriso deixara de ser verdadeiro. E de repente compreendi. A verdade dançou aos meus olhos e foi mais terrível do que eu pensava. Mas ela estava lá, era só agarrá-la, e eu não tinha nada a perder. Então, percebi:

Eu sempre fui assim.

Inegavelmente é verdade: me lembro de mim aos cinco anos absolutamente solitária, comendo sozinha no recreio, e os meninos roubando meus brinquedos e jogando-os no telhado... Me lembro de passear sozinha ao redor dos campos e das árvores do colégio por todos os oito anos do Ensino Fundamental. Me lembro de sentar para escrever, em noites de 1999, porque meus pensamentos em enxurrada não me deixavam esquecer tudo e dormir. Me lembro de confessar para mim mesma declarações de ódio a mim mesma, à minha mãe, à minha irmã (aliás, eu cheguei a escrever isso, e depois rasguei, pois gostava demais de minha irmã, a admirava demais e a amava demais para realmente acreditar no que escrevi), ao mundo. Me lembro que "amigos são as pessoas de quem eu ando ao redor no recreio". Me lembro que eu não tinha amigos. Me lembro de ficar feliz quando alguém falava comigo, porque não costumava achar que alguém quereria falar comigo. Me lembro de tremer ao falar qualquer coisa em classe, o que, aliás, faço até hoje. Me lembro de chorar, absolutamente sozinha, de saudades dos meus amigos do pré, na terceira série. Me lembro de pensar em fugir de casa um sem-número de vezes. Me lembro de não conseguir parar de chorar. Me lembro de me odiar por não conseguir mudar. Me lembro de ter raiva de todos por não me fazer compreender. Me lembro de não deixar ninguém chegar perto, de me irritar quando alguém falava comigo.

Acho que essa é uma das razões pelas quais eu decidi mudar minha vida. Decidi que não vou mais me esconder do mundo quando tiver raiva dele. Vou lutar contra ele, como o Yoh luta contra o calor. Não quero mais ser passiva. Não quero mais imaginar que digo coisas às pessoas em vez de realmente dizê-las. Quero viver a vida real, fazê-la valer. Quero lutar para que a vida seja como ela deve ser.

"E quando o dia de amanhã vier, caçaremos para o dia de amanhã."

A Respeito da minha Crueldade

Basicamente, eu estou escrevendo esta coisa à uma da manhã por-que (tá bom, eu vou deixar este hífen aí pq achei curiosa a colocação dele...) acho que este texto é razoavelmente importante para a compreensão da mudança que se deu em mim para que eu pudesse chegar às conclusões expressas nos textos seguintes (que aliás são meio repetitivos, espero que você não se importe...)

O negócio é o seguinte: eu sempre achei minha relação com o Yuri meio esquisita, primeiro porque, quando fomos amigos, eu não considerava ele nada próximo de um amigo, segundo porque, quando eu me declarei para ele e ele deu uma resposta idiota (e eu não conseguia dizer em voz alta que ele era idiota nem para mim mesma...), eu decidi que ele seria só um amigo e ele decidiu que seria meu namorado, e terceiro porque nós começamos a namorar quando eu finalmente conseguia dizer em voz alta que ele tinha sido idiota e quando eu ainda estava com muita raiva dele, apesar de amá-lo. E imagino que do lado dele da história ajam outras tantas esquisitices.

Acho que isso é um dos tijolos de sustentação do que vou explicar mais adiante. Outro é ainda mais confuso: envolve, para começar, uma idéia antiga de que uma pessoa não pode, simplesmente, ter um único amor, ou um único namorado durante sua vida inteira. Às vezes eu acredito nisso, às vezes não, mas de qualquer forma é mais ou menos por isso que eu me sinto meio estranha quando alguém fala que eu e o Yuri estamos casados.

E eu também acho que a estranheza da minha relação com o Cham também teve uma influência em tudo o que aconteceu - mas não vou falar sobre isso, no mínimo por uma questão de respeito a quem não vai ler isto aqui (quite some people).

e então tem Julho. êta mês estranho. Julho foi interessante. Não feliz - na verdade, foi confuso, depois triste, depois vazio, depois surreal, depois infeliz - mas bastante interessante, dado tudo o que aconteceu.
Primeiro, foi a viagem a Campos. Acho que não preciso detalhar nada, vocês já sabem, basicamente, o que aconteceu. Ou podem imaginar. Foi bom, na verdade, em muitos estratos. Gostei de conversar com a Gabi e com o Cham (não juntos) sobre coisas das quais nunca tínhamos realmente falado. Além disso a viagem em si foi ótima, divertida, etc. Eu até descobri que consigo passar dez dias inteiros com o Luque e ainda querer vê-lo no dia seguinte. Mas, realmente, acho que a última coisa de que eu precisava naquela viagem de volta era ouvir aquela maldita música da Dido... Ouvir, finjir que não ouvir por trás da dela a voz dele cantando... Porque ela dizia

"I will go down with this ship
And I won't put my hands up and surrender
There will be no white flag above my door
I'm in love and always will be"

E realmente não era isso que eu queria ouvir... Não no estado em que eu estava, não depois daquele pacto... E mesmo quando minha mente me convenceu de que ele estava mais propenso a jogar a toalha que o eu-lírico dessa música, meus sentimentos, em ebulição, já não permitiam que eu me sentisse feliz com o pacto que fizéramos... Tudo o que um dia parecera infinitamente mais certo que o gosto de sangue daquele demônio ruiu, violentamente.
Quando cheguei em Sampa minha vó estava doente. Meus nervos não aguentavam, eu precisaria de muitos abraços. Mas não fui para casa - quis evitar uma crise de abstinência. No dia seguinte, chorei a dor da minha mãe, que perdera a própria mãe. Muito difícil esquecer aquela viagem e aquela música (releiam o post da ocasião para notar), mas mesmo assim deixei o assunto para trás. Os dias se passaram, vazios.

Durante esses dias que se passaram, não consegui me convencer nenhuma vez de que eu realmente devia estar namorando o Yuri. Pensei em mil argumentos para terminar nosso namoro, yet sempre havia também algum empecilho, como minha noção de que se eu o deixasse não teria como explicar meu retorno, no dia seguinte. Achava que um pedido de perdão não ia nos fazer mais felizes. Minha mãe costumava dizer que não se deve incitar a insegurança. Talvez esse argumento fosse o suficiente para acabar com a discussão, mas os sonhos não ajudaram. O gatodemônio me acordou uma manhã com uma proposta indecente. Olhei ao redor, confusa, o quarto vazio, silencioso. Durante esses dias, não senti amor. Acho até que me desapaixonei.
Ao menos foi isso que contei a mim mesma, e ao Yuri, quando estávamos viajando. Acho que eu fui para a Chácara porque lá parecia haver privacidade o suficiente para que eu pudesse contar a ele que não o amava mais, que não via mais sentido em estarmos juntos. Mas eventualmente não sabia mais o que significava amar. E então tomei consciência do que queria dizer aquela frase da música, "Se para sempre é sempre por um triz"... Só então quis de novo dormir nos teus braços, e disse eu-te-amo.

Depois disso aconteceu um monte de coisas. Como eu disse, os sonhos atrapalham: sonhei com uma carta de amor. De novo fiquei insegura, cheguei à estranha conclusão de que estar com o Yuri era "menos pior" que estar sozinha e que isso era idiota e que eu tinha que enfrentar a liberdade. Por fim, sosseguei. Percebi que estar com ele era simplesmente muito bom, muito tranqüilo, muito acertado, para ser apenas "menos pior" que alguma coisa que aliás não é tão ruim.

Mas cheguei a uma conclusão mais adorável: na verdade, tudo aquilo fora para me convencer de que podia ir embora quando realmente não houvesse mais motivo para continuar. Ficar com ele me assustava porque eu amava-o demais, e parecia estranho amar tanto alguém que eu demorei tanto tempo para perdoar. Além disso, às vezes achava que ia ficar com ele para sempre, e isso não só parecia estranho como vagamente desconfortável, já que ele é meu primeiro namorado (claro que sempre existem minha vó ou os pais da Matsu para dizer que não tem nada de errado com isso). E acho que a idéia de pertencer a alguém sempre me incomodou; tanto que tive ódio do Y-kun quando ele disse "Você é minha", tanto que na verdade eu nunca consegui entregar-me totalmente a nada ou a ninguém.

Por isso tudo estou agora mais tranqüila, e resolvi levar adiante o que começara tanto tempo atrás, e que nunca funcionou direito(eu vou dizer isso de novo várias vezes nos próximos posts... ¬¬''). Me sinto mais livre agora, livre para pensar em outras coisas, livre para ser quem eu quiser. Depois que percebi que eu apenas precisava provar que eu era independente para poder entregar-me ao meu amor (amar é pertencer), sinto-me realmente mais segura. Mas ainda restavam outros problemas a serem resolvidos, os quais serão discutidos em outros posts.

"Sou fera, sou bicho, sou anjo e sou mulher
Sou minha mãe e minha filha,
Minha irmã, minha menina
Mas sou minha, só minha e não de quem quiser
Sou Deus, tua Deusa, meu amor"

Assuntos (entre outras coisas)

Bom, um dos vários combinados que fiz comigo mesmo durante o fim de semana foi o de postar uma lista de sobre o que eu realmente preciso falar (ou quero), e então escrever um post para cada assunto.

Mas, antes de começar, eu gostaria de tomar banho. Depois disso, eu devo fazer um comentário a respeito de mais uma pequena mudança no funcionamento do meu raciocínio (i)lógico. *vai tomar banho*

So here's me again.
Como eu ia dizendo, eu percebi uma coisa nova esses dias. Adoro quando eu descubro coisas novas. Na verdade eu descobri algo bem óbvio, que é mais ou menos o seguinte:

Minha mãe, como todas as mães, vive perguntando coisas e dando conselhos (os quais muitas vezes eu fiquei feliz ao seguir), muitos deles do tipo "faça isso", "faça isso antes daquilo", "demonstre isso", "oculte isso", "não faça isso", etc. E eu costumava achar que os conselhos dela, embora às vezes fossem desagradáveis, deveriam estar certos. Mas, de repente, eu me toquei que minha mãe é uma mulher casada, de 46 anos, com três filhos, que trabalha o dia inteiro em vários lugares diferentes, que estudou na Waldorf, e mais um monte de pequeninas coisas que tornam a vida dela extrememante diferente da minha. Daí, meu raciocínio vaguíssimo me levou à percepção de que a maior parte das pessoas que me dão conselhos se baseiam na experiência pessoal, o que faz que talvez o que elas digam simplesmente não funcione comigo (às vezes nem com elas).

Minha conclusão é mais ou menos esta: estou meio de saco cheio de obedecer o bom senso comum; não quero mais esconder nada - quem não quiser saber o que eu penso lá comigo pode simplesmente não ler; o que o senso-comum diz que é óbvio muitas vezes não é óbvio para nós - portanto, como fazer uma análise complicada de tudo o que se ouve é muito dispendioso, na dúvida eu vou simplesmente fazer o que parecer mais legal, e se eu me ferrar me ferrei. Tem que haver alguma vantagem em se estar no começo da vida (além da saúde e das descobertas), né?

Agora, sobre o que eu tinha decidido escrever?

- Por que escrever?
- Why hearts shouldn't twirl, porquê não posso mais criar essas histórias et mon nouveau cahier (que n'importe pas beaucoup pour toi)
- A diferença fundamental entre calcinha-e-sutiã e biquíni (em homenagem à Luda (e ao Charles))
- Eu tenho muitos cadernos
- "Never look back" e a reportagem da veja
- "Eu fui sempre assim" e as definições
- A inflexão do Other e minha paixão por gramática
- Uma breve explicação a respeito da minha crueldade

Enjoy the ride.

sexta-feira, 5 de agosto de 2005

Tentando encaixar as partes com peças antigas...

Flor da Noite

Pelo que tu clamas
Pelo que tu chamas
Quando te vejo só
e sem saída?

Qual é a verdade insana
Que faz essa força estranha
Que te faz desesperar-te
e a mim em seguida?

Do que que tu reclamas
O que apaga-te a chama
Quê destrói teu pobre
coração só?

Pela luz que o Sol derrama,
Qual a força desumana
Que nos desfaz e nos faz
voltar ao pó?
[9/julho/2003
Quando abri os olhos, nada vi
na grande escuridão que me envolvia
A terra sob mim, tão dura e fria
foi em longo tempo tudo o que senti
pois de repente nada mais havia
na grande perdição que me cercava
e tudo aquilo o que eu tanto amara
me abandonara na noite vazia.
Mas eis que nesse nada a luz surgiu
As minhas mãos, marrons, foi colorindo
e vermelhos meus olhos que choravam.
E o mundo, novo, vívido, se abriu
e a quase nada a luz foi reduzindo
a escuridão que minhas mãos guardavam.
[setembro/2004]
Eu não nasci para ser olhada
mas para ser vista
e não enxergada.

Eu não nasci para ser descrita
mas para ser questionada
e não compreendida.

Eu não nasci para fazer as coisas simples
pois é muito fácil fazê-las complicadas
Eu não nasci para amar e ser amada
ou para declamar poemas, cantar passarinho
Poemas, poesia sim, mas que coração agüenta esse furacão enlouquecido?
É tão mais fácil jogar tudo para o alto
Eu não existo para amar uma só pessoa,
e não, eu não sei fazer escolhas.
Eu não sei me compreender
espero que entendas:
Eu não vivi um dia para ter certezas
mas para ser dúvida pura, eternamente.
[31/5/2004]

Ou, lobo, cantaria a noite,
ou, lobo, correria a luz
do dia sobre seu flanco peludo
das tochas sobre seu torso feridos
o mundo sobre seus ombros ranindo.
A cor da lua era um sonho de prata
a iluminar uma noite vazia
o canto eterno percorre a sombra da mata
mas, lobo, não esquece da alegria.
Ah, lobo, não esquece do passado
que jorra dos vasos a vida passando sola
em que fostes um bêbe sem medo de nada
em que fostes uma criança revolta
Ah, lobo, olha-te à tua volta!
Há lobos correndo em tua escolta
tão precioso que não sabes ser para eles
embora para ti sejas apenas tolo.
Correi da lua o cântico das ondas
num sonho prateado a noite escorre
por pedras e valetas e raízes e vales
e planaltos e planícies que a terra molda
e no descampado enfim o lobo sorre
a beleza do mundo que o engloba
sorrindo porque a vida ainda não cabe
nas correias que o atam à própria morte.
Sorri num único e só ponto obscuro
em que sonho e verdade são sempre iguais;
não há beleza que escape ao seu fogo impuro
ao seu sangue negro escorrendo no mundo escuro.

[26/11/03]

segunda-feira, 1 de agosto de 2005

Hoje os patos estão gritando como porcos

Eu não preciso fazer sentido, preciso?
Hoje eu quero chorar, chorar.
Quero me esconder
e que ninguém me ache.
Vocês não imaginam.
Vocês não sabem o que eu estou sentindo
Espero, pelo menos, que não saibam.
Talvez seja só sono. Talvez não.
Talvez seja só cansaço e a compreensão muito lenta de todas as coisas.

Dói muito. Dói tanto que parece que nunca mais vai doer. Que parece que não dói nada.

Antes fosse apenas saudade. Saudade uma, singular. Saudade da mãe, da cã, do irmão, da amiga. Saudade da cozinha, da cama. Saudade da bananeira, do regato, da onda qebrando na areia. Antes fosse, aliás, antes foi.
Antes, digo outra vez. Antes não é agora.
E agora dói como uma picada assaz muito profunda. Assim no peito. Um fuzilamento a céu aberto. Açoite. Sangue. Mêdo.
Mêdo em oposição a medo, de Medina.

Sinto saudades do mundo como uma vez o vi. Tinha umas asas, uma carranca bonita, velame de fios de couro. E o amor era o que o cão sentia por seu dono e vice-versa. Ninguém ligava para as calças do PatoDonald. As palavras não mudavam abruptamente de significado. Nenhum livro se dizia "o segundo mais lido, depois da Bíblia". Árabe era nacionalidade. Judaísmo era uma religião. Schwazenegger era um robô ou um grávido. Mel Gibson era o MadMax. Etc.
Sinto saudades das histórias, das brincadeiras, dos abraços. Dos amigos que involuntariamente perdi, dos amigos que desisti de manter. Dos amigos que momentaneamente ganhei. Dos amigos que ganhei. Dos amigos que já eram meus. Dos amigos que pensei ter reencontrado. Dos que não vêm mais aqui. Dos que não conseguem mais falar comigo...
Sinto saudades dos primos, dos amigos dos primos, dos jogos, das bobagens. Sinto saudades das histórias que vovó contava, das noites contando piada, dos filmes antigos, loucos e imbecis. As fantasias. O Mágico de Oz. O Pique-bandeira no Berro D'água, verdadeiro jogo de estratégia. Os cavalos. Os cachorros. Os gatos. As mãos.
Fosse apenas saudade, eu não falaria nada.

Acho que não é assim, só.
Tanta coisa aconteceu nessas férias. Tanta coisa mudou... Na verdade, tanta coisa mudou, que quando chego na escola e as pessoas me cumprimentam como se julho não acontecera, me dá um estranho mal-estar, um incômodo profundo, de inconformismo, de desrazão - afinal, como ignorar que eu agora já não sou quem era? Desculpe, não me leve a mal, apenas não fale comigo como se me conhecesse há anos. Eu não existo há tanto tempo assim.
Tenho vontade de dizer às pessoas que não sou mais eu. Que digam aos outros que morri. Me sinto encurralada, presa a tudo, perdida. Tenho vontade de ir embora.

Tenho vontade de fugir deste mundo que acha que me conhece. Porque, do que aconteceu, não vos posso contar a outra metade. Acho que vou voltar ao postulado. No fim, acho que nada daquilo foi verdadeiro.

Tenho medo de dizer mais.

Ademais, te amo. Não posso dizer mais nada.
Quando chegar o amanhã, finge que não me conheces. Talvez traga algum bem...

quinta-feira, 21 de julho de 2005

Sinceridade

Savvy, há alguns meses atrás eu escrevi um texto em minha agenda (e consegui, com muito esforço, lê-lo em voz alta para a pessoa de quem o texto falava) em que eu dizia que seria sincera. Sinceridade... Acho, na verdade, que cometi uma falta: quando amamos sem restrições, quando sabemos o que queremos, é fácil ser sincero. Mas e quando não sabemos? E quando estamos em dúvida, quando pensamos coisas que nunca deveríamos pensar?

Liberdade de pensamento? Hoje?

Ontem à noite eu escrevi um post tão sincero... Me dói saber que nunca o lereis, leitores. Falei, mesmo que apenas nas entrelinhas, tudo o que de terrível me corroía a alma e o coração (mais o coração do que a alma). Falei de tudo, de todos, sem dizer nada a ninguém. Traí-me, lembrei de dias antigos, cantei os sonhos e os risos de outras pessoas. Pela primeira vez, decidi contar o que me afligia. Mas então, numa tremenda sacanagem do destino, o computador deu erro, fechou o programa sem me dar tempo de salvar o texto. Assim, pá-pum. 'Cabou.

Sabe... A palavra sincero me lembra de uma das pessoas mais sinceras que eu conheço... Não a que diz mais verdades, mas a que transpira mais verdades... As pessoas normalmente não deixam que seus verdadeiros sentimentos venham à tona. Isso é tão chato. Tão feio. Tão triste. Uma prisão de sentimentos. Difícil dizer. Mas eu realmente nunca tinha reparado que a palavra sincero me lembra de uma pessoa sincera. Na verdade, ela apenas me lembra Chinchero, que é um lugar que nunca conheci (e talvez nunca conheça).

Acho que eu gosto dessas pessoas... pragmáticas... que conheço... Essas que sabem que não adianta nada ficar refletindo sobre as coisas, que o melhor é agir, simplesmente. Essas pessoas simples, que convivem com o complicado. Eu sou mesmo complicada. Não me incomoda muito. Eu posso pensar, fazer e sentir muitas coisas ao mesmo tempo, mesmo que elas se contradigam. Vou além do duplipensar - chego a um dupliquerer, duplisentir. Me contradigo, sim. O tempo todo. Tento ser racional, e não consigo. Acho que é por isso que é tão difícil ser sincera.

Pausa.

Mas isso não significa que eu tenha dito que não gosto de chocolate. Isso foi invenção de vocês, roedores, lhamas e outros seres estranhos, que ficaram subvertendo o que eu dizia. ¬¬''

Despausa.

Oh, sim, eu sou mesmo Labwa, a rainha-leoa, ou Raksha, a demônia-loba. Oh, sim. No fundo, quem me rege é o medo, a fome e o amor. O resto, realmente, não importa.

Até segunda-feira, quando eu voltar de viagem. Amo todos vocês.

quarta-feira, 13 de julho de 2005

Sem Olhar para Trás

O mais incômodo é que eu vejo os posts antigos e ler mesmo seus títulos já me traz tal agonia que quero fechar os olhos e desligar o computador. Não consigo ler nada que seja anterior ao dia 2 de julho (que foi quando saí de São Paulo).

Quando chegou na casa da Clara, uma das primeiras coisas que a Mysa disse foi "Você está mudado"... Ela disse isso para o Charles, sem conseguir explicar direito o quê. Depois, quando foi me cumprimentar repetiu singelamente a frase - porém no feminino - e eu me senti bastante confundida.

É verdade. Mudei muito.
Mudei tanto que nem posso dizer precisamente quanto mudei. Não consigo, não posso explicar tudo o que sinto de diferente em mim. Antes de receber a terrível notícia, já diria que o mundo havia morrido para mim, e que eu não sabia em que terras pisava. Tudo muito confuso. Muito confuso.

"Não vou dizer que foi ruim
Também não foi tão bom assim..."


Eu diria que parte de mim nunca será encontrada. Estou vazia o suficiente para decidir para onde quero ir. Tenho uma vaga noção do meu destino. Quero aprender e ensinar. Quero meus amigos. Quero ver minha mãe sorrir. Quero a Cajaíba. Quero conviver com a família.

Acho que vou para o sítio. Vai me fazer bem.
Mas não descarto a possibilidade de pegar um ônibus e passar a tarde numa cidadezinha pequena e desconhecida...

Blargh

Eu não tenho muito o que falar, mas eu preciso postar alguma coisa para que alguém comente. Então aí vai:

Não fiquem com dó de mim. Como bem disse um grande amigo meu, "dó é um sentimento que não devia existir". Eu não quero apenas ser consolada e abraçada, eu quero acima de tudo voltar ao mundo real e combater como Tikshi que sou. Ele também disse que "a inocência é um crime", que é outra coisa com a qual eu concordo. Nunca poderemos estar livres de todos os pecados. Alguém disse que a união mais forte e eterna é o ódio, e eu achei bastante lógico, mas sem importância.

Comentem.

PS.: Eu acabei de me dar conta de que Raksha, em hindu, é demônio. Estou começando a achar que fui corrompida, oras...

terça-feira, 12 de julho de 2005

Num momento tão confuso, você me vem com essa de ir embora...

Meus sentimentos em ebulição.
Meus sentimentos fervendo, fervendo; e no meio dessa ebulição, no meio dessa sublimação, de repente, de repente...

Minha mãe chorando, meu vô chorando, todos eles. A Tamy. O Clayton. O Ma, o Gabi e o Pedro irmãos de luto. E eu luto. "Não segure nada", diz a Rê me abraçando; às vezes eu posso ter muitas mães. E eu preciso. Saudades da Ada (olhos vermelhos), do Max (abraço forte), do Urso (sorrindo, a vida). Inúmeras flores. Filhos. A vida inteira.

Ainda não entra na minha cabeça.

Acho que entendi porque a morte é tão absurda e misteriosa. Ninguém consegue aceitar quando algo muda tão brusca e irreversivelmente a nossa vida. A gente não consegue entender, nem atinar com nada. Se eu acordar amanhã, posso achar que foi tudo um sonho. então vou olhar pro meu calendário, e saber que não. Ninguém consegue compreender que certas coisas não podem se repetir.

O que a Giu e a Carol vão dizer? E pensar e sentir?

O anel que tu me deste era ouro e se quebrou.

...

"Ela está na liberdade", disse a Vó (agora vocês já sabem qual), e eu pensei na liberdade e o sol e céu iluminado e azul e flores e árvores e o gramado e pensei que ela estava num rio no Pantanal. A liberdade, o que mais ela poderia querer?

...

Minha vó morreu ontem de manhã.

Uma porção de netos (nem todos de sangue). Uma borboleta voa livre. Heróis árabes atravessam o deserto dos meus pensamentos em camelas velozes brandindo cimitarras furiosas; um cavaleiro negro conquista vales e montanhas e pedras como as de Minas.

Na verdade a Vó era mineira.

Um lobo pela noite persegue e devora a caça que grita, Grita, GRITA! Seus dedinhos quadrados, suas histórias pra dormir e de repente, de repente...

E a Carminha? E o Tute? E os cachorros? E todos os que dependiam dela?

"Tem dias em que o mundo fica escuro
Tem dias em que o céu,
por mais que azul profundo,
Pára, estanca, acinza e fica mudo
Cála quieto.
Tem dias em que o vento não ousa balançar as àrvores
e elas apenas soluçam com a brisa, num murmúrio.
Tem dias em que a gente morre.
Todo dia gente morre.
Mas às vezes dói.
Dói muito mais.
Tem dias em que Deus,
por mais que céu e mundo,
é aquele que segura a mão
que estendemos.
E o tempo não corre."

Meus primeiros pensamentos quando olhei pela janela do hospital.
E a gente ri porque a vida continua. O Ennzo brincando com a vaca.

Eu não sei porque a Vovó estendeu a mão a Deus, deixando-nos no chão. Acho que ela sabia que a gente era forte. Que ela podia... Acho que ela nunca se importou tanto com ela mesma. Ela vivia para os outros. Acho que "alguém lá em cima sabe o que está fazendo. Tem que saber", disse minha mãe. Agora eu sei que a família vai estar em volta dela. Minha mãe sempre foi assim.

Meus olhos doem.

Essa onda não volta mais.

Meu coração não sabe onde bater; estou perdida. No meio dessa ebulição, dessa sublimação, alguma coisa me faz perder meu norte e me agarrar à Terra. Promessas, rezas, nada foi em vão.

A bem da verdade, minhas últimas rezas foram de negação do que o coração já sabia. Antes de sair de casa, o último pedido a Deus foi de que desse forças à minha mãe e aos meus tios para cuidar de minha vó e para sobreviver, a isso, a ela.

Dedos de demônio apertando minhas costelas no desejo de um pecado.

Uma canção de ninar.

Um chocolate; O Mágico de Oz, jogo do palito, xadrez, valsa, tudo o que ela me ensinou.

Um Pégaso voando no vento, tocando as músicas da rádio Eldorado.

Uma voz doce que eu nunca mais ouvirei, chamando nossos nomes...

quinta-feira, 30 de junho de 2005

Cavalos Negros

Você já teve aquela sensação de que quem comanda a sua vida não é você? Pois é. Nestes últimos dias, tenho tido a impressão de que a consciência e a razão não me servem de nada. Quem controla minhas ações durante o dia não são vontades razoáveis do intelecto nem lógica nem sensibilidade. Sou, é verdade, dominada por substâncias químicas. Quem me controla agora é o corpo.
Na verdade apenas obedeço aos impulsos autoritários do estômago (e dos outros sentimentos da região abdominal, com o qual dividem espaço): meu corpo diz Coma carne! e eu como carne; meu corpo diz Durma! e imediatamente dormir é a única coisa da qual me acho capaz de fazer.
Ultimamente meu corpo tem dito para eu encher menos o prato (talvez um reflexo de estar fazendo menos esportes e, conseqüentemente, gastando menos energia), mas é dificílimo lutar contra hábitos alimentares... Mas estou tentando, estou tentando...
O curioso é que nunca eu realmente considerei uma coisa ruim essa inversão de papéis. De modo geral meu corpo tem consciência de quanto tempo eu posso ficar fazendo trabalho da madrugada quando deveria estar dormindo - se eu apenas seguisse as ordens da minha mente metódica e racional, perderia preciosas horas de descanso e não conseguiria manter-me em pé durante o dia seguinte... Meu corpo também sabe que às vezes eu simplesmente preciso comer folhas brancas de alface, às outras é mister um café da manhã reforçado, periodicamente é indispensável alguma atividade física, etc.
Mas nem tudo são flores neste mundo ventral: outro dia, sentia uma fome quase despropositada, e tão intensa que não conseguia pensar em pegar pratos ou qualquer outra coisa, via a comida e agarrava-a em minha boca como um macaco em jejum; quando tento me dedicar a aprender, exaspero-me fàcilmente e só uma força de vontade sobrenatural faz-me persistir na empreitada; ler não consigo, quando começo paro de frio ou fome ou sono. Como se não bastasse não contenho irritação, raiva, desânimo, inquietação, distração e desespero sem sentido (pelos quais, aliás, gostaria de pedir algumas desculpas...)!
Minhas emoções estão mais vagas que nuvens, mas intensíssimas: não raro choro vendo filmes toscos ou seriados repetitivos. Apenas fico feliz que eu possa ver o Yuri quase todo dia, porque ficar sem ele verdadeiramente dói, e dói mesmo, uma coisa totalmente diferente do que eu estava acostumada.

Minha única explicação para isso é alguma desregulagem total dos hormônios - ou talvez (e essa possibilidade me assusta um pouco), talvez tudo isso seja um pouco normal, dada a minha idade, o meu estilo de vida e a minha situação atual (tudo o que está acontecendo no momento...)
Seja como for, o corpo e a mente se batem furiosamente tentando realizar cada um o seu ideal. Meu coração de criança continua incansável a bombear sangue, alheio à zorra total... Mas, às vezes, um de seus impulsos mais profundos confunde-se com algum sentimento ventral e desabo em reflexos e mágoas que o espírito humano não pode conceber. E o espírito, o vento soprando nas rodas deste carro romano? Não sei, não o vejo. Não vejo nada.
Open eyes.

sábado, 25 de junho de 2005

Eu não sou poeta

Eu sou poeteira
Eu sou cã de rua
ave poedeira

O que o poeta faz
é poetizar
Eu faço poema
sem romantizar

Poeteiros pôem
idéias no chão
pra nascer no barro
sua motivação

Eu não sou poeta
mas sei poetar
Sei pôr vida em verso
por verso falar

Faço rima sim
Ritmo qual baião
pra gente guardar
como uma canção

Mas faço também
verso livre, louco
Para desvairar
ao menos um pouco

Aqueles que acham
que todo poema
é só poesia
e independe o tema

verão-me na vida
latindo faceira:
Poetas do mundo,
eu sou poeteira!

Para todos aqueles que poetam sem discrição.

sexta-feira, 24 de junho de 2005

Ahem

Agora que eu já li muitos blogs, e enchi a cabeça de idéias e frases pra lá de esquisitas, acho que convém falar alguma coisa. Falar? Falar da boca. As palavras escorrendo lânguidas através da língua, dos dentes e dos lábios. Descubram a diferença entre farpa e pharpa, por favor. Mas não sobre isso. Pela primeira vez entendi a idéia de navegar na internet. Quer dizer, antes do advento dos blogs não havia lá muito sentido em ficar saltando de um site para outro, sem rumo, sem objetivo, até a conexão cair. Mas agora, ah, sim, agora tudo faz sentido!
Debaixo da frondosa castanheira
Eu te vendi e tu me vendeste
Nós aqui estamos e eles aqui estão
Debaixo da frondosa castanheira
Agora sim. Como deve ser. Existencialistas com suas existências, absurdistas com seus absurdos, dadaístas com seus cachorros, mas todos conectados através da fala, do pensamento, da importância de suas vozes unilaterais dialogando eventualmente com seus inimigos. A blogosfera é um lugar deveras fascinante: é só entrar num site e seguir os links de citações (isso foi uma tentativa de evitar um anglicismo dispensável) e chegamos ao seu exato oposto. Curiosíssimo.

É realmente uma pena que a moça de Osasco que eu acompanhei da Fonseca Rodrigues até o colégio (ela queria chegar no shopping) não possa absolutamente participar desse ciclo. É terrível que pessoas tão, assim, semelhantes a nós, não possam juntar-se a nós no nosso coro cacofônico a favor da liberdade... Liberdade? De novo a pergunta: "Democracia, hoje?" Parece piada. Acho que é. Somos todos rês desgarradas. Terrivelmente o grupo que pode se exprimir por letras virtuais não é um retrato ideológico da sociedade, mas um retrato imbecil da ideologia.

Preciso deixar a Klu dormir. Pensaremos nisso depois.

Para os inconformados: Sim, eu acho que minha opinião É importante.

segunda-feira, 20 de junho de 2005

Relembrando

19/5/2004

Foi um fim-de-semana perfeito. E eu sei que eu não sou a única que pensa assim. Sexta-feira foi tudo. Nunca vi. Foi dia santo, fora de série, desses que compensa e justifica o resto do bimestre inteiro. A hora do almoço foi, indubitavelmente, uma zona. Confusão dos diabos. Erros, desencontros, milhares de mal-entendidos. Finalmente uma decisão, daquelas tomadas dopando metade do cérebro. Corrupção no mundo sem lei do inconsciente humano...
A pati daí foi sussa. Fomos almoçar na cantina, e o Pedro Lopes apareceu com a namorada dele, Raquel(que btw é muito, tipo, 'Par Perfeito' dele... ); convesamos com uma pá de gente... Fomos para o Comênius, e foi muito divertido, fizemos pão, brincamos, falamos bobagens até; na volta sentamos no fundo da perua, idioticamente. Chegando, corremos(ou melhor, eu corri — não vejo como o Yuri faria isso tb, dadas as cicunstâncias) por cima do Artur, que estava me segurando, fomos meio correndo até a marginal, andamos apressados até o cinema do Villa, ligando para o Pedro no caminho, pegamos nossas entradas e entramos no começo do filme, ouvindo um resumo resumido do que havia acontecido. Diários de Uma Motocicleta... Filme animal! Saindo de lá encontramos o Paulo, por acaso, e ficamos meio sem rumo, Pedro e Raquel foram-se embora, andamos muito, fomos na Hi-Happy, conversando sobre brinquedos de infância, Pica-Pau e outras bobagens; rodamos várias vezes o primeiro andar antes de pararmos na Gelateria Parmalat(cara mas deliciosa... hmmm... — a Lubs encontrou um amigo, o Márcio e a Lygia surgiram do nada, junto com o MF e mais alguém. E ficamos ali, enrolando, eu não tinha dinheiro mas o Yuri me emprestou uma Taça(três bolas com direito a cobertura por R$6,75), e ficamos os quatro — Diogo, Dobby, Yuri e Eu — jogando conversa fora e tomando sorvete devagar, tínhamos a vida inteira pela frente mas nenhum momento parecia mais perfeito para tão simplesmente desfrutar da amizade como uma coisa pura, excessivamente risonha, no meu caso.
Finalmente, chegaram as 19h30 e eu sabia que mamaecs estava chegando logo, então eu levantei, jogamos os copos no lixo, mas eu não queria ir embora, eu podia passar mais uma semana ali falando bobagem; aí eu atendi o telefone e falei rápido e peguei a mala e mal dei tchau para todo mundo(havia muita gente) e tive que ir sem beijo nem abraço entrar no carro, tchau, good bye, alfwiedersen, e a mãe ainda me reclama que eu não apresentei... ¬¬'' Awf...

Chegando em casa houve só banho, se arrumar quase pressa, fomos pruma festa, cover dos Beatles, na veia, música boa, coca-cola com limão e dança louca mas sem desespero, não. De novo, encontrei o Paulo(parece que eu o encontro em todo lugar, não?). Mas já estávamos da saída, aliás, o Marco e o Bruno tinham ido embora com minha mãe. Eu e a Lú saímos de lá com a Ana e o Olar, muito em ritmo de balada, torcendo para Satisfaction começar a tocar do nada...

"Curse me
and then just hurt me
till I can get my
satisfaction"

[para quem não conhece a música ou não curte balada isso deve soar como uma coisa porca, sem sentido... Mas é genial, va...]

Fomos até o Refugo Afastado conversando sobre balada, foi tudo. Chegando lá descemos para a cozinha fazer sanduba de queijo derretido e subimos para assistir The Beatles - The First U.S. Visit, e o filme parecia bom, mas o sono foi MUITO mais forte, e deixamos para outra hora.
Acordei com a imagem definitivamente inesperada de um cara fazendo snowboard na tela da TV. Fingi que 'tava dormindo, passou o Olar, conversou um pouco, o Bruno chegou a jogar uma ou duas vezes, até deixar o controle para mim. Dei-o de volta para Lú, ela estava tão empolgada! Passamos a tarde inteira nessa de 1080Snowboard. Só à noite, quando quatro mil pontos já estava realmente sem-graça para ambas, é que paramos paa ver o vídeo com a Ana Cíntia e o Olar. Foi perfeito.

quinta-feira, 16 de junho de 2005

De novo

Eu só estou postando aqui para inaugurar meu novo template e agradecer ao Bruno, que basicamente arrumou ele pra mim, e aos caras geniais que inventaram Blogger, Mozilla Firebird e as simpáticas cores yellowgreen e greenyellow!
Não sei se vocês notaram, mas as margens estão maiores, as cores estão diferentes (tá, isso eu sei que vocês notaram), alguns textículos foram ""traduzidos"" e eu pus uns poucos links a mais na lista de links, caso alguém se interesse.
Afinal, amanhã é sexta e o semestre "acaba" em dois dias. Boa sorte pra todos vocês!

A Lôba

terça-feira, 14 de junho de 2005

Just passing by

"Estou de saída. Sonhei hoje três horas e pensei Não, não será hoje que ficarei aqui mais um dia. O sol me enganou, meu fez pensar que era noite, mas não era: era manhã. Acordei apenas para dizer que hoje, debeixo do sol, aqui não fico mais. Se tivesses qualquer idéia do que me passa pela cabeça quando me levanto manhã bem cedo entenderia, preciso de mais água, preciso de mais ar e não preciso que me roubes todo o que respiro indecifravelmente. Vou-me agora - tua mãe pensará que tive algum bom motivo mas sabes que qualquer bom motivo seria apenas boa desculpa. Não não. Hoje não vou dar desculpa. Nenhuma, ouviste, nenhuma mesmo. Vou-me embora e é só. Passei aqui, é verdade, apenas para não deixar passar por vós que fui. Na verdade não passei aqui por motivo algum. Não me venha com tolices, minha partida nada tem a ver contigo ou com teus bedelhos. Vai e dize a alguém que estou de partida. Que nunca mais hei de voltar. Tenho no bolso o carinho que me haveis dado, estou então tranqüilo. Apenas não posso ficar. Não pedirei eu que lembres de mim mas digo ainda que sentirei de ti saudades. O mundo e o tempo me engolirão a cada vez que eu ouvir teu nome. Mas agora estou-me indo. Dize aí, alguém, que hoje eu passei por aqui e te dei um beijo, um beijo assim sincero, dize a alguém e dize que fui-me embora. Se amanhã não se souber de mim, ah se amanhã não se souber de mim, saberás então que fui feliz."


Posso falar? às vezes começo a escrever e coisas realmente estranha me vêm à mente. Esse tipo de coisa me dá um pouco de medo, porque temo que alguém resolva achar relação com a vida real. Mas acho que esse tipo de coisa eu faço, e não devia.

Bom, agora eu não tenho mesmo nada a dizer.

Boa noite, amiguinhos.

sábado, 11 de junho de 2005

Cara, como a vida é curiosa...

E extremamente divertida, note-se.
Hoje foi um dia muito bom
E eu estou muito feliz
E eu vejo um futuro engraçado nesse mundo naturalmente misterioso e sombrio
e fundue de chocolate é uma delícia...
e a vida está sempre além das nossas expectativas
o que importa é que estamos bem
stamos em pleno mar
como já dizia meu velho amigo Castro Alves
o poeta
o poeta é um fingidor
finje tão completamente
que chega a fingir que é dor
a dor que deveras sente...
quem escreveu isso?
A vida é curiosíssima
É fácil se surpreender
e ficar feliz, sorrir
apesar de tudo.

domingo, 5 de junho de 2005

Sonho de Poeira Seca

"E a gente vai levando, e a gente vai levando..."

Hoje eu tive um sonho.
Ouso dizer que foi um sonho comum. Mas comum de uma forma estranha.
Não custa dizer que é raro que sejam meus sonhos loucos agradáveis.
Eu tinha onze anos e mal sabia chutar uma bola. Não no sonho, na realidade. No sonho foi ontem. Ou hoje. Como se sabe, os sonhos estão fora da linha cronológica. A dor e a satisfação foram de agora. E o remorso, quando parei para pensar.
Eu gosto de vôlei e sou apaixonada por handball, mas o futebol é realmente a minha vida. Não que eu queira seguir carreira. Nem no basquete que eu adoro.
Foi no futebol que descobri que eu era simplesmente uma Defesa. E me orgulho muitíssimo dos dois franquíssimos gols do último jogo naquela goleira mal-começada da qual eu sentia uma inveja profunda (eu jogo bem melhor que ela, bah!).
Mas voltemos ao sonho.

Não sei bem. Lembro de um sofá no qual eu estava tricotando concentrada.
Ponto. Ponto. Ponto.
Ontem o Bruno nos convidou para ir ver Guia do Mochileiro das Galáxias. Não no sonho, na vida real. Seria estranho num sonho. Me senti meio mal por não querer ir.
Ponto. Ponto.
Mas a verdade é que não quero ir a nada.
Ponto. Ponto. Ponto Ponto Ponto Ponto Ponto.
Queria saber ficar amiga do Bruninho, do Lucas, assim, do nada.
Ponto Ponto.
Acho que do Bruno também. De novo. Vou pegá-lo no msn, perguntar "você gosta de música irlandesa? E Dishwalla?" Adoro Dishwalla. Vou rir e fingir que não te conheço. Na verdade não conheço mesmo. Tavas não existe, embora Kristalian sim. A diferença é insutil. Dizer Love ya eu não tive coragem.
Ponto.
Queria poder dizer que depois de ficarmos amigos com o olhar ficamos amigos no sentido completo da palavra, mas isso nunca aconteceu.
E eu sinto uma saudade imensa de você, com quem nunca peguei um cinema, um sol na praia, uma rolé de bike. Na verdade eu queria ter escrito exatamente o que ele escreveu.
Ponto. Ponto.
Tive inúmeros amigos de olhar, e de certa forma sabemos que somos amigos, mas não sabemos quase nada um sobre o outro, e nunca saímos juntos, não vamos aos mesmos lugares. Aí, quando nos cruzamos e nos cumprimentamos como se sempre tivéssemos sido amigos (o que não é bem verdade), meu coração se enche de uma alegria estranha, que desvanece rapidamente quando nos afastamos sem nada a dizer. Fantástico.

Voltando ao sonho, atrás desse sofá, que era com certeza nosso velho sofá pseudo-marrom antes de inventarmos aquela capa azul (só que muito mais comprido), havia uma espécie de corredor esquisito e uma porta, que ficava meio que à minha esquerda que na verdade é a tua esquerda porque estamos vendo a cena de frente.
Atrás de mim, a Puca passou pelo corredor em direção à porta. Quando ela parou diante da porta e falou comigo eu virei para ela e a vi.
Ela tinha qualquer coisa nos braços, segurava essa qualquer coisa como um bebê, mas não acho que era um bebê, não sei o que era.
Me perguntei se ela ainda estava namorando o Rê.
"Perder brinco no carro tudo bem, o problema é perder outra coisa", dissera a Ada.
Ou fora minha mãe? Não no sonho, na vida real.
Não me lembro do que a minha prima falou, no sonho. Me lembro da cara dela. Os anos de afastamento se refletiam com uma certa raiva misturada com deboche. Talvez desprezo, talvez indiferença.
Na verdade eu não faço idéia de se ela até mesmo pensa nisso.
Eu sei que eu penso.
E imagino que não seja só eu.
Às vezes esqueço que nossas vidas já foram diferentes.

O que aconteceu depois que minha prima entrou pela porta eu não me lembro. Sei que fiquei um pouco frustrada porque não podia acompanhá-la porque minhas mãos estavam ocupadas com o cachecol colorido.
Mesmo sonhando, percebi que, na verdade, eu poderia simplesmente abandonar o tricô e acompanhar aquela moça que diga-se de passagem já é tão adulta quanto minha irmã.
Me pergunto o que significará ser adulto. Será que elas o são? Acho que sim.
Será que o cachecol é uma metáfora para Yuri, Mamãe, Paulinha, Gabi, e todas essas coisas que existiam apenas de uma forma totalmente diferente no tempo em que esse primos iam conosco para Cajaíba? No tempo em que essas pessoas com quem eu quase não falo eram meus melhores amigos? No tempo em que meus irmãos eram as pessoas mais importantes da minha vida?
Eu contrariei o Artur e li O Dia do Curinga.
O mais notável disso é que ter contrariado o Artur é mais importante que ter lido o livro. E minha irmã ter achado o livro muito bom é mais importante do que eu tê-lo devorado em três dias, por aí.
Eu devia formar minhas própias opiniões.
"Um bobo da corte, que a engrenagem do tempo é incapaz de engolir, caminha pelo mundo."
Não diria que o livro levanta montanhas.
Afinal, por que todas as pessoas que crescem se tornam babacas? As pessoas que eu conheço não são assim.
Talvez seja só uma desculpa esfarrapada dos escritores adultos para finjir que existem coisas fantásticas e que só não sabemos delas porque os adultos não têm coragem de contá-las.
Quer dizer, eu nunca vivi coisas impossíveis quando era criança.

Na segunda cena que me lembro do sonho, estava com o Yuri em algum lugar árido.
Era um lugar muito seco, com uma terra vermelha como a do chão do Tangará ou do Sítio Passuaré; tenho certeza que era uma cor da minha infância. O mais estranho era que a terra se estendia nua por quilômetros em todas as direções, parecia não haver nada sobre a terra além de nós dois, a atmosfera e aquela poeira marrom-vermelha.
Sobre nós deveria haver um céu infinito azul-profundo, da cor que o céu parece ser quando faz um sol de matar e até a terra parece suar; mas acho mais provável que se estendesse aquele céu vermelho da poluição que eu vi naquele dia no Tatuapé - combinaria mais com a situação, se é que vocês me entendem.
Mas a verdade é que eu nem olhei pro céu.
Fiquei olhando pro Yuri, pro seu rosto macio, seus olhos sua boca; talvez eu esteja viajando demais, mas acho que de certa forma substituí o céu pelo Yuri. Em vez de olhar pro céu azul para me encontrar, me encontro no azul dos seus olhos. Meu Pégaso de Luz.
"Se importa se eu te chamar de Pégaso?", eu disse com um certo medo, como sempre. (Não no sonho, na realidade, há uns dias atrás). Mas poderia ter sido no sonho também, só que não teria nada a ver.

Depois aquela paisagem se modificou um pouco: primeiro apereceu o mar, escuro e profundo quente, cheio de ondas bravas. Depois as cercas de alguns campinhos de futebol, a princípio vazios e sem gols, mas isso não importa. Haviam pessoas aqui e ali, alguns jovens, algumas crianças, separados por curtas distâncias que pareciam ser infinitas (no sonho, uns quarenta, cinquenta metros - mas lembrem-se que eu não sei medir distâncias).
Em algum lugar havia um círculo de areia como aquele do parquinho do Clube Pinheiros. Pequenas famílias conversavam ou brincavam em pontos isolados.
Havia uma árvore.
Eu e minha irmã (ou pelo menos acho que era minha irmã) começamos a brincar, subir na árvore. Houve várias cenas nessa parte, mas não me lembro do que aconteceu nelas. Depois, quando deveríamos ir embora (ou pelo menos era o que nossos amigos estavam fazendo), resolvi subir mais alto ainda, e minha irmã acabou me acompanhando, quando eu mostrei que não tinha perigo, e que eu ia mesmo.

Mas havia uma parte do sonho, entre a Puca e o Yuri, que se passava num lugar estranho, estabelecimento entre casa-venda de Paraty e bar de Paraty-mirim onde bebíamos garrafas de coca-cola antes de embarcarmos num pó-pó-pó barulhento pelo água escura.
Nebuloso, misterioso, parece que uma peça importante do jogo está faltando, e vai continuar a faltar.
Acho que até a Ada estava lá.
De qualquer forma, houve uma parte do sonho em que a Ada apareceu, mas não consigo lembrar.

Subindo mais alto na árvore fomos encontrando umas plataformas esquisitas de madeira (a madeira ali era quase da cor do chão, marrom, assim, mas menos avermelhado), basicamente uma tora comprida de pé com um quadrado apoiado em cima. Elas formavam uma espécie de escada com degraus enormes, mas havia algumas com o quadrado inclinado nas quais não conseguíamos subir. Enquanto íamos para cima por aquela escada estranha, percebemos que havia paredes à nossa volta, e que estávamos entrando numa casa.
Além de plataformas e paredes, na casa de madeira marrom-vermelha também havia pneus, e ocasionalmente marcas de giz apareciam meio apagadas nos pneus, nas paredes ou nas escadas.
Chegamos na parte mais alta da casa que ficava ao lado da grande e velha árvore (muito grossa, aliás). Lá no andar de cima, encontramos uma porta meio pequena, que dava para uma sala pouco maior que meu quarto, eu acho, era uma sala de aula.
Acho que encontramos o professor, ou diretor da escola (não estou certa), dentro da sala, porque não estava conosco antes. A primeira coisa que notei ao entrar ali foi uma daquelas plataformas inclinadas que havia no canto da sala, logo ao meu lado esquerdo. Um pneu havia sido pendurado nela como uma moldura, e pequenos apagados círculos de giz em vermelho e amarelo faziam perceber que as plataformas eram usadas como uma espécie de mini-quadro-negro. A pequena sala de aula tinha dois quadros negros grandes e opacos nas paredes do fundo e da esquerda. Na parede da direita, acho que haviam algumas janelas, das quais se podia ver os galhos da árvore velha lá fora. No meio havia algumas carteiras, que acho que não chegavam a dez, viradas de costas para a janela, numa disposição meio bagunçada; e ao longo da parede mais comprida havia uma mesa longa e estreita, de frente para as mesas dos alunos, com uma ou outra coisa esquecida um cima.
Essa disposição de alguma forma me remeteu ao laboratório do médico maluco das histórias do Mickey Mouse, mas minha mente confusa não consegue se decidir sobre se havia ou não uma quantidade de vidros cheios de líquidos de cores estranhas e vivas (contrastando furiosamente com a coloração natural do lugar) sobre a mesa comprida.
Acho que seria interessante e bonitinho se esses vidros estivessem ali, mas não teria sentido nisso.

Enquanto o diretor explicava coisas a que não demos a menor importância sobre a escola, decidimos sair dali, e tenho a impressão de que nossa saída eleita foi pela janela.
Isso me deu um considerável medo, já que estávamos num lugar razoavelmente alto, mas de qualquer forma não havia como descer sem saltar de uma grande altura (uns sete metros, eu diria). Obriguei meu corpo a saltar e, como em sonho nem todas as partes da história têm de fazer sentido, caí suavemente sobre o chão como se tivesse saltado de um sétimo da altura verdadeira. Dali, fomos até uns campos de futebol, onde um grupo de rapazes morenos do sol daquela terra vermelha jogavam como os ribeirinhos da Amazônia. Queríamos jogar com eles, mas eles não pareciam muito interessados, então a Milla foi e entrou no jogo não sei muito bem como. Ninguém entendeu direito; de qualquer forma, depois de ela entrar não havia maneira de empurrar mais um sobressalente para a partida.
Continuamos ansiosos assistindo a disputa rolar agilmente entre os corpos dos jogadores. Nesse meio-tempo, alguém inventou uma bola e resolvemos começar uma partida nossa no campo em que estávamos, que era menor e mais gordinho, mas era um campo.
Dividimos nossos times sem esquema e meio por instinto. O que aconteceu é que de repente algumas pessoas estavam chutando a bola pra lá e outras para cá.
O mais estranho é que o meu time tinha três pessoas, enquanto o outro time tinha uns conco, e ninguém sequer viu qualquer problema nisso. Na verdade talvez não houvesse problema mesmo, porque nós ganhamos, assim como eu, a Marie e a Kiki sempre ganhávamos naqueles jogos contra a classe inteira, no ginásio.
O jogo começou comigo no gol, e acho que a Maria, o Marco e a Ana C tentaram me golear mas não deu certo, eu defendi. Depois, sem explicação, a Ana tomou meu lugar no gol, enquanto nós tentávamos convencer os jogadores do outro jogo a se juntarem a nós enquanto eles nos devolviam a bola, que com violência chutáramos para fora.
Disso resultou que a Camilla entrou para o time adversário, e agora minha missão de vida era impedir a Marie e a Camilla de chutar a bola no gol, como era, de modo geral, quando jogávamos futebol nas aula de E.F. do ginásio e eu e a Marie estávamos em times opostos.
Finalmente eu resolvi ir para o ataque, assim como fiz quando comecei a jogar na FUFEI e, mais tarde, no treino de futebol, e dominar a bola (coisa que nunca fiz), mas aí a gatinha começou a se mexer mais na minha cama e eu acordei.

Estou com um baita sono, e fiz mais de vinte fileiras de cachecol durante hoje... aff...